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LISBOA
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DIÁLOGOS
DE DOIM FREY
AMADOR ARRATZ,
BISPO DE PORTALEGRE :
REVISTOS, E ACRESCENTADOS PELO MESMO
AUTOR NA SEGUNDA IMPRESSÃO.
NOVA EDIÇÃO.
LISBOA,
NA TYPOGRAPHIA ROLLANDIANA.
184G.
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PROLOGO DO EDITOR.
JlJ. Fr. Amador Arraiz (l) foi natural de Beja (2) ,
e íillio de Siínao Arraiz. No Convento dos Carmelitas
calçados da Cidade de Lisboa tomou o habito a 2i de
Janeiro de ló45, sendo o primeiro Noviço no Collegio
de Coimbra, e o primeiro também que ahi fez ])rons-
sào aos 30 ou 31 (3) do dito mez no anno seguinte.
Estudou Filosofia e Theoloíçia , que com grande np-
plauso dictou assim aos seus , como aos Cónegos Re-
gulares de Santo Agostinho de Santa Cruz de Coim-
bra. Na Ordem só teve o emprego de Reitor do Col-
Jegio de Coimbra, de que tomou posse no anno de
1574, sendo o quarto que o governou. Como insigne
no Púlpito o fez o Senhor Rey D. Sebastião Pregador
da sua Real Capella , e pelo conhecimento de suas
virtudes e letras o nomeou o Sereníssimo Cardeal In-
fàfíie D. Henrique seu Coadjutor iio Arcebispado de
Évora, e confirmado por Rulla do Papa Gregório XIII
aos 23 de Julho de 1578 com o Titulo de Bispo Adru-
mentino, depois mudado no de Tripoli, foi sagrado
no Convento do Carmo de Lisboa ])elo Capellfio Mor
D. Jorge de Ataide , c quando jurado Rei o mesmo
Sereníssimo Cardeal Infante aos 28 de Agosto de 1578,
o nomeou seu Esmoler Mór, (4) e deixando-o encom-
mendado no testamento a seu .Successor , este o man-
(1) Nicoláo António e Fr. Cosme de Sanlo Estevão accres-
centão-Ihe o appellido de Mendoçii , que não teve.
(2) Marco António Alegre de Casanate e Hyppolito Marra-
rio enganosamente dizem ser natural de Coimbra, que só llie
suecedeo em lugar de pátria, como diz o mesmo Avraiz no Dia-
logo 10, cap. 85 no fim.
(3) Fr. Manoel de Sá traz o dia 30 , Diogo Barbosa Macha-
do e outros o dia 31.
(4) Marangonio equivocadamente o cliama Capellão Mór.
•;^ 2
IV PROLOGO DO EDITOR.
dou continyar na occupaçao , que exercitou ainda nas
Cortes de Thomar celebradas em Abril de lõ81. No-
meado por D. Filippe lí para o Bispado de Portale-
gre (ó) aos 30 de Outubro de 1581 , e confirmado pelo
Papa Gregório XIII , do mesmo Bispado tomou posse
por Procurador em 23 de Janeiro de 1582 , mas senti-
do do seu Cabido pela desattenção d'uma demanda
renunciou o Bispado , e se retirou para o Collegio de
Coimbra, onde morreo no primeiro de Agosto de
1600, sendo se])ultado na Capella Mór.
Com ingenuidade, bem rara, declara Arraiz no
Prologo assim da primeira (6) , como da segunda im-
pressão, ter sido seu Irmão o Doutor Jeron} mo Arraiz
o inventor da Obra, que elle somente apurara e am-
pliara com todo seu cabedal e estudo a outro lim diri-
gido. Todos os Diálogos são dignos da maior estima-
ção por sua proveitosa doutrina , sendo admirável o
decoro , que soube guardar , accommodando a cada
huma das pessoas discui^sos tao próprios , e sentenças
tão dignas delias , e convenientes a suas prolissões.
O estilo he puro , nobre , e castigado , bem e de-
corosamente ajustado aos diíTerentes assumptos , que
se propõe , distincto pela copia de palavras e subtile-
za das metaphoras e allegorias, e na maior parte ale-
vantado e magnilico , principalmente nos Diálogos -4. °
A Obra lie de si mesma o elogio , e do Autor na-
da se pôde dizer que ella melhor não declare , por se-r
rem os escritos o retrato mais parecido de cada hum ;
ínas querendo-se noticia do que a seu respeito se es-,
creveo , amplamente se acha nas Memorias Históricas
de Fr. Manoel de Sá, na Bibliotheca Lusitana de*
Diogo Barbosa Machado, na Bibliotheca Carmelitico-
(5) Manoel de Faria e Sou?a na Furopa Portugiieza e na
Epilome o diz Bispo de Leiria, que náo foi.
(6) Em Coimbra, em casa de António de Mariz, Imprcg-'
sor, aaao de iòbO.
PROLOGO DO EDITOR, t
Lusitana, o no Catalogo dos Autores cm principio do
Diccionario da Lingua I^ortugueza publicado ])ela A-
cademia Real das Sciencias.
Empregou-se toda a diligencia nesta impressão pa-
ra ser em tudo conforme á segunda , por haver sido
reformada e accrescentada pelo Autor com avantajada
perfeição; mas confrontou-se sempre com a primeira,
como mais correcta, e a ella sào devidas, se nào to-
das, a maior parte das alterações que nesta nova edi-
ção se fizcrão , e que vno apontadas no íim da Obra.
Nos competentes logares indicamos á margem as
folhas e columnas da segunda edição , a fim de se po-
der fazer uso do índice das Matérias que delia se
trasladou em utilidade dos Leitores.
frontispício da segunda edição.
DIÁLOGOS
DE
DOM F R E Y
AMADOR ARRAIZ,
Bispo de Portalegre :
REVISTOS, E ACRESCENTADOS
jpelo mesmo Autor nesta segxmda iinpressâo^
EM COIMBRA.
Na Officína de DIOGO GOMEZ LOUREYRO
Impressor da Universidade.
Com Uceiíça do Saneio Officio , ^' Ordinário ,
cj^ Privileyio Real,
Anno do Senhor de AI. DCIIII,
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LICENÇAS.
Xlo Doutor Frey Angelo Pereyra, que reveja estes Diálogos,
&. informe com seu parecer. Em Lisboa a o. de Outubro, de
IfiOO.
Marcos Tcixcyra» Ruy Ph da Vcyga.
XVevi estes Diálogos com a devida diligencia, & nam acliey
nelles cousa algua contra nossa Sancta Fè Catholica , nem con-
tra os bõs costumes, antes muyta , & rara doutrina, de que
muvtos se podem aproveytar, & assi me parecc^m dignos de se
imprimirem. No Carmo de Lisboa. 6. de ISJovembro, de 1600.
Frcy Angtlo Pereyra»
V ista a informação podem se imprimir estes Diálogos, & de-
pois de impressos tornem a este Consellio, pêra se conferirem
com o Original, & se dar licença pêra correrem. Em Lisboa,
a 7. de Novembro de 1600.
Marcos Tcixeyra. Bcrtolamcu da Fonsequa, Ruy Pi% da Feyga,
X^odese Imprimir este Livro, vista a licença que se offerece
dos Deputados do Sancto Officio. E por ser visto na Mesa.
Em Lisboa a 9. de Novembro, de 1600.
Fonsequa» Damião Daguiar,
! AO BISPO DOM GEORGE DE ATAÍDE
CÕMENHATAUIO PEKPRTLO J)0 MOSTEYRO 1)' ALCOBAÇA , CAPrLI.ÃO
MÒU , E ESMOLER MOR DE bUA MAGEiTADE, E «O SEU CONSELHO
DO ESTADO, O BISPO DE POUTALEGUE. DOM FUEY AMADOU AUUAIZ.
s.
Ã
satisfação que vossa S. RevcrcLVisúma mostrou na Tição de
alíi^ús destes Diálogos , qiiãdo an yílmcirim , Òí na Cidade de Lis-
boa /lios communvjueij , me deu animo pcra daly por diante fazer
em iodos elks mai/or emprego de tncu estudo, A cxtriosidode com
que depois de impressos os tornou a ler : A" « offeiçâo com que
nellcs apontou atguas particularidades , que ouve por dignas de
seus gabos , òf louvores, me co^istrangeo aos rever y Òi fn^cr impri-
mir, com muitos acrecent amentos , èf se me vão engano, com a-
vantajada perfeição. Junto a isto o amor que me mostrou , assi
na Corte dellici/ Dom Jicnrujiic , como na dclReif Dom Philip-
pe , que Dcos tem {onde se me offcrece.o occaúão de tratar mais
particularmente a Vossa Senhoria Reverendíssima , <2f a lembran-
ça de me aver cusagrado an Bispo, ÒÇ de outi-as muitas mercês
que te o tempo presente de Vossa Senhoria Revercndissima recebi,
pode comigo tanto, que me fez recear algn género de ingratidão
em o descuido que por inim passou de os não aver decTicudo a
Vossa Senhoria Revercndissima na primeira impressão em que
faltou a dedicação , 4* me obrigou a nes/a s<gTtnda dctpertar , íf
reprehcnder a inconsideração, q errt mi ouve na primeira. De-
mais, q eu nisso fico ganhando muito : porque sendo Vossa S. R,
tão qualificado no sangue, tão exemplar na rnrtude , tão claro no
ftuxo, tão querençoso da boa dontnna, Ò( sanct o exemplo, tão ze-
loso da justiça , que dà a cada hã o seu, tão amigo da verdade,
que não soe approvar o cfuc merece ser reprovado : ficando esta o-
ora sob sae amparo acolhida a tão boa sombra , (?V sendo de Vossa
Scniioria Rcvti-mdissima favorecida , scrà sem duvida estimada
de muitos, acquirirà credito, ^ poderá correr tegurn , òi livre de
gente que procurou sumir a primeim impressão , de modo que
nam ouixsse memoria delia , por se neste livro reprehrndere seus
erros, is cegueiras : òí do mesmo ai-iifirio ic 7isado com outros li-
vros muito doctoi, il>" impoiiantca ã Rcpul>tic(t Chrislam, 7ia7n at-
ientando que as reprehençves que os Catfudicos em seus escritos dão
aoa mãos, nacê de pafernaí amor^ ò; não prcjxcdicão «os «/ o não
»flo> como lloto^ S. .^íug. lib, ÓO. Homiliarú hotn. 15í, explicado
X- Ui;í)lCAÇAO.
aquelUn palavras do PsnJ. 140. Cornpiet mejudvs \n mistricor-'
dia , íí incrcpablt me , d\~tndo , (piado arguit , .3f qiumdo clamat ,
í( quãdo jaúna scevit nmcrclnr , ^ toluin illud de misericordld pa-
terna Ciit, éf non de scevilia inhnici. Polo que os superiores a que
loca devião acudir ao dano que se fa% â Republica Chridam ,
com SC lhe tirarem^ semelhantes livros , castigando com graves cen-
suras ^ penas tam grande atrevimento, òí malicia. Nosso Senhor
ouarde P^ossa Senhoria Rever end/issima muitos annos com a pros-
peridade spiritual , ^ temporal que desejo , ^ depois delks lhe de
a o-lorio pêra que o criou. Do Collcgio de Nossa Senhora do
Carmo de Coimbra, a ^0. de May o de 1600.
Ma«/V«t'V\VV««'V\VVl/VV%/VV%iVVV%'l%V\%Vl^VV«/%'V%«'VVÍ'V«VV\»'V%VV%«'VVVV«'t'V«Vt4'
PP.OLOGO AO LEITOR.
A
ESTivS Diálogos deu principio (como di^^sfi na primeyra Tm-
pressam) o Doutor Jerotiymo Arraez meu Irmão, mas prevenido
de híiíi prolixa, & mortal infirmidade de que faleceo, nam lhes
pode dar o cabo, nem limar, & apurar o que avia principiado.
£u por me parecer que seria obra útil, & apraziv(>;l se se prose-
guisse, & perfeyçoasse, ouve por bê empregado nelles o estudo
que a outro fim tinha-dirigido. Não os quis escrever em tingoa
Latina, mas em a nossa Portugueza, porque alem desta com sua
grave brevidade ser accommodada ao que nelles se trata , mi-
nha principal tenção foy aproveitar a todçs os nossos que nam.
tem noticia de lingoas estranhas, E pelo me«mo respeyto quis
uzar de estillo commum, & vulgar, que serve pêra todo o gé-
nero de gente, &. deixar muytas cousas que saõ das Escholas,
& dos entendimentos ncUas exercitados. Todavia procurey ele-
ger matérias graves, dar seu lugar às cousas, & poer concerto'
nas palavras, pêra que soando bem aos ouvidos, nam somente
dissessem com clareza o que se trata , mas também com armo-
nia , & modo de dizer fezessem atento ao'Leytor; &. satisfezes-
sem , nam sò ao gosto dos simples bõs de contentar, mas alapar
ao dos Letrados curiosos em o examinar. Impresso tenho na me-
moria aqucUe dito de Marco TuUio, no principio das suas Tu^
culanas. Querer o homem escrever seus conceytos sem os saber
explicar, ordenar, illustrar, & com algíia deleitação mover 6
Leytor, he de homem, que sem nenhua temperança usa mál dò
ócio, & das letras. E posso cò verdade affirmar, que na compo-
sição delles nam pus tanto estudo em buscar o mais fermoso;
-quanto em o mais proveytoso. He tanta a força da ordem , &
junctiira das palavras, que podendose híia cousa dizer de diver-
sos modos, tem tanta graça o que a conta, & escreve, que inda
que seja muy sabida, move com mais efficacia os corações dos
Leytores, & ouvintes, que o primeyro, q a escrevco, ou falou ,
acrecêtãdo muita novidade às cousas velhas, muita luz às cla-
ras, muyto àr , & lustre âs fermosas. O que se escreve, lè , &
entende, inda que com gentil arte se componha, com suavidade
se pronuncie, & com deleytação se lea, se ao bom viver se nam.
refere, & em regra de bõs costumes scnam converte, não he a
noticia das letras outra cousa, senão instrumento de inchação,
vam jactância, & de tra1)alho sem proveyto. Deix<!mos aos na-
vegantes o dcbcjo de vento, nào no esperemos nòs de nossOs tra-
XII PROLOGO AO LlíYTOn» "'
balhos, se os queremos ver bem empregados. O mais doudo, &
desejoso de seu mal entre todos os animaes , he o homem , por-
que pêra tomar qualquer dos outros ha mister algua isca, & pê-
ra o homem sò o vento da fama basta. Também cuido que pos-
so com verdade dizer, nauyto mais me aver fundado na diligen-
cia, estudo, & substancia das cousas, que no artificio, & ele-
gância de phrases polidas, palavras trocadas, &. cusonancias de
clausulas, em que nunca achei sabor, nem forão do meu esta-
mago. E posto que com rezam poderá ja calar o nome do pri-
meyro inventor desta obra, pareceome specie de furto negarlhe
a gloria da parle que lhe cabe. O que os ramos devem ao tron-
co, os mebros à cabeça, es rayos ao Sol, os arroyos à fonte, os
bem feytores ao chão alheo , cm que edif]Q.ão, isso devem os
ampliadores , & apuradores de obras alheas, ac« que primeyro as
fundarão j & principiarão. Certo he que por muyto que híia
pessoa gaste do seu em ereger, &. engrandecer algum edifício so-
bre fundamentos de terra nam sua, sempre fica devendo ao do-
no delia, quando menos o foro, & reconhecimêto do Senhorio,
& que seria injustiça usurpalo pêra si. E pois o sobredito Dou-
tor foy o primeyro -instituidor , & fundador desla obra, justo he
que sempre o eu reconheça, &. confesse por tal, inda que em a
apurar, & augmentar aja metido todo meu cabedal. Reparo a-
qui , porque nam quero que o longo preambulo suma , & affo-
gue este breve Livro, como a gvãde cabeça faz ao pequeno cor-
po. Dado q desta mão ultima saya muyto mais crescido. O que
peço ao Christão Leytor , he que o lea com intento de se apro-
•yeytar de sua lição, & doutrina pêra mellior vijer, &, servir ao
Senhor. Tudo o que se contem nos Seguintes Diálogos sòmeto â
censura, & correyçào da Igreja Catholica, por a qual quero es-
tar, &. regulaF o c^ue nelles digck.
DIÁLOGOS
DE
DOM FREY AMADOR ARRAIZ.
DIALOGO PRIMEYRO.
DAS QUEIXAS DOS ENFERMOS , E CURA DOS MÉDICOS.
INTERLOCLTOKES
AISTIOCHO ENFEmiO, APOLONIO MEDICO.
CAPITULO I.
Queixase Antioclio das dores que padece , «5í ^polónio o esiã ow-
vindo sem ser delle sentido,
Antiocho, Í.tAlito prxlo a df^saventura, rjuando ajunta to- i^.l.co/. 1.
das suas agoas : teiiUmos a que líjniemos a morte com nossas
mãos, & chega a nos mover o juízo de seu lu»íar. Que pode fa-
zer, & desejar o triste atraxessado de dores, & infortúnios.' a-
torrnentado no corjx) , & na alma.' O' morte ,. beneficio si ngu-
liu', SC quàdo te destjamos nos quisesses! mas muilas vezes so-
bra vida a que falta ventura. Plinio diz, c\\\v as flores do Lgy- Lib. 12. c.
pto uâo tem cheiro |)or causa do ar emnevoado, & emgrossiido 7.
cò os vapores do iSilo. Tal foi a flor de minha vida, se ilorida
se pode chamar a que como arv(jre steril nuca floreceo, nem.
fruciificou , por que nella nào soube defend(,'r o fraco, óc tenro,
peito das ctígas affi-içôes. Parece, que fez a morte paz<'s comi-i 1 — 2.
go por dar temj:o a estas lagrimas táo frias, que correndo por.
meu rostro, no meo da carreira se converl-em em duras pedras.,
TSinguem ajunte as suas às minhas, por que he meu mal de;
qualidade que nào sofre nenhíi comercio, & por mais que se
me molhem os olhos, nem por isso se despedem de meu cora-:,
gào as dores. Dizem que a muitos servem de consolarão. as .l.u>.
S DIALOGO PRIMEIRO
grimas, qi\o lhes refrlgeráo o peito, alevião o animo, & lhes
' diniirjucru grande parte da dor, que a modu de fogo tanto mais
cn^sce quanto mais se encobre : mas não sinto em mim os taes
effeitos, inda que sempn; chore. Triste me deixa o Sol em se
transpondo, & transmontando , triste me torna a ver quando
amanhece; & quanto vejo tudo me ètristece. Triste Arroio cujas
1 — 3. agoas vejo? quem no seu peito te tivera, pcra chorar quanto
doseja. S. João Crysostomo affirma, que como depois de grandes
cliu veiros o ar fica limpo, tSc puro; assi depois das chuvas das
lagrimas, que a dor evapora se segue serenidade, & tranquili-
dade na mente humana ; o que não experimento effeituarie em
a minha. E virmehã de se não parecerem as minhas com as de
Pedro, que não pedindo perdão o merecerão, & diliráo sua cul-
pa. Nenhum dos verdadeiros penitentes se chega a Deos cho-
rando, que não aja delle o que pretende : nenbum llie pede cõ
dor de seu coraqão , que não alcance o q deseja : seu próprio he
iJe obitu cons<:>lar os q chorão, o que lhe eu não merec^o. S. Jerónimo diz
ratcnt. que he grade o reino, potccia , & alqada das lagrimas, que não
receão aparecer ante o tribunal do juiz, que impõem silencio
aos accusadores : que ninguém lhes pode prohibir a entrada : q
atormentão mais aos Demónios, que a pena infernal : que ven-
cem o invencível , & atão as mãos ao omni}x>tente : o q eu não
presumo das minhas, por mais que nellas se me derretão os o-
ihos. De q me serve jà tao triste vida , se não de hua viva se-
• pultura? sou sombra do que fuy , & tenho passado por tantas
mortes, que jaa pareço resoluto em o q fmalmête me ei de re-
sí)}ver : pcra q quero vida corporal ã custa de taes tormctos?
Não consentio Caio Mário q lhe curasse os médicos hua perna,
depois de ter sofrido grades dores na cura da outra; dado por
razão, q não era a saúde digna de por ella se sofrer tanto. Não
he esta vida tanto pêra cobiçar que este b^m aos homens procu-
rulla tanto â sua custa.
1 — í- yfpohnio. De que se queixará este coitado? quero ver em que
parão suas querelas.
yínt. Quanto vejo queria ver triste, polo eu mais ser, & al-
gu alivio teria minha pena, se sempre me visse sò , & esta casa
despejada : por q aviva meu mal com a consolação, & o mais
compassivo pêra mim fas mais cruas anatomias em minha alma.
O fogo nascido n'alma & o q arde no intimo do coração, não
no apagào remédios q \e de fora. Branduras, affagos, meigui-
ces, enganos q promete larga vida, são invençõe? de martyrios
pêra quem está vendo q morre; consolaçles de palavras, são im-
próprias para mim, q tenho infinitas razões de as não admittir,
& sempre ficão menores q minhas magoas. Os males pequenos
sentem algum alivio das palavras braiulas , poríi os grandes foi-
PAS QtJTiXAS DOS r.NFr.RMOS , E CVHK DOS MFPICOS. "#
pao fom silencio. IL assi o onfcnderâo os amigos de Job, q quan-
do virão íis grandrs dcsuvcntuias a cjiic avia chegado, não lhe
ousiírào falar si^nâo depois de; passados sete dias cõ sete noites.
As medianas calamidades sâo capazes de cõsolaçao, mas as ex-
cessivas, honiào se com as callar. Enojào se os tristes s(i lhes fal-
lào; enimudecem , Irasem a hoca. fechada, são servos da falsa
Peosa Angcrona, que a tinlia presa, & aferrolhada, stígundo
refere Plinio. De noite qiiàdo jà as estrellas vào em nieo curso, Li6,8.c.l,
quando os campos, os montes altos, & espessos bosques estão
callados , quando re])Ousáo as aves em seus amados ninhos , & as
feras nas escuras covas, está meu coraqao feito híi mar têpestuo-
so, & cô suas penas mais contente. Sou a triste arvore da Índia
Oriental, que esconde do sol suas flores, & guarda sua frcscu- 2 — 1.
ra , & bom cheiro pêra as trevas da noite. Affligeme a claridade
do dia, & a sombra da noite me allevia. Quem me dera morar
em algíi souto sombrio, onde os ramos tocandose brandamente
faz(ím hum som soidoso, que faz perder o sono, & he accèmc-
dado a meus pensamentos. Cruel tormento he a tristesa , bicho
peçonhento, jjcrpetuo algoz do animo, que com h&a secr<'ta ^
ÒL lenta febre gasta as entranhas, estraga, & consume as forças.
Koite he q fas mores sombras em a tc^rra do coriíçâo humano
que as que estende os Montes da lua em Affrica. Quem me en-
xugara estas lagrimas, tristes messageiros das dores, que sente,
&. p(>nas q padece meu coraçují Mus, querome consolar co ))r(;-
verbio, q diz, o temj)o, & o esquecimento curâo a alma triste ;
])osto cjue também se tliga : Quien mal fadado fue en la cuna
siempre le duia. Como corre dejMcssa os dias & noites dos tejx»
feliecs; & como estão quedos, & sào vagarosos os infelices, &,
calamitosos? Não ha mal cjue p<juco dure a quem está costuma-
do a deixar huas lagrimas, &. tomar outras. Beix) lagrim.ascom
pão de dor, nellas nic banlio de contino, com elLu> j)asso a tris-
te vida, nem a cjuero pêra mais CjUC pêra eliorar. Nunca cui-
dados, &. magoas minlias vieiãu sòs; nunca liies faltou com|)aiiliia
de outras conseguintes : por ellas se disse, Adô vàs diuíio? Adj
suelo- Adô vais mal ? Adu hai mal. Os dias hum &. tui choran-
do, conto; & híi me ])are<.<; mil, Òc todos triates.
yfjH)/. Nova maneira de infirmidade ii<; esta; ineliadas leva
Antiocho as velas de todí)s os ventos; parece que entrou com 2 — 3.
elle algua cerração. Quando se desfarão estas fumaças, & acla-
rarão as agoas de seu intendimenlo ? estas são as chamas que
bramâo nos ocos das mòtanhas de Mongibil, pêra rehentarê c5
maior fúria, querome deter hu poucx), quiçá poderei louuir a
altura a esles fumos.
1 «
4 DIAT.OGOI PRIMEYRO
CAPITULOU.
Quàxa$e ^iniiocho da pouca fidelidade do$ amigos, <3| de se não
achar melhor com a mudança do lugar.
, ' y^nt. A prosperidade ad>a os amigos , & a adversidade os ap-
prova. Jà nenhíí me quer ver, dos que mais me viào. Está, &
cae com a fortuna a fee dos homens. Exemplo raríssimo foy o
I*hdarc.in de Vibio Pacieco Hespanhol, que guardou fidelidade a Mara>
vUaCrasú. Crasso o rico, sendo perseguido de Mário. Commumente nào
durão mais as amisade^ que em quanto dura a felicidade. Segue
o favor humano àcjuelles, em cuja casa vè a fortima benigna.
Desemparào me os que erao mais meus, tem me poi" estranho,
& peregrino em seus olhos; vc^orae aborrecido daquelles, qu(i
mais em particuhvr amava; & esquecido de pessoas, que eu
De iristib, com mores benefícios obrigadas tinha. Bem dizia Ovidio que no
tèpo da felicidade nos achávamos com muitos amigos & no das
calamitlades sòs. Quando Capua vio os Romanos destroçados, &.
Anibal victorioso, quis se cõ elle unir; & Decio dissuadindolho
dizia. No tempo em q a prosperidade cessa, & a dura fortuna
2 — 3. requere socoíto, obrigados sfío os amigos a ])erman(M?eF em suas
amizades, & favorecer os míseros; porque festejar com perfídia
o estado alegre , nào he honra , nem obra de animo alto. Pró-
prio he da verdadeira amizade, nào faltar aos seus em as afli-
<j.ues. Figadal 5 inda q cego, ma aquelle gertero de amigo a q
os gentios chamavào comorientes , dos quais se hu morria , o ou-
tro se matava. Grade amizatle foy a q Horácio significou ter ao
seu Mecenas, & q Niso Virgiltano guardou a Eurialo. Se o a-
mor da amizade nào faz estremos, nào ha q fiar delle, por quo
o refinado chega a por a vida }x>lo que ama. Mas vemos aquel-
le ter mais copia de amigos , que de todas as mais cousí^s te m(v
nos falta; & que sempre a mingoa dos amigos acompanha a dos
bens da fortuna , & a copia daquelles a destes. E se queremos
Ter quaes sào os nossos amigos, & quaes os da nossa fortuna,
quando cila se parte de nos o sentiremos : {X)rque então os nos-
sos seguem a nos, & a ella seguem os seus; & caso que o nosso
acompanhamento seja melhor, sempre o seu he maior. Levàta-
da a meza dcspt^dense os qu(; nào buscavào mais que as iguarias
delia. A adversidade lança de si o amigo fingido, como o fel,
&. vinagre íio l)om bebedor. Mas o verdadeyro amigo na adversi-
dade se acha mais perto, & aquella casa visita de melhor VvJta-
de, q a prospera fortuna tê desemparada. Nào faltào amigos
fingidos a quem nào falta que gastar cã elles. Demétrio Phule-
DAS QIT.TXAS DOS ENFERMOS, E CmA DOS MIDIC03. 5
TfiU costumava dizer, qiio os amigos nos tempos prósperos avião
áv. vir chamados, &. nos adversos nao avião úo esperar que os
chíiniassem. O J'^piciiro dizia (|iie devia o homem j^rangear hum -? — 4.
amigo que o visitasse em a iufermidade, & em o eareere o con-
solasse. Porem h^eneca ri'|)rehendèd(i(), tlis'e, q procurava ter a-
migos a que sendo eníermos elle lhes acodisse, estando presos
elle mesmo os consolasse, a quê seguisse em o desterro, & por
quem p<xlesse morrer em o perigo.
- Apoi. Nào está este Oo tão toldado como dates parecia, jaa
a luz da razào &. claro juizo começào de esnrayar seus rayos, 6c
vir ao lum(! d'agoa : presto nos entenderemos.
yJnt. jSem o tempo (a quem Sophocles chamou Doos facíl )
abrandou meus hais; nem a mudancja do lugar foy bastante pê-
ra me mudar a ventura. Busíjuey lugar solitário, & não sei co-
mo f(\vto pêra alegre contemplação, esperado achar em este des- '
]X)voado algu remédio, não me lembrado que ao animo's(; deve
pedir, e nào à mudança do lugar, pois pcra qualquer f|ue \ii o
homem sempre leva a si com sigo. Quem pretenth' melliorarse,
fuja primeyro de si que de sua pátria. Para se ver salvo, pedia
David a Deos q fosse seu protector, & valhacouto : q o luo-ar
sem Deos não salva, nem assegura. Os que navegando pelo mar
enjoào, nào remedeào a moléstia com se mudare de hi^i navio a
outro, p<ir q não o navio mas humor nocivo q se move c seu
estamago, he causa do mal que sentem : assi o coração pertur-
bado de seus desíjrdenados appetites, não se quieta cem a mu-
dança do lugar, & cousas exteriores, porque Iras dentro de si
quem o enterturba, & desassossega. Agora experimento o q af-
firma Séneca; Ntmo est aã non sandínx sif rum qvolibet €%sc ^
quam secum. Dizem que nào ha rcme<lio de m.or efficacia con- 3 — 1.
tra os fastios desta vida, que a diversidade de lugares, tempos,
&. manjares com que se recrea, & ceva o coração humaco, mais
q com a qualidade das cfnjsas; mas nada disto me desenfastia.
Ésla serra fria, índa que fresca, me faz mais triste, q a escura
noite. Cansado de batalhar co cr.mà inimigo, e lidar cos seus
membros, me vim a guarecer nestes motes vestitios de frescas
arvores; mas meus cudados mos fazem de tào mà conversação
como se forão matos espessos , tS: obscuras brenhas. Confesso q
nao vejo nelles cousa (|ue alegní meus olhos, nem soe bem a
minhas orelhas. Km fim atee os que se passam alem do mar
mudão o lugar, & não o animo.
Apol. Bem mostni Antiocho em quanto fala sen claro enge-
nho occupado em lição de bons li\n)s, tios quaes tirou as espfv
cies , (Sc conceitos q trás em sua nobre phãtasia , & l>om enten-
dimento; grande estudante devia ser em sua )no( idade. \nte^
que lhe quebre o fio, quero esperar pelo remate de suas cjuei-
6 DIALOGO PRIMEIRO
xas , & quica desabafara com ellas. Certo he q de desgostos pro-
cedem inuytas vezes males miiy apressados, & que com nos
c|ueixarmos, & chorarmos, sentimos alg^um descanso, &. repouso.
/Int. Ouverào de ser meus olhos tantos como os de Argos,
pura nelle» poderem caber as veas de agoa viva, que por meu
roslro em fio de contino correm. Quem poderá de tào amara
planta colher doce íruito .'
CAPITULO ITI.
Quàxa&c AnliocJio do rlcataro spontaiico an qxir se pos»
H— 2. , yfiit. Ja nâo sei íjue faça, nem como me queixe; em mil
voltas se faz cada horu meu pensamento; &. sepie perco de vista
meu remédio. Cobriosc míulia alma de luto, &, tudo be morte
quanto vem meus olhos. As cousas qu*? mais me eiào aprazíveis,
nie sào agora mais penosas. Sò o chorar me iipraz : nelle estào
postos meus passatempos. Nâo sei donde vem aos tristes, senti-
rem tanta doçura em cousa que tanto amarga : nem como o a-
margor |X)de produzir tão suave fruito. Mas onde pode acliar
gosto, senào em lagrimas, o que se vè transfigurado, sombra
do que foy , &. visào nocturna ? Aquelle de quem se absentou a
saúde , por quem passou a alegria como nuvê , deixadoo entre-
gue a dores insofríveis, e imaginações tristíssimas? Magoame este
desterro que eu mesmo escolhi , porq não acho nelle a consola-
rão q busííiiva. A memoria de minha doce pátria, me dà pena,
; entra comigo de improviso, & importame desacostumadas soida-
des. Dizè q u menção da pátria, por secreta força da natureza,
& influxo particular dos Planetas q dominào em cada região, e
nos impriniÍ3 natural inclinação ao lugar onde nascemos, causa
nos corações suave amor, & natural ledice : mas o q eu sinto
be , q sua absencia me mete em grandes angustias. A pátria he
mày siinctissima pola qual julgão todos os sábios q se d<íve por
a vida, & que isto avemos de ter por summa gloria. EUa nos
instituio cora leis justas, ornou com arte», & costumes de hu-
o — 3. inanidade, ensinounos a bê viver, deunos pães, propinquos,
amigos, era o beneficio da vida. Jísta consideração me obriga a
affirmui", que íorão dignos de louvor os antigos Romanos, q
morrendo nas batalhas fora de Roma , mandavão esculpir em
mármores duros, seus vivos sentimentos. Na inscripçào de hum
Caio Tereutio estão escriptas estas palavras,
Prok dolor, làc tain longe à pátria^ maio coell contagio ceculit.
Querem di^er : Cousa peru muyto se seiUir, este morreo de ptis-
DAS QUEVXAS P09 FNFEIIMOS , K CUHA DOS MÉDICOS. 7
te, lâo IfiTif^e de sua pntria. E em a sepultura tlc Iium Caio Sii-
berio mcMto em Hespanha , ficàrao entalhadas estas soidosas en-
comendas.
/' os /;7n in pairem viventan picntissimi, m rnoriíium pi} mn~
gis , paternos cineres ex Hnpania eaportalc ^ cormmiriique sc-
pulcliro condile.
Fill;os, que tào piadosos fostes para mim na vida, sedeo muyto
mais depois de minha morte : levae as cinzas píiternaes de Hes-
panha , &, sepultacas co as de meus uvòs. E em o tumulo de
hum Domicio Thoranio, t^loutras,
'Lncius Thoranivs súbito^ conlcctitioqne ignc me concremavil,
ès icrtiu dcmvin mc^isc ci].y}mm crexit iam hvge a pátria.
Isto he, Lúcio Thoranio, me queimou com fogo súbito, feylo
de cavacos, & accendíxlaihas, &. a cabo de três meses me sepul-
tou aqui tào lt.~j;e da pátria.
jipol. Esqueceollie Quinto Sertório, que no melhor de suas
\ictorias suspirava por sua pátria Roma, & cliegava a dizer, quo
antes tomara pc»r partido ser vilissimo cidadão em K(íma , que
fora delia Emperador de todo o mundo. Mas a verdade he, que 3 — 4.
o sábio pode ser pere<írino, mas nào desterrado; ])odeno mudar
de hum lugar pêra outro, mas nào degradar, por q tfxla a ter-
ra he sua pátria,
ylnt. Aceitei este degredo voluntário, cudando de achar nel-
le algum contentamento : mas porem baslalhe o nome pêra ser
descontetativo. Costumado foy antre es antigos, castigar com
pena de desterro os criminosos. Marco Marcello pagou o crime
de sua inconstância em Mitilene, pêra onde César o degradou ,
por aver favorecido diversas partes. Fnrio Camilo por se desmà-
dar no sacco Veientano, foy desterrado por Lúcio 7\j)uleio tri-
buno do Povo. Ignominioso desterro padeceo em Corintho Dyo-
nisií) Tyranno de Siracusns, lançado do Keyno ];or suas malda-
des. E tào usado foy esle castigo entre liomanos, que tamb<>m
os que se nào sabiào governar erào dí-gradatlos pêra as quintas,
& t-ampos onde vivessem , com trabalho &. afronta , apartados
da policia de Roma. Isto lemos que aconfcc(>o a hum filho de
Lúcio Mulio Torquato. (.'onsta da Escriplura sanefa, que Ab-
■'alon por que matou seu irmào Amon , esteve três annos dester-
rado em (jessur, & ê Hierusalem dous sem ver a face de seu
pay David. Salamào desterrou Abialhar sacerdote pêra o campo
Anathot, |)or q scguio as partes de Adonia-, Em os matos, &
brenhas foy lanceado Nabuchodonosor , por seus nefandos pecca-
dos. A ley vellia expellia da communicaeào da gente cidadã,
os lej)rt)sos, & condenavaos a viver entre agrestes. Desta gravo
pena me fizerão digno meus peccados, por que nào ouvesse ai- 4 — 1.
gua iiguru de males, & desa venturas per que meu coração não
8 DIAl-OGO PRIMEYRO
passasse,' entro Drngòcs, Buffos, .1'>corpiC)fis fiz meu ninho ío-
litario, qucrondonie cons<ilar co canto das aves nocturnas, de-
j»Í5 de mo apartar da clc:j:;ancia , &, frequência de Cidades nch*
bilissimas, (^m cpic residi a maior, de melhor parte da vida : &.
pêra comj)rimètc» da sorte triste que me coube , estando todo oc-
cujjado cm minha dor , parccendome que por aqui tinha satis-
f(!Vlo, muyto longe de esperar outro novo sobresalto, armou mè
a morte seus laços , & levou desta vida minha mày charissima ,
allivio único de todos meus desgostos.
CAPITULO IIII.
Queixasc Aniiocho do falecimento de sua mârj.
yJnt. Nam ouve dor que a esta me chegasse, ni^m perda que
mais sentisse; lembrame que lhe fuy molesta carga, continuo tra-
balhei, temeroso cuidado; lembrame do ventre que me trouxe,
das tetas que me criarão, de quâtas vez(;s lhe rompi o sono, ti-
rei o comer, & com minhas lagrimas turbei seus prazeres, & de
(piantos receos, & dores com meus tristes casos lhe causei. Es-
tais, e outras dividas sáo causa bastante, pêra que nenliii desa-
grad(ícimento entre os homès, possa ser igual ao que cõtra as
mães se comete.
• yípol. Em tal caso são rauy bem em])regadas as lagrymas
humanas, de que Juvenal cantou, que erào mostras de cora-
t^ào brando-
Mollissima corda Jniniaiio gencri dctre
se natura f aí cl ur qiiat lacn/mas dcdit.
4—2. y/ní. Quando Quinto Sertório soube da morte de sua mãy
Hhea , perdeo o passo, &. acjuelle animo valeroso, táo sofredor
de trabalhos., & tào exercitado em cousas ásperas, mostrouse
rendido à tristeza, & quasi alienado de seu nobre se.r, dando
disso claríssimos sinaes. Que farey ^eu pobre de mim, com a
perda daquella mày , em cujos oUios amorosos nadàrào sepre
meus desgostos ( como as ilhas no lago Vadimonio ) nunca secos
pêra chorar desastres -q me aconteciào, & erros cm que minha
Kiocidade cahia ? hlha de Eva que buscava com gemidos o filho
que com elles avia parido. Não posso declarar o animo que ti-
nha pêra mim, mais de mày segundo o spirito, que segiído a
carne : fazia, sem cessar, orações por minha saúde, por meo
das quaes cuido que a misericórdia divina me preservou , tSc li-
vrou de muitos males. (3hrysostomo sobre sam Paulo diz , que-
deyem os filhos jeputarj <St ter era grande paile de felicidade.
DAS OIEYXAS TíOS r.NFLRMOS , F. CLRA DOS MÉDICOS. J
flvcKin lUicido de Iks pães, »S: pios avcongos; per que em favor
destes concede Deos a seus descendentes miiytos does particula-
res, cjue em pena dos pães viciosos eosluma negar a seus fdhos.
Por amor de Abraham. Isaac, «Sc Jacol), iSc David seus servos,
não quis Deos chegar ao cal)0 co jiovo prevaricador. Aproveitou
a Thimoteo a fee de sua máy, rumo signitka S. Paul<j em liíia
das cartas que lhe escreveo : polo que não duvido avermc ajjro-
veitado muyto a bondade , &. piedade da minha. Sendo de oy-
tenta annos, me dizia muytas vezes, que estava enfadada da
vida, & que com hua sò cousa morreria contente , se me dei- 'i 3.
xasse em estado de graça; pedindome que no sacrifício do altar
me lebrasse de sua alma. Nào se màdou enterrar no sepulchro
commíí dos seus progenitores, nem junto do corpo de seu mari-
do, porq sabia q nenhu lugar era longe pêra Deos; óc que de
todos com igual facilidade a podia , &. avia de resuscitar em o
dia do Juízo. Depois de receber os sacramentos da ])iedade Chris-
taa, se apartou do corpo sua alma, & cuydo q lhe servirão de
purgatório os muylos trabalhos que com prudète sofrimento,
pass<;u boa parte de sua vida. Mas a minha que era híia co a
sua, atravessada de justíssima dor, na admitle branduras da
língua humana. Não podem palavras consolatorias ser mesinha,
para chaga tão fresca , & tào impressa no ^nofundo do coração.
Posto que por entender da philosophia christam , que se devem
sofrer moderadamente estes casos humanos, que s(jcedem per or-
dem da natureza, tSc necessariíi sorte da nossa condição ; tenho
desprazer da minha fraqueza , «Sc com outra dor me doo de mi-
nha dor, aftligindome com dobrada tristeza. Lembrame q se ac- Lih.O.c.lZ
cusava S. Agostinho em suas côfissôes, de aver chorado por hre-cófeskionú.
ve tempo aquella Mónica felice , q por seu bê , & salvação avia
regado a terra com lagrimas arrancadas do vivo de seu coração. Llb.h.cap,
Mas nem isto basta para deixar de cuidar, que ningue deve es- 8. cãjcsúO'
tranhar este meu sentimeto, iiída que seja na dureza outro Ta- iiuin,
morlão, que })retendeo despir a humanidade, &. renunciar os
affectos naturaes : porque se he licito chorar com moderação a
perda dos bès têporaes, não he injusto chorar a morte, & perda
daquella may , cuja vida me era tão agradável , & ])roveitosa. 4 — 4.
Afeiçoado fiquei a hu mancelx) llomano, do qual se Ic em Ca-
para o l(.'treiro seguinte, que eu não vi.
yJnt. LuciuÁ lúc S. sum ciim iiuilre f^ocmidia. Qvani subse-
cutus, quarto postca anno^ utj. nonas sextilis mortiius snni :
íí qiiam vivenícm iutavi sempcr ^ nunc inortuus oro morioks
orrmcs , ut cineres siiiant Iccdcrc maternos , (juibus viovcor ,
vlxhnus iniwcui. Ha:c Cn. Pompti F. secuta est , quem la-
cLc nutrxcrat ^ Ego Sext. àí Cn. Cs mcliorcs partes firvi.
Quer dizer, Eu António Lúcio estou acui eulerrudo com Vo-
é
10 DIALOGO PRIMEYRO
cundia minha mây, em cuja companhia andei quatro annos, no
ultimo dos quais faleci aos dous dias de Aji^osto : amei sempre
minha mày em quanto me durou a vida, & as^ora depois de
morta, peço a todos os mortaes, que não consintào fazerse al-
gum ap^ravo a suas cinzas; que inda agora depois de morto me
dào cuidado. Ambos vivemos sem fazer injuria, nem dano a pes-
soa algua ; minha mãy se veo cà a Hespanha com o fdho de
Cneo Pompeio, a quem criara com seu leite; & eu segui, &:
defendi as partes de Sexto, e Cneo Pompeio, como mais jus-
tas. O que em parte me consola he , entender que se apressou
minha mãy , tSc recebeo spontaneamête sua morte por não ver a
minha. Alegremente morreo ficando eu vivo, & muy triste mor-
rera, se me levara diante. E pois ambos aviamos de morrer;
nem da morte , nem da sua ordè me posso com razão queixar.
A'^eolhe o que sempre desejou , & foi deixarme vivo , quando
morresse. O bõ filho por nenhiia outra cousa tanto teme os ca-
sos adversos, quanto por não dar pena a seus pães com algum
r) — 1. infortúnio cpie lhe pode sobrevir. Deste temor posso j a viver se-
guro, porq não ha aquém màs novas de mim lastimem, aquém
minha adversidade fadigue, quem cõ minha infirmidade adoc-
ica, nem a quê minha morte mate. Mas sofro a ordê da natu-
resa, pois primeyro sahio do mundo quê nelle primcyro entrou.
IVão me desemparou minha mãy , mas adiantouse. Cesso de la-
mentar sua morte , & no escudo da paciècia tomo os golpes des-
ta dor. Na sua sepultura mãdei entalhar estes versos.
Pornte vicmhra mctn fcralí clausa scpulchro ^
Stipite sub saneio imvs siiperatajacet.
Perdei o medo membros fechados neste triste sepulchro, porque
ja a morte jaz vencida debaixo do sancto madeiro.
.Et qula vicia fidc debet , quwcnque vorabit
Evomet , ex aviais faucibus atra. suis.
Fj por que sendo vencida deve fidelidade, & obediência ao ven-
cedor , largará de sua voraz gragãta os corpos humanos que
tragou.
Deinstib. Jípol. Bem dixe Ovídio, que he grande o ingenho da dor,
1 & que o estado triste he acompanhado de solercia. Mas contudo
o home ha de morrer antes que deseje a morte , segiido algiís
sábios disserão. Se Antiocho morrera em sua mocidade, livràra-
se de muitos infortúnios. Vivendo muito vemos muitas cousas q
não quiséramos ver, & em longos dias são lõgas as tristezas, &
as magoas infinitas. Plinio disse , Nattira nihU homhúbus brevi-
tate vitce prasbuit melius. Nenhiía cousa prestou a natureza aos
homens melhor, que a brevidade da vida. Quem chora cos q
nascem , & ri cos c|ue morrem , estima prudentemente a miséria
da vida humana.
DAS Ql KYXAS DOS ENFERMOS, E ClKA J)OS MÉDICOS. 11
Ant. Quando hào de cessar minhas lamcntaf^òcs còlinuas? O — 2»
não posso cerrar a porUi a minhas lagrimas , nem cilas podem
enar o caminho que tem trilhado tantas vezes. Em Cândia nas-
cem Ciprestes sem se ])lantareiii, & de meus olhos manáo lagri-
mas sem nunca cansarem. Se as foliias da Oliveyra em certo
tempo do anno miidão liua vez a figura, mudo eu a minha ca-
da momento, por que sào de muytas cores os assaltos, &. acci-
dentes que sobrevem híis aos outros. Choro, gemo, suspiro,
brado, & todos meus alaridos, & clamores tornào sem reposta.
Mas que reposta pode dar as surdas montanhas? Queira Deos
que acabem ja de vazar as agoas deste meu triste dilluvio : & q
me nào sir\a mais o que me resta de vida, q de chorar meus
peccados. Alorte he, 6c nâo vida a q lie avorrescida.
«l^»IVV«/VV%'VVVV%ft'V»*/V»«>l^%'VV«.'V%t/VVl/VVt/VVVV%%'V«V«%«(V%%'%%VV\«/«V%VV%'VV«'VV
CAPITULO V.
Zoinba Antiocho de Apollomo C\ irafa, per occasião, da sciencla,
A* divinluiçóes do demónio.
Apol. Que estais falando cô vosco, & de que vos queixais,
Antiocho? por ventura dormistes algiia noite nas covas Pim-
plcas , ou bebestes na fonte q abrio co seu pè o cavallo Gorgo-
nio? vejo cm vos hum poeta mais sentido,, q Ovidio cm seu
desterro, quàdo se consolava com saudosas Elegias; «Sc que o
Petrarcha quando bebia das correntes do Rio Sogra, q passa por
Cabrieis, onde nasceo a sua laura; quiçá fmgida pêra vender
seu engenho. Que vos doe, ou que aveis?
yínt. Vos nào sereis Podalirio filho de Esculápio, tSc irmào de 5 — 3.
Macliaon , que foy cos gregos a Troya por causa da medicina;
nè o grade Oribabio?
Jpo/. Vosso pae Seleuco me trouxe aqui a forra de rogos : po
re, se minha presença vos desa])raz, no mesnx) ponto vos deixarei.
yíní. Sois vos por ventura o celebrado medico António Musa,
que curou em Andaluzia Augusto Cansar de híia infirmidade
malècolica, ou o famoso Erasistrato, que íloreceo no anno de
seiscentos da fundação de líoma, vi foy natural da Ilha do Ceo,
&. nao de Chio como se lee erradamente no vosso Galeno.' qui-
çá, transmigrítóles em outros corpos dentào pêra cà , segundo os
sonhos de Pithagoras, o primeyro, que ensinou as artes magi-
cas nestas nossas partes, se cremos a Plinio? Lih, 21. c,
yjpol. Desiitinos .' mais longe está de si , que o Ceo da terra ; 17.
cita i^roverbios, mistura verdades, (Sc sèteuças dos sábios com fa-
bulas, (Sc áOUllOà*
S »
n
DIAT.Or.O PRIMKYRO
/-.Í6. de Anl. Séneca diz, que não pode falar cousa alta, & avante-
ímí^. fi/(C. jada ás dos outros honies, senão a mente alterada, & rebatada
sobre si mesma. Sancto Ambrósio, expondo híi verso do Psal-
Psal. 39. teiro, diz q chamou David falsas insanias , àquellas que seguem
às falsas ima;2;ens das cousas, como honras do mundo, faustos,
delicias, riquezas, impérios, & outras semelhãtes, a que Sala-
mão chamou vaidade de vaidades , porq em hum ponto desapa-
recem , & se resolvem em fumos. Hà outras insanias verdadei-
ras, que parece aos filhos do mundo locuras, quaes forão as dos
6 — 4. prophetas , que cheos do Spiritu Sancto pareciào ao mundo em-
louquecidos, anunciandolhe os verdadeiros bens. Cheirou esta
i/i Phwd. verdade Plato quando disse , que algíis se tornavão insanos por
divinfí beneficio, ornados de does, & graças divinas, os quaes
erao authores de grades bens aos homens, como os Prophetas, &
Sibillas. Disse mais, que à arte excellentissima prenunciadora
das cousas futuras, se impõem este appellido, quãdo por mercê
de Deos acontece a algum homem esta insânia , a qual affirma
ser mais sabia que toda a humana sapiência. De modo que a
prophecia sendo admirável, & divina sabedoria, & origem de
í^randissimos bens, por cjue se nao trata segundo a prudência,
& saber dos homês , nem dirige seus autos pelas nígras da razão
humana, se chama insânia, sedo mais sam , &. sezuda, que
todo o sizo , & saber do mundo.
Apol. Queira Deos que seja esse o género da vossa insânia ,
mas entêdo q is descubrindo outro fio muy diverso do q agora
destes a enteder, & pareceme, que a malencolia, ou algum
Ídolo dará em breve tempo com vosco através.
Ant. Faseisvos divinhador, he certo que no adivinhar não sois
Beroso Astrólogo, a quem os Atheniêses levãtàrão estatua pu-
blica no gymnasio com língua d'ouro, que parecia lium retra-
to, & imagem spirante. Lembrovos, que Apolo Delphico cha-
mado pellos gregos, obliquario, quãdo queria adivinhar cousas
futuras, sèpre era ávido por mêtiroso. Maravilhosos homens são
os Astrólogos , & adivinhos que somête sabem o q esta por vir ,
6 — 1. & do passado, & do presente não sabem nada; 6c assi contão as
cousas que no Ceo se fazem , como se ao conselho dos seus mo-
radores ouvessem estado presentes, & agora novamente de là a-
baixassem. Mas a verdade he , que os taes não sabem o que se
faz no mundo, nem no Ceo, nem na terra, ne ainda na sua
camará. Não vem o que trazem ante os pès, & querem saber o
que passa sobre as estrellas. Muitas vezes me espanto da novida-
de desacostumada q neste linaje de homens se acha : & he, que
em todos os outros hiía sinallada mentira escurece mil verdades
que em sua vida tem dito; & faz dahi em diante sospeita qual-
quer outra que falem : »Sc nestes híia verdade dita acaso, ou por
DAS QT^IÍYXAS DOS ENFERMOS, E CUnA DOS MFDirOS. 13
O não entenderem, encobre mil grandes menliras, &. faz (lue ao
publico mentiroso se dè fee ; «Sc se disser, que hoje háo de cair
as Estrellas do Ceo, seja crido, & sem sospeifa de mctira possa
sempre métir, o que iiua sò vez pode acertar cõ verdade. Os
professores da verdade per Ima boca condenao, & reprovão esta
pestifera presumj^cào, Cicero entre outros philosoplios zomba
delia; & nào sò a religião catholica, mas a verdadeira Pliylo-
sophia , & sua sequaz a Poesia , & os varões sanctos & todos os
que algo sabem , desprezão esta diabólica invenção ; exceptos a-
quelles que, ou vivem delia, ou cairão nas suas redes, & de
errores fabritão seus ganiios; cujo ardil he ,. encobrir o engano
com obscuridade de palavras; dando sempre repostas duvidosas,
& de dous entendimentos, para que de qualquer modo que ve-
nha o contingente , possão dizer q jaa d'antes o avião prognosti-
cado. E nisto conspirarão de comum consentimèto , todos os que C — 2,
seguem esta arte de adivinhar. Da qual nào ha q maravilhar
pois he engano; nem do engano de seus sequazes que sem le-
tras, & experiècia, he vão; mas de sua astúcia, ousadia, &
pouca vergonha. D 'onde veo o que por graça disse aquelle áspe-
ro, &. grave Catão, que se espantava, como se nào ria hum a-
divinhador vendo outro como elle. A Pompeio, a Crasso, & a
Caesar segundo testifica Marco Tullio, promettèrão todos os adi-
vinhos, &, malhematicos que com n)ui claro, & alegre fim aca-
barião em sua terra sua bcmaventurada velhice; (« qiiaes mor-
rerão a ferro, & dous delles miseravelmente mui longe de Ro-
ma, & de toda Itália com as cabeças cortadas que tanto tempo
forão honradas, & temidas de todo mundo; & com menosj)iezo
mui íeo escondidas, ficando seus corpos despedaçados sem sepul-
tura às feras, aos pexes, & às aves, para exemplo miserabilis-
simo da fortuna; & hà quem crea aos adivinhos q tãtí verdadei-
ras cousas prognosticão ? Espere o Christão com igual ,. & sosse-
gado animo, não o que as estrellas lhe prometem , mas aquillo
que o (Jriador &. governador delias tem delle determinado , fa^-
zendo de dia em dia algCia obra tã boa, que do seu amor o fa-
ça digno; & não entre em seu coração solicitar a estes taes por
as cousas que estão por vir, cuja verdade lhe he mais escondi-
da , que a qual outro bom varão : & tenha isto fx)r conclusão ,
que he mui difficil ao home saber as cousas vindouras & contin-
gentes futuros, & que lhe não convém , inda que seja proveito-
so; nem he proveitoso, ind-ii que lhe convenha. A prienunciaçào () — lí.
do futuro he obra própria de Deos, q os Demónios nunca pode-
rão imitar, & tratando disso enganarão cC» suas conjecturas aPir-
rho, & a Cresso. Em o prophela Isaías lemos estas palavras :
^nnnncwcnos o que lia de. inr, is tcrrosrmos por Dcoyxs.
Âpol. Também os oráculos dos Demónios anunciarão muitas
11 DIALOGO PUIMEYRO
cousab , qup; sairão verdadeiras , & alguas que a razão natural
polia Astronomia pôde alcançar.
Ant. O que se contem em suas (;ausas necessárias , mais lie
praesente que futuro, dond(^ vem q nào adivinliào os Demónios,
nem os Astrólogos quando dizem os Ecclypses antes que succe-
dáo. E concedovos, que nas scieucias da Astrologia, & natural
phylosophia fasem os Demónios ventajem aos homens; deixando
que souberào muitas cousas que lhe os Anjos revelarão. Sào mi-
nistros de Deos , &. fazem sua vutade ; mas j)or que os successos
que Apollo collegia per oonjeturas, nào os declarava senào per
palavras ambiguas , & torcidas que faziào diversos sentidos , foi
chamado obliquario; isto he; que não respondia simple, & di-
reitamente ao que lhe perguntavão. Nem vos posso negar , q a
íigudissima natureza, & subtileza do Demónio excede à nossa em
cujecturar ; «Sc dahi lhe vem ter conhecimento das cousas vin-
douras , ou por sua natural noticia , ou per conjectura , ou per
arte , & sciecia. Tãbê conhece as cousas passadas mais perfeita-
mente , inda que este em lugares remotíssimos; porque com li-
geiro movimento os corre lodos, como nòs com o pensamento
6 4. passamos terras, 6c mares. E he tão diligente correo, que den-
tro em hua hora pode levar novas do que passa em hii lugar a
outro distantíssimo: assi q não se podem comparar os homes com
os Demónios na subtileza da natureza, & agudeza de entendimê-
to, nem na perícia das artes, & sciecias, nem na experiência
dos tempos, & velocidade com que se movem. E todavia dos
futuros contingentes , »Sc casos piu^ticulares se sabe algíía cousa he
somente por conjí^cturas ; & por isto se enganão muitas vezes :
dado c|ue per ellas acerte meliior que os médicos em suas curas,
&. juizos. Detiveme nisto, pêra vos avisar que não tomeis o of-
íicio alheo , & de medico vos torneis Ariolo. Certo he que nào
sois Rouxinol, nem Andorinha, nem Cysne, dos quaes Plato
mPhctdo. fabulou c|ue tinhào spiritu divino, por serem aves dedicadas à
Apollo , &, que adivinhando a gloria da outra vida , com ale-
gria, (Sc doçiu"a canta vão à hora da morte. iNào sois ave, nem
*e vos esta arrancando a alma do corpo, pêra q tocado do cheiro
da vida immortal tenhais sentimentos divinos , nem lanceis cer-
tos prognósticos, nem se vos offereçao sentenças graves, próprias
dos sábios , a tal hora.
h, 10. c ^23 Apol. Plínio diz que o canto do Cysne a hora da morte he
fabuloso , & tal he o que das outras aves tendes dito. Lembro-
vos que misturar fabulas com historias j he com mentiras de»a-
creditar verdades.
DAS QVEYXAS r)OS ENFERMOS, T CVn\ TIOS MÉDICOS. 15
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CAPITULO VI.
Da onírem da Idolatria.
ylnt. Nam debato sobre isso, mas aprgravome de vos fazrrdes
adivinhador, por fazerdes do mim idolatra, & sandeu. Diophan- "7 — 1.
tes lacedemonio escreve, q Syrophanes Aej;yptio, cò soidade de Llh.antiq.
híi filho q lhe falccco, crgueo ê sua casa hua rstalua , q ao na-
tural lho representava, à qual se acolhiào os criados quando que-
riào escapar da ira, &. indif:naçào do senhor, & pelo tèpo a vie-
rào ter ê tanta \(!neraçào, q foi fonte da idolatria. Tàbe de Ni-
no filho de Júpiter Bello, se lè q fez hua statua ao natural de Geneb. lib,
seu pac , &. côcedeo izençào, & perdão de qualquer pena a to- 1.
dos os q a ella se acolhesse, &. a tomassem por rcfujíio, donde Hcet.mE-
se seguio fazerselhe reverencia como a Deos. Esta diabólica in-sec/i, c. 8.
vêçào dizè q foi o primeiro principio da adoração dos idolos. Pli-
nio disse que as nec(>ssidades humanas, fezerao que muitos ho- Liò.2.c.7.
mes inventassem muitos Deoses, por ter cada hum seu Deos, &
ser delle socorrido cõforme a sua necessidade. A Justino Marlvr L\h. cótra
pareceo, q de es h<'mes cuidavè que em Deos avia enveja , 6c q (JcTitiles.
podêdo elles ser Deoses, Deos lho estrovava, dimanou a idolatria. Gcn. c. 3.
E isto he o q Sathan logo no principio do mundo tratou de lhes
j)ersuadir , q dandolhe o por q Deos lhes prohil)ia o comer do
íruito da arvore q estava no meo do paraiso, lhe disse q era que-
rer se Deos aventajar a todos, & nào sofrer que outro se lhe em-
parelhasse. E por tanto S. Paulo escreveo a Thimoteo q a cobi- l.Thim.b.
Ça foy raiz de todos os males, & q os appetiles delia desviarão
algus da fee , & os meterão e muitos nej^ocios. Vemos q o esta-
do dos p^randes esta no poder, & o poder no dinheiro, & o di-
nheiro no trato, &. o trato na cobiça fonte perenal, de q ma-
na a perdição de muitos. O humor desta, causa mais infirmi-
dades, do q a destèperança do ar corrõpe de còpreicôes. Esta 7 — t.
tez , q a cega gêtilidade cô nhíia cousa pagasse mais francamen-
te benefícios, q cu deificar a qualquer vadio, q lhe trazia algu
proveito; e daqui se argue, q e corações carecidos da verdadei-
ra luz, tàtos Deoses achào lugar quãtos são os interesses q prete-
dè. Apol. O Sábio afl'irma q o principio de todo o peccado he Eccl.c. 10.
a soberba. Ant. A isso respondo com S. Agostinho, q na sober- To. 9. tra.
ba se vee , & acha a avareza. Que cousa mais avara q Ada ao 8. in I. ca-
qual Deos não pode bastar, se cutudo f<n soberbo, & como tal noit.Joânis
desobedeceo a seu superior, «Sc mereceo q lhe desobedecesse os
animais seus inferiores. E assi cô muita razão conclue S. Am- Lih.dcPa^
brosio, q a Serpente infernal foy da idolatria o primeiro author, radUo aip,
13.
16 IHAI.OUO PRIMEYUO
quando persuadio a Eva , q seria semelhante a Deos se comesse
do pomo q lhe avia vedado. Desejou o primeiro Dragão, origi-
nal deste veneno , ser hòrado como Deos , &. delle se apegou aos
seus Anjos mãos esta peste; & da peçonha q clle influio em nos-
sos primeiros Padres, veo reinar no animo ilos poderosos tanta
cobiça, &. arrogàcia, q esquecidos da sua mortalidade, & do
temor reverenciai, &: cortesia devida a Deos, qrè ser adorados dos
* pequenos em a terra, como se forào Deoses. Sào discípulos do
Kev Nabuchodonosor , q deu por rcgimeto a Holophernes, ge-
neral do seu exercito, q e todos os Reinos q sojeitasse à sua obe-
diência, destruísse os tcplos, &, o fezesse reconhecer por Deos da
hl Rcpub. terra. Estas forào as causas da idolatria, &. sao inda hoje, & não
cV l'ih. 2. c/c o Ídolo, q nití impudes. Be disse Plato q ê o home avia todo o
^t:<T. género de animaes : sois Tigre para mí, sào para vos prazeres
7 — 3. os meus pezares; & onde me mais doe, carregais mais a mão.
Bõ he Deos, «Sc providentissLmo, elle sabe de mim a verdade, em
elle creo, ncUe espero, <Sc a elle sô adoro. Nào me dào pena i-
dolos, nè tenlio em minha pousada Deoses alheos, em hii s5
12. mcfh. Deos creo. Aristóteles depois q provou na sua phylosophia q a-
m Tliiauvo via hii sò Deos, & liíia primeira causa, nào sei q divindades ou-
i) lo. /c"'. trás introdusio. Plato avendo dis])utado, óc inferido q avia híi
sò Deos criador, & governador do universo, omnipotente, & sa-
pientissimo , depois como esquecido de si , em outros lugares pa-
rece admittir muitos Deoses. Que voltas deu Marco Tullio, q
cuidados, &: ânsias de seu peito descobrio por eternizar a memo-
ria de sua fdha TuUiola ? j)rote5tando q cò eseriptos gregos , &
latinos de claríssimos engenhos, avia de persuadir aos homês ,
que a tevessè por Deosa. Quà solicito escreveo a Attico q lhe
cõprasse hu campo em lugar celebre , onde posesse hu tèplo a
Tulliola ? da morte da qual còpòs dous livros , em q derramou
as fõtes de sua eloquência,, por persuadir aos vindouros cu ele-
gância, (Sc artificio de sua singular oratória a divindade de Tui'
liola. Inda eu nào cuidei, ne sonhei nada disto, & ja sou de
vòs condenado por idolatra, & sem sizo? l^ixo acabais de me ac-
cusar, magoar, &. escarnecer?
ApoL Todos os engenhos sào assaz eloquentes pêra excusar
suas culpas. Mas deixemos escaramuças tratemos de vossa
saúde-.
DA* QUEYXAS DOS ENFERMOS , E CURA DOS MÉDICOS. 17
ÍV«VV%VVV«^VVV%%VV«'VVVV«'V\'VVV%VV»VV^VV%VVVVV%tfV«iVV%VVVVVVVV%Vli%VVVV«^
CAPITULO VII.
Jnformasc Aj)olonvo da enfermidade de Antiocho , in tratase entre
âbos dos sonhos.
Apol. Antes de vos tomar o pulso, dizeime q sonhastes a noi- 7 — 1.
te atrás. Ant. Que pergunta de medico? & que pezo te os so-
nhos? cousa frivola hè o scmho &. onde ha muitos ha muitas vai-
dades, disse o Ecclfsiastico, cap. ô.
Apol. Nào me negareis que revelou Deos em sonhos muitas
cousas aos Prophetas. Nào vos lêbra í\ diz o Senhor. Aos meus Num. 12.
escolhidos falarei ê sonhos? per elles descobrio Deos cousas futu-
ras, & significou o q avia de vir aos homês, disto hà exeplos
sabidos no Velho, «Sc Novo Testamento; & nas historias huma-
nas de gregos, &. latinos se côtão cousas admiráveis. Nas quaes
so lè q Sócrates na noite q immediatamete ])recedeo o dia ê q
Plato entrou na sua Eschola, sonhou q lhe offerecião híí Cysne
que do seu grémio voava, & pousava sobre a porta Atheniense,
q se dizia Achademia. Eque tinha o collo tào longo, q cô o al-
to da cabeça tocava 6c penetrava o Ceo : & no dia seguinte re-
cõtando esta visào a seus discipulos chegou o pay de Plato offe-
recendolhe o filho pêra ser seu ouvinte , & vedoo o phylosopho ,»
disse eis aqui o Cysne que transcenderá os segredos celestiaes, &
penetrara as cousas occultas. Hè o Cysne alvo & limpo , passa
sua vida em o profundo das agoas , & depois de longa idade ,
nos seus últimos dias, dizè íj canta docemête. Assi o phylosopho
vivendo honesta <Sc limpamente inquire , & descobre as verdades
em a profunda diversidade das sciècias & opiniões, passando en-
tre ellas os annos da vida , pêra a qual com o necessário somen-
te se contenta; & no fim d'clhi faz cõmêtarios de graves senten- 8 — 1.
ças, & suaves doutrinas, & por esta causa he significado convc-
niêtemête pelo Cysne figura da boa & longa vida. Dessemelhan-
te desta visào foi a da mày do cruel Nero , q trazendoo no ven-
tre sonhou q paria hii grade , & cruel Dragão , o qual morden-
doa, & tragandolhe as carnes, a desentranhava : Despertando
pois cò grande terror , colou o sonho a que lho declarou , dizèdo
lhe q pariria híi filho author da morte de sua mày. E assi acon-
teceo na verdade, como pregoào as historias dos Romanos, q
Nero, muy eõvenientemête significado no Dragão, depois de
levantado por Emperador, querèdo ver o lugar onde fora gera-
do, matou Agripina sua mãy.
Ant. Vejo isso, mas tambê vejo q a certa intrepretação dos
sonhos he de Deos, &. não vossa, nem dos mágicos, que seguã
3
18 DIALOGO PRIMEYRO
r.s conjecturas & pode ser enganados nas cousas occultas. Basta
ser prohibido q não sejamos curiosos na interpretação dos sonhos,
& q não cofiemos nelles. Se lhes ouveramos de dar credito , não
hà arte cõ q o Demónio mais facilmente nos poderá meter nu
cabeça erros, & superstições cõtrarias à nossa fee. Sò Deos, &
os q são dignos de entender suas revelações, pode expor os so-
nhos na verdade : & assi não por conjcturas, mas por revelação
divina he conhecido o verdadeiro sonho. A que Deos quer falar
em sonhos ensina per si, ou per outrê a intelligêcia delles, &
a boa parte donde vem.
Apol. De theologo he arrecear os perigos q pode aver na cu-
riosa observação dos sonhos ; mas não sei se he tanto seu repro-
8 — 2. var assi a mote, toda a arte de prognosticar segíido a significação
delles. Os médicos não negamos aver sonhos sobrenaturaes , cu-
ja interpretação pertence a Deos, & a seus interpretes. Ne ne-
gamos aver sonhos em q entrevê os demónios , cujas invenções ,
como Christãos havemos por diabólicas ,* mas entre estes dous ex-
tremos seguimos a arte de prognosticar, somente naquelles so-
nhos, que chamamos naturaes.
Ant. Não sei se me ria, se me enfade de vos ouvir chamar a
isso arte. Arte he a q dà preceitos certos do q se ha de fazer, &
tão certos q segurão de todo erro , a quem os segue : Hà os
por ventura taes nessa a que vòs chamaes arte ?
Apol. Hà os q pode haver, sabida cousa he q não se ha de
pedir , nê esperar q em todas as artes a certesa seja igual ; & se
eu vos não sêtira tão mal sentido nesta parte , por vêtura me a-
trevera a me largar algii tanto, & vireis cõ q fundamento os
médicos pretèdemos aproveitamos da indicação dos sonos, per-
gi!itãdo por elles aos êfermos, como eu agora fiz.
Ant. Como he certo q armais a introdusir nesta pratica, quã-
lo tendes lido nos prognósticos do vosso Arnaldo de Villanova :
fazeime mercê de vos faserdes em outra volta : porque se não
Arist.' de soube dar a entender nesta matéria, & nem elle mesmo se en-
divln. per tendeo. Apol. Por Arnaldo saya que lhe for affeiçoado, o q vos
somnia c. 3 digo he que os phylosophos mãdão cõsiderar os sonhos do enfer-
Hipocr. li. mo q procede de causa natural pêra cõjeturar os humores predo-
de insomn. minãtes, q cõforme a elles são as represêtações , & phãtasias.
íç 6. Epi- Se a ílema se move, os sonhos são cousas d'agoa, se a malêco-
dem. lia , são de cousas tristes , & negras. Galeno no livro do Presa-
8 — 3. gio que se ha de tomar dos sonhos, conta que sonhando \m cer-
to home , q híia das suas coxas se lhe êpedràra , a achou para-
lítica. Michael Ephesio sobre Aristóteles conta de si, q sonhan-
do passar por híi lameiro de mao cheiro , cayo em hua grave
infirmidade, porque dormindo percebeo os grossos, e tenaces hu-
mores , q forão causa do mal que lhe sobreveo. Diz mais q os
DAS QUEYXAS DOS KMFERMOS , E CURA DOS MÉDICOS. 19
sínaes da qualidade de cada qual das infirmidades, são mais ma-
nifestos em os sonhos, q cm as vigílias. Quando dormimos oslao
os instrumentos dos sentidos , ociosos , donde he q as alteraçòes
q velando não sentimos por serem invalidas, &. fracas, dormin-
do as percebemos como se forão fortes, «S: violentas. Aristóteles
observa q as cousas pequenas entre sonhos parece grandes. Daqui
vem que quãdo os ouvidos , estado nus dormindo são occupados
com sono leve, reputào por trovões os movimentos q bràdamête
tocão nossas orelhas. E são estas cousas que se vem em os so-
nhos, sinaes dos effeitos que se levanlào, e nascem em os cor-
pos. Se dormindo cuidamos que comemos mel, &. o (^stamos gos-
tando, sinal liè q avemos de cair em infirmidade a que a flegma
ha de dar principio ; inda q às vezes proceda a alteração do cor-
po de causa extrinseca, como do ar frio, ou seco; &. qual ella
he , tal alteração causa. E assi os homcs sãos , & quietos que
não tem negócios, nem cuidados sente mais prestes a alteração
do ar que he húmido, & sonhão, q passão rios, o q he sinal q
o ar se dispõe , & aparelha pêra chover. Sêtis entre sonhos alga
alivio na potencia imaginativa?
CAPITULO VIII.
Qve o sono ha de ser breve , ^ acompanhado de Sonhos : com ai-
gúas quúxas de ÀntiocJio.
Ant. Nenhíi sabor sinto nelles; antes me dão à phantasia tan- 8 — t,
ta pena que me trás à memoria, & me faz parecer verdade o
que disse Sócrates aos juizes q dormir sem sonho , era híia espé-
cie suavissima de sono, do qual ninguê acordaria por sua von-
tade.
Apol. Sócrates falava então cô gête do povo, & no cárcere
ensinou outra cousa aos studiosos da sapiência. Que sábio louva-
rá o longo sono desacupanhado de imaginações , &, insomnios ?
sabendo q a vida he vigilia; & q quê mais vigia mais vive; »Sc
q na vigilia se parece os homês cõ Deos; não diffirindo das pe-
dras em o sono profundo , q he mui semelhàte à morte ? Hè o
dormir morte breve, & a morte sono eterno, & o velar he vi-
ver. Marco Tui lio negou q podia aver quê aceitasse a vida de 1. luscul.
Endemion adormentado pelaLíia a fim de níica mais despertar,
porq a agecia he cousa jocudissima & o sono prolixo he de todos
aborrecido, & assi foi necessário para a refeição do animal, q se
durar iiíia noite , & hu dia cõlinuo será morte.
Ant. Guardenos Deos dos q dorme a seu prazer, e folgão de
3 *
SO DIALOGO PRIMEYRO
jazer na cama , & dormir ate o meo dia , a que hus Poetas cha-
marão parente da morte , & outros sua figura , & todos bem ao
propósito. O mesmo sono q se diz repouso dos animaes te suas
secretas dores, revoltosos, & espãtosos ruidos, do visões, & phan--
tasmas; do q se queixão osSãctos falando cò Deos familiarmete.
O — 1. O desordenado sCmo he matéria de torpeza, infâmia^ & leva
muitos apressadamente atee o sono eterno, que he a morte. Cria
a deshonestidade , aggrava os corpos , enfraquece os ânimos , of-
f usca os engenhos , diminue o saber , apaga a memoria : pare
esquecimento : inhabilita os homens : tanto que nunca foy visto
algíi c(ue por o sono fosse louvado, sendo muitos por elle tacha-
dos. Se com rczão se chama o velar vida , com a mesma se de-
ve chamar o dormir morte , & por o mesmo titulo este se ha de
fugir, & aquelle eleger, ao menos por alongar a vida. Os go-
losos , de&honestos , & irados são comparados a brutos animaes
vivos; mas os sònorentos, & embebidos no dormir se comparâo
aos mesmos mortos. E quanto à parte do tempo q se dorme ,
sentença he de phylosophia q nella nada differem os prósperos
dos miseráveis. Pois se por liviana gloria , & pequeno ganho os
guerreiros, os Mercadores, & os marinheiros velão as noites in-
teiras tendo sò o Ceo por cubertura, híis entre as espreitàças dos>
imigos , outros entre as ondas , & rochas peores q nenhu inimi-
go ; em q razão cabe cada híi de nos por a verdadeyra philoso-
phia , & ganho do Ceo não poder vigiar híia parte da noite , ou
louvando a Deos, ou fallando com elle entre os seus livros ? Não
sò os Principes , os Capitães , os Phylosophos , os Poetas , & Paes
de familia se desvelão , & levantão de noite ( o que diz Aristó-
teles ser proveitoso â saúde , à fazenda , & à vida phylosophica )
mas também os ladrões, os salteadores, & o q he mais de ma-
ravilhar os loucos enamorados, a quem a memoria, & desejo de
? — 2. ver suas amigas desperta; «Sc nòs por amor da virtude, não abor-
receremos o sono amigo dos vicios? levãtãse de noite os ladrões
para degolar os liomês , & nòs para no» guardarmos delles não
despertaremos ? Vergonha hè por certo poderê tãto cõ os filhos de
Adã as cousas torpes . & feas , & as fermosas , & nobres não va-
lerè nada. Aristóteles parte a vida do home de tal maneira, que
híia metade seja pêra dormir , & a outra para velar , & diz > q
na híia destas metades em nhíia cousa differe a vida do sesudo,
da do sandeu , & se por o dormir quer enteder a noite , & por
velar o dia , eu confesso q a tal divisão he boa , por que a noi-
te , & o dia partem o espaço do têpo em iguaes partes. Entre as
quaes todavia ha outra differença, & he q a da noite cõmíimen-
te he mais accõmodada â aguda , & alta contemplação , dos q
meditão, & estudâo. Mas se entendeo q ametade do tempo se
lia de gastar em dormir, raíiraYÍlha he q da boca de híí Varão
DAS QUEYXAS DOS ENFERMOS, B CURA DOS MÉDICOS. 21
tão csttidioso, & especulativo saissc tal dito. Não qlieira Deos q
híia alma bè doutrinada, & dada a bõs estudos, durma ameta-
de do tempo ; pois o quarto bastou a algíis, & o terço basta ain-
da aos viciosos. Não pcrmitta o Senhor q os q so occupão, &
cstudão em algíia cousa alta , durmâo toda a noite , inda que
seja do verão. Na cjual o que se perde do sono, se pode cobrar
com dormir hum pouco entredia, quando for necessário. As
noites do inverno não sò híia, mas muitas vezes, se devem in-
lerruper cantando , estudando , lendo , escrevendo , & repetindo
cò a memoria o que cõ o estudo for achado. Doutrina he de S.
Jerónimo escrevendo a Eustochio, que em as noites duas &. três. 9 — 3»
vezes nos avemos de erguer , & revolver na memoria , o que das
escripturas temos lido, & por fim os olhos tô taes estudos fadiga-
dos com breve sono se devem recrear , & depois de recreados ,,
outra vez co exercício se hâo de cansar, pêra q dormindo as
noites inteiras metidos sob a roupa, não pareçamos corpos sepul-
tados, mas cõ movimêto honesto nos mostremos vivos, & solici-
tes pêra a virtude, & estudiosos da sapiccia. Os homês q se que-*
rê sinalar nas letras , & nas armas , & bõs costumes , deve velar
muito, & dormir poueo^ como elegantemête.cãtarào os Poetas,
nestes versos.
Nonjacet m tnoli veneranda scicniia ledo :
Venter ^ pluma ^ F'cnns, laudem fugiaida scquenti
í^igili siant hclla rnagislro.
u4poh Pois lie verdade que sonhamos de noite com o que tra-
tamos de dia (o €|ue he mais sinal do preserite que do futuro)
bõs, & nobres devem ser vossos sonlios, & conformes ao nobre ylrist.lihr.
exercicio do bom estudo, & varia lição em que gastais a vida. 1. Elh. ca.
Os sonhos dos bõs homês são melhores q os dos mãos, f)or que 13.
lhes occorrê quando sonhão os pensamentos, & exercidos das
virtudes, em que na vigilia se oceuparão. Rica, & preciosa pos-
sessão he a sciencia ; nobilíssima he a imaginativa dos Theolo-
gos, & phylosophos , ornada, & ataviada de illustres imagens.
Quanto mais honrado he o nosso Galeno que Antonino Augus-
to? Felice o que ornou sua alma de virtudes, & artes excellen-
tes, cm que consiste a verdadeira sapiência..
y^ni. Bem me parece o que sentis dos bõs sonhos : q taes po- í) — 1,
de elles ser que seja sem comj)aração melhor dormir sem sonhar.
E pois de mil sonhos não sae hum certo, & pela maior parte
nos enganão , jmuco vae era sonhar cousas tristes , ou alegres ,
por quanto o engano do triste sonho nos alegra, & do alegre nos
entristece em acabando. O que he felice dormindo, he miserá-
vel acordando : & mais são as mentiras dos sonhos que suas ver-
dades.
^pol. Dizeime logo que he o que vos doe, & aformçiitíi?
22 UIALOOO PRIMEYRO
u4nt. Sinto hum rogido da parte esquerda do ventre , donde
se me levantâo vapores ao coração, & cérebro, que me causão
ano^ustias, tremores, &. imaginações tristes sem conto. Não hâ
Llh. 28. c. animal segundo Plinio, que em suas entranhas não tenha algíí
10. remédio proveitoso à saúde do homem. E entre tantos não ouve
hum pcra mim. Jà não tenho mais que os ossos, & a pelle, jaa
as va^-arosas chamas me gastarão o vivo das entranhas. Sou se-
melhante ao Bogio do vosso Galeno, que se secou, & mirrou tè
que acabou, o qual elle anatomisou, & achou que tinha con-
sumida toda a agoa da pericardia (membrana que está cerca do
coração) & que padecia maràsmum ; isto he , exsiccação.
Apol. Mais me pareceis o gallo de Galeno que padecia tre-
mores do coração , o qual elle também anatomisou , & entendeo
que lhe procediào da sobeja agoa, que tinha nessa pericardia.
yínt. Não estou desassizado como daes a entender, nem bebi
o vinho maroneo celebrado de Homero, que misturado com ce
10 — 1 . partes d^agoa , conserva seu vigor. Nem me transportou algua
fortuna doce , q se me passou pela porta , apenas lhe tomei a
salva. Nem bebi da agoa do Rio Gallo em Phrigia , que quãdo
pouca he mesinha , quando se bebe muita move o juizo de seu
lugar. Não me quero dessa maneira. E sabei que sofrerei com
animo , & esforço toda a adversa fortuna , mas despreso , de ne-
nhua qualidade. Conheçome que não sou Aristides, o qual sen-
do justíssimo , levandoo a Athenas a justiçar, ouve que lhe cos-
pio no rostro , & elle limpandose disse com quietação , «Sc sorrin-
dose ao Juiz ; amoestae àquelle homem que não buceje outra
vez como desta.
Apol. Digo que tudo pondes em seu lugar , & que vendereis
sizo a Catão.
Ant. Pouco vae em me terdes noutra cota. Antiphon Ra-
musio orador em Athenas condemnado de seus adversários, res-
pondeo q não fazia caso de sua sentença , visto como tinha por
si a de Agatho phylosopho Pythagorico varão muy justo , «Sc sá-
bio. Se os Catões , os Scipiões , se Lélio o sábio me teverem em
mà conta, sentiloey muito. Não pode ter algua authoridade a
sentença, quando o que merece ser condenado nos cõdena, &
diz mal de nos. Louvor he , desagradar aos que não fallão com
juizo, nem sabem fallar bera, senão o C|ue custumão. Não di-
zem mal dos bõs, mas de sy, os mãos, que delles praguejao, &
tanto mota sermos delles louvados , como sello polas obras màs
que em nossa vida fizemos : muito melhor he ser gabado de hum
soo , que tambè o he de muitos , que de muitos outros , do no-
10 — 2. me dos quaes apenas ha noticia, por serem tidos em pouca con-
ta, & se ha algua he pêra os desacreditar.
DAS QUEYXAS DOS ENFERMOS, E CVRÁ. DOS MÉDICOS. 23
•A/\ Ma%w\wvvvv\CfV% t%« VV\ %'V% vv\ »««/« vvx vv\ wv\ «vx vv\ vw\ vv%vv%«^v\ vv% vv% vv^
CAPITULO IX.
Contra os que irasem cheiros ,• ôf da rcprehcnsão dos amigo*.
^pol. Esforçae,^ Anfiocho, & nao vos entregueis tanto a esse
leito, inda que dourado.
yínt. Quanto melhor fora jazer no leito dellíey David, não
fabricado de marfim, nc cuberto de pérolas, & pedras preciosas,
mas acompanhado de louTores divinos , & regado cu arroyos de
tâtas lagrymas, que pelo silencio da noite vertia de seus olhos.
Ardia aquella alma devotissima no fogo do amor de Deos &
contrição de seus peccados , & por que os negócios , & cuidados
do Reyno lhe occupavâo os dias , as noites que os outros homês
dão ao sono, passava em orações, & sospiros soidosos do Ceo.
Então fazia cõfissão dos peccados a seu Deos & mostrava senti-
mêto de o aver offendido; &, sobre tudo reconhecia as mercês
que delle tinha recebido, cò fasimento de muitas graças- Quan-
do os animaes repousão, & descansão dos trabalhos, & cansasso
do dia , David velava , gemia , lamentava , orava , & suspirava
por Deos. Tal leito, & cuberto de taes lagrimas triúplui das la-
baredas do inferno. O leito do Patriarcha Jacob na terra dura
com a pedra à cabeceira foy causa de elle ver aquella pedra in-
telligivel & as escadas por que os Anjos sobiào & deciào , òc de
sonhar tão doce sonho.
^pol. Se dormireis em hum leito como esse , alegrarão os so- 10 — 3,
nhos vosso coração.
yint. Mais por certo do que me recreão os prefumes a que
me cheirais. Quanto melhor fora sair de vòs o cheiro suavissimo
das virtudes, & o cheiro de requie celebrado nas divinas escrip-
-Uíras?
jípol. Deveis d'estar de quebra com os cheiros, eu folgara de
ouvir a estima em que os tendes , que não he tão reprovado o
seu uso como vòs o representais, nem tão mal recebido como o
fazeis, inda q parece infirmidade de iiomes effeminados.
Ant. Não ha cousa m<!nos cheirosa que a alma daquelles, cu-
jo corpo, & vestido recende a perfumes. S. João Chrysostomo
diz, que cheirar o corpo, & vestidt^, he argumento de alma Tom. 1.
immunda, & fedorenta. Depois que o Dialnj enche a alma do fíom. l.dc
mao odor dos vicios , trata de embalsamar , & aromatizar o cor- Lnutro.
po, pêra que acabe de enjuriar o homi-m de todo. Os que pa-
dece j)ituita, & catarro perpetuo dos narizes, sujão o rostro,
maõs, & vestidos, & nunca acabão de se alimpar : assi a alma
do peccador nunca cessa de contaminar o corpo com o fluxo de
"Ôl- DIALOGO rRIllEYRO
suas torpezas. E isto he o por que Deos não quis áacrificio d©
mel queimado, por que cheira mal, & clle quer de nos fragra-
Lib. 13. c. cia spiritual. O vosso Plínio estranhou muito còprar caro cousa
3. de un- que deleita o sentido alheo, & quem trás o cheiro não o sente.
gti^nt07-iim Os Lacedemonios vedarão os unguentos , por que incitavao a vi-
prcliis ma- cios , & desordenados desejos , & pugnão em igual grão , chei-
gnis. rarem os homês a unguentos, &. viverem deshonestamête. S.
10— 4. *Hyeronimo chamou aos odores peste, & veneno da castidade;
& Plauto disse que então cheirava bem a molher, quando a na-
da cheirava.
Apol. Muy censório vay isso , deveis de ter bom olfato , que
nace do cálido, & seco temperamento do cérebro, & he prôpto
pêra imaginar por causa do calor, & tambè he tenaz das imagês
por razão da secura, & por tanto os de bom olfato tem bom en-
genho : mas também vencera os outros homès , no que são ven-
cidos dos brutos animaes. A aguea faz ventagem ao home no
ver , o cão no cheirar , o pato no ouvir , porè são lhe tão infe-
riores em fazer juizo das cousas sensíveis ( por não ter o sentido
Comum tão perfeito como o nosso , tSc lhes faltar de todo o dis-
curso da razão, tSc não poderem comparar hum sensível cõ o ou-
tro ) que nossas noticias sensíveis são muito mais perfeitas , q as
suas.
j4nt. No campo Narniense secase a terra com a chuva, & com
a calma humedece, & assi ha homês que com a reprehensão em-
peiorão. Amargouvos a verdade sèpre pregada , & de todos lou-
vada na casa alhea, & nuca bem recebida na própria. ElRey
i ^yro por hum vicio q lhe reprendeo Arpago seu familiar , deu-
Ihe a comer os lilhos em hum convite. Cambvses por que híi seu
valido o notou de bêbado , matoulhe o íilho cò hua seta. Ale-
xãdre por que lhe dizia Calisthenes que se não deixasse adorar
como Deos , mandoulhe arrancar os olhos , cortar as orelhas ,
mãos, & pes, & assi morrco em hii cárcere; por reprender o in-
cesto foy degolado o grande Baptista , em outro cárcere : Nxdli
11 — ^' grata reprclicnsio , quia moruni iiostrorum vitia castigai^ diz
Salviano. A ninguém apraz a reprehensão por q castiga nossos
viciosos costumes. O que he falta de consideração, pois mais da-
na, & prejudica a lingoa do adulador, que a mão, & espada
do perseguidor; que esta às vezes nos emenda, & aqlla pôe nos
hua molle almofada debaixo da cabeça, pêra jasermos em o mao
estado , de que nos devemos levantar. Com seguridade , & gos-
to se fazem as màs obras , quãdo não he temido o reprehensor ,
mas louvado o feitor. Reina o vicio da adulação , por que se
tem por amigo , & humilde o que louva , & lisonja : & reputa^
se por envejoso , & soberbo o que não sabe adular, mas repre-
hender. O fiel amigo não muda as cores como Cameleào , mas
DAS OUFVXAS» DOS ENFERMOS, E Cl/BA DOS MEDIC06. 25
tal he seu coração , qual hc o seu roslro , & sempre fala a mes-
ma lingoageni,
%IV» ««V^ VVU VVV » V» V»a V«i% «'V^ Vt/« %'V\ t/V« %Vi tfVt t^«\iVVV vv\ vv\%vv vvv wv\ vvvvvvvvv
CAPITULO X.
Dos aduladores j ò( a diff crença delks aos verdadeiros amigos.
Alimento he da culpa a lisonja , como o óleo he nutrimeto
da chama. Armão os lisonjeiros silladas a nossas orelhas, & com
doçura de palavras aprasiveis, impetrào o que querem, & fazem
que creamos mais a elles que a nos mesmos , corrompendo nosso
juizo com o veneno brando de sua lisonja. Hay , dos que tê por
amigos seus meigos inimigos, & dão orelhas a falsos louvores,
que conhecidos por taes, & regeitados muitas vezes fjnalmèle
tomão posse dos corações, laços nos arma o mao home que nos
louva : E o peor he que por muito mao, & perdido que hum
seja, mais quer ser lisonjeado cora mentira, que reprehendido 11 — 2,
com verdade. Mais quer ser enganado cõ gabos nocivos, que a-
■visado com desenganos saudáveis. Melhor estava nesta conta
Sào João Chrysostomo, quando notado hua vez que fazia grandes Tom. 3,
exórdios em seus sermões, affivmou que amava seus amigos, não hum. dtfe^
somente , quando o louvavão , mas também , quando o tacha- rcndxs rei-
Tão. Louvar tudo não he de amigo verdadeiro , inas de lisonjei- prcchenú,
ro falso. O bejo do amigo he sospeito , & a ferida do inimigo ,
medicamento. Todo o doce he opilativo segundo a regra dos mé-
dicos; retém no o estamago , por que se deleita com elle , &
não o destribue pelos outros mêbros , & como tem de seu natu-
ral entupir , seguese delle a opilaçào. Polo contrario rejeita lo-
go o amargo antes de ser cosido , que não causa opilaçào por lhe
ser natural abrir; & assi cõmíimente todas as mezinhas com que
se expellem as superfluidades do nosso corpo, são amargosas. He
a lisonja manjar doce , & detém se com gosto , & daqui vem q
corrompe o juizo, & empede a correição. He a reprehensão uti-
líssima, inda que se rejeite, por que amarga. Ouçamos David:
CÀ)rrijhat me justus : bem sofrerei eu , & de boa vontade que o Psal. 14.
varão justo me reprehenda , castigue , &. fira com misericórdia ,
& humanidade , porem o óleo do peccador , & sua lisonja não
pingará minha cabeça ; a sua suavidade , & brandura ; o seu fa-
vor, & aparente benevolência, os seus simulados louvores não
me mollificarão, ne terão negocio comigo, melhor me he a mim
ser encôtrado , castigado & assoutado da mão dos bòs , q ungi-
do, & untado com unguento precioso de mãos dos mãos. Porque 11—3.
09 assoutes daquellee, sàrão as infirmidades do animo, & os un-
4
26 mXLOdO PRIMEYRO
guento?, & palavras meigas destes são nocivas; quebrão as ca^
becas ; trastornão os sentidos ; botão o juizo , & lançao em per-
dição as almas : prendem , & cnganão os corações dos innocen-
tes , são fomento , & pasto dos peccados. Algo mais de varão he
dar orelhas aos maldizentes , que aos adidadores , por que nos
ditos daquelles às vezes se acha algíia secreta medicina, & nos
destes sempre está manifesta a peçonha. Os primeiros, muitas
vezes sàrão mordendo, & os segundos mordem afagando. Passe-
mos pois pelos cantos das Sereas como surdos com as orelhas ta-
padas , ôc não nos enchamos de vento que nos faça rebentar em
nosso danno : & entendamos que não he fácil conhecer quaes são
os aduladores, & quaes os amigos de veras. Todavia se conhece
híis dos outros nas adversidades. He tãbem próprio do adulador
accõmodarse aos costumes do adulado , & fazer o que elle faz ,
& mudarse quãdo elle se muda ; pelo que he comparado à som^
bra , a qual sempre segue o corpo & o vay cõtrafazendo. O a-
migo não se accòmoda mais que ao bem , & assi he comparado
á luz , que alumia sem se macular a si mesma. O auulador em
todas as obras que são & parecem boas , nos dà o primeiro lu-
gar, & em os vicios nos excusa. P^inalmente nunca procura ou-
tra cousa , senão cõtentar o lisonjado , assi ê mal , como em o
bem. O que não faz o amigo, que nunca nos quer comprazer,
senão no que he honesto : & se vè em nòs algíi vicio , não dei-
11 — 4. xa de nolo estranhar. Quãto daria cada qual de nòs por hum
. . tal espelho , que se visse nelle por detrás , & por diante , & não
sò seu corpo, mas tembem sua boa, ou mà condição? Este tal
-espelho tem , de graça , o que quer ser repreliendido de seus vi-
cios, tomando o conselho dos q sem paixão vêem suas màs incli-
nações , & condições , que elle cõ sua cega affeição não pode
ver. Para sua emenda deve ter cada qual de nos ou hii grande
amigo , ou hii grande inimigo. Este nos descobre as falhas & a-
quelle não as approva. Admittia Deos no sacrifício sal , & não
mel. Cõ osculo de paz êtregou a Christo nas mãos de seus ini-
migos. Judas trèdor. E Sam Paulo com a espada da amoesta-
ção salvou o Chorintio deshonesto. De modo que ha beijos peço-
nhentos, & feridas medicinaes. Beijou o Demónio a Eva pro-
mettèdolhe divindade, ferioa Deos com as penas da mortalida-
de ; mas aquelle inimigo a lançou do Paraiso cõ esperanças fal-
sas de ficar immorlal , & este bom amigo a reduzio à vida com
as ameaças, & desenganos da morte. Salamão nos provérbios,
Prov.c.12. diz, que o que avorrece a reprensão he insipiente. E no Eccle-
Ju:clcs.c.7. siastico : Mclius est à sapiente corripi, qfiain stultonim adulatlo-
ne decipi. O amador da verdade , qual he o sábio , nem teme o
reprehensor , nem faz mao rostro ao que amoesta. Sempre a re-
prehensào do amigo se deve aggradescer , por q se hè justa iui-*
DAS QLEYXAS DOb ENFEIOIOS , K CURA DOS MEDICOà. S"?
pugna o peccado, & se he injusta obriganos a boa vontade, &
intento com que a deu, a conhecermos o benelkio de amor;
que não nos avisara, se não amura. Inda que algíia j)essoa que-
rendo fazer bem nos offenda, não deixamos de Uie íicar em o- 1? — 1.
brigaçào respeitando a bondade do animo, & não sua pouca cô-
sideração ; por esta se deve culpar a natureza , & por aquella
louvar a vôtade. O que quer ser de veras louvado não ouça a
que o líjuva, porque ainda que a al^^un) seja fácil não fazer con-
ta dos louvores quando se lhe ne-jão, he lhe difficultoso o não se
deleitar em elles quando se lhe offerecem. He como salteador o
appetite do louvor humano, que saindo de silada aos que vão
seu caminho, co seus enganos lhes tira a vida, & rouba a fa-
zenda. Grande cousa he merecer o louvor, &. não o querer. Fa-
zemos nossos os vicios que em os amigos sofremos. Olirão as a-
moestações cõtra os peccados, o que os unguentos contra as cha-
gas , & se he sandeu o enfermo q engeita as mezinhas , também
o he quem não agasalha cò animo grato as amoestações. S. A-
gostinho escrevendo a S. Hieronymo duvida, se se devem ter
por amisades christãs aqllas em que vai mais o vulgar provér-
bio, Obsequium anúcos , veritas odium parit ^ que o Écclesiasti-
co , Meliora iút vulnera diliocntis , quain frmuíulcnta oscula o-
dicntis. O medico não ama o enfermo, se não te ódio à sua en-
fermidade , persegue a febre para livrar delia o fcbricitãte. A-
memos os amigos , & não os seus vicios , nem todo o que per^-
doa he amigo , nem todo o que castiga he inimigo. Guardenos
Deos das sentidas musicas , & doces cânticos das sereas , que nos
lanção em perdição se lhe abrimos as orelhas. Sò Jesu Senhor
nosso não ouve mister conselho, nem teve necessidade de ser a-
visado. Fulgêtissimo he o Sol , & toda via às vezes falta a sua
luz meridiana , & basta qualquer nuvem pêra não chegarè a nôs 12 — 2.
os seus rayos. Por muy considerados & sábios que sejào os ho-
mês, não pode negar que algíias vezes a nuvem da ignorãcia, e
incõsideração turba as agoas claras de seus subtys entt-dimêtos.
Se vos notara òc prasmara algu defeito no vestido, ou calçado q
trazeis, quiçá me déreis por isso graças, mas não podestes sofrer
twarvos nos costumes, &, notarvos de effeminado. Da saúde da-
quelle se potle desesperar , cujos ouvidos tão fechados estão po-
rá a verdade, que nem de seu amigo a quer ouvir. Aquelle
grande Moses (a quem Theodoreto Bispo Cyrense cliamou Ocea-
no de theologia) exercitado na domestica, & peregrina erudição-
dos Ilebrcos, & Aegypcios, ouve mister o consellio de seu sogro
Jelliro home Bárbaro, & escuro, & sobre tudo infiel. E vòs co-
nhccendome por amigo, & Christão, tomastes vos de meu avi-
BO. Em vòs vejo com cpiãta verdade disse o eloquètissimo Chry-
eostomo , que sofrer a repre]iêsâo cO igual animo era pregão , &
4 «
28 DIALOGO PRIMEYRO
louvor não de vulgar , & comum , mas de rara , & síima phylo-
sophia, & em mim vejo a obrigação que tenho de vos dizer,
não o que vos folgais de ouvir, mas a verdade que a mim he
decente fallar. Hai dos que fazem o amargozo doce , Ôc api-ovão
o que se deve prasmar & reprovar.
CAPITULO XI,
Da natureza , ^ uso dos cheyros%
j4pol. A vossa amoestação tomo em boa parte. Em regra de
amizade cabe , que o amigo seja advertido de seu amigo , & que
12 — 3. entre ambos aja hum accusador, & censor dos males do outro.
Porem não ha rezão pêra aborrecerdes em tanto estremo as species
odoríferas; antes cuido que se deve grandemête estimar. Todas
as cousas que tem o humor bem cozido , cheirão be , por que o
tal humor he tenuissimo : & quasi todalas flores cheirão suave-
mente ; porque com muita facilidade se cose nellas o humor pou-
co 5 & delgado , & pelo mesmo caso facilmête se gasta. E esta
he a causa porque a algíis moços cheira be o bafo , nos quaes o
vehemente calor coze bem o húmido sutil. Daqui veo o que al-
gíis poserão em suas historias , que o spirito , & bafo de Alexan-
dre Magno era suave, porque tinha o corpo seco, & o calor ve-
hementissimo. De mais disto os odores de sua natureza vão se ao
cérebro , donde llie vem que elles sòs entre as cousas , q cos sen-
tidos se percebe , podem ou recrear , ou matar o homem , que
se são bons alimentão , & se mãos danão o spirito em que reluz
a operação d'alma. E he certo que nenhum animal , tirando o
home , se deleita cô as cousas odoriferas. Os cães sente o odor
das flores, mas não se recreão com elle. Convinha aos brutos a-
nimaes deleitarse no gosto & tacto , que de outra maneira pere-
cerão a fome , & não curarão de gerar , nem evitarão as cousas
nocivas , se no gosto , & tacto não sentirão , ou dor , ou deleite :
mas em os outros sentidos não se podem doer , nê recrear , por
que isto cõsiste no conhecimêto da proporção das cousas , como
dupla, tripla, &c. o qual he de potêcia mais alta que a das
bestas. Do que está dito consta quanta rezão teve Alexãdre A-
12—4. phrodiseu em aconselhar , q no tempo de peste fogissem os ho-
mês para campos, & prados cheos de flores, & ervas cheirosas.
E quanto ao que allegastes de S. Hieronymo, ha se de entender
das pessoas que trazem cheiros pêra delicias , & incitamento da
sensualidade , cousa que nunca me veo ao pensamento. Os mo-
derados cheiros são proveitosos , porque com elles se coufortao os
DAS QUEYXAS DOS ENFERMOS, E CUBA DOS MÉDICOS. Q9
spíritos tristes, se refazem os cansados, & se despertao quando
estão languidos. O iinpuento ])r(^cioso que cõsigo trouxe a suncta
penitête Maria Magdalena, nao foy drsagradavel ao Senhor.
Ant. Os eheiros dos manjares despertào a gula, & os dos ves-
tidos ascende a luxuria, & o desejo destes he sinal (ie inconti-
nência, especialmente se he demasiado. Ha Outros cheiros que
por sy mesmos são desejados, como os das flores, o estudo dos
quaes nâo se reprehède por fc<) , mas por liviano ; donde proce-
de q o odor das unturas molheris, & o dos manjares he mais
deshonesto, que o das flores & fruitas. E o mesmo se deve jul-
gar daquellas deleitações , que por as orelhas , ou olhos se per-
cebe. O' se o nosso cheiro fosse de boa fama , que também se
chama bom ou mao, & sentese de mais longe que o das espécies
quando se moem, ou o do enxofre quando se queima! Deste tal
odor nao julgão os narizes , mas a rezão he por obedecer ao sen-
tido, & hir trás os deleites, se usa dos cheiros, he cousa vicio-
sa , mas se por rezão da saiíde , te algíia escusa , com tal que no
uso delles haja temperança, cpie he o adubo de todas as cousas;
de nenhíia cousa muito, disse o poeta cómico. Mas como em
muitas cousas, assi nesta hà grande diversidade de condições, 13 — 1.
não io entre homem , & liomê , mas entre gente , & gente :
mormente se he verdade o que se diz , que a gente que mora
junto do rio Ganges, por que carece de todo género de manti-
mêtos, sò com o odor das maçaãs silvestres se cria : & quãdo
caminhão nenhíia cousa levâo comsigo, senão a maçãa de cujo
cheiro vivem. E soffrem tão mal o mao cheiro, que como o
bom , & limpo os alimenta , assi o mao , & sujo os mata , tão
delicada he a sua compleição. Item toda a gente que está volta
contra a parte oriental , regrada cò a suavidade do ceo , como
em os manjares são mais negligentes, assi tem mais necessida-
de, & mor desejo de odores, & são delles mais curiosos. Aos
quaes os Antigos resistirão per algum tempo com sua áspera, &
nâo vencida modéstia. Em tanto que no anno de 560. depois
da fundação de Roma , sob graves penas foi prohibido por os
censores, que ninguém trouxesse de fora cheiros a Roma. Mas
não muyto tempo depois por os vicios dos modernos foi quebrada
a ordenança dos Antigos, & no mesmo Senado Aullior de tam
boa ley, victoriosamente entrou este deleite. Os cheiros alheos,
& todo o artificio pêra bem cheirar, são argumento que o cheiro
natural , & próprio de quem os usa , não he bom , & são sinaes
de defeitos escondidos, & por isto, & porque he cuidado não
digno de varão, nem de molher honesta, soia ser aborrecido dos
esforçados, & constantes varões. Lembrevos daquelle mâcebo muy
perfumado, que estando diante de Vespasiano dàdolhe graças
per hua mercê, q Die avia feito; em lhe cheirando, com o so- 13 — -2.
30 I)ÍAI,OGO PKIMEYRO ;
bresenlio irado, & a voz áspera lhe disse, mais quisera q me
cheirareis a alhos; & assi corrido, & rotas as letras da graça
concedida, o deixou com seus perfumes. E nâo somente sào des-
honestos os bons odores, mas lambe são alguas vezes danosos, &
perigosos. Contase de Plaucio varáo da ordem dos Senadores,
que com medo da morte a que estava condenado, se eseòdeo em
as covas de Salerno, & tirado delias per o rastro de seus cheiros,
não sò forào elles causa de sua total destruição , mas também
escusa pêra a crueldade de seus condenadores. Porque quem não
dissera que justamente devia morrer aquelle q no tempo em que
a Republica estava em tanto perigo, & os triumviros encartavão
aquelles de que se davao por offendidos, andava cheirando a
unguentos? E se he cousa fea usar sem modo dos cheiros natu-
raes , mais feo he o uso dos artiíiciaes , porque todo o que he
d«shonesto , tanto mais o he , quanto mor diligencia se põem
nelle. Inda que os Romanos devào muyto àá virtudes de Scipiào
Affricano , também devem algo aos perfumes de Anibal que o
effeminarão. E se chegarão os unguentos aos pees daquelle Se-
nhor , que era vindo a extinguir todo o regalo dos corações , &
iodas as meiguices dos deleites, entendei que se não deleitou
com elles, mas com a piedade das lagrymas de quem lhos of-
frecia. Seja Deos louvado, que ja amainou entre nos esta fra-
queza , & se algíis inda agora se lhe entregão , não peccão por
commum vicio do tempo, mas por o seu próprio.
13 — 3. ApoL Não pode ser que as cousas de sua natureza recreativas,
nos não levem trás si , & que sendo presentes nos não deleitem.
Dito he de Salomão, que o coração se alegra com unguentos.,
& diversidade de cheiros,
Ant. O meu conselho he este , que aos odores quando estive-
rê ausentes se resista cô esquecimento, & menospreso; & quan-
do presentes cò temperado uso ; & que se não ponha nelles algum
estudo, pêra que nem por sinaes venhamos a confessar, que so-
mos servos de cousas baixas , & vis. Este he o parecer de Sãcto
Augostinho que diz : do leite dos odores não faço muito caso;
quando são ausentes não os busco, quando presentes não os en^
geito, aparelhado pêra sempre carecer delles.
ApoL Venhamos ao que faz pêra cobrardes a saúde desejada,
& por o menos vos melhorardes em doença tão prolongada, nem
debatamos mais sobre o trazer dos cheiros , que eu quero ser o
culpado, pois vòs assi o quereis.
DAS QUEYXAS DOS ENFERMOS , E CURA DOS MÉDICOS. 31
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CAPITULO XII.
Dos mcdicos do Cco.
/Int. Quisera antes em minha capa aquelle medico celestial
que curou as febres da so^rra d(> t^âo Pedro. Se este Senhor me
tomara o pulso, & eu com viva fee, & dor de minhas culpas
me chep;àra a elle, acharào remédio meus ays, & meu corpo,
& minha alma saúde com mais presteza &. menos praslos. K pos-
to que convém honrar os médicos pola necessidade q delles te- lí» ^••
mos, como diz o Ecclesiastico ; com tudo nào em elles, mas em ^^P- ^8.
De(B se ha de por a confiança. NoParalipomenon foi gravemen-
te reprehendido Assa Rey de Judà, que estando enfermo de Po- Lib. 2. ca.
daçra, em as dores vehemcntissimas que padecia, nào buscou o 26.
Senhor, mas confiou em os médicos, & em suas -varias mezinhas •
com que consumem a substancia, & atormentào os corpos. Te-
nhome eu com aquelle medico sempiterno, & jjrimás, a quem
8ào João Chrysostomo chamou Archiater. Este sabe tocar as Clirt/sosto-
veas, examinar o secreto das enfermidades, &. aplicar a cada '«"•'< '<'• -2.
qual delias remédio aceommodado, & efficaz. Nào toca as ore- hoin. (>. m
lhas, nem a fròte, nem outra parte do corpo, salvo as màos : lUurcum.
que se minhas obras se melhorarão , ja minhas febres continuas
abrandarão, & minhas dores cessíirào : mas porque me eu nào
melhoro , jaço neste leyto , arguido da consciência de meus er-
ros, pasmado de ver meus ossos convertidos em cinza. Alguas
horas (como desatinado das penas em que vivo) me parece ter
razào o vosso Cornelio Celso em affirmar, que o summo bc do
homem estava posto em o saber, & o summo mal em padecer
dores corporaes. Acusome primeyro, & quero anticiparme, por-
que aveis de dizer , & com verdade que padeço por meus pecca-
dofe. Que todolos calamitosos, & infelices sào susjkmIos de malí-
cia. Commummente o vulgo dos homês quãdo vè algíis desem-
parados dos bens, q chamào da fortuna, opprimidos de males
extremos, & mortos de fome, nào soem ter boa opinião delles,
Pela adversidade em que os vem julgào a vida & obras que fe- W 1,
zerào. Isto sentiào de Job seus amigos vendo suas misérias , &
de S. Paulo os bárbaros Meliteos, quando virão a bil)ora pêdu-
rada de sua mão. Sò do medico do Ceo espero remédio, òc ne-
nhum dos da terra nem de seus medieamètos. E vos Doutor nào
percais comigo boas horas, porque, quanto eu entendo, meu
mal he incurável. Escusados sào para mim todos os Aphorismos
do vosso Hippocrates, .S. quantos remédios apontào os vossos
Doutores. A Virgem Suncti»sima he patrona dos fracos, & mi-
552 DIALOGO PRIMEYKO
seraAcis, bubre cUos csprayava seus olhos misericordiosos, & qua-
si para toda a outra gente os cerrava. Para sò os humildes , des-
prezados, & enfermos soia a Virgem olhar. Estas erão as agoas
aprazíveis , & o jardim delicioso em que recreava sua vista. Es-
Claud'iano ta Senhora he aquelle têplo verdadeiro de misericórdia que esta-
lydibus va em Alhenas no qual os desconsolados offrecião lagrymas , &
aras, àip-o- gemidos. Com lagrymas se quer servida, com gemidos venera-
primn mi- da, & suspiros nos pede em lugar de oblações. Tem esta Senho-
sens nome ra mayor cuidado de acodir às necessidades dos homens , por se-
postãsti A- rem remidos à custa do sangue de seu fdho , que se ella com o
ilicn. seu próprio os remira. Como tem em mais a Christo que a si
mesma; assi estima mais os que Christo remio, que se ella c5
seu sangue os remira ; quâto mais que seu era o ^ Christo der-
ramou. Por isso se chama madre de misericórdia, porque em
algíia maneira he próprio seu apiedarse das misérias humanas.
E como nào manará piedade abundantíssima do lugar onde na-
14 — S. ceo, & esteve por espasso de nove raezes a fonte de misericórdia,
& a mesma piedade ? Tambê o Archanjo S. Miguel he medico
admirável, que sarou Aquilino versado nas causas forenses. Re-
Lih. 2. ca. fere a historia Tripartita q padecendo Aquilino febres cholericas
Vd. ardentíssimas & estando quasi morto em mãos de médicos, se
mandou levar à Igreja de S. Miguel de Constantinopla, onde
lhe fallou de noite o Archanjo , & lhe mãdou que tudo o que
comesse molhasse em hu xarope feito de pimenta, vinho, &
mel , tSt fazendoo assi alcançou saúde contra toda a arte de me-
dicina.
. Apol. Gentil intervallo foi este vosso. Faltastes como bom
Christão que vòs sois , & como quem está na verdade. Deos he
o verdadeyro medico , & fonte perene de todo bê , a elle nos a-
vemos de socorrer primeyro , &, sò nelle avemos de firmar as an-
coras, & amarras de nossas esperanças. O inteiro Christão fun-
da sua fee , & esperança em Deos; confia que se apiedará dei-
ie, & o proverá de oportuno remédio, resigna se em suas mãos,
& delias toma as tribulações, & adversidades em que se vè. Muy-
to mal me parecem enfermos impacientes, que logo renegão &
desesperão com a impiedade que tem fixa nas entranhas , mais
gêtios na opinião que aquelles Romanos, cujos cippos vemos em
Espanha. Dizia hum delles,
Lucins Carnellus , Legatus , sub Fahio Cònsule , desertus ope
medicorum è( Aesculapij , cià me vovcram sodalem perpetuo
futurum : L. Fabius hic me condidit.
i4 — 3. Eu (diz) Lúcio Cornelio legado sob o Cônsul Fábio, morri des-
em parado da ajuda dos médicos, Sc de Esculápio, a quem me
tinha dedicado, & promettido, & Lúcio Fábio me sepultou a-
qui. E outro dizia.
DAS QUEYXAS DOS ENFERMOS , E CURA DOS MEDIC09. 33
Nec dii, neque causa mclior me miscrn annos attingentcin vi-
ginti à niortc cripucre.
Nem os Deoses , nem a melhor causa ( qual foi pugnar pola li-
berdade da pátria) bastarão pêra me livrar da morte. Triste de
mim que escassamente entrava nos vinte annos de idade. E hum
iiucio Cominio alrotando dos seus Deoses disse.
Neque Hercules , quem Gades colút , nec Bcllona , quã Ca^
mcrtes adorant , neqtie dii oinncs Romani eripere me à mor-
te potuerunt,
!Nem Hercules honrado dos Gades, nem Bellona , a quem os
Camcrtes adorâo , nem todos os Deoses Romanos me poderão
defender da morte. Quanto melhor andastes em vos socorrer á
sempre virgem Madre de Deos, verdadeyra Minerva, allivio em
todos os trabalhos, & medicamento das dores do coração.
yínt. Devota, & suave foi aquella palavra de Sam Bernardo:
Tsinguem tem licença pcra callar a misericórdia, & piedade da Ser.de As*
Virgem Nossa Senhora, a familiaridade com que trata os habi- sumptwnet
tadores da terra , a boa vontade que lhes tem , & a instancia
com que por elles roga , senão aquelle a quem ella faltou , pe-
dindclhe socorro em suas afflições, & desconsolações. E pois nin-
guém a achou menos nas mores pressas, chamelhe todo o mudo
mày de misericórdia. Como Deos pay do misericórdia, & de to- 14 — 4.
da a consolação, vendo sua profunda humildade a enriqueceo
em tanta maneira de graças , & does espirituaes : assi ella ven-
do nossa miséria como madre de Deos graciosissima lhe pede aja
de nòs piedade , 6c olhe cò olhos misericordiosos , & brandos
(quaes são os seus) para todos os fdhos de Adam. Affirma San- Lib. de ex-
cto Anselmo aver visto, & ouvido a muytos, estando em gran- cell. Vir-
des perigos, escapar delles em se lembrando, & chamando pelo gin. c. 6,
nome de MARIA , & que algíias vezes alcançavào os homens
mais prestes o que pedião, & se comprião com mòr brevidade
seus desejos, bradando por MARIA , que invocando o nome de
JESU. Avendo o Senhor JESUS de julgar os méritos > & de-
méritos dos homens como justo juiz, não ouve logo os ays dos
peccadores, nem acode com tanta presteza a suas necessidatles :
mas ouvindo chamar pelo nome de sua Sanctissima madre, inda
que quem se quer ajudar de sua valia não mereça que Deos o
ouça, os méritos, & privança da Senhora que por elle roga aca-
bâo com Deos que seja mais cedo ouvido. Grande he o Senhor Supr, Luc.
(diz S. Ambrósio) que por os méritos de híis perdoa a outros, c. 5.
como se vio na cura q fez no paralítico do Evãgelho. Vallião
cos homens as inlercess<1es d'outros homes , pois as dos servos va-
lem tanto ante o Senhor que tem mérito pêra interceder, & au-
çào pêra impetrar. Se desconfiamos aver perdão de graves pec-
cados, metamos primeiro rogadores, ton)emos por valedores a
34 DIALOGO PRIMEYUO
15—1, Senhora, & a Igreja, por cuja contemplação nos conceda o Se-
nhor o q alias nos poderá negar.
Apol. Não ha gosto que chegue ao que minha alma sente,
quãdo ouço híia boa doutrina , como essa. E inda que sou me-
dico na profissão, sabei de mim que estudando na universidade
de Coimbra, furtava hiia hora à medicina, pola dar à Escriptu-
ra, quando o insigne Doutor Payo Rodriguez a interpretava.
Mas tornando ao propósito, posto que nas adversidades, & en-
fermidades primeiro ajamos de recorrer a Deos , & seus Sanctos ,
nem por isso se hão de ter em pouco os medicamentos, que elle
criou , pêra remédio dos enfermos , nem os médicos que elle
manda honrar. Daime cà esse braço, Antiocho.
CAPITULO XIII.
' Da cwa do& Médicos da terra ^ òi da sua ignorância ò; enganos,
Ant. Ja me tomastes o pulso , & por que deter mirmes , se-
gundo vejo de me purgar , & enxaropar , & a esse fim pedis tin-
ta , & papel : confesso minha culpa , que me fio de poucos mé-
dicos. Dirvos ei o porq, em algum tempo aprendi aquella Theo-
logia, que a prudência do medico valia pouco se não era ins-
truída pella arte da medicina. Muyto mais certa hè a cura que
se faz per arte, que a que se faz sem ella. Hè cousa mui peri-
gosa , & temerária preferirem os médicos seus próprios pareceres
â arte, & sciencia que professão. E vòs outros quàto mais incha-
15 — 2. dos de Galeno, tanto sois mais opiniosos, & amigos de vossas
imaginações , & menos se vos dá de cpialquer em perigo de
morte.
Apol. Grande estudante deveis de ser, porque segundo vejo fi-
sestes na memoria hum rico thesouro de verdades solidas. Mas
não fazem vossas calumnias côtra os médicos prudentes , que sao
inimigos de paradoxos.
lÀh.^.con- Ant. Sancto Agostinho disse, que nunca tevèra por prospera
ira ^cdcfc- fortuna , se não a que lhe dava tempo, & ócio pêra estudar :
micos . & Séneca : ócio sem exercício das letras, he morte, & sepultu-
Epist. 8. ra de homem vivo. E por esta conta ja minhas prosperidades são
passadas , e o meu miido melhor acabado. Jà não sei parte de
livros amigos tão amados, & estimados de mim. Converteose o
amor que lhes tinha em avorrecimento : & na sua lição, & con-
versação (como em outras cousas que me alegravão) sento amar-
gor. Mas pois médicos me não dão saúde , nê allevião meu mal
■com suas receitas, ouçã,oiiie com paciência. Deveis estar todos de
DAS QVKYXA3 DOS ENFEIIMOS , E CVRA DOS MÉDICOS, 35
quebra com Plinio, que diz dos médicos estas notáveis palavras, L\h, 19.
Aprendem com uossíjs perigos, (St per mortcã fuzem cxperimen- Hhionao
tos , &. sò os médicos malâo homens sem pena , & inda o* mor- natumllij
tos às suas mtXoa, sào ar<:;uidos que morrerão por sua culpa & cap, 1»
notados de inteporança. No qual lugar chorou o mesmo phylo-
Bopho outra miséria humana, qual he , nâo crerem os enfermos
nas mezinhas que pertencem a sua saúde , se delias tem noticia.
Donde per vetura veio o costume de receitar per cifras, &. pala-
vras interruptas. E teve muyta graça este grande estimador das
cousas naturaes, em chamar inscripcàio de infelice monumento 15—3.
aquellii, Perii tiírba medicorum. Matoume a cõsulla de muy-
tos módicos, que foi provérbio usado entro Gregos. Se cu disser,
Apolonio, algíia cousa de mà composição, fazeime tanta mercê
q nie aviseis, & retratarme cl logo : q tenho por grande louvor
dos bons engenhos, conhecerem suas faltas. Apol. O nosso Cor-
nelio Celso louva Hippochrates , em confessar q se enganara nas
conjuncturas da cabeça, como costumão os grandes varues con-.
fiados em grandes cousas. Os engenhos fracos não tirão nada a
si, pois não tem que se tirar. Ao grade engenho, que tem mui-,
tas , (Sc grades cousas , convém a simple confissão do próprio er-r
ro, mormente naquelle ministério, que por causa de proveito,
se deixa em memoria à posteridade,
Ant, E vòs outros, nem que vos metão a tormento, nunqua
confessareis híí sò erro de quãtos fazeis quotidianamente em vos-
sas curas, anatomizando os corpos fracos, e causando nos enfer-
mos aborrecimento da vida. E ouve algíis dos antigos tão Ím-
pios, & cruéis, íj conselhavão a Constantino Magno que pêra Nicephor,
remédio de sua lepra, se banhasse em sangue de meninos inno- hist. Ecclc-
centes, O que este pio Emperador não quis se lhe applicasse , siast.Iiò.J,
avendo o tal conselho, & remédio por horrêdo, & deshumano. cap, 33,
Quanto mais efficaz, & melhor foi o do Papa São Sylvestre
grande zelador da ley , & Igreja de Deos , que o banhou na a-
goa, & fonte do sagrado Baptismo, clarificada cô a limpeza do
sàgue de Christo JESU ; & por virtude delle o limpou da lepra
espiritual, & corporal,
j4pol. Iniquo juiz temos em vòs, Anliocho. Assi nos conde- 15— í.
nàes a todos ( como dizem ) a carga serrada ? Sabido hè aver
muytos médicos de muyta erudição, & boa consciência, orna-
dos de muytas, »Sc boas partes, & tão tementes a Deos, «Sc ami-
gos de seu próximo, que o q menos lhes lembra, & esperão dos
enfermos he o interesse, não pretendendo mais ê suas cuias que
darlhes saúde : & curãdoos muytas vezes de graça , &. algíías à
sua custa se são pobres, & não tê emparo, como verdadeiros
imitadores do Samaritano evangélico. Ant. Desses averà tantos,
como de Cysnes negros, ou corvos brancos. Não quisera mais de
5 «
36 DIALOGO PRIMETRO
Vos, senao que guardareis os avisos do claríssimo Jurisconsulto,
Lih. 5. efe & medico Coraelio Celso (que pouco há allefi^iíttts) o qu.ii diz:
rc incdicãy Ante todas as cousas deve o medico saber quaes doeças são incu-
c. '■26. raveis, & quaes tem difficultosa cura, & qvuies a tem prompta,
& fácil. Prudência he não tratar de curar o enfermo, que o me-
dico entende nao poder sarar, pois lhe coube em sorte tal enfer-
midade. Após isto , quando o mal he grave & perigoio sem cer-
ta desesperação de remédio , deve o prudête medico declarar aos
parentes do enfermo o perigo , em que está , & q averà traba-
lho, & difficuldade na cura, porque quando o mal poder mais
que a arte , não cuide que o medico se enganou , &, o não co-
nheceo. E como isto convê ao prudente varão , assi he de truães
em mascarados , encarecer pequenas enfermidades por se mons-
trarê excellentes na arte. Em razão esta quãdo o mal he cura-
vel , obrigarse o medico a darlhe remédio, pêra que tàbem pri>-
IC — 1. cure com diligencia, que o mal de si pequeno, não se torne
maiot por negligencia de quem o cura. Palavras , & avisos de
homem honrado. Enganos de médicos não se podem sofrer.
Quam seguros prometem a vida a quem está em vigilia da mor-
te? como enchem o peito que esta arrancando, «Sc expirado, de
doces , & falsas esperanças ? Como faze leves as dores vehemen-
tes, & acceleradas, e os priorizes agudos e mortaes? como enca-
recem pelo contrario os nadas, per acrecentarem a reputação,
& interesse? mais estimão o cruel ganho, que nossas vidas.
Apol. Sempre o interesse baralhou o mundo , mal he velho ,
& comum a todos, que pòs de venda os florentes Impérios ; mis-
turou o sagrado cò profano , & fez almoeda da vergonha , &
consciência , & por tãto não ha pêra que o estranheis somente
nos médicos. Ant. E como escusareis os que por vingança ma-
tarão com suas poções escamoneadas , aquelles q cuidavão ter
nelles remédio pêra prologar a vida? Lembrame muytas vezes o
10. de G- que tenho lido em Ludovico Vives , q do tempo da Cidade Epi-
int.DeiyC. dauro, foi levado a Roma Esculápio em figura de serpête cha-
16' mado príncipe dos demónios, porque as divinas letras chamão ao
demónio serpête. E Pherecides Scyro escreve , que os demónios
tem pees serpentinos, & antiguamente pintavão Esculápio com
híía serpente envolta em hum bordão; & no Ceo ha hum signo
q chamão Ophiucus , isto he que tem serpente , & que por isso
se costumou que os médicos usassem do unto , & virtude das co-
bras, como he autor Higino na historia celeste. Do qual eu
16 — 2. collijo que os médicos são peçonha para minha saúde, 6c peores
que serpentes Epidauros. Elles me poserão neste fim com seus
recipes , & catapocios , & com suas hervas betonicas me despa-
charão a vida , & vasarão a bolsa. E chegou a crueza d'algus a
tal ponto p & tanta deshumaaidade , que primeyro lhes avia de
UAS QUEYXAS DOS ENFERMOS, E CCP.A EOS MÉDICOS. 37
enc!)er a mão de reales, que me tomassem o pulso. E assi com
minlin prata, & ouro comprei dores, tormentos, & a mesma
morte, em cuja gíir£;antJi ivo vejo atravessado. Curavàme cò
hervas de que ntio tinliíu» mai^ experiência, que vellas pintadas
nos physicos anti<xos. líuni dcllcs que tinha algum nomo entre
os doutos, me mostrou liuin lugar do vosso Galeno contra Pam-
philo, que tentou escrever ác liervas, cujas figuras nem per so-
nhos vira : dizendo que Heraclides Tarentino fazia semelhantes Lih. (>. r/c
os taes médicos a homês que pregoão escravos fogitivos cõ a fi- simj:ãc'i.
gura , & sinaes drlles, que nunca virão; & caso que os vissem,
por vetura tornàdoos a ver, não os crnhecerião por aquelles que
pregoarão. Alas pêra que lamento eu o que nâo posio remediar.
Algíís de vos te injuriada , & odiada a sagrada medit ina , & a
trouxerão a desprezo, & vilipendio. Sois f)lhos ingratíssimos a
mãy tão benemérita, q também vos paga o pouco estudo q nel-
la pC-des. y4poL Sois nos suspeito , & assaz demonstrais em vos-
sas palavras o ódio que nos tendes. Quantas cousas accumulais
torcendo muitas d<>llas, a fim de nos fazer odiados, & malquis-
tos com a gente. Thcodoreto diz que os Antigos pintarão Escu- Lib, 8.
lapío com hum Dragão enrcsciido, pêra darem a entender, que
como a serpente despe a velhice com a pelle , assi os homens 16—3.
lanção de si as doenças com a medicina. Foi a serpente dedica-
da a Esculápio , porque tem em si muitos remédios para o ho-
mem , & porque vc aculissimamète , & não pelo que vos so-
nhastes.
t'VV«'V\ Vl/\ ««1^ %rvi>t'V\ %rt% i^VV VV\ «'VX «/vv vv% vv\ vv\ «/«^ vvt VV\ VV\ VVX »IV\ vvv vv\<wvv
CAPITULO XIIIE
Dos louvores de Hippocrates , e Galeno,
Apol. Mas deixem.os os que vivem, pois a inveja os persegue,
& roe com seu dète canino, & em geral se não devem culpar,
nem de todo desculpar : venhamos aos médicos antigos, q cG
seus claros engenhos illustràrao o mundo, & obrigarão, os mor-
taes cô seus cscriptos proveitosos, a terem delles perpetua me-
moria. Vejamos cm que pvedicamèto pondes o nosso Hippo-
crates?
jint. Quem fora tao eloquete q\ie poderá dizer do vosso Hip-
pocrates hum pouco, do muito que elh; merece, mas porque co-
nheço minha pohresa, & sua excellencia, doullie o meu silencio
em lugar de louvores, q lhe não posso dar. Foi principe da me-
dicina, & o primeiro que deu forma aos seus preceptos : foi b( m
affortunado em »uas curas , á ê seus livros fez mêçâo de muitas
38 DIALOGO PRIMEYRO
hervas ; foi ínclito alíino da Ilha Coo, dedicada a E&culapío^
&. como estivesse em costume , os enfermos que sàravão escreve-
rem no templo do dito idolo as mezinhas com que se avião cu-
rado, pêra cjue desj)oiii aproveitassem a outros : dizem (como re-
Llh. (26. c. fere Plinio) que as trasladou Hippocrates, &. que queimado o
'2. templo, foi autor da medicina Clinice ( assi chamada dos lei-
16—4. tos dos enfermos) 4 cura com dieta , & medicamentos. Este cla-
ro varão seguindo a Platão na ilepublica, apõtou três cousas pê-
ra prologar a vida, mui necessárias; quaes são comer, &. não
fartar , não fogir do trabalho , &. conservar a semente da natu-
reza. E foi tão certo judiciário, que disse muito antes, a peste
que se avia de levantar do Illirico , & mandou seus discípulos
em socorro, às cidades delle , pelo qual merecimento Graecia
llie concedeo as honras que a Hercules se fazião,
Apol. Não esperava de vos tãto favor : mas os homens honra-
dos sempre são pola verdade , & em toda a parte a honrão , de-
fendem , & favorecem, Fermosa cousa he a verdade , &. te aos
seus imigos causa admiração , & he de tanta for^a , que se faz,
amar, inda daquelles que a não usão. A verdade he bem está-
vel, ,& sêpiterno, gratíssimo a Deos, & tão apto, tSc convenien-
te à humana natureza que sò cô sua apparencia nos deleita; &
Liò.o.c.l. ft«gundo Lactãcio não ha mister affeites, nem ornamentos a-
llieos , com sua sô natureza , & simplicidade nos namora. O seu
poder he tamanho, que todalas republicas fadadas nella perma-
necerão firmes , ê quanto ella não foi violada : (Sc pello contra-
rio as que na mentira estribarão , em pouco tempo forão desba-
ratadas, Perdeose o estado florete de Lacedemonia des que se-
guio os enganos , & astúcias de seu príncipe Lisandro. Ao cô-
trario , he a mêtira vicio de animo pequeno , tímido , & covar-
de. E hè certo que quantos pretenderão ganliar com ella , per-
derão. Sabiamente disse Aristóteles, que o falso bem no princi-
pio , era no fim verdadeiro mal , & ser tal , pelo progresso do
17 — 1. tempo se conhece. Assi que era estremo folgo de vos obrigar a
verdade a dizer bê do inventor de nossa arte. Invencível he o
seu império , & quem moveo armas contra ella , sempre ficou
de baixo do seu jugo. Mas que opinião tendes do nosso Galeno?
yínt. O Galeno me parece lume sempiterno da arte medica,
& gloria ímmortal da vossa gente , & devera bastar intitulalo
Sam Hieronymo per varão doctissimo. Tenho muito que dizer
delle , indaque muito menos que seus merecimentos. Bem vejo
que buscais louvor do imígo , que dà tanto maior valor , & pre-
ço à verdade , quanto mais he ávido por suspeito. Porem como
disse Claudiano , ha merecimentos subidos a tão alto cume , que
lhes não pode chegar a inveja com suas chamas, & fumaças.
Louvo primeyramente em Galeno, o que outros vituperão, que
DAS QUEYXA9 DOS ENFERMOS, E CURA DOS MÉDICOS. 3íí
entre as iirtes honestas, & liheraes deu o principado à medicina,
como discípulo ^nitissimo.
Apol. Hè a Hiedicina sof^undo iJeirocrito irmã, & sncia da
sapiência, que se esta livra a alma das dcí^ordens dos affectos,
ella tira dos corpos as dores, & mãos humores, por onde se vò
ser necessário a todíw os lioiiirns, quf ou tenhão noticia da arte
medica, ou ao menos usem da dili<reiu ia dos l)ons médicos. Cer-
to he que cò a saúde cresce u iiil(llij,'eiicia , &. cò a mà dispcjsi-
çào do corpo, nào pode o entendimento exercitarse na medita-
ção das cousas celestiaes, antes he compellido muitas vezes a
cessar destas acqôes tão sobidas.
j4nt. Mas sobre todas as excellcncias de ( laleno me põem ad-
miração o cândido animo com q tam magnificamente comunicou 17 — 3.
o thesouro de suas letras à posteridade. (.)s seus antecess(;rt;s forào
avaros da própria sapiência, &. como envejo.^os ncjs escomlerào o
beneficio de sua instituição , 6c guia , tm allusTics & metapho-
ras remotíssimas : tanto q menos custara tirar os mistérios q el-
les acharão do sèo da mesma natureza, q dos seus livros. Em
hum livro seu disse Galeno; posto q dantes visse averem de ser JJb. V2. de
mui f)oucos os que enttíndessem minha doclrina, todavia por gra- L&u ijart.
tificar a esses quis também aos indignos communicar meus ser- c. tí.
mões mysticos. Deos nosso formador sabendo claranicte u ingra-
tidão dos homês, nem por isso desistio de sua labnca. E o sol
faz os tempos do anno, & perfeiçoa os fruitos sem curar das ca-
lumnias de Diagoras, nem de Anaxágoras q o fez de jjedra ,
nem do Epicuro, nê de outro algum. Os bons não sao euvejo-
sos, mas a todas as cousas dão ajuda , & ornamento. E em ou-
tro lugar falando dos nervos ópticos disse, que propusera callar
este mystcrio da natureza somente ; mas sendo acusado em so-
nhos, que injustamête se avia côtra tão divino instruméto, 6c
que era impio , «Sc ingrato côtra o artífice delle , senão declaras-
se híia tamanha obra de sua providêcia nos animaes, forçado do
sonho o explicara.
Apol. Quem me dera estar em jejum pêra vos ouvir mais
promplamente : tanto gosto me dà vossa pratica. Pêra ouvir
palavras tão divinas deverase home preparar como Prolhogenes
quando quis pintar Taliso cidade antiga de Khodes , que não
comia mais que tramoços molhados a fim de juntamente soster
a fome, & a sede, & não opilar os sentidos com demasiada do- 17 — 3.
cura, como conta Plinio, E pêra que minhas orelhas perc(!bào L\h. 35. c.
melhor todas vossas palavras desdagora me conformo com o Cò- 10.
sul Adriano; o qual como tevesse lezos os ouvidos estendia as
mãos da parte traseira das orelhas pêra a diãteira , &. assi ouvia
melhor segundo refere Galeno. Peçovos Antiocho, q me digais De íísu
muytas cousas dessas, & façãome aqui a sepultura, pari. li. IL.
c. 13.
40 DIALOGO PRIMEYRO
Ani. Não calarei as admirações, & rebatamentos dos sentidos
do vosso Galeno, quando considerava a potencia, bondade, &
De usu sapiência do criador , & formador da natureza. Disputando con-
part.llb.S. tra hum calumniador delia, porque não lançava o homem os
c. 10. escrementos poios pès, dizia que a verdadeyra piedade & culto
de Deos náo eslà posta em lhe sacrificar muitas centenas de tou-
ros, & cássias, & outros unguentos odoríferos : mas em primei-
ro o conhecer^ <ik, após isto expor aos outros qual seja sua sa-
piêcia, potencia, & bondade. Aver Deos formado cÕ elegância
conveniente todalas creaturas, & sem enveja lhes aver comuni-
cado suas ricjuezas , he mostra , & retrato de sua perfectissima
bondade ; que por esta razão se deve com hymnos celebrar : &
aver Deos inventado como todalas cousas se ordenassem com de-
coro, & fermosura foi de summa sabedoria : porem fazer, &
effeituar tudo o que cjuis , foi de potencia incomparável , & in-
Lih. 7. ca. victissima. Em outro lugar como gentio disse, que com igual
14. attenção se devia ouvir a matéria da composisão dos animaes,
âquella com que se ouvião os sacrifícios Eleusinos , ou Samo-
17 — 4. thracios , porque não menos que elles mostrava a formação dos
animaes , a grande prudência , virtude , sapiência , & providen-
cia de Deos. Onde com alegre ufania se gloriou , que elle fora
Cíip. 15. o autor da Anatomia. E falando dos nervos do laringe escreveo
estas divinas palavras. Por certo que não posso assaz louvar,
quanto requere sua dignidade, & excellencia, a sapiência, & po-
têcia daquelle artifice que fabricou os animaes , cujas obras nes-
te particular , são maiores não sô q os louvores , mas ainda que
os hymnos : & antes que entrasse na consideração , & especula-
ção delias, persuadido estava não ser cousa possível, mas despois
de as entender, acheime falso na opinião.
ApoL Felice memoria he a vossa, Antiocho, & infelíce a mi-
nha. Quem me dera poder gastar toda a vida em tão suaves es-
peculações , inda que fora mais pobre que Aglâo Psophydio
Plin. /iòr. julgado do oráculo Delphico, per felicíssimo. O qual em Arca-
1. c. 4u. dia cultivava híia pequena herdade , & nunca saíra fora de seus
limites , experimentando na vida pouco mal , com pouca cobi-
ça. Mas per vossa vida se tendes notados outros lugares curiosos
de Galeno , que me deis copia delles ; que inda que os tenha
iido j miaha fraca memoria os tem esquecido.
DAS QUEYXAS DOS ENFERMOfS , E CXJUA BOS MEPIÇOa, 41
CAPITULO XV.
Contem aigús passos de Galeno, Ò; prova que os bôs pays são
gloria de seus filhos.
Ant. Quero repetir algíís, de que fiz grande caso e outro tc-
po ; nào sei se vos parecerão taes. Mas, a meu ver, sabiamen- 18 — 1.
te se queixou da negligença dos homens em a geração dos fi- Lib. 11. efe
lhos, que fartos de vinho, nao sabendo onde estào, se ajuntâo Usu part.
com molheres da mesma indisposição : donde se segue o princi- Phitar. de
pio da genitura ser logo vicioso , & com ser assi , que os Lavra- tnslitiíevdn
dores primeyro olhão de que terra hão de fiar suas sementes , & Lihcris iiiv-
quc não apodreçào com muyto humor, nem se regelem com a tio.
aspereza do frio; apenas se acharão homens que em gerar, ou
em criar o q gerao , ponhào semelhante cuidado.
ylpol. Digna queixa de tal phylosopho. Aristóteles diz ser ve- 1. Reth. c.
risimel de lx)ns nacerem bons : & que os pães são causa do ser , 17.
nutrição, & erudição dos filhos. E parece que os negligentes em 8. Eth. ca.
os criar, & instruir desprezão a Deos, que foi autor de seu ma^ 11.
trimonio. E ajunta Aristóteles, que se devião os homens ocupar 7. polit. c,
na geração dos filhos, cerca dos sincoenla annos , quando a in- 17.
telligencia tem nelles maior vigor. E q aver filhos de molher 2. occon, c,
virtuosa he cousa sancta , na qual o homem sesudo deve por to- 2.
do seu estudo, & industria. E quanto ao vinho, sobejou razão
a Galeno. Porq alem do que elle diz , se se bebe demasiado
dile a virtude seminal; (Sc por isso foi Alexandre Magno pouco
potente nos actos de Vénus , como diz o mesmo Aristóteles , por
que era dado ao vinho. E inda nisto se cumpre o que disse Án-
drocides , claro na phylosophia , que era o vinho sangue de tou;-
To , &. que bebido sem modo , destruía o corpo &, alma , como
lefere Plinio. Lih. 14, c,
Ant. Conselho he de Galeno que o vinho se venda em as bo- 5.
liças. Quanto ao mais, de animo assaz mingoado são os que 18 — 3.
misturão seu sangue nobre com o vil , & infame , inda que a
conta da tal mistura, lhes offereção os diamantes delRey de
Narsinga. E se com causa Virgilio referido por Plinio, ensina
observar os ventos, & signos celestes, quando a semète se deita
na terra, com mor razão convém fazer escolha da mesma semen-
te , &. da mesma terra em que se ha de lançar. Este foi o porq
certa IJainha das Amazonas vèo buscar Alexandre Magno a fim
de conceber delle híi fillio, que emnobrecesse sua geração, &
pêra este effeito lhe concodoo Alexandre treze dias de cohabita-
çào, se cremos a Quinto Curcio na sua historia. Cesurados estào Gen. c G.
6
42 DIALOGO PRJMEYRO
na sagrada Scriptura os filhos de Seth que casarão co as filhas de
Cain da linha reprovada. E na mesma se escreve que madou o
Gcn.c.^8. Patriarcha Isaac encarecidamente a seu filh») Jacob, que nâj
tomasse molher das filhas de Canaan. De se fazer o contrario,
vem os filhos , & netos a degenerar , & acõtecerlhes o que Aris-
tóteles no livro das maravilhas da natureza conta dos filhos das
agueas , hum dos quaes nace halieto , que nâo he aguea , &
deste não nacem halietos senão phenas , & dos phenas se gerào
milhanos, os quaes não produzem aves a si semelhantes mas tar-
taranhas de outra specie , que sam steriles ; & porque morrem
sem deixar casta, faz nellas fim a degeneração dos filhos das
agueas. Basta para cõfirmação desta verdade vermos hoje entre
nos muytas casas, q forão nobres, & illustres, & agora estão
descaídas , e mascabadas per causa da liga , e degeneração de
seus descendentes. Por isso disse o sábio , que os bus pães são
18 — 3. gloria de seus filhos. Que o nacido de bõs progenitores recebe
Proverb. delles pela maior parte natural inclinação para o bem. Delles se
17. deriva a compreição do corpo, a qual sendo boa não he peque-
1. Polit. no adjutorio, & incitamento pêra a virtude. Aristóteles affirma
c. 4. q como dos homes nace o homem , & dos brutos a besta , assi
dos bõs se gera o bõ. Trilhado, & celebrado he aquelle dito de
Horácio : Fortes creantur fortibus , ò( bonis^ àçc. Não produzem
as generosas agueas, timidas, & covardes pombas. Isto preten-
de sempre a natureza , dado q algíias vezes fique frustrada. Na
boa terra nace o cegudo venenoso , & na steril o ouro precioso.
Também he natural ê os filhos a imitação dos pães, que os aju-
da grandemente, a serem os q devem. Os que tem algíia Índo-
le , & se prezão de serem verdadeyros filhos de seus pães , por
não degenerarem delles , soe ser emulos de sua dignidade , &
aspirar à felicidade de seus louvores, que nunca em corações
generosos a virtude perde os quilates que teve nos progenitores.
Desta maneira o nome de Philippe excitou Alexandre , & a
gloria do maior Scipião ao menor, & a fama de Júlio Csesar
esporeou a Octaviano. Daqui vê presumirse dos filhos q serão
taes , quaes forão seus pães. E esta he aquella gloria dos filhos
q da nobreza , & virtude dos pães procede ; serem ávidos por
1 . Polit. é. bons , porq são filhos de bõs. Aristóteles refere que não sofria a
Helena de Theodecto , q lhe chamassem escrava depois de ser
cativa , por quanto de ambas as partes decendia de Deoses. Da
Mom. 11. raiz sancta colligio S. Paulo que os ramos havião de ser sanctos.
18 — 4. De Abraham sancto, Isaac sancto. De Isaac, Jacob; de hum
iwc. 1. Thobias sancto naceo outro Thobias sancto; do sancto Zacharias
o sancto Baptista; & de Anna sancta, Samuel saneio. O mes-
mo vemos em os mãos, os filhos dos quaes, como diz o sábio, são
testemunhas contra a iniquidade, & malicia de seus pães. Usada
Sap. 8, he aquella sen teça. Do mao corvo, mao ovo.
DAS QUEYXAS DOS EífFERMOS , E CURA DOS MÉDICOS, 43
^pol. Taml)t'm vemos o cõlrario, qu<; de Atlam naceo Caim,
& de Noe Caii) , &. de Isaae Jlsau , &. do Affricano lium filho
tollo , & covarde , que não prcslou para nada , como testifica
Valério, O fdho de Quinto Fábio Máximo foi tào sensual que
por sentença do Prajtor Urbano o desapossarão de l(xlos os Ixis &
iazenda que lhe ficou de seu j)atrimonio. Deixo muitos dos que
agora vivem, q podèra nomear. Tãbem dos mãos nacem bons,
romo rosas das espinhas. De Achab idolatra, naceo elKey Eze-
chias. Do péssimo Amon favorecedor das Ímpias abominaç^ies ,
naceo o bom Josias destruidor d<>llas; cuja memoria adoça os ou-
vidos, como o mel a Iwca, segundo diz o Ecclesiastico. Cap. 49,
ylnt. Esses exemplos são raros, & os contrários frequetissimos,
€ estão fundados em razão natural. Certo he que as cõpreiçoes
varias dos ânimos procedem das varias, & diversas que tem os
corjxís. Os cholericos prestes tomão , & deixão a ira : onde do-
mina a pituita, & flegma haí se acha deleixamento, desarra-
jo, & somnolencia : o sanguinho folga com cousas alegres, »Sc
lie inclinado às deshonestas : o melancholico ama as cousas tris-
tes, & os lugares ermos ; tarde se indigna, & tarde se apasigua :
estas qualidades tão differêtes dos corpos, quasi sempre procedem
aos filhos das diversas cõpreições dos pays, que se herdao com a 19 — 1,
semente.
Qux viret in folih vcrút a radicibus humor :
òf Patrum In natos abcunt cum scmine tnores.
Disse elegantemente Baptista Màtuano, Isto he : O humor que
verdece em as folhas, procede das raizes, & os costumes dos payã
vào com a semente para os filhos.
y4p<)L Assaz corroborada fica nesta matéria a sentença do nos-
so (ialeno. Kesta referirdes outras dignas de sua gloriosa me-
moria.
CAPITULO XVI,
Jie froseguimento dos ditos de Galeno , dos qiiaes toma occttsião
Aniiocho para tornar às s^uis queixas.
Q
ylnt. Excellête phylosopho se mostrou Galeno cm dizer, que
homem era mais perfeito q a molher jxjr causa da ventajem
do calor, que he o primeyro instrumêto da natureza. Mas dcve-
»e crer q\w. nunca Deos fcsera de seu molu próprio a molher im-
perfeita, avendo de ser a mea parte da geração humana, se al-
gíia grande utilidade se não seguira da tal imperfeição, Requere
a criança no ventre matéria copiosa , não somente pêra sua prí-
6 «
44 DIALOGO PniMr.TRO
meyra formarão , mas pêra todo o crecimeto seguinte : por tan-
to foi necessário ser a molher mais fria pêra que assi podesse co-
zer o alimento , que deixasse delle algíia parte supérflua. Ma5
nâo he possível que falle o enfermo de saúde , & vida , & que
não faça al2;ua significação com seus hais do muito q lhe doe, o
19 — 2. verse sem ella. Hay de mim , porque não morri eu cm nacen-
do? Porque me não passarão do vêtre em que fui concebido,
pêra a sepultura? Para que me criou & deixou minha mãy en-
tre vivos, sem vida? Mas conto minhas penas a quem não dão
pena, & queixome à madre alhea. O vosso Hippocrates disse
que se a molher q traz gémeos no ventre se lhe adelgaça o pei-
to direito, moverá o macho, & se o esquerdo, a fêmea : nada
disto ouve para mim. Gravemente disse Possidonio, que era di-
vino beneficio não nacer , ou em nacendo morrer. E muita ra-
Joh. 3. zão teve o Patriarcha Job (quãdo se vio affligido de contrastes,
sem filhos , sem fazenda , & sem saúde ) pêra maldiçoar a noite
em q sua mãy o concebeo, & o dia em que o pario filho de ira,
sojeito a lagrimas, perigos, magoas, & sobresaltos. Não he de
desejar a vida que sempre morre, que nenhíia cousa tem tão jun-
ta , tSc liada comsigo comq a morte ; q he perseguida delia , tè
se lhe pôr sobre a cabeça. Entramos neste mísero mudo , nesta
terra de Egypto , & valle de lagrymas alapar com a vida , <Sc
com a morte. Quãdo nacemos, «Sc todas as horas tSí momêtos que
vivemos , tambe morremos. Em nenhii lugar pode o home ter
o pè tão firme, que com cada qual dos passos q dà, não và bus-
car a morte , inda que jaca no leito , & este dormindo. Hà se
como quem vay assentado em barca , que inda q se não mova ,
não cessa de andar, & fazer sua viagê. Níica está lõge de nòs a
morte , sempre vem em nosso alcance , pegada a trazemos às
costas , cõ nosco come , dorme , anda & cada dia decepa , e cor-
ta algua parte da vida. Ignorãcia he cuidar , q então sòmête vè
19 — 3. ella sobre nòs, quãdo pôe fim a nossa vida; & indoa côsumin-
do, & gastado cada hora não setir a sua força. Todos os mo-
mentos nos combate , & quanto crecemos na idade , tanto nos
tira dos dias de vida com sua crueldade. Jà me não espanta o
que Solino diz que muytas nações costumão lamentar os partos,
& festejar as mortalhas : nem o que Valério Máximo conta dos
moradores de Thracia , que se cobrem de luto quando lhes na-
cem os filhos & se vestem de festa, quando lhes morrem. De
sorte que entre gente que sabe considerar as misérias desta vida,
os dias nataes são tristes, & luctuosos, & os fúnebres são alegres,
& festivaes. Donde veo a dizer Salamão sapientissimo, que me-
lhor era o dia da morte, que o dia da natividade ; porque o pri-
meyro he termino de cuidados, & o segíido he principio delles.
Esta consideração moveo a Job, phylosopho consummado, a abor-
DAS QUEYXAS DOS ENFERMOS, E CUTIA DOS MÉDICOS. 45
recpr a vida, & me obriga a mim a desoiar a morte, & cuidar
que tarda estandomc batendo à porta. Estou falando com vosco
Apolonio, & vejo ante meus olhos a imagem da morte (^m meu
vulto pallido, & desfigurado, & sâo médicos tão manhosos, q
me querem enganar cõ brandas esperanças de vida.
CAPITULO XVII.
Como maldiçoou Job a noite , i) dia de seu nacimcnto.
ytpol. Aristóteles faz mêçao de hii Antipheron , que via em
todo lugar sua imagem , o que lhe provinha da fraqueza da vis-
ta , que nào penetrando o ar, lhe ficava em lugar de espelho
solido. E quanto ao que citastes de Job, parece que fallou mais 19 — i>
compellido da força que lhe faziào as tribulações, & perdas em
que se via , que com a devida consideração. Porventura nào foi
cxorbitacia maldiçoar a creatura de Deos, que nem sente, nem
tem uso de razào ; & ])elo mesmo caso náo he capaz da pena ,
pois nào pode ter culpa?
yínt. A divina Scriptura canoniscu a Job, & o Spiritu San-
cto saio por elle , »Sc affirmou que nào avia falado contra Deos
em quanto disse , nem avia peccado com seus lábios. E não en-
tendais , que quando maldisse a noite , & o dia , referio algíis
males que ouvessem feito, como fazem os maldisentes historiado-
res dos erros do próximo per modo indevido, & rogadores de
males em quanto taes, como maldisse Simei a David, cjuando
hia fogindo da ira ambiciosa de seu filho Absalon. Hà gente a 2.jRcg. lí>.
cujas linguas o silencio , & repouso dà pena : que não te prazer
senão quando tratào de vidas alheas, & dizem mal de huns, &
outros : os quaes sendo fezes do povo, tomào por officio inquirir
os avoengos de todas as gerações, pêra em todas porem labeo, it
terem sempre vivos que sepultar, & mortos que desenterrar com
suas satyricas linguas, & venenosas bocas. Estes são a traça, &
carucho das respublicas, desprezadores daquelle conseliio de S.
Paulo, Benediáte, Òi noliie malcdicere. Dizei bem de todos, & Rom. M,
de ninguém digaes mal. Quanto melhor lhes fora empregar o
tempo em pnxurar, & desejar bem a todos, & emedar faltas
próprias, q em notar, & recõfar as alheas com animo de j)re-
judicar. Não maldisse Job desta maneyra, nem de outras (que '20 — 1.
sâo das escollas) nem por culpa do dia, &. da noite, nem com
culpa sua. E posto que maldição propriamente seja a que se
lança por algíia culpa, entendei que também as creaturas que
nào participào dos sentidos^ nem da razào se podem maldizer,
46 DIALOGO PRIMEIRO
cm qimnto tom ordem aos homens & sâo meos per que lhes veio,
Gen. 3. ou pôde vir algum mal. Deste modo maldisse Deos à serpente,
& à terra , pêra que não respondendo ao home com os fruitos ,
per meo delia punisse seu peccado. E em outro lugar maldiz 03
seus celeiros, & adegas pêra que com a mingoa que lhes fisessem,
conhecessem suas desobediências. Assi maldisse David aos motes
í. Rcg. 1. de Gelboe, pêra que com a esterilidade delles, fossem castiga-
dos os Philisteus homicidas, que nelles matarão os Varões for-
Mar. 11. tes, & esforçados de Israel. E Christo maldisse a figueira em
quanto era representação da esterilidade , & infidelidade dos ju-
deus. E a Igreja com seus exorcismos maldiçoa a lagarta, & ga-
fanhotos em quanto com a destruição das novidades importao
dano aos homens. Do mesmo modo maldisse Job a noite de sua
conceição , & o dia de sua nacença em quanto meios que o in-
troduzirão no mundo em ira & desgraça de Deos pelo peccado
original, arriscado às penalidades, & contrastes da vida huma-
na, de sorte que o maldiçoou em quanto mao. Que segundo o
uso da Escriptura , chamase o tempo mao , ou bom , segundo o
mal , ou bem que nelle se faz : donde veio chamar Sam Paulo
aos dias mãos. Ê notay o que ganhou este sancto phylosopho em
20 — 2. lamentar o dia de seu nacimento, & o que perdeo Herodes em
o festejar. Que engano tão grande celebrar, & fazer festa ao dia
que nos lançou em terra, onde os contentamentos se nos dão per
onças , & as dores , & lagrimas às arrobas , onde as alegrias são
tão raras que de maravilha nos passão pela porta, &. nuca se de-
tém com nosco ; nem nos são naturaes , mas accidentaes & tra-
zidas per engenho. Sòs aquelles que nos ventres de suas mãys
antes de nacerem forão sanctificados , à, postos em graça com
Deos, devem festejar seus nacimentos, & tomar nos taes dias
prazer , & alegria , pois nacerão livres & isentos da principal
causa , que 05 nacidos em peccado tem pêra chorar. E pois eu
não fui , nem sou hum delles , ninguém và à mão a minhas
queixas.
ApoL Peçovos Antiocho que tornemos ao nosso Galeno,* óc
esquecervoseis entre tanto de vossos hays , porque a boa pratica ,
he medico da alma triste.
DAS QUETXAS tOS ETíFEnJIOS , T. CVUA DCS MÉDICOS. 47
«V\ W\ %'V\ W\V«\ W\ W\ W\ «iV» w\ %.-v\ » vw%^ % v\ k-v-i v% \v-«\ «-VX «fVWVX vv\ w\ w«
CAPITULO XVIlí.
aponta passos insignes de Galeno,
j4nt. Admiravol me parccco taml)cm na consideração que fez
do grande estudo, cjiie a natureza pusera na fermosura, & de-
coro do homem. Proveo , diz, a natureza com cuidado, & dili-
gencia que o corpo não fezesse muyto negocio ao homem , nem
o tevesse como escravo sempre occupado em necessariamente o
servir. Convinha, segundo meu parecer, a hum animal sábio, &
politico , ter mediano cuidado do corpo. E não como agora fa- 20 — 3.
zem commumente os homens quando algum seu amigo os ha
mister, que se escusão fingindo negocio, & recolhendose em al-
gum secreto, onde se ungem, & aífeitão, (Sc compõem gastando
toda a vida no atavio desnecessário do corpo, & nào entendendo
se tem em si outra cuusa mais excellente q elle, dos cjuaes se
deve ter compayxão
j4pol. Grave, & verdadeyra reprehensão.
Ant. Sam João Chrysostomo zomba muito dos que vestem To. 5. ho.
paredes de ouro, & ornão as casas de mármores, & columnas, eh malis à
alcatiflio estrados , & se cobrem de sedas , raxas , & fmos panos , ncbh acer-
& com a alma nào tem conta algua. Semelhantes são estes ao iendis,
casado que enfeita as escravas, & as orna com joyas, & pedras
preciosas, trazendo a molher rota, & remendada. Be parece
quàto mais nobre he a alma que o corjx) , pois a doença do cor-
po se cura com dilações, & amarguras, »Si enfadamentos; &. a
da alma com grande facilidade. Hum sò gemido arrancado do
intimo do corarão, rasga os ceos, & híia sô lagryma devota
chega ao peito de Deos, & lhe enternece as entranhas. Dispen-
sou o assi o Senhor, pêra entendermos, quã pouco caso faz da
faude do corpo, & quàto estima a da alma, que por nào perigar
lhe pos à mào tantos remédios. Nào he fácil a todos os médicos
curar os corpos enfermos, & he facili>simo a cada qual de nos
curar sua alma. Tem necessidade a cura do corpo de diniicinj &
niedicamètos , &. à da alma nào sào necessários gastos , nem dif-
ficultosos os remédios. Fera o corpo sarar das chagas, sofre fer- 20 — 4,
TO, fogo, dores, & amargas mezinhas; «Sc à alma pêra se curar
das suas sobrào faciles, & suaves antídotos. Que trabalho sente
o que remete a ira? Que tormento igual ao daquellc que faz u
injuria, ou se lembra da que lhe he feita? que pena he orar,
& pedir mercês àquelle Senhor que sempre tem as màos pr^ptas,
& largas pêra as fazer? Que fadiga he amar o próximo, nào en-
vejar, nào detrahir, nào injuriar, nào mentir, nào enganar, óc
48 DIALOGO PUIMEYRO
não offender a Deos? Que cousa mais fácil de fazer, & menos
violenta ao homem racional , que cada qual destas ? Pois que
escusa teremos , sendo tão soíicitos , &, tendo tanto cuidado do
bem , & saúde do corpo tão custosa ( de cuja imbecilidade nos
nào pode vir muito dano , pois em fmal a morte o ha de desfa-
zer) nào procurarmos com diligencia a cura da alma, na saúde
da qual consiste todo nosso bem, sendo tão barata, & quasi de
nenhum custo?
yípol. Da officina d'algum insigne pregador saio a pondera-
ção desse ponto. Mas tornemonos Antiocho a nossas phyloso-
phias.
Ant. Hua so cousa me occorre para dizer, & muitas em que
duvido; as quaes determino conferir com vosco pêra satisfazer
De tisu meu entendimento. Diz Galeno, Ao home porque he sábio, &
pnrt.hh.l. sò entre os animaes da terra divino, deu a natureza mãos em
'■• Í2. lugar de todas as armas defensivas, instrumento necessário pêra
o exercício de todas as artes, & não menos idóneo pêra a paz
que pêra a guerra. Com as mãos escreve o homem as leis, & os
21 — 1* commentarios de especulação, & per beneficio d^s mãos, &. das
letras cõ ellas escritas, poderás inda agora ter coUoquios com
Plato, Aristóteles, Hippocrates , & outros sábios antigos.
yípol. Nào sabem os nobres da nossa idade esse uso das mãos,
antes jurarão que lhes forão dadas somente pêra comer, & as
trazerem metidas em luvinhas mimosas , & almiscaradas , & o
que he peor , não falta entre elles quem teoha per vileza , saber
pôr em letras , os conceitos de sua alma. Mas que faço eu , pois
Lib. 29. c. ja Plinio com verdade , &, com elegãcia disse contra os taes ,
1. c|ue andavão cos pès alheos, & tudo fazião per mãos alheas, &
nenhíia cousa tinhão por sua, senão as delicias?
^nt. De melhor tinta se vão jà fazendo os fidalgos de nosso
tempo quanto a isso, entre os quaes ha muytos que igualmente
De vsu se prezão das letras, & das armas. Disse mais Galeno, que de-
part.lib.l. ra Deos ao homem mãos per causa da nueza do corpo, & razão
€. 4. per remédio da ignorância d'alma : & que pêra poder usar de
todalas armas, & artes, nenhíia recebera da natureza, & que
por tãto chamara Aristóteles â mão , instrumento de todos os
instrumentos ; & cada qual de nos podia chamar à razão arte de
todalas artes.
Lib. 4. de Apol. Como são as verdades per si fermosas. Quam longe es-
part. am- tava Galeno de chorar, & fazer as queixas de Plato, quando
ina/. c. 10. dezia que sò o homem entre os animaes nacia nu , desarmado ,
Li6.7.c.l. & descalço. Outro tanto fez Plinio na sua historia natural, «Sc.
De usu Plutarcho no livro da fortuna. Mas Galeno acostouse a Aristo-
part.lib.3. teles, o qual defendeo a natureza da calumnia, cõtra os que a
c. 3. accusavão, dizendo que provera mal ao homem.
DAS QUEYXAS D03 lENFERMOS ^ E ÇUKA DOS MEDICO^. 49
CAPITULO XIX,
Do pçixe Uranoscopon,
Ant. Outra cousa disse o vosso Galeno, que eu queria ver 21-^2,
declarada, porque nâo a entedo, nem me estimo tanto que me
atreva a culpar hum tão furando phylosopho. Com razão diz ,
nenhum animal fabricou a natureza que possa estar direito, ou
assentado, tirando o homem, porque sô avia de obrar com as
màos. K cuidar que criou o homem pêra promptamente olhar &
ver o Ceo, he de homens que níica virào o peixe Uranoscopon ^
isto he especulador do Ceo, que forçadamente sempre o vè :
cousa que o homem não pode fazer sem dobrar o pescoço pêra
trás. Isto escreve Galeno. E quanto ao assentarse , bem me pa-
rece que sò ao homem concedeo a natureza poderse assentar co-
modamente sobre as coxas pola razão que elle dâ, mas no mais
não a parece ter. Aristóteles diz que o homem he o mais direito,
& levantado de todolos animaes pêra o supremo do mundo , por
que tê muyto sangue, &. purissimo. Lactancio affirma que he Lib. act-
grandissimo argumento de immortalidade sò o homem conhecer p/ta/o c. 10,
a Deos, ác que nos brutos nenhíia aparência hà de religião,
porque olhào pêra as cousas terrenas, & o homem direito olha
pêra o Ceo como quem suspira por Deos. Donde se segue que
não pode ser mortal quem deseja o immortal. E noutra parte 21 — 3.
disse o mesmo Lactancio, que sò o homem podia jazer de cos-
tas, jazendo os outros animaes dos lados alternadamente.
Apol. Não he esse peixe de que faz menção Galeno, tão pou- De opifclo
CO celebrado entre os que escreverão da natureza dos pescados , Dciy c. 10.
que hajamos de cuidar que fogio de vista a tal lince como /foi
Aristóteles. A verdade he que elle, & todos os mais q affirma-
rão ser o home o que sò entre todolos animaes pode levantar os
olhos ao Ceo , fallarão propriamente dos olhos d'alma , da espe-
culação intelleclual , &. da côsideraçào , & contèplaçã(í das cou-
sas celestiaes. E isto assaz claro he, que sò ao home convê, co-
mo sò a elle pertence trazer debaixo dos pès quanto vulgarmen-
te se traz sobre a cabeça. E que quer que foi autor do nome
desse peixe , não pretendeo mais que aplicarlhe essa tão fermosa
nomeada de especulador do Ceo : como se deixa entender do
outro nome q os Gregos usão , chamãdolhe Caãonomon , isto he
o peixe de fermoso nome. Phcrecides natural da Ilha de Sciro
ftji o primeiro que em Grécia tratou da immortalidade da alma
humana & achandose presente Pythagoras, ioi logo de athleta
7
50 Dl|lLOGO PRIMEYRO
convertido em phylosopho , & eu com a vossa conversação , sou
de medico transformado em theologo.
yínt. Zombais Doutor, mas tudo sofrerei, se me responder-
des a esta duvida. Galeno diz, que lhe lie notório, não se po-
der misturar a sul)staneia do homem com a da Egoa, & que
fabulou Pindaro dos Hippocentauros ,. conforme à musa poética
21 — 4. que he inventora de milagres, a fim de por cm admiração Óc
hl vita fazer attonitos os ouvintes. E Sào Hieronymo falia desta mistu-
Pauli here- ra como duvidoso. E Cláudio César refere que em Thesalia na-
mitcc. ceo hum Hippocentauro , & no mesmo dia morreo, &. Plinio
Lib.7.c.3. affirma q vio em Roma hu trazido em mel do Egypto.
De n. Deo- Apol. O que diz Galeno he o certo , & o mesmo diz TuUio ,
rum lib. 4. Sí Xenophonte , inda que nunca faltão partos monstruosos, &
de pedia de muytas formas. Mas se quereis dizeime que conceito tendes
Cyri. do nosso Avicena.
%/V%VV\VV%i%'V%^V%VVVVVb«'VV^VVVVVVV\iV\'VV\'\íVV%VV%%'V%VV«>VV%iVV\iVVVVVVt/V«VVV
CAPITULO XX.
De jdúcena, ^ dos médicos seus sequaxes»
Ant. Avicena foi hum bárbaro , servo de Mafamede , perdi-
tissimo, & vos outros o tendes quasi canonizado; & affirmaes
que quem não curar segundo as suas regras nunca medrará, nem
ganhara de comer. E o peor he , aver Hespanhoes que pêra or-
namento de sua Hespanha o fezerão natural de Córdova, sendo
da Tartaria de Pérsia , da Cidade de Batheorà , ou Baçorà : fie.
não foi Rey , nem príncipe , senão Goazil , q significa regedor ,
• ou grade. A Baçorà he cidade claríssima è Pérsia na Mesopotâ-
mia , & he do grão Turco. Chamase a província Tartaria da
Cidade Tártara. De Baçorà vem o manna purgativo, que he
rocio , ou goma de certas arvores , & também se dà em Cala-
briai Espãtame ver que seguis à carga serrada hum tal inimigo
da nossa fee , como jurados em suas palavras. Passo pellos erros
22 — 1 . da versão vulgar de suas obras , causados da ignorância da ver-
dadeira lingoa Arábica , & quiçá per amor deste mouro me tê-
des lançado em perdição, ou me dilatastes a cura, porque me
sentistes dinheiro.
Apol. Tendes falado tanto q não he muyto falardes mal : no
muito falar não faltará p"eccado , & sempre se achara algum
pecco. Dizeis doctamente, mas da vossa officina nada. Lembra*
i-Gs muito , & pouco he vosso.
Ant. Hum medico me tira o comer, outro o beber , & sem-
pre aado em dielas«
DAS QUEYXAS DOS ENFERMOS, E CURA DOS MÉDICOS. 51
^pol. Júlio CíBsar diziu que os inimigos se haviao de vencer
com fome, ou com ferro, & assi fazemos nos ás d(jêças. Sabido
he aquelle dito do Jicclesiastico. O que se abstê do comer, a- Ecch 8.
crescenta dia* a sua vida. Nem \)Ox o muyto comer, & d«; ma-
jares delicados nos perdoarão mais os bichos, que aos rústicos
lavradores. Antes como de melhor, & mais gordo màjar , co-
merão com niaior fome. Bem sabemos, inda que dissimulemiís ,
que somos vianda ja aparelhada pêra certo convite , & que o
tempo da cea ou he presente ou nào pode tardar muito. Porque
o dia he breve, & os convidados faminUjs, & quê as mesas apa-
relha, he a morte em nada perguic^osa. Os moc;<^s acostumados
a muitos, &. exquisitos comeres, crescem para dar de si mara-
vilhosas esperanças de sert.-m mui ensinados em conhecer sabores,
& odores , & honrar as mesas abundàtes , & vasos de ouro , pro-
curando sempre superfluidades, & em amanhecèdo sair a rece-
ber as danosas cargas do estamago , como senão souberão quan-
tos sunctos varões no deserto padecerão fome, & quantos phylo- 22— 2 .
sophos , & Capitães em os raais viverão temperada , & aspera-
mèle. Se estando cercados de preciosos vasos, & manjares sabro-
80S, be guisados, & regalados vissemos a Taulo & António ini-
migos dos deleites , à borda da fõte partindo aquelle pão que do
Ceo lhe era enviado , avêdo vencido o mundo , & a carne ini'
migos de nossa alma invisíveis, de vergonha, &. dor se nos a-
travessariào as exquisitas iguarias na gargãta, & vossa gula se
amansaria. Quanto mais honesta foi aquella idade de que diz
0^idio, O pexe entre as gentes ainda nadava sem temer enga-
no, &. as Ostras em suas conchas estavão seguras. ÍSão se ha de
pôer no aue toca ao serviço do corpo mortal , o fruito da alma
immortal. Entre todos os deleites que per via dos sentidos cor-
poraes penetrào a alma , aquelles são mais feos , & sujos q per
raeo do gf>sto, & tacto se entremetem, porq estes mais que os
outros a nòs, & aos brutos animaes são commus, & em nenhi^ia
cousa se apouca mais a natureza humana , que em se inclinar
aos costumes da bestial , & gozarse com o pasto. O jejum pòem
sal aos manjares , cò fome nenhíia cousa se come que não seja
saborosa , & nenhíia hà tam bem guizada , & appetitosa , que a
repleção a nào faça desabrida , & fastiosa. A côtinua fartura
he mãy de fastio. O Epicuro, mestre da sciencia da gula, lou-
va , & encomèda o pouco comer como cousa mui necessária pêra
seu propósito, usando para deleite daquillo que os honestos va-
rões tem por temperança, & m<.;destia. Devese pois usar sempre
de hum manjar, íc este delgado, & i)ouco : salvo se por hones- 2S — 3.
tas causas, & sem algum dano da terripefança, algíia vez qui-
sermos usar de mais aberta licença. Este tal mantimento faz os
homès enxutos , rijos , de gentil aspecto , & de cheiro nem a .-i ,
7 *
6^ DIALOGO PRIMEIRO
nem aos outros nojoso. Ouqamos por fim o Ecciesiastico conse-
lheiro : não sejas cobiçoso de qualquer comer, nem te estêdas
sobre qualquer vianda, porque se he sobeja, causa enfermida-
des. O que for abstinente alongara a vida. Se muito carregar-
mos o jumêto de nosso corpo respingará , & dará cô nosco em
terra. Não he o vêtre fiel thesouro para reprimir os deleites da
gula , & os de Vénus seus continuos parceiros. Nenhum remédio
ha na medicina que nos possa ajudar com sua virtude, & costu-
mado effeito , se tem contra si o regimento que aos enfermos se
encomenda conforme a qualidade de suas doenças. 8êpre se teve
por presentíssimo remédio absterse o homem , hora de comer ,
hora do beber , quando a disposição do corpo o requere. A abs-
tinêcia he excellente medicina.
ylnt. Outro affirmou que me affligia gottacoral, & passando
L'ib. 10. c. pelos cincoenta remédios que Plinio apontou na sua historia na-
23. tural , me aconselhou que mandasse a Alemanha muyto à mi-
nha custa buscar a unha do pê direito do animal Alce, que pa-
dece este mal quotidianamête , & metendoa na orelha esquerda
Lib. 10. c. logo se acha desalivado delle. Inda q Plinio affirma , depois dó
23. adfinc. homem sòmête a Codorniz ser sojeita ao mal sobredito. E vòs
Apolonio cuido q me errastes a cura, visto como ha muito tem-
po q me applicaes a mesma mezinha , & cada vez me sinto peor
22 — 4. com ella. Em os tempos de S. Agostinho (como elle conta) flo-
70771. 2. cp. resceo hum clarissirao medico chamado Vindiciano, o qual cu-
ô. rou certo homem , & o deu são de hua gravíssima infirmidade ,
com certo remédio que lhe applicou. Socedeo q este dali a algas
dias recaindo no mesmo mal, quis usar do mesmo remédio que
, dantes lhe avia dado saúde , & em vez de sarar , aggravou a
doeça. Perguntado o medico pola causa de tão contrários effei-
tos , respondeo que lhe fezera mal o remédio com que se avia
achado bem , porq elle lho não mandara dar. Dando a entender
que hiia indisposição em diversos tempos, & idades avia mister
diversas curas , & differentes mezinhas. E ja pode ser que caís-
seis vòs neste erro , ou por não advirtírdes , ou por mais não en-
tenderdes. Nem me negareis que muytas vezes vos pondes a fa-
zer o que não entendeis, sò por ganhardes. Hay de nòs que gas-
tamos quanto lemos com quem nos dà a morte, & nos parece
que quanto mais dinheiro, & fermosas moedas lhe damos, tan-
to mais acertamos , e nos seguramos. Como não sangraes , enxa-
ropaes , íc purgaes logo perdeis o norte de vista ; & quasi ê tudo
o mais seguis os planetas errantes. Custumaes ouvir somente por
causa da medicina questuosa, algíis livros de Aristóteles, com a
primeyra & segunda Fen do vosso Avicena , & logo vos ides â
pratica , & por vos mostrardes doutos , fallaes latim entre médi-
cos de Úngoagem ; & entre os latinos citaes em grego certos ver-
DAS QDEYXAS DOS ENFERMOS, E CIRA DOS MÉDICOS. 63
SOS de Homero, como se foi ao autoridades dos originaes de Ga-
leno : & a quak;Uer propósito allegaes com hum Apliorismo, &
progncslico de Hippocrates, &. nisto se condue , & remata lodo -S — 1.
■vosso saber, primcyro sois mostres de néscios, q discipulos de
doctos : sois como canos de apou que primeyio a verte q delia
se aproveitem , & se vasao do q se enche & como fràcelhinhos q
se lãção ao ar primeyro q ciuze as azas & dahi lhe vem ser
brinco de mpazes. Quereis encher primeiro os outros, q vos en>-
chaes a vòs, igoal vos fora irdes vos enchêdo pouco a pouco como
as ostras f;ue com as conchas abertas recolhe o orvalho do ceo,
tee que trasl>ordn , & suavemete se communica o seu liqutjr. E
o peor he oue às vezes lartraes o pulso ao enfermo, &. lhe ensi-
Daes pella niao cual he a linha da vida, & quã enramada está
de honra , recontando graqas , & fabulas que obrào mais na saú-
de (segundo dizeis) que duas oitavas de escamonea.
j4piil. Nâo zombeis Antiocho, porque ja me aconteceo, estar
hum enfermo à morte de collica passio, & hngindo eu achar pe-
la sua mào, q aquelle anno avia de ter muita privança cò Rey,
& qíic avia de cazar a segunda vez mais rico; empregou tanto
a phantasia em per<runtar síí era cousa que lhe armasse , & se a
segunda molher avia de viver muito; que a minha fabula lhe
arrancou a dor, & lhe aproveitou mais q hiia untura de alacraes,
& nào vos pare(^a que gracejo, porque a dor obedece ao temor,
& o amor he senhor da dor & do temor. Refere Francisco Val-
leriola Doutor medico no 2. libro de suas observações medicinaes
em a quarta observação, que hum João Berla cidadão Arela-
tense , avedo muito tempo que jazia em cama paralytico, com
medo de hum incêdio que se hia chegando ao seu leito se levan- 29 — 2.
tou delle per si sò, & ajudado de outros por liiia janella se pôs
no andar da rua, e de repente ficou sam de todo. Entendermeis
melhor por este exemplo. Sae hum toureiro de baixo dos cornos
do touro, & levado as tripas na mão vae voando còs jxís. E o
outro que vè o perigo deste, por amor do idolo que tem à janel-
la, vay serp pès, sem mãos, & sem cabeça, esperar o mesmo
1t)uro. Parecevos que neste primeiro Ímpeto do temor que hum
leva, & do amor q rebata o outro, pode ter a collica passio al-
giia jurdição? Sabei que temor, e amor são aziar pêra todas as
dores.
^nt. A cobiça he inventora desses ardis, & faz lisar algiis mé-
dicos das cautellas que apontou o vosso Arnaldo; hi!ia das quaes De cautcl-
he , que cò os enfermos, cujo mal não conhecem , usem de pa- In medico-
lavras escuras pêra ter sua ignorada algíia encuberla, mm, c. 7.
51 DIALOGO PRIMEYRO
»(v» «/vx vvv vv* %-v» »'vv »-%-%• %'V* vvv vv%i*v» kimí^vvvvwvv-v*' vvvvv* vv% vvvvvví/^v^iv^vwív
CAPITULO XXI.
Qiíacs sam as curas dos mcdicos.
Ant. Ouvi a cota em que vos tem Séneca nas suas epistolas:
Guardate dos conselhos de médicos, que sendo pouco doutos, &
muito diligentes , matão a muitos sobcapa de fazerem bem seu
oftkio , & serê seus amigos. Poucos de vòs se dào tanto à inqui-
rição da natureza , »5c causas naturacs , q por coservar nossas vi-
das arràquem os olhos, ou lancem a fazenda ao mar, como ft-
zerão os phylosophos antigos por entender a providencia das for-
migas. E como nas infirmidades agudas não podeis ser médicos
de vòs mesmos , porq a imaginação do perigo em que vedes vos-
29' — 3. sa vida, vos perturba o juizo; assi- não podeis acertar nas curas
que faseis aos enfermos , porque a negociação , «& cuidado de
grangear fazenda vos traz tão occupados, que vos não podeis ap-
plicar à penetração dos segredos da natureza.
Apol. Quem será tão diamãte que possa sofrer despresos da
verdade ? Que inventores , ou seguidores das sciencias , & artes
liberaes , ouve tão diligentes como os nossos ? Chegarão a saber
que o corpo humano he formado de duzêtos , quarenta, & oito
ossos, & de tresentas, sessenta , & seis veiís , e o modo de que
se causão as digestões , das quaes pede sua saúde , tSc quem dis-
tribue o alimento per todos os membros , onde se deposita o hú-
mido radical ; quato tempo se pode manter , & cevar nelle o
calor natural faltandolhe o mantimento. Pois se nos ouvirdes
fallar na sua anatomia , nas suas quatro composições , & nos spi-
ritos vitaes , & como tem repartido entre si os ofiicios , &. quan-
tos compartimêtos ha no cérebro, & se he parte mais principal
que o coração , & em outras repartições dos membros , pasma-
reis da nossa especulação, & vereis descuberta no corpo de híi
homem , a melhor ordem , &, o mais alto regimento que se pode
achar em hua republica bem ordenada.
Ant. Gentil regimento he o dos discípulos de Avicena , cuja
medicina avêdo de ministrar saúde aos homens, & remediar fra-^
quezas humanas, ordena tantos compostos de cousas simples que
alterão as naturezas , corrompem as compleções , e nos oppillão
por todo o tempo que vivemos. Plinio no iim do cap. 23. do lir
íi9 — i. vro 2-3. diz, que em os remédios mixtos, a conjectura muytas
vezes engana , & que de nenhum he assaz guardada em as mis-
turas, a concórdia, & repugnância da natureza; & no fun do
cap. S-i. do mesmo livro ajunta, que mixturar com escrúpulo
as forças das cousas naturaes , não he obra de conjectura huma-
BA6 QUETXAS DOS ENFERMOS , E CURA DOS MÉDICOS. 55
Bft , mas de imprudência , & pouca vergonha , & o peor he , que
os bocados compostos quo põem certo termino a nossas vidas,
elles os ensinão , & dos movitos , & abortivos são conselheiros.
Poucos dellcs se sàgrao em suus enfermidades, e em tirar san-
-gue alheo são miuyto francos, tirando à voJla de hiía onrja do
mao, miiytas onças do l)oni , & da vida. E porque quero con-
cluir este argumento , digo que nuo sabem maia que híia ran
gyrina.
yjpol. Declaraime esse provérbio. yJnt. As rans dos Paiiys pa-
rem (diz Plinio) híías carnes negras ^ & grossas de pouca quan- Lib, 0. c.
tidade, a q chamào gy rinos, nas quaes se nuo enxerga mais que 51.
o cabo, & os olhos : depois se lhe fende o cabo, tSc os dous j)ês
traseiros; de sorte que parem as rans ao modo das fssas, &. da-
qui vem o provérbio quePlato usa contra certo home. Nos pello fn thcolc-
nome o venerávamos como se fora Deos, mas ell<; no saber não to.
\encia híia rã gyrina; & pcrdoaime Doutor ( inda q não s(;is do
numero destes) que fallo como magoado, & saudoso do tempo
em que me vi valente, & contente.
Apol. IS ao tenhais por felice tal estado, porque a boa dispo-
sição do corpo he muyto perigosa, & assi o prova Hippocrates
em híia carta que escreveo a Damageno, onde disse divinamen-
te, que como o bõ habito do corpo era manifesto perigo pêra os 30 — 1,
affeilos da alma , assi a prosperidade dos bons sucessos da fortu-
na, era perigosa para os homens. Epaminondas Thebano aven-
do híi dia de seus inimigos híia gloriosa vitoria, no dia seguinte
saio em publico, mal vestido, & cos olhos baixos.' Pregunlado
pela causa, rcspondeo, Hontem me senti algíi tanto tomado da
vaidade, & mais contente de mim do necessário, & pelo mesmo
caso quero hoje castigar a intemperança do dia passado. Tàto
se temia este invictissimo Capitão da arrogância que successos
prósperos trazem com sigo. Quanto maior he a ventura, tanto
he menos segura, Molher, vento, & vètura, prestes se muda.
E por tanto quando melhor despostos, & mais» favorecidos da for-
tuna, olhemos para os pès, & cabos de bens cor])oraes, & for-
tuitos. Cõsideremos como os extremos de hus, & outros, são a-
meaças de dores & magoas cõseguintes, &, quiçá desfaremos a
roda, os fumos, & ventos das vãs opiniões que causâo nossas ce-
gueiras, & inchações. Annexos andão os prineipios dos infortú-
nios, & infermidades aos fms da muyta saúde, & felicidade.
Esta he quasi a natureza de todas as cousas, que tem chegadas
ate or de podem subir , começào a dccer.
50 DIALOGO PRIMEIRO
CAPITULO XXIÍ.
Que a medicina he sçiencia , ^ ke arte.
Apul. E porque nos infamais de pouco doutos, vos lembro que
se a medicina considera os universaes (os quaes por serem inva-
30 — 2. riaveis gerao em nôs outros certesa ) he verdadeyra sciecia , &
nella se conhecem os ef feitos por suas causas. E desta maneyra
pertence ao contemplativo, que não tem outro fim senão conhe-
cer a verdade; & muytos a sabemos. Podese também considerar
como arte ; & bem sabeis que as artes nacem das experiências ,
as quaes nella são muyto incertas, & por tanto he falaz, & pou-
co certa , & pertence ao activo , o fim do qual he obrar , e occu-
parse na inquirição das particularidades. Tomada deste modo vos
concedo q delia se sabe muy pouco , como cada dia nos mostra
a experiência. E se quereis saber donde tiramos a reputação que
temos , sabendo , & obrando tão pouco , digo que da inconside-
ração daquelles que não advertindo ao ^ fasem os homens , se
deixão enganar do q dizem. Certo he que os homens em suas
cousas próprias vê muito pouco, & especialmente nesta por o
grã desejo que tem de viver. Guai de nôs se se descobrissem , «St
fossem delles vistos nossos erros. Perguntado hã dos Sábios de
Graecia qual era a causa porque nunca adoecia, respondeo que
por não conversar, nem ter que fazer com médicos. Nenhum
bom medico, como disem , toma purga se não per maravilha,
& nenhum bom avogado pleitea. E o peor he q pêra manterem
em reputação seus enganos , fazem crente aos homès que as to-
mão , fasendoas ordenar aos boticários , & depois de lhas emvia-
rem a casa , as mandão lançar no mõturo. De sorte ^ nosso vi-
ver he híia charlataria, & onde corre mais a confiãça que a gen-
te em nos tem , ahí são mores os nossos enganos ; & por isso se
pode dizer, aproveitar muytas vezes ao enfermo a fee que tem
30 — 3. no medico, mais que as mezinhas, ganhando aquelle mais fè
que melhor sabe pairar , & persuadir ; & não o q melhor sabe
çbrar. Bem se vè sabermos pouco da medicina , ê darmos mui-
tos remédios a hum sò mal; quãtos mais remédios applicamos a
hua doença tanto menos sabemos da arte ; porque he sinal de
não sabermos o próprio. Como todos os effeitos tem hiia sò cau-
sa própria que os produze, inda que possão depois ser produzidos
de outras accidentalmente , assi qualquer mal tê seu próprio re-
médio, que conhecido o sara sem nenhua duvida, & por tãto
he melhor tomar hum medico ditoso, de que se saiba que a mòr
parte dos doentes q caem em suas mãos ficão sãos , & q lhe sue-
DAS QUEYXAS DQS ENFEEMOS , E CtíRA DOS MÉDICOS, 57
cede bem a mòr parte de suas curas; que tomar hum douto ^
nas cousas duvidosas sempre escolhe o peor. He lào diflicil em
a medicina applicar os universaes aos particulares, que se os
doentes não tem boa dita na elíúçào do medico, passão grandis^
simo perigo. E quíito ao perdão que me pedis, não volo posso
negar : lembrame o que Sanctiago diz na sua epistola que he
perfeito o que a nimguem offende com palavras. Muy comus,
& geraes sâo em nos os excessos da lingoa ; & muy rara he sua
jgnorâcia. Mas também me lembra que mandava Platão nas
suas leis, que se perdoassem às molheres as culpas de suas pes^
soas, mas nào as que cometessem com aslingoas, porque aquel-
las procedião de fraqueza, &. estas de malicia. Quanto menosi
se deve perdoar aos homès quaes quer delias ! Mas cuido q não
dissestes mal de mim, senão daquelle, que em ei conhece o
que vòs culpastes. Bem disse S, Ambrósio q mais difficultoso he Lih. 1. o/,
saber calar, que saber falar, & Séneca : falâo de mim mal os 30 — 4,
liomes , porque não sabem falar bem ; fazem , não o que eu me-
reço, mas o que elles costuraào, Não me dà do que dissestes,
nem ha pêra que vos respõda. O ouvido deve poder mais q a
lingoa , visto como e cada qual dos homès ha duas orelhas , não
avendo mais que híia lingoa, fácil he falar contra quem não ha
de respôder. Eu sou senhor das minhas orelhas, como vòs da
■vossa lingoa. E bastame saber que todo o homem he vão, &,
mentirí«o,
Ant. Na explicação dessa verdade me quero deter hum pouco,
VViVV\%/V%%V«%rvV%'V«<VV^%'VV%/%^VV%%r»%VV\VVVVV\%'V\VV«VVVVV\VV%VVV%^VVVV%VVV
CAPITULO XXIII.
Da falsidade que ha cm os homens : ài de suas màs lingoas.
O Sancto Rey , & Propheta David amigo de Deos em sua
mocidade , sofredor de trabalhos em sua adolescência , & ama-r
àox da sabedoria ê sua velliice , levãtandose da terra com o pen-
samento passando pelos ares , penetrando os Ceos , voando sobre
os Cherubins, & Seraphins, chegado a considerar as perfeições,
íí. cxcellêcias de Deos , sua pureza ineffavel , sua fermosura in-
comparável, sua summa bondade, & infallivel verdade, trans-
portado desta contemplação, inferio esta còclusão. Omnis homo
sncvdax , cm nenhum dos homens ha verdade; não negou que Psal. 1K>.
em algíis ('.parados cô outros a possa avcr ; mas affirmou q com-
parados com Deos, todos são mentirosos. Em absencia do Sol
vemos que as estrellas são lúcidas , & híías mais claras que ou-
Uas, porem em sua presença nào parece taes, nê. se enxerga 31 — 1.
8
5B DIALOGO PRIMEYUO
nolla^ alí^aa rcfiil<Tencia, porq a excessiva lii^ desta luminária
lucidissima as encobre, & escurece. Assi em eõparação de Deos
nào se conhesce em os homés bôdade, nê verdade algua, inda q
dtílle cm algíia maneira a participe. Não se pode justificar, nê
abonar o home côparado cô Deos, disse o Patriarcha Job, E
Lnc, 9. ò; Chrislo nosso Senhor affirmou q a sò Deos covinha o titulo de
Mali. 10. bõ, & a sò elle per.semelhate razão quadra o de verdadeiro. O
mesmo Propheta vedo a pouca verdade q entre si tratão os filhos
de Ada, seus dobrezes, & malicias, & refolhos, como se fmgê,
& fallào hãs aos outros ao sabor de suas vaidades mostrado dif-
ferête coração nas palavras , do q lhe fica nas êtranhas , foi c5-
pellido a chamar por Deos, q lhe valesse, & o salvasse, como
receoso de se perder, & seguir o caminho daqlles, cuja gargãla
he sepulchro sempre aberto, q traga, & consume a fama, «Sc
hora alhea , & lãc;a do interior o mao cheiro de suas maldades,
cujas lingoas cõpoe palavras doces, moUes, & bradas, a fim de
embair o próximo, debaixo de cujos beiqos está escôdido o vene-
no das x\spides, & peçonha das bichas, q vomitão a tèpo q mais
danão. E cujas bocas andào cheas de pragas, & murmurações pe-
çonhètas. E assi exclamou : Salvum me fac Dcu% quoniã dimi-
PsaL 51. nutce sunt veritates à filiis hominú, E no Psalmo 51. falado con-
tra o maledico diz assi , cada dia , & em todo o tempo a tua
lingoa forjou maldades, & fabricou iniquidades. Como a nava-
lha aguda q contra o q se espera , & cuida delia , em lugar de
cortar o cahello , & rapar a barba , corta pela carne , & fere a
3] — 2. garganta; assi tu fora da opinião q de ti tinha, com hum ligei-
ro engano me offendeste, & chegaste : ô lingoa de enganos, a
amar, & usíu todas as palavras que consumem a fama , & bom
nome de teus próximos.
u4pol. Grandes por certo são os prejuízos, & danos, q os mur-
muradores, & deslinguados , gente civil fazem em as comunida-
des, & muito maiores que os latrocinios. Os homês de gravida-
de, & honra correm se de diser mal dos outros, inda q sejão
seus inimigos , porq he fraquesa molheril , & sinal de covardia
fazer se guerra cu as lingoas. Os cães mais fracos esses são os que
mais ladrão. A lingoa longa mostra he de mão curta, principal*
mente quando fala mal dos absentes. yínt. Mandava Deos no
Livilico q nimguem dissesse mal do surdo, q não pode respôder,
nè posesse tropeço ao cego, de q se não pode guardar. Outro
tãto he murmurar dos absètes q não pode revidar. Pois publicar
faltas secretas, nomeado o Author delias, he vicio de home a-
poucado de animo vil & baixo. Ha homès tão rotos, e néscios
q mais facilmête deterão ê sua boca brazas vivas, q culpas dos
próximos occultas. Não sei porq he difficultoso calar o q não he
necessário nê licito falar. Offrecêdo Elrey Lysimacho todas suas
DAS QIEYXAS DOS ENFERMOS, E Cl/KA DOS MÉDICOS. 09
cousas a Phylipj)ide seu privado, cUc lhe lespôdeo quo. ludo a- Plutar. ire
Cííilaria , lirad<^ seus segredos , cj se nao atrevia a guardar. De Deindr,
direito natural he , & cousa iniportantissima pêra a conservação
dos homes, nào descobrir huns as quebras dos outros, &. nao po-
derá aver amizade entre os homens se suas faltas , íí malícias
occultas andarè pellas praças , & forè em publico asoalhadas.
I*íÍDguem pode querer bè aos mãos em quanto laes, nem se fia 31 — 3.
de hyjíocritas, & maliciosos, se por taes os conhece. yípoL K
que sentis dos mexeriqueiros, mcxedores, noveleiros, & malsins?
yínt. Nào ha mais perjudicial cousa, nem gente mais infame
e as Hespublicas. O sábio tendo posto em o numero díxs seis
cousas q Deos specialmente aborrece, a lingua do mentiroso, &
as testemunhas falsas; disse que a septima cousa era aquclle que
semeava diicordias entre os irmiios (isto he que perturbava a paz,
&. amisade dos q erão amigos entre si) a qual detestava , & abo-
minava Deos grandemente , & por tal a estranhava David , di-
zendo; scdens contra fratrcm tuinn loqnebans, òf adversus fillum
matris tvcc poncbas scadalú ; jxjr onde se mostra a gràdesa do tal
peccado. L(jusas maravilhosas sào escriptas, & ditas da lingoa.
Os grcgoa a linhao em conta de membro táo profano, q antes
de sai;rificarè os animaes a seus deoses, lhes arrâcavào as lin-
goas. Conta Plutarciío q comparou Antipario a Demade home Tn Phoc'.o-
ja decrépito, muito iirosso, &. locjuaz com o animal sacrificado, Jiê ^' Cn-
de q n£.o ficava mais q ^, vêtre , e a lingoa. l^anctiago na sua tonem mv~
canc^iiica nos acr.selha q sejamos tardios no falar, & ligeiros no ri. c. 1.
ouvir cousas q nos jx)djè aproveitar. Diz maisq he vàa a religião
dacjuelle que não lefrea sua lingoa. He a mà lingoa vaso sem
cul)erta, òi pelo mesmo caso cousa immuda, & reprovada na lei
de Deos. He ca\allo sem freo, navio sem governalho , espada
aguda , que fere os de perto , & setta que asettea os de lõge :
Lingua corum gladins aciiixis , diz David; sagitta tndnerans lín-
gua coru , diz Hieremias, falando dos maldisentes & soltos da 31 — 4.
lingoa. Prudêtissimo he o que salje moderar sua lingoa em cujas
màos está a morte & a vida como testifica o sábio. Refere Sui- Prov. 18.
das que perguntada a lingoa para onde hia , respondeo vou edi-
ficar híia Cidaple , q logo hei de sovertcr. O peor & mais dano-
so membro, cjkie ha no home he a lingoa. Nenhíia cousa ha
mais branda, nê mais áspera : nenhua mais aparelhada para
danar, nè mais difficultosa de refrear. Muitos bcs &. males nos
vicrào da lingoa. Por tâto pedia David a Deos, que posesse guar-
da na sua boca, q ferrolhasse seus beiços, pêra q cerrada a bo-
ca , & fechada a lingoa nào soltasse màs palavras. He o home
tcplo de Deos, cuja porta he a boca, q convê estar tiàcada pê-
ra lhe nào ser roubado o thesouro da moderação de sua lingoa.
Devese escôder , Sx. guardar a lingoa como thesouro , & por isso
8 «
60 DIALOGO PRIMEIRO
a cercou Deos de beiços , & dentes , como de vallos , e muros ,"
q a segurasse. O muito falar he lodo , e o pouco he ouro. Fala
derradeiro , & enlêde primeiro ; fala pouco & bê , & tertehão por
alguê. O sábio falado se faz néscio, & o néscio callando se faz
sábio. S. João Chrysostomo no sermão da fee, & lei da nature-
za diz elegantemente : Deu Deos a lingoa ao home para falar ,
louvar , & catar seus louvores , & interpretar a fermosura da na-
tureza & disputar do Ceo, & da terra sedo ella híia partícula de
carne. E por q se não emsoberbecesse , permitio q muitas vezes
enfermasse , & nella se gerassem flegmas , gretas , chagas , in-
chações para lhe lembrar q he mortal : inda que fale de cousas
immortaes 5 e para que conhecesse a virtude , & alteza das cou-
3â — 1 . ^as que louva , & a fraqueza , & baixeza sua que lhe dà os lou-
vores. Governão se os cavalos pelo freo, & as nãos pelo leme
sendo pequenos instrumentos. Assi a lingoa, diz o Apostolo San-
ctiago, sendo hum pequeno pedaço de carne exalta as cousas
grandes. Híia faisca de fogo he bastante a queimar toda hua
mata, assi a lingoa macula todo hu corpo, & acesa no fogo do
inferno, abraza, & tisna toda a roda, & curso da vida dos ho-
mês , os quaes podêdo domar as bestas feras , não podem domar
sua lingoa. Geral iniquidade , mal inquieto , & mortal veneno
he a lingoa , com ella louvamos a Deos , & vituperamos os ho-
mens, q são imagem, & semelhança sua. De híia mesma lin-
goa sae a benção , &, a maldição ; não rebentando de hum olho
■ da mesma fonte agoa doce, & amargosa. Se he grande mal em
as molheres , serem desvergonhadas , não he pequeno ê os homes
serê deslingoados , & mal falados. Guarde nos Deos daquelles,
que agução os dentes como serpentes, & tem a peçonha das Ás-
pides debayxo de seus beiços; & daqllas bocas em que ha duas
iingoas, côtra as quaes diz o Sábio, Os bilingue dctestatur ani-
ma mea.
CAPITULO XXIIII.
Contra os praguentos , áf que não devem ser ouvidos.
j4pol. Pêra escaparmos dos perigos , & incitamêtos da mà lin-
goa, he muy importante fogirmos das mòs, & juntas dos ocio-
sos , & praguentos , q como cisternas rotas , & vasos fendidos se
vazão per todas as partes ; & como taramellas nunca cessão de
32—2. se desentoar , & pregoar faltas alheas.
^nt. He mui necessário não lhe darmos orelhas, porq estas
são as acêdedalhas das mâs Iingoas. Nã he pequena culpa deixar
DAS QUE¥XAS DOS JCNfXKMOS , E CURA DOS MÉDICOS. 61
áe resistir, & não \irar o rostro aos mald isentes, pois que dan-
dolhe as costas , podemos tapar suas desbocadas bocas , & fazer
que cessem suas infames lingoas. Livre nos Deos das daquelles
que representa David , Lingiiã nostrã magnificablmus ; engran-
deceremos nossa lingoa , os nossos beiços dirão o q nos quiser-
mos, não reconhecemos senlior neste particular. S. Bernardo diz Scrm. 24.
a este propósito : não se ache minha alma em a junta dos que in Lunt.
são de Deos avorrecidos, & de David perseguidos. Grãdemête
impugna a charidiide q he Deos, todo o q desfaz è seu próximo,
pois pretede q venha em ódio , & vilipendio de todos os q lhe
àno audiecia. A lingoa dos maldisentes fere a charidadc , &
quãto nella he a mata, & extingue naquelles que a ouve, &
chega não sò aos presentes, mas tàbem aos ausentes o seu vene-
no per via da fama , mal q voa ligeiramete , & a cada passo co-
bra n<!vas forças. Destes disse David , q a sua boca estava chea
de maldição, & amargos, & q seus pees crào ligeiros pêra der-
ramar sangue. Híi he o q fala, &. híia sô he a voz : & todavia
sendo su híia, em o momêto q toca , & empeçonhenta as orelhas
dos ouvintes, & circunstantes, nesse mata muitas almas, 6c ho-
ras de innocentes. O fel da inveja , q nos deslinguados domina
não p(xl(í pelo instrumeto da lingoa spargir, senão cousas q ama-
rujão, & amargão, porq fala a boca da abundàcia do coração.
Ha híís q se reverencia algua como lhe ve à boca, assi vomitâo
o veneno de sua detraçao , & ha outros q trabalhão por encobrir 3í2 — 3,
com o affeite de fmgida vergonha, & piedade cortesàa a malicia
q te em si concebido, & de nenhum modo a podem reter. Velos
eis mandar diante grandes suspiros , & com gravidade , cara tris-
te , sobràcelhas derribadas , & vòz de fingido pranto fulminar a
maldição tanto mais persuasoria & cruel , quãto mais crêem os
que a ouvem sair de coração forçado , & dizerse mais com affe-
cto de condolência que cô veneno de malicia. Doime muito o
seu mal, |x>rque o amo assaz, & nunca o pude emendar, bem
sal)ia eu isso delle, & per minha via nunca se soubera, mas ja
que outrem o descobrío , não posso eu negar a verdade ; cò dor
de meu coração o digo; mas re vera assi passa, & foi grande a
perda, porque aliás tem foão outras partes; mas disso que se
diz delle, se eu ei de falar verdade, não se pode escusar. Des-
tes se pode entender o que disse David ; In cordc , Òi cordc lo-
cuti sunt. Guardenos Deos deste vicio malignissimo, peçonha
cncuberta, & peste dissimulada.
^ApoL Guarde, por qu(^m elle he. Em fim vos lembro que os
cães não mordem os que estão assentados, & lhes fazem rostro,
& mostrão os dentes. E que o animal Bonaso que còs cornos re-
trocidos não pode fazer mal fogindo solta esterco , que como fo-
go queima os que \ào trás elle ; assi ha alguns que não ousan-
^4 PÍALOGO rRíMEYUU
do cometer os lioniens por diante, por detrás os contaminao com
os opprobrios que espalhào. Os homens loquases devem tomar
exemplo nos jarros de bico, que prestes se lhe quebra, assi pou-
,^}^ — 4, CO dura o brio em suas pessoas, & a paz em suas casas conforme
ao que disse David. Fir linguosus non dirigdur in terra. Muytas
vé^es fazemos o que em os outros accusamos , & somos eloquen-
tes contra nossas pessoas. Não são necessárias as muitas palavras,
mas as efficases : sejào ellas poucas, & saião da boca com tento,
como da mão do semeador cae a semente. Imagem do animo
he a fala , & qual he o homem tal he o seu falar. Hase de re-
primir a lingoa, como o escravo licencioso, liga a lingoa, &
não he de nòs ligada, he lúbrica, & poucos podem ter mão nel-
la , escorrega como a Enguia , diminue amigos , & multiplica
inimigos , seraea discórdias , move brigas , hè membro tenro , »Sc
poucos a podem domar. ÍSam Hieronymo nos avisa que aprèda-
mos mais a ordenar nossa vida, que morder a alhea. Não se ha
' de julgar temerariamète do próximo algum mal, não se ha de
falar , nem ainda ouvir ; & de se faser o cõtrario não pode aver
bastante causa, pois não pega, nem prega na dura pedra a agu-
da setta : Matéria, & licença dá â mà lingoa o que com alegre
rostro a agasalha. Não fala com gosto o que se vee mal ouvido.
Como o norte espalha as nuvês, assi a cara triste dissipa as pra-
gas dos que mal falào. He a mà lingoa serpente , cujo veneno
empeçonhenta os ouvidos, & cO a fogida delles não perjudica.
Pello contrario quem lhe applica as orelhas , dà entrada ao de-
mónio que o maldizente trás em a lingoa. Dentes são as màs lin-
goas, que roem, & espedação a boa opinião do próximo. Fains
são agudissimos, que de hum bote penetrào, Ôc ferem a muitos.
33 — 1. Bichas peçonhetas que cõ hum sò sopro inficiouào toda hàa Re-
publica, se se lhe dà audiência. Torna a traz a setta que dà em
forte penedo, & virase contra quem a lança; recolhe sua lingoa
o desbocado , se acha repercussivo , «Sc cessa de failar mal o des-
linguado, se de ninguém he ouvido. A conclusão nesta matéria
seja, que contra a honra do próximo, nem se soltem nossas lin-
goas, nê se oução as alheas. Bemaventurado aquelle que de to-
dos diz bem , & assi anda armado cõtra os que dizem mal de
seu próximo, que ninguém em sua presença ousa de praguejar.
Mas a noite he vinda, & com ella a vontade de comer, & he
mais que hora de cear. Celebrado he o dito de Catão em Plu-
tarcho, & Aulogelio na oração em que dissuadio a lei» Agraria.
Árdua cousa he pregar ao ventre, que não tem ouvidos. Onde
ha fome não se adraitte razão , nem se soffre contradição. En-
comêdovos a Deos , elle vos dê a saúde que aveis mister.
Ant. Perdofji vos a vingança que de mim tomastes, vista a cô-
fissão das curas dos vossos médicos. Deos và com vosco Doutor^
DAS UVEYXAS DOS ENFERMOS, E CVEA DOS MrPKOS. (53
& VOS faça bem esqiiansado nel?as, pêra q também o sejais em
a minha. Confessores, que a muitos nào pode danar a mão, & 33— i2.
pode o fazer a lingoa. Miiytas vezes nos arrepêdemos de não a-
ver calado, & que seja melhor calar, que avogar, & falar em
Íublico, nem os mesmos avogados, & oradores o negarão. Se
ulio, Demoslhenes, & C ic» rt^ fr rão mudos, poderão viver mais
longa vida, &. morrer muy melhor morte. Mais são os infames
per as palavras, que por as obras; & se a alguns homens hc no-
hm &. resonante jjienibro a lingoa ; à mòr parte dtilles he pesti-
lencial, & danoso; tanto que a muytos fora melhor aver care-
cido delia, & da sua mà semente. Não ouve Deos menos aos
que calando falão , que aos que dão vozes , antes para com elle
não ha clamor mais rijo, mm mais alto que o do coração, por-
que com o silencio se deleita , como o que ouve a Deos não he
surdo, assi aquelle a qutm Deos ouve não he mudo. E se fa-
lando com vosco excedeo minha lingoa em algíias palavras, de-
veismas de perdoar, (Sc levar em cota; porque a força das dores
me cõpellio a cair nos taes excessos.
^pol. Deos nos perdoe a todos; Ò) sit benedidus m sfccula.
DIALOGO SEG UNDO. ^
ALLIVIO DE AFFLIGIDOS.
INTERLOCUTORES
jiJSTlOCHO ENFERMO, PAULINIANO PREGABOU.
CAPITULO I.
Que o homem deve ser compassivo.
O
Z'ò—'à. Pauliniano. \' Spirito Sanoto, que he unicp refrigério dos
atribulados, encha esta casa de verdadeira consolação, & alegria,
Antiocho. EUe venha em vossa alrna, pêra dahi se communi-
car a esta tão necessitada do divino favor. Mil annos ha que me
não vedes , sabendo que desabaffo com vossa presença , & que a
pratica , tSc conversação de semelhantes pessoas , he mezinha pa-
ra almas tristes, & corpos enfermos. Paul. Não cuidava de mim
tanto , & receava servos molesto ; mas daqui em diante não dei-
xarei de vos acompanhar & frequentar esta casa mais vezes, nao
tãto polo que vòs podeis ganhar com minha conversação , quan-
to pelo que eu posso com a vossa.
jÀh. 3. ca, Ant. Orosio Sacerdote disse com verdade, & elegância, que
14. as agras calamidades de huns, servem a outros de doces fabulas.
33 — ^. Ha muitos homens q se mostrão graciosos quàdo se lhe represêtão
misérias alheas , & achão sabor no q deverão achar lastima , «St
compayxão : destes tenho conhecido não poucos, & dos que não
tenho nesta conta , sois vòs o primcyro.
Paul. Estais na verdade, por que sou muyto vosso amigo, &
tanto me compadeço de vossos hais , q se poderá fazer minha a
vossa doença, isso fora o menos que fizera por amor de vòs. Cer-
tificovos serme tam próprio & natural o ser cõpassivo, que não
tenho por homem o que tê por alheos de si os trabalhos que las-
timão outro homem. Natureza he de Deos mostrarse pesaroso a-
tè dos mãos, inda que os veja castigados justamente, & doerse
de suas perdas, & desatinos. Quando os Judeos crucifica vão o
Senhor Jesií, então lhe alliviava elle a culpa que naquella crue-
34—1. za & injustiça cometião, &, mostrava que mais sentia seus males
& as penas a que se obrigavão , q suas próprias dores. Mais se
lembrava, no tèpo de sua benditissima payxão, da perdição de
ALLIVIO BE AFrLlGIDOa, 6d
Judas, que da sacrilefra vencia que aquclle malvado traidor li^
nlia delle feito a seus inimigos. Semelhante a esta he a condi-
rão dos íSanctos, & reconhecendoa Deos em o justo Noe (segun-
do pcdera 8. João Chrysostomo) lhe mâdou, que fechasse a arca, flomtl. 15,
& portinhola de dctro, para não ver a geral deôtrui(;ào dos ho- in Genes,
mens, &. não receber pena de os ver todos alagar. Ate os Anjos,
diz o mesm(j Doutor, mostrarão grande sentimêto quando no dia
do jui/o virem a perdição do mundo.
^nt. Marco Tidlio, sendo gètio, escreveo, que he de homem In Caione,
bem instituído & informado da natureza, alegrarse côs bens, &
pesarlhe còs males de outro homem. Avemos de folgar com os
que folgâo, &. chorar com os que chorão, como nos acoselha S.
Paulo. Sentèça he de Publio, que o que se compadece dos mi- Rom, 12.
geres, de si mesmo se lembra. Mui dignas de consideração pare-
cem estas palavras de Lactancio Firmiano : Deos nosso Senhor
porque não deu saber aos outros anímaes, gerou os com armas,
& munições nuturaes pêra os segurar de perigos : mas ao homem
porque o criou fraco, & nu querendo o melhor instruir, armou
o de sabedoria , & deulhe alem das mais perfeições o affecto de
misericórdia; para que o homem defenda, ajude, &. ame o ho.-
mem. Se todos descendemos de hum homem que Deos formou;
certo he que somos liados per parentesco, & obrigados a nos ter-
mos huns aos outros amor reciproco : quanto mais que sendo to- 34 — 2.
dos inspirados, & animados da mão de hum sò Deos, pay nos-
so celestial, q outra cousa somos senão irmãos huns dos outros?
todos trazemos a descendência , & origem da semente celestial ,
& o mesmo Deos he pay de todos , disse o Poeta Lucrécio. No-
táveis forão os desatinos dos legisladorcB gentios, que em suas
leis acordarão , não fossem providos do necessário , os mancos ,
& enfermos de longas, & incuráveis infirmidades : & que os me.-
dicos não entendessem em curar salvo os doentes das breves , 6c
remediáveis. Entre os Lacedemonios , como refere Plutarcho ,
por decreto dos seus Senadores, su os que nascião be despostos,
& pvometião elegãcia , & esforço nos corpos, se criavão, & os
desformes, & fracos erao precipitados de lugar alto, como â
Republica , & a si mesmos inutiles. Os stoicos avião que era
fruquesa a compayxão que se tinlia dos míseros , &i necessitados.
I ão grandes forão os erros , & cegueiras dos sábios da gentili-
dade,
l*nul. Os turcos , & mouros das partes de Síria são de parecer
contrario, porque cm nenhíia maneira soffrem que algum homem
olhe com mãos olhos o cego, leproso, & aleijado, ou enfermo
de qualquer doença que seja : &. affirmão íj são obras de Deos,
& que são obrigados a louvalo, os que se vè livres dos laes mã-
es. Nem ainda sofrem que alguém se ria, cuspa, ou íalle pa-
9
60 DIALOGO SEGtJN'nO
lavra de escarneo contra os justiqados por suas culpas. A verda-
5. Grfig". deyra justiça he compassiva, & a falsa desdcnhativa. Aniioxa
he â compaixão não sò a amisade, como diz Cícero, mas a hii-
34 — 3. manidadc; Homo síí, Immani à me nihll ctíicnum puto ^ disse o
Cómico ; Atè os brutos usão de piedade hiis com os outros , 6c
amáo seus semelhantes. Dos Grous conta Solino que tem todos
cuidado igual, & uniforme dos cansados; & se hum cae acodem
os outros a levantalo, ajudandoo, & sustentandoo , tè que cobra
as forças perdidas. Dos Elephantes lemos que se aclião algum
homem desencaminhado , o guião tè o pòr no caminho : & que
se polejão contra outros animaes, metem no meo os cansados,
Lih. 11. c. èí feridos. Das abelhas escreve Plinio que pò(;m as enfermas an-
18. te as portas do seu formigueiro ao sol, & lhe U'azem de comer,
& acompanhão as que morre à maneira de c}uem faz exéquias a
defeitos. De outros muitos animaes & peixes conta Eliano cou-
sas semelhantes na sua historia dos animaes. Pois que mor con-
fusão pode ser para mim, que compadecendose assi as feras, &
brutos animaes hiis dos outros, & dos homens, que não são de
sua specie , com piedade natural ; ouvindovos eu clamar , ge-
mer , & chorar , ao menos forçado de vossos lastimosos gemidos
não me condoer, nem aver em mim algum sinal de sentimento,
& charidade fraterna ? He possível ser o home mais cruel que as
bestas feras de Libia? Deos me he testemunha, que depois de
estar aqui com vosco, & ouvir vossas sentidas queyxas, se me
moverão as entranhas, & ouve tanta piedade de vos, que cho-
rei, tSí acompanhei com as minhas as vossas lagrimas, comprin-
do o que S. João Chrysostomo nos ensina, que senão podemos
relevar nossos próximos de seus trabalhos ; dandolhe as lagrimas
34 — 4, pias de nossos olhos, lhes diminuiremos boa parte delles. Não
fui tão isento de magoas, cjue a experiência própria das desave-
turas, & misérias em que vos vistes, & vedes me não obriguem
a sentimento, & piedade. Também posso dizer com a Dido de
Virííilio.
Non ignara mali , imseris succurrere disco.
Dos males que em minha pessoa exptírimentei , aprendi so-
correr aos miseros. Se vos vira ê prospera fortuna, contente de
>oss(js bons successos, & mos mandareis festejar, quiçá me fora
difficultoso, mas que será tão fero q se não mova ouvindo hais,
eousa em que nenhíia matéria de inveja pode haver? E passando
por este affecto , que em mim he muy certo , a amisade , ôí of-
ficio me compelle a faservos algíias lembràças, que vos sirvão de
avisos, & confortos.
yint. Isso he o que estou esperando de vossas letras, & sancto
zelo, & o que me a mim muito importa, pois não pode ser mòr
miséria j q na copia de tribulações aver falta de consolações; &
ALUVIO DE ATTLIGIDOS, 67
quanto o home mais ])ndece, tanto menos ser relevado; & no»
perigos da alma fallmlhc quem o guie, & desperte.
%«V\ «'VV VV\ VV\ VVV VV\ VVV trv\ VV\ VV^ VVf^ V%\ %fVV «/VV «'VV VW^^ VV« VVV VV% VWl W% W% VW
CAPITULO II,
Quanto se devem procurar os bens da alma^ i^ da gmrra que tem
conhigo.
Paul. Nenluia cousa mà queremos em nossa cíisa; nc soffre-
mrs em nossas pessoas o niao vestido, nem ainda as roins cal-
ejas, & mãos sapatos; & todavia admittimos a mà vida; &. nao
preferimos nossa alma a nosso calçado, vencendo ella a toda a 30 — X.
criatura corjíoral na dignidade de sua natureza; & podendo ser
esjjosa de Cliristo, a fazemos adultera do demónio. 8e he obra
merecedora de grande galardão livrar da morte a carne mortal ,
de que merecimento será livrar delia a alma immortal que cltT»
namente ha de viver? Ceo lie a alma sancta que te por sol o
intendimento, por lua a fee, & por estrellas as virtudes. jNão se
soffre achar o jumento que eae , quem o levante, & não achar
a alma caida que lhe dè a mão sendo insignida com a imagem
de Deos, decorada com sua semelhança, desposada com elle por
fee, dotada do Spiritu sancto, remida cò sague de Christo. Tam
nobre creatura ha de servir à carne vilissima esterqueira? seja
pois a primeira das minhas lembranças, a conta que aveis de
ter com vossa alma , em cuja saúde vos vae tudo. Louco seria o
que trouxesse o seu çavallo cuberto de seda, & ouro, anafado,
& enjaezado , & bem comjjosto, trazendo sua pessoa cuberta de
remendos, vestida de farrapos, cortada de fome, &. chea de
lazeira. Ao cavallo hiaa sella de couro lhe basta, & hum rijo
freo lhe he necessário; e ao cavalleiro, se quer que a gente não
fique delle moffando, convém muito cjue ande bê tratado, lim-
po, & adereçado. Assi também o corpo que he o jumeto pouco
vae em que ande gordo, & bem curado, bastalhe o commum
vestido, &, frosseiro mantimento, & ha mister hum forte freo
pêra que senão desmande. E a alma que he o cavaleiro convém
aíidar bem concertada , dx fermosa , &, adornada com atavios de
excellentes virtudes, se não queremos que se rião de nos os An-
jos, & nos tenhão por sandeus. Não convém engordar, & afer- 35 — í3.
Diosentar a carne, (jue daíjui a poucos dias os bichos hão de tra-
gar no sepulcliro; & affear a alma que a Deos, & aos seus An-
jos ha de ser presentada em o juizo. Mas nòs luiv<^iTiOnos cõ a
alma, como se fora vil, & aborrecido hospede, (Sc iionramos o
corpo como generoso , e amado senhor , para ellc lavramos , se-
y *
68 DIALOGO SEÒUÍÍDO
meamos, & colhemos, por seu respeito suamos, & nos desterra-
mos, e matamos. A muitos senhores serve o que a sua cariíe
obedece. E o peor he , que esquecidos da alma , ao corpo diri-
p:imos todos nossos cuidados, para elle velamos de noite, & tra-
balhamos de dia , a elle servimos , & obedecemos , sendo mais
ingrato que nenhum outro senhor , pois sempre se queixa , &
niica he contente, por mais bem q lhe façamos. Maiores somos,
e para mores cousas gerados que para sermos escravos de nossos
corpos. Não foi feita a alma por razão do corpo , mas o corpo
por respeito da alma. Grande abusão he servir a senhora, & do-
minar a escrava , estimar , & cõversar mais a parte que em nòs
he o peor , que a divina , & melhor. Não he o homem sô aquil-
lo que sua forma corporal representa, & q co dedo se pode mos-
trar, senão o animo que está dentro nella , & por isso disse S.
Paulo que não estimava sua vida mais que a si , entendendo
por si sua alma. j4nt. Que remédio se ]K)de dar a hua alma,
que trás com sigo discórdia, & de contino peleja com diversas
affeiçoes ?
Paul. Não ha peor guerra q essa , porque as outras são entre
hus homês , e outros , e esta he do home consigo mesmo. A
35 — 3. guerra civil vèse em as parcialidades do povo, & em as praças
da cidade , porem esta fazse dentro nalma , & entre as partes
delia. í) posto que aja híi linage de guerra que chamão mais
que civil , em a qual não sò huns cidadãos contra outros tomão
armas , mas também os parentes , &. irmãos entre si ( como foi
a q ouve entre César, & Pôpeio ) mais justamente se pode dizer
esta mais que civil, pois nella não contêde o pay contra o filho,
nem o irmão confia o irmão; mas hum mesmo homem contra
si mesmo. Nenltlim repouso, nenhua seguridade pode durar em
nossa alma , senão laçarmos de nos a diversidade dos affectos ,
& paixões , que se hão como cidadãos revoltosos , & os não re-
dusirmos a hua vôtade, & a querer híia sô cousa, alias nunca
em nosso coração averâ saúde , e paz perpetua. Como os con-
trários, e corruptos humores em os corpos, assi os contrários, e
corruptos affectos gerão nas almas infirmidades. As quaes tanto
são mais perigosas, quanto a alma he mais nobre que o corpo,
e quanto a morte eterna he mais terribel, que a temporal. Por-
que nosso animo não elege bem , por isso pelleja. Façamos nòs
que escolha elle o que he bom , & logo cessará a guerra , »Si a-
verâ nelle concórdia. Os vicios, &. não as virtudes, são os que
entre si discordão. Ant. Vejo o meu animo partido em diversas
partes.
Paul. Em três partes dividirão os phylosophos nosso animo;
das quaes a primeyra poserão na torre d'Omenagem , isto he na
cabeça , corno governadora da vida humana j & como cousa se»
AI.LIVIO DE AFFLIGIPOS. Oi)
rena, celestial, e sempre chofrada a Deos, onde 09 sossegados,
e lioncstos desejos tem sua morada. Das (jiitras duas, liíla pr.se- 3ó — i.
rào no peito onde u ira , & os impelos fervem , ác a outra debai-
xo do coração, onde as concupiscências, e deshonestidades tem
sua habitação. Estas duas tempestades ha no pego de nossa al-
ma, &. pêra nclla haver tranquilidade façamos, o q fez Menenio
Aggripa, que persuadio ao povo líomano que seguisse aos mais
principaes , & a estes se sometesse , & feito isto logo o reduzio à
concórdia , estando dantes diviso em duas partes , façamos nòà
que as partes da alma menos nobres obedeçào às mais nobres, &
quietarse hào as cupelêcias, & averà nella paz. Mas hay de nòs,
q muitos acabamos primeyro a vida, que tenhamos assento era
nossos consellios, & saibamos que he o que queremos, & guar-
demos nosso coração, &i nelle achemos o repouso que desejamos.
ISão repousar nosso animo sinal he que lhe vai mal. Como o
corpo enfermo se revolve pela cama; assi o animo q não tem
saúde se revolve com diversos affectos. Donde vem ao homem
ser mudável, não se chegar a algum cõselho , & se começa al-
gum bem , não estar nelle constante ; porque não sabe estar
quedo ; Disto procede andar a nao de nossa vida entre as turba-
das ondas revolta, desemparada de sam conselho, & bom mes-
tre, «Sc mui perto de ser alagada. Resta que em quanto o go-
verno delia nos não he tirado da mão, cheguemos a algum sau-
dável, & seguro porto, no qual deitadas as ancoras repousemos,
antes que a tormenta de nosso animo nos affogue. Esta nos faz
andar hora alegres , hora tristes , hora medrosos , hcfra ousados ,
hora ligeiros, hora carregados. Bem se deixa ver, que tè a ca- 36 — 1,
ia saem as mudanças de nossa alma, pois se faz disforme, varia,
& semelhante a ella, & delia toma sua figura. Porem se nos
determinarmos no bem , seguirse hà no animo , & enxergarse ha
no rostro hiia verdadeyra, & solida quietação que entre todas
as cousas da vida he a melhor; híía tranquilidade, & re})ouso
corporal, que nenhua esperãça, nenhum medo, nenhua triste-
za, nem prazer nosso possa tirar. Desta maneira, iuda que a
nossa barca seja pequena, seguramente podemos navegar nella,
per este grade mar; porque Deos que delia se ha por be servi-
do, he mui amigo, & fiel governador de nossa saúde, &. nao
faz ao caso que o passajeiro não saiba a via , nem a viagem , se
o piloto , & mestre delia a sabe , & não pode errar o porto. Da-
vid compara o justo cõ a palma por razão de sua perpetua ver- Psal, 91.
dura , que nem no estio , nem no inverno perde ; ík também
por a suavidade de seu fruito, & por sua constância, & firme-
sa. Não se sometc ao pezo de que a carregão , antes lhe resiste ,
& se levanta, & restriba contra elle, & vive tanto espasso de
tempo que he symbolo da bemaventurada im mortalidade. Com-
70 DIALOGO SEGUNDO
parase tambe com o cedro, que em grande copia se multiplica,
nunca a]KKÍrece, nem despede a folha, & lança de si suavissimo
odor, lie de estatura mui alta, & direita, & fuz híia sombra
jucundissima, assi os justos são íirmes, estabiles, & quanto mais
os opprime, tanto mais se esforção, reverdescê, & levautão ao
Ceo.
«/vvvvvv%'Vvvvvvvk'vvvv\%'%^v\/%vv%t'V%vvvi/vvvvvvvvv%%%/«/vvvvvvi'v%'VVV\'Vvvvvv
CAPITULO III.
Lembransos que fa% a Antiocho Pauliniano,
.'»() — Éí, Obedeça pois o corpo à alma , & o homem a seu criador em
todo o tempo, & lugar. Séneca em as suas exortações nos des-
perta com esta exclamação, & doutrina louvada de Lactancio.
Grande , e maior do que se pode cuidar he aquella potencia a
quem servimos vivendo; façamos q esta nos ai)one, «Sc approve,
porque nada aproveita ter encuberta a consciècia, sendo a Deos
patente , & manifesta. E certo que parece specie de infidelidade
ousarmos a cometer peccados em lugar secreto , que não ousa-
mos em o publico ante os homens , como que não cremos aos o-
lhos divinos nenhu lugar ser occulto , em todos estar presente ,
nada se lhes poder esconder, & com tanta facilidade verem o
que se faz em trevas espessas, como o que se expõem à luz do
meo dia. E sendo isto assi atrevemonos a faser ate os ollios de
Deos o q não faríamos vendo nos os homês. Descortesia, & des-
comedimêto d(j que David fallando com Deos se accusava, di-
zendo : Tihi so/i peccavi : porque nao ousando peccar em presen-
ça dos homês , & tendo respeito a seus olhos , o não tive aos vos-
sos : Malum coram te feci : ante vos pequei & fiz o que não de-
via. Furta a medo o ladrão que teme ser sentido , & se vè que
o vem alarga tudo : assi pecca a medo , corta pelo peccado , o
q peccando crè , & se lembra que Deos o está vendo. E pois
nada se lhe pode encobrir , nem esconder , ponde em suas mãos
vossa consciência, & de quanto vos ella arguir, vos accusai , &
lhe pedi perdão com grande sentimeto polo averdes offendído.
Quiçá levantará de vòs a mão , & vara de sua justiça , & após
3G — 3. este topo adverso, & têpesluoso vos dará outro prospero, & sere-
no. Pedilhe a saúde que aveis mister, & tede por certo que se
Af^os não responder com o mais desejado , responderá cõ o mais
proveitoso, & justo. Conhesce o medico se he salulifero, ou da-
noso o que lhe pede o enfermo; pois somos enfermos, não di-
etemos ao medico divino as mezinhas que nos ha de applicar.
Hthagoras, & Orphèo entenderão que Deos não ouvia petições
AI.LIVIO T)T; AFFLIOIDOS. 71
injustns, por mnis ricos sncrif?(.ios que lhe fizessem os horrês, pois
nà() se corrompiam com dadivas «Sc peitas. Homero chegou a di-
zer, que os sacrifícios dos Troyanos nào forão aceitos a seusDeo-
ses, pola justiça manifesta que contra elles linhào os Gregos.
Basta ouvir David pêra prova desta verdade. Se ha em meu co- Psal. G5.
raçào maldade, nâo me ouvirá o Senhor. Se quereis que Ueos
ouça vossas petições converteivos a elle de todo coração , & pre-
paraivos pêra a nienliíia \os confessardes , & receberdes o Senlior
tào deveras, como se logo ouvereis de morrer, <Sc entrar com el-
le em juizo a dar conta da vida passada. Sabido he que nà hà
mezinha tão saudável, que tomada sem disposição precedente
nào j)er)iKlinue à saúde, inda que seja o Iveubarbaro da China.
Avemos de aguçar a rudeza de nosso engenho em a mò da dili-
gencia como Ch^anthes phylosopho fazia. A negócios, & conse-
lhos sobn; cousas de importância o que mais dana he a pressa,
& negligencia ; aproveitando muito a madura consideração , &
diligente execução, que aclarão o escuro, & fazem certo o du-
vidoso. Que quer vecer prestes, aperc(-'bese de vagar. Quem se
apressa no principio, mais tarde chega ao fim. Pressas inconsi- 36 — i.
deradas dão através cò grandes impresas. Isto he o que os anti-
gos dizião naquelhi sentença que veio a correr por provérbio.
Festiva lente. Aprestate, & não sejas açodado. Tlinio pondera
muy bem a causa , porq quando os Romanos possoiam poucas
geiras de terra, colhião dtdlas fruitos copiosos : & resolvese que
a causa da abundância daquelles tempos era procurarem se as
sementes, & fazevemse as sementeiras cõ tanto cuidada, quanto
se punha em as guerras. Com igual estudo davão os Romanos
orde às herdades, & aos reaes : tanto que cultivar mal os cam-
pos se linha por nota censória. E referem que por quanto Caio
Furio Cresino colhia mòr copia de fruitos de pouca terra, que
seus visinhos de muita, sendo acciísado de Espúrio Albino, que
usava de feitiços, & temcdo ser condenado, trouxe ao foro Ro-
mano seus instrumètos rústicos, respondendo em juizo c(ue a-
quelles erão os seus feitiços, alem de muitas vigilias, suores, (Sc
diligecias, que não pcdião vir à praça. Pois se pêra fertilizar a
terra , alem da clemècia dos ares , a preparação , tSc aparelho he
tão necessário; quanto mais conve que o seja pêra cultivar a al-
ma, negocio em que nos vai perdermos, ou ganharmos o Ceo?
yínt. Comprisles com a obrigação, q a Igreja impôs aos pa-
dres do vosso officio, como què^vòs sois. Agradeçovos a lèbran-
ça, & se Deos me dà vida ei de imitar Caio Furio; que como
dizia hum cortesão, não ha gosto que chegue a semear terra mi-
nha, còs l)ois meus, & negocear còs campos, que nunca dao
mà reposta , &. viver no meu casal, luge da Corte, perto de a- 37 — 1.
migos, conhecido de muy tos, cCversudo de poucos, cò a casa
72 DIALOGO SECUNDO
farta , & fíimilia contête , pasããdo a noite dormin Jo , & o dia
sem côtenda; não esquecido da vida, & lembrado da morte,
zeloso do bem, suffrido no mal; apercebido para ambas as sor-
tes, nem miiyto queyxoso do passado, nem muito entregue ao
presente, nem solicito, & pendurado do futuro. Bom he viver
a dias, conhesccr tempos, cortar esperant^as, por termo à cobiça.
Se acabássemos de entender q nos pode faltar à menhàa a vida,
começaríamos hoje de bem viver. Mas de tudo isto nao tenho
mais que a especulação, em pena de nào obrar o que entendo»
E o peor he.que faltandome a ventura, & estando morrendo,
estou lançado contas, traçando processos pêra longa vida, 6c
cuydo que me posso ver em algíia bonança.
%iV»«>WVt/VVk'VVVVVVVV«/V»«'V%%iV%%'V«>Vt'VVV%it'VVVVV«'VVVVVVVVVV%i»/VVVV«%%%V«VVVV
CAPITULO IIII.
Da agricultura^ ^ vida do campo.
Paul. Poderoso he Deos para vos dar muytos annos de vida,
ta prósperos como os deu ao Patriarcha Job depois da grande
adversidade , & grave enfermidade , de q se vio affligido. Mas
não sei , quã bè gastados serão na agricultura a q vos mostrais
affeiçoado. u4nt. Não me negareis q foy a agricultura em outro
tèpo tida em grande preço , & tratada por grandes varões , & de
grades engenhos. Catão o Cêsorio foy muyto bõ senador, orar
dor, e capitão, & tambe foy muy curioso lavrador; & nào se
pode ter por cousa vil , a q elle teve em muyta estima. Quem.
se correrá de lavrar a terra lavrandoa Catão? Quem não folga-
37 — 3. rà de aguilhoar , & bosear os boys , fazendo isto aquella voz ,
que tantos , &. tão copiosos exércitos avia em a guerra govcjrna-
do , & tantas duvidosas causas em a paz defendido ? Quem po-
derá aborrecer a enxada, ou o arado, que aquella victoriosa,
& phylosophica mão tratava? este foy o primeyro q entre os
Fiomanos fez , &. escreveo a arte de como o campo se avia de
cultivai. Paul. Não tacho, nem reprovo a agricultura, tão ne-
, cessaria à vida humana , mas nem a excellencia de quem a es-
creveo , & usou , nem a necessidade cjue delia hà me poderão
em algum tempo forçar a que cuide deverse prefirir , ou igua-
lar às artes liberaes , & honestas. E ainda q aquella primeyra
idade do Império Romano, aja tido illustres capitães, & phylo-
soplios insignes que forão lavradores; hão se depois cò tempo
mudadas as cousas, & nossa natureza corho mais fraca, nào
pode bastar a tantos, & tão diversos exercicios. E se neste tem-
po se pode permitir aos excellentes varOes que entendào ua agri-
ALLIVIO DE AFFLIGIDOS, 73
cultura , não se lhe pode conceder que a tenbao por arte , ou
.por ofíuio^ mas por liíia recreação, «k descanso de seus cuidados.
A natureza que he nossa boa madre, como deu diversas artes aos
bomens, assi fez differença em os engenhos, para que cada hum
seguisse aquella, a que mais inclinado se sêlisse. E se a vossa
vos inclina a ser lavrador , pode ser q venhais a ser vencido nas
-cousas menores, sendo vèctdor e as maiores; & a parecer me-
jior sendo maior. Acharseliàio muitos de medíocre engenho, q
tào artificiosamète sayhào semear, cultivar a terra, &. pastar o
fjado, q em cada qual destas cousas nao aja agudeza, nè indus-
tria de algíi plivlosojíbo, q se llie possa emparelhar. Desatino 37 — 3.
seria, &. empresa sem gloria, querermos contender cõ outro na
sua arte, & não na nossa. A nossa lierdade seja o coração, & a
lavoura seja a intenção, a seméte seja o cuydado, & a messe
seja o trabalho, cultivemos a nus mesmos, & não amemos a ter-
ja como animais terrestres, q se agora a lavramos virá tempo em
q cu nossos corpos a engrossemos, & poucos pès delia occupemos;
& das arvores que hora plâtamcs nenhíia nos acompanhe , senão
for o Acipreste triste. Quanto mais q das criações, & fruitos do
campo apenas gozâo os lavradores se escrúpulo de mal acquiri-
dos ou ganhados.
yJiít. Deyxemos abusos, q em nenhum estado faltão , basta
que este escolherão os Patriarchas Abraham , Isaac , & Jacob
para remédio de suas vidas, &. salvação de suas almas. Os esta-
dos mais sobidos são dos ventos mais combatidos, & como arvo-
res, & montes altos, mais sojeitos a tempestades, aos rayos , &
coriscos. De sesudo & prudète he tomar antes a pote cô hum
pouco de trabalho, & rodeo, q passar o rio a vào cô perigo.
Bom he viver no Ermo, e negocear còs campos, q sempre nos
são bons amigos. Hora nos dào a palha, & o grão, hora o cor-
deiro, & o cabrito, & se este anno nolo negão, para o outro
nolo dão em dobro, &. níica nos faltão de todo. Paul. Aquelles
antigos lavradores, que teverão por gloria a agricultura, julga-
rão que cò grande difficuldade se iguala o fruito da herdade ,
inda q seja fértil, ao culto, quando he grande. E fezerão bua
discreta cõputação entre a herdade, & o lavrador, q se cada híi
delles he custoso , pouco , ou nada lhe sobra ao cabo do anno , 37 — é,
inda q ella seja rendosa, & elle seja acquiridor. De boa razão a
terra avia de servir ao home , &. não o home à terra ; mas o
peccado dos homes he causa q ella sem diligecia , trabalho,
suor, &. despeza não dè fruito a seu dono, &. q não sendo lavra-
da , & atormètada cò ferro se encha de cardos, espinhas, & a-
brolhos. He verdade q ja a agricultura foy ê outro tcjX) vida
tào limpa, & sancta, q do arado chamou para a sua companhia
o Propheta Helias a Heliseu seu discípulo, merecedor de herdar
10
74 DIALOGO SEGUNDO
O spirito de seu mestre em dobro, & fazer dobradas maravilhas.
Pòre depois q a enveja , & avaresa se empossarão da terra , enr
trarão tãbê os peccados das cidades em as casas dos lavradores,
se elles forão os derradeiros q entre os homês se perverterão &
quando a justiça se partio da terra fez por elles sua ultima jor-
nada , como diz o poeta : temo q se entào forào no mal últi-
mos, sejão agora os primeiros, & q se algum tèpo acontecer
tornarê pêra a terra as virtudes , & bõs costumes , em os aga-
salhar sejão também os derradeiros , & imitem aquelle atraiçoa-
do , tSí maldito lavrador q no capo Damasceno onde Deos deu
vida ao primeiro home a tirou elle per pura enveja ao innocen-
tissimo Abel seu irmão; «Sc se dizimou tão mal, q dos rebanhos,
& manadas do seu gado sacrificou a Deos as peores rezes : basta
serem lavradores os q matarão o herdeiro da vinha de q fala o
Evangelho, & tratarê cô as duras pedras, & seus terrõis. Tãto
se adiantarão os lavradores desalmados em os males, sobre os
outros filhos do mundo , que dos mãos elles são os peores. Basta
38 — 1. que o primeyro homem que por obra de varão foy gerado, jun-
tamente foy lavrador, & matador de seu próprio irmão.
y47it. Não são esses os q aprovo, mas sò a vida daquelles me
apraz , q usão dos benefícios celestiaes , q agradão à que lhos
dà , q cô a fertilidade da terra , & bonãça dos annos senão fazê
soberbos, nê descomedidos, que não são envejosos dos bês de
seus vezinhos, & da sua abundãcia reparte c5 os pobres, & ami-
gos , & não tem por doce , & saboroso o que elles s5 com sigo
gastão , nem as iguarias , de que elles sòs gostão.
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CAPITULO V,
He allivio em as adversidades.
Paul. E porq não cessais de vos querelar dos tepos adversos ,
q sepre encôtrarão vossos merecimêtos , lêbrovos q não he pêra
espãtar vermos virtudes , & letras acanhadas , vicios , & ignorã-
tes sublimados ê a opinião dos homês. Parece q a cõtingencia
chamada dita, ou fortuna fez cortes ê a republica dos homês, &
deu o officio de atalaya aos cegos , o de velar aos dorminhocos ,
& sonorentos , o de andar aos coxos , o de pregoar aos roucos ,
(hp. 65. & o de falar aos mudos. Destes disse o Propheta Esaias, q dei-
xado ao Sôr punhão mesa â fortuna, & q sobre ella sacrificavão.
Mas permite Deos as más obras, porque delias tira boas. Não
carece isto de providecia divina , a qual anda disfarçada entre
os homês , por q deixe lugar ao mérito da fè. Tambê vos quero
ALLIVIO DE ArFLIGIDOS, 75
lèbrar , q nossa perversa naturesa não pode còs dias bõs , ne se
melhora cò elles, antes peora como coni brando veneno. Visto
cstà quam pouco aproveitamos còs mimos, & benefícios de Deos :
& pelo mesmo caso necessárias nos sâo as affliçòcs pcra q cõ seus 38 — 2.
pesados golpes tire fogo de amor da pedra dura de nosso coração,
& desperte nosso sono )M<)fundo. Donde \è que os casos adAcrsos
são pela maior parte mercês de Deos singulares, não enlèdidas
de nòs , &. por tàto mal agradecidas. Por taes as leve David , q
falando cò Deos dizia , Lcctali sumus pro dicbus , quibus noí liu- Pícil. £9.
inilmsii , annis cjvibus rndiímií mala,
yínt. Be sei q mui próprio, & natural be de Deos fazer bè
aos honics; & q pêra chegar a esta obra tâto de sua condição,
elege por medianeira outra muito estranha, 6c encõtrada cõ a
sua, qual he afíligimos nesta vida. Cousa q não nasce de indi-
gnação, &. vingança, mas de piedade, & amisade, como quem.
sabe que na prosperidade dos mãos está envolta sua perdição, &,
na adversidade dos justos proposta sua salvação.
Paul. O sábio não queria muita riqueza , ne muita pobreza ,
porq é ambos estes estados ha tentações, &. }:erigos não peque-
nos : nê cu queria muita felicidade, nem miséria extrema, po-
rem avedose de dar á escolha bua delias, antes tomaria a triste,
& adversa , q a prospera , ^ alegre fortuna ; porq na primeira
apenas falta algu allivio, & conforto, & na segunda cõmumete
falta o siso. S. Agostinho affirma q he de grande virtude lutar
cO a felicidade, &. q he grade felicidude não ser dclja vencido.
Ouvi o Petrarcha prudente estimador dos casos desta vida. Pe-
rigosa he a desigualdade da fortuna; porem a branda he mais
ameaçadora, & arriscada que a dura. Muitos soffrem cõ igual
animo perdas , pobrezas , desterros , cárceres , mortes , & peores
que mortes, dores gravíssimas; iSc poucos cò mesmo animo sofrer 38 — 3,
privãças, bonãças, horas & riquezas. E sendo eu testemunha de
vista, vi a violècia da prospera fortuna vêcer os invinciveis, &
triuphar do esforso do animo humano a sua biàdura, o qual não
poderão render as ameaças da adversa. Tanto q a vètura começa
a nos fazer affagos, & meiguices, & a nos mostrar bõ rostro,
não sei em q modo se incha nossa pouquidade , & perde a me-
moria de que he, & da sorte q lhe coube. Assi C{ he muy mao
de moderar o estado prospero; &. com razão nos avisa Horácio,
i\ apredamos a soffrer bê a grade fortuna, a qual faz cuidar al-
gíís C\ são mais c'j homes. Murchase a virtucle (diz Séneca) se
não te adversário & então se vè quanta lie , quando a paciêcia
mostra quanto pode. Não sofre golpe nenhu a felicidade quando;
lida cõ seus incómodos. Cousa insuffrivel he aos desacostumados
tomar o jugo sobre os hõbros. De maneira q perjudicando aos ho-
mes tudo o q excede o modo, mor dano lhe faz o excesso das
10 *
76 DIALOGO SEGUNDO
bonanças. Os vinhos falemos , & deleites de CSpania domarão ,
& debilitarão o valeroso Annibal, a quê não rêdèrão as neves,
& rigores dos Alpes. A felicidade com q reinou Salamão , o eii-
louqueceo, & geolhou aos pès dos idolos de suas molheres. A
barca pequena, ou batel da nao de carga, não sostem o veto,
inda q vâ fornida de armas, & velas, assi os q carece de virtu-
de , & tê pouca prudência , se se vê no alto das horas , cô quaes-
quer pès de veto se perde. Folgay Antiocho de terdes experi-
mentado os revezes da fortuna, & não julgueis nimguè pelo q
exteriormête padece , que se por hi fordes , os mores servos de-
38 — i. Deos, & os q vertêdo generoso sangue glorificarão seu unigénito
fdho , vos parecerão mais infelices. Não cosidereis a Paulo no
de fora , porq se assi o estimardes achareis q foi peripsema , isto
he abominação, & sacrifício q os gentios offrecião a seus Deoses,
a fim de ficarem limpos dos peccados : cõsideraio no de dentro,
& achareis q estado na Colónia Philippêse moido c5 assoutes,
preso , & vinculado , à mea noite fez com sua oração tremer os
fundamentos do cárcere , & desfez as prisõis em q estava ferro-
Ihado. Ha entre Deos, & os justos tamanha liga, «Sc conspira-
ção de amor, que nenhíí mal lhes pode vir tão poderoso q que-
bre o fio à sua quietação. Dos males tirão bès, das quedas se
levantão mais esforçados, & das adversidades mais prósperos,
que não sendo assi, faltarlheia Deos com sua fidelidade, «Sc não
faria abrigo aos seus cõtra os insultos do mundo. Certo esta que
desemparar os vexados, & perseguidos que estão de baixo da
nossa tutela, he manifesta traição, a qual nã tem lugar naquel-
la síima & infinita bondade. Pelo Propheta Esaias falava Deos
còs justos, & animãdoos dizia, Levantai os olhos ao Ceo, & o-
Ihai pêra a terra, «Sc entendei q primeiro os Ceos se desfarão co-
mo fumo , & a terra se gastara como vestido , &. os q morão nel-'
la fenecera©, q deixe de permanecer a minha saúde, «Sc tenha
fim a minha justiça. Do que se segue manifestamête , q quem
afflige os justos faz guerra ao mesmo Deos.
yJnt. Nano aveis comigo, que me tenho en conta de hum
grande peccador , «Sc tanto mòr quanto mais humilde , «Sc assou-
tado me vejo da mão de Deos.
39 — 1. Paul. Quando Deos nos assouta quer que nos pareçamos com
elle ; «Sc que mor gloria pode ter o Christão , que ser mui seme-
lhante a seu Redemptor? se elle saio deste mudo cuberto de suor
de sangue , perseguido de inimigos envejosos , «Sc mal querentes ,
condenado por testemunhos falsos â morte de Cruz , q triíipho
será o de cada hum de nos, q cò estas insígnias, «Sc esmaltes so-
bir, & êtrar em os Ceos? Claro he que quãto mòr semelhança
tever c5 Christo tanto maior será sua gloria.
u4nt. Confesso que essa sò cõsideração basta para adoçar todos
ALLIVIO PU AFFIvlOmOS, t7
05 amargozes desta vida, & aplainar todas suas asperezas. Porq
desmayarei eu de ínfima sorte no cárcere deste corpo, tendo por
côpanheiro nos tormentos o meu Phocion summo philosopho ?
VVV VVV WVV VVVWV«rVV\ VV\ VV% VV%i VV« »^V\ VV\i vv% »^v\ vv% tiv\ vv% vv% vv\ ««\ w% w\ vw
CAPITULO VI.
Que os servos de Deos em os trabalhos se esf arção , íj melhorão.
Paul. Sam Paulo ponderou , que cô as tribulaçoens prova
Deos quanto he amado dos seus, & que ellas são a fragoa, em
que SC descobre , & accède o fogo do amor divino : & por esta
causa se gloriava tàto delias o mesmo Apostolo. Qual scrà o pin-
tor que pintando a cabeça de hum homem , na pintura lhe aj fi-
te o collo de cavallo, & por braços azas de aves, & por pès eól-
ias de serpentes? nào quadra querer ser membro folgado, rico,
6 honrado , de cabeça tào necessitada , que não teve aonde re-
pousasse , & tào abatida, & affligida, quanto se não pode enca- 39 — 9.
recer. Sam João Chrysostomo diz a este propósito, que manda Tom.b.lto-
Deos trabalhos aos justos , pêra que a todo correr fujào da terra mil. 6. ad
pcra o Ceo , »Sc não facão emprego de seu amor cm as têmpora- Pop,
lidades, & refrigérios desta vida; quem não desejara passar pela
posta per meo das calamidades, cõtradições, ignorâncias, ce-
gueiras , & misérias da terra , tè chegar ao Ceo a gozar de ale-
gria sem tristeza , saúde sem infermidade , honra sem contratli-
ção, descanso sem algum cansaço, contentamento sem algja
mistura de magoa , 6c gloria sem nenhíia liga de perturbação ?
Logo as adversidades temporaes não vê de Deos irado, mas be-
névolo , &. propicio , & cô o mesmo rostro se devem agascdhar
com que os enfermos tomao as pirolas, xaropes, & purgas salu-
tiferas (inda q agras, & amargosas) às quays são semelhàtes.
Que se estas lançào dos corpos os mãos humores, & lhe restituem
a saúde, aquellas desfazem as inchações da soberba, e humilhào
nossas almas. Porem como o estamago fraco vomita a purga sem
delia se aproveytar; assi hà algiis a q\iem a j)oção, & remédio
saudável da tribulação, não aproveita, mas dana, & exaspera
por razão de sua fraquesa. As espécies aromáticas, quanto mais
moidas , & lançadas em vivas brasas , tanto dão de si mòr fra-
grância, & suave cheiro; o que se vio manifestamente em os
Sanctos Martyres, que quando espcdaçados com tormètos & me-
tidos na fragoa, & penas exquisitas dos tyranos, então cheirava
melhor sua invencivel paciência. P<xlemolos còparar cò salguc)-
ro que pisado fica mais rijo, & menos quebradiço, & cu croco,
q calcado dos pès se melhora. O que se semea, & planta apar
73 DIALOaO SEGUNDO
39 — 3. das estradas, & fontes esta mais fresco, & mais fermoso. Da
mesma maneira exercitada cô as adversidades realça, &. he mais
lustrosa a virtude. Daqui veo S. Bernardo comparar o justo ao
Ceo, o qual posto q sempre seja fermoso, todavia de noite or-
nado de lumes vários , & distincto em diversas estrellas resplã^
desce muito mais. Assi reluzia ante os olhos da divina Magesta-
Paalni. 16. de o justo q de si dizia, Provastes Senhor meii coração, visitas-
tesme de noite , examinastesme em o fogo , & náo achastes em
mim maldade. Não infame ningê as adversidades, jjois sào mi-
nistras de tanta gloria : mas confesse sua fraquesa, & pusillani-
midade, pois que aos fortes com as difticuldades cresce o animo.
yínt. Aristóteles nas Ethicas diz ser mais diflicultoso softrer as
cousas adversas, q absterse nas prosperas : <Sc segudo Séneca es-
creve a Lucillo, mais lie ter suffrimento nos casos tristes, q mo-
derar os prósperos , & alegres , & c5tra taes varões na se pode a-
brir a boca.
Paul. He verdade que ambas as caras da fortuna se devem
temer &. tollerar, porè hua delias ha mister freo , &l a outra a]-
livio : em hiia se ha de reprimir a soberba do animo, & na ou-
tra alliviar a fadiga, & dado q a triste, à primeyra vista, &
segundo parece à gente vulgar , seja mais dura , a alegre he
peor de reger.
Em pouca conta devem ser tidas as prosperidades desta vidT,
pois sào bens limitados que trazem seu fim com ella , & as vezts
tào desestrado q fica sendo notável miséria aver sido em algum
tempo felice. Em toda a adversidade da fortuna este género de
infortúnio he infelicíssimo. De muytos amargores esta misturada
39 — 1. a doçura da humana prosperidade. A ninguém avorreceo tanto
que o nào ameaçasse com mais do que lhe avia prometido. De-
métrio philosopho chamou mar morto à vida daquelles que sem-
pre foy livre dos encontros da adversa fortuna. Na fornalha arde
a palha , & apurase o ouro , a palha resolvese em cinza , & o
ouro fica sem fezes. Fornalha he o mundo, ouro sâo os justos ^
fogo he a tribulação , & o artifice he Deos. Façamos o que elle
quer, sofframos o trabalho em que nos pòem pois pretede apu-
ramos & o sabe muy bem fazer. Posto que a palha arca pêra
nos queimar & molestar, tornase cinza para nos alimpar. Ne-
nhum servo de Christo vive sem tribulação algua. De baixo do
mesmo fogo resplãdece o ouro, & defuma a palha. No mesmo
debulho se mòe a espiga & se limpa o grão, c5 mesmo movi-
mento se sacode o feno & o ramo florido & rescende suavemente
a sua flor. Assi a mesma tribulação prova & purga os bons , &
reprova , & empeora os mãos , cò sopro se opprime o fogo q com
elle vay crescendo & quando parece que se apaga então se ro-
bora óí. acende, o mesmo faz a adversidade em o varão justo.
ALLIVIO DE AFFLIGIDOS, 79
Acesos no fo^o mostrão os pivetes & as pastilhas sua suave fra-
grância. As eslrcllas reluzem de noitf , & do. dia nao a ppa ro-
cem. Assi se mostra a virtude em a adversidade, & eslà oculta
na prosperidade. Se aos mareantes as ondas & tempestades, aos
lavradores as invernadas, geadas, & ardores do Sol, & aos sol-
dados as feridas são leves, & toleráveis por razão da esperanç^a
que tem dos bens temporacs & riquezas que perecem : nao deve
parecer áspero ao bom Christão o mal q padece, & os tral)alhos
que lhe sol)revem , pois o Ceo lhe está prometido em premio, 10 — 1-
não olhemos qual he o caminho, se plaino, ou costa arriba ou
abaixo, mas qual he o fim em que pára. Debulhase o trigo 6c
aparlase o grão da palha para se meter no celeiro, picase a pe-
dra tè se fazer quadrada & plaina para que sem o estrõdo do pi-
cão se possa pôr no edifício; & movese o pc de vento para FAkis
ser rcbatado ao Ceo, Nao quer ser Abel o que nao quer ser ex-
ercitado com a maliria de Chain. Dantre a palha siiy o grão «Sc
dentre as espinhas a rosa, & cresce a espinha que punge com a
rosa que cheira. Não he bom o que recusa soffrer o mao, nem
se verá descansado em a outra vida o que nesta se não vio tri-
bulado. Não sr pode da terra sobir ao Ceo sem trabalho & can-
saço. Alais fácil he o decer que o sobir.
CAPITULO VII.
Qve sejamos soffridos ê as tribulações.
j4nt. Muito ha que vos não ouço, & não mo prasmeis nê es-
tranheis porq os tristes te serradas as orelhas. Os filiios de Israel
estando no Egypto não ouvião à Moyses porque andavão cabis
bayxos com o trabalho da empreitada dos adobes que cada dia
erão obrigados a fazer. E por ventura trabalhavão cm aquella
"vanissima fabrica das Pyramides, contada entre as sete mara\i-
Ihas do mundo, como se p<xle ver em Josepho. Liu.'2. an-
Paul. Pois convém que me ouçais com atenção, Antiociío, /ir/, cap.ò.
que estou apostado a me mostrar para vòs grande doutor; caso
que seja pêra mim triste discípulo, quando me wjo fadigado, & 40 — 2.
acossado da mà velura. De animo excellente & generoso he pa-
recer & ser philosopho quando fervem em ala as perturbações, &
as tormentas & naufrágios são maiores : &. responder então a
Deos com aquella confissão do soffrido l)a\id; Justo sois Se- P sal 1 IS.
nhor, & muito rectos são vossos juizos. Sofframos como honiès
& seremos coroados como vencedores. Se à força de lagrimas vos
podereis remir de trabalhos, deravos licença que as cOprarei*
80 DIALOGO SEGUNDO
por outro metal mais sobido que o fino ouro. Em tempo de Co-
JDccad. 1. riolano segundo escreve Tito Livio forào mais poderosas as lagri-
llh. ^. mas pêra a defensão de Roma , do q forào as armas : mas a vòs
de que podem servir essas, se nào de vos martirizar a vida. Dom
de Deos & muy útil he o choro & pranto, quando se faz sobre
os peccados : em outra matéria aproveita pouco , & pode danar
muito. Se os pays ou filhos & cousas muito amadas nos falecem,
ou se os ladrões nos despojão de todos nossos bens, nâo nos apro-
veita o chorar, mas quando por avermos peccado vertemos lagry-
mas em presença do Senhor, impetramos remissão de nossas cul-
pas. ISascè os cabellos do humor da cabeça, & do humor dos
peccados nasce hum sabor amargoso cm os verdadeiros peniten-
tes. Os que se purgão amargallie a boca por alguas horas , o q
lhe nasce do amargor da mezinha com que se purgarão; assi o
costumado aos peccados, quando faz verdudeyra penitencia, sen-
te amargor, & todas as vezes que os reduze à memoria, doese
de si por causa de os aver cometido, & dà de mão aos que de
40 — 3. novo o tentão. O q foi ferido da serpente todas as vezes que a
ve , ou foge do caminho ou a fere com a pedra &. bordão , assi o
que cayo híia vez em algum peccado, se o tal vicio o torna a
cometer ou lhe dà as costas, ou o alonga de si cô cajado da pay-
xão do Senhor , & cò sexo da penitencia & displicência. Pêra
isto prestão as lagrimas & sentimentos, & he boa a tristeza, mas
se se vertem por outros respeitos danão mais do que aproveitao.
Cresce o mal cò a tristeza , cobra novas forças & às vezes chega
Sen. epist. a perturbar & envolver as agoas quietas do bom juizo. As lagri-
G3. mas hão de ser poucas ê os homens, inda q aja causa de muito
sentimento, pois cò a côlinuação delias nos vay faltando a vista
& o juizo.
^nt. Não he mais e minha mão.
Paul. Tudo pode o animo varonil se quer; não ha difficulda-
de pêra o que queremos de verdade. Graves dores causão alguas
.Sen. epist. infermidades, mas os intervallos as fazê toleráveis, & se são ín-
í)7. tesas em sumo grão, não tarda muyto o seu fim. Ninguém se
pode doer muyto, por muyto tempo. Assi nos dispôs a natureza
nossa grande amiga que fez nossas dores ou sofríveis , ou breves,
A dor a que o conselho não der fim , darlhoà o tempo. Melhor
he deixarmola que deyxarnos ella. Os varões sábios não tem
tempo legitimo de chorar, porque em nenhum o pode honesta-
mente fazer. Dor envelhecida ou he fingida, ou indiscreta, &
cõ muyta razão he de todos escarnecida. Sabei Antiocho q care-
ce de prudência o que não sabe soffrer, & f|ue ao homem hon-
rado nào he decente o chorar demasiado , porq o não pode fazer
40 — 4. salva sua gravidade, & sem detrimento de hombridade, princi-
palmente por cousas que o tèpo dà j &, loma. Seuào fordes jus-
ALLIVIO PE AFFLI0ID03. fiX
tificado cô OS homês, moderado em vossas payxoos, s^rave na
conversação, constato contra í)s im})etos, & encontros da advcr-
sii fortuna , riscayvos do numero dos verdadeyros nobres , & pon-
devos na ordê dos plebcos impacientes, & mal costumados. Sen-
tcça he de Euripides, que a excelloncia dos bòs costumes he si-
nal de illustre sàgue. As armas de Achilcs, & Eneas fabricadas
por Vulcano, que significào senão paciência, ôofortalesa em os
casos contrários? que significou o ramo com que o Poeta fmgio
que descera Eneas às infernaes regiões, & ns agoas em que The-
tis meteo a Achiles , senão a invencivel paciecia ? Por esta será
louvado e todas as memorias Phocion Atheniense, & outros va-
rões clarissimos, que seria logo contar. Vossos olhos bellos, An-^-
liocho, nâo vos podem eximir, & exceptuar da lei comum de nos-
sa mortalidade. Cuiday que fala com vosco Ovidio quando diz.
Ncqiie enim forhma ferenda
Sola tua e&t : símiles aliorú rcspicc casxis ,
Mitms ista feres.
Isto he, olhai pelos casos semelhãtes dos outros, & soffrereis 03
\ossos mais moderadamente. Não ha cousa de mais efficacia pê-
ra soffrcr as asperesas , que cuydar em como outros as soffrerão.
Envergonhase hu animo generoso de não poder o que muitos po-
derão; este pensamento lhe aproveita muito. Se quisermos bem
olhar acharemos o que consideradamête Plinio }X)nderou. Não Lib* 7.
haver entre os mortaes algum felice , & que assaz foi amado da
fortuna, o que escapou de infelice. Nunqua em qlgum estado
ouve homem tão contente, & satisfeito, que não fosse magoado, ^l"""^*
Ouvi tSeneca, Não te carregues do queixas, não agraves teus Epst. 88.
males, leve he a dor se a opinião a não augmenta. Se a temos
por pequena, & de pouca dura, muyto menos a sentimos. Le-
ve a fasemos se por tal a reputamos. Misero he o que por míse-
ro se tem , & tanto mais o he , quanto mais de si o crè.
Ant. Ninguê se pode chamar ditoso, salvo o que acabou a
\ida antes q a começasse a sentir. A melhor parte da qual he a
que se nâo sente ; &. a que se s(!gue he insuffrivel.
Paul. Os prudentes sabe dos danos tirar provcytos, & dos ma-
les bens, & da necessidade fazer virtude. Dizia Dário Key dos
Persas, q a fortuna contraria o fazia mais prudete. Difficultosa
cousa he cm a prospera não se esquecer o home de si. He a
prosperidade como mao medico, achanos com vista, «Sc deixanos
sem ella; mãos mestres de si mesmos são os que a fortuna favo-
rece , & mui desatinado he o sandeu no uso das cousas próprias.
Armem.onos de prudecia , & paciência pêra receber os côtrastes
desta vida, & não nos ajudemos de lagrymas, & queixas que
são moirtras de pouco animo. Comum he a afflição a bôs, &
mãos : mas hua cousa he ser castigado como filho , & outra co-
11
8^. DIALOGO feEOUNUO
mo escravo. Assouta o pay de família os filhos, & os servos; a
estes como cativos que se ganhão cò temor, & àquelles como
a livres q hão mister doutrinados. Não são iguais em honra estes,
assoutes, nem são da mesma cudição o justo, & injusto ainda
que padeção a mesma pena. Dà se castigo ao justo pêra correi-
41 — 3. ção , & emenda; &i ao injusto pêra cruz, & tormento. E por
isso se copara a tribulação ao fogo, em o qual se apura o ouro,
porque em ella o coração do justo se refina. Também he com-
parada cò a lima , porque como esta tira a ferrugem ao ferro ,
& lhe dà lustre ; assi a lima da afflição , quado he soffrida por
amor de Deos , limpa a alma das immundicias dos vícios , & faz
o peccador obediente a suas leis, Bonum mihi qiáa Inimiliasti
me : grande bem foy para mim (dizia David a Deos) affligirdes-
me. Priusqiiain humiliarer ego deliqiá ^ propterea cloqiáum tumn
custodivi. Como se dissera; dou vos graças immortaes por as ad-
versidades com que me castigastes, porc^ue quando tudo me soc-
cedia à vontade , não podia ninguém comigo , ate de vossos mã-
dados não fazia caso : mas agora não hà cousa , q mais estime ,
nem de que mais me honre, cjue da guarda delles.
yínt. Pobre de mim que não padeço como justo, nem sou as-
soutado como filho.
Paul. Sede soffrído, Antiocho,ou padeçais como justo, ou
como injusto, ou sejais assoutado como filho ou como criado.
Hahac. 3. Lembrovos que Deos quando mais irado, então se mostra mais
misericordioso. O que Sancto Ambrósio affirma do Emperador
Theodosio. Tudo cura o tempo, &. após híi vem outro, «Sc he
muy certa a variedade nas cousas humanas. Memorável exemplo
ha disto em Agrippa o maior Rey de Judea, & Samaria, que
Tibério César teve preso, & ferrolhado em Roma, segudo escre-
jlntiq. Ith. ve Josepho; & Caio successor de Tibério o livrou do cárcere, &
19. c. 5. em lugar da cadea de ferro com que esteve preso, lhe deu ou-
41 — 3. tra de ouro no peso igual, q elle pendurou em Híerusalem no
sacrário do templo sobre o thesouro, per memorial da prospera
fortuna, em cjue se mudou a sua adversa. Esta he a natureza
de todas as cousas humanas , poderê facilmête cair as floretes de
vseu prospero estado, & as descaídas poderê se erguer & reduzir
ao seu primeiro esplendor. Assi tempera as vezes das cousas a-
quelle poderoso rector de todas ellas.
Al. LIMO Dr; 4FP/J0ID0S. 83
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CAPITULO VIII.
He altwio fará os irnics,
Jnt. Esse Pey de tão ditosa sorte por derradcyro se mostrou
esquecido da sua cadea de ferro, quando na cidade de Cesárea
chamada per outro noine Straton, celebrando festas sclennes pô-
la stiude de César, nào recusou as iinpias adulações, & sacriie-
gas acclamaçòes de certos lisonjeiros, que o saudavâo, & accla-
tr.avâo por Deos, & porque não rasgou seus vestidos, antes fol-
gou de as ouvir, caio logo em cama de doença mortal, denun-
ciada pelo buffo monstro fero da noite como lhe chama Plinio, Lib. 10, e,
E tonhescêdo seu engano, & luciferina arrogâcia , disse a seus 11.
Yiissallos, chamaesme Deos, & eu vejome estar morrédo? Esta
fatal necessidade argue vossas mentiras, pois me rebata a mcrte,
f liando me fazeis immortal- Mas a verdade he , que ccni ne-
nl.i m género de ccns(jla(.ao se recrcão nsinhas rr.agoas, & que
tenho mil razCes peva continuar com ellas, Ferde boas horas
ci;em pretende esfriar es esses, & as entranhas abrasadas nas vi-
vas t banas, que em m.eu coração accendeo a vehemencia da 41— 4,
<ior, & tristeza (ontinua. He meu mal incapaz de se aproveitar
dos brandos m.edieanr entos da lingca humana. Se perdera ja de
tcdo as esperanças de remédio, por ventura sentira em mim al-
gí;a subra de contentamento; mas o animo suspenso com espe-
rança de melhor sorle, Ã. menos infelice estado nào repousa, não
se quieta nê esforça ; antes se entrega cada vez mais ao senti-
mento de suas magoas. K esta foi a razão porque David chorava
cm quanto cuidou que se achasse melhor o filho mimoso, & te-
ve esperança de sua vida : mas tanto que soube de sua morte
enxugou as lagrymas, & mostrouse contente. Pobre de mim que
me tornei em fabula da vida humana, & sou theatro em que se
podem ver todas suas calamidades juntas. Mal pode viver ledo
aqiielle a quem coube scrte tão triste.
Paul. Seguis planetas errantf s & não o norte fixo, & constan-
te da razão, nem a ordem do Christianismo. Vejovos quasi gen-
tio na opinião, & ccmo desconfiado das miseraçôes de Deos. Sc
segundo a presête justiça estais excluido do Reyno dos Ceos por
\osso8 peccados, justas são vossas lagrimas, & bemaventurados
vossos gemidos : rnas se chorais, & suspirais por outra razão, sem
causa o fazeis. Deu Deos o affecto das lagrimas, & tristeza aos
mortaes , não pêra usarem delle sem modo , & se poere a risco
de perder o siso, mas pêra mostrarem sentimèto quando o offen-
dem, & dilirem com lagrimas suas culpas, q vertidas por este
11 *
ÍJ4 PIALOGO SECUNDO
respeito, não te preço cada qual delias. A oportunidade das la-
grymas nào corre quãdo recebemos infortúnios, senão quãdo fa-
zemos o q nã devemos.
4lá — 1. Ant. Hay de mim, que perverto a ordem, & troco os fms,
& os tempos. Que offendendo a Deos de contino sâo muy raras
as lagrymas em meus olhos, e mais rara em meu coração a com-
punção verdadeyra ; 5c se me entrão algiias agoas de côtrastes ,
& temporaes contrários ao gosto da carne , encho a terra , & o
Ceo de querelas , logo me aborresce a luz do dia , & chamo pe-
ja morte, q me proveja de remédio, levandome desta vida.
Paul. Tristeza em demazia abre a porta a desatinos diabóli-
cos ; & he certo que a malêcolia serve de instrumento ao mesmo
demónio. Se sois grande peccador entendei q então he o pezar
que tendes de vossos vicios medicinal, quando de averdes perdão
delles não tendes as esperanças perdidas. Se os desgostos, & do-
res que passais em a terra vos entristecem ; confortem vosso ani-
mo as esperanças dos gostos do Ceo, & refrigérios de que gozão
os verdadeyros penitentes. Nào pode ser esta vida tão miserável,
& molesta, inda que o seja em grão supremo, quato a outra
que esperamos , he aprazível , & deleitosa ; se a miséria daquel-
la nos entristece , alegrenos a felicidade desta. E como quer que
seja, o remédio mais presente contra a espada da dor he tomar
lhe os golpes na adarga da paciência, cortar pela tristeza, & não
dar lugar ê nossa alma a suas imaginações; porque he payxão
tão nociva , que também aos que a hão mister , se a tomão em
demasia, causa danos irremediáveis. Parece aos tristes que se lhe
põem o sol ao meo dia. Da continua tristeza pêra a morte he o
caminho muy breve; & a jornada muy açodada, como diz o Ec-
49 — 1. clesiastico. E S. Thomas côclue que entre todas as payxões da
Cap. !23. vida corporal, a tristeza lhe he mais contraria, & danosa. Por-
Q.2.q. 37. que contraria o movimento vital do coração, & aggrava o ani-
art. 4. mo cò a presença do objecto, cuja impressão he mais urgente, &
vehemente , que a do mal futuro , q he o objecto do temor , co-
mo o mal presente o he da dor. Desta affirma o Patriarcha Job,
que o fazia suspirar antes que comesse, gemer, & dar gritos, que
parecião os roidos que faze os dilluvios , & inudaçôes das agoas
& por fim o fazia aborrecer a vida , «Sc luz do dia , & desejar a
morte, & trevas da noite. E se a tristeza assi desbarata aquelles
a quem he proveitosa , que estrago fará em os que a deixão es-
tar de assento em sua alma? Este sois vos, Antiocho, segundo
•vou entendendo,
ALUVIO DE AFFLIGISOS. 8Ô
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CAPITULO IX.
Da tristeza Christaã.
Para o Christao não lia mais de duas cousas que o devao fa-
zer triste , & estas são quãdo ellc , ou seu próximo caem em fal-
tas Gom seu Deos. Os sentimentos, & lagrymas que tirão a este
fim, são saneias, & proveitosas, eiíepão ao eoração de Deos, &
reconcilião a terra com o Ceo, & o inferno cò paraíso. Os sus-
piros, & gemidos y que tem este fundamento penetrão as estrel-
las, conquistão as portas da bemavcnturança. A dor sancta, c|ue
o eonliescimento de nossas culpas causa , essa as põem em per-
petuo esquecimento, & lança nas profundezas do mar : & nào a
que entra còs desastres annexos à nossa mortalidade. Provco
Deos que a pena do peccado se nos convertesse em saúde, & que 13 — J.
como a culpa pare a tristeza, assi a tristeza mate o peccado. Da Tom.ó.ho-
madeira nasce o bicho que a vay gastandOy& consumindo. O' ma- mil. ò. de
gnificencia das obras de Deos (exclama Chrysostomo) q se deixa panitait.
vencer de nossos gemidos, que consente as lagrymas de nossos líí hovi. 6,
olhos trrumpharem de seu amoroso coração. As lagrymas (diz o^l.adPa-
mesmo Sancto) são armas com que a penitencia cõquista o co- pui.
ração de Deos & lhe tira da mão a indulgência, & perdão. Des- Serm. 1. de
tas disse David : Posestes Senhor minhas lagrymas em vossa pre- Pcerút.
sença. Estas pedia Deos em os sacrifícios pelos peccados, quando Pml, bb,
mâdava, que em elles se não misturasse oleo^ nem incenso, Lcvil. 5.
que são sinais de alegria. E se isto não basta pêra apagar o in-
cêndio de rossas chamas, & vos fazer melhor empregar os liais;
Pergunto , se vos alguém offerecera o Império de Cõstàtinopla ,
ou qualquer outro principado da terra, & antes de entrardes na
Cidade em q vos ouvessem de coroar , fosse foiçado dcterdes vos
bum pouco em lugar sujo, cheo de lodo, & de muytas immH-
dicias, oceupado de ladroes & inimigos : ]X)r velura, não passá-
reis por tudo isto, (Sc o tevereis em pouco com o alvoroço do Im-
pério esperado ? logo se por gozar de cousas- terrenas , & transitó-
rias, & de estados q em fim o hão de ter se sofre com bom ros-
tro cem mil contrastes do mundo; que mOr desatino pode fazer
o Christao, que sendo chamado pcra triumphodos Ceos, tSc im-
pério sempiterno , desfalecer & perder o animo nos contrastes tSc
naufrágios desta misera vida, na qual somos hospedes &. pere-
grinos? Este exemplo desfaça esses nevoeiros, & extingua essíis 12 — é.
brasas acesas no intimo de vosso coração , & vos ensine a soffrer
cô alteza de animo as moléstias da vida presente. O home que
lèm o peyto bem composto, & ordenado, sepre dorme quieto.
Aquellc que tem o corpo firme , & bem exercitado dâsolhe pou-
co da dosordcin dos tempos 6c mudança dos ares. O que te và-
lente estainaf;o, nenhum alimento rejeita, prevalecemlo o vigor
natural contra os mantimentos viciosos, & transtormanduos em
nutrimento saudável : assi aos justos que amão a Deos nada lhe
faz mal, & ate os males se lhes tornão em bens. Des que os ho-
mês começarão a viver sobre a terra , quem foy mais justo que
S. Paulo? <Sc quem passou mais asperezas que elle ? com tudo no
meo de tantas tragedias , gloriavase Sc dava graças a Deos como
se dclle recebera mercês & regalos. Como festejou aquella sua
cadea com que estava ferrolhado por amor de Christo? Nào ou-
ve molher por ambiciosa que fosse, que tanto amasse seus brios
& joyas , quanto elle amou suas prisões. Nenhum Rey estimou
tanto a sua cadea de ouro, quanto S. Paulo a sua cadea de fer-
Blôduslih. ro. Caro custou a Leam 4. Emperador de Constantinopla, a
1. Decad. Coroa de pérolas que tomou à imagem de nossa Senhora do tem-
'■2. pio de sancta Sophia, & pos sobre sua cabeça; pois morreo de
hum inflamado carbúnculo que nella lhe naceo, em pena de sua
sacrílega vaidade. Mas a cadea que Nero lançou ao divino Pau^
lo, porque lhe converteo â Fè do Senhor Je>u a sua concubina)
segimdo Chrysostomo ; essa mesma o fez glorioso.
43 — 1. Ant. Bem entendo que as lagrymas Christans sâo o pâo <Sc a-
limento das pessoas espirituaes, quando as derramão com soida-
de de seu Deos , & nào por perdas temporaes : são o viatico de
que nos devemos perceber na jornada desta vida, pêra a outra.
Psal, 41. Estas tinha David por mais saborosas que todolos mimos & deli-
cias do mundo; porque ardia em desejos de ver a Deos. Nam
são tão suaves os manjares exquisitos guisados com artificio por
mais fome cjue aja; quam gostosas são as lagrymas que nadào
nos olhos; & os suspiros remessados com fúria do secreto das en-
Ps>al. 101. tranhas , por esta causa. E porque híia vez se esqueceo David
deste pão , queyxouse que se secara sua alma como feno.
Paul. Esse pão , Antiocho , não ponhais em esquecimento em
quanto tendes lume nos olhos. Com elle confortai vosso espiritUj
& consolai vosso desterro. Felice commutação he esta , chorar
hum pouco, para sempre rir. Apertem com vosco as soidades
JRom, 7. que obrigarão ao divino Paulo dizer; Infelice de mim, quem me
livrará do corpo de esta morte ? Como desejoso & querençoso ti-
nha a pressa por tardança , & por sua conta lhe tardava o que
muyto desejava, inda que lhe constasse ser chegada a sua hora.
Onde estão aquelles que tem por tao aprazível &. recreativa a
vida mortal, que a preferem à Imortal? Deyxão se prender do
amor do mundo por que não tem tomado o gosto aos bens espi-
rituaes, que se os provarão, ou virão sua nobreza, & fermosu*-
Ta , logo desprezarão os falsos , & mentirosos. Renunciou a gen^-
ALLIVIO DE AFFLIGIDOS. 87
tilidade os seus Dooses mortos, & lavrados pelas mãos dos ho- 43 — 2.
mes , quando ronhescco o filho de Deos vivo. Da mesma ma-.
neyra todolos bocados do mundo perdem o sabor, se húa vez se
eostão os do espiritu. Gostai Anliocho de Deos no meio de vos-
sas lagrymas, &. vede quam suave he , & chorareis por que se
absentou de vòs, & nao por qui; o mundo vos nào tem na conta
que vos eslà devida , nem porque com seus assalt(jb vos desacre-
ditou a ventura. Tende por muy certo, & averii;uado que com
as consolações deste mundo, nào se compadecem as de Deosj
nem com as da carne as do espiritu.
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CAPITULO X.
Que os gostos da terra são contrários aos do Cco , i) os da carne
aos do espiritu.
Paxd. Quem busca refrigérios da terra, não os espere do Ceo ;
comer do pào dos Anjos, & da farinha do Egypto juntamiíntc ,
nào pode ser : primeyro gastàrào os filhos de Israel a farinha
que traziam de Egypto, que recebessem o mannà do Ceo. lie-
crear o coraçào nas agoas do mundo, & molhar nellas as azas
do amor , & assi voar ao Ceo , nào são cousas que se acompa-
nhem ; desfalece o espiritu onde a carne se rccrea , & .descansa ;
o nutrimento desta sào cousas molles, &. o daquelle sào as du-
ras. Quiçá no dilluvio universal, as agoas que eslavào sol)re os
Ceos, se misturarão com estas inferiores : mas as espirituaes , de -IS — 3*
que tratamos, niica fizerão liga com as corporaes. Nam sào como
as duas fontes do Castello Macherunte em Judea, nobrecidas
por Alexandre Magno, que estào sobre hum monte alto, & pe-
dregoso, & rompem de hum mesmo penedo, hua fria, & outra
quente; as quaes misturando suas agoas, fazem hum lavatório
suavíssimo, Ôc bonissimo que sara muytas infirmidades. J-^rn fogo
eterno ardem os delicados príncipes Romanos , que curavào o
corpo com tantos thermas , hypocaustos , unctorios , baptistérios ,
cellas frigidarias, tepidarias, caldarias, & outros banhos que en-
tre nos nào tem nome : pois com tanto regalo do corpo nào se
esforça o espiritu , nem se ganha o Keyno do (Jeo. Bem estava
nisto o sereníssimo líey David quando dizia : Nào quis minha Psal. 7G.
alma ser consolada, lembreyme de Deos, & deleiteime, tanto
que desfaleceo meu espiritu. Quer dizer que nào soffrc Deos
com a sua consolação outra estranha , & que nào jxkIc ser que a
sua sancta lembrança nam deleite a alma (como repugna que o
mel gostado nam adoce a boca) <Sc que c^ta deleitaçam que s^
DIALOCiO SECUNDO
levanta da lembrança de Deos trasporta o entendimento. Erram
os que querem ser devotos, & não engeitao affeiq5es peregrinas,
como que fosse possível comer a hua mesa com Deos , & com o
mundo, com a carne, & cò espiritu : polo que nam merecem o
gosto da divina consolaçam , nem sobem , & chegam a tam alto
grão, que desfaleça, & se enleve seu espiritu em Deos, & se
43 — 4, suma seu animo profundamente na contemplaçam da divina bon-
dade, & seja sua deleitaçam tamanha, que o coraçam, & a car-
ne nam possam com elia.
Quanto melhor se avia David, quando dizia a Deos, A te.
PsciL 72. quid volui super terram? como se dissera : Encham os principes
cobiçosos , & ambiciosos por hum ponto de terra todo o mundo
de sangue humano; desprezem com sua soberba, & ambiçam to-
dalas sanctidadcs ; debatam com mortes de muytos cem mil ho-
mens sobre contenda de pequenas & estreitas possessoins; empre-
guem seu coraçam na terra , ame & adorem seus breves , & es-
cassos termos por não considerarè a magnificência de vossa casa
& os amplíssimos , & altissimos paços dos Ceos : que eu a vòs
sô quero sobre a terra , & nella nam quero companhia de outra
Psal. 41 . cousa com vosco. Lembrado serei de vòs ( diz o mesmo David )
desta terra regada com as correntes do rio Jordão, & cercada eòs
montes Hermonios. A espaçosa Judea terminada cò ambicioso
rio Jordam , & cò a serra Hermonim parecia estreita , & apiorta-
da a este Rey , & por isso suspirava polas largas, & espaçosas
regioens do Ceo. Desapegue pois o coraçam dos baixos da terra,
& ergao para Deos, o que suspira por verdadeyras consolaçoens,
E isto he o que este Sancto Rey , & Propheta significou dizen-
Psal. 85. do : Alegray Senhor a alma do vosso servo, porcjue a levanley
a vòs meu Deos. A qu^m conversa com Deos, nunca falta pra-
zer, & alegria.
Ánt. Beatíssimos são os olhos que sempre nadão cm lagrymas,
44—1. & cò a soidade da pátria celestial nunqua enxugão suas corren-
tes, cegos por Deos & magoados por sua absencia ; queyxosos de
quantas sombras , & figuras cà vem ; cerrados para os passatem-
pos da terra ; abertos , & dependurados da f<Tmosura do Ceo es-
trellado , cuja face inferior cora sua elegãcia , e lustre nos de-
mostra qual, & quam fermosa he a superior, que esta mais es-
condida, & alongada de nòs. A este propósito diz Chrysostomo :
Tom.b.scr- Bemaventurada a alma que sempre está batendo as azas contra
mon.dcmv- o Ceo, saluçando com vozes enterrompidas , suspirado pola con-
$cricord. clusão de seu desterro.
AdJulian. Paid. Sam Hieronymo diz : Impossível he gozar dos bens
presentes, & futuros, encher na terra o ventre, & no Ceo a
mente ; de hus deleites passar a outros ; ser primeyro em ambos
os segres; ter paraíso cà, & là. E noutro lugar diz : Por de
J
ALI.IVIO DE AFrLIGlBOS. 89
mais fingem alguns, que salva a fee, honestidade, limpeza , v*^ Lth.t.con-
inteiro/a de su;i alma, usando dos deleites : pois he contra na- iruJovm.
tureza gozar delles, sem elles, Cl o Apostolo aííirma que a viu-
va que vive em delicias, he morta. De nenhím qualidade (dix
Chrysostomo) se podem acompanhar lagrymas de coração con-
trito, & contentamentos de corpo regalado. E como he impos-
sível que o fogo se acenda na agoa, assi o he a compunção do
coração csforçarse em as delicias. Híía he mây do choro, &. a
outra o he do riso; híia d(;llas aperta o coração, & a outra o
affloxa. Nenhiia difficuldade recusSo as miios que do arado so
passão às armas,* &. na primeyra poeira desfalece o effeminado.
l^rra de todo (diz Sam Bernardo) o que cuyda poderse misturar 4 Ir — íJ.
a doçura celestial, cò a cinza do deleite carnal; &. o bálsamo
espiritual cò veneno sensual. Cousas sao tão differentes, que se
nào podem amassar hua com a outra. Daqui vem tirar Deos aos
seus os contentamentos da terra, &, deleites da carne materiaes,
&. grosseiros pêra llie dar a gostar os do espiritu, que são sobe-
ranos, & delicados. Brincando hua vez Ismael filho de Agar
com Isaac filho de Sara , mandou Deos a Abraham lançasse 1í>-
go de casa a Ismael com Agar sua mày a requerimento de Sara
aua senliora, que cu brinco ficou descontente. Agar escrava ho
nossa carne, serva he de Sara, isto he de nossa alma; và se pois
fora cô seu filho , que sao seus brincos , zombarias , & momen- •
taneos desenfadamêtos : fique Sara com seu Isaac , que significa
íiso, & prazer verdadeyro, qual he o do espiritu. Não se sof-
frem em a religiosa casa de Abraham Agar com Sara, nem Is" ;í. 'i
inael com Isaac,
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CAPITULO XI.
Porque permittc Deos que os bons scjão affligklos.
Entendei também Antiocho, que não resplandece a virtude,
senão quando mostra seu esforço , tSc valentia em algum grande
suffrimento : & que he escura & quasi indigna de louvor c[uan-
do não tendo adversários sem nenhíía contradição vence. E esta
he a razão porque Deos permite , que não aja desastre , q não
vâ buscar os bõs ; nê mofina q não pareça correr traz elles, e dar 44 — Íj.
de rostro a sua virtude. Favor divino he , q chovao nesta vida
em dobro sobre os justos as agoas dos trabalhos, pêra que delia
partão exercitados, & apurados, como pedras desbastadas, &
lavradas ao picão, quadradas, & justas, quaes convém sejào para
íe poerem no edifício do templo da celestial Hierusalem, onde
1«
90 DIALOGO SEGUNDO
O mestre da obra não faz mais que assetar as pedras. Qner Deos
que lhe sirvamos aqui de trõbetas de seus louvores , forjadas ,
& feitas ao martello da afflição : qual foy o pacientissimo Job ,
que quando mais affligido, & perseguido de casos adversos disse r
O Senhor me tinha feito mercê do que agora me tirou , cum-
prase sua vontade, & seja bendito seu nome. Tào consolado &
conforme com a vontade de Deos estava este sancto, tendo ante
seus olhos tantas perdas, vendose cuberto de lepra, posto em
hum moturo, escarnecido dos que mais erão seus, &. sabendo
que pouco disto lhe vinha em pena de seus peccados.
Ant. E eu miserável em qualquer trabalho que me vè por
meus deméritos, & peccados, não tenho suffrimento, perco a
paciência , & quasi me queyxo de Deos , & quero por o dedo
contra o Ceo , & tomallo côas mãos.
Paul. Somos tão amigos de descanso , & contentamento deste
corpo, que se câ achamos muyta mercadoria desta, nOs esque-
cemos de Deos ,• & se nos lembra he pêra lhe dizermos , que es-
te em boa hora no seu Ceo , & guarde p(sa si , & pêra quem
mais quiser o seu paraiso de deleites, com tal que na terra nos
44 — 4. não falte o nosso. Por tão vãs, & enganosas temos as esperanças
dos justos, & por tão sólidos, & verdadeyros os passatempos de
cà , que tomáramos a partido «Sc escolha peregrinar sempre sobre
a terra , se nella nos não faltara descanso. Váose morar ao Ceo ,
gozem da gloria eterna , que para si fmgê , & imaginão. Nos
vivamos a sabor de nossa carne , & gozemos das temporalidades ,
Psal. 338. que a terra nos ministra (dizia David em pessoa dos mundanos,
contra os justos affligidos). Por tanto he muy accommodado «a
nossa natureza amicissima de delicias, & repouso o estado da
íidversidade, em o qual vendonos cansados, & affligidos, nos pa^»
rece com o Real Propheta David que se nos prolonga o desterro,
& somos compellidos a suspirar com- elle pola casa de Deos , <Sc
paços do Ceo. Como nosso corpo debilitado do trabalho corpo-
ral, perde muytas vezes o gosto, & vontade ao comer, & fol-
gar, & não pede mais, que hua cama pêra descansar : assi nos-
so coração vexado , & acossado de màs andanças , & desaventu-
Tados successos , que lhe sobrevem em a terra , não lhe lembra
outra cousa , senão clamar por Deos , nem tem outras soidades ,
se não do Ceo & da companhia doB seus moradores. Concupiscit
Psal. 83. anima mea in atria Dcmini : dizia Elrey David. Este soo dese-
jo lhe dava em que fallar , & que cuydar de dia , & de noite.
Psal. 41. Qiiando veniam òf apparebo ante facxem Dei. Hcu mihi quia in-
Psal. 119. colatus nicus prolongatus est. O' quem vira concluido este degre-
do , & os dias de tam longa & molesta peregrinação , quando
4b — 1. arrancará minha alma desta carne mortal, & sairá deste mísera-
"vel corpo, & triste cárcere, a ver &. gozar da cara fermosissima
AI.LIVIO DK AFFI.TGínos, ^\
de sen Deos? De maneyra que pcra Deos nos descasar doa gostos
íantasticos da terra, & despertar om nòs desejos dos bons do C3(io,
que sao sólidos, tSc de enchcmíio; hu por bem que comamos
iioçso pào com suor de nosso roslro, & que nào dure muyto tem-
po o descanso «Sc prazer em nossas casas, Visitanos a miude com
trabalhos , & contrastes ; poixiiie saljc que pcor nos tratão as de-'
licias, & mais nos ferem os deleites em a paz, que a espada de
afflição c a guerra, E porq quer que andemos sempre apercebi-
dos, ordena que sejamos frequentemente combatidos.
Jínt. Todavia he Deos tão bom, & piedoso pay nosso, que
por não desfalecermos em tam longo caminho como he o da ter-
ra pêra o Ceo, mistura, & tempera as moléstias & fadigas de
nossa vida, com alguns refrescos, & refrigérios temporacs. Somos
gente que sempre navega, &. faz viagens p>elo nuir destcí mun-
do, he nos necessário de quádo em quando tomar algíia ilha de-
leitosa , hum bom porto, & fresco rio de agoa doce, que com
sua frescura nos recree, & faça esquecer do cansaço passado, &
nos esforce pêra podermos cò vindouro.
Paul. Porem nào convém Antiocho, que esses refrescos & pas-
satempos se]ào d(! muyta dura, por que nos não descuidemos, &
entreguemos ao rej)()uso & descanso no mtuo da viagem , antes
de chegarmos ao cais, & porto seguro da bemaventurança.
MTV t/VV VV« •'V% VV\ ««V» tftf^ «'V^ ftrv^ VV« WV% «rv% VV% «'V* «'V^»' V% VV\ «fVV»/»^ .kiV« %rv\ VV% V^^
CAPITULO XII,
Que o Jiomem ha de fugir do mundo que nunqua fola verdade*
Paul, Pois somos caminhantes & passajeíros, & nossa vida he 45 — 3,
continua milicia, convém que estemos prevenidos contra os pe-
rigos que ha pelo mundo, & assaltos de nossos inimigos; lem-
brados que caminhamos por terras infames de bandoleiros, &
salteadores; que navegamos p(>r mares perigosos &. coalhados de
c«Jssairos , pelos rpiais convém passar a remo em punho , & sera-
j)re â vela. Ditoso o que das aAczinhas aprende phylosophia. A-
chou, dizia elRcy David, o pássaro casa pêra si, e rola ninho, Páal, Qj.
Não repousão as aves em qualquer ramo, mas buscão convenien-
te , & seguro acolhimento. Por onde se vè a obrigação que tem
o homem animal prudente, & elegante feitura de Deos a bus-
car morada conveniente para si , & fugir das casas rotas , caver-
nas tenebrosas, & marulhos deste mundo, onde não ha cousa
firme, segura, ne constante, & todos andamos em cõtinua tor-
menta, subindo & decendo como as ondas do mar empolado, &
quebrando por derradeyro em a praya, & terra da sepultura.
IS «
'M tIALOCiO SKGUNDO ,
Onde estão os pobres homens , que transfegão pelo mundo com
tanto risco de suas almas , & vidas ? & os que se- desentranliâo
em cuydados & negócios infinitos com grande inquietação, &
distrahimento de seus ânimos? Qual dos antiguos sonhou que a-
45 — 3. vião de descubrir os nossos o immenso Oceano, & dar hãa volta
inteira ao contorno delle? Tanto pode a cubica das riquezas &
tanto desatinou os homens, que os fez conquistar os mares, & ter-
ras do Oriente, & Ponente , per meo de tãtas mortes. Trium-
phou Portugal da terra de Ophir , que em outro tempo proveo
a Salamão de grande copia de ouro pêra a magnificecia do tem-
plo de Deos. Quanto melhor fora edificarmos nossos ninhos naql-
las quietas & beatíssimas moradas , para possessão das quaes fo-
mos criados? nunqua as aves fora de seu ninho se segurao, mas
andão alteradas & medrosas, buscando seu refugio conhecido.
Nam carece ninguém de perigo onde quer q pretenda quietarse,
se com muyta presteza se não esconde em Deos, seu ninho ver-
dadeyro. Em muy secreto aposento, fora dos tumultos, longe,
& remoto dos negócios do mundo, em porto sossegado, onde ca-
lão os ventos , & os mares não reclamão , estava escõdida aquel-
la ave de altenaria , que tinha sua conversação em os Ceos. A-
colliido estava a hum castello fortíssimo, a hua torre altíssima,
& fortaleza mais fornida de munições, que a de Massàda era.
PmL 54. Judea , aquelle Rey que dizia ; AÍongueime fugindo , & morei
na soedade ; esperava por quê me livrou da fraqueza do spiri-'
tu , 6c da tempestade.
yínt. Seguro forte he a soedade pêra almas dedicadas a Deos,
E muytas vezes he mais seguro fiarêse as pessoas das feras em o
deserto , que dos homês em o povoado. Gregório Nazianzeno
preferia o monte do Carmo , & o deserto do Baptista , a toda a
terra de Israel. No têpo que Adam esteve sò em o paraíso terreal
45 — i. foy aceito a Deos, & temido do demónio; mas depois que teve
companheira , & ella travou razões com a serpente , logo perdeo
os grandes does que da mão magnificentíssima de Deos avia re-
cebido. Bom foy a Loth fugir da cidade pêra a soedade. Abra-
ham morando de baixo de tendilhues no campo solitário, via,
& hospedava os Anjos. O Baptista em o deserto comia mel , &
a Christo em o povoado deram lhe fel. Dizia Deos per Oseas ,
OscíT 2. Levarei a alma esposa minha ao despovoado, &. alli ambos sòs
falaremos seguramente sem alguém nos ouvir. Entre os povos tè
às paredes não faltão ouvidos, «Sc Deos não quer testemunhas
quando falia com nossas almas. Estando dormindo Heli sacerdo-
te, estava Deos fallando cò o Propheta Samuel; & quando quis
tratar cousas de seu serviço com Moyses , esperouo , &, chamouo
ao interior do deserto. A Abraham mandou sair de sua pátria
pêra cò elle se preilejar. Quãdo D<?os acha nossas almas mais a-
ALLIVIO DE AFFLIGIDOSj. Í>5
pnrtadas do mundo, & da carne, &, das payxões, & consolações
suas, então mais as acomjjanha, & regala. Nam vem a caça
âs redes no povoado , nem Deos a nossos corações se os acha a^
companhados de vicios, &. mãos desejos. Nos mais secretos lu-
gares de nossas casas quer que fallemos com elle, pêra elle falar
com nosco.
Paul. Feliccs aquelles que pesada, & tenteada a escacèza do
mundo, fogem para Deos, mina de felicidade, & fonte manan-
cial de bens verdadeyros. Com verdade o líeal Propheta David
chuinou insaniiis falsas às alegrias, honras, passatempos, & grã-
oeiírias da vida presente ; porq movem de seu lugar o juizo, en-
^'anào quem as grangea , & nào dào o que prometem. lie o IC — I.
mundo para seus filhos mais fácil, &. liberal em prom.eter, do
qut' foi Chares capitão Atheniense, & muyto mais mentiroso cm
comj)rir o que promete. Com as promessas de Chares que ficarão
em provérbio, se parecem as do mundo. Muytos cuydarào eter-
nizar nelle seu non)e , a quem mentirão suas falsas esperanças.
He o míido tào avaro, & tenaz de suas cousas & são elliis de tão
pouco ser, & substancia, que prometendonos tudo, & provocan-
donos a que o sirvamos &. delle nos fiemos, apenas dà a dous de
nos o que desejamos, & o peor he que nào menos mente quando
nos concede o que avia prometido, que quando nolo nega; de
ambos os modos nos engana. Promete a nosso animo paz , quie-
tação, & que ficará contente, & satisfeito se alcançar o que pre-
tende : & depois de o ter alcançado, nada nelle menos achamos
que o que mais esperávamos. Tal he a natureza & condição dos
bens terrenos, cjue em quanto se r^ão possue são desejados; & de-
pois de possuidos menosprezados.
Ant. Disso se pode inferir q mais nocivas são as cousas da/
terra, em quanto se desejão, que depois de ávidas, & que muy-
tos mores males importão aos homens as riquezas cubicadas, q
as possuidas. Estas mostrão a seus donos a sua inconstância, o
seu nada, a sua vileza, & vaidade, & quam perigosa, & dci
pouca dura he a possessão & affluencia delias, «S: quãdo caem na
conta , geiãolhe fastio de si mesmas : mas as que excessivamete
se desejão, fazem seus amadores cuidadosos, & solícitos; tra-
zemnos desvelados, inquietos, trasportados , & mortos; & aca- 46 — 2.
bão com elles que por fas, & nefas, per qualquer via licita ou
lllicita tratem de aver à mão o q cubição. Basta para prova dis- .
to affirinalo S. Paulo : Os querençosos das riquezas caem nas 1. Thn. 6.
tentações, & laços do demónio, & em vários desejos inulilcs &
prejudiciaes. Nào se doe tanto S. Paulo dos que ja são ricos co-
mo dos que o desejão ser. Tamanho lie o mal da cubica, de
que esta enfermo todo o género humano, & tão longe esta o
inundo de matar a sua sede, que ou de, ou negue o que offe-
iJl! DIALOGO ísEGCNfiO
rece , nimqua nos satisfaz de todo, & assi sempre nos mete.
Gcn. 31, Querendo o Patriarcha Jacob persuadir a suas molhercs, que se
fossem com elle de casa de seu pay Labão pêra a terra de pro-
missão; a principal razão com que as convenceo, foy dizerllie
que dez vezes lhe faltara com a palavra seu pay. Como se disse-
ra : Ouvese Labão comigo, como se hão os ricos còs pobres a
que não guardão pacto , concerto , nem promessa , que lhe fa-
cão , senão quando he cousa de seu proveito , & lhe vè bem do
partido. O seu quero he não quero , & o seu não quero he que-'
ro ; o que agora hão por rato , & valioso , daqui a pouco o tor-
não irrito, & de nenhu vigor. Por sete annos de serviço em cjue
no principio nos concertamos me obrigou a quatorse; pola fer-
mosa Rachel que me prometeo por molher , me pagou com Lia
ramelosa : & caindome em sorte algíias vezes grande numero de
cordeiros, & ovelhas, me respondeo com as que quis, & me
faltou com a verdade. E porque eu conhesço as suas mètiras , vSc
vejo a sua malicia, &, a bÕdade do Deos de Abraham meu
46—3. Avò, e Isaac meu pay, que me enriqueceo com a sua fazen-
da , não quero mais servir a quem tão mal paga , &. tantas
vezes me engana. Ao meu Deos quero servir, que nem sabe
encanar, nê lhe soffre a condição pagar mal a quê o bem serve,
O' quem fugisse de Labão que não trata com nosco verdade, &
quando mais nos promete mais nos mente ? Quem escapasse de
seus laços? Pobre daquelle que se fia do mundo, que a ninguennt
lie leal , & verdadeyro ; que quanto mais lhe cremos , tanto
mais enganados nos achamos, que quanto dà & promete tudo
\ he vaidade,
CAPITULO XIII.
Que o Jiomem ha de buscar estado de vida mais seguro, qual lie,
o dos religiosos.
Paul. Ferraosamente nos compara Prudencio com bando de
põbas que desce sobre hum campo cheo de armadilhas , laços ,
& redes ; das quais as que comem seguras ficão prezas , & enre-
dadas; mas as q tê o pasto por sospeito, voão às alturas livres,
& salvas. As almas que entendem de baixo da doçura dos bês
apparentes jazer viscosa peçonha, não se enviscào nelles, nem
caè em seus laço» , por mais apraziveis que sejão , & muito fer-
mosos pareção ; mas as que se não guardão das occasiões perigo^
sas, não cuidem que estão fora do mundo, inda que estem dea-
tro no mosteiro.
aLUVIO de AFFLIGIDOS. í)'>
y/ííí. Nâo me podeis negar ser ditosa a sorte daquellcs que no
rrmanso da religião, porto de boa esperança, edilicarâo stiu ni-
nho, &. nelle se pretenderão quietar. Os que fogem dos minis- 4G — 4.
tros de justiça por na serem presos deixâo logo a capa, &. as ar-
mas pêra mais expedidamente se poderem acolher; assi os que
querem escapar do juizo de Deos, »St da perseguição dos munda-
nos, tSc dos Jaços do demónio lie lhes necessário desemlíariíçarcn-
se dos impedimentos (isto he ) dos consanguinhos , das riquezas,
& honras, ])era que deixada a carga, & peio das cousas tempo-
raes, se possâo dar ao exercido das espirituaes. J'. porque o filho
de Deos está no Ceo à destra de seu Padre , convém que tam-
bém descalcem os çapatos, como os que querem sobir a seu sal-
vo ao cume de hua alta arvore. Pois pretendemos voar ao alto
onde Deos reyna , dispamos as vestes dos cuidados do mundo, &
descalcemos os pès da carne : pêra que achandonos o demónio
niis, &. descalços, nâo tenha em que pegar de nòs quando lutar
com nosco, como nòs nào temos em que pegar delle.
Paul. Confessovos que he perigo urgente, & de que poucos
se livrào, se com a tentação se ajunta a occasiào. A pessoa en-
serrada, & bem guardada, inda que tenha tentações da carne,
se não he muyto bestial, facilmente escapa delias, vendo que
lhe falta occasiào &. lugar pêra as executar; <Sc tendo occasiào
sem tentação muytas vezes se sustenta & persevera em a virtu-
de; mas se a combatem alapar occasiào &. tentação, inda que
seja muy valente , ligeira & esforçada ordinariamente he venci-
da. Valerosa molher era Eva, criada em graça, favorecida da
justiça original : muytas cousas concorríão nelía , que a boa ra-
zão deverão bastar pêra se não deixar vencer; mas estava ju.i to
cô a arvore vedada q foi a occasiào, & sobrcveo o demónio com 47 — I.
a tentação, & assi caio, & fez cair Adam. Daqui vem que os
Sãctos carregão tanto a mão em que fujamos às j)erigosas ocea-
siòes, porque nào as evitando está muy certo o cair & recair em
os peccados. Por tanto não posso negar o que dizeis, mas digo
que nào basta entrar em Ixeligião pêra cuidarmos que deixamos
o mundo de t(xlo, & nos avermos por exemplos, 6: livres de
suas ciladas : quà se bastara ouvera paraiso na terra , estando
nella o inferno. Se o mundo fora tão grosso, que nào poderá
entrar pelas grades, & ralos das portas dos mosteyros, ouvera
nelles seguro refugio; mas he como rayo tào subtil, & penetran-
te que passa quantas portas, rodas & grades ha nas clausuras,
& ate as paredes penetra. Se os parentes, & amigos s<.-culares
vierão a praticar com as pessoas religiosas, o que tratava S.
Bento com sua irmãa Scholastica , quando rebatados em Deos,
& absorptos na consideração de sua bondade , se não podiào a-
partar híi do outro j nâo tivera por inconveniente estiarem aber-
Vít! »I.\LOC:0 SECLiSUO
tas & acopanhadas todo dia as portas & grades dos Conventos das
.1. Joan.b, pessoas religiosas : mas segundo diz S. joào, Todo o inundo es-
tá fundado em malícia, & as visitações &. conversações dos seus
ociosos filhos vem fornidas de enganos, mãos propósitos, palavras
deshonestas, & muy perniciosas ociosidxides. xVcontece também
a algíis dos monjes, & monjas deixar as fezes do mundo que são
as occasiões de fora , & não deixar as de detro ; isto lie , os mãos
hábitos, reliquias, e feridas dos peccados, as murmurações, am-
bições, invejas, galantarias, cortesanices , altivezas, & pensa-
47 — 2. mentos, em que cõsiste o mais fmo do mundo. E bem vos lem-
brará o que affirmou S. Agostinho que como não vira melhor
gente , que a que no recolhimento , & clausura se melhora ; assi
a não vira mais perversa , que aquella que no tal lugar empeo-
ra. He como relógio que destêperado, não cessa de badalajar, tè
q os pesos chegão ao chão. Nem sempre fallão verdade os olhos
baixos , a triste severidade do vulto , o desprezo da veste , as pa-
lavras bradas e voz frautada , tSc os mais sinais de moderação , &
continência. São os que vive nas religiões como os figos que vio
Jeremias estar à porta do têplo, dos quaes híis erão doces & sa-
borosos, & outros muy to amargosos; assi entre elles híis são san-
etos & exemplares, & outros fracos & fingidos.
%/V%%'VVVVVt/\/«lVV%f%'V%iVV\«'VV%'V%t'VV%/VV%'V%%'VVVV«/V'VVl'\'%%'VV%'VVk'V\it'V«»^'%%'VV%/^
CAPITULO XIIII.
Do estado daquelles que tem muy tos criador ^ Ò; escravos.
Confessovos que propus em algum tempo de viver como no-
bre; & pretendi governo na Republica, cuidando que neste mo-
do de vida acharia quietação; mas vendo que pcra manter esta-
do avia mister grande casa , multidão de criados , que são ini-
migos domésticos, & cada hora fazem cousas que nos dão pezar,
me resolvi , que com esta sorte não podia meu animo estar con-
tente. Quis depois seguir as armas, & nestas duas maneiras de
vida , que ei provado , entendi , que errava o caminho , porque
em nenhua delias achei quê vivesse quieto. Não quis continuar
com a milicia , porq se não pode achar paz em a guerra , & de
47 — 3. mais disto me pareceo cousa mui néscia não pellejando pola pá-
tria, ou pola honra própria, ou por algíia outra legitima causa,
vender da própria vida por c^ualquer preço, porq a não tendo
o home mais que em hua sò pessoa, julguei que a não podia pa-
gar todo o ouro que ha feito, & ja mais fará a natureza, E lo-
go me determinei com minhas poucas letras seguir o paço, &
corte de hum Rey, no qual achei todo o coutrurio do q eu ima-
ALLIYIO DE AFFLIGmOS. U7
guinava; porque alem do trabalho quo he servir a hum príncipe,
& do que se passa em nâo poder dormir, nem comer a seus tem«
pos devidos (que todavia sâo cousas que conservào nossas vidas,
pois que como cada hum se cura, assi dura) a enveja que ha
em as cortes, a ingratidão q parece aver em os príncipes para
que os serve, & as queyxas dos criados, q ate lhes nào darem
ametade do Keyno se nào hào per justamente remunerados, mo
nâo deixarão assentar o animo pêra viver híia sô hora satisfeito.
JVlais são os criados inimigos, que servidores; aos quaes não po-
demos evitar , que nào saibam os retretes de nossas casas , q não
descubram os secretos que souberem , que nam destruão o que
poderem furtar. E o peor he que sobre tudo isto os avemos de
ter em casa, & darlhe de comer & vestir. Cousa que te aos que
estíim cercados he difficultosa de soffrer. Cruel, & perigosa guer-
ra he aquella , em que nam ha paz , nem tn^goa , & onde de
baixo de nossa bandeira tè os inimigos emparo, Nam são os
criados, & servidores, senão differenças, discórdias, & conten-
das das portas a dentro , as quaes ou avcmcs de consentir com
vergonha, ou apaziguar com trabalho; & pondonos entre os ac- 47 — i.
cusadores , & accusados nào faremos outra cousa , q servir a nos-
sos servos, & sermos juizes donde éramos senhores.
j4nt. Para inquirir muy diligente animal he o moço de casa,
mas para obedecer , e fazer o que lhe mandão muy negligente ;
tudo o que fazemos, «Sc cuydamos quer saber, & do que manda-
mos pouco, ou nada. Quantas são as lingoas dos servidores, tan-
tas trombetas de pregoeiros temos, & quantos olhos, & orelhas
elles tem, tantos agulheiros, & aberturas tem nossas casas; por
onde se lhe vay ate o muyto guardado. Não he outra cousa o
coração do moço senão hum vaso fendido , que quanto se nelle
deita, tanto se verte. O q tem muytos criados em sua casa, tê
muy tos sovios de serpentes , lingoas de escorpiões , muyto vene-
no escõdido para o repouso delia, muytos vetres famintos, & vo-
razes, muytas gargantas insaciáveis, de sorte q os poucos moços
são mãos, & os muytos muy peores; & não ha peor cousa q do
que he mao, ter muyto; & dos muytos ministros pouco serviço.
Panl. Prometem que nos sirvirão fielmente, & traze a Deos
por testemunha do suas promessas , porq não sejão seus amos so-
mente enganados, & quãdo lhes pedimos o que nos prometerão,
se vè quanta fee tè suas promessas. As quaes por bem ct^^pridas
se podiào ter, se sô o mal fosse não as aver comprido, mas dão
mohstias, & injurias a quem prometerão serviço, & pagãolhe
cô lho aver prometido. Nenhíia cousa ha mais humilde que o
criado quando o admitimos , & nenhua mais soberba , & menos
fiel, quando ja he conhecido; & nenhua mais odiosa, & inimi-
ga q quando o despedimos. Tão inchados, & soberbos andam os 48 — 1.
13
9ô DIALOGO SEGUNDO
criados e casa dos senhores, que avondo prometido de servir,
querem ser servidos ; tudo tragao , & espcrdiçào , & o que nara
podem comer, dam aos de fora, são liberaes do alheo, & co-
biçosos de furtar o nosso , & servem cõ tantas queyxas , & remo-
ques q nam digo eu por dinheiro , mas ainda de graça he caro ,
&. enfadonho seu serviço , fmalmente sò o nome tcrn de servido-
res , porque as obras são de muy cruéis inimigos.
^"ínt. E que dizeis dos escravos, & cativos que servem a seus
senhores ? Paul. Sabidos sam neste caso os conselhos de Séneca ,
q com os servos se ha de viver familiar , cortez , & mansamente.
Como se ouvesse de viver familiarmente com aqnelles a quê a
familiaridade he causa de menos preço. Acrescêtou mais que^^
nam se uze com elles castigo de obra, senão de palavra. Que
cõselho para tratar surdos , & preguiçosos q trazem de baixo dos
pès a mansidã de seu senhor? Diz também que os hão de ad-
mittir aos segredos , aos côselhos , & a sua companhia , sendo
elles pola maior parte desfaçados , beberrões , desleaes , & sober-
bos, que nê guardão segredo , nem tem conselho, estragadores
da companhia, & communicação , negligentes, & descuydados
em tudo o que loca à saúde , vida , & f azeda de seus senhores ,
muy espertos, &. solicitos para sua própria gula, & deshonesti-
dade. Mas porvêtura Séneca deu este conselho, porq cuidou que
era verdade no servo , o que antes avia dito do amigo ? Te o a-
migo por leal, & logo o será. ISão se lembrando que os amigos
43 — 2. soem ser de melhor condição que os outros homès, & os servos
da peor? Inda que mil annos tenhamos a hã lobo porcordeyro,
níica faremos cordeyro do lobo. Meu conselho he que os servos
sejam poucos, viis, & ande -mal tratados, que lancemos de nos-
sas casas os que sam gentis homens , penteados , & muy astu-
tos ; os que do gosto , & engenho se prezam , os que presumem
do linagem de que descêdem. Entre poucos, rudos, & mal ves-
tidos estamos mais seguros , nam por que nestes haja mais bem ,
mas porq são menos atrevidos. Como o frio às serpes , assi a de-
formidade, & immundicia tira aos servos a peçonha. Por onde
desesperado de achar o q pretendia em algu destes, & de quaes-
quer outros semelhantes estados , & desejando desviarme delles ,
me pareceo que devia achar quietação em o dos nossos religio-
sos, que apartados do mundo residem em suas congregações ser-
vindo a Deos, contentes com pouco, recolhidos em suas estrei-
tas cellinhas, não tèdo cousa própria, & deixãdose governar hu»
dos outros : & determinei de viver niia delias , entendendo que
se ha na terra algua imagem, & figura do Ceo, he a que se
acha nas juntas, & clausuras dos religiosos, que guardam sua
regular observância , & se dão a Deos , como tem por obriga-
ção j mas de maravilha vivemos os homens em algum estado
ALUVIO DE APFUGinOâ. 99
com nossa sorte contentes ; & cada dia nos queríamos passar de
hum a outro. Trilhados são estes versos de Horácio.
Qm fit Mecenas, ut ticmo , quã úbl sorte
Seu ratio dedcrlt , seu sors objecerit i//i
Contentus vivat?
E he advertir , que nem todos os estados armão a lodos , & são
da inclinação de cada hum, nem igualmente lhe convém. E 48— 3.
qual seja o melhor, & mais apropositado para cada qual dos
homês , somente o sabe aqueHe Senhor que os criou. E assi o
escolher estado, & tomar maneira de vida, he cousa que se de-
ve fazer com niuy ta consideração , &. des*!Jo de agradar a Deos ,
&. acertar com modo de viver que seja do seu beneplácito, &
mais occasionado para o servirmos, & nos salvarmos. O que
muvtos fazem muyto ao revez , ou cevados em seus deleites , ou
cegos de seus interesses, & pretençôes mundanas, ou attrahidos
de outros motivos em sua tenra idade, quando o juizo não tem
ainda seu natural vigor. E porq temerariamcnte , & sem a re-
quirida advertência se arrojão a tomar estado, tem depois que
chorar todos os dias de sua vida. Desapegue pois de seu coração
os desordenados affectos , & desponhàse para receber as influen-'
cias do Ceo , & lume da divina graça , se querem acertar , &
viver contentes.
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CAPITULO XV.
Que em nenhum estado vive o homem seguro.
Ha nos ânimos humanos cantinhos escuros, retretes escondi-
dos, dissimulações secretas, em que jazem serrados mãos inten-
tos, desvairados propósitos, &. depravados desejos, que andando
o tempo necessariamente rebentão por fora, & se publicão na
face do mundo. A onde quer que vamos vay com nosco nossa
cíirne nascida, & criada no peccado, corrupta de sua origem,
viciada do mao costume, dude lhe vê levantarse contra o espiri-
tu , murmurar continuamente, ser impaciente no castigo, não 48 — 4,
se reger píir rezào, nem soffrear por temor. Não faltáo no encer-
ramento abusos , & exorbitâncias , quaes são prelado negligente ,
súbdito desobediente , adolescente ocioso , velho obstinado , mon-
je curial, religioso avogado , & demandista, habito precioso,
manjar exquisito, clamor em o claustro, debate no capitulo,
dissolução em o choro, pouca reverencia nos inferiores, & muy-
ía alti\esa nos superiores, especulador cego, doutor ignorante,
precuisoi coao, & pregoeiro mudo : cà, & là màs fadas hà.
13 «
100 DIALOGO SEGUNDO
• Ant. Não he ião pouco sair com Abraham da sua doce pátria,
amados parentes, amigos antigos, & da amatissima casa de seus
pays, onde nascerão, & se criarão, que estas são as mais que~
ridas cousas desta vida. A todos se nos faz duro , & difficultoso
o apartamento da casa sabedora dos princípios , & fraquezas de
nossa mininice, & dos annos pueris com sua simplicidade felices.
E ninguém larga sem dor, o que possue cò amor. Não he a sua
sorte infelice , mas a daquelles que constituirão seu ultimo fim
em bês , & contentamêtos que passão de corrida , que em apare-,
cendo desaparecem , como phãtasmas. São como a Lua , que de
noite se nos representa em agoa, & se imos para lanqar mão dei-
la, achamonos sem ella. Assi os que seguem os bens terrenos,
passatempos do corpo, deleites da carne, & gostos desta vida,
quando cuidão que os tem, achãose sem elles. Tão phantasticos
são que em hum momento passao por nos, & como as borbole-
tas da agoa se desfazem. Onde terá segura sua vida o fraco ho-
49 — 1. me, bichinho da terra, que se não arme, & indigne cõtra elle
o Ceo sereno, & qualquer outro bicho? Tao incertos são os ca-
minhos da vida , q onde os homès cuidão estar certa a esperan-
ça , está mais incerta a segurãga. He tão quebradiça nossa vida ,
que affirmàrão os phylosophos antigos , que sò a vista dalgíis ho-
mês era poderosa pêra matar a outros. Em memoria esta posto
que Apolonio Tyanèo achou em Epheso hum velho Saturnico,
Lih.7,cap. que sò com sua presêça inficionou a Cidade de peste. E Plinio
2. refere algíís povos, que matão com a vista. Os fdhos de Agar
baixos, & mingoados de animo, poserão sua gloria, &. thesouro
nas pouquidades da terra , porque não atinarão com a noticia
da generosidade dos filhos de Deos. Certo he que nam podemos
ter paraiso neste mundo , por mais mimosos que nelle sejamos ,
& que lodos seus contentamentos, alem de momentâneos, pagão
graves tributos de lagrymas, & rependimentos. Sam suas festas
muy custosas, & dedicadas com sangue, como as que os gentios
faziam aos Martyres do Senhor.
Paul. Confessovos que ninguém vive seguro, inda que este
na clausura da Cartuxa. Fora de Sodoma estava a molher de
Loth , mas porque olhou pêra traz , converteuse em estatua de
sal; & ja as filhas estavam acolhidas ao monte quando embebe-
daram seu pay , & teveram com elle accessos , pelo menos de si
illicitos, & abomináveis. Ninguém aja que está seguro, por es-
tar no monte da Religiam , longe de Sodoma , & das immundi-
cias do mundo, que posto que delle saiamos, levamos com nos-
co as filhas de nossa carne , que são nossas paixões , as quais nos
49 — 2, pode embebedar, & perverter o recto juizo, se nam formos reca-
tados, & passarmos a vida em cõtinuo temor de Deos. A estatua
pintada de varias cores cheira ao pinho, & o religioso, inda que
ALtlVIO DE AFrLlOIDOS. 101
ornndo do 'virtudes, não deixa de cheirar a homem ; & contudo
c( mo o ouro se mete nos bolsiuhos, & o cobre anda espalhado
pela bolsa : assi os que Deos mais estima, esses encerra nas cel-
linhas estreitas dos Mosteiros, tSc os demais deixa andar soltos
pelas priiças do mundo. E se nelle ha cousas que tenham ima-
gem , «Sc representação do Ceo, estas sam as Congregações, &
JMo?t('yros, onde flc^rcce a regular observância da vida religiosa,
onde hà menos occasjõcs pcra cairmos, & mais pêra logo nos le-
vantarmos. De lugiir humilde, &. baixo, nam pode ser g.ande
a queda : salvo se dermos em ser soberbos , altÍA'os , & sobera-
nos. Quem mais puro que os Anjos? quem constituído em mais
sancto, & alto lugar que clles.' E toda via por que presumiram
poer sua cadeyra juto do Omnipotente, foram delia lançados em
os iibysmos profundos do inferno. Por onde vereis o perigo da-
qucllcs que no sublime, <Sc sagrado estado da Iveligiam olham
pêra traz, & estando dedicados ao culto divino, ha nelles re-
sabio de cousas do mundo. Porem sem embargo de tudo o que
se pode allegar em contrario, certo he que como perigão mais
no lugíir contagioso, os q sao de ares mais frescos, & sadios,
que os moradores nos mesmos lugares corruptos; assi em a peste
dos trafegí^ do mudo mais perigo correm os que se saem da ccHin-
panhia dos religiosos, que os que nella nunqua entrarão. Guar-
dem se os fracos das occasiòes, iscas de ânimos perdidos, & dos 49 — 3,
deleites sensuaes, senhores muy brandos, & meigos, que com
seus molles affagos tomâo à virtude as principais partes dal ma ,
& cu seus doces abraços nos affogào. Eujamos delles como de la-
drões salteadores, que armando siladas aos passageiros, os enga-
nào, roubâo, & matào. Falando Scipiào Affricano com Masi-
nissa , lhe dizia, vence teu coração, não o affèes; nem corrom-
pas muytas boas partes, que em ti ha; nem a graça de tão
grandes méritos com mor culpa, que a causa delia. Cuidemos
na vileza , & torpeza da deleitação carnal , na brevidade do seu
fmi , (Sc na sua longa deshonra , tSc consideremos, que o passa-
tempo, & gosto de híia hora, &. de hum momento, que tão
prestes passa , se ha de punir com penitencia de muytos annos ,
& quiçá com tormento eterno; & que as sensualidades desdourão
a honra, infamão a pessoa, & sepultão a vida com perpetua i-
gnominia. Por néscio mercador te a Christo, o que dà cousa
que a elle custou a vida, por hua breve deleitação. Muy doces
sao de cometer os peccados, porem sã<j muyto mais duros de pa-
gar. Sam como dividas de pródigos màos pugadoresj que se pa-
gão com difficuldade , fazendosecom faciiidado.
103 DIAI-OGO SEGUXnO
CAPITULO XVI.
Qite as infermulades nos são naturaes , ôf proveitosas , ôf que são
differentes entre si as do corpo , òf as dalma.
Paul. Devem se também consolar os enfermos, como vòs, &
49 — 4). sofrer c5 igual animo suas dores , repetindo na memoria o que
em parte notou o admirável phylosopho Hippocrates. He o ho-
mem de seu nascimento infirmidade , quando say do ventre de
sua mãy , chora , doese , queyxase , achase nu , fraco , &, ne-
cessitado : quando o crião he inútil , & clama de cõtino por so-
corro alheo ; quâdo cresce he immoderado , immodesto , & tem
necessidade de Ayo que o sofrêe; des que tê forças, & vigor nos
membros he solto, atrevido, & soberbo; & des que vay min-
goando , & desfalecendo , he enfermo , & miserável , porque tal
Tom. 10. sayo do vêtre de sua mày. S. Agostinho diz, a este propósito :
hom. 36. nã ha em esta vida verdadeyra saúde , & em quanto cà vivemos
sempre em algua maneyra enfermamos, como dizem os médicos.
Perpetua he a infirmidade em a fraqueza desta carne , hora nos
queixamos da cabeça, hora do estamago, hora do peito, hora da
garganta , hora nos vexâo os nervos , hora os pès , hora as mãos ,
hora nos sobra o sãgue , hora nos falta. Se está doente o que
padece febres , não está sam o que padece fome , & sede. Vive
o faminto porque cada dia lhe acodem cò mantimento & morre
se por sete dias lho espassão. O medicamento da fome he o co^
mer , & o da sede o beber : o da vigilia he o dormir , &. o do
sono he vigiar; o que cansa de estar assentado, descansa cô pas-
sear ; & o cançasso do andar , remedea com se assentar. Tão dé-
bil he este corpo q se o cansa o muyto vellar, & trabalhar, não
o descansa o muyto dormir , &, repousar ; o q lhe serve de refei-
ção , & adj utorio , o faz recair , & enfermar , & no remédio da
vida acha a morte; de modo q nascemos cõ as lagrymas nos o-
óO — 1. lhos, e no progresso da vida passamos por infinitas misérias, &
nunca gozamos da saúde sem mescla de infirmidade. Não ha
mezinha , que se por híia parte aproveita , não danifique por
outra : o que he bom pêra o dente he mào pêra o ventre. E pois
tão naturaes, & caseiras nossas são as doenças, não sei porque
tanto as estranhamos, & tão mal as soffremos. Não em o mar
somente, ou em a guerra se mostra o varão forte, mas tambê
em o leito. Ajuntase a isto, que muytas vezes grangea Deos
com a enfirmidade do corpo a saúde dalma. Averiguado está,
que pelos males corporaes vimos a conhecer os espirituaes. Não
se sentem tão facilmente os trabalhos dalma como os do corpo,
ALLIVIO DE ArFLIGIDOS. lOii
& a causa he porque moramos perto áeUo , pegados com elle , 5c
lõge delia; donde vem , í|ue (|u;indo aml)os se cjiieixão, &. pe-
dem sotcorro, acodimos primeyro ao vezinlio mais chegado, que
com sua boa disposiçã nao he pequena parte pêra o animo fazer
bem s(;u officio. Nào sendo nosso corpo outra cousa que hum es-
quiffe que leva nossa alma consigo, se elle está enfermo, & de-
bilitado, nào pode ella fazer perfeytamente suas operaç<":es; «Sc
dado que as faça, he com grandíssima diffieuldade , tâto impe-
dem as indisposições do corpo as acções de nossa alma. Porem
as enfirmidades desta fazem muyto mais dano ao home, que as
daquelle; &. muyto mais males, &. mais perigosos nascem por
causa das do animo , que por causa das do corpo. E basta pêra
se não poder negar isto estarem aquellas na melhor, &. myis no-
bre parle do homem. Conhescese o mal do corpo pela ma còr
do rostro, ou pelo desordenado movimeto dos pulsos, ou pela
sangria, ou por outras muytas vias, & tanto Cjue he conhescido óO — ^.
se lhe busca logo remédio. Porem o do animo nos engana tào a-
meude, & de tal maneyra cpie nào somente nos deixamos estar
nelle sem procurarmos sua saúde , mas ainda o temos por cousa
boa. Donde nos nascem muytas vezes grandes perdas, &, infmi-
dade de males. Dos do corpo a maior perda q nos pode vir he a
da vida , a qual em todo caso forçadamente avemos de perder.
Que mais prova ha mister nesta matéria, que reputarmos entre
os males do corpo por peores, os que tirào ao enfermo o sentido,
& o conhecimento , como sào o letargo , o frenesi , a gota coral,
& outros semelhantes; «Sc os do animo fazerem que quem os tem,
os nào conheça? soffrese de quando em quando enfermar o ho-
mem , porque a natureza assi o requere, mas não de modo que
■deyxe de conhescer que nam está são, & c|ue tem necessidade
de se curar, porque esta noticia he excellente sinal no doente de
poder obrar saúde. O que se não acha em os males dalma, por-
que quem delles está fadigado não pode fazer de si recto juizo
estando lesa aquella parte â qual pertence o fazer delle. E por
tanto a doudice he o peor mal que pode vir ao homem , visto
como o que a tem nunqua a conhesce , & pelo conseguinte nào
procura de se livrar delia. O mesmo acontece ao bêbado, pois
que em quanto os fumos do vinho (que estragam os instrumen-
tos, & impede os lugares onde os sentidos interiores liào de fazer
suas operações) senão extinguem , >Sc fazem assento, nào conhes-
ce sua bebedice ; & assi não conhescendo seu mal , «líc pareceudo
Ihe que fazem bem, caem em mil desatinos, «Si cousas ex(^rbi- 50— -3.
tantes. He a bebedice híia espécie de sàdice, da qual differe so-
mente em durar por certa quantidade de tempo, durando a dou-
tlice as mais das vezes per ioda a vida. Mas que melhor sinal
queremos pêra ver que os males do animo sàu mais graves, que
104 DIALOGO SEGUNDO
nunca se achar quem nos do corpo chame à febre sande , & ao
ser hetico boa convalescencia , &, ao estar gotoso boa disposição
de j unturas : achandose muytos que nos do animo chamão à ira
fortaleza, ao amor deshonesto amisade , à enveja emulação, &
à tibieza diligencia ? Donde se segue os enfermos corporaes bus-
carem , & amarem o medico , & os espirituaes fugirem , &. terem
ódio a quem os reprehende. O' de quãtos males he causa o co-
brir os vicios com o manto da virtude, & fazer com nome mere-
cedor de honra aquellas cousas que não merecem, senão infâmia,
& vitupério. Bem disse S. Agostinho , que a equidade simulada
era dobrada iniquidade, & S. Hieronymo que a soberba encu-.
b.erta sob sinaes de humildade , era muyto mais disforme.
Ant^ Ajuntase também a isso que o molestado de doèça cor-
poral se lança as mais das vezes na cama onde acha em quanto
se cura algum descanso; & aindaque algíia vez pêra allivio,
& refugio de suas dores se arroje por ella, ou se menee indecen-
temente , tem. ao redor de si quem o torne a cobrir , & lhe diga
que se còponha , & soffra seu mal o melhor que poder. Mas o
animo enfermo não tem ja mais sossego algum , antes vive em
cõtinua inquietação, sê ter quem lhe dè contento, nem allivio.
50 — 4. Por onde como he peor ao que navega aquella tormenta, que o
não deixa tomar porto , que aquella que lhe veda , & prohibe o
navegar : assi também os males do animo, não deixando ja mais
ao homem tomar o porto da razão , sao peores , & mais perigo-
sos. Busquemos o porque de todalas discórdias , &, mÍ3(;rias q
no mundo ha , & acharemos que todas nascem de ambição , en-
veja, avareza, ira, & de semelhantes doenças do animo huma-
no : as quais alem de lhe tirarem o uso da razão , o molestão
tão de contino que nem a si , nem aos outros deixão estar em
paz, & são bastantes pêra inquietar toda híia Republica. Guar-
denos Deos da pestilecia dos corpos , que hora nos guerrea , &
muyto mais da dos ânimos , & seus depravados affectos que nè
pêra conhecermos os alheos , nê pêra termos noticia verdadeyra
dos próprios nos deixão com recto, & livre juizo. Chamão os
médicos gravíssimas febres , ás que dentro nos ossos parece que
fervem : quanto são mais graves as que na alma estão escondi-
das. De maneyra que ainda que parece mâ a enfirmidade , he
bom mal, pois he remédio de outro maior, quàdo nos dà tem-
po pêra cairmos na cota , & conhescermos , q pode ser via , &
disposição pêra a morte ; isto he podemos delia morrer , & q nos
convém fazer discurso, & escrutínio de todos os dias diversos de
nossa vida , & das offensas , que nella fizemos a Deos , a quem
emos de ir dar conta rigorosa da perda do tempo , & das trans-
greções de seus preceitos. Que se a enfirmidade he tal , que
traz consigo morte súbita j & improvisa, & nos toma, & le-
ALLIVIO DE AFFLIGIDOS, 105
va desapercebidos , livrenos Deos delia por sua infinita piedade,
«<v\ fv* «'v% «fv^ »»^ •'v^^v^. w\ «fv» vw wv% wv% w« ww w% v«« w\ w% w% vw*'\^ www
CAPITULO XVII,
Quão perigosos são os males da ahia , ôf r/o espirilu qiic cós da
carne são melhor conhcscidos , Òf remediados.
Verdadeyra he a differença q Séneca nas suas Epistolas assina 51— 1«
enlie as infiim idades corporaes, & espirituais, a qual lie, q as
do corpo quanto mayores, tanto são rnai» sentidas; &, pelo con-
trario as da alma, quanto mais graves, òc perseveradas, tanto
menos conliecidas. He o mào costume tào forçoso que cega o lu-
me da razào, enche a alma de insensibilidade, &, cbega a nos
privar de nossos sentidos. Outra differença ha entre ellas nmbas
muyto pêra notar, & he q as corporaes então principalmête as
sentimos, quãdo as padecemos, & temos presentes : mas as es-
pirituaes, quais são os peccados, quasi os não conhescemos quan-
do os cometemos : &. então vemos os danos q nos ca\isão , íc pe-
rigos em que nos mete, & penas, a q nos obrigão quando por
beneficio de Deos se nos abrem os olhos. O peccador obstinado,
quando pecca não vè seus males , porque he cego : não nos sen-
te porque está morto, antes se recrea com suas culpas, porque
hà muytos dias que as trata, & as te das portas a. dentro : &.
não bastando às \ ezes avisos de confessores, conselhos de amigos,
brados de pregadores ( que não bastão tochas acesas pêra o cego
ver, nem vozes, &. beliscos pêra o morto resurgir) híia infirmi-
dade o desperta , & lhe abre os olhos com que ve a torpeza de
seus peccados, a sombra da morte em que jazia, os monstros 51— 2»
liorrendos que linha em companhia, 6; o alto sono que entre el-
Ics dormia. Os que caminhão de noite às escuras, íc passam per
barrancos, & medonhas çafras não advirlem o perigo; mas vol-
tando em dia claro vem o risco em que estivcrão, óc pasmados
dão graças a Deos porque delle escaparão. ÍSancto Agcslinho di-
zia em suas meditações. Tarde te conheci verdade antiga, por-
que estava cego , & amava minha cegueira , &. de híias trevas
me passava a outras. Tarde te conheci lume verdadeyro, por-
que tinha ante os olhos de minlui vaidade híia nuvem tenebrosa,
que me tolhia ver o lume da verdade. Mas depois que me lu-
miaste, caindo na conta comecei a dizer, hay de mim em que
trevas &. escuridades jazia; hay do cego que não podia ver o lu-
me do Ceo; hay do ignorante que te não conhecia. Isto pois se
ganha cò a doença corporal, vermos a espiritual. As pragas que
mandou Deos sobre Pliarao o fezerão desviar do mào pjoppsito
14
106 ' DIALOGO SEGUNDO ^
que tinha de peccar com Sara molhei- de Abraham. E as infir-
midades com que nos visita, atalhão nossas mâs determinaçVs.
Este he o artificio divino quando nossa alma esta resoluta em
danados intentos, & quasi na garganta do Demónio, castiga,
& debilita nosso corpo; no que parece estorvo vem encuberto o
presidio , & dissimulado o remédio. Confissão lie de Sam Paulo ,
quando fraco, & debilitado, entam me acho mais rijo, & es-
forçado. Não fala na fraqueza corporal excessiva que quebra as
forqas da alma, & lhe murcha, & bota o ingenho; mas da que
«>1 — 3. faz o modo, & temperança em todas as cousas, louvável. Aju-
danos às vezes a carne em as boas obras, & às vezes nos engana
em as mâs. Se lhe damos mais do que devemos criamos ha ini-
migo, & se lhe negamos o que à sua necessidade he devido,
matamos hum vesinho de nos amado. Isto ditta a razão , da
qual deve ser primeyro possuída a alma, se não quer perder a
posse, & juro que tem sobre o corpo. Este elle è nossa tutella ,
tenhamos delle cuidado , com tal condição , que quando a razão
o pedir , o metamos no fogo. Não pareça que vivemos pêra el-
le, mas que não podemos viver sem elle. Somente lhe conceda-
mos o que basta pêra sua saúde. Importanos muyto não o tra-
zermos regalado, mas debilitado, porq quãdo elle esta fraco,
sam mais poucos os inimigos de nossa alma. E a carne que del-
les he o mais caseiro , vendose fraca , vexada , & posta em cer-
co, rendese ao espiritu , & sendo dantes contra elle, põem se
depois no campo por elle. Foi nos dado o corpo pêra serviço da
alma , & pois estando doente lhe he mais obediete , não ha de
que nos queixemos. Quando o corpo eslà inútil pêra levar âs
costas hum grande pezo ou cavar minas de prata , & ouro ; en-
tão esta o animo habilitado pêra os estudos honestos, & justos
impérios. Em os navios, os de mores forças remão, & os de
mais prudência governão, & quando nossos corpos não tem for-
ças pêra remar, & fazer officios baixos, esta o animo mais promp*
to , & melhor desposto pêra entender em os altos. Os de corpo
robusto são de fraco engenho , nasce pêra servir , & não pêra ser
servidos, & o que peor he, que os estímulos de sua carne fazem
ôl — 4. força a suas almas, & quasi as obrigão a q consintão em obras
fèas. Alguas hervas ha que per si são peçonhentas , & de volta
com outras fazem poções saudáveis : tal he a boa disposição cor-
poral, que misturada coa doença, pare a saúde da alma, a
qual sendo enferma em nenhum Jugar está peor aposentada q
em corpo sam.
u^ínt. Dizeis verdade Pauliniano, masr tais somos nos, que o
melhor temos por peor.
Paul, Se a carne he inimiga figadal do espiritu , & entre am-
bos ha continua peleja, & elle he o q nos dá mais nobre ser.
ALUVIO PE .vrrtiGiDos. WT
folc^emos de a rer abatida, vencida, & rendida, it a elle vi-
ctorioso, &. triumphador delia. Quereis ver quàto aproveita o
nial do corpo para o bè da alma , &. quàto no» vay em aquelle
estar enfermo, pêra esta ler saúde? Lembro?os que o príncipe
dos Apóstolos levàtado das agoas do mar às estrellas do Ceo, 5c
feito porteiro delle ; dando com sua sombra saúde a lodos os en-
fermos, não a quis dar hua vez à sua filha, dizendo que lhe a-
proveitava a infirmidade : mas de}xjià que este medico celestial
enlendeo que cessando em Petronila a iiidisposiçào , éc íraquesa
corporal , não corria perigo sua saúde espiritual , logo a curou
das febres, & levantou do leylo em que jazia. Fazei vus por on-
de se risco de vossa alma se possa esforçar esse corpo, &. eu vos
fico que cessem vossos hais. Ponde por obra a cura da alma ,
presentaia saà àquelle Medico soberano, do qual sava virtude
que sarava a tod(j6, & feyto isto fixai nelle \os;a conf.àça , &
tende por muy certo, que se da sua mão não sobrevier ccu-a q
refrigere essa carne, virá, sem duvida, algíia que recree esse espi- 52—1.
rito. Pedi a Deos pasciencia no meyo dos mores sentimêlos ,
porque a medida do soffrimeto he a da satisfação de nossos pec-
cado?. Usay de virtude, tk faça Deos de vos o q m.ais for fervi-
do. Os virtuosos mais ganhão morrendo que vivendo, S. laulo
reputava a morte por grande ganho. E tal o he na verdade sair
do cárcere triste deste miserável corpo , & das tem.peslades do
mundo alterado com contínuos sobreventos , & escapar desta
hospedaria da Magica Circe, que transforma os homês racicn
nais em brutos animais : savr do labyrintbo, & trafego deste
mundo & caminhar pêra o Ceo, onde se nos enxugão os olhos,
& durão pêra sèpre os vcrdadeyros gostos. Que cegueyra , &
desatino tamanho he amar as ânsias, & penalidades de cã, &
nào correr a toda pressa ( índa q seja por meyo de cruezas , te»
nases, cárceres, tyrannias) a buscar descanço & gozo sempiter-
no. A Plotino Philosopho, pareceo ser obra da divina miseri-
córdia, nascerê os homês em c( rpo mortal, & viverem pouco
nesta terra de Egypto, & valle de cõtinuas lagryma», onde to-
dos nos queixamos , gememos , e suspiramos*
CAPITULO XVIIL
Porque fc% Dcoi o homem mortal , i' o entregou à fraqueta do
corpo y ò( da alma.
Ani. Lembrame a esse propósito a divina Philcsophia de S.
João Chrvsostomo , q assinando a causa porque fez Deos o ho-
14 »
108 DIALOGO SEGUNDO
6*2 — 2- mem corruptivel, & o sojeytou a tantas miser'as, diz. O corpo
Homil. 11. do primeyro home em o estado da innocêcia, eia como hua esta-
i^d Popul. tua de ouro saída novamente da officina cõ excellete resplandor,
-'Intioch.etliwe de toda corrupção, isento de toda a tristeza. Mas depois
homil. de fi~ que nam quis contentarse c5 sua felicidade, & concebeo de si
de , ^ lege mayor opinião do que era sua dignidade, pretendeo fazerse Deos,
naturce. & reputando o demónio por mais digno de fè que aquelle Se-
nhor, que em tanta gloria, & fermosura o avia collocado; aba-
teoo Deos tornandoo mortal , & obrigandoo a muytas necessida-
des pêra lhe fazer amaynar as vellas de seu fasto & arrogância,
& pêra o ensinar a ser humilde , derrubou o da altiveza de seus
pensamêtos, & someteo a enfirmidades , & calamidades. E he
aqui muyto pêra considerar a divina providencia, que não per-
mitio morrer primeyro Adão q seu filho Abel , porque vendoo
morto ante seus olhos , & ponderando como aquelle corpo tãò
fermoso, & formado com tanto artificio, tinha perdido todo seu
lustre , & as suas claras & vivas cores , vendo sua ílor , & genli-
leza transfigurada, aprendesse neste retrato de seu filho morto,
grade instrução de Philosophia , & se conhecesse , & moderasse.
Se com vermos cada dia as fraquezas & pouquidades dos homes,
seus corpos resolutos em pô & cinza, ouve alguns que pretederão
ser adorados como Deoses , «Sc ávidos por immortais : se não en-
trara em o mudo a morte , & as indisposições antecedentes ;
quanta impiedade & idolatria vos parece ouvera em a terra? O
Rey bárbaro, & o de Tyro cuidarão ser semelhantes ao altíssimo.
^'2 — 3. Paul. Detendevos hii pouco Antiocho, inda que vos quebre o
Antiq. lib. fio. Caio César esquecido de sua fraíjil natureza usurpou honras
19. cap. 1. divinas, chamado irmão a Júpiter Capitolino, &. chegarão seus
JJc consol. fumos a tão alto ponto , q pus hua filha sobre os geolhos da es-
od yílbinâ. tatua deste falso Deos, affirmando, que era filha de ambos, se-
■In Caio c. gudo escreve Josepho. Com verdade , & elegância disse Séneca
™-^. m Do- deste Emperador Romano, q a natureza das cousas o criara,
rnicumo c. pêra mostrar nelle quanto podem summos vicios em summa for-
13. iricAro- tuna. Suetonio, & Eusébio dizem, que chegou Domiciano a
wíco. tanto desatino, que mandou o intitulassem por Deos, & filho de
Palias , punindo os que lhe negavão os taes titulos , como se fo-
rão reos do crime & lesam da divina Magestade. O Demónio por
se acreditar com os q lhe estranhão seu peccado, procura que
dem os homes em tamanha pequisse , como he quererem ser ti-
dos por Deoses. E assi quem vir o home fraco , & de terra pre-
têder ser Deos , diga : não he muyto q Lúcifer creatura tão le-
vantada no ser , o pretendesse. Por este respeyto acabou de per-
EVian. de suadir isto àquelles dous loucos, de que faz mencam Eliano. Hu
f^^o.'"'- Hist. delles era rico & poderoso , o qual pêra sayr com esta vaã pre-
mio. 12. suttipção, por que se chamava Hieron, ajutou muitas Pegas,
ALLIVIO I>E AFFLIGID05, 109
Papajrayos , Estorninhos , & Calhantlrtis , a quem ensinou a fa-
lar, & pronunciar somente o seu nome íJieron. Soltandoos de-
pois, &. dandolhes liberdade a hiis, cm híias partes, a outros
em outras, pn tendco, que sendo estas aves ouvidas em lugares
diversos, fosse crida, & recebida a divindade de Hieron. Mas
cilas tanto que se virào soltas, cantando ao natural de cada húa 52—1;.
frustrarão suas esperanc;as. O outro era hu ('avaleyro principal
da Corte de Philipj)e Kcy de Macedónia, que dtu no mesmo
fernisi, de dizer q era Deos, & querer ser reverenciado como
Deos; pêra curar seu desatino, fez o Rey hum solenne banque-
te, & posto na cabeceyra das mesas, mandou q lhe posessem
diante hu perfumador, ou braseyro pequeno, &. que nelle dei-
tassem enccnso, & outros perfumes, & que fossem cevando cò
elles em quanto saissem os servic^os , tSc ygiuirias , & o banquete
durasse. No principio folgou muyto o louco que lhe dessem fu-
mo de encenso , cuydado q todos o teriào por Deos , pois lilRey
o reconhecia por tal. Depois vendo preciosos, & saborosos man-
jares, que os convidados com muyto gosto comiao, & que elle
se ficava somente com as fumaqas, caindo na conta, disse que
não queria mays ser Deos , que farto estava de fumo , & pois e-
ra home , como os outros , q lhe desse de comer , & assi se lhe
foy toda a sua gloria em fumo. Guardenos Deos de nos termos
em mais conta do que somos. Quãto melhor se ouve Antigono
Rey de Macedónia, que convalescido de luia perigoza infer-
midade, disse que ganhara muyto com ella, pr)rque ponde o era
artigo de morte, o ensinara a nà ser soberbo, visto como era
mortal. Semelhante excmj)lo temos em Antioclio inimigo da re-
ligião, & povo de Deos, assolador da Sancta Cidade & seu ma-
gnificenlissimo templo, ao qual híia grave doença humilhou ê
tanta maneyra, que foy ccnstrangido a confessar, que era cou-
sa acertada cruzar o home as mãos, & inclinar a cabeça como
ohodiète a Deos, & nao se por com elle, liombro por hombro, ^«^ — 3.'
pois avia de morrer. O que longas, & ornadas orações não aca-
barão com elle, lhe pode persua(h'r hua sj infirmidade. Isto sér-
vio também em o Rey dos Assirios, & em Manasses derrama-
dor do sãgue dos Prophetas, aos quaes a sua mortalidade deu
antendimento, pêra se conhecerem, & reprehenderem. Basta a
morte de hií amigo pêra nos cobrirmos de luto, & não vermos
^ol , nem Lua , darmos de mão , íc de pi-' a pompas & vaida-
des, & phylosopharmos melhor q os antigos phylosophos, dos
enganos, promessas, & vas esperanças deste mundo, & da bre-
vidade , à misérias da vida humana. De Alexãdre Magno cota
Séneca, que andando ao redor dos muros, no cerco de híia Ci-
dade foy ferido na coxa de hua s(>fa , & crescendolhe a dor da
chaga foy constrangido a se recolher, &, dizer aos seus, todos
110 DIVLOQO gisauKDo
jurao que eu sou filho de Júpiter, mas esta ferida clama qne
sou eu home. Agora falle a vossa boca d(niro.
VV% VV^ VV'V ^V\ ^'«^ V'V% VVV VVVVV\ VVV VVV VV«i V% V ««V^ t'V«. ^'^^ VW VV\ «(VX W\WV ^V\ ^'W
CAPITULO XIX.
Proscgue Antiocho a mesma matéria.
Ant. Querêdo Deos atalhar a tao grandes exorbitâncias , &
tirar ao home toda a matéria 6: occasiao de soberba , di^ Chry-
sostomo, assi lhe deu alma im mor tal, q a someteo a ignorân-
cias, esquecimètos , cuydados, & perturbações sem conto : pêra
que experimentandoas em sy , conhecesse o sou nada, & nâo se
infunasse como Lúcifer olhando pêra a generosidade , & immor-
53— 2, talidade de seu animo. Se com esta experiência nâo faltarão
homès furiosos que afnrmarão ser a nossa mente da substancia de
Deos; que desvarios, & disparates disserào se a viram exempta
das imperfeições, & fraquezas, a cue está sempre sojeita? E co
tudo , neste corpo mortal carregado de enfermidades mostroij
grandemente Deos sua potêcia. Manifesta cousa he, que quan-
to a matéria he mais bayxa, tanto a faculdade da arte he mais
alta, que no lavor delia mostra sua excellencia. Do barro de
que se lavrào as telhas, & adobes formou o artifice da natureza
os olhos humanos de tanta lindeza 6c fermosura, que nos põem
em grande admiração; & meditar na sua anatomia he nunqua
acabar. Por tanto adoremos a sapiência do Criador, que em cor-
po tào vil, e grosseyro soube fazer tanta armonia, & c~» hymnos
celebremos sua eterna providencia, que fez o home tam fraco
porq a alma nao enchesse as velas da própria altiveza. Cõ ou-
tras palavras suavíssimas disputou aqlla boca de ouro este argu-
mêto , poderosas pêra rebatar nosso espirito , & o ocupar na espe-
culaçam dos mysterios da criaçam do home.
Paul. Quanto a tavoa que o Pintor pinta , he mais grossa, &
nodosa , menos desbastada , & cepilhada , & quàto o papel em ^
se escreve, he mais grosseyro, & áspero; tanto a pintura côve-
niente , & a boa letra q nestes subjectos se faze , sam dignas de
mòr louvor , &, admiração. E por tanto ouve Deos por bS que
o principio material do home fosse tao vil & bayxo, pêra que
na criação, & feytura delle mostrasse mais o seu saber h. poder;
& pelo mesmo caso o obrigasse a admirar &, engrandecer o la-
í)3 — 3. ver, & artificio das obras de sua mão. Mas he tal o home qua
os encendidos Rubis , as verdes Esmeraldas , os azuis Saphyros ,
as brancas Pérolas movem muyto seu animo ; & nem os resplan-
decêtes rayos do Sol , nem a verdura da terra , nem a serenida-
ALLivio DE ArrLrciDOs, 111
de do Ceo, no a froícura da monhà lho poe admiração. Somos
prãdcs gabões das cousas hayxas, & menosprezadores das altas.
Maravilhamonos das fii:iiras eut retalhadas nas pedras, & das
Imagês formadas p:r niào humana; 6í nã do Artífice principal
que deu os engenhos, as màos, os olhos, os sentidos com que
estas cousas se vem, fazem, & entendem. Estranha locura de
coraçam liumano, que de todas as cousas de arte se maravilha,
senam de sy, & de seu alto principio. Se as terrenas deleyta-
çòes por rezam fossem regidas, levantariao o coraçam ao conhe-
cimêto de sy mesmas, & ao amor das celestiaes : porque nenhu
ja mais desejou matar a sede que aborrecesse a fonte, mas nos
debruçados sobre a terra nam olhamos pêra o Ceo, & esqueci-
dos daquelle grande Senhor que fez o Sol, a Líia, & as estrel-
las, com desordenado deleyte olhamos pêra cousas de pouca
conta, cativando o entendimento, donde podia a cousas mais
altas tomar o vao. Alcemos pois os olhos àquelle mestre q pin-
tou o corpo humano com sentidos, & a alma com entcdimento,
o Ceo cora estrellas, a terra cÕ flores, o mar com peyxes, &
teremos em pouco os falsos effeytos que nos deleytão. Avia Deos
sentido muyto perderense tantos Anjos, que dantes tinha cria-
do, sem esperança de se poderem ganhar, & com muyla rezào.
Porque se no mar largo cò a Nao ])rospera , óc favorecida do
vento, cae delia liu companheyro nosso, nam sentimos a que- 53 — 4»
da, como a desesperaçã de se poder sídvar : assi tanibcm nam
scntio Deos tanto a ruina dos Anjos dado q fosse muyto pêra
sentir, como averem caydo de modo que ficarão imp;>55Íbili fa-
dos, & incapazes de se poderem em algum tempo levantar. Pró-
prio foy seu, tanto que porrarao, ficarem tam ol)stinados, &
indurecidos em seu peccado, que inda que Deos d(>poÍ5 os não
castigara , mas com braços abertos , & olhos cubertos de lagry-
mas movido de piedade, & côpayxào lhes dissera; Criaturas mi-
nhas arrependeivos , mostray s<'ntimento da off(nisa q me fizes-
tes, q eu vos perdoarey, & vos tornarei a recolhc^r em minha
corte : riràose, & zôbanim muyto disso, como ainda agora fa-
TÍão se Deos lhe offerecesse o mesmo partido. Nam lhe p(xle pa-
recer mal, o que híaa ves lhe parecco b'.^m. 1'^ por tanto nam
entcndeo Deos em os resgatar , porq nam ha resgate de culpa ,
onde nam ha arrependimento no culpado. E quanto a isto pa-
rece q os Anjos saô da qualidade das jiedra^ preciosas q podem
quebrar, mas depois de quebradas nam ha Lapidario, no artifi-
cio humano que as possa refundir «St reduzir a seu primevro st^r
& inteireza. Vendo pois Deos tantos Rubis, tatos Diamantes,
& Esmeraldas quebradas, sem esperança de se podero soldar,
nào quis criar mais pedras preciosas, mas lodo se occupou em
lavrar vasos de barro pêra C]ue ciuebrando, os tornasse amassar y
112 DIALOGO SEGUNDO
& refazer. Tais quis Deos que fosse os homês, quebradiços, & capa-
zes de remédio. Antes os quis baixos uo ser, com tal, que caindo
54 — 1. se podessem erguer, que altos & irremediáveis depois de caidas.
Job. 10. Conheceo o Patriarcha Job ser esta a condiçam de sua natureza,
quando vendose em a fragoa da adversidade , <Sc receando como
buniilde, que a causa de sua pena fosse algíia culpa occulta,
com que eile na podia atinar, se queixava a Deos, porque tào
de rep(!nte o ]:)recipitava &. usava cõ elle de braveza tào desacos-
tumada, & estranha a sua natural condiçam, allegandolhe que
se nelle avia erros que provocassem a sua ira, se lèbrasse q o fi-
zera do pô da terra , q nam era diamante , mas vaso de barro ,
que depois de quebrado se pode inteirar. No mesmo sentido,
Psalin.bO. pedio David a Deos ha coração novo, & limpo, como quê en-
tendia avelo cÕposto de tal material, q lhe seria muy fucil da
mesma massa reformaio, »Sc de immundo o tornar limpo.
^nt. Dessa doctrina fica entendido, que nam foy desprezo
formamos Deos de barro, & lodo, mas amor, & desejo grande
de nossa salvação , pois fiou a saúde dos Anjos da sua espiritua-
lidade, & fez aos homès tais, cpie se caíssem, & quebrasse,
dandolhe a mão se podessem levantar, & reparar iuda que fosse
à custa de sua honra, sangue, & vida.
CAPITULO XX.
He remate dos alívios cô que Pauliniano se despede de Antioclu) ,
que lhos agradece.
Paul. Da mesma doctrina se segue que não he a carne , de
q somos cõpostos , cousa de sy mà , nê causa efficaz de nossos
peccados & lançados a essa conta , he nam a queremos ter co;n
51—2. nossa salvação. Crioua Deos, & cercounos delia nã pêra preju-
dicar ao es})iritu , mas pêra o humilhar, & render, & pêra o
ajudar a merecer. Ne os Anjos por serê puros espiritus se salva-
rão, nem nòs por sermos de carne nos perdemos. Unioa Deos a
nossa alma pêra sopear, & atrelar sua soberba, & não pêra lhe
estorvar, & impedir o caminho do Ceo. Mas nos miseráveis,
pêra diminuirmos nossas culpas costumamos buscarlhes menores
desculpas, que as raz5es que ha de as nam cometer. JSosso Re-
dêptor de carne se cobrio , mas ne ella lhe foy pejo em as obras
de seu merecimento , nê estorvo em as de nosso remédio. Se o
primeyro homem feito da massa de barro, se perdeo de soberbo,
em que barrancos cayra, se Deos o lavrara de ouro fino? Esta
consideração quadra muyto a meu juyzo, & me persuade que
ALLIVIO DE AFrLIGIDOS. 11 J
por aba ler a altiveza do home o nam criou Deos de metal mais
alto. Abraçayvos, Antiocho, cô ambas as cousas que aj)onta>-
tes, porque híia delias vos dà au(;ào porá alienardes com David.
Muerere mei Uomine quoniam infinnus awn : Avei 8(;nhor de ml
piedade, por quã fraco sou. E a outra pêra dizerdes cò o mes-
mo : Bonum milii quia humilasti ine : Bom me foy , Senhor ,
humilhardesme. Quiçá fôreis outro Narciso pelas muytas, &
boas partes que em vòs ha, se a adversa fortuna, & essa prolixa
infirmidade vos nam humiliàra; cuydai no que tè aj^ora prati-
camos, conferio com vosco, jx^r ventura aleviàrào vosso mal, Sc
vos recrearão o peyto as verdades q ouvistes.
^nt. Impropriamête me cõsolastes, propondo os proveytos
& ganhos que os infortúnios & infirmidades importào à vida, a
quê lem ante seus olhos a morte. Nào vedes, Pauliniano, que 54 — 3*
o que perco das forças em hua sò hora, nã posso cobrar em muy-
tos dias 1
Paul. Não estais tão perigoso nem tanto de caminho como
vos representa vossa imaginação , & por que he têpo de acudir a
outras cousas & dar vasam a negócios vos lembro por despedida,
que se nào acaba com a morte a vida do bom Christâo, mas so-
mente a mortalidade , & que a boa morte he porta pela qual
entramos a viver pêra sempre. Os antiguos moradores de Cales
adoravào a morte, sob titulo de Deosa que provia de descanso,
E conforme a isto se estamos em estado de graça , folguemos
tom a morte temporal , 6c chegaremos mais cedo a gozar da vi-
da eterna. Sacto Agostinho nos avisa, q nam ha morte igual à- De civita,
quella em q fica viva a mesma morte , & á daquelles q pêra -Dei líb. 6,
sempre morrerem &. padecerem nunca falta vida. Os que com xn fine.
ih verdadeyra se esperào de ver no parayso, & bemavêturança
da vida futura , tem esta presente por escusada , salvo que ha
nella hum grande bem, diz Chrysostomo, & he que nos minis- Hom.G.ad
tra matéria pêra conquistarmos o Ceo, & alcançarmos os trium- Pop. An"
phos, coroas, & leytos das esposas de Deos. E se este be \\\etiock.
faltara melhor nos fora qualquer género de morte. Se com nos-
so viver nam agradamos a Deos, muyto melhor sem compara-
ram nos he morrer que viver. Choremos p)r os que morre em
peccado mortal , & festejemos a vida & morte dos justos , inda
que seja penosa , pois vivendo , & morrendo sam bemavêtura-
dos. Resta que tragais à memoria vossos peccados, & vos apre-
senteis , &. frequenteis o Sacramento da Penitencia. E inda que 54— t.
vos tenhais por grande peccador, lembraivos C\ nam se afoga o
que cay na agoa , em quãto ella lhe não chega à boca , porque
pode respirar; o que cay no pego do peccado, senão tê a boca
impedida , não perca a esperança de vida : por isso dizia Da-
vid : Aon me demer^at tempcstas aqucE , ncquc absorbcat me prch Piai. C3.
15
114, Dl \ LOGO SECUNDO
fundum^ neque urgeat super me putcus os suú. Resiojnaivos nas
mãos de Deos offrccido a aceitar a condição , & sorte de vida ,
& morte , de q elle seja servido. Quanta felicidade será ( diz
Lib. 7. c, Lactancio) yr livre da corrupção desta carne pêra aquelle pay
^'' indulgentíssimo, que por trabalhos dâ descanso, por morte vi-
da , por trevas luz , por penas gloria , por terra Ceo ? Confesso-
vos que fuy infinito em vos cõsolar , por ver abertas vossas cha-
gas, & porque requerião mezinhas efficazes me detive tanto, &
de propósito me quis csprayar ê matéria de lagrymas, porq vi
ao olho quam altas rayzes laçarão em vosso peyto imaginações
tristes , causadas dalgus revezes da fortuna.
^nt. Fostes para mim mão de Deos, revocastes Euridice dos
infernos cõ a suavidade de vossa oratória, tirastes me do profun-»
do, & escuras agoas a gozar ares de vida, recreastes meu cora-
ção , com suáveis odores de excellentes verdades ; esclarecestes
íis sombras Cimerias , & grossas de meu peyto com o resplãdor,
& luz de vossa doctrina. Estava meu corpo neste molesto leyto,
& meu animo peregrinava indo , & vindo de longas terras , &
conversando regiões muy remotas da minha verdadeyra pátria,
bò — 1. & hora me vejo restituído ao Ceo. Dormia ê meus peccados hum
sono mais alto do q dormio Epimenides Cretense por setenta, &
cinco annos , & vos me abristes os olhos , & os enchestes de piaa
lagrymas. Deos vos dè o premio digno de tão sancta obra.
%fV%ivvvi'vvvvvvvvvvvvv%'vv%ivvvvt/\%/\'\'v\'vvwvv\%vvvvvvvvtiv%%%/vv%'VvvvvvY/%'VVW
CAPITULO XXI.
He húa côúdcração da mheria humana.
Paul. Confiay Antiocho naquelle Verbo Omnipotente; na-
IJerva a- quella peonia verdadeyra q cura, & sara os corpos, & almas;
chada de no filho de Deos medico celestial. Elle vos dè perfeita saúde ,
Peon.me- & fique cõvosco. Amè-
dico. Ant. Bem estava eu na conta , & assaz me desenganou Pau-
liniano nesta sua despedida , por muy certo tenho q deste leyto
me levarão á sepultura. Bê compara David a vida do home à
tea de aranha q brevemente se cõsume. A traça posta ao Sol
esvaesce , & resolvese no ar , assi a vida , estado , & cõdição do
home desaparece ; & como a traça ligeiramente gasta o vestido ,
flssi nossa mortalidade muy prestes dà fim à nossa vida. Toda a
miséria das creaturas faz sua habitação, & cugregação, em a
espécie humana , & de cada qual das suas misérias participamos
algo, ou tudo : de sorte q se acham, & ajuntam em cada híí
de oòs todas as q pelas mais creaturas estão dispersas. He o bo-
ALLIVIO or. AFrUGIDOS, 115
me em algíia maneira ttxla a creatura, & cò todas cotivè em
al};o, no ser cò as inanimadas, no viver cò as plantas, com os
brutos no appetecer, sentir, &, moverse , & com os Anjos no en-
tender, & razoar, no querer, & se lembrar. Assi tambè he sua
a miséria de todas ellas. He subjcito à corrupção, & às injurias
do Ceo, 6c dos elemètos , aos lugares, tempos, & accidentes
corporaes, como as creaturas que nào tem alma. He tambe sub- 55 — 2.
jeito à variedade (Sc necessidade de se nutrir, cnscer, & min-
goar, & à morte, & corrupçam como as q vivem. Sometido a
ódio, amor, tristeza, & dòr , & a todas as perturbações sensí-
veis, & sentimentos das qualidades pativeis, como as que sen-
te. Hà nrlle alternação, revolução & mudança de pensan^en-
tos, vontades, raz.^es, & conselhos, como nos Anjos K o q
mais he, nelle se acham cegueiras, & enganos notavt-is na es^
tima dos bcs apparêtes, como he o da formosura, por sua in- .
consideração, & fraca vista. Porq se os homcs usaram dos olhos
do Lince, &. penetrarão cô elles os corpos humanos, vendo suas
entranhas, & a esterqueira q dentro em si tê, reputaram por
torpíssimo o corpo de Alcibíades na superfície ifermosissimo , &
a bella cara, & estremado parecer de todas as molheres, q he
de muy pouca dura , & nenhua fjrmesa. Tambê o rostro de He-
lena , ídolo de tantos olhos, se desfigurava cò qualquer sobre-
salto, & murchava cõ hua fcbrínha : tambè foi lavrado de pro-
íudas rugas, & a tornou o tempo como edifício antigo, de cuja
sumptuosidade, & perfeiçam se nam vem mais q as ruinas da
pedraria preciosa cò o lavor , preço e lustre ja gastado. De ma-
ne) ra que a ningué faz parecer que he fermoso a sua natureza,
mas a fraqueza da vista de seus olhos & a falta de consideração
de seu entedimèto, o infuna em a prosperidade. Adam forma-
do em graça , & justiça original , isento de todas as misérias
corporaes em muy breve espasso se csqueceo de Deos, & das ex-
ccllècias que o Ceo lhe tinha cõmimicado , em tanto q no mes-
mo dia cm q foi criado , & posto em tam alto estado desobede-
cco a seu criador , & foi do paraíso lançado. Que dia passa por 55—3,
nossas casas q tenha tanto de prazer, & seguridade, q nào te-
nha mais de receo, & descontenta meto? q menhãa vemos tão
serena, & alegre, q o cuidado, »5c a tristeza a não enterturbas-
se antes q fosse noite ? Tam míseros somos que alem dos males
que trmos presentes sempre deixamos atrás quê nos dè dor, &
levan-.os díàte quê nos ponha terror. Cousa que em nenhum ou-
tro animal senão no home se acha. A outros animais o escapar
do prcsinte os põem em perpetua segurança; a nôs somente fica
esta continua luta com hum inimigo de três cabeças como di-
zem que tem o Caõ Cerbero. Não sò o presente, mas tambê o
passado , &. o futuro nos fazê continua guerra. De sorte que so-
lo «
llt> DIALOGO SEGUNDO ALLIVIO Di=; AFFLiaiDOS.
mos míseros primeyro que sobre nòs venha a miséria , porq cò
temor, ou esperança do que ha de vir em nenhum lêpo nos
quietamos, & solícitos pelo futuro na gozamos do presente. Tè
o que níica foi mísero reputa Séneca por misero, visto como cõ
a muyta felicidade torpesce , & como vivêdo mal tâto he mais
misero, quanto mais facilmête a sua vontade se cupre; & Deos
delle mais levanta a vara de sua justiça. Grande he a miséria
do peccador , que de si mesmo se nào doe , vendose apartado de
quê lhe dâ o ser, & sem quem não pode viver. Hay de nôs q
no distinguiív entre o bem , & o mal nos enganamos , no fazer q
que he bê cansamos , & se certamos resistir ao mal , somos vêci-
dos. Fomos formados do lodo vil , & cujo sperma , cõcebidos em
o pruido da carne , ê o fervor da côcupiscencia , em o fedor da
luxuria, e labèo do peccado : fazemos pravidades cò q offende-
ôô— 4. mos a Deos, & ao próximo, & a nòs mesmos; cometemos tor-
pezas com que polluimos a fama , & a pessoa , & a consciêcia ,
& nos despomos pêra ser manjar do fogo q sempre arde, & sêpre
queima : mantimento de bichos q sempre roê, & sempre comem,
massa de immortal podridão , q sempre he ascosa & fedorenta ;
& em quanto assi vivemos temos por algoz nossa consciêcia.
Nem se pode ter por felicidade o vivermos largo tempo , pois
conservamos a vida c5 tantos pezadumes, & em nos vindo híía
dòr de cabeça , o temor da morte nos afílige em tãta maneira ,
q se nos faz muyto mais grave a dòr da alma , que a do corpo ,
& tanto q nossa vida he hum continuo curso, & pensamento da
morte. Basta pêra encarecer a miséria humana a consideração
que fez dizer a Job , que melhor lhe fora nào aver nascido ; &
o que affirmarão muytos outros sábios; entre os quais ouve quê
disse , que o home entre os outros animais possuía o principado
de todos os males, & que era mar Oceano de misérias, & que
se poderá ver o que tem dentro de si , conhescèra , & confessara
ser hum vaso, & almario que a natureza fez pêra guardar nelle
todas suas escorças, & fezes. Inda que com mais razão se deve
quanto a isto culpar a si mesmo, que à natureza, pois por se-
guir muytas vezes demasiadamente o appetite estraga a complei-
ção de modo q elle mesmo busca , & procura suas misérias cor-
poraes : & he pêra chorar que não se achando em cada híía das
espécies dos brutos animais, mais que hum vicio, nos ussos a
ira , nos tigres a crueldade , nos lobos o roubo , nos porcos a gu-
la j nos homens se achào todos juntos.
DIALOGO TERCEYRO.
DA GENTE JUDAICA.
INTERLOCUTORES
AUTIOCHO ETSFERyiO^ AURELIANO FIDALGO,
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CAPITULO I.
Quem trouxe os Judeus à Hespanha , òf os lançou delia,
AnViocho. 9J a não espero remédio, senão daquelle medico 56 — 1.
celestial pelo qual se disse , Bê iei todalas cousas , fez ouvir os Mure. 7.
surdos, & fallar os mudos. Mas ate quando Senor me dilatareis
vossas misericórdias? Ja canso de gemer; ja nào posso chorar,
por falta de humor radical, ja a febre em q de contino arco
me lê estillado a carne, & secos os ossos, &. ne^^ado a copia de
minhas costumadas lagrymas, ja meus olhos não pode ajudar
com ellas os soluços q da alma me saè. Ja a virtude animal, &
a imaginação, q he causa efficiente delias, &. a virtude, q os
médicos chama expulsiva , está tam fraca &. debilitada , q pou-
cas vezes posso verter a multidà & arroyos de lagrimas q meus
tristes cuidados despertào. Tão intolerável he o mal q padeço,
q ja me gastou as forças , & tãto têpo ha q chorão meus olhos ,
q ja tê perdido boa parte de sua vista. Laércio Licinio servindo
de Legado em Hespanha, depois de ser Pretor, foi ver por sete
dias as três fõtes de Tamarico ê Biscaia , & sêpre as achou vazias
(o q se tinha por mào agouro, }X)rè não lhe veo por isso mal
algíi) & estas se secavào no dia d<jze vezes, segundo testemu- Lib. 31. c.
nha Plinio, & alguas vezes vinte : tal íoi minha vêtura, sepre 1.
Si vi mingoada, & seca, & niiqua chegou a hora, q estilasse a- Ò6 — ^.
goa clara. ísã fui eu ditoso pêra beber da f^ite de Caburá ê
Mesopotâmia, á qual sò a natureza côcedeo privilegio de chei-
rar suavemête, entre todalas fontts do mudo, como testifica o
mesmo Plinio. Mas quê chama a essa p<:)rta?
jiiirelxano. Salve Deos Antiocho, &. lhe dè a saúde q deseja. Loco cila-
Topei hoje cò Dr. Apollonio, &. delle s<jube de vossa enfermida- to,
de, còpadecinie de vòs, como a razão, & conhecimêlo requere.
Alas aveisme de perdoar, se minhas palavras vos agravarê. Hii
home de hora, &. letras, & autoridade j q saúde espera de gele
118 DIALOGO TERCEYUO
suspeita? fiais delia a vida como q vos não dà nada perdela. Ja
passou o tèpo de Telepho , e Achilles.
Ant. Ah, Sor, essas palavras nã são de quê vos sois. Aurel. Não
me digais nada, porq me sobeja razão. Tambè entendo o q en-
tendo, & tenho meu pedaço de latí, & grego, & de Tópicos,
& Elècos, & dos Metheôros : & sei algo da iSphera , porq quan-
do Pêro Nunez a lia a certos homês principais , eu me achava
presete , & li as Décadas de Joam de Barros ; & o Petrarcha em
sua lingoa ; &. essa mercê me fez Deos , q proníicio , 6c escrevo
d "Italiano, como q fora híí dos naturaes : tambe \y as historias
de Jovio ê latim , & as antiguidades de Florião de Capo em
56 — 3. Castelhano, & o Sumario de Estevão de Garibay Biscainho &
a historia Imperial do vizinho de Sevilha , & a Pontifical de
Illescas de Duenas, & as Respublicas, & os letreiros do Moraes
Cordoves , & sabey q meus sonetos corre por este Reyno , & são
festejados, sê se saber o nome do Autor. Deixo o saber do pa-
qo, estimado de muytos, por ser galante, & não ganhado ao
fumo da candea , como o escholar dos Bacharéis , & cuido nin-
guém me fazer vantagem , em saber cometer com arte híia m5
de cortesãos. Tambê sou lido nas Chronicas dos Keys , & sei as
linhajês dos fidalgos de sua casa, & os modos por cjue alcança-
rão medrança, cousas essenciaes do paço. Ant. Estais bê apro-
veitado. Ao Joam de Barros nã posso eu agora dar os louvores
q elle por sua diligencia , & lição merece. O Petrarcha está tam
louvado, que não pode crescer mais sua gloria ; & quiçá lhe deu
Itália mais vento do que lhe convinha. E mais vos quisera bê
exercitado no latim , &. grego, q no Italiano. E tenho por me-
lhor lingoagê a nossa Povtugueza q a de Itália , porque em me-
nos palavras contem mores conceitos, &i com menos rodeos tSc
mais graves termos descobre o q se pretende ; alem de cõservar
manifestos vestígios da antigua lingoa latina , q foi híia das três
do míido mais esclarecidas. Paulo Jovio foi homem honrado,
teve bò estilo, se Solimano lhe deu algiia cousa pêra o aparo
das penas , não no sei ; mas mostrouselhe affeiçoado. E o peor
he , q vos gabais de poeta , grande parte pêra vos cliamarê dou-
do, & ficarê vossos Sonetos assaz remunerados. Si vivera agora
Ovidio , meteravos nas suas trãsformações , porq de Portuguez
vos tràsfigurastes ê Italiano, e Castelhano.
Ó6— 4. Aurcl. Não he têpo de donaires , vos sò sois peregrino neste
Reyno, & não sabeis as cousas q nelle passarão de cinquoêta an-
nos a esta parte, & quam dados sam os Portuguezes à lingoa
Italiana, & à Poesia vulgar? & quam excellêtes se tem mostrado
algíis em híia & outra? Dizey, não fora millior terdes mais cui-
dado de vossa saúde; & considerar sê affeição as qualidades da
pessoa de q cofiais vossa vida? Nunca vistes queymar judeus em
DA GENTE JUDAICA. 119
Portugal? Não sabeis q so achou por expcriecia q muytos dos q
linliao melhores mostras de Chrislâos, estàvao mais entre<:;ues à
perfídia Judaica? E he de notar, q estando obstinados e seu er-
ro, nào vimos atègora alfru q por elle posesse molher , filhos,
& fazêda , & a própria vida; antes por nào perdere cada qual
destas cousas, o esconde, & encobre, &. dissimulào quanto po-
de, & fazem cjuanto lhe mandão, como persuadidos nào ser
peccado, negar cõ a boca o judaismo, q tem no coraçam , «Sc
reputam por crenc^a verdadeyra.
yJnt. Esses erào os Judeus, & eu tenho todos os outros, q a-
gora vive por (.'hristàos, em quanto se nào provar o contrario;
çm especial ao Doutor Apollonio meu medico.
Aurd. Hora vos digo q tê em vòs os Judeus bõ patrono pêra
perorardes suas causas. Não acharei eu quê me diga de raiz ,
que trouxe esta pra^a a Hespanha? /int. Metasthenes, & ou- Lib. 4. Tn-
tros cò elle dizê , q Nabuchodonosor Rey dos Caldeos precedeo dicormn.
a Hercules em fortaleza, & gloria de illustres feitos, & q sub-
jugou Hespanha, & a mor parte de Affrica, &. q quàdo nave-
gou cò mão armada a Hespanha , trazia no seu exercito muitos
judeus, dos cjuais ficarão nella alguas colónias q elle na quis na 57—1.
sua armada nê pêra captivos. Tã mal lhe cheirava esta naqã.
Porê, o mais certo he q rebellàdo os judeus còtra o J^lmperador
Adriano, forào desterrados pêra Hespanha de seu màdacío, por
perdere a saudade de Hierusalê, & do Têplo de Salamão , que
pretèderão três vezes restaurar, como he auctor S. Joam Chiy-
sostomo. Em Hespanha duraram tè o tempo delKey Dom Fer-
nando, q os lanqou de seus Reynos, & estados, movido da sen- Orcc.^.cô-
tença do Concilio Sexto Toledano, onde se ordenou, que dali traJudícos.
em diante todo o príncipe que sucedesse no Keyno, antes de to-
mar o Septro, prometesse de nam consentir morar em seu Rey-
Do pessoa, que nam fosse catholica; & se depois de governar,
Dam comprissc o tal prometimento, que fosse anathema , & pas-
to do fogo eterno, & todos os que com elle consentissem. E o
caso foi este, Sabendo o dito Key Catholico, que os judeus mo-
radores nos seus Keynos & Senhorios, cometiam nefandas abo-
minaí^ôes contra a sãctissima religião do filho de Deos, mandou
q todos se saissem fora delles. Isto foi no anno do Nascimento
do Rcdemptor de mil quatrocentos oitenta & dous. Vedo isto os
judeus, algus alumiados pelo Spiritu Santo, receberam a Fè
Catholica de verdadeyro coraqam ; outros por nam deixarê as fa-
zendas, ou as nam vendcrê por baixo preço, fingidos, &. simu-
lados a professaram ; todos os mais foram desterrados. A mayor
parte destes, impetrou delRey Dom Joam o 8egun<lo, sob cer-
tas condições, q os deixasse morar em Pt)rtugal , por têpo limi-
tado. E as principaes foram , q cada judeu pagasse ao Rey oyio
120 PULOaO TERCEYRO
Õ7 2. cruzados , & dentro de certo tempo se saíssem de Portu<!^al ,
sob pena de perderem a liberdade; &. q elKey entre tanto, des-
se passo seguro aos q se cjuisessem ir. Em quanto ellíey Dô João
viveo (^uardou sua palavra, mandando que os judeus fossem pas-
sados às províncias q quizessem por frete tolerável , & ninguém
lhes fizesse injuria, nem agravo : o que se fez muyto doutra ma-
tieyra. Que os pilotos, & mercadores em cujos navios embarca-
vam , os tratavam no mar indignamente , & vexavam com va-
rias affrutas, delendose mais tempo do necessário, & levandolhe
por força mais dinheiro, daquelle em que se aviam concertado
pelo frete , & com as detenças , q no mar faziam , gastados os
mantimentos , eram forçados os miseráveis a compralos dos do-
nos, ou mestres dos navios por preço injusto; & sobre tudo co-
mo homês desalmados, & cruéis, por força lhes deshôravão as
filhas, & molheres, esquecidos do nome Christào. Os judeus q
ficavâo ê Portugal , ouvindo tão tristes novas , parte cõ medo de
tão atroces injurias, parte côpellidos da pobreza, faltandolhe o
necessário pêra a navegação, entreliveràose em Portugal tanto,
que se lhes passou o tempo constituído , & ficarão como captí-
vos. O Rey vendia algíis , mas isto era a homens que os tratas-
sem com clemência , &. brando captiveiro.
CAPITULO lí.
Cjmo se ouve clRey D. Manoel com os Judeus que ficarão em
Portugal, àf quã danosa he a companhia dos mãos.
Ant. Morto elRey Dô João o Segundo, Dom Manoel que
57 — 3, lhe sucedeo, vendo q os Judeus não deixarão passar o tempo por
sua vontade, concedeo a todos liberdade. Elles em graça do
beneficio lhe offerecerão grande soma de ouro , que o Rey não
aceitou , porq seu intento era obrigalos cò mercês , & atrahelos
com brandura , »Si humanidade à obediência da religiam Chris-
íàa. Dahi a pouco tempo se cõsultou c|ual seria melhor, expel-
lir logo os judeus de Portugal, ou deixalos morar no Reyno. Os
Reys de Castella avisàvão elRey Dô Manoel, que não consen-
tisse em seus estados a gente judaica, cega, tSc em sua cegueira
obstinada, tanto que tratando o Christianissimo Rey Do Manoel
de casar com a Princesa Dona Isabel viuva ; ella se excusou por
ires ou quatro vias; &. hua delias foi, q não queria vir pêra
lleyno que estava cheo dos infiéis que seu pay lançara de seus
Reynos , & Senhorios , ao que elRey respondeo que também os
lançaria dos seus. E porque a Princesa depois de consentir no
DA GENTK JUDAICA. 121
cnsamento , replicou que sobre estava a execução deste negocio ,
elKey Dom Manoel lho satisfez, escrevendolhe que vindo ellit
pêra Portuo;al os mandaria lançar fora. Sobre isto ouve entre os
do Conselho varias sentèças. Algíis disserào, que nào era razão
lançar do Keyno os judeus, pois o Papa os permitia morar nos
estados da Igreja Romana ; & se^^uindo este exemplo iliustrissi-
mo, faziam o mesmo muytas cidades em Itália^ & muytos
Príncipes Christãos em Alemanha, nas Pannonias, & outras re-
giões de Europa; & que vivendo entre ChristàoB, não se perdia
de todo a esperança de algas se converterem à nossa fè, cò a
conversado , exemplo , íc doutrina dos nossos, E que também
era pêra sentir o muyto dinheiro que consigo levàvào pêra terra 57— ?4»
de inimigos. Outros em còtrario disputavào que era gente infe^-
lice , miserável, aborrecida em todJo o mundo, que trazia o
sangue de Jesu Christo sobre sua cabeça, & o fel , & vinagre
com que o enxaropàrão ; expellida de Castella, & Aragão, Sc
das Gallias; porque os bons Príncipes estimarão mais a pureza
& sinceridade da religiam, q o acrescentamento de suas rendas :
& tinhão sabido q es judeus tentavào a fè dos liomes simples, &
íallavam contra o nome sanctissimo de Jesu Christo , & semea-p
vam erros entre os rústicos; & que nada se podia fiar dos inimi-
gos do nome Christào, ne servia ter inimigos domésticos, pois
Portugal os tinha sempre nas fronteiras de Africa. Item que me?»
nor mal seria íremse entam com seu dinlifiiro, que depois de
chuparem todo o líeyno cÔ suas usuras, Sl lhe consumirem as
entranhas com suas manhas, & onzenas.
Aurel. Os que derào esse voto erào homês de prudência , &
cò esses me tenho eu ; & olhai por vOs que cò parecer desses vos
ei de meter no fundo. Vòs fallais em conversação de mà gente!
Por mais limpo & lúcido que seja o espelho , não deixa de sa
escurecer com o assopro còtaminado dos circunstantes; assi por
mais que resplandeça hum em virtudes, com a familiaridade,
& conversação dos màos fica mascabado, segundo aquillo do Ec-
ciesiastico, O q tratar com p pez , ficará empezinhado, & o que Sedes. 31,
communicar com o soberbo, pegarsclheà a soberba. Por mais
benévolo & saudável que seja híi planeta, se se ajunta com es»
trellas malévolas, màs seram suas influencias ; tornarseà mào,
o que parliculxirmète tratar com màos. Senera allegava com 58r— 1.
Phoedon, dizendo que avia híis animais pequenos que nam erào Epiat. 95.
setidos quando mordiao. Isto tem a familiaridade dos màos,
porque mais facilmente se pegão os vicies de Im subjeito em ou^
tro, que as virtudes : achaose com ella os homêa danados sem
sentirem quando lhes entrou o dano pela porta. Pegase ao sam
a doêça do enfermo, & a este não te pega a saúde daquelles,
O rio Jordam entrando cò a doçura de suas agoas era o pestl-
16
l^SÍ DIALOGO TERCEYRO
lencial lago de Palestina , perde o seu doce : assi perdem sua
bondade os b~)S q cõmunicâo cos màos , & pela mayor parle fi-
cão inficionados dalfíum dos seus vicios, & encorrem em perda
de algíia virtude. Ne me diga ninguém que muytos vive mal ^
que aconselhão bem ; dos quais como de bichas , & serpentes se
ha de tomar o útil pêra triaga, & enjeitar o inútil, que o mai^
seguro he não tomar dos màos nem o conselho , que parece bô ,
& fugir delles a rédea solta , pois danão , & infamão mais cò
seu comercio , do cjue podem aproveitar com seu conselho , & se
algua vez o dão bom , em tal caso permite Deos que o não to-
memos, & o julguemos por mào, como se vio em Absalon q
servindolhe o de Achitopel pêra prevalecer contra seu pay Da-
vid, ouve que não lhe convinha. Não temos o poder & virtude
de Christo, que cõversando os publicanos os trazia a estado de
penitentes. O certo he que mais prestes se tornão os bôs màos
conversandoos , do que os màos se melhorão tratando cos bôs ; &
quando menos sempre a amizade dos viciosos desacredita, &
põem macula na fama dos virtuosos. Porque tal he a alma ,
58 — S. qual he a vida de cada hum , & tal he esta, qual he a sua c<>.
panhia. Por tanto na escolha desta, assi pêra a alma, como pê-
ra a honra convém q aja tanto exame, quanto cada qual destas
duas cousas tem de preço & estima. Sêpre das màs conversações
se nos pega algua tinha, & das boas se nos comunica algum bom
S.2. qí. 10. cheiro. E esta causa teve S. Thomas pêra dizer, que se devia
art. 9. mandar aos simplices, & fracos na fè (da subversão dos quais se
pode com razão ter justo temor) que não comuniquem com ju-
deus, nem com outros infiéis, ao menos miiyto familiarmente.
De mcom- & sS muita necessidade. E pola mesma razão S. João Chrysos-
prehêsibili tomo amoestava cõ tanta instancia aos fracos que fugisse dos
£>á naíw- colloquios , & ajuntamentos dos Anomseos, porque a amizade
ra. hom. 2. estreita não parisse error de impiedade. Porem não prohibia,
isto aos de animo mais assentado, & constante na f è , que da
1. Cor. 15. familiaridade dos tais não podião receber detrimento. S. Paulo
,. seguro tratava cõ judeus, & gentios, & toda via avisava seus
discípulos mais fracos , cjue os màos colloquios corrompiào os bôs
Jsrti. c. 52. costumes. O mesmo aviso nos dà Isaias da parte de Deos; Say
do meo dos mãos, apartaivos delles, diz o Senhor. Parece que
esta causa moveo o Concilio Toledano terceyro, pêra prohibir
aos judeus q se não servissem de Christãos cativos nem tivessem
molheres ou concubinas christãas. O mesmo estatuio o Concilio
Provincial JVIatisconensc; & que qualquer Christão podesse re-
mir por doze soldos o escravo Christão que estevesse em poder de
algíi judeu. Tão mal cheiravão os judeus naquelles bôs tempos,
que o mesmo Concilio Matisconense , & o Aurelianense tercey-
58 — 3. IO também provincial, vedarão, que u.enhuni judeu saisse às
DA CEHTK JUDAICA, Í9'Á
praçfls, & ruas publicas, nem parecessem onde estivessem Chris-
làos , desde quinta feira da Cca , ate a segunda depois do Do-
mingo da Hesurreiçam , porq erào tam pérfidos , «Sc desavergo-
nhados quo. alrotavào dos Cjirislàos, & escarn<.ciíio de suas sole-
nidades. E por isso ordenou , & numdou o Concilio Tolcdano
quarto, que os filhos dos judeus recebendo o sagrado Baptismo,
fossem logo separados do còsoreio dos pays, porque se nao en-
volvesse em seus errores; & que os judeus converáí)s à fè nào co-
municassem cos remanescentes nas ceremonias da ley velha,
porque senão subvertessem com sua participaçã. Que mais ha
mister? inda agora algíís delles habitando entre Christàos esci^e--
vem livros ímpios, & blasfemos còtra o fdlio de Deoí, qual he o
seu Nazaor. Isto se pode soffrer? A quem nâ porá espanto a
pertinácia & desavergonhamento destes pérfidos, que vivendo en-
tre Christàos, de quem são tratados com mais humanidade, que
de todas as outras nações, & onde elles recebem tantas cumodida^
des, & ajutam tantas riquezas com roubos, & onzenas, ousarem
inda pòr a boca côtra o Ceo, & blasfemar do Senhor Jesu Chris^
to? Eu não sei qual he o Príncipe Christão q os sofre em seus
Estados , senão he porque fazemos mais caso do vil interesse ,
que da hora deDeos. Agorji dizei quanto quizerdes, porque em
semelhante argumento, & tão justificado pela minha parte, não
me faltará defesa.
^nt. Pareceis Doutor Theologo que say novamente dos Gym-
hasios de Sorbona , inchado de Conclusões paradoxas. Os Fi-
dalgos Portuguezes são muyto mimosos, todos se tem por paren- ó8 — 4t»
tes de Rey ; & parece a cada qual que caio do ceo , & q nam
ha pêra elle Justiça. A hum ouvi dizer que não avia enveja a
tt;dolos princípes do míido, senão de hiía sò cousa, & era que
se serviào de homès que o erão mais que elles,
ylurtl. E isso não he verdade ?
Ant. Outro conheci q não hia ao Paço por não tirar a gorra
a elRey,
Anrel. Não sou de tãtas graças, mas tudo vos levo em conta
porque estais doente.
Ant. A vossa sentença seguio elRey Dom Manoel, & man-
dou, q dentro em corto tepo se saissem de seus Reynos, & Se-
nhorios todos os Judeus & Mouros que nam quisesse professar
nossa fè; & nã se indo passado o dito têpo ficassem sem liberdade
como da primeyra vez. Apercebedose os judeus para o caminho,
& soffrcdo elRey muyto mal a perdição de tantos milhares de
almas, ordenou com animo & propósito não mào, que os filhos
dos Judeus q nnm passassem de quatorze annos, fossem tomados
aos j)ays & apartados delles estivesse onde os instruissem nos ,
princípios & documentos da doutrina Christãa. Os movimentos
16 «
124 DIALOGO TEnCEYRO
que sohre isto ouve & alterações de ânimos , nao se pode contar.
Ouve pavs que se matarão, & outros q matarão seus próprios
filhos; & em fim os míseros Judeus vendose sem oportunidade
pêra navegar, & enfadados de dilações, cortados de necessida-
des , & afrontas que padecião ( & padecerão em pena do sangue
do Justo que tomarão sobre si ) ou por vontade , ou sem ella a-
ceitarão ser Cliristãos. Esta foy a occasiào de aver em Portugal
^^ — !• estes homês q chamamos Christãos novos, devendo ja de ser ve-
lhos & nomeados por esses.
Aiírel. Cuydo que por essa causa castiga Deos este Reyno,
porq não quer Christãos forçados. E porque agora he mais offen-
dido desta gente do que por ventura foy no têpo que erào Ju-
deus, se o posso dizer, O sacramento do Baptismo da sua par-
te he profanado, as offensas que cada dia contra elle comete
não saõ escondidas, & o proveyto que a sua Christandade faz ao
Reyno, he possuírem todo o melhor delle , tanto que muita
parte da pobreza do Rey & Reyno causa sua muyta riqueza. As
honras & officios da Republica, que segundo regra de Justiça
distributiva, se deve aos Christãos velhos, não deixão de se lhes
dar, cousa pêra se muyto chorar. O sinal da Cruz elles o trazê
no peyto , &. parecevos que será Christo contente de ver a sua
Cruz profanada , & depêdurada do pescoço daquelles cuja Chri£~
tandade he fingida?
CAPITULO III.
Do baptismo dos Judeus^ ordenado pela Cliristiarássima Rey Dom
.Manoel, ^ do %elo da fè dei Rei/ Dom João seu fiUio^
Axirel. E nam vos parece que foy tomar a alçada a Deos &
yr cõtra a Justiça & suavidade da ley Evangélica , cõpeller os-
ânimos reveys a ella , & impedir a liberdade da võtade ! Que
foy isso senam dar occasião a que por fingimeto se profanasse a
Sancta Religião do filho de Deos, se abrisse a porta aos pérfidos
ô9 — 2. Judeus pêra cada dia receberem indignamête os Sacramètos q
Christo ordenou à custa de seu sangue, & violarem os mys^terios
& Sanctidades de nossa fè com simulada, & fingida reliíriào?
Que me dera muytas lagrymas pêra chorar isto noytes , & dias.
Por isso declinam nossas cousas & a prosperidade da Republica
Christaã tam florente , vay de mal em pior. Eu ouvi dizer que
de Constantinopla escrevera híi Judeu aos de sua nação vezinhos
destes Reynos , que fizessem seus filhos médicos &. clérigos pêra
q fossem senorcs das almas & dos corpos dos Christãos.
BA GENTE JDDAICA, 125
/fnt. Tcda via não podeis culpor o inteto & protcrão do Rey
picntiíísimo que o fez cò bom zoltj & ardctissimo desejo de meter
a gete cega & pertinaz no caminho de sua salvação. Quanto
mah que ouve homes illustres cm letras, & virtudes cujo pare-
cer foy , que licitamente o podia fazer; &. que Sisebuto Princi-
pe reliíriosissimo o fezera, como se cotem no quarto Concilio
Toledano.
Aurd. Que chamais vos illustres em letras? chamolhe eu li-
songeyros, que se quciem insinuar na graça dos Principes. Qual
Doutor Theologo disse, que pelos cabellos se aviam de trazer os
infiéis ao baptismo, ou q licitamente se podiào baptizar os filhos
dos infleis reclamando seus pays?
ylnt. Falais largo Aureliano, em matéria nam vossa : mas se
me quiserdes ouvir com atençam , nam sereis tam sf!vero censor.
AquelJe se chama baptizado per força, que absolutamente recu-
sa & diz que nam quer receber o tal ISacramèto. Desta maneyra
nà he licito baptizar a ninguém, nem seria sacramento, mas o
que absolutamête cõsente ser baptizado, posto que condicional- 59 — ^3,
mente , isto he , senà temera a morte, &.c. nao consentira, rece-
be verdadeyro baptismo, & fica Christáo, ainda que náo rece-
ba graça. Visto como este tal o que nam quer condicionalmen-
te , quer absolutamente, segundo a doutrina de Aristóteles. E 3. jElh,
destes se entède o Concilio Toledano, que os Judeus assi bapti-
zados por mandado de Sisebuto dos Visigotos Key de Hespanha,
fossem compellidos â fè de Christo, & comprimento delia. E
adverti que no mesmo decreto se defende , que ninguê seja bap-
tizado por força. Inda que por ventura Sisebuto se mo\eo com
zelo da Religião, mas nam segundo sciencia, & o mesmo se po-
de dizer delKey Dom Manoel. He verdade que o direyto civil
anulla o matrimonio celebrado por injuria com medo da morte;
porque he contrato civil & natural; mas outra cousa he no sa-
cramento do Baptismo, o qual como de sua natureza nam seja
contracto, & nelle se imprima character , de qualquer maneyra
que o baptizado consinta, fica obrigado ao Christianismo. To-
da via os Judeus, que somente cõ a voz consentirão se algii con-
sentimento interior, não saô Christaos, ihda q a Igreja os possa
constranger, & constranja a guardar as Leys de (.'hristo. Scoto
disse, que cria ser obra religiosa, s(í os infiéis q te uso de rezão 4. Scnt. d,
fossem còpellidos com ameaças, & terrores a receber o baptismo; 4. q. 9.
isto pode ser, que algias Tlieologos acòselhassem ao Rey felicis-
simo. Mas he em contrario a comu opinião dos Doutores, & he
verdade que em nenhíaa maneira he licito compcller algíia pes-
soa a receber o sacramêto de nossa ít;. E pêra isto ha authorida-
dcs da Sancta Escriptura , dos Sacros Cõcilios , «Sí. Sanctos Pa- 59 — i.
dres, as quaes todas cotradizem o parecer de Scoto. Quanto ao*
12G DIALOGO TERCEYRO!
filhos dos infieys que inda na uáão do livre alvedrio, disse Scoto
que se podião baptizar contra a vontade dos pays, ou tutores,
se se podosse fazer co boa cautella , & doutrina dos baptizados.
Pois nào se deve baptizar as tais crianças , pêra depois ficarè em
poder dos pays infiéis, sobpena de gravissimo sacrilégio. E esta
opinião de Scoto seguiria elRey D. Manoel de conselho de Le-
trados, que tem zelo sem prudência. Em nossos tempos meu
mestre Ledesma Cathedratico de Prima em Tlieologia na Uni-
versidade de Coimbra, ensinava estas duas cuclusoes. Falando
absolulamèle , licito he aos Príncipes, & Pontífices baptizares
filhos dos infleis contra a võtade de seus pays , porque nenhum
direito o prohibe , & elles usam mal do natural. Porê nam se
deve fazer , porque pela mayor parte ha escâdalo , & perigo de
seguirê a secta , & falsa crença dos pays , ou serem Christãos si-
Sotod.b.q. mulados. E por isso disse S. Thomas absolutamête, que não era
ualca art. licito , & assi se deve ter. Nem eu ousaria fazer o que por ven-
10. 171 fine. tura fizera hum insigne Doutor conforme ao que escreve no seu.
Quarto das Sentenças. Ja me parece q moderareis vossa cesura,
& não dareis tãta culpa ao Rey amicíssimo, & zelosissimo da
verdadeyra religião de Christo. Qual foy tambê elRey D. João
o Terceyro seu filho, & successor no Reyno, que fazèdose na
Villa de Gouvea em híia casa de nossa Senhora, chama,da da
Ribeyra , grandes vitupérios , & torpezas , contra a Imagem da
60 — 1. sempre Virgem & bê dita Madre de Deos, & succedèdo em
Freyxo outros desacatos cometidos por màos & fingidos Chris-
tãos ; & vendo que se descobriào , & arrebentavão por muy tas
partes do Reyno sinais de mà Christàdade , depois de acodir a
todos elles cò zelo devido à fè, & hora de Jesu Christo N. Sõr,
& remetir os culpados a seu Juyz o Núncio do S. Padre, que
era presente em sua corte (pelo qual forào convencidos, & erj-
tregues â cúria secular, & algiis delles justiçados, & feytos em
pò ) logo com grande instancia , por seus embaixadores suplicou
ao S. Padre, mandasse o officio da Sancta Inquisição a seus-
Reynos. E exereítandose ja nelles o dito officio , ainda teve so-
bre isto grandes contrastes que na corte de Roma se lhe levanta-
rão, por informações paleadas das partes, a que tocava : ate (j
o fez permanecer com grande cuydado & diligccia, «Sc tudo à
custa de sua fazenda- Porque o S. Padre nam concedeo por en-
tão , a cõfiscação dos bes dos hereges ; por lhe darê a entêder ,
que com cobiça delles, se lhe pedia o dito officio pêra estes Rey-
nos, (Sc seus Senhorios. Cõ o qual he feyto notável serviço a
Deos em louvor, &. exaltação de nossa Sancta fè, porque se re-
frearão muitas heresias, & blasfémias, & se introduzi© entre
seus vassalos reformação de vida , & costumes , de que hà exem-
plos , tantos , & tam patentes , q não ha mister outra mais pro-
5)A GENTE JVDAICA. V27
va , que a notoriedade delias. Olhny câ Aiirelíano , no peylo
do Key Christào está Deos, q o move & incita, «Si governa em
tudo o que faz. Sal)iamente disse Salamào, como a divisam das Prox)crh.
agoas, assi he o coração do l{(;y na mào do Senhor, para onde 21»
quiser o moverá. Nam falia do Tyranno cujo animo anda sem-
pre apartado de Deos; senam do Rey qut; lio seu servo; o qual GO — 2.
cm tudo o que faz, he por elle mcnido, & incitado. Mas dij^o,
q o coração do l^ey, jx)r niào que seja, cstà na mào de Deos.
Costume era a cerca dos Judeus que o reo de alfífi crime, sendo
citado aparecesse em Juyzo atrato, isto he, vestido de negro,
& cos cabellos compridos; (dà disto lestimunho .losepho) pêra /íntiq. l\h.
que no trajo represctasse humildade, & temor do castigo, & M-.cap. l'?.
captasse misericórdia nos que o aviào de julgar. Christo pelo Baroniu^,
contrario, náo como reo, mas como innocente, foy mandado
de Herodes vestido de branco, ao pretório de Pilatos, por cau-ia
de sua innocencia , o que foy cõselho admirável de Deos para
dar a entender q o coraçam de Herodes estava na sua mào. O
que tem pomar plantado apar da corrente das agoas, facilmen-
te as leva de hua parte a outra pêra regar as plàtas, & arvores
delle. Assi Deos move & impelle o coraçam , mormente o do \>ò
Príncipe que se cõsagrou à sua obediência; & cõ sua virtude di-
vina prove em todalas cousas , q elle ordena , ou sejào de guer-
ra, ou de paz. Que este tal te Deos sempre presente ante seus
olhos, & elle he o norte q segue em quanto emprehende, &^
pretende. E assi o creo do pienlissimo lley D. Manoel, caso
que alguns culpem o que não quei'em entender.
yíurcl. Vòs dizeis isso, & eu ouvi a liu Theologo, que Sala-
mão queria dizer, que como Deos governa o povo pelos minis-'
tros dos Príncipes, & pelas leys, a cuja virtude coactiva está
sojeito; & governa os Keys immediatamente por sy , porq nam
ba ley q os constranja, nem vassalo que os reprehenda , & lhes GO — 3,
ouse fallar verdade; por tanto affirma o Sábio q como sò Deos
pode mudar o curso dos Rios caudelosissimos ; assi sò elle pode
mudar a vòtade dos Príncipes, os quaes dos q se determinam,
a todo conselho serrão a porta & aborrecem os prudentes, & sá-
bios q são doutro parecer.
-^nt. Dado que pêra fazermos nossos officios seja a todos ne-
cessário sermos regidos por Deos, muyto mais importa isto aos
Jíeys prra nam serem tantas vezes enganados. Daqui nasceo pe-
dir David cm seus Psalmos de contino a Deos, que ouvess<í por
bè de o lumiar , & lhe esclarecer o entendimento. Sào os cora-
ções dos Reys impetuosos como as correntes das agoas; & sò Deos
os p<xle cô facilidade reprimir, & pelo mesmo caso te mayor
necessidade da providencia, & favor divino, ])era q nào cayà no
sentido reprovado de que faz mèçào S. Paulo ; & Deo> \>vv Rom. l.
128 lilALOGO TEíiCEYHô
quem lie, os Iras sob sua especial proteição, & inclina a cousas
de seu serviço, porque a ninguê falta em suas necessidades. Da
maneyra que a segíida interpretação que ouvistes, he funda-,
mento da primeira que deveis seguir, & ella com a boa intenção
& pia do liey felicíssimo bastão pêra sua desculpa. Quanto mais
q do que fez em tal caso se tirarão muytos bês que vemos entre
nos cada dia, porq os filhos & netos destes primeiros Judeus,
pelo uso & côversaçào , & doutrina dos nossos, segue a verda-.
deyra religião, escjuecidos da perfídia de seus progenitores.
Aurcl. Não sey que vos responda , Deos o sabe. Encomedo^
me a elle , & à V irgem sua madre , vos sô não tèdes olhos , &
60 — 4. não vedes as cousas postas ante vossos pès. Dizei quãto ha que
os netos, & bisnetos dos Judeus, & Mouros q ficarão nos Rey-
nos de Castella, derão contra vos claro testimunho da secta ne-
fanda de seus antepassados que trazião esculpida em suas entra-
nhas? Pois lâ nam lhe fezerão força algíia, senam que, ou se
fosse fora do Reyno, ou se fizessem Christãos, Mas deixemos es-
te debate ; &l respudeime a muytas cousas que vos quero pergun^.
tar da gête Judaica em geral, & do estado da sua Republica;
& là vos avinde cõ vossos médicos, & boticayros, que quãto a
mi determinado estou, «Sl dou seis cêtas licenças, a quê quiser
ser néscio , & sandeu em suas curas.
Wt^«'VVVVV%'V»'VVV«'WV»'VVV«f»»/««VVVVV%VV\>VVV«/VVVVV%'V»f%/VVVV«iVVV%'V%VV%VVVt/VV
CAPITULO IIII.
Qual era o estado da Republica Judaica Ò; Gentílica , quando
encarnou o Fillio de Deos.
Deutero.9, Ant. Quais fossem os Judeus antes de ser chegado o tempo da
vinda do Senhor, declaroulho aquelle grade Propheta & espe--
ciai amigo de Deos Moyses , & lhes disse : Sempre fostes des^
leais 5 & reveis a Deos , fazendo pouca conta dos mandamentos
da sua Ley nam dado credito a suas palavras, &: desta vossa des-
obediência, & pouca fè sou eu testemunha de vista do dia q vos
conheci ate agora. E elles confessarão depois esta verdade, di-
Jcrem*cap. zendo ao Propheta Jeremias : O cpie nos disseste da parte de
44. Deos, & o cjue nos dizes agora não ouviremos, nem cÕpriremos;
mas faremos tudo o que nos vier à vontade , sacrificaremos à
Cl — 1. Raynha do Ceo, como ainda fazemos, porque quãdo nossos an-
tepassados o fizerào , foram ricos , &. ditosos ; & nòs como o dei-^
xamos de fazer, fomos pobres, òt desavêturados. Bem parece o
Chrisost. que disse híí Sancto , q sairão os filhos de Israel do Egypto
quanto ao corpo, mas nam quanto ao animo.
OA GENTE JUDAICA. J29
Aurel. Melhorara se por vêtura nos tepos mais chegados à en-
carnação do Filho de Deos.
Ant. Antes cuydo que peioraram , &. chegarão a suma misc-.
ria, porque nam tinham Kcy natural, &. onde reyna o estranho
tudo he de venda, nem j^ertende mais que o interesse de seu
governo , como quê caminha em cavallo alheo , que cura pouco
do 6eu mantimento , &, o faz andar em poucas horas grades jor-
nadas : assi os Senhores estràgeyros procuram seu proveyto, &
nam o da Republica , &. pequena occasião basta pêra se fazerem
tyranos. Accrecia a isto íloiccerem naquelle tem|x> entre os He^
breos duas seytas principais de homês que se tinliã em conta de
letrados, como testifica Joseplio; a dos Phariseus, & a dos Sa-
ducèos : às quais se chegaram outras duas na instituição derra- Z,i6.18.an-
deyras q forão a dos Galileus, & a dos Herodianos. Estas se- tiq.c.Z.da
guiào muitos dos Judeus como a cada híi vinha à vôtade. E co- bdlo lih.'Z.
mo híias das outras grademête discordassem , era isto causa de se c, 7.
implicarem cò varias , & innumeraveis questões os ânimos da-
quelles que inquiriào a verdade. Dos Phariseus deixou escripto
8. Hieronymo estas palavras : Não muito antes da vinda de
Christo nasceram em Judea Sàmai, & Hillel, & delles os Scri-
bas, & Phariseus. Os descendentes destes constituíram aquellas
•duas famílias q nam receberam a Christo, & foram aos outros Gl — 8.
causa de sua ruyna. Sàmai segíido a interpretação do nome si-
gnifica dissipador; & Hillel prophano, porque co suas tradições
dissiparam , <Sc macularam os preceptos da ley divina. Cõ a es-
chola destes continuarão muytos outros ate o desbarato de Hie-
rusalê feito por Tito , dos quais , os q professavao a interpreta-
ção da ley se dizião S<;iibas, & os outros do nome comum se
nomeavão Phariseus. E todos seguindo cõ pertinácia suas su-
perstições, e põdose cõtra a verdade, se fizera cegos, & guias
de cegos. Atribuião tudo ao fado, affirmavã q o juyzo das almas
se fazia de baixo da terra, & q avia transmigraçã das almas dos
bòs, em outros corpos. A seita dos Phariseus foy a principal,
os quais erão tidos em grade reputação de letras, & sãctidade,
& admitiâo assi a ley escrita , como as tradições verbais q fica-
rão dos sfHis maiores. Erão tambê muito affeiçoados ao estudo
da Astronomia , & às vaidades dos Gregos : & cõ suas viciosas
interpretações tinha corrõpido a ley de Deos , como costa do E-
vàgelho. O estado da sua vida (deixados os mais institutos seus)
- era tal q cõ fingida , & venal sanctidade assi conciliavão pêra si
os ânimos de todos, q o q clles dizião, ou fazião se tinha por
justo, e licito. Josepho seu natural, & da mesma seita diz del-
les as cousas seguintes : Tãta he sua autoridade cerca do povo L\h, anil.
q inda q fale cõtra o Rcy , & cõtra o Põtifice, lhe dà credito a 13. c. 18.
gète vulgar. He género de homês astutos, arrogãtes, &. algiias
17
130 DIAIOGO TEECEYRO
Tezes tão côtrarios aos Reys , q nao teme impugnalos , & falar §
publico cõtra elles. Mas porque a sua exterior sàctidade era híia
.61 — 3. mascara composta pêra enganar a gente, aquelle que conhece
os corações dos homês lhes declarou quais erão no interior : í^(e
vobis scnbcE , <5f phariscci hypocritce. Ay de vôs, Escribas, ác
Phariseus , hypocritas ; semelhantes sois a sepulchros bem guar-
necidos , & branqueados , que de fora ])arecem fermosos aos ho-
mês 5 (Sc dentro em sy contem ossos fedorentos , & muytas outras
immundicias : Assi vòs mostrando vos de fora justos, 6c sanctos,
de dêtro estais cheos de hypocresia, & maldade.
uáurd. E quais erão os Saduceos?
Ant. Nam erão certo melhores que os Phariseus, antes se-
guião opiniões, & documêtos muyto piores : porque segundo se
Act, 13. refere nos Actos dos Apóstolos , negavão a Resurreyçam dos
mortos; & aver Anjos, & espíritos : cousas que os Phariseus
Ant. Vib. confessavam. Josepho diz delles cousas mais feas. A f firmavam
18. c. 2. que as almas juntamente , & no mesmo tempo acabavam com
os corpos, & nas mais cousas sentiao o mesmo que os Samaritar-
nos , excepto q vivendo em Hierusalem sacrificava como os mes-
mos Judeus. Admittiã somente a doutrina dos cinco livros de
Joseph. de Moyses, interpretando os passos delles a seu modo, donde veyo
hdlo.lth.^, chamarem lhe Biblios, ou legistas. Josepho diz, que erão pou-
€.7 .^ ant. co% os desta seita, mas quasi principais na dignidade. Contra
ÍÍÒ.18.C.2. estes, & contra os Phariseus disse o Baptista, Geração de bi-
chas, quê vos persuadira fugir da ira vindoura. Passo por outras
seitas, q tomado algo de cada qual das ditas, fabricarão Môs-
truos : Entre as quais Epiphanio poe no derradeyro lugar os
Herodianos, cuja heresia nasceo em os tempos do Reyno de He-
61 — í<. rodes que diziam ser Christo, porque fora declarado por Rey pe-
in Panar. \o Senado, confirmado por Augusto César, em o têpo, que q
lib. 1. 17. Septro do Tribo de Judà avia quasi cessado. Da companhia des-
íf seq. tes forão os que juntos cô os Phariseus cõspirarão cõtra Christo,
& lhe proposeram a cavillosa questão do tributo se se divia pa-
Dc prce- gar a César. TerLuliano fazendo hum compendio destas heregias
ficript. diz. Calo os heréticos do Judaísmo, Dosithèo Samaritano o pri-
meyro que ousou repudiar os Prophetas , como que nam falla-
ram pelo Espirito Sancto. Callo os Saduceos , que rebentando
da rayz deste error, se atreveram a negar a resurreyção da car-
ne. Passo pelos Phariseus, que fazendo algiias achegas â ley,
se dividião dos Judeus. Finalmente tam caido estava o estado
das cousas Judaicas, q segíído prenunciou Isaias, ao modo, que
depois de feyta a cega remanescem alguas espigas , & da vindi-
ma poucos cachos, & do varejo das oliveyras poucas azeytonas na
sumidade dos ramos : assi seguindo quasi todos os Judeus vários
erros, apenas ficou hum pequeno numero daquelles q Unham,
DA GENTE JUDAICA.. 131
& conservarão o sacrameto da vcrdadeyra Religião, <\ dos Sâ-
ctos Patriarchas , & Proplietas aviào recebido. Pequena certa-
mente era a f^roy dos justos, q esperavào jjcla rcdêpção de Israel,
dos quais os mayores na idade forào Simeào, Anna viuva, Za-
charias, Elisabeth sua molher , & os remanetêtes do Trono de
David, Joseph, & Maria, »Sc alj^íis outros amadores da Icy de
Deos, & desejosos da vida daqlle Key , Sacerdote, & legislador,
q avia de resistir à caida do Keyno, da Ley , & do Sacerdócio
Judaico.
Aurcl. E qual seria então o estado das cousas da gentilidade ?
u4nt. Se o lume que avia no mudo se cõverteo em trevas, qua 62 — 1.
entrevados vos parece, q ficariào os gentios? Se Judea, onde
Deos era conhecido, & Israel onde seu nome era grade, estava
tão cego, & escuricido, que se pode cuidar das gentes, que nào
tendo nc)ticia do verdadeyro Deos , honravào è seus Ídolos os
mesmos Demónios do Inferno? Cõ tais guias q bês podiáo fazer
os homês? & que males podião evitar? Item as liepublicas dos
Gentios, & principalmente a dos Komanos, que com excellen-
tes virtudes do animo avião sometido à sua obediência todo ho
mundo, deyxado o antiguo costume de seu recto viver, seguia
à rédea solta mais que as outras todo o género de vicios, & nel-
les, como em hum lodo, & atoleyro estava somergida : cousa
de que os seus escriptores exclamando muytas vezes se queixa-
rão, & depois delles Sancto Agostinho : Nam ha pêra que dis-
corramos polas outras nações, pois em qualquer das suas provín-
cias adoravam muytos Deoses, eram dados a superstições mons-
truosas, & a costumes torpíssimos, & ate os juros da natureza
violavâo. Polo que assaz em bom , & oportuno tempo consultou
Deos de mandar à terra o seu Unigénito, porque avia criado
todas as cousas para pello mesmo as restaurar, estabelecer, &
trazer à religião da sua fè, rectidão de vida, composiçam de
tês costumes, & ao caminho da vida Eterna os que delle anda-
rão desviados. Criado Deos o Ceo , & a Terra , & vendo que
nenhua graça nem fermosura podiam ter sem luz , & que todas
as cousas, q a^ia criado estavam às escuras, & envoltas ê espes-
sas trevas , acordou nos seus princípios , criar a luz com os rayos 6f— St
da qual assi as ja íeytas, como as que se avião de fazer, vestidas
de híia roupa lustrosa de claridade , & gloria mostrassem seu
natural re^plandor : Isto que na instituição do mundo foy feyto,
outra vez correndo o tempo foy na sua restituiçã mais felice, âc
perffvtamente acabado, enviando aos que nas trevas de suas cul-
pas, &. sombra da morte perpetua jazião , híía nova luz, o seu
Unigénito, da sua ingonita sabedoria gerado, Sol de Justiça,
lume eterno cuberto de carne como de nuvê para se accomcdar
à fraqueza de nossa vista.
17 «
132 DIALOGO TERCEYRO
yíurel. Tristes dos peccadores se a misericórdia do. Senhor os
nam viera livrar de tam perigoso , & miserável estado.
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CAPITULO V.
Da cleyçâo íf reprovação do povo Hehreo.
Anrel. Quero agora de vòs saber o porq escolheo Deos a na-
ção dos Judeus, & não qualquer outra para o sangue de seu Fi-
lho; & depois de os ter escolhidos porque os enjeitou.
Ant. Deveis ouvir cõ animo sossegado & desapassionado mi-
nhas repostas. Não sendo o mundo todo idóneo pêra lhe Deos
rcA^elar o mistério altíssimo da Encarnação de seu Filho, por
causa dos muitos entendimêtos apagados, q nelle avia, assi po-
lo vicio da natureza corrupta, como pola perversidade dos màos
costumes; foy decente que escolhesse em particular hii povo, do
62 3. qual primeiramête se confiassem tão sublimes & escondidos mys-
terios. Como tabem o foy que Christo nosso Senhor não apare-
cesse depois de resuscitado a todo o mundo : mas a certas teste-
munhas por Deos ordenadas pêra a publicação de sua Sancta
Resurreiçam. Costume he de homes sesudos, & prudentes não
descubrir seu pey to , nem publicar seus segredos temerariamête ,
mas eleger cõ deliberação , & cõsideração certas pessoas de q sq
JiccL. 6. fie, O Ecclesiastico dizia, Tê paz & amor cõ muytos, & de miil
hu por còselheiro. ]Nè os homes discretos ousão dar em publico
novas de casos raros, & graves, sem primeyro os comunicarem
cõ particulares pessoas, tè que a fama tome forças, alias rirseiao
delles os ouvintes em vez de lhes crerê. Poderá Deos fazer capa-
zes todolos engenhos humanos deste mysterio, mas dispõe todas as
cousas suavemente à maneyra da natureza. Quam pouco capaz
seja o home do sacramento de nossa fè, bem se vè por experiên-
cia, pois a cabo de tantas cêtenas de annos, sô hua pequena &
eslreyta parte do míido a retém , & ainda em alguns lugares es-
farrapada, &, esgarrada. Convinha também que fosse escolhida
a gente, & familia de que Christo avia de descender, & que
nã fosse escura, mas illustre, & esclarecida no mundo. E por
hua & outra razão foy sinalada cõ a Circuncisão pêra ser conhe-
cida entre as outras nações , & o sinal foy no membro genital ,
para que por elle se entendesse a gèraçam daquelle Senlior que
nos avia de alimpar da injustiça original & de todos os outros
peccados.
Aurd. Bem está issoy mas porque elegeo mais o povo dos
Hebreos que outro?
I
DA GENTE JUDAICA. 133
y4nt. A razão dessa escolha natn se deve , nem pode colligir 62 — 4.
de ali;ua causa, ovi merecimento desse píjvo, mas hase de atri-
buir sòmete à misericórdia divina. No Deuteronomio está escri- Deuter, 9,
to. Sabe que te nâo deu Deos esta terra em possessam, por tuas
justiças, & merecimentos, pois es povo de duríssima cervice.
Anrcl. Nam pergíilo isso assi, senam porque mais elegeo a
Abrahiim, & os seus descendentes pcra lhe revelar os mysterios
de Christo, que a outro qualquer home? se foram os mereci-
mentos de Abrahà causa disso?
j4nt. Causa nam ouve outra mais que a misericórdia de Deos,
segundo o que diz Isaias; O que levantou o justo do Oriente, /sai. 41.
chamouho para que o seguisse.
A^ircl. Eu ouvi dizer que esse lugar se entendia de Christo à Lco a Ca^
letra, & nam de Abraham, «Sc assi o prova hum moderno dou- úro.
to nos cõmètarios que escreveo sobre o mesmo Propheta.
Anl. Seja como quiserdes com tâto c{ue tenhais por certo que
foy pura mercê & graça divina ser Abrahã eleito entre todos os
homes pêra tanto mysterio, ne se poder dar à tal escolha causa
humana : mas averse de referir à providencia divina. E com tu-
do douvos licença pêra dizerdes, que fez Deos o sangue de Abra-
ham digno de ser preparado para a encarnação do seu unigénito
filho; como fez os Apóstolos idóneos ministros do novo Testa-
mento. Esta eleyçam primeyra se significou em Heber, o qual
ainda que nam fosse primogénito de Sem filho de Noe, cô tudo
Íor rezâo desta dignidade foy primeiro nomeado. E os filhos de Genes. 10.
srael de Heber fora chamados Hebreos, como he Autor S. A- GA — 1.
gustinho & não de Abrahã como affirmão algiis Judeus. Viveo De (nnt,
Heber na idade de Nemrod, quãdo se fez a divisam das lin- Z)ci/i6.1G.
guas, & delle foy sexto descendete Abrahã. E ao que me pergun-
tais porque forão os Judeus eleitos de principio & depois expel-
lidos; digo que ho Messias foy occasiam de tudo. Quis Deos
(como tenho dito) que ouvesse algíí povo no mudo q tivesse ce-
remonias, leys, & preceytos, na observância dos quaes o reco-
nhecesse, & do cjual nacesse seu fdho. Ensinou este povo, amoes-
touo, castigouo, (Sc sofrco o tè a vinda do Messias, mas compri- /
do o uso do instrumêto, dahi por diante foy excluído como inú-
til. Concedeolhe mais quarenta annos pêra tornarem em sy , &
se passarem à universal vocação de todas as gentes, & não que-
rendo se seguio sua destruiçam. E isto era porque Jeremias re-
prehendia os Judeus , dizendo : Como dizeys , somos sábios , ôc Cap. 8.
a Ley do Senhor está com nosco? Verdadeyramente que he men-
tirosa a pena, embalde saõ os Doutores, corridos estão os Sá-
bios, assombrados, & captivos, reprovarão a palavra do Seiíor,
<Sc nellcs não ha sabedoria algiaa. O choro & sentimèto de Esau
por causa da bêção que seu pay deu a Jacob, pronosticou os
J3:Í, DiÁLOGO TKllCEYRÒ
comidos da ímpia Synagoga que se vè desem parada do favor de
Deos, vendo a Igreja Catholica elegida & bendiçoadu delle.
]sto está Ueos cada dia dizendo pelos livros dos Prophetas, &
pela pregação dos íieis aos Judeus, que bendiçoou ho fdho se-
gundo; isto he o povo Gentio, & que negou sua benção a© pri-
meyro, isto he, ao Judaii;o. A primogenitura, &. preminencias
l>3 — 2. tiradas a Esau , & concedidas a Jacob, sam Fee, Esperança,
& Charidade, com o resto das mais virtudes; sam fama esclareci-
da , honras eminentes , titulos , & prerogativas , & cousas desta
sorte em que a Synagoga está vendo a olho serlhe preferida a
Igreja. E toda via como Isaac com Esau , que lamentava suas
perdas, partio algo de sua bençam ; assi Deos nam deshefdou de
todos seus bens a Synagoga , mas deulhe abundância do rocio
do Ceo , & grossura da terra , & por fim lhe disse que viviria
com a espada na mão , isto he , ardendo em ódio , &, derraman-
do o sangue innocente dos Prophetas, & do Messias, & de seus
discipulos, a qu(ím foram ingratissimos. Itê que serviria ao ir-
mão menor , como agora serve ao povo Gentio. Trouxe a escra-
va A;i^ar o caminho errado no Hermo, ôc assi o trás a infelicè
Synagoga desgarrada , & desterrada de sua amada pátria , alon-
gada do caminho de sua salvação , q he JESU Christo , espar-
zida por todas as partes do mudo, & em todas tratada com des-
prezo , & ignominia.
yíurel. Ja que o filho de Deos elegeo esta gente, & delia quis
nascer segundo a carne , & a ella foy prometido , & enviado ;
porque a nam converte© a sy, bastando pêra isso seu so querer,
& vontade?
Ant. He verdade que ao seu beneplácito (que os Theologos
chamào própria & absoluta vontade de Deos , & por outro nome
cGsequete ) ningue pode resistir : porê entedê q em Christo ha
duas vontades , híia divina e outra humana , & cada qual delias
se pode tomar própria, ou impropriamente. A própria, ou seja
G:) — 3. divina, ou humana, sempre se comprio. A humana absoluta
foy & he ê tudo côforme à divina : porè a imprópria (à qual os
Theologos poserão nome de antecedête , q não he propriamête
vôtade, mas seraelhãça, ou significação delia) ou seja divina, ou
humana , nam sêpre se cuprio. E cô esta quer elle q todos se
salve, &. quis q os Judeus de q trazia sua origê segundo a hu-
manidade, caissem no conhecimêto da verdade. Mas não foy
este o seu beneplácito , por não ir cõtra a suavidade de sua pro^
vidècia , da qual não he violar a natureza & violentar o livre
alvedrio, antes cõservalo, & deyxar o home na mão de seu cô-
selho, com o qual se pode ganhar, ajudado de Deos : (&. toda
via assi se ouve cos Judeus per sy, & seus ministros, que sem-
pre mostrou desejos entranháveis de os salvar a todos : & isto se
DA GENTE JUDAICA, 13Ô
entendeo sempre delle conforme aquelles suspiros & amorosas
palavras : Hierusalem, Hierusatcm^ quol'ie& uo/wi, bíc Matlh.^Z»
CAPITULO VI.
Dos povos , òf Pessoas, a que foi/ revelado o Messias.
Aurel. E somente ao povo dos Hebrcos foi revelado o Mes-
Bias?
Ant. Tambe o foy às Sybillas gelias, cujos livros, &. versos
q Virgílio, Ouvidio, Lucano meterão entre os seus, claramen-
te se entende de Christo nosso Redemptor. E assi diz S. Augus- De cívíta^
tinho, q nam sem rezào se crè q ouve homes entre as getes, aos Deilib.l^»
quaes o mysterio do Seiíor Jesu foy revelado. E ajunta q no os caj). 4-7.
Judeus ousarão negar que ouvesse entre gêtios verdadeiros Israe-
litas, & Cidadãos da pátria celestial, como foi Job Idumeo. 63—4,
Está posto em historias autenticas , q no anno de setecentos &
oytenta , imperado Cõstantino sexto & a fermosa Hyrenè Atlie-
niense sua mãy, se descubrio em Côstantinopla hii sepulchro
antiquíssimo, onde jazia o corpo de hu home, cõ híia lamina
de ouro sobre o peyto, ê que eslavão escritas estas letras : Chris-
to nascerá da Virgê, eu creo nelle , & outra vez me verás ò sol,
nos têpos de Cõstantino & Hyrenè (& não Helena) como algíís
corruptamente escreve. Devia este home ser algum grande Pro-
pheta. E sabey que o primeyro home a q a encarnação do filho
de Deos se revelou, foy Adã. Pore inda q muitos tivesse noticia
deste mysterio, forão poucos e côparacão dos que o ignorarão.
E por tanto S. Paulo lhe chama sacramêto escondido, & mys- Fp/ies. 3.
terio encuberto desdo principio do mundo, às gerações passadas Coloss.
pianifestado, & agora aos Sanctos. O qual desde então lhes foy
revelado pouco, a pouco, & assi o forão entendendo tanto me-
llíor, quanto mais se lhe vinha chegando o tempo. De modo
que osProphetas mais antiguos, como que estava de mais longe,
entenderam menos delle, & os mais modernos, como chegados
mais ao perto tiverão mayor lume & receberão deste mysterio
mais clara noticia. (3omo Christo seja único fundamento da vcr-
dadcyra religião, & único fim da Ley assi natural como escrita:
&. a summa de todo espiritual edifício dependa delle, como de
seu alicece; proveo a divina providencia ({|ue nunqua faltou nas
cousas, & meyos necessários ])era a saúde dos homens) desdo
principio (lo mundo cõ grande cuydado q acerca do conhccimè- Gl — 1.
to deste fundamento, & fim da ley, não ouycsse entre elles al-
gum erro. E por isso quando ouve de ser enviado do Ceo à ter-
136 DIALOGO TERCEYRO
ra O filho de Deos , de seu pay celestial , pêra saúde dambos os
>jwvos judaico, & gentio, a fim de ser recebido por consentimen-
to de todo lí^enero humano : foi conselho divino que muyto antes
de sua vinda esta obra de tamanha misericórdia a lius óc outros
fosse notificada. Aos judeus pelos Prophetas em os quais de muy-
Hébr. 2. tos modos costumava fallar a seus Padres, segundo S. Paulo. E
aos gentios ( que ignoravão a verdadeyra religião , & não accu-
modavão facilmente as orelhas aos homês que não erão da sua )
Vib.l.cap. pelos Prophetas da sua nação. Estes erão (como diz Lactancio)
6. Mei'curio trismegisto, Hidaspes, & as Sibyllas, assi chamadas
por denunciarem os conselhos de Deos. As quais dizem que fo^
rão dez & todas virgês , & que por razão do insigne merecimen-
to de sua virgindade , lhe foi concedido dom de divinhar , se-
Contra Jo- gundo affirma S. Hieronymo. Estas forão raessageiras infalli-
mnianum , veis , & certas demonstradoras enviadas ao povo gentio , da vin-
llb. 1. da do Redemptor; & confiou Deos delias segredo de tanta im-
portância , assi por respeito de sua pureza virginal , com que o
Espiritu íSancto grandemente se deleita, como porq o seu teste-
munho fosse julgado dos homens por mais sincero, & digno de
fè. Fêes dos homês sábios podense atribuir mais ao saber huma-
no, que à revelação divina, mas os ditos & avisos de virgens
simples, & idiotas, facilmente se concedem ao Espiritu Sancto
q por suas virginais bocas falia. Por esta causa os Padres anti-
64 — S . guos as reconhecerão por prophetíssas dos gentios , & por tais as
nomearão , & pêra convencerê errores usavão muytas vezes dos
seus oráculos; cm tanto que os mesmos getios chamavão aos
Christãos Sibyllistas. He d'gno de memoria o que Clemente A-
Strom.llh. lexandrino escreve de Paulo Apostolo, por estas palavras : Co-
6. mo Deos quis salvar aos Judeus, dandolhe prophetas; assi apar-
tou da gente povo algus gregos ( em que mais se punhão os o-
Ihos) no modo que podião ser capazes da sua beneficência. O
que alem de pregar S. Pedro, declarou o Apostolo S. Paulo,
dizendo : Recebei tambê os livros gregos , reconhecei a Sibylla ,
recebei Hydaspe , Ledèo , & achareis estar nelles escrito mani-
festamente o filho de Deos, & a guerra que muytos Reys por
ódio fizerão contra elle , & contra os q se appellidão do seu
nome.
Aurcl. Isso diz S. Paulo nas suas Epistolas , ou S- Lucas nos
Actos dos Apóstolos, onde delle trata?
Ant. Não, mas deve ser tradição tirada dalgum sermão do
Apostolo , cujas palavras fizerão tanta impressam nos ouvintes ,
que nunqua mais esquecerão. E quam frequentes fossem os
Cliristãos em ler os livros sibyllinos, & quanto se ajudassem
delles pêra convencer os gentios, bem se pode entender, pois que
foi necessário prohibirlhe sob^jcna de morte a lição delles , como
)
t)A GENTE JUDAICA. 137
te mostra de Lactando no livro primeyro capitulo sexto, Cícero Ladantt.
no livro segundo do divinat. fazendo menqão do Rey vindouro ,
allega hua prophecia Sibyllina, ruja interprotac;ào he, que dou-
tra maneira se nam podiao salvar os homès sí; nam recebedo o
tal Rey. Dos versos sibyllinos tomou Virgilio o q cantou ; mas Eclog. 4.
nam sabendo o que de Christo era prenunciado, c«"redèo a Sa-
lonimo fdho de Pollio o que pertencia ao filho da Virgem, co- 64 — 3.
mo disputou singularmente Constantino. Pode também ser que OrôcadSa^
Virgilio tirasse algo disto dos Hebreus porq vindo elRey Hero-we ccciumy
des a Roma pousava muytas vezes cô mesmo Pollio segíido es- cap, ^0.
creve Josepho. Assi também o que de Christo antiguamente se Antiq. lih,
dezia, que de Judea avia de vir hu Rey soberano, tiverão pêra 1. ca'^. J3.
si algíís escriptores (ignorantes neste particular) averse de atri-
buir a Vespasiano Augusto por domar os Judeus & dellcR trium"
phar com Tito seu filho, segíido Josepho de bello Judaico fun-r Lií». 7. ÇQ,
dados nas letras antiguas dos sacerdotes sem sciencia do mysterio 12.
da dispensaçâo divina.
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CAPITULO VIL
Do próximo precursor do Messias.
A todos estes corretores, níicios, & messageiros da' vinda do
Messias, ajutou Deos por remate hum Precursor, & testemunha
mayor que toda a excepção, digníssimo de todo credito, que
estando no ventre de sua mãy festejou o Messias , & depois de
nascer o mostrou cô o dedo, pêra que em cousa de tanta impor^
tàcia , como era o conhecimeto do seu Redemptor , a fè dos hO'»
mès nâo podesse vacillar.
Aurel. E porque chamou ao Messias cordeyro , o grade Bap-
tista?
Ant. Porque dos Judeus nam fosse estranhado, mas amado.
Havialhe chamado o Patriarcha Jacob , enviado , & elles não o
querião conhecer por este nome , quiçá porque os enviados soem
vir a pedir. Chamou lhe Moyses , propheta , & não o conhecião 61 — 4.
por esla nomeada porque os Prophetas reprehendem. Tinhalhes
dito Zacharias que era seu Rey , & não o receberão por este ti-
tulo, por que costumão os Reys na entrada mostrarse magní-
ficos , & depois pedirem peitas , & carregarem os vassalos de tri-
butos. Por tanto lhes disse S. Joam , eis aqui o cordeyro que
não vem a vos pedir , nem a vos fazer tributários , & tratar cò
rigor, mas a vos remediar dadovos seu sangue, e vida.
Avrcí. Ja que o grande Baptista vinha por Precursor do cor-
13
138 DIALOGO TERCETRO
deyro de Deos , parece que ouveia de trazer o espiritu do man-
so Movses , íc nam o do rigoroso Helias , «Sc mostrar na condi-
çam a mansidão tSc brandura daquelle cordeyro, de que foi de-
mostrador, & nam a severidade de Helias abrasador dos homes,
degollador dos prophetas de Baal , sterilizador da terra , & cu-
sumidor dos seus naturaes. O filho de Deos nam vinha entam a
juloar o mundo , senam a salvar os peccadores , & David diz do
J^sal. 131 . Baptista , Ju&titm ante cum amhulahit , ôf ponet m via grcssus
srios. Como se dissera, o pregoeiro da justiça que pregou peni-^
tecia , & os fructos delia dignos ( isto he obras virtuosas contra-»
rias aos peccados cometidos) nao se satisfazendo que os peniten-»'
tes deixassem de furtar o alheo, mas obrigandoos a que desse do
Maiíh. 3. seu próprio, mandando aos soldados que a ninguém fizessem a-
gravo, reprehendèdo a Herodes da injustiça que fazia em tomar
a molher a seu irmão; chamado aos Judeus geração de bichas,
ingratos , cujo principio he fim , & cuja vida he morte de
quem os gera, pedindo sempre justiça, & por fim dando a vida-
65— -1. por ella , por onde mereceo especial titulo de justiçoso. Esle diz
será o precursor do Messias. E q não fosse ao Propheta David
oculto o mysterio deste precursor de Christo, consta do Psalmo "
131. onde falando do povo fiel, & chamado ao Messias Cornib
David , que he dizer fortaleza de seu povo , chamou ao Baptista
tocha acesa que ante elle havia de vir , & no verso allegado dis-
se , que havia de vir diante pregoando justiça , & que Christo o
havia de seguir.
Ant. Respondavos a isso o distribuidor das graças , & dispen-
seiro dos espiritus , pois quereis saber seus incomprehensiveis Juí-
zos, &. profiidissimos conselhos, que eu nam mereci ser seu secre-
tario, nem lhe servi de conselheiro. Inda que se pode dizer,
que os corruptíssimos costumes daquella gente requeriam o rigor,
, & aspereza de palavras de que usou com ella o Baptista. Porque
com unguentos , & remédios agros se curam as fistulas , & her-
pes mortais. Quanto mais que a severidade , & liberdade em. o
que testemunha , autoriza mais seu testemunho. Os mansos &
brandos sam mais faciles de dobrar, mas os livres & rigurosos,
apenas se desviam da verdade , & rectidam , cô affectos & per-
suasões hunmnas. Também era conveniente , que em S. João se
Gomprisse o rigor da ley , ja f} nelle cessava os ditos dos Prophe-
tas. Mais alumia a chama da candea que se vay apagando , &
mais ligeiro he o movimento natural quando se chega ao fim, &
porque a aspereza & rigor da ley velha tinha fim em o Baptis-
ta , convinha que nelle fosse eminente , pois nelle avia de aca-^
bar. Isto parece que prefigurou aquella insigne visão que foi
mostrada no mote a Helias , onde primeyro vio hua tempestade
65—2. que subvertia ^s montes, & quebrava as pedras, & logo soprou
DA GENTE JUDAICA, 139
lium nr delf^ado, em que Dcos vinha, a^i se sep:uio a brandura
& serenidade do Evangelho ao gravo jugo, & trovoadas da h^y
de Aloyses. Vendo Deoá que com ameaças, tSc terrores ajjrovci-
tava pouco còs homês, usou de ardil & manha, qual foy con-
quistar cõ benefícios òc promessas os corações daquelles que com
austerezas , &. vinganças uiío p^xlèra render. Vencèos jX)r derra-
deyro o Jivangelho, porq sam generosos, «Sc mais se qucre aqui-
ridos com mansidão, grangeados cõ amor, que compellidos com
terror &. temor da pena. li querendo Deos manifestar ao mundo
esta differença que aviu de aver entre a ley, &l o Evãgelho, or-
denou que por algum tempo corressem alapar a severidade do
Baptista, & a brandura de Christo, pêra que hiia cò a oulra se
descubrisse mais, monstrandoa cada hum em sua pessoa, con-
versaçam , &. doutrina.
Aurd. ÍSendo S, Joam hum pregador tam famoso & único,
devera no principio de sua pregação entrar por Ilierusalem , &
preparar os Tetrarchas, Príncipes & Senadores; »Sc nam os rús-
ticos do deserto, & aldeãos das ribeyras do Jordam,
Ant. He ordinário aproveitar se dos sermões a gente pobre,
cômu, & plebea, & os grandes, & poderosos, inda que os ou-
ção, tirarem delies pouco fructo. Ouvintes foram de Christo os
ÍScribas, &, Phariseus, tSc príncipes de Híerusalem , & sairão do
sermão dizendo, q em poder de Éeelzebub lançava os Demónio»,
quando híía pobre molherinha levatou a voz & disse, Bèaventu-
lado o ventre onde andaste , & os peitos & tetas cjue mamaste.
Polo tratamento que fizcrao , Herodcs ao Baptista , & os prin-
cpes dos sacerdotes a Christo se pode ver o fruito que os bõs ser- 65—3,
mões fazem em os grandes.
Aurcl. Levào caminho as côjeituras que apontastes. Agora
queria saber donde os Hebreos se chamarão Judeus, 4- porque
por este apelido forão nomeados de Gregos, Latinos, & outros
gentios.
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CAPITULO YIIÍ.
Bonde os Ilchreos tomarão apcllido de Judeus.
Ant. De três nomes tomados de três Patriarchas se gloriava os
Hebreos. (^hamavanse fdhos de Abraham , pelo merecimèto da
fè d« ste fidelíssimo Padre de quem elles degenerarão: pelo que
o grande Baptista lhes dizia , não digais que sois fdhos de Abra-
ham. Como a geração vil nada dana ao que tê .bõs costumes;
assi nada aproveita a illustre ao que está enlodado cò os màos.
18 #
l40 DIALOGO TERCEYRO
Que aproveitx^u a Cham ser filho de Noe ? o q segundo a carne
era irmão , segundo o espiritu ficou servo. Que dano fez a Abra-
ham ter por pay a Tharè adorador de Deoses de Barro? nam
<l(>ixou por isso de ser cabeça dos fieis, & Padre de Sanctos. Nâo
poderão as vilezas dos erros paternais menoscabar sua gloria.
Da terra nasce o ouro precioso, mas não he terra ; do estanho vil
a prata , mas não he estanho : das espinhas a rosa , mas não
he espinha. Melhor he fazerse nobre o que nasceo baixo, que
fazerse baixo o que nasceo illustre : melhor he fundar a nobre*
za , que destruila. O que nascendo de geração desprezivel vem
65 — 4í. a ser muy to prezado , sua he toda a gloria , & não de seus pays
& avôs. Melhor he honrarense elles de nos, que nos delles; niuy
bem disse o Poeta.
Nam genus ^ proavos , àf qucc non fcà,mus ipú ,
Vix ca nostra voco.
Hà filhos que tomao por honra, não aver virtude nos pais a que
elles não contraponham algum vicio, & nam deixão por isso de
se gloriar da nobreza delles. Não vejo nobreza que appetecer
mais que serem constrangidos os nobres a não degenerar da bô-
dade de seus progenitores. O animo generoso incilase & aspira
ao q he honesto. E elle he a verdadeyra & própria nobreza dos
homês. Gloiiarmonos do alheo, he híia desengraçada vãa gloria.
Os merecimentos dos avôs são verdugos pêra netos que da sua
bondade se desvião. Mais fermoso he serem os outros por nos co-
nhecidos , que nôs por elles, por mais q sejam esclarecidos em
sangue. Todo o sangue he quasi de híia côr, & se algum se a-
cha mais claro que outro, a saúde o faz, & nã a nobreza. O
mais precioso & rico que ha na herança dos nobres, nam está
em poder dos testadores. Muytos ouve muy escurecidos que fo-
ram herdeyros de homês muy esclarecidos ; & nam sei por q he
mais difficultoso seguir os próprios que os estranhos , salvo se a
causa he porque a virtude nam pareça ser do numero dos beç
que se herda. E he para notar q buscando os màos trevas & não
querendo ser conhecidos : somente a falsa nobreza as nam buscaj
nem foge da luz sendolhe o fugir delia único remédio para es-
capar de infâmia. Acabe os vaôs de cobrir seus vicios com alheas
^6—1. virtudes, & conhecer que se cada hum de seus avós lhes deman-
dar o que he seu , se acharão niis & corridos com o próprio.
Envergonhense os Judeus que nam são herdeyros da fè & sancti-
dade de seu Padre Abraham. Por seu próprio testemunho se
condenão & publicão por espúrios & adulterinos, os màos filhos
que sam dessemelhantes a seus pays. E adverti que nas palavra»
seguintes, Potcns est Deus de lapidibus istis, ò^c. compara S.
Joam os gentios com as pedras que se sam mâs de lavrar, de-
pois de lavradas conservam por muyto tempo o lustro de seu la-
i
DA GEUTE JUDAICA-. 141
vor. Tais foram os gentios , que se forão màos de trazer à fé de
Christo, depois de a receberem, eternizaram sua fidelidade, &
ficaram segíido a f è , & espiritu verdadeyros filhos do seu Pa-
triarcha Abraham , pay de lodos os fieis que mereceo ser o pri-
meyro que recebesse o Testamento de Deos, & o sinal & divisa
dos seus em sua própria carne. Também tinham por honrosa no-
meada a de Israelitas, por respeito de Jacob, o qual pelo aug-
mento da mesma fè que nelle cresceo foi chamado Israel, & por
isso dizia S. Paulo, Sam Israelitas? tãbem eu o sou. Foi Jacob '2. Cor. 11.
pay das doze Tribus, &. significou o my&terio da Encarnação do
Filho de Deos , ganhando com roupas alheas a benção de seu
pay ; filho digníssimo de Isaac obedienlissimo que levando âs
costas a lenlia c.(jm que seu pay Abrahã o hia sacrificar, repre-
sentou o sacrifício & remédio do mundo. Chamavanse mais Ju-
deus de Judas Patriarcha ; porque feita a divisam das Tribus
sempre durou a ley , & culto de Deos na Tribu de Juda,'&
Benjamí, cuja cabeça era Judas : & também pela significaçara
de Christo que descendeo de Judas, & em figura disto lhe lan- 66 — '3.
Çou por benção seu pay , que seus irmãos o louvarião. Josepho yíniiq. lih.
diz, que des do tempo que tornaram do captiveiro de Babilo- 11. cap. o,
nia , foram chamados Judeus de Judas filho de Jacob, & assi
permanece© a gloria de Judas, & se confirmou a prophecia de Genes. 19.
Jacob , Nam se tirara de todo o Septro da Tribu de Judas , tè
que venha o que ha de ser enviado.
Aiírel. Admirável privilegio & beneficio foy esse concedido
aos Judeus, & elles o agradeceram muyto mal. Ant. Foy a
mayor de todalas graças cjue lhe Deos fez; & assi a encarece S.
Paulo. Entre todolos mortais escolheo Deos a Abraham , & o
fez digno de lhe fallar à orelha, & cofiar dellc os segredos de
seu peito , (Sk. darlhe sua palavra , que do seu sangue nasceria o
Messias : & depois clegeo a Moyses pêra por elle dar ley aos Psal., 147.
descendentes de Abraham. Isto estimava tanto David que dizia;
não fez tal mercê a todas as outras nações , nem lhe manifesto\i
seus juizos. E Moyses falado còs Judeus lhes diz, Desdo primey- Daílcr. 4.
ro dia em que Deos criou o homem sobre a face da lerra se nam
fci cousa semelhante em algum tempo, nem se soube no mundo
que ouvisse algum povo a voz de Deos q llie fallava do meo
do fogo como tu ouviste, & viste, E lie de cosiderar que nam
somete aos Sanctos Padres, mas a toda a gete dos Judeus foi
encomendado, & revelado o altíssimo mysterio de nossa redèp-
çao.
Aurel. E com tudo forao tão incrédulos que conhecendo das
Escripturas sanctas, »Sc oráculos dos Prophetas o tempo & lugar
em q Christo avia de nascer, & outras confrõtaçôes & sinais de
•*ua primeyra vinda dclles táo desejada j o não quiseram buscar Gíí— 3,
li^i Wr.VLOOO TERCEYKO.
quãdo nascert , nem conhecer tendoo entre si ; nem se Jomaram
da emulac^ani , & envc^a sancta , sendo provocados cò a fè & de-
vaçam dos Reys Magos, que os devera alvoroc^ar grandemente.
Antes se ouveram neste particular ao modo dos carpinteiros &
calafates da arca de Noe, q a fabricaram para os outros nella se
salvarem , & elles ficando de fora se perderam.
CAPITULO VIIII.
Da incredulidade dos Judeus.
Maílh. S. Ant. Sam Hieronymo diz que para confusam dos Judeus, &
paraq dos gentios aprendesse o Nascimêto de Christo, nasceo em
o Oriête hua estrella esperada dos successores de Balaam , que
do apparecimento delia avia prophetizado , como costa do livro
dos números , por indicação da qual os Magos forào levados a
Judea , para que perguntados os sacerdotes pelo lugar em q o
seu Rey era nascido, nam podessê escusar sua infidelidade. S.
ScrrnJl.de Agustinho conforma com a mesma doctrina & diz. Esta illumi-
Epipli. naçam dos Magos gentios, foy grande testimunho da cegueira
dos Judeus, pois buscavão em terra alhea o que elles na sua
nam conheciam , & acharam entre os Judeus o menino que elles
depois negaram : & adoraram sendo peregrinos , & vindo de tam
longe , a Christo que ainda nam fallava , em a terra , onde os
seus cidadoês o crucificaram , sendo ja varam «Sc fazendo maravi-
lhas. Aquelles em mebros pequenos adorarão a Deos, & estes
nam lhe perdoaram em os grandes milagres, como q fora mais
fitJ 4, ver liiia nova Estrella resplandecer em sua nascença, que ver
chorar & escurecerse o Sol em sua morte. Nomearem estes por
testemunho da divina Escriptura a cidade em q Christo avia de
nascer, foi significamos a divina providencia, que sò entre os
Judeus aviam de permanecer as letras sagradas, com que os
gentios se adestrassem, & elles se cegassem. Foram como as pe-
dras que demarcam os campos, & mostram o caminho aos pere-
grinos sem se moverem de seu lugar. Esta fè dos Magos diz
Ckrusost. Sam Joam Chrysostomo he condenaçam dos Judeus, elles cre-
variis in rara a hum sô Balaam Propheta , & estes nam quiserão crer a
Matth.Io- muytos dos seus; elles entenderam que pela vinda de Christo a
eis. magica arte avia de cessar; estes nam quiseram entender os
mysterios da divina bondade. Elles confessaram o estranho, es-
tes nam reconheceram o natural. Veo Christo buscar os seus, &
elles nam o receberam, foram os Magos como legados de todo
o mudo, que com suas offertas dedicaram a Deos as primícias
PA GENTE JUDAICA. l43
1
da fè de todas ns grntes , & abriram a porta da salvação a toda
a gentilidade. Epypto q no tempo de Moyses pagou as penas di-
vidas a sua maldade, hospedado depois a Christo, recebeo espe-
ranças de sua saúde. Qual foi a misericórdia de Deos para com
Egypto, tal para com os Magos que o mereceram conhecer : os
Magos q em tempo de Moyses tantas vezes atrevidamente resis-
tirão às maravilhas do poder divino, depois visto híi sò sinal do
Ceo, crerão em o Filho de Deos. A infidelidade os fez reos de
penas, & a fè os fez depois dignos de gloria. Egypto agasalhou
a Christo, & Judea o enjeitou; os Magos o adoràrào , os Judeus
o perseguirão; todos os elernèlos cutcstarão cm sua maneira què C7 — 1.
elle era servindo ao seu autor : os Ceos (falando ao uso huma-
no) o conhecera por Deos enviandolhe a estrt41a; o mar deixa-
dose calcar dos seus pòs , a terra cstremccedo na sua morte , o
Sol escòdèdo no tepo delia os rayos de sua luz : as pedras fende-
dosc , &. os infernos alargado os seus presioneiros. E toda via a
este Senhor a quê todos os elemetos carecedo de sentido sètirã,
ainda agora os corações dos Judeus infiéis, mais duros q seixos, o
na reconhece por Deos, como ponderou S. Gregório. Aurel, He Homil. 10,
possivel q suspirado tanto por elle antes q viesse , o avorrecesse
em tanta maneira depois de vindo? Ant. Isaac cõ sua cegueira,
designou a deste povo , q estando cego & nam vendo o fdho q
tinha presente, prognosticou muitas cousas, q lhe avião de so-
brevir em o futuro : assi o povo Judaico sendo cego, per espiri-
tu prophetico prophetizou do Messias vindouro , & répreselandoo
ao natural ê quanto vindouro, o desconheceo tedoo presente an-
te seus olhos. E o q he mais para estranhar , apCtando cò dedo
aos Magos o lugar de sua nasccça , nam os acôpanhou ne seguio
em tam breve jornada , & obrigatória empresa. Na vinda dos
quais se côprio o que Deos lh(; avia dito. Ego 'provocaho vos ad
ccnnulationein in genlc , qtue non est. gês. Darei orde cò que voaso Dcui. 32.
descuido seja despertado, »Sc vòs provocados a imitar gente indi-
gna deste nome, por honrar paos, & adorar pedras & reconhe-
cer por superiores criaturas insensiveis, quaes eram os Magos
gentioí, a fè, e fervor dos quais envergonhou & condenou a per-
fídia & insensibilidade dos Judeus. Expresso vemos isto na asna G7 — 2.
de Balaam , que falando ao modo humano, reprehendeo & cõ-
fundio a ignorância do Propheta , & prognosticou aver de vir
tempo em que os brutos animais instiluisscm , & ensinassem os
que tinham obrigação de ser prophctas. A gentilidade illustrada
CO lume da fè provocou &. mostrou caminho para o Ceo aos Ju-
deus que tinhíio ley , &. noticia do verdadeyro Deos. /íurd. In-
da nam vejo a causa porque estando os Judeus cOs olhos suspen-
sos, (Sc dependurados do seu Messias, &. tendo nelle postas as
♦■speranças de sua liberdade íi. felicidade , vendo concorrer cm
14..1 DIALOGO TERCETRO
Christo todos os sinais do seu esperado Rey , o nam receberam
andando entre elles , & sendolhe moàtrado cò dedo pelo grande
Baptista, que tanto credito tinha com elles.
Ant. Nam he cousa nova, mas usada dos homês, clamarem
todos pela justiça, & ninguém a querer ver em sua casa. Os fi-
lhos de Israel avendo pedido com grande contenção , & summa
instancia a Samuel Rey , que os capitaneasse nas guerras , sem
darem pela sua justificaçam , nem lhe escutarem razam , dahi a
poucos dias tendo alevantado por Rey com grade aplauso a Saul
por Deos designado , que na elegância do rostro & estatura do
corpo representava muy bem a Magestade Real, os mesmos que
o pediram cora tantas importunações , logo o desestimaram , &
nam quiseram reconhecer negandolhe a vassalajem , cortesia &
subjeiçào, que como a seu Rey lhe era devida. Queriam Rey
Platónico, & nam Aristotélico, idèa, & nam realidade de Rey.
Do mesmo modo se ouveram cô seu Messias , suspiraram por el-
67 — 3. le em quanto o não virão, & depoi« de visto o desprezarão^ co-
mo fez elRey David á agoa , q por satisfazer a seu appetite , os
leais , & valerosos de seu exercito lhe trouxera da cisterna de
Bethíèm , rôpendo pelos inimigos cô manifesto perigo de suas
vidas. Todos louvamos as virtudes, & vituperamos os vicios em
geral, mas cjuado em particular se offerece matéria de executar
os actos delias, algus seguimos o mal, & nos desviamos do bê.
Porê foi incredivel a incredulidade dos Judeus, porfj na deram
fè ao mesmo Deos, nê aos seus Prophetas, ne ao seu Christo. E
estado pêra crer ao Baptista , se cjuisera usurpar o messiado , &
dizer que lhe pertencia ; nam lhe creram quando apoiando cô
dedo neste Sõr lhes disse, Este he o vosso Messias; nê quiseram
entender, q melhor vemos nas cousas alheas q nas próprias. Fi-
nalmète nam creram ao Senhor , porque nam creram a Moyses ,
quanto ao verdadeyro entendimento cio Propheta q Deus lhes a-
via de enviar. Aurel. Quais foram mais, os que creram, ou os
que ficara incrédulos? yínt. Muy tos mais sem cõparaqam foram
os q nam creram. E inda q S. Paulo diga q cegou Deos parte
do povo Israelitico, tambê a parte q he muyto mayor na repar-
tiçã, se chama parte, Porê na fim do míido os Judeus dispersos
por diversas províncias se cõverteràm pela prègaçam de Elias ,
como tambê os gêtios. Por onde se vè quã avessa foy sêpre esta
naçam , pois nam credo ao filho de Deos , q por sua boca lhes
pregou o Evangelho , em final ham de crer ao Propheta Elias
quando lho pregar. AurcL Parece q entam todos os humanos
Cap. 10, receberam a fè de Christo, porq em S. Joam, diz o mesmo
67 — 1. Christo, q de Israelitas, & gêtios se fará hum curral, & hum
pastor.
Ant, Quer dizer o Sôr nesse lugar q assi côcorrerã à sua Igre-
DA GENTE JUDAICA.
145
ja , por fè & baptismo os Hebreos & a gctilidade , q fora delia
nenhu se salvara, como fora da arca de Noe, não escapou ani-
mal algíi. Ne tí. Paulo entondeo q todos os homês daqlle tepo
avião de entrar na Igreja de Christo , mas falou dos predestina-
dos, segudo a revelac;ào feila a Daniel, pois o Antechristo ha
de achar diversos géneros ile abominat^õcs e algus dos vivos,
por sè duAÍda lenho q tanibe averà nellcs infidelidade. Esta fi-
nal conversão do povo Judaico denuciou o Propheta Esaias na Cap. -l.
sua pro])hecia, & parece q foi figurado este mysterio na vara q
lançada por Moyses em o chão se transformou em serpete tam
medonha q o fez fugir , & levantãdoa cõ sua mão tornou a to-
mar sua primeyra figura. Significava iiqlla vara, a magestade
I\eal, 6c a serpète representava a sua peçonha q lie a culpa, &
assi o Septro , q laçado na terra se tornou cobra , denotou q a
Magestade do Rey do Ceo decQjia à terra pêra salvar os homès
em figura & habito de home sojeito a peccados per instigação da
serpête infernal : & q o escãdalo do lenho da Cruz avia de afas-
tar os Judeus do seu Messias, vêdoo pobre, humilde, & abati-
do. Mas o esforço cõ q Moyses tomou polo cabo aqlla serpete
significou a virtude da fè &. còversam do judaismo em os últimos
fjns dos têpos , quãdo reduzidos de sua infidelidade pela doctrina
Evãgelica , olharão cõ fè & sanctidade & virarão os olhos dal-
ma pêra Christo de quem agora fogem como de serpête ; & não
colem piarão nelle a desform idade da imagê serpêtipa , mas a
dignidade de seu real e divino septro.
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CAPITULO X.
Da or'igcm da cegueira dos homens , òi qual foy bi he a dos Jvf
deus.
yint. Em nenhtia cousa se conhesce mais manifestamêle a mi- 63 — It
seria humana , q em a facilidade cõ q peccam os homês , & ap-
petecendo todos naturalmete o bê , & sendo os males q provem
do peccar tantos & tam evidentes. E se os q antiguamête argu-
mêtando pelos effeitos q viam philosopharam as causas delles q
na conliceiam, fixara os olhos nesta cõsideração, ella mesma lhes
descoliriía, & certificara q em nossa natureza avia algíia enfer-
midade & dano encuberto, &. q não estava tão pura como cayo
das mãos do mestre q a fez. Nam se pode crer, q a natureza
mãy pia & diligête provedora de tudo o q faz , para be do q
produzo , avia de formar o home por híia parte tam mal incli-
nado, & j)or outra tam fraco. &. desarmado para resistir a suu
19
34G DIALOGO TERCEVRO
perversa inclinação. Ne parece possível q fizesse a mais principal
de suas obras ta inclinada ao peccado, q pela mayor parte nam
alcançando seu fim viesse a extrema miséria ; veclose ao claro, q
guia os animais brutos, ôc as plãtas, & as outras cousas mais.
viis tam direita, & cfficazmête a seus fins, q checam a elles,
ou todas ou quasi todas. Notório desatino seria entregar as rédeas
de dous cavallos desbocados & furiosos, a hii menino fraco «Sc
sem arte, para q os governasse por lugares fragosos, «Sc Íngre-
mes : ou cometerlhe o governo de híia nao para q e mar alto &.
bravo navegasse cõtrastando os vetos. Assi nam cabe em razam
68 — S. q a providêcia de Deos sumamente sábio, em hu corpo tam in-
dómito , e de tam màos sestros , & em tamanha tepestade ( co-
mo he a das ondas dos viciosos desejos q em nos outros sétimos )
posesse para seu governo híia razão tam imbecillitada & nua de
toda a boa doctrina, como he a jiossa quãdo nascemos. Aurel. A
isso se pode dizer q na esperãça da doctrina q avia de aprender,
& das forças q côs annos podia cobrar , encommendou Deos este
governo à razão, & a collocou no meo de seus inimigos.
Ant. Parece q nam basta , porq sabida cousa he , primeyro q
desperte a razão em nos outros, vivere «Sc accenderense em nos
os bestiais appetites da vida sensual , q se apoderam da alma «Sc
fazêdoa às suas manhas, a inclinam ao mal antes que comece a
se conhecer. Significou David a força do peccado original, quan-
Paal. 57. do disse , Alicnati sunt peccatores a vulva , erraverunt ab útero ,
loqiiuti sunt faka. Alhearanse, «Sc alongaranse os mãos da jus-
tiça , & da virtude , «Sc do mesmo Deos , desdo ventre de suas
mãys; apenas sam nascidos quando ja se dam aos vicios, de'
sorte que no berço , «Sc na infância se enxerga nelles a malicia
que com a idade lhes va}' crecedo, & ja do ventre saem com-
postos para os males. Tem de sua natureza seminários «Sc impul-
sivos alguns de virtude, mas sam poucos, & quasi todos de sua
origem trazem incíinaçam âs maldades , & pêra híia cousa , «Sc
outra faz muyto nelles a bondade ou malicia dos pays, «Sc a boa,
ou mà criaçam dos mestres. Achegase a isto que em abrindo a
razão os olhos estam como à porta para a enganar, a gente vul-
gar cega, as mas companhias, o estilo da vida commu chea de
68 — 3. perversos errores, o deleite, & ambição, os averes, «Sc riquezas,
cada hu dos quais per si he poderoso para escurecer & vestir de
trevas a faisca reze nascida, quãto mais todos alapar còjurado>,
& feitos níí corpo para a desêfrear «Sc desviar do q he recto, «Sc
induzir a q ame «Sc procure o que mais lhe prejudica. Assi q es-
te desconcerto & proptidam para o mal que os homes geralmen-
te temos, sò per si bê considerada nos pode trazer a algíí conhe-
eimêto da corrupçam antigua de nossa natureza. A qual foi a
primeyra origem da cegueira humana , & em especial da do po-
I)A GENTI? JUDAICA. 147
ro Judaico , q por se avcr no princij)io descõcertado na vidu &.
costumes, comcqãdo a se apartar de Dons & nccumulado pecca^
dos a peccados (entre os quais os priírioyros sao degraos para os
segundos) moreeeo ser aulor da mòr offensa que ja mais se fez
a Deos, qual foi a morte de JESU Christo, E cíiegou a tanla
cegueira, q avendolhe Deos pronietido que nasceria o Messias
do seu sangue, &, linajem , t^ avendo esperado ))or elle tanto
têpo, & esperando em elle, & })or elle síima felicidade, & em
CS captiveiros , <Sc duros trabalhíw que y)adeeeram , avendose sus-
tentado setnpn; eò esta esperança, quando o tiveram entre si,
o nam cpiiserào conhecer, & se fi/eram homicidas, 6c destruido-
res do sua gloria, de sua esperança, & de seu si!imo be. Este
excesso tamanho se be o consideramos, se veo fazer de outros
excessos menores , isto he de aver aberto a porta ao peccar , & de
aver entratlo por ella de cutiuiio ; alõgandose cada vez mais de
Deos. Daqui viera a ficar cegos na luz do meo dia, qual se po-
de chamar a claridade q Christo lançou de si pela grandeza de
suas obras maravilhosas, & excellêcia de sua doctrina & cõtesta- 68— 4.
çào dos Prophetas. Apenas poderamos crer, q podião homês al-
gíís chegar a tanta cegueira , se nâo soubéramos a multidam ,
& graveza de seus precedetes peccados. Guardenos Deos de dar
entrada continuada ao peccado, q cega & tira a vista aos olhos
de nossa alma. Brandamete entra o vicio, e pouco a pouco se
vay perdêdo a virtude, & quando a alma está presa & cativa,
busca & abraça aquella doctrina , cõ q melhor possa dar cor a
suas paixões. A devassidão & còtumacia em as culpas cegou os
Judeus, & os indureceo tanto em seus errores. Não pode ser
maior desavêlura da cegueira Judaica, q vivêdo os mesmos Ju-
deus nella, fmgindose Chrislâos, nem seja Judeus, nem Chris-
tâios. Nam sam Judeus porq na guardão a ley de Moyses; & se
a guardam , nam a confessao publicamète , sendo a isso obriga-
dos pela mesma ley. Nam sam Christâos, porq ainda que al-
gus o pareçam nas obras exteriores , nam no sam em o coração ,
nè no entendimento, como elles mesmos confessao. E porq que-
rè mostrar no exterior serê ( hristãos sendo Judeus no interior,
nem ficam Judeus ne Christâos. E o pcor he q se qiierè defen-
der cò a verdade infallivel da sagrada Escriptura ( tao mal del-
les entendida , como guardada) & cõ o testemunho de Moyses,
o mais qualificado q pode ser contra seus erros & maldades, as-
si na terra, como no Ceo, cujo coríiçã (diz S. Jcam Chrys.) an- DcProvln-
dou scjre atravessado de duas grades dores, cõ ver C\ castigava c\a l\b. ò.
Deos jiistamète os .Judeus por suas culpas, & q nam se aprovei-
tavao do tal castigo ne cõ elle se emendavam , antes cada vez
mais se endureciam. Donde elle veo tomar o Ceo, & a terra
por testemunhas da deslealdade & ingratidão Judaica no cap. 3. í>9 — 1.
li) «
143 DIALOGO TERCEYRO
do DeuteronOmio (a que os Rabinos chamão, cõpedio de toda
a ley, porq nella se trata das principais cousas delia) para q
passando desta vida , a terra que cà ficava fosse testemunha de
sua verdade , & dos Judeus perdere por sua infidelidade & deso-
bediência , o q Deos lhe tinha prometido : & o Ceo tambè o
fosse contra elles como o mesmo Moyses o será no dia do juizo. ,
j\am cuideis, lhe dizia Christo, q eu sòmete vos ei de acusar
ante Deos , tambe o mesmo Moyses em que esperais , a que dais
tãto credito depois de morto, nam o crendo muytas vezes, quâ-
do era vivo : elle que vos dou ley , que vos aconselhou , avisou ,
& amou, lato q dava sua própria vida temporal por a vossa es-,
piritual , elle vos acusará ante Deos , & se vos lhe crereis , tam-
bém me crereis a mim , porque como he testemunha de vossa,
infidelidade, o he de minha verdade. Elle escreveo de mim
muyto antes q eu viesse ao mundo porque todo o intento da ley
velha , que vos deu he para conhecerdes a ley da graça , & o
verdadeiro Messias autor delia. Elegantemête chama S. Paulo
à ley velha, hum pedagogo, & ayo da nova que guiava em
certo modo os Judeus ao conhecimento de Christo. Porq o ayo
não leva o moço c|ue doutrina a si mesmo, mas ao mestre que
o ensina , assi a ley velha nam levava os Judeus a si mesma
lÀh, de U- para ficarê nella, mas à escola de Christo verdadeyro mestre de,
tuitat. cr€- suas almas, para que ensinados por elle deixassem a ley de,
aendiyC.3. Moyses quãto ao ceremonial , & judicial , como advirtio S. A-
cf de vero. gostinho. E por tãto lhe dizia o Senhor : Entendei bem as es-
y/postoU , cripturas do Testamento velho , & achareis que dão verdadeyro
semi. 13. testimunho da minha vinda do Ceo à terra para redempção do
Joan. 5. mundo, & remédio dos homês.
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CAPITULO XI.
Porque permitio Deos tanta cegueira nos Judeus,
69 — Q. ^nt. Nam cega Deos a ninguém fallando propriaraete, por-
q nam he tentador de males, nem causa de peccados. Ne ainda
vos cõcederei , que Deos quer hu peccado em quanto he pena,
& castigo de outro peccado, ou em quanto o peccado he occa-
siam de bem nos seus escolhidos, «Sc pcKle redundar em gloria
sua, nem que a negação de S. Pedro fosse da intença de Deos,
por que conhecesse sua miséria ; inda que digais que Deos nam
quer o peccado em quanto he peccado, & mal, senam em quan-
to tem razão de bem ; nê cuido q Deos he causa de todalas pe-
nas , se nam q verdadeyra j & propriamête he causa das penas ,
»A GENTE JUDAICA^ 140
q S(jm?te sao penas, & não culpas. Porq se Deos fosse autor da
s(,rrunda culpa do peccador , em quanto he pena da primeira,
tambe seria causa du induraí^à, cci^ueira , & erros dos peccado-
res; & como a causa moral nào obre senào movendo a vontade,
seguir se hia , q os peccados , q sao pena dos primeyros , se co- '
mete por mandado, vontade, & i^^tiga(^ào de Deos : o q mani-
festamente he falso. J-^nlào se diz cegar Deos os homês, quàdo
inda q lha na dò, lhe na tira a cegueira. Quàdo o ar se enne-
\oa, inda q o Sol nà deixa de lumiar, nam che^ao a nòs seus
rayos jjorq as nuvès nos empede a vista delles : fechada a jancl-
la por mais q lhe dè o Sol , nam pode entrar na casa : do mes-
mo modo, quando o peccador se fecha & tràca cô peccado , pos- G9 — 3.
to em trevas nem vè a luz nem lhe diegam os rayos do Sol ver-
dadeiro. Nam cegou Deos os Judeus tirado lhe os olhos da ra-
zão, dado que lhes nam deu sua graça porque elles a nà quise-
ram; & por isso lhes dizia. Hierusalem quantas vezes eu quis, 3latt. "víS.
& tu nam quiseste, comparando seu amor j)ara com elles, com
o da galinha para com s<!us filhos. K pelo Propheta Ezechiel co- Cap. 18.
mo sentido de sua perdição lhes perguntava : Quare moriajiini
domus Jacob? TSinguem pode culpar o medico se desempara o
enfermo que se nam quer curar com elle , nem pode pòr culpa
a Deos por permitir que os Judeus se cegassem; mas como dize-
mos que o Sol nos cega, quando lhe cerramos os olhos, & o
nam queremos ver, assi se pode dizer que cega o coraram do
homem quanilo o aparta da sua graça, ]K)rq elle a noni quer a-
ceitar, da qual desèparado cay em barrancos & atoleiros de hor-
rendas culpas, & vem a se cegar & endurecer por seu vicio, &
malícia. Tam mal pede o peccador sem a graça de Deos levan-
tarse do peccado , como a ave sem azas voar ao alto. Quàdo a
alma ferida da culpa desestima a mezinha celestial, Deos abre
mào delia, & ella se entrega ao Demónio, carne, &. míido,
inimigos crudelissimos. Guardenos Deos de repudiarmos sua gra-
ça, &. de se poder dizer de cada qual de nòs aquillo do Psalmo:
Noluit hcntdicúonê bi elovgabitur ah eo. De maneyra que a cau-
sii da miserável cegueira dos Judeus nà foi Deos, posto q a per-
miliãse.
yíiircl. E porque a permitio?
ylnt. Vindo ao que pergíilais, como Deos nenhii mal permi-
ta em nòs, se nam por algum bô respeito, usou be do peccado GD — 1,
dos Judeus de q elles foram causii : como usou da induraçam de
Pharao, para exaltaçam de seu sancto nome : t5c tirou dellc três
utilidades. Quà de os Jud(!us crucificarem a Chri->to manou a
universal satide do mundo. Porque se elles o nam acusaram fal-
saníente Cfc lizerani reo de morte, nenhíis gentios peccaram con-
.tra elle Iam nefariu <5i cruclmcte, & aisi nam se efíeituara a re-
IbO AJiALOGo tj:rceyro:
dempção do »enero humano. E esta foy a primeyra utilidade.
A sefíuiida se seguio de os Judeus enjçeitare a pregaçam dos A-
postoloá, porque dahi nasceo irem pregar às gentes, q lhe toma-
rei a dianteira , &. por essa causa foram os primeyros , q recebe-
yfctontmrdm a fè. Donde Ihei disse S. Paulo, a v5s covinha prògarse
1j, primeyro a palavra de Deos, mas porq a nào quereis ouvir, nos
cõvertemos para as gentes. Foi representado o povo Judaico ê
Manasses, a que sendo o fdho mais velho, negou Jacob a bèçào
da mào direita ; assi lha negou Deos tendo juro de primogenitu-
ra por sua pertinaz incredulidade. E em Efruim o mais moço
foy ilgurado o povo gentio, que do Deos de Jacob a alcançou;
mal sofria os Judeus cõvertidos em a vinda do Espiritu Sancto,
q Deos posesse sobre os fieis da gentilidade a mão direita de sua
adopção , como se ouve Joseph quãdo Jacob cõ a sua beadiçoou
a Ephraim : mas nam merecerão mudar se o divino benepláci-
to , & ficaram se cô a bençã da mão esquerda de Deos que dà
riquezas & bes temporaes, largando aos gentios a da direita que
dà graça & bemaventurança eterna. A primeyra destas sortes he
dos filhos da carne, & do mundo; a segunda he dos filhos da
70 — 1. fee, & do espiritu. Promptissimo estava o St-nor JESU pêra re-
ceber os Judeus primeyro q os Gentios , se por elles nam ficara.
E quando mandou os discipulos pregar nam lhe defendeo abso-
lutamente o pregar às gentes; mas quis que primeyro fosse en-
caminhar as ovelhas descarriadas dos filhos de Israel. E notay
que nam excluio Deos os Judeus pêra darem lugar às gentes,
porque inda que elles creram nam deyxara de passar aos Gen-
tios, tSc de estèder sua misericórdia sobre todos aquelles , de q he
Deos, & criador; porem cm tal caso os Judeus forão os princi-
paes, & os Gentios como chegadiços. O que socedeo muyto ao
contrario poios Judeus nam crerem, que os Gentios occuparào o
primeiro lugar, & os Judeus que depois creram, ficarão no se-
Dcuter.23. gundo, como achega que se fez aos Gentios. Isto lhe tinha di-
to Moyses : Se ouvires a teu Senhor Deos , <Sc guardares todos
seus preceytos , porteà por povo sancto , & por cabeça , & nao
por cabo , & serás superior , & nam inferior ; mas se nam obe-
deceres à vòz de teu Deos, o peregrino q estiver entre ti será teu-
superior , & tu súbdito a elle , & será elle cabeça , & tu cabo.
A Igreja roubou à Synagoga o primeiro lugar , o Ceo , & o
Messias que lhe fora prometido, fazendolhe força cò poder de
lagrymas, & penitencia por via das quais estão possuindo o Rey-
no que os Judeus perderam por sua impenitencia. Enviado foy
Christo do Padre Eterno aos Hebreos , debaixo da ley foy nas-
cido, (Sc criado à sua sobra : mas porque os Judeus o menos
prezaram «Sc crucificaram na carne que delles tomou , &. derra-
marão o sangue que de suas entranhas procedeo, os Gentio» o
DA GENTE JIDAICA. lôl
liordaram ; & porque os sacerdotes Scribas o enjcy taram , os pu- 7C— C.
blicanos , & mcretrices , digo os grandes peccadoros , em o Key-
no do Ceo lhes estuo precedcdo. A terceyra utilidade, C]ue os
Gèlios alcançaiâo pelo peccado dos Judeus foy , que por sua
impenileueiu foram entre as pentes espariiidos, trazendo às cos-
tas o testamento Velho, cos testemunhos do qual os Cliristàos
confirmào &. estabelece sua fee. A aledissimo testimunho he pêra
corroborar nossa fè ser Christo prometido, & esperado por tantas
idades. O que se contem em es-criluras ineorvuptiis, puras, ver-
dadeyras , sem duvida , nè liga de falsidade , faiais saô as dò
Velho testameto. Os Athenieiíses 5: líomanos entalharão suas
leys, &. acordos do Senado em bròze , pêra firme ci!>t(;dia , íc
memoria delias : mas nam ouve no mundo gete, que tanto cu>-
dado tivesse de preservar suas leys de corrupção, &. vicio, como
íi Judaica; a qual quando marchava pelo campo cem suas ten-
das, & mudava os arrayaes de hii lugar pêra outro, por Uiãda-
do de Deos trazia hua arca de madeyra í^ethim guarnecida de
ouro purissimo de dètro , & de fora, cõ híia coroa de ouro ensi-
ma , onde andava a ley metida , & traziãona pessoas príncipaes
aos hombros diante dos arrayaes, determinados a m.orrer pola
defender. Depois a poserào no templo aonde concfaria o povo
cada dia a sacrificar, & a veneravào , tendoa guardada dentro
do Sancta sanctoru. Josepho escreve que também as genealogias, y/ntl, Vtb.
& successoês dos Sacerdotes desde Aaron, atè <;s seus tèpos, nam 20. c. 8. c>
sô em Hierusale mas onde quer que os Judeus residido, inda q contra 1-
fosse entre Gètios, estavão cõservadas, & incorruptas sem xww-jnonc ÍJjA.
dança, nem falta algua, com seus nomes escritos em taboas pu- 70 — 3.
blicas. Todo este resguardo , & respeito se teve à ley & Sacer-
dócio, porque aviiàde dar testimunho ao Evãgelho. Pois se to-
da Judea se convertera à fè de CJhristo, vislo está q passados ai-
gus tepos , a poderão as outras nações negar , dizendo , que era
invenção, & composiçam nossa. O que agora nam pode dizer,
pois os Judeus nossos imigos, que com tanta pertinácia negarão
servindo o Messias correm por todo o mundo confessando & de-
nunciando a promessa antigua ; 6c mostrando o seu testamento,
no qual se \è sinais claríssimos, c^k testemunhos urgentíssimos do
lugar, tempo, calidíides, cc;ndiç«'^es , & obras do Aí<>s»ias ja vin-
do. E isto era o que prophetiwa David , quando dizia. Z)c?<s PsaJ, ôS.
osiendit mi/ti svper inimicos meos , ne occkhs cos , neqvando
obliviscantur pojyiià mci , disperse illos in virl-úle iva. Falando
em pessoa de Christo como se dissera. Mostrou me o Padre sua
misericórdia, em não extinguir de t< do os Judeus meus imigos,
& assi lho pedi eu porque ê algi:m tempo se nrm prdesse esque-
cer de mí o povo (íenlio, & jera o mCínK f'm llie roguey os
espalhasse por todo o míído. 1 or isso chamou S. Aeostinho aos
Iba J)lALOtiO TERCEYUO
JJô cbif a. Judeus, nossos caixeyros, & mariolas que trazem os livros sa-
íib.lb.cap. grados sobre os hombros, & os guardão pcra nossa salvação, &.
4u. sua condenaçam. Sam Joào Chrysostomo, diz assi ; Us que pri-
meyrameiíle receberam os livros do testamento velho & os con-
Dc/^iõsíra- servaram , sendo nossos imigos, & i:^èrados daquellcs que crucili-
lione quid caram JESU Chrislo, dào testimunlio que a nossa fè nam he
Chrlst. csí fingimento ; E pêra isto serve a dispersam dos Judeus entre os
ver. De. Christàos, como disputa S. Agostinho.
CAPITULO XII.
Porque a Igreja consente morar os Judeus entre Christãos y àl do
peccado qjiefoi como causa do ultimo que cometeram,
70 — 4. Ant. Esta he também a causa por q a Igreja permitte morar
os Judeus entre os Christãos, & guardar aquellas ceremonias da
ley podèdolho impedir; Forão antigua figura, do que agora in-
sina a fè Catholica, & delias usa a Igreja como de testimunhas
Super psal. presentes. Por onde S. Agostinho declarado aquella Prophecia
10. ad fin. do Génesis; O mayor servirá ao menor, diz assi; Agora se com-
Gcncs. '2ú. prio isto, agora nos servem os Judeus nossos irmãos; nos estuda-
mos, elles nos ministrão os livros. Caim Irmão mais velho, q
matou a Abel seu Irmão mais moço, recebeo sinal de Deos pê-
ra que ninguém o matasse ; isto he pêra q permaneça o mesmo
povo. Elles tê os j^rophetas & a ley em que Christo foy prenun-
ciado. Quando praticamos cos pagãos &. lhes mostramos , que a-
gora se cíipre na Igreja, o que dates estava dito do nome de
Christo, do seu corpo, & cabeça; porque nam cuydem q nòs
fmgimos estas escripturas , & prophecias , tomando occasião das
cousas q polo tepo aconteceram, & cuydãdo q nos as escrevemos
como futuras, allegamos lhe, & mostramos lhe os livros dos Ju-
Iiieplst.ad deus, q na verdade sam nossos imigos. Tudo isto he de Sancto
PascJiaslú Agostinho, & o mesmo diz Sam Gregório. Petição parece de
Einsco. (5) Christo feyta a seu Padre Eterno, aquella que se contem no
ad Ncapo- Psalmo 58. Ne occidas eos , Nam vos deis pressa Senhor a ma-
litanú lih. tar os Judeus, conservaios em sua misera vida, seja o seu tor-
31. Epist. mento lento, & diuturno, vagaroso & perdurável; traguão por
parum. largos annos sobre si o vosso juyzo, pêra que mostre em si aos
7i — 1. tèpos vindouros vossa justiça, & avisem o vosso povo do castigo
que dais aos Ímpios ; Andem seu misero caLiveyro dispersos pelo
mundo fazedo de-sy espectáculo do rigor da ira, & justiça divi-
na, pêra q os meus (Jhristãos se nam esqueçam delia, & elleS'
sejão testimunhas ê todo lugar da mesma fè de que sam figadal*"
DA GENTE JUDAICA. l&J
inimigos, & cusciTadores das escripturas C[\ie sam instrumentos
da saúde eterna. E certo q parece nào ser obra da terra mas do
Ceo, a qu(! fez aos Judeus iini<íos capitais da fè de Christo, &
dos que nelle ore lestiinunlias de nossa v»!rdade, como poderá S. Hom, 57.
João Chrysostomo, & Saiuto Agostinho, Sempre os tcstimunhos i« Gen,
dos infleis &, dos que encòlrào a religião Christaà sam de mais /npsa/.ò8,
credito nas cousas que tocam à mesma religião, ao que os mo-
ve a omnipotete sapiècia de Deos; a qual ordena, que os ini-
migos de sua verdade seja delia mesma testimunhas. Grande
milagre, diz o mesmo Clirysostomo , lie vermos Ptolomeu ido^ i/om.4, t»»
latra, desprezador do testameto velho, & suas ceremonias, man- Genes*
dar vir Judeus doctos de Hierusalõ , quais forão os setentfi in-
terpretes, pêra fazere a versam da Biblia Hebraica cm & língua
Grega,
yíurd, Nam crerão primeiro algíis Judeus que os Gentios?
Ant. Primeyro forão as primícias dos Judeus que as dos Gen»
tios; òt em sinal disto primeyro adorarão a Christo os Pastores
de Judea, q os Magos da gentilidade; Primeyro o Baptista, os 71 — 2,
Apóstolos, Simeào, 4Sí outros receberão a fè de Christo, q Cor-
nelio, & Paulo, & Sérgio, que foram primícias dos Gentios.
O que Deos ouve por be por honra de sua Ley. Nam convinha
ser doutra maneyra , senam que a ley posta àquelle povo tantas
idades atraz , pêra preparar o caminho como guia da fè , ao
Aíessias que avia de vir, lhe fizesse depois de vindo a primeyra
offerta do mundo. K sabei que os Judeus q primeyro receberão
a fè, forão excellêtes Chrislãos, porque erão ramos felices &
naturais daquella arvore copada , fértil , & fermosa, O velo de
Gedeâo em sinal da víctoria por Deos prometida , foy rociado Jud. 6«
do Ceo, ficando toda a terra em torno delle seca; mas depois
sô elle permaneceo em sua secura , ficando a terra ao rededor
delle toda húmida : mysterio que muylo depois se còprío na
\inda de Chrislo, quando decedo como orvalho do Ceo em o
•vêtre da Virgem , & saindo a publico veyo buscar os Judeus , a
quem pregou sua doctrina, deixando as outras naçõis em sua
idolatria : mas depois de subir ao Ceo deceo a segunda vez pela
missam de seu Espirito em modo de rocio espargido sobre a ter-
ra derramado sua graça ê os corações dos fieis , tSc entam toda a
redondeza da terra participou desta saudável chuva , ficando so-
mente Judea pela mayor parte na secura de sua incredulidade.
ylurd. Podeis me por ventura mostrar algíi peccado primeyro
desta gète tão mào que merecesse ser causa do ultimo & gravis^
simo que depois fizeram ?
Ant. Escusado he buscar hii, onde ouve tãtos, & tão inor-
mes; mas parece q em o peccado da adoraçam do Bezerro, cq~ 71 — 3.
mó em culpa principal merecerão q pcrmitindoo Deos desconhe-
20
íói m\LOGO TERCEVUO
cessem, & neg-assem depois a Christo. DaqiicUa fonte manou a
'mà corrente , que crecedo cõ outras agoas miúdas veyo a ser híi
abismo de maldade. Avia os Deos tirado da servidam do Egyp-
to, avia lhes aberto com grande maravilha o mar, & têdo re^
cente a memoria destes benefícios, volverão as costas a Doos. E
o q he mais quando o tinhão ante os olhos presente no cume do
mote Sinai , estado elles alojados nas faldras delle , quando vião
a nuvê, & o fogo, testimunhas manifestas de sua presença,
quãdo sabião que Moyses estava falando cõ elle , quando aca-
bavào de receber a ley , q elles começaram de ouvir da mesma
boca de Deos , e movidos de temor religioso nam se tendo por
dignos de a ouvir , pediram q Moyses por todos elles a ouvisse.
Assi que vendo a Deos , se esqueceram de Deos , & olhando pê-
ra elle o negarão, & tendoo em os olhos o riscaram da memoria.
E o q pior hè que fizeram cõ Aaron lhes posesse hua imagem
de Bezerro , q parecia comer feno , & a esta dissera este he o
teu Deos Israel , & o que te tirou da servidão do Egypto ; por^
era de ouro inda que mal lavrado. E pois que tam em balde &
tãto por sua malicia & liviandade se cegaram na adoração que
lhe fizerão, justissimo foy , & por Deos devidamente prometido
que se cegasse depois no conhecimeto de seu único bê. Oq Moy-
ses em pessoa de Deos lhe profetizou. Estes me provocaram a
Dcuie. 3'2. mi adorando a quê nam era Deos , pois eu os provocarey a elles
71 — 4. chamado à minha graça, & à rica possessam de meus bès, a híía
gente vil que em sua estima delles não he gente. Do Propheta
Oseas, inda que profundo no que fala, & difíicultoso de pene-
trar , se entende , que em lugar dos filhos de Israel segundo a
carne avião de soceder os Christãos filhos de Israel segudo o es-
pirito, o numero dos quais seria como a área do mar que se não
pode medir, nem numerar. Isto significam aquellas suas pala-
vras do primeyro capitulo. Et erit hi loco iibi dkcttur eis : Non
popiilus meus vos : dicehir eis : Filii Dei viventls. Socederà q onde
Deos primeyro disser : nam sois vos meu povo, diga depois, eis
aqui os filhos de Deos vivo. Esta Prophecia entenderam os Após-
tolos da vocação da gentilidade que dantes não era tida em con-
ta de povo de Deos, & depois se contou entre os filhos espirituaes
de Abraham , & de Israel que cos filhos de Juda, isto he cos
Judeus unio Deos cm hum principado sob a guarda de hu Pas-
tor. De maneyra que em pena da idolatria com q desprezaram
o mesmo Deos permitio elle que ignorassem a Christo conheci-
do, recebido, & adorado dos Gentios : & assi permitio que po-
dres de enveja rompessem em ira, porque o avião provocado a ia-
dignação. E a maneyra foy esta. Sublimando Deos a gentilida-
de que nam era reputada por povo seu , nem por sabia , senam
por ignorãte, & era dos JuaIcus avorrecida sobre todalas cousas j
DA GENTi: JUDAICA. \ó^
divísoua cô Iam insignes prerogativas, que a preferio aos Judeus,
trazendoa a conhecimento de sy mesmo, recebendoa em geu em-
paro & faniilia, & dàdolhc per adopção juro noKeyno dos (eos.
Donde se seguio, Cjue dusdaquelle tempo que Deos excluio os
Judeus como ramos quebrados daquella fermosa & fructuosa Oli- 72— 1»
■veyra , sendo dàles queridos seus , ficarão se bõra despidos , òc
despojados de seus ornamentos, privados de tudol<JS verdadeyro»
bès, excluídos de seu Keyno, òc amada palria , cegos &. desati-
nados. Basta que ve sua própria ley nas mãos dos Clentios; dos
quais he entendida de raiz , & estimada j^ela alteza dos myste-
rios, & somente pêra elles he secreta & escondida. Em ellcs se
cumpre aquella proph«xia de Isaias. Darseà o livro a que não Isai. fií»
sabe letras, òc dirlheâo, lè , & responderá, não sey ler. Os Ile-
breos meterão a Moyses nas agoas do Nilo, &. a hlha de Pharaò
o tirou : meterão os Judeus a ley nas agoas de suas sensaborias,
dandolhe entendimento segiido a carne , veyo a gentilidade &
declaroua segundo o espirito & verdade.
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CAPITULO XIII.
Porque nam recebem os Judeus o seu Messias.
Aurtl. Tendes me alvoraçado o espirito de modo que nam sei
86 me saberey partir daqui : Dizeime muyto disto, porque nam
receberão, ne recebe os Judeus o seu Messias. Valha me Deos,
he possivel tanta obstinação & de tanto tempo. Bem diz S. Ber- De cõsidc'
nardo, que o coração duro nam se dobra cô rogo?, nê se rende raiione.
com ameaças , antes se indurece mais com os remédios que lhe
aplicam.
Ant. Nam ter vergonha algíia he próprio dos Judeus, & sem-
pre o foy , porq pelo Propheta Ezechieí lhe chamou Deos mui-
tas vezes desfaçados , & chegou a dizer o cjue está escripto no 75 — 2,
cap. 3. Oinnis qmppe domus Tsroel attrita fronte est , òs duro
corde. Acresce a esta sua mà natureza, o ódio enlranhavel que
tem a Christo & aos Christãos que os faz muyto mais desavergo»-
nhados, & acaba cô elles q nam côfessem JESUíS Eilho da sem-
pre Virgem Maria ser Christo prometido pola ley, & pelos Pro-
phetas. O qual elles avorrecem , porque serrão os olhes ao Sol
do meyo dia. Quando se vem convencidos, ti^ansfiguramse &
fazemse rm mais figurasque Protheo; fmgê novas lições, & ex-
posições da Escriptura, por nos contrariar. A agoa impedida ,
c^ atalhada por Ima parte , rompe por outras : A malicia dqs
Judeus confundida por huas razões, inventa saida por outras.
ao «
íbC íilALOGO TERCEYRO.
Nam se pode matar o fogo , cevandoo c;ò a Icalia , nao se apla-
ca o mào dandolhe boa razão. O fogo quanto mais lenha lhe
poe, mais alevanta as labaredas, & o mào animo, quanto he
mòr a verdade q ouve, tanto de mayor malicia se ajuda. Mal
se pode curar enfermos, que avorrecê o Medico, & a medicina,
& dão de mão ao que lhe he mais proveytoso. Quero vos mos-
trar de raiz, o porque nam crê os Judeus em Christo universal
Redèptor. A principal causa de sua impiedade he, não sentirê
de Deos como he razão sentir delle, & como convê que sinta o
home racional; possessam cjuerida & prezada do mesmo Deos,
Tom.2Jio- como lhe chama S. João Chrysostomo. Muyto milhor sentiram
mil. 25. ex os Philosophos Gètios de Deos, que os Doutores dos Judeus.
iririis in Finge estes infelices híi Deos pouco mais poderoso que Alexãdre
JMatth. lo- Magno & pouco mais Sábio que Salamão, & pouco meliior que
cls. Abrahã; & algíis delles o compõe de mèbros humanos; cousa
iS — 3. que ne os Gêtios imaginaram, sedo alhcos da verdadeyra pieda-
de. No seu livro Thalmudico impiissimo, cheo de blasfémias
infernais, pintão hu Deos cuberto de lagrymas, & dores, mais
mísero que hii home miserabilissimo. Os lugares das escripturas
q os sanctos Prophetas por mctaphoras (segiido o costume do
fallar daquelle tempo) referiam ao entendimeto espiritual ex-
põe os seus Rabinos carnalmête : & algas ouve tam sem vergo-
nha , q chegarão a dizer , que os seus prophetas nam fallavão
verdade : donde me faz pasmar , ver doutores nossos modernos
interpretar as escrituras dos Prophetas, & os livros de Moyses,
pelas significações q os pérfidos Rabinos dam aos vocábulos he-
breos, deixando as exposições dos Doutores anliguos, que foram
claros luzeyros da igreja. Este he o mor desatino , & o mais li-
cencioso que se pode imaginar. Como que aja agora algu Judeu
no universo, que sayba tanto da língua hebrea quanto soube o
Sapiêtissimo , & Sanctissimo Hieronymo. Passo pola felicidade
que os Judeus finge aver de possuir cõ o Messias depois desta vi-
da : porque tal he ella, quais elles sam. Se posermos os olhos
na excellencia do home , & na bondade , & omnipotência de
Deos, veremos, que nam está posta a felicidade humana, nas
lêporalidades transitórias desta vida , mas nos bês sempiternos
r da alma ( parte mais nobre do home ) que convê a Deos dar &
ao home pedir. Decente he que a criatura capaz da gloria de
Deos , de engenho admirável , lhe peça principalmête bês im-
jnortais, & não breves, & transitórios.
73—4. ^urel. Nam faltado olhos de Lyuce aos Judeus para verê as
perdas, & ganhos, hão se cõ a divina Escriptura de que se hon-
ram , como se ha o cego com o espelho , que tem na mão ; o
qual elle nam vè vendoo os outros, & assi se ficam cõ a letra da
escriptura j sem entenderê o espirito delia.
DA G£NTB 3VDMC\% 1Ó7
yfnt. Para tratos te mais olhos que o dragam que guardava o
velo de ouro, mas níio conheceram o seu Messias, porque nani
quiseram considerar a razão espiritual, & se pegara à letra gros-
seyra , & pueril, ao revés do que convém a Deos & ao home.
Christo foy fim da ley, & dos Pro])hetas, & a ley foi dada, pa-
ra que conhecido por elhi o peccado, se entedesse que era ne-
cessária a vinda do Kedèptor; &. os Prophetas foram enviados a
prenunciala aos Judtuis, tS: a os encaminhar à noticia de Christo,
de modo que o testamèto velho còtèm cm sy a Christo Redêp-
tor, & por isso allegam os Apóstolos com elle , para confirma-
rem as cousas que se deve crer deste Senhor. E S. Paulo diz , Rom. í^.
que a fè em Christo pela qual somos justificados, estava testifi-
cada na ley, & nos Prophetas, inysterio q se revelou em a Trans-
figuraçam do Senhor , onde parecerão Moyses
p. n. 30. òí das as partes se levasse a elle as primícias, & offereceo nelle sa-
/. \.p. 336 crificios por sua pessoa. O Centurio do Evangelho, sendo Ro-
n.337. mano, amava & favorecia os Judeus. Enao he muyto q fosse fa-
75—2. vorecida de tantos Reys a sua Religião, pois tinha o verdadey-
ro Deos chegado a sy , & pela mesma causa os devemos amar
porque recebendo elles Christo, & sendo verdadeyros Israelitas,
Eplst. 49. pouco dista, ou nada a sua religião da nossa. S. Agostinho diz,
adDeogra- Não se mudou na ley nova o Deos da velha , nê menos a ver-
iias. dadeira religião a Deos divida; mas mudarãse os sacrifícios, &
sacramêtos q nella avia segudo estava profetizado. E por isso S.
To.l.Orat. Gregório Nazianzeno chamou elegãtemête ao Judaísmo doêça
1. in yípo- de Theologia , isto he sciencia de Deos, mas enferma &. febrici-
logetis. tante ; por razão das cerimonias , e ritos ja reprovados &. avorre-
cidos de Deos cô que os Judeus querê servir ao mesmo Deos. E
J)A GENTE JUDAICA.
163
o Apostolo cõfessa q lemos todos o mesmo spirito da fè q profes- 2. Corinth'
samos, quãto à sustãcia da religião & do mesmo Deos Autor mp. 4.
delia. S. Agostinho diz. A diferença que ha entre nos & os Ju- //omi/. 46.
deus, he sômête do tèpo que se mudou , &. nam da fè que sem- super Joan.
pre ficou, pois he a mesma; Elles esperão que o Messias venha,
& nòs cremos q he ja vindo , nào por nos avãtajarmos delles ,
mas poios igualarmos cõ nosco. Não plãtou Chiisto vindo à ter-
ia outra vinha differente da q Deos mudou do Egypto , mas
cultivoua milhor porque a da ley velha recebia aguoa da nuvem
de Moyses, mas a vinha do Testamento novo recebe a da graça
de Christo, & isto deu Christo a entêder aos Judeus, dizendo : Matth.Zl.
Que lhes tiraria Deos a sua mesma vinha porq nào crerão em
elle, «5c a entregaria aos Gentios q nelle avião de crer. Tàbcm
lhes significou pelo Proj)heta David que nam queria delles prin- Psalm. 49.
cipalmente sacrifícios exteriores, mas os interiores do animo, qual
he a charidade para o próximo, & piedade para Deos; dado 75 — 3.
que os que então lhe fazião fossem delle vistos & conhecidos ,
Non accipiam de domu tua vitulos , lhes dizia Deos , nam me
sam aceytos os sacrifícios de vo^os Bezerros.
Aw-el. No Levitico , & outros lugares lhes diz tambê Deos , q Ca-p. 1. Lt-
os sacrifícios ali instituídos lhe sam muyto aceytos & propiciato- vit.
rios, & assi o affirma.
j4nt. Isso se ha de entêder por razão da fè & piedade dos âni-
mos q os offerecê , & por respeyto do mysterio & Imagê que re-
presetavão que he Christo verdadeira victima & Filho de Deos
mui amado, & não por elles serê de si tais, nê dignos da acei-
tação divina pois erao de brutos animais indignos de Deos })òr
nelles seus olhos. E cõ tudo a effusam do seu sangue nào era
inútil naquelle tèpo, porq obrava expiraçã dos peccados, e jus-
tificava , como os mais sacramelos da ley velha , cx opere opcrâ-
<is, isto he em virtude da fè & piedade daqlles que os offere-
cião , por respeyto de sua obediência para com Deos &. fè pêra o
vindouro Redemptor.
«'V\M/«VV\Wt»«V%t/V«.VV%VW«'V«W\<%'V%»'V%%/V%W\VVV«'V\%/VV«'VVW\»'V«'VW«'V\«/«V
CAPITULO XVI.
Da Otrcuncisam da Ley VcUia.
Aurd. Que quis dizer S. Paulo por aquellas palavras; A cir- Ad Rom,
cucisam aproveita, se guardares a ley; mas se fores prevarica- 2.
dor delia tua circuncisam feita he prepúcio.
Ant. Para entendimêto desse lugar aveis de presupor que na-
quelle principio da primeira Igreja em os primeiros quarèta an-
21 »
16 â DIALOGO TmCEVnO
/ó— 4, no3 cõcorroo a observância do Evagellio cô a da loy escrlpta,
não em quâto necessária, & oblij^aloria , mas em quàito tolera-
da & permitida. Porque sejçundo diz S. Agostinho, como o prin-
cipio do dia antes q saya per si o Sol, a alvorada q chamamos
da raenhaíi & o seu entre luz & fusco, não he logo dia de todo ;
mas inda depois de passadas as trevas da noyte aquella alvorada
te parte da noite, & parte do dia : assi a ley Evangélica en\
seu nascimento, correo juntamente c" a observância das sombras
da ley de Moyses, e quàto não era danosa. Usou Christo cõ el-
la da Ceremonia de que o mimdo usa cos homes hôrados quãdo
morre , aos quais inda q mortos por respey to de que forão sendo
vivos, faz honra no enterramento. Assi posto q Christo Sol de
Justiça vindo h terra cõ os rayos de sua luz , & verdade desse
fim & excluissc as subras & figuras da ley de Moyses, toda via
ouve por bê que depois de morta , por veneração & estima do q
era em seu tèpo , quando obrigava , fosse enterrada honrada-
mente , & q aquelles quarenta annos primeyros , em q se podia
guardar alapar c5 o Evãgelho lhe servissem de honrosa mortalha,
J^plst. ad Si/nagoga sepelienda ciiin honore crat. Foy decente, diz Agosti-^
Hiero. (!)* nho , q a Synagoga, & sua ley fosse sepultada com hora. Escre-
côtra Fau~ vendo pois Sam Paulo a algíis Judeus convertidos que estavão
stln, em Roma, os quais se prezavam de guardar juntamête a ley de
Christo , & a de Moyses , &. pelo mesmo cíiso se tinhào e mais
cota q osChristãos convertidos da Gentilidade, jactandose q guar-
davão ambas as leys : & q o Gêtio , dado q Christão , na guar-
dava mais q a Evãgelica; aos q tinha esta vanissima presumj>-
76 — 1, çam, dizia : A circuncisão de que vos prezais, nã vola reprovo por
agora; mas entendei que hc somente hum sinal exterior da fè &
observância da Ley, & que se fordes ambiciosos, deshumanos.
Ímpios, ingratos, envejosos, soberbos, & contumazes , de nada
vOs aproveitará a circiícisão. Por demais sam a circucisão , & os
mais sacramètos , & sacrifícios , se a alma está embaraçada com
vicios; inutiles sam as ceremonias exteriores desacompanhadas
I&m. c. 7. da fè &. espiritu, & virtudes interiores. Daqui veo a queixarse
Deos dos Judeus pelos Prophetas , & chamar a seus sacrifícios
esterco ; & ao seu encenso abominação , & às suas Imolações ho-
micídios : & a lhes mãdar, que mais lhe nam sacrificassem em
balde ; como se nam tivera dictado tantas paginas em dar or-
dem , & modo aos mesmos sacrifícios. Porê adverti Aureliano,
que o queS. Paulo disse pela circuncisam no tempo que se per-
mitia , & o que poderá dizer delia no têpo em que corria sua o-
brigaçam ; isso vos posso eu dizer agora dos sacramentos da pe-
nitencia & Eucharistia, que da sua parte obrão maravilhas, on-
de acham disposição, & aparelho devido : mas se estado nossas
almas e odío côs próximos, cheas de enveja, ambição & cubica,
DA «IATE JtMíAIC'.. i''új
nos chegamos a usnr delles, por mais que nos j^lorienios de os fro
qucntar, ])eorcs nos fazemos do que dantes éramos. Por tanto
aos que se gabáo do que custa menus, òt fa/em m(ínos caso do
que he mais para estimar, o Apostolo como excellèt(! estimador
do preço de cada cousa, diz que a (.'ircuncisam nam sò quando
era permitida, mas também quando ol)rigava, nada aproveita
a quem nào tem conta cò o mais q Ueos lhe manda. \í diz
mais : Si igitur prcpidium Jusíilias Icgis aistodicrit , nonnc pre~ 76— i2.
piiiium iliins in àrcúcisionem rcputabilxir ? \í se o outro gèlio
com menos ccremonias de fora, tever fè, & charidade, tSc guar-
dar a ley de Deos, & entender cpie a Cireuneisam exterior he
sinal da interior; isto he, que ha de circuncidar desejos, tSc a-
pelitcs desordenados, cercear a pompa, o gosto, & a fazenda,
este tal , inda no tempo em que a obrigaçam da Ley corria ,
esta mais perto de se salvar que o circuncidado na carne , &. in-
circuncidado no espiritu. Non enhn qul in manifesto judeus cst y
neqtie qiice in carne cst circu7iãsio , scd qui in abscondifo Judeus
cst , l\ clrcuncisio curdis in í-piritu , non litcra ,* cnjus lans non ea:
homindnis, sed cx Dco est. Porque a verdadeyra circuncisão,
diz o Apostolo, he a do coração, &. nam a da carne; do espiri-
to se ha de fazer cabedal, &. nam da letra; desta fizerão, «Sc
faze grande conta os homes; &. o espirito he o Cj[ue Deos sobre
tudo estima. Assi que de tal maneyra nos avemos de aver com
as ceremonias, & còs sinais exteriores, 6c virtudes interiores por
elles representadas , que destas façamos o principal cabedal , òc
aquellas não desprezemos. Por onde se pode ver quanto erravàf)
os Judeus na estimação das cousas; & como lhes davão errada-
mente ser, julgando por mais o que em si he muyto menos, &
fazendo mais precioso o corpo q a alma, & a carne que o espi-
ritu, & sentindo tam grosseiramente dos sacrifícios & ceremonias
da sua ley, q a letra cjue nella tem menos ser, isso cuidavão
que era mayor gloria sua , lançando mão do que mata , & nam
fazendo caso do espirito que vivifica.
Aurel. Supposto que os Apóstolos sem culpa nem grave, nem
leve podiào usar dos ritos da Ley por certo tejjo como dissestes, 70 — \\.
& que muytas vezes o fizerao. E que S. Pedro \k)X ser Af)ostolo á. Lvr. 9.
dos Judeus podia com mor razíuj uzar dos seus ritos, q S. J'aulo
patrono dos gentios : bem se segue cjue se S. Paulo nam foi reo
dalgum peccado em usar muytas vezes das ceremonias Judaicas,
menos o foy S. Pedro que hua sò vez em tempo «Sc lugar oi)ortu-
no tomou esta licença, «Sc por tanto nam avia razão para que S.
Paulo o reprchendesse.
yint, Dirvos ei como passou o caso. Aconteceo que vindo de
Hierusalem a Antiochia algíis Judeus, se apartasse S. Pedro
dos Cliristàos gètios, &, ajuntandose cO os Judeus fieis guardasse
Itítí DIALOGO TERCEYRO
as ceremonias judaicas cõsentindo nisto os mais Judeus que resi-
diam em Antiochia, & fazendo o mesmo Barnabe companheiro
de S. Paulo. Por exemplo dos quais os gêtios erão em algíia
manevra compellidos a fazer outro tanto , como se cotem no
cap. 3. ad Gaiatas. De modo que mudou S. Pedro o instituto
de viver movido da occasião dos Judeus , que enviados de Jaco-
bo avião chegado a Antiochia, temendo que tornassem atrás, &
caissem da fè vêdoo viver ao modo gentilico, & não ao judaico,
íivendoos tomado de baixo de sua proteição. Por tanto deyxados
os ritos gentílicos, usou dos judaicos, dado que sua vontade fos-
se reduzirlos a liberdade do Evangelho , & assi as dissensões que
desta occasiam socedèrão , nam forão de seu animo , mas muyto
contra sua esperança & vontade.
Aurcl. E que males se seguirão dessa mudança de S. Pedro?
Ant. A sua suma autoridade induzio assi os ânimos dos Ju-
76 — ii. deus como os dos Gentios Christãos , que se acharam em Antio-
chia a fazerem o mesmo, parecendo a todos que cô razão podiao
fazer , o que pelo pastor de todos elles ante seus olhos se fazia ,
donde se conseguio o judaizar dos gentios. Movido disto S. Pau-
lo, & querendo obviar ao escândalo q hia crecendo pelo exem-
plo de Sam Pedro, lhe resistio & reprehêdeo gravemente em.
sua presença, & de todos : dizendolhe. Si tu, cum Judcsus sis,
gentiliter vivis , &Ç nonjudaicê, quomodo cogis gentes judai%areT
E por esta via acabou cos gentios que nam judaizassem , & avi-
sou os Judeus do que ao diante por exemplo do mesmo S. Pedro
lhes convinha fazer , & proveo oportunamête â saúde dambos os
povos. Porem nam reprehendeo a S. Pedro por culpa grave que
ouvesse cometido, mas somente porque nã advertio nem consi-
derou o escândalo que se seguio em os gentios. Seja pois a con-
clusam desta doctrina , que condenar a ceremonia he error , &
poer nella a proa da justiça, he engano, & o meyo destes estre-
mos he acerto, que a ceremonia he boa quando serve & ajuda
à verdadeyra sanctificação da alma, porq he proveitosa; & quã-
do nasce delia he melhor , porque he merecedora do Ceo , & da
vida eterna. Como he mentira & erro ter por màs, ou por nam
dignas de premio as obscrvancias de fora , assi he engano , cui-
dar que sam ellas a pura saúde de nossa alma, & a justiça que
formalmente nos faz aceitos , & graciosos em os olhos de Deos.
DA GENTIÍ JUDAICA, 167
CAPITULO XVII.
Que o veo de Moyscs traz cegos os Jiuiais , íf dos premias , ^ pe-
nas qiic Dcos lhe prometia na hcy velha.
Aurel. Nam vos seja trabalhoso declararme aqlle velame pos- 77 — 1.
to sobre o coração dos Judeus, de que S. Paulo faz menção. 2. Cor. 3.
yínt. Quando Moyses decendeo do monte Oreb, & apareceo
aos filhos do Israel , viãose no seu rostro rayos como de Sol sem
elle saber disso, segundo lemos no Kxodo; ou segundo o he- Gip. 34.
braico, viàse na sua face cornos, porque ao modo delles erão os
rayos, que do rostro lhe sahiào. E por tanto querendo depoU
disto fallar aos filhos de Israel, punha híia toalha sobre a cara,
dandolhes a entender , Ut non mtcndcrent in faciem ejus , quod
evacua t ur , que he tanto como dizer S. Paulo, que nam olhas-
sem aquella primeyra gloria da sua face, mas esperassem outra,
que avia de vir, que nam atentassem á letra, senão ao espirito;
não a Moyses , senão a Christo ; nam aos bes carnaes , & tèpo-
raÍ3 , mas aos espirituaes & eternos , que estes permanecem &
aquelles perecem. Itê o fim da observância daquella Ley eram
os bês terrenos, que ella prometia, aos quais aquelle povo tinha
atenção , & tem inda agora ; & côlra este fim , & co.biça sua ,
os avisava Moyses com aquelle velame, querèdo dizer : A minha
gloria he de pouco valor, vem outro mais forte, & glorioso que
eu , a quem deveis ouvir , o qual he imagem & gloria de Deoá
sem velame , que se irà cada vez mais manifestando , & seus
discípulos a manifestarão sem veo algum. Mas os Judeus míse-
ros, & cegos, nada disto entendiam, como quem tinha os sèti-
dos entupidos. Eatè o dia presente, diz S. Paulo, o mesmo ve-
lame na lição do Velho Testamento não está tirado, estando em
Christo evacuado. Cegarãose seus entendimetos cu aquella glo- 77 — S,
ria da carne em que empregarão seu cuidado com suma perti-
nácia. O mesmo velame com que Moyses cobria sua face em
que elles punhão os olhos, & por cujo respeito se não podia ver
a gloria de Deos , ainda dura nao revelado nem descuberto aos
mesmos Judeus. Porque nã os illustrou ainda o lume do Evan-
gelho , pelo qual se tira & esvaece aqlle veo como figura pela
verdade : & por isso permanecem com a gloria de Moyses , que
com a de Christo perece. E quiçá por isto he costume entre el-
les, que se cubra os Rabinos nas Synagogas, em quanto Icm a
Moyses cujo veo ja lhe nam cobre o rostro, porque he entrada
a luz verdadeyra, mas cega os entendimentos dos Judeus, que
como toupeiras, vem menos na mayor luz, porque pregam os
olhos na Icrra , a luz os cega , & a noite lhes dà vista como à»
aves nocturnas. De sorte que a luz Evangélica nam lumiou
inda os Judeus, povq nam entendendo o mysterio do velame, o
tem }?osto em seus corações , isto he a affeiçam da carne , por
razão da qual nam podem desviar os olhos de Moyses, & coa-
ver tolos pêra Christo. Andam embebidos no interesse , & provei-
tos teporaes , & aquella gloria do Testamento velho , paraq o-
Ihá he para elles como velame que os na deixa olhar para o E-
vangelho.
Aurel. E porque lhes nam fallou a Ley espiritualmente , pro-
metendolhe bens eternos?
j^nt. Porque fallava com criãças que inda nam eram capaces
de comer pão com côdea. Nam se movem crianças a aprender
os primeyros princípios com mostras de riquezas , honras , & pre-
77 — 3. mios, que seguem a virtude; mas cò híia maçãa , ou pêra, ou
qualquer brinco : assi os Judeus se chamavao â observância da
Ley cò cousas expostas aos sentidos, grosseiras, & temporais,
por via das quais podiam vir a alcançar as espirituais , & eter-
nas, como os mininos levados à escolla, por via do pêro ou brin-
co, estudando vem a ser ricos & honrados. Chama Deos, pay
indulgentissimo , & sapientissimo , aos homês costumados às cou-
sas corporais cò promessa delias , para depois lhes dar os bês que
' elles apenas ousaram desejar. Nem avia para que cò os Judeus
tratasse de espiritualidade , porque como nam sabião levantar os
corações sobre os sentidos , na servira de mais que de os cegar
c3 sua luz , &. lhe dar matéria de vilipendio , & desprezo. Po-
rem os Judeus que guardavam a Ley, pela fè & graça de JESU
Christo , alcançavão premio eterno , como nòs , & os mais anti-
guos que entre elles teveram lume da outra vida, & noticia do
inferno, & da resurreição da carne. Mas com isto ser assi, a
Ley induzia seus súbditos a que a guardassem, com prometimen-
tos, & ameaças de cousas teporais, por q isto era o que convi-
ÂdGal.-i. nha àquelle povo. S. Paulo o faz semelhante a moço que está
inda de baixo da mão do Avo. Natural he dos moços deleitarse
& espantarse cò as cousas presentes, por que pela pouca idade,
nam pode perceber as absentes. Prometialhes Deos longa vida,
saúde prospera , «Sc bes do corpo , «Sc fortuna , para destes os levar
pela mão a outros mais altos , como fazem as mãys que dam fa"
cilmête a mama aos filhos, quando lha pedem, ate que cres-
çam , & se costume a pedir cousas maiores. Desta semelhãça u-
77 — 4. sa Gregório Nyceno, & Kabbi JVIoyses Egypcio. Se os Judeus
JJih. de O- acabando de ver a Omnipotência de Deos, & a grandeza de seu
rôc in pro- amor em as pragas de Egypto, & mar vermelho, tSc têdo quasi
logo, presente aos olhos o fogo, & a nuvem do Sinai, & o mesmo ;
Deos : & se tendo na boca o mana que lhe chovia do Ceo , &
OA cr.NTr, JUDAirAf 1G9
se vendo ante ú a nuvem , & coluna que os guiava de dia, «Sc
alumiava de noite; vindo ú entrada du terra de promissam a
onde Deos os guiava, ê ouvindo, que seus moradores eram va^
lentes, temeram, &. desconfiarão, & tornavam a trás, chorando
fca , &. vilmete, & nnm criMam que quem pode riJper o mar em
seus olhos, podèra dcMrihnr luís muro» do terra : & ne a abudan-
cia da terra de Canuà , c\uc viam & amavam, nij a experiência
da potencia de Deos os pode mover : se lopo na primeyra ins-
tancia , & por palavras claras , lhes prometera Deos a Encarna-
ção de 6CU Filho, & o espiritual de seus i^es, & o que nam sen-
tiào nem podiào seniir, nem se lhes podia dar logo senào muv-
to despois, (Sc na oulra vida; quando, ou em que maneyra o
creram , & estimaram .' Sem duvida fora sem fruito. Fov logo
còveniente qu(! a Lcy , cousa imperfeita que preparava aquella
gente para a perfeiçam do Evangelho, usasse daqlle género de
promessas & ameaças. A Ley veliia na côdea he pueril, 6l den^
tro delia está escondida a medula do espirito, que Christo tirou
à luz & manifestou ao mundo cò a pregação de- seu Evangelho.
E assi S. Paulo amoesta eò seu exemplo a família Evangélica, Ad Philip,
como a filhos ja adultos, & mayores no amor de Deos, dizèdo, 3,
Esquecido das cousas que f)cam a trás, me estendo às que estam
diante cítminhàdo para o bravio, isto he para o premio da mi- 78^L
licia Christaà, por tato todos os que somos perfeitos, sintamos
o mesmo. E isto era o porque enviando Deos Aloyses aos anciaus
do povo Judaico, que cslavào no Egypto, nam lhes prometeo
mais que o Keyno dos Chananeos : mas o nosso legislador pro-
po- nos & prometenos o Keyno dos Ceos, & os seus bês. A esta
razão se ajunta outra. Como as cousas q Christo avia de prome-
ter aos seus, apenas podiam ser cridas dos homês por serem al-
tas, & excellentes, quis Deos de industria, & com summa pro-
videncia declarar sua fidelidad(í nos btg temporais , & visíveis ;
para que com mòr firmeza lhe crêssemos & tivéssemos por certas
suas promessas, quãdo depois nos prometesse os invisíveis (Sc ce-
IfslÍQis, O Judiciário que nos primeyros juízos sahio verdadeyro,
f.iznos esperar que também o será em os derradeiros : cremos
que viram sem fidta os últimos sinais do final juízo que o Senhor
nos prenunciou, porque vemos compridos mu\tos dos primeyros:
assi também permilio o Senhor, que Israel fosse morar ao Egy-
pto pura o depois tirar delle em coniprímêto de sua palavra com
tantas maravilhas, em que lho quis debuxar os prometimentos
do Ceo, & persuadir à geraqam iiumana , quam verdadeyro &
fiel era em suas promessas. E ja pode ser, que se chama a ley
de Moyses Testamento ^'elho, nam sò por ser primeyro que o
Evangelho, mas tãhem porque prometia cousas que cò tempo
envelhece : & o Evangelho se diz Testamento novo, porquQ
170 DIALOGO TERCKYUO
promete cousas que se nam gastam cò a idade , antes renovam
& permanece para sempre. As penas que a Ley propunha, eram
78—2, temporaes , propondonos o Evangelho tantas vezes tormentos e-
ternos ; os que peccavão cõtra ella logo eram castigados , ou en-
tregues nas mãos de seus inimigos, q serviam a Deos de verdu-
gos , mas as penas com que -ameaçou Christo os seus , estam es-
perando pelos màos na outra vida, & pelo mesmo caso se devem
mais temer; que esta he a ira de Deos que se revela do Ceo sor
yld Rom, bre toda a impiedade & injustiça, de que falia S. Paulo. Toda
via sem embargo do que temos dito nam faltaram antiguamen-
te Padres Sanctos como Abraham , Moyses , & os Prophetas q
.serviram a Deos cõ temor de filhos , & a muytos tira hoje o E-
vangelho com temor de servos , & medo de penas perpetuas que
nelle manifestamente lhes estam revelados.
Super Oseã Aurd. Bem está isso, mas eu ouvi, que o Abbade Ruperto
c, 7. dizia, que David fora o primeyro que denunciara nos Psalmos
por palavras manifestas prometimentos de bens do Ceo, & penas
de fogo eterno : & antes delle Moyses disse , arderá tò o ultimo
do inferno.
Deut. 32. yint. Nam sou lembrado que a Ley velha prometesse em al-
gu lugar vida eterna , aos que a guardasse , & tenho este pro-
metimento, por da Ley nova próprio : Irão os justos para a vida
eterna. He verdade q tambe là se faz algtía menção delia , &
Matt. 25. que como cousa conseguinte lhes foi também prometida.
Dan. 12. Aurd. Antes de vos pergutar outra cousa, eivos de dizer o
Ecdes. 14. que ouvi a hum Theologo de grande nome, &, Cathedratico de
^ Tiiob. c. Prima, & he , que permitira Deos a cegueira dos Judeus, por-
'2. 1^2. que se todos elles receberão logo a fè, tomarão occasiam para
78 — 3. dizer, que por quanto guardarão a Ley tantos tempos antes,
merecera a saúde do Evangelho, que era para elles como juro
hereditário. Que indaque nam corra por successam natural a
graça, com tudo tinha naquelle povo hua semelhança de succes-
são hereditária , segundo a nossa maneyra de entender. E por
esta causa se podiam chamar os Judeus ramos naturaes em com-
paraçam das gentes. Permitio logo Deos p^ira que os Judeus se
nam jactasse de lhe vir a graça do Evangelho por herança , q
caissem em incredulidade. E parece , C|ue isto sentio S. Paulo ,
quando disse; CGcluio Deos tudo em incredulidade para cô to-
Ad Rom. dos usar de misericórdia. E Christo nosso Seãor, dando a causa
11. da cegueira dos Judeus, lhes dizia. Como podeis crer os que
Joan. 5. recebeis gloria híis dos outros, & não buscais a gloria que vem
somente de Deos? Donde se tira que a ambiçam da gloria foi
causa de enveja nos satrapas, & Doctores da Ley; & que esta
os cegou para nam entenderem as Prophecias que liào, »Sc ou-
viao pertencêtes a Christo no verdadeyro sètido.
PA qçNTS JVPAIOA» J7X
y4nt. Teve esta cegueira doa Judeus híia particularidade, que Isa. 6,
nao viram tcjudo olhos. Porq dous mo<los hu de nain ver ; quem
nam tem oliios nam se podi; enganar na vista, porque nada vè :
mas os q nos olhos tem nevoeiros, vem somente os corpos a vid-
to, & nam as linhas, & feiç(')es das figuras, & assi se cnganao
julgando híia cousa |X)r outra, E deste modo se cegaram os Ju-
deus, vendo a superfície da Ley, sem penetrar o amego delia.
Aurel, Muyto be dito, Certo que po^ma minha alma da ce-
gueira destes desaventurados , fazeitno mercê de ir avante, &,
tratar largamente desta sua Ley , de que tanto se jactào, 78 — 4.
CAPITULO XVIII,
Qtbô cesiou de todo a Ley dos Judeus^
Ant. Sancto Ambrósio diz, que o zelo da Ley cegou os Ju- Sup. cap,
deus, porque nâo se lhe pode meter em cabeça, que Deos lhes II. ad Ko^
deu Ley para depois lha revogar. E ja vos disse, q avendo Deos man,
de enviar o Redèptor ao mundo, escolheo hum povo particular
Cara si no qual nascesse & se criasse , & passasse a vida mortal,
nstruio & ornou este povo, deulhe conhecimento de si mesmo;
porq sendo elle sò informado na sãcta & verdadeyra rcligiam ,
nam ficasse aos outros povos occasiam de se queixarê , dizendo q
najn nascera delles Christo, nem- se criara entre elles, nem os
ensinara, que em todas estas cousas os excedia o povo Judaico,
E tambe vos tenho dito da causa desta eleiçã. Mas foy conve-
niente , que estí^ Ley tam dura nam fosse perpetua. Quis Deos
primeyramête assinalar do seu ferro este povo, como ovelhas suas
com certo sinal , & separalo das outras getes , & a este fim lhe
deu a Ley porque pela ignorância , & depravação dos costumes
os filhos de Israel, noEgypto, não seguião híis mesmos ritos e ce-
remonias de adorar a Deos, antes declinava âs dos Egypcios en-
tre os quais vivião. E pelo mesmo caso lhes deu certos preceitos,
& limitadas ceremonias das quais se nam desviassem. S. João Ex variii
Chrysostomo diz , q os Judeus sahirao do Egypto quãto ao cor- in Matth,
po, & nam quanto ao espirito, porque traziam em seus costu- Iocis,tit.'i.
mes todo Egypto consigo. E assi por não cairê em os barrancos liom. 28.
da impiedade lhes foi por Deos escondido o sepulchro, & corpo 79 — 1.
de Moyses, & negado entrarem cõ elle em a terra de promissam, Hoinil. ô,
porem a principal causa por que deu ley aos Judeus, foy o amor in AJatt,
increivel , & ardentíssimo desejo, que tinha de os reduzir ao ca-
minho da salvação, como a filhos charissimos, E porq Deos ti-
nha feito a Abraham gradiosas promessas , & lhe avia dado a
n «
173 DIALOGO TLRCEYIiO
circucisa como certo pacto entre si, & olle : muylos dcsccdetes
seus, soberbos cõ esta cõfiança parecialhes q nada do q pertecia
à perfeição da rcligià llies faltava. Na lhes lebràdo invocar a
mia de Deos , & desprezado as outras nações como profanas , e
Ímpias têdose a sy sòs por sanctos, & cuidado que o verdadeyro
Deos assi se chamava Deos dos hebreos , como que o nam fosse
dos outros homes. Querendo pois curar esta arrogância ta néscia
lhes deu ley , que nam podêdo elles por suas forças comprir, fi-
casse entendendo quanto lhes faltava para a perfeição da justiça,
& perfeita veneração da divindade , & assi desconfiados de si &
das forças humanas se acolhessem a Deos & clamassem pelo Mes-
sias , & o esperassem com fervorados desejos , & lhe pedissem os
reconciliasse com Deos , «Sc lhes alcançasse delle saúde sempiter-
na. Falo aqui da Ley dos dez Mandamentos, fácil, clemente,
& muyto conforme à natureza : a qual nam podèdo o home per
si guardar ficava claro quanta necessidade tinha do Messias,
pelo qual podia sempre tornar em graça de Deos. Aurel. E quan-
tas differêças de Leys se conte em a velha ?
Ant. Judicial, moral, & ceremonial. A iudicial he regra de
j .) — 2. be viver, & te por fim sofrear os vicios cõ penas, para bê, &
conservação das Respublicas. E especialmcte foy instituída para
bõ governo do povo judaico & assi trata dos ritos matrimoniais,
das penas dos delictos, & cousas semelhantes. A moral he híia
interpretação da Ley da natureza, doctrina de virtudes, desco-
bridora da fraqueza humana, & preparadora para o cõseguimeto
da graça de Deos. Como o espelho não poe em nòs, nê tira al-
giia nódoa, mas sòmête nola mostra para q avisados da deformi-
dade , q nã podemos tirar , nos valhamos de quê a pode reme-
diar : assi esta parte da lei mostra ao home sua fraqueza , para
q vêdoa , & nã a podêdo guardar, tenha recurso â bõdade , &
misericórdia de Deos, e ajudado delia possa resistir à sua cõcu-
piscêcia. A ceremonial se ordenou para prefigurar os mysteiios
do vindouro Redêptor (sem a fè do qual ninguê se pode salvar)
os sacrifícios , adoração , cortesia , &. vassalagê , que ao verda-
deyro Deos he devida.
Aurcl. E porq se nomea ley escrita, ley de obras, de temor, &
se diz delia matar , augmêtar o peccado , obrar a ira de Deos ,
c ser impossível de guardar, & se compara cõ o pedagogo?
Ant. Dizse escripta, porq he doutrina posta ê letras, q guar-
dada dos homês, sê ajuda do espiritu, que vivifica, não he mais
q letra morta. Dizse lev de obras, porq ensina quais sam as o-
bras a Deos aceitas , o q convê seguir , & fugir posto q nam dè
íorças para a exccuçã delias ; dizse de temor , porq cõ terror , &
medo da petia , e não por amor faz q se deixe os peccados. No-
mease aguilhão , poder de peccado , e ministra da morte , nam
D\ GENTE JfDAICA. i ', .1
porq cila de si obre estes effeitos, mas porq delia se toma occa-
siàc para elles; que dado que seja boa, & sancta, com nos 79 — 3.
prohihir a concupiscência, acrecenUi o niào desejo; da manevra
c|ue o Ímpeto da agoa he mais fiiriciso, quando aeiía resistência.
Daqui vem aos que estam cercatlos raivarem por sair fora dos
muros, & parecerllie que estam cm muy e'-treilas prisões; porque
pelo perigo dos inimigos circunstantes, lhes esta vedado. Trilha-
do he aquelle verso, Nltinmr in vdilumj A pro]iil)içam he como
estimulo, & espora que desperta em nòs a desobediência.
Aurel. Eu ouvi dizer a hum Theologo que os sábios anlio-os
não fazem menção do versículo que allegast<'s.
Ant. Bem pode ser moderna a sua composição, mas a verda-
de que conte he muyto antigua, & de muytos modernos, &
Antiguos assaz reconhescida experimentada , dizem que em a
Cidade de Arecio ouve híi homem de muyta idade que em toda
sua vida nunca avia passado das portas da mesma Cidade, Vin-
do isto às orelhas do que a governava o màdou chamar, &. por
passatempo lhe disse ; Sou informado que tu costumas sair da
Cidade, escondidamente, & tès falas secretas cos inimifi-os, o
que ouvindo o velho começou de jurar por os Sanctos, que nam
sò em o tempo daquella presente guerra, mas nem no tempo de
paz , em todo o decurso de sua vida , inda que muy largo, nun-
ca do seu circuito avia saido. O governador fingindo que o nam
cria , & addindo que aquella Republica o tinha por sospeito sem
mais o ouvir lhe mandou sob grave pena que nam saisse da mu-
ralha. Passado isto, contáo, que incitado por esta prohibiçào se
não pode soffrer que logo o dia seguinte não saisse fora da Cida- 79 — 4.
de. Tal he a nossa condição que sèpre nos esforçamos a fazer o
q nos vedão. Cham ase jugo intolerável, »Sc impossível de levar,
porque alem de nam justificar, por mais que se valha do livre
alvidrio nam se pode comj)rir sem favor do Spíritu ISancto. Se
o que somos obrigados a fazer , tSí. nos he mandado j)or preceito
nos não apraz, nem he amado, não pode ser bem affeetuado.
E para se amar he necessário esforço, & conforto da divina gra-
ça. Por hm chamase pedagogo em Christo, porque com a pal-
matória, & zorrague da correição, & prohibiçào, soffrèa os màos,
ií<. os faz aprender na esciíola de (.-hristo, pondollics ante os olhos
sua imperfeição. E note que os preceitos de ritos, òc ceremonias
tantos, & tão vários, tam molestos, & intolera\eis, não lhos
deu tanto Deos para que por elles se melhorassem, quanto para
que nam empeorassem. Porque erão os Jmleus muy inclinados à
idolatria, & adoração dos demónios, &. por tanto os obrigou,
que lhe fizessem a cortesia, & honra que avião de fazer aos ído-
los. Aliás, aquella omnipotente, e beatíssima natureza não avia
niister sacrifícios de brutos animais. Carregou Moyses os Judeus
17^ iHKLoaa TT:itcí.;vRO
de nmytos preceitos como a escravos desobcdientea j & de mào
serviço, a fim de nâo terem tempo para recair em idolatrias, deu
lhe muyto negocio em que entender porque se nam danassem
com a occasiam perij^osa do ócio. Como for presête a verdade do
Ceo , & visam beatifica , cessarão de todo a fè , & esperança , &
o culto q agora em figura damos a Deos; assi presente Christo
80 — 1. Sol de verdade, foi necessário que a sombra cessasse. Claro está
que todas as imagês sam escusadas , quando se vè a verdade , &
o imaginado por ellas expresso. Como os rayos do Sol desfazem
Ltb. 1. de os nevoeiros & serrações do ar; assi a vinda do justo desterrou as
íSacrif. sombras & imagens das cousas.
Aurel. E tendes para vòs q todo o ceremonial Mosayco he re-
provado?
Ant. A Theodoreto pareceo que como os sacrifícios, assi lam-
be os instrumentos músicos da Sinagoga foram abrogados. Mas
ouvera de advertir que nam revogou o Evangelho todas as cere-
monias da Ley velha , mas somente aquellas q jíitamête erão fi-
guras, quais vemos serê os sacrifícios em que se vertia sangue
como a circuncisão , & hóstias ensãguêtadas q figuravão o derra-
mamêto do sangue de Christo. E por isso no cânon antiguo se
aprovão as oblações de vinho , óleo , leite , & outras semelhantes
em que nam ha effusam de sangue, que somente são serviços &
GJoRs.c.2. significações de animo grato. Finalmente sò se probibem as vi-
Naúaw^. climas, immolações, & judaicos ritos que são sacramentais ou fi»
Orôe 44. gurais , isto he porque tem sombra das cousas futuras em a vin-
da do Messias conforme ao que diz S. Paulo. Todavia celebra-
mos a festa do Pentecostes & outros ritos dos Judeus , não em
figura como elles, mas em espirilu , & verdade; não em quan-
to sombras & figuras mosaycas : mas em quanto pertêcê ao mys-
terio da presença de Christo , & à solenidade , ornato , & decoro
das cousas a elle , & a culto divino cõsagradae. De sorte que as
figuras da Ley, & os Prophetas preníiciadores da vinda de Chris»
80 — 2, to, nam se estenderão mais que tè a vinda do Baptista. Este foy
o fim da Ley velha, & seus Prophetas, & principio da nova,
foy marco & ponto em que híia acabou , & outra começou , nel-
le teve fim o judaísmo, & principio o Christianismo. Os Reys
mandam denunciar aos povos por seus messageiros o dia & hora
de sua vinda antes ^ cheguem , & não depois de ser chegados ,
assi nam servirá de nada, enviar Deos Prophetas ao mundo a-
nuciar o Nascimento do Redemptor depois delle ser nascido, Os
Rabinos antiguos confessão por híia boca que as Prophecias dos
Prophetas somente chegarão aos dias do Messias. E assi sedo j a
presente o Senhor , & o Baptista seu precursor , cessou o minis-
tério dos Prophetas , «Sc o uso & obrigação da Ley Mosayca , &
se principiou outra Ley , & outra j)oliciu.
DA Gr.NTT; JUnAICA. J7ò
yíurel. S. Pnulo queredo provar a cessação Ua Ley \clhaj in- yld JJd/r
íerioa da Iraspassaçuo de seu sacerdócio.
CAPITULO XIX.
Qm€ cessou o sacerdócio Lcvitico.
Ant. Que o sacerdócio Levitico ouvesse de cessar , significou©
-o Patriartha Jacob, ê nam fazer nas suas benções & prophecias
jiicção algua delle, sendo cousa de tanta honra & gloria par^
sua posteridade , & avendolhe prophetizado outras de menos es-
tima & excellencia. E nam foy a causa disto a morte dos Sichi-
niitas contra a fè, que lhes estava dada, em que Levi teve muy-
ta culpa. Que em o deserto os Levitas tomarão justamète armas
louvadas em a Escriptura cõtra os que adorarão o bezerro. Mas
a razào foy porque Jacob, como consta do principio daquelle
capitulo, somente prophetizava o que havia de acontecer a seus 30 — 3.
descendentes em os dias últimos & fim dos segres vindouros , aos
quais nam avia de chegar o tal sacerdócio, que nam foy conce-
dido à Tribu de Levi em beçao, mas somente em significaçam
<lella. O verdadeyro sacerdócio foy introduzido & confirmado em
a Tribu de Juda, c|ue avia de lavar sua Estola em sangue; isto
he dar aos homens pela penitencia , & virtude do sangue de
Christo remissam de peccados, officio de perfeito & único sa-
cerdote.
Aurcl. E quando feneceo o sacerdócio Levitico?
Ant. Depois de conquistada Judea, & feita tributaria ao po-
■vo Romano por Pompeo JVlagno, depois de ser administrada por
Marco António pelejando entre si cõ ódio pertinacissimo os As-
samoneos, & finalmente na Olympiade CLXXXV' I. sendo Con-
bules a segunda vez Domilio Culvino, & Asinio Pollio, depois
de levãtado em Roma por Rey dos Judeus Herodes filho de An-
tipatro ldum(;o & proielito de decreto do Senado. E depois de
ser posto em híia Cruz por Marco António, Antigonio Assamo-
neo , o ultimo dos Reys Judtíus, em que se extiiiguio o princi-
pado, & septro Real do Tribu de Juda. O quid como foy ex-
tincto pela Cruz deste, assi foy restituído, & dillatado peia de
Christo. Kos ditos tepos faleceo nam sò o Reyno, mas também
a legitima successam do síimo sacerdócio. Porq da faniilia dos
Assamoneos foy tranferido a outros que Herodes pòs , &. desjiòs ,
segundo llic deu na vontade, ou por llie cahiiem em graça, ou
pelo prcr^o que delles recebeo , substituía, & removia, dava vi-
da & dava morte, hora a huns hora a outros. Sào ricas testcmu- 80 — 4.
17 U DIALOGO Ti:nCEVKO
Li. antiq. nhãs desta verdade Josepho, Eusébio, & S. Hieronymo. E não
20. cap. 8. contente com estas cousas Herodes, ouve à sua niào, & fez se
Eusch. his- Senhor da insignia pontifical nobilíssima. Ist© he da estola sa-
tor. lih. 1. cerdotal que mãdou guardar em hu forte bem provido de muni-
c. G. Hliiro- ções, como reconta o mesmo Josepho. E porque a Ley, a reli-
711/ . 111 Da~ gião, & sacerdócio andaram sempre em hila conserva, em tan-
m. c. 9. to que onde se mudou ou cahio , & se perdeo híía destas três
j4niíq. li. cousas, ouve mudança, perda, & queda, em todas ellas : por
]8. cop, 6. tanto S. Paulo escrevendo aos Hebreos lhes demostra por este sj
argumento que com a morte de Christo & introdução de seu no-
vo sacerdócio cessou a Ley de Moyses. Translato sacerdotlo , nc-
cesse est ut Icgis translalio faf. Como se dissera, he mudado o
sacerdócio com a morte do Senhor, traspassousse de Levi para
jVIelchisedeh , ha novo sacerdócio, logo bem se segue, que ha
nova Ley, & nova Religiam. He para mim esta razão híia ur-
gente demostração, porque nunca se achou religião sem ley &
sacerdócio. Na verdadeyra escollie Deos algíis homes para que
sejão terceiros entre elle & o povo , & lhe offereçào sacrifícios
pelos peccados dos outros & sirvão de línguas & interpretes por
Cjuem lhes falle , & dè a entender sua vontade. Certo he que
hum dos principais officios do sacerdote he declarar ao povo a
vontade de Deos, o que elle diz , & quer q se faça. E esta pa-
rece ser a sciêcia de q sam chaves & guardas os lábios dos sacer-
dotes , segundo o Propheta. Isto passa ê a religião verdadeyra ,
& na falsa, o espíritu mào, q em tudo o que pode trabalha
81 — 1. por remedar, & cõtrafazer o bê, busca & deputa certos homês
que também se nomeào sacerdotes , para contrafazerê os officios
dos ministros de Deos. De sorte que onde quer que ha religiam,
ha também sacerdócio. E qual ella he , tais sam os seus sacer-
dotes, & quais estes são, tais são os seus populares. Se Deos
não tever de baixo de sua proteiçam , & especial guarda a sua
Igreja , com difficuldade poderão perseverar nella a verdade da
Religiam , & observância de sua Ley , sendo os sacerdotes indi-
gnos, & em seu viver devassos. Na csphera da Igreja Catholica
Christo he o centro , & o circulo a elle mais chegado sam os sa-
cerdotes, & depois delles logo os Reys & Príncipes, cujas leys
& armas em seu modo servem a Christo & sam sombra da sua
divina justiça : o ultimo circulo he a gente, «Sc povo comum,
parte mais remota do corpo mystico do Senhor. Por onde como
o elemento do fogo q está mais chegado ao Ceo , transforma em
sua natureza a primeyra parte do àr a elle mais veziuha, & em
os outros elementos transfunde & imprime a virtude do seu ca-
lor; assi os sacerdotes com a pureza & exemplo de sua vida de-
vem communicar aos seculares sua sanctidade. Os caloiros de
Sancto Sabii na terra sancta, assi tem em veneraçara hum sacer-
DA OENTB JUDAICA.
177
dote, como ae foçse hum Anjo do Ceo; nem permitem ordenni^
se algum, salvo vendo nclU; muytas virtudes, Sx, mostras do
grande sanctidade , &, perfeiçam. E inda com i>to por oulrõ hív
de vir chegar algum duUcs àqudle estado , tendo por indigno
delle a quem o procura. Como das folhas da arvore q csttirn
murchas, &, amarelas, so argiie algum peco cm sua raiz; assj
quando vemos as Republicas mal doutrinadas & cuõtumada^, 8l-^'í.
podomcs corjjeiturar que num está sam o seu sacerdócio, Qual
he o juiz &. governador do povo, tais Ȉo os seus ministros, tais
íum os do povo quaii oa seus sacerdotes, dizia hum Propheta ; 6c £ccl. Id
prouvesse a Dcos, ajunta S. Bernardo, que quais sam nlgus dos
seculares, tais fosàcm muytos dos sacerdotes. Prègarjdo ChristQ
eos Principei dos Sacerdotes lhes disso hua vez , segundo refere
S. Mattl). Nnnqíiam kf;isti , ^c. como se dissera, a vòs por ter- Matt^ 21,
des noticia da Ley pertence conferir minha3 palavras , & obra»
com os ditos propheticoi, para que vos nào enganeis na aceita^
çào, ou reprovação do Messias, Prophetizado qstà por David q
eveis de reprovar híía pedra que vos ha de firar sobre a cabeça ,
& ha de ser posta em o cume da casa de Deos, Onde parece
comparar o Senhor os sacerdotes com Qs pedreiros, & archi'
tectos,
ÂurcL Nam he imprópria a comparação, porque .como os ar-
tifices põem as melhores, mais firmes & fermosas pedras para
parecerem de fora em a face da parede , & as C{ nam sam tais
metem dentro no interior delia : assi os prelados da Igreja de-
vem eleger os melhores Christàos & mais exemplares para sacer-
dotes, como cunhais, que ornam & sustentào o edifício; por
onde como as pedras de fora estão ao livel justas bem lavradas ,
& sem desigualdade nlgua, St nam sendo assi affeão, & arrui-
nam a obra; assi convém que nas pessoas Ecclesiasticas nam se
enxergue nódoa, nem macula de mal, que de matéria de es-
cândalo, ôc para que com sua limpeza, «St sanctidade formosecm
ti esposa do Senhor, &. lhe tirem as rugas &. maculas esj^irituais;
devem com ferro agudo de suas reprehens"e3 cortar pelo? vicios , 81— 3^
& c5 o livel de suas virtudes, &, méritos de suas obras cncami-'
nhaloa para Deos, & darlhes a mao para sobirè ao Ceo.
Ant. Continuando cô a mesma metáfora digo, que como em
as pedras meudas que dentro do muro estam , ninguém põem os
olhos, & todos 03 põem em as que ficam de fora; assi os vicio:»
dos seculares nam sam vistos, nem estranhados, ne tiram seu
bom parecer à esposa do Senhor em comparação do prcjuizo, &
deformidade que lhe causam os peccados públicos dos Ecclesias-
ticog. Digo maié que como os que caem de lugar alto em algíia
pedra, inda quo nam seja muyto o seu peso dão grade queda,
&. correm perigo de sua vida: assi os màos sacerdotes porquo
«3
178 DIALOGO TERCEYUO.
caem de alta dignidade , & dao sobre a pedra angular que he
Cliristo , escalavranàe , & arriscão sua salvaçam , inda que nam
pese muyto o seu peccado; & o que peor he que com a toada
de suas quedas , & escândalos arruinam & lanqam em perdiçam
a niuy tos. Facão os sacerdotes nova vida , & quiçá cessará ê os
filhos deste mundo a velha , que vendo nelles obras de espirita ,
pode ser que darão de mão às da carne. Fallando Deos pelo
E::ech. 44. Propheta Ezechiel , chamou aos màos sacerdotes, escândalo,
tropeço & causa da ruina de seu povo. Daqui veio que em to-
das as nações , onde por algum tempo floreceo algua falsa , ou
verdadeyra religiam, tanta foi sempre a dignidade & estimação,
reverencia , «Si preço do sacerdócio , quanta foi a da mesma reli-
giam ; & quanto caso se fez de híia destas cousas , tanto se fez
da outra. Se mudado o Sacerdócio , he necessário aver mudan-
í^l — 4. ça na Ley, também he necessário que do desprezo delle se sigua
o desprezo delia. Mais partes requere o sacramento do Sacerdó-
cio em que o ha de receber , que cada qual dos outros , porque
os outros sacramentos se conferem para bem de quem os recebe,
& o sacerdócio para edificação & exemplo de toda a Igreja. Es-
ta he a que leva os principais fruitos dos bas sacerdotes, & a
que padece mores danos dos màos. Por tãto guardense os Prela-
dos de entreguar a fermosa donzella hebrea nas mãos de Naaraam
' Syro leproso.
CAPITULO XX.
Co)no a Ley de Moijses foy abrogada por Christo.
yfurel. Ja que cessou a Ley dos Judeus, queria agora saber se
se abrogou.
u^nt. Aveis de entender q abrogar a Ley propriamête he a-
nullala , depois que começou ter força , & obrigar. E se a Ley
foi posta tè certo tempo, era tal caso nam dizemos tam propria-
mente que se abrogou, como dizemos cjue se comprio. E este he
Matth. 5. o mais intimo sentido daquellas palavras do Senhor, Non verá
iohere legem , sed implere , que queria dizer nam vi tirar a força
à Ley como que fora perpetua, mas vim a cõprir o tempo por
que ella foi dada , & as verdades que nella estavão figuradas
paraque se saiba que ja feneceo. Faz por este entendimento o
Lxic. c. 16. que Christo declarou por S. Lucas, tam longe estou de vir a
quebrar a Ley, & Prophetas, que mais facilmente deixará de
83 — 1. ser o Ceo & a terra, que deixarse de comprir hum pontinho da
lejr de Moyses, & escripturas dos Prophetas. De maneira que
DA GENTE JUDAICA, 179
Christo he fim nam consumidor da ley de Moyses, mas cCsuma-
dor &. côprimcto delia. £m dous modos se cumpre a ley ou fa^
zendose o que per ella está posto e preceito , ou apresentandose
o C\ nella está prophetizado , como he autor S. Agostinho. E he iiò.lT.cõ»
pêra notar, que nSo somente cessou a ley de Moyses, quàto aos traFaustÚ,
preceytos cerimoniais , & legais , mas toda por inteyro , atenta
a virtude obrigatória; porque os preceitos uK)rais obrigão a to-
dos os homes, porq çam da ley da natureza, <Sc níio por virtude
da ley de Moyses. Donde se segue, que nenhíi testimunho se
pode trazer ao Christào da ley velha que o obrigue , se nam so-
mete como testimunho da nossa ley. E por esta causa entre as
escripturas canónicas , veneramos o testamento velho , por^ dà
testimunho ao novo.
y^vrd. S. Paulo disse que não se destruy a ley pela fè, antes Ad Rotrin
se côfirma & estabelece, c. 3,
Jnt. Do que agora acabamos de dizer, se pode tirar o verda-
deyro sentido que fazem essas palavras. A ley nova foy compri-
mento da antigua, na qual se deve còsiderar duas cousas; a pri-
meyra o fim delia, a segunda os preceytos. Quanto ao fim era
em duas maneiras, hum comíí a ella, & à nova, que he levar
por justiça os homês à vida Eterna : o outro particular à ley
■velha , c[ era prefigurar as verdades vindouras. Os preceitos , co-
mo tenho dito, erâ cm três maneiras, morais, cerimoniais, &
judiciais. Em tudo a ley de Christo côprio a de Moyses perfeitis-
simamête, quãto ao fim supremo que he justificar , pondo em
perfeyçào o que ella nam podia fazer. Sabido he que as obras 82 — $.
da ley de seu na justificava, senão na fè de Christo : donde vi-
nha, que todos os justos que passavam desta vida, estavão no
limbo em deposito , esperando que Christo lhes abrisse os Ceos
cõ seu sangue; mercê & graça que delle receberam, E assi com
inzâo dizemos , que a nova foy cõprimento da velha. Isto era o
que Sam Paulo dizia; O que era impossível à ley, mandando yíd Jiom,
Deos seu filho, cm semelhança de carne de peccado, cõdenou 8.
o peccado na carne, pêra cj a justificação da ley se còprisse ê
nÔ8 : quer dizer a justificação que a ley pretendia , mas per sy
nã podia fazer. O outro fim fj era significar as verdades futuras,
be cõprido esta pela ley nova, pois mostrou o lume & sacramêto
da verdade q na velha estava traçado por pinturas mysteriosas..
Quãto aos preceytos da ley velha , ctjprioos o Senhor cò a ley
nova , assi por obra guardandoos , como por palavra expondo o
legitimo intendimèto delles. Em fim a ley Nova se cõtinha em
virtude na Velha, como a cousa perfeyta se contem na imper-
feyta, como a arvore na semente. A ley de Moyses produzio as
espigas {] a Evangélica encheo de grão. E daqui fica entendido
q a ley Velha foy abrogada , quanto aos sentidos da letra , &
S3 «
180 DIALOGO TEKCliYUO
nam ao? do espirito , segundo os quais dura no dia presente , &
os verdadeyros Christãos a guardam.
Anrcl. Vede o que dizeys, q dahi a judaizardes, nam sey quan-
to lià. Sempre fuy cõtrario de sutilezas com palavras retrocidas.
ylnt. Digo que o Judeu nâo come porco, &. o b5 Christão a-
bomina a immundicia da carne.
yíurcl. E porq lho prohibio a ley ?
82 — 3. Ant. He graça dizer que a carne de porco faz os homês lepro-
Tract. de sos , nem Galeno a reprova antes a louva. Sabidos sam aquelles
Uíu uliinêl. versos Salernitanos.
Eát ■porcina caro úne vino , pcior ovina ,
Si tribuis vinú fucrit cibus (5f medicina.
Amai. d. Arnaldo affnma que os pès & fucinho do porco sam bõs para a
inll. inreg. gotta. Theodoreto diz, q os Egypcios como pródigos da divinda-
pod. de nào comião outra carne senam a de porco porque tinhão por
Thcod. hh. Deoses os outros animais, & pelo mesmo caso não comiào suas
7. sacrif. carnes, & por quanto os Judeus vivendo entre elles, & vendo
^c. , suas superstições, lhes ficarão affeyçoados, & por outra parte e-
rão dados â gula, querendo o Medico celestial remediar suas in-
firmidades contrapôs a gula à superstição, <Sc assi as curou am-
bas; porque vedando a carne de porco, & permitindo a dos ou-
tros animais , satisfez a sua golodice , & tiroulhes a occasiao de
idolatrarem , como os Egypcios , pois comião as carnes dos bru-
Ilom. QG. tOs que elles adoravao. Cora esta doctrina conforma S. Chrysos-
exvarmlo- tomo, & faz pêra confirmação delia o que se lè no Génesis aver
eis inMat. dito Joseph. Abominão os Egypcios todos os pastores de ovelhas,
c. 2, porque matam os animais que elles adorão por Deoses. E o q
Gcne.cAQ. Juvenal affirma nestes versos.
Lanatis annnalibus abstinet omnis
Juve.Sat^. Mensa : ncfas Ulic foctum jugidarc capr.Uw.
15. E o que lemos no Êxodo responder Moyses a Pharaò, quando lhe
Exod. 8. disse q sacrificassem ao seu Deos na terra do Egypto; Nam po-
demos fazer isso : por ventura offereceremos ao Sor Deos nosso
8á— 4. as abominações dos Egypcios? Dando a entender q nam era li-
cito em Egypto sacrificar ovelhas , bodes , & boys , porque estes
animais se tinhão entre elles por sagrados, & por tanto ajuntou
Moyses, se matarmos os animais q honram os Egypcios em sua
presença apedrejar nos hão. E notay q em lugar do porco que
lhe foy defeso, lhes deu Deos carneyros, &. ovelhas de cinco quar-
tos, dos quais o do cabo às vezes he mor 6c de mais peso que ca-
da hii dos outros, mas nam tem carne algua, todo he gordura a
modo de ubcre, que nas comidas da carne lhe serve de toucinho.
Ate nisto parece aver Deos amimado aquelle povo, ja q lhe de-
Lih. 16. cõ- fendia a carne de porco. Mas tornado a soldar o fio q me cortas-
iraFautt. tes ; Digo cõ S. Agostinho que ê lugar dos animais que matao
J)A GENTE JIDAICA, 181
& sacrificnm , presentamos nos a Doos nossos corpos mortificados
pela penitencia , & santificados pela graqa. E em lugar do san-
gue do cordeyro q lhe offereccni, lhe offerecemos nòs e espirito,
a inocêcia de nossas almas, »S: o verdadeiro corpo & sangue de
Jcsu Christo nosso Sôr,santto sacrifício & imaculada Hóstia,
Cordeyro inocctissimo, seu Unigénito filho representado c Isaac,
de que Abrahã seu Pay lhe fez híía offerta muy aceyta. Digo
mais q o Judeu sacrifica brutos animais, & nòs matamos a Deos
nossas belluinas affeyçôes, & no altar limpo de nossos corações
fazemos victimas incruentas de obras sanctas, & com elles & cô
as bocas lhe damos louvores, sacrifício de q se elle muyto hora
segundo diz per David. Sacrifichnn laudis honorijicíihil int. São
os Judeus perpétuos magarefes, &. cozinheyros, sempre occupa-
dos na carniçaria, & cozinha de animais sanguentados. Digo q
o Testamêto novo he o espirito do Testamento velho; & que os 83 — 1.
Christãos de verdade sam os verdadeyros Israelitas segundo o es-
pirito; tSc que lhe foy dada a Ley da Graça prometida pelos Cap.^i,
Prophetas Hieremias & Oseas, porq Deos disse q os Sábados dos (.'ap.2.
Judeus aviam de cessar, & todas suas solenidades. E por Isaias Cap.^26,
disse q se avia de instituir novas festas na Ley da graça, & de-
dicar novos dias ao culto divino.
j4urd. A isso dizê os Judeus q se a sua ley, & festas avião de
cessar, nam lhe chamara Deos tantas vezes cerimonias, sacrifí-
cios, & victimas eternas.
j4nt. Quem quer sabe q esta palavra, lioiâm , no hebraico, Gcnca. 17.
que os Latinos cõvertem em aeternum , sempiternum , & secu- Exod. lii.
lum , nam se diz absolutamente do tempo que não terá fim , se- Levit. 20.
nam da longa ou determinada duraçam , ou daquillo que ha de
durar sem interrupção , & interpolação ; o que tambe significao
estas palavras latinas, perpetuum, juge , perenne, infinitum.
Da trãsmigração de Babylonia disse Deos por Hieremias , porey Cap. Só.
nestas regiões soledade sempiterna : & quer dizer híi hermo de
muy ta dura ou continuo tè tornarem de Babylonia. E assi se
chamào os sacrifícios da Ley velha sempiternos, porque em quan-
to durasse a ley , nam aviam de cessar , nê se avião de interpo-
lar, avêdo lugar para isso, pois tambe em Babylonia cessaram.
E como antes dizia , posto que aquelles sacrifícios nã durem se-
gundo a cortiça &. casca da letra , permanecem todii via segun-
do o espiritu & miolo, porque em luguar da circuncisam da
carne , tem a Igreja a circuncisam do espiritu , & o baptismo ;
& pelo Cordeyro Pascoal tem a Christo na Sacrosanta Eucharis-
tia, <5c pola terra de promissam te o Keyno dos Ceos, pola qual 83 — i2,
razam se pode chamar os pactos do Testamento velho eternos,
nam segudo a ossada, à. letra, mas segundo o tutano & espi-
rito.
lli'2 DIALOaO TERCEYRO
CAPITULO XXI.
Que o Messias verdadcyro he vindo à terra.
Aurel. Estou satisfey to , mas não de todo , porque tenho mil
cousas outras que vos perguntar muyto desemfastiadas , que vos
folgareys de praticar , & eu de ouvir. Dizeyme agora cô que ra-
zoes, ou autoridades das escripturas se mostra cotra os Judeus a
vinda do seu Messias; & que JE8U Christo fdlio natural de
Deos he o Redêptor que na Ley iSí Prophetas lhes estava pro-
metido ?
Í.1./.Í203. Ant. Ouvi primeyro S. João Chrysostomo, sam nos necessa-
col.t. rias demonstrações pêra que nossa verdade côvença os Judeus,
os quais se quiseram inquirir cõ perfeyta diligêcia o têpo da vin-
da do Messias Christo, nam se deyxaram levar do Antichristo,
nem cairam nas suas mãos por escaparem das de Christo seu , &,
nosso Redêptor. Se os seus Principes mandaram ha tantas cen-
tenas de annos, de Hierusalem pergíítar a Sam João Baptista,
quando baptizava no Rio Jordam, se era elle o Messias espera-
do , assi porque vião sua admirável sanctidade q os fazia crer ser
elle tal , & os ouvera de obrigar a darlhe credito , quando deu
testimunho a Christo; como por verem o tempo comprido pelas
setenta hebdomadas q o Anjo Gabriel revelou a Daniel Prophe-
83 — 3. ta, q despropósito he esperarê inda agora por elle? As palavras
da Prophecia sam estas ; setenta somanas (dizia Gabriel ao Pro-
pheta) esta defmidas sobre o teu povo, & sobre a Sancta Cida-
de, para consumar a prevaricação, destruir o peccado , purifi-
car a maldade, trazer a Justiça sempiterna, & pêra dar fim à
visam & Prophecia, & ungir o Sancto dos Sanctos. Cousas tão
magnificas nam podem pertencer senam ao verdadeyro Messias,
O que não pode negar os Rabinos. xMas nam sabendo distinguir
entre as suas duas vindas, humilde & gloriosa, constituem dous
Christos,"hii filho de Joseph , a quem atribue o que da liumil-
dade & Cruz de Christo , os Prophetas contestão , & outro filho
de David, do qual entendem o que da gloria e Magestade em
triumphos está escrito nas prophecias, sendo na verdade o mes-
Cav. 25. mo. Estas somanas reveladas a Daniel , como os Judeus confes-
Cap. 4. sam , ^m de annos, o que se entende de Ezechiel & do Leviti-
co, onde lemos, contarás ãetenta somanas de annos, q sam se-
tenta vezes sete annos : E ou se cotem dos tempos de Cyro, ou
de Dário, ou do vigesiino, ou duodécimo anno de Artaxerses
pertencem sem controvérsia aos de Christo nosso Redemptor. Por
onde, vendo os Judeus daquella idade que os vaticinios dos Pro-
DA GENTE JUDAICA. 183
poetas contestarão & côcordavâo naquolle mesmo tempo, & que
o Setro da successam de seu Kcyiio do lodo era tirado ao Tribu
de Judà, se persuadiram que eulào avia de vir o Messias, &
inuvtos pola occasiào do tempo se levantaram co Messiado, co-
m(J Judas Galileo, &. Joseph Benzam, o qual sob o magnifico
titulo de Messias, ousou rebellar u Adriano Au{;usto & muitos 83 — L
Judeus o seguirão. Porem Adriano o desbaratou em Bilèra &
lançou longe da Palestina todos os Judeus; dõde vicrào aportar
à nossa Hespanha , & restaurou Hierósalem , & de seu nome lhe
chamou Aelia. A este propósito diz S. João Chrysostomo ; be í. I. /'. 20o.
merecido tem esta gente que Deos os deixe cegos em sua dure- col.'-2.
za , (Sc que caião em mil inconvenientes como muytos dcUcs ja
cayrão. Nicephoro Calixto em sua Historia Ecclesiastica conta, Lih. IA. c.
que estando muytos Judeus em Creta permitio Deos que hi!i 4'0.
Demónio fingindo Cjue era Aloyses, lhes metesse em cabeça que
os avia de passar pelo mar à terra de promissam , ôc que de Im
rochedo alto ê que batia o mar se lançassem cõ elle em as hô-
das; dõde todos muy prestes chegarão ao abysmo do Inferno.
Item muytos por via de lisonja disseram que Herodes era Chris-
to, & dirivandose o nome da Secta foram chamados Herodia-
nos, preferindo Herodes ao verdadeyro Messias. E he de aver-
tír que os Assamoneos era do Tribu Judà pela linha feminina ,
e por elles se cõlinuou o Setro dos Judeus ate o tempo de Hero-
des & por morte da fermosa Mariana sua molher &. dos dous fi-
lhos que nella ouve , se deu de todo ponto fim a gèraçam Real
dos Assamoneos , & faltou totalmente o Setro Real no Tribu de
Juda, pois o tinha em seu poder liíí Gêtio convertido ao Judaís-
mo, & natural de Idumea. Porque inda que os Judeus estado
captivos com os do sangue Real deixassem de reynar, com tudo
níica em Judea foy levantado Rey estrangeyro que nella reynas-
se senam no tempo de Herodes, ate o qual depois de Zorobabel,
& algíis seus successores, se continuou a successam dos Reys pe- 84—1.
los Assamoneos, q erão do linhaje Sacerdotal & Tribu Levitica
dos filhos de Jojarib, & nã Joarim como se lè em o livro pri- Cap. '3.
meyro dos Machabeus. Josepho diz, q o Assamoneo foy sacer- Ayitiq, Íih.
dote ex vice, Jojarib, q tinha entre as vinte, & quatro sacer- l!'2.
dotais o primeiro lugar. Estavam os Assamoneos per via de Ma-
trimonio liados CO Tribu de Judà, & conjuntos à familia de Lib.ckMo-
David (o que era licito segíidoPhilo Judeu) da qual conjunçam juirdáa.
succedeo ajuntarse o Sacerdócio co Rey no &. perseverar o Setro
de Judà nos Assamoneos, pela linha feminina ate Herodes Idu-
meo, os quais por esta causa se chamao tambê na escriptura Lib.l.Ma-
Varois de Judà. Isto vemos aver acontecido em outros muytos c/i. c.ó.
Reynos faltado machos còtinuarse a successam alapar cò nome
pelas fêmeas. Tambè Bçirçozib^s grande Capitão daqucllc tenujp
ISi- DIALOGO TERCEVllO
foy crido por Messias pelas muytas Victorias cj alcançou, &
durou esta persuasam muitos dias tè que o mesmo Adriano o
DcheJIoJn.' justiçou por suas ijialdadeè. Joseplio faz meçam de outros muy-
dal. lib. i2. los que cò pessoa & titulo de Messias enganaram o povo, & por
c. 12, Félix Prisidente de Judea foram destruídos. O mesmo Josepho
lic Autor que naquella idade se achou nos livros Sagrados hum
Oráculo, no qual se continha que naquelles tempos híi home
gerado de sangue Judaico avia de senhorear o mundo, & não
conve nem. podo còvir a outro senam a Christo nosso Salvador.
Cap, 2. NoPropheta Aggeo poderam ver os infilices Judeus se suas mal'
dades os não cegaram , a certeza de ser vindo o seu Messias,
6i — ^3. Certo he ^ depois de tornarem do cativeyro de Babilónia, vi-
vião abatidamete sogeytos a Persas, i^ Medos, afíligidoa, & ve-
xados : & posto que instaurarão o Templo , nam foy cõ a ma-
gnificêcia antigua , antes ficou tam somenos do que avia sido,
é{ os Velhos q tinira visto o Illustrissimo Tèplo de Salamào &
sua sumptuosidade , vendo a pobreza do segundo Têplo chorava
Z/Í&. 1.^.3. & lamêtavam, como está escrito em Esdras & Josepho o pos em
Xiò.l l. an- memoria. Donde veyo ^[ Herodes o perfeyçoou em eapasso de
tia. oyto annos cõ dobrada magestade & grandeza, avendo respeyto
à imperfeyqam cò q fora restaurado no tepo de Zorobabel por
nam quererem os Reys de Pérsia q o levantassem mais ^ a híia
certa altura que lhe mandaram lo^o limitar, do ^ he autor Jose-
Lih. 15. c. pho. Toda via c5 isto ser assi o Propheta Aggeo, (que voltou
14. do cativeyro cosHebreos) entrando híi dia no Têplo ^ se restau-
^o-tre.c.2. rava em Hierusalê, rebatado do Espiritu Sancto disse. Grande
será a gloria desta casa derradeira , mais q a da primeyra , diz
o Sõr dos exércitos. Quisera (\ me respMerão a isto quantos Ra-
bis hà no mundo. Que gloria foy esta mayor do segado Têplo?
pois nam còsistio em riquezas , magestade , magnificência , ce-
rimonias , sanctidade de Sacerdotes , vaticinios de Prophetas ; q
todas estas cousas foram mais insignes no primeyro Teplo. Sem
duvida vio o Propheta em espiritu que o filho de Deos em carne
humana avia de aparecer neste segundo Ti^plo & fazer nelle ma-
ravilhas, & pregar o seu Evãgelho. Porque falado c5 Zorobabel,
& Jesu filho de Josedech , & outros Hebreos que olhavam pêra
o edifício do segudo Templo, disse o Propheta estas palavras:
84— .3. Qual ficou être vòs que visse esta casa em sua gloria primeyra f
Que vedes esta agora? Eassi he que esta presente a vossos olhos,
Quer dizer. Qual de vòs ficou que visse o primeyro Teplo em
sua gloria, & magnificência, & agora vè este segundo, que nam
entenda claramente nam se poderem cõparar em algua maneira
este segundo cò aqlle primeyro? E depois que os còsolou cò a
vinda de Christo diz assi : Daqui a algum tempo, eu moverey
o Ceo j a terra , o mar & todas as gentes j & vírà o desejado de
DA cr.NTE JUDAICA. 180
todas ellas, & enchcrey esta casa de gloria. Minha hc a prata,
& meu he o ouro, grande será a gloria desta casa derradeira,
mais que a da primeyra. Onde manifestamente fala o Propheta
da vinda do Filho de Deos encarnado, que avia de fazer aquel-
le segundo Teplo mais glorioso quv o primeyro cõ sua presença:
& pois o segíido Tèplo he de todo destruido , & posto por terra y
desdos fundamentos, bem se vè q ja veyo o Messias, o qual cò-
forme ao Oracido de Aggco avia de entrar & estar ntílle. Diga-
me o Judeu que espera inda pelo Messias, a que Templo ha de
vir, se este de que fala Aggeo jaz sobre suas ruínas, sem aver
relíquias ne sinais delle ? Nem se pode dizer que ha de aver ou-
tro Têplo, ao qual vira o Messias : q o Projjheta falava do Te-
plo de Hierusalem q entam se reparava, <!ic nam de outro, &
mais chamoulhe dcrradoyro & q nam averia outro depois delle.
Ou digame onde tem os Judeus Tèplo para sacrificar? por isso
na nascença do Baptista, êmudeceo o Sacerdote Zacharias, porq
offerecia sacrifícios segundo a Ley , & Prophecia, que cô a en-
trada de precursor do Messias, e sua vinda, aviam de cessar. A
verdade he que os enserrou Deos em lugar limitado para que ti- 84—4.
rado o lugar, entendessem que quanto nella se còtinha era aca-
bado. Nam quis antiguamete q sacrificasse os Judeus senam on-
de estava a Arca do Testamento (inda que nam fosse por obri-
gaçam de preceyto) porq como a Arca era memoria dos benefi-
cios do Sôr : assi ouve por bê para conservaçam delia & do a-
gradccimeto a elle devido, q sacrificassem no lugar em q ella es-
tava; doutra maneyra fácil era sacrificar em qualquer lugar.
Pois onde virá agora o seu Messias hõrado quãdo os vier buscar?
y4nr(l. Porque nam assinou lugar para os Judeus sacrificarê,
senã em tempo de David ?
yínt. Porq inda os Hcbreos nam estavam de todo quietos em
suas casas; & em quanto tinhào inimigos domésticos, nam pa-
recia seguro deixare suas pousadas & ire a lugares remotos. Mas
de o Templo de íSalamào se restaurar be pede os Hebreos per-
der cuydado.
AvrcL Vòs deveis ter algíia liga cõ Christaos novos, porq eu
conheci hij, que quando pregava, onde no Evangelho dizia,
Judeus, expunha elle Hebreos, & chamavalhe homès hõrados.
ylvt. Sam mnyto escusadas essas curiosidades pêra gentes,
& nà serve de mais que de gerar ódio, & exasperar os ânimos
dos fracoç. Melhor fizera elKey nosso Senhor em mandar tomar
conta das nrmns que se estampào em líeposteyros , &. Sepulturas
(sabe D(Os que as ganhou) & dos dois de setecentas mil Donas
que ha rm Portugal, trazidos por engenhos, q seus maridos lhe
nam poiliào poer, cuja fidalguia he hum esquecimento entre vi- 85—1.
vos da pequena sorte de seus avôs mortos. E quanto esta memo-
t4,
I8G DIALOGO TERCEIRO
lia he mais esquecida, & anda mais acompanhada de posse pê-
ra sustentar estado, tanto mais hc estimada sua nobreza cora
titulo de netos do grão João Afonso.
u4iircl. Se tirardes a Portuguezes serem todos Fidalgos , tirar-
Iheeys a valentia. Meteram lhe em cabeça que era honra des-
cobrirem a índia por Mar; & isto bastou para batalharem sobre
ella CO soberbo Oceano, que lhes metia as velas dos companhey-
ros no profundo temeroso de suas agoas ante seus olhos , sem
lhes meter medo , nem os acovardar , nem fazer tornar pee a-
tràs. Rompeo a sua porfia generosa por mares , & ondas medo-
nhas, ate os últimos fms do Oriente, Nam digo mais nesta ma-
téria , porq não he tempo de aprovar minha fidalguia ante vòs ,
& seria perturbar a ordem do argumento , que ides tratando , &
eu folgo muyto de ouvir, proseguio & deyxemos historias.
CAPITULO XXII.
Que por de mcàs esperam os Judeus a restauração do seu Templo :
ti da destruiçam de Hierusalem,
Ant. Depois de o Senhor JESU ter descuberto, & revelado
aos homens que Deos he espirito , & que convém os que o ado-
ram , adoralo em espirito & verdade ; que haja de obrigar o
mundo a que se ajunte em Hierusalem pelas festas , & ahi lhe
85 — 9. sacrifiquem , nem leva caminho, nem parece possivel. Dizia
Tom.b.va Sam João Chrysostomo; Ninguém pode destruir o que Deos e-
dcmonstra- dificar, nem edificar o que Deos destruir. Edificou Deos a Igre-
f;ão contra ja , & nam ouve potencia algíia que prevalecesse contra ella :
Gentios , ^ assolou o Templo de Salamão , & em tam longo tempo , nem
Christo he tantos Reys poderosos , nem tanta turba de Judeus dispersos por
Deos. todo o mundo, o poderam reedificar, inda que o tentasse muy-
tas vezes , & nisso empregassem suas forças. E sabendo os Judeus
que lhes nam era licito pela by, edificar outro Templo, ou
Altar, ou sacrificar em outro lugar, ou celebrar as festas, (o
que assi comprirão em Babylonia , segundo o que disseram a^
Deni. 3. quelles três Sanctos moços, ^ nam avia em Babylonia lugar de
primícias) & vendose excluídos do lugar de suas solenidades,
não querem acabar de entêder que feneceo o seu Judaísmo, &(,
que he vindo Christo prometido a elles , & delles esperado. O
Orat.cotra mesmo Sancto diz, que três vezes cometeram os Judeus com
Judeos. grande Ímpeto ròdificar o Templo &. Cidade depois q Tito a des-
truyo , mas na fizeram mais que obrigar o Emperador Adriano
a destruila outra vez , & por sua estatua no lugar , em que foy
liA GENTE JUDAICA. 187
O Templo, &, impor nome Aelia os suas ruynaa. No tempo de
Constantino tentaram alp:uns o mesmo, mas o Emperador lhos
mandou coitar as orelhas, ti imiirimir nos corpos o sinal de sua
rebeldia , & levar do hua parte u outra niis como escravos fuj^i'
tivos, para escaramoíita dos outros. Diz mais o Saneio Doutor,
que em seu tempo Juliano, que na impiedade sobrepujou a to-
dos os Emperadores, inoilàdo os Judeus a Q sacrificasse aos ído-
los, elles lhe responderão que o nam podiào fazer fora de Hie- 85 — 3.
rusalem , & que era necessário pêra isso restituirlhe a Cidade,
& o Teplo, nam tendo pejo de pedir ao impio «Sc maldito Após-
tata, que lhes edificasse a Saneia sanetorum. Mas em fim como
aos decretos de Deos ninguè possa resistir, descubertos os funda-
mêtos, & tirada muita terra das ruinas, querendo começar o
edifício saltou o fogo nellas & queymando muytos rompeo o fio
a sua pertinácia. Isto he de S. João Chrysostomo. A historia Lib.G.cap.
Tripartita, conta isto mais diffusamente, & diz que lhes apareceo 44.
no Ceo húa Cruz resplandecente, & que as vestiduras dos Ju-
deus também se encherão do sinal da Cruz , mas de cor negra.
Do cjue está dito , se colhe , que a causa porque Deos mudou
que nam sacrificassem os Judeus senam na Cidade de Hierusale
& no seu Templo, foy pêra que destruída a Cidade & Templo,
entendessem que a ley cessara, como Sam João Chrysostomo Orat.l.cõ~
largamete provou. O edifício fechado todo em hua sò pedra, ti- traJudtOi,
rada ella, necessário he que venha a terra. Maravilha he con-
cederse aos Judeus todo mundo pêra sacrificarem onde lhes nam
era licito fazelo; & nam lhes ser dado ir a Hierusalem, onde so-
mente lhes era permitido. Ouvese Deos co elles como Medico com
o enfermo, ao qual concede que beba agoa por evitar mayor
mal, mas depois vedo que lhe he necessário absterse delia, se
o enfermo lhe não quer obedecer quebralhe o vaso por onde be-
bia : assi se ouve cos filhos de Israel, quanto aos sacrifícios, a
que os obrigou. Eram febricitantes apetitosos dagoa , se lha ne-
gavam, corriam perigo de mania & desatino : por atalhar hum
mal mayor, consentiolhes o Medico do Ceo outro menor, qual 85—4.
foy mandarlhes beber por certo vaso somente , &. depois avisar
8<»cretamonte aos ministros que lho quebrassem. Quero dizer,
que vendo Deos os Hebreos tam querençosos dos sacrifícios de
sangue , porque nam viessem a idolatrar sacrificando aos Ídolos
permitiolhes que lho offerecessem animays brutos : & dizendo-
Ihes dopoys da Cruz , que era acabado o tempo dos tays sacrifí-
cios , nam querendo desistir , destruiolhes a Cidade & o Templo,
que eram como vasilhas de suas cerimonias. A este i"im pòs os
sacrifícios em certo modo, & o mcxlo vm Templo limitado, &
o Templo em hu sò lugar que j)or derradeyro lhes tirou das
mãos. Do Monte Sion (que em tempo de David era a principal
188 DIALOGO TERCEYRO
parte da sua Cidade onde pousava quasi toda a fidalguia, &
nobreza do povo, & o Ke.y tinha seus pachos lleays, & por isso
se cliamava Cidade de David, & Josepho lhe chama Cidade
superior) nào ha ao presente mais memoria q alicerces de edifí-
cios minados, & o Sàcto cenáculo; & todo o mais se lavra à
maneira de campo em comprimêto da Prophecia de Micheas, &
Cap. n. de Jeremias. Josepho contra Aj)pion affirma que tinha Hierusa-
Cap. 26. lem no seu têpo cincoenta estádios em contorno, q sam dez mi-
lhas, & cêto & cincoeta mil vizinhos. E do Templo de Salamão
não ficou mais que algas vestígios, & indicios de sua magesta-
de, onde agora os Mouros te a sua mescjuita com o mesmo titu-
lo q dantes tinha; & quando a rèdificou Adriano accrecentava
pela parte em c|ue ficaram as insignias da payxam do Senhor ,
BG — 1. na qual seus moradores crucificarão o justo q lhes avia propheti-
DcbeLJu- zíiáo suas desavêturas. Josepho fez hua descrição de seu sitio,
dai. ãb. G. policia, & fermosura do circuito de seus muros, da manificencia
cap. 6. de suas torres, e paço lie ai , & da estructura Augustissima de
Antiq. líh. seu soberano Teplo. E noutra parte contou as riquezas admira-
l4ucap.l'^. veis, q possuia quando Crasso o saqueou. Em fim nã ha nesta
vida cousa permanente, gasta, & triufa o tempo de todas as o-
Debcll.Ju-hva.?. das mãos humanas. Deixou Tito nella três torres as mais
dai. lib. 7. altas & lustrosas, & diz o mesmo Josepho q se chamavão , Hy-
cap. 16. pico, Phalselo, Marime, pêra q nellas visse os vindouros &
julgassem as forças das ligiôes Romanas, & potencia daqlle vi-
ctorioso povo & bem afortunado Capitão q a avia cõquistado.^
Deixou mais hum laço de muro da parte do Occidente pêra re-
payro das guarnições dos Soldados Romanos, todo o mais edifí-
cio foy arrasado de maneyra , que não parecia que fora ê algíi
tempo habitada. E tem me acòtecido derramar lagrymas (por-
que forão ellas sempre & sam inda agora muito minhas) lendo
JJebdloJiv- o pranto q Josepho fez na ruina, e destruição da sua Cidade,
dai. lib.16. exclamando &. dizêdo : Que se fez daquella insigne cidade Me-
cap. 8, tropolitana de todo Império Judaico? Que foi de tã fortes apa-
ratos de guerra ? De tãtos apercebimêtos , &, tã valerosos Solda-
dos ? Onde esta aquella povoação da c|ual se cria ter a Deos por
seu vizinho &, morador. Jaz debaixo da sua ruina assolada ate os
Ibid.Hh.7. fíidamentos. Affirma o mesmo autor q era tanta a malicia &
cap. 7. crueldade dos Judeus daqlle têpo, que se os Romanos tardarão,
& diffirirão a cõquista de Hierusalê por mais têpo, algu diluvio
86—2. a absorvera, ou a terra se abrira e a tragara, ou outro incêdio
como o de Gomorra a abrasara, Compriose nella ac|uelle oracu-
Dan. c, 9. lo de Daniel : Civitatê Òi sanctuariú dissipabit populus cu duce ven-
turo, &l finis ejus vastitas òf post finem belli statuta desolatio. Que
o povo Judaico cõvertêdo as armas cõtra sy mesmo lançou ê per-
dição a Cidade q Tito geral do exercito Romano assolou , aven-
J>\ GENTE JUDAICA. 18Í)
do primeyro ê o cerco delia crucificado Ste os olhos de seus ci-
dadãos talo numero de Judeus, q ja faltavào cspassos de terra
pêra tantas cruzes, &, cruues pêra tantos corpos, como he au-
tor & testimunha de vista Joscpho. Estes fora sem duvida filhos De bel. Jv~
daqllcs q clamado còtra Chri&to dissipam, Cniclfígc, cmáffre dai. llh. (!.
€íí , savgiás ejus super 7ios ò) snpcr filios nuatros, &l em sy o ex- cap. J2.
perimclarão. Prevahfceo entre os cercados tàto a fome, & foi tã
iirgòte sua necessidade q antes lomavào p(jr partido enlregareso
aos inimigos, a risco de sere crucificados, q perecer de pura fo-
me. Cota mais Josepho q vedo Tito a infinita multidà de cor- Lih.G.cap.
pos mortos à falta de mantimètos q os vivos lançavam fora da 14. tS" ló.
Cidade, estedcdo as mãos dizia, q aqlle eslraí^o era ol)ra áa eh hcllo J n-
Deos, & nam sua. Deos era o Autor delia q usando das suas í^aico.
màos como de instrumeto, tomava vingãça dos Judeus. Que ex-
clamaçiVs fizera aqui Mathatias, q no tèpo è q Antiocho perse-
guia os Judeus, lamêtava e dizia. Sâcta m vianu cxlrancorú
jacta sunt : Tcmplú ejus slcut homo ignobilis, Vasa glorice ejus
cnptiva abducta sunt : Trucidali sunt senes ejus in plaiels , ^'./'*~
renes ejus ceciderunt in gladio inimicorum. Quw gens non ha:re-
ditavlt jRegnum yiu^ bi non obtinuU spolia ejus. Maçai. llb. 1. c. 2.
CAPITULO XXIII.
jBm quanto ódio ôf miséria encorreram os Judeus.
Ant. Accreceo a sua desaventura, q ficando sem Templo, sem 86 — 3,
sacrifícios, sem Cidade peregrinando por diversas partes do mu-
do, vagos, e fugitivos, como antigamête Caim por matar seu
Irmão, se fizeram odiosos a todas as nações. Rutilio Clemoíitia-
no no Itinerário lamelou esta desaventura dizendo.
Atque uiinâ nunquam Juden stiLacta fuiiscl
Pôpcii bellis j imperioquc Titi
Latius cxcisse pestis cot agia serpunt ,
f^ictoresque suas natio victa premit.
De sorte que sendo elles os vecidos , deiáo leis aos vencedores, Lib.deciv.
como diz S. Agostinho, & todavia assi vive entre as gentes que Del c. 11.
sam avorrecidos de todos. Còsiderando o mesmo Doutor , cpiã
desigual foy a sorte dos Judeus das outras naçòes, pídos líoma-
nos subjugadas, diz q os outros povos inda que cativos vierào a
se chamar Romanos, & os Judeus nunca se melhorarão no a-
pellido, nê nos privilégios cõcedidos a muitas nações, inda q
barbaras. Na ley 19. de Jud. Cod. Theod. se conte que o nome Lib. S.
dos Judeus hc tetro, isto he fedorèto. Amiuno Muiccliiio escre-
190
mM,QQQ TF-RCEVRO
ve do Marco Emperador , que indo para Egypto , & passando
por Palestina , enojado do seu cheyro & enfadado de suas malí-
cias & revoltas, exclamou & disse ê altas vozes, O Marcuniani^
ô Ccidi, V Sarmati, tandem aliou vobis deteriores inveni , ò Mar-
cunianos, ò Gados, ò Sarmatas; ^ente barbara, excremêto, &
escoria do género humano, consolaivos q achei outros peores q
HG — 1. vòs. De modo q não por dito dos Christãos (dos quais he próprio
a})iadarse de todos , & nao folgar cos males de níguê) mas polo
de todos os Gêtios , forão sempre tidos os Judeus por os mais
míseros & fedorêtos de todos os mortais , & ta mal quistos q nà
ouve naqão no mudo q nâo festejasse suas calamidades e todos os
segres. O q elles conhecêdo, vendose despojados do Têplo & ci-
dade, pêra q ao menos nas lagrymas achassem algíí cõforto, cos-
tumarão ê o dia aniversario da destruição de Hierusalê : pagan-
do primeiro certo tributo quãdo doutra maneira na podia, ir yi-
sítaj os lugares minados, e nelles verter lagrimas & iazer íamen-
Cap. 1. «ti tacões. Dôde S. Híeronymo sobre o Propheta Sophonias veyo a
filiem. dizer : Ate o presète dia os lavradores pérfidos depois de mata-
rè os servos & ê fmal o fdho , sao prohíbídos entrar è Hierusalê ,
& pêra poderê ir a chorar a ruina de sua Cidade, lhes he neces-
sário aver liceça muito à sua custa. Justo juyzo de Deos, q cò-
prê suas lagrymas os q cÕpravão o sangue de Christo. Veras no
dia ê q Hierusalê lhes foi tomada & posta por terra , cocorrer
este povo mísero , as velhas decrépitas , os velhos carregados de
trapos & anos , ao Mote Olivete dode resplãdece a bãdeíra da
Cruz , e nella mêtar as ruínas de seu Têplo , e têdo as lagrimas
nas faces , as maculas nos braqos , «Sc as guedelhas descòpostas ,
mostrado ê seus corpos , e trajos a ira do Sor , os soldados , &
guardas lhe pede os foros pêra q lhes seja licito & tenhão razão
de muito mais choro : & segundo a prophecia de Jerimías, A
voz e cato de sua solenidade se còverta ê pranto; Dão sentidos
& altos ays sobre as cinzas do Sãctuarío, sobre o altar destruído,
S7 1. sobre os lugares ãtígamente monidos, & sobre os altos cumes do
Têplo, dos quais nos tepos passados precipitara a Jacobo Irmão
do Senhor. Ate qui S. Híeronymo. E dado que tiveram Cida-
de & Tèplo como dantes , que dos seus Prophetas , & da Arca
do testamento, & dos seus Cherubíns? Que da vara de Aaroa
& das taboas da Ley? Que do maná do deserto, & do fogo do
<^co? Que dos vasos sagrados, & doutras muitas relíquias daqlle
têpo, q lhe davão titulo de casa do Sor dos exércitos? Co que
poderão agora glorificar o seu Têplo , senão cò a ignorãcia da
Ley de Deos, & cò a sciencia mechanica das onzenas, & cô-
luyos ? Estes sam os seus Prophetas presentes , a estes adorão ,
& serve, por estes negao a Christo : & tambe negaram a Moy-
fees, se lhes não còsentifa; Josefo cota, q entrando de noyte os
J)A GENTE JUDAICA. X9l
sacerdotes e a festa do rttrrostrs, no intimo do Teplo, a ceie- DebclloJi:
brar os officíos divinos, cuvirào primeyro híi grade estrépito, & dal, l'ih. 7
depois híia voz que dizia; passcmonos daqui, isto he dos Judeus cap, 12,
pêra os Gentios : A qiuil devia ser dos Anjos Custódios dacjllo
lugar, ou do Sõr dos Anjos, C\ por estes seus ministros guarda-
va aquella Cidade. A vinha dos Judeus ê quanto teve fruito
teve a Deos por sua guarda; mas depois de vindimada ticou áe-
serta como choça de vinheyro. Aproveytou tambê a subversam
do Têplo, quãto eu entedo, pêra côfirmar os pios & fieis Chris=-
tSos. Porq se Hierusalê permanecera em sua gloria antiga &. a
gète Judaica insistira nos ritos de seus sacrifícios & obicrvàcia de
gua Ley , e o Têplo de Salamào durara, se duvida fora grande
escàdalo para toda a Christandade. Dos actos dos Apóstolos sa-
bemos q muitos dos Christãos se escadalizarào , tedo pêra sy q 37 — 2.
as cerimonias da Ley erão necessárias pêra sua salvação, por
quàto Deos as instituirá , & não tinhão ouvido claramète q ja
erão pelo mesmo Deos revogadas. E por esta causa celebrarão
os Apóstolos o primeyro Cõcilio, & S, Paulo côtra este erro
disputou em muytas partes,
Aurel. Ha pregadores q se parece cõ lugares mal situados, os
quais naturalmête não tê cousa boa de sua colheita, «Sc vindolhe
tudo de acarreto , por se acreditarê , usam officio de caçadores
vãos q côprão a caça na feyra , & vê pêra suas casas colado mil
avêturas q lhes acõtecerão na mata, Digo isto porq o que agora
tratastes proseguio o eloquétissimo Chrysostomo cu grande co-
pia de boas palavras ; mas valhavos que o nomeastes por Autor
de algíias delias,
j4nt. Ha Fidalgos que se prezão muyto de o ser, não tendo
mais fidalguia, que a q receberão de mercê pura, & ha outros
q se chamão de solar, niis da nobreza própria, e muy inchados
da alhea. E pcrdoae por o retorno ser pequeno. Còfesso q as
mais das iguarias cò q vos côvido saô alheas, mas o guizamêto
delias he de minha casa.
%^V«l/VVVVVVV«%'VVt/VV«'%'%VVV%V%k'VVVV%iVV«»'VVVV»i«/V\%V^VVVV«/«i^V%t/V%'VV%V*'VVV%
CAPITULO XXIIII.
Prova maxi largamente^ qve o Hfeaslas he vindu à; que he Ckris-
to nosso Redemplor.
Aurel, Nam tenho q vos perdoar , porq sey quê eu sou , &
■pêra o q sou , & não me tomo de descutianças : E mais cjueria
(se vossa infirmidade o côcede) q tornásseis ao prop<isito, e prO'
vasseis cò mais claros argumètos a vinda do AÍessias còtra? estes
192- DiALOGO TERCEYRO
87—3. homês pobres de vista q vedes jusliqar cada dia. Híi autor mo-
derno relata no seu Itinerário como híia Judia Portuo;ueza q
deste Reyno fugio cõ grades averes , tinha cõprado a Cidade de
Tiberia ao Grào Turco por muita cantidade de dinlieyro, & tri-
buto perpetuo de mil cruzados cada hum anno, cô a qual nova
os Judeus q moravão em Palestina andavão muyto alegres c5
esperãças q morado elles à sombra daquella Seuora da sua na-
çíio, em aquelle lugar avia de vir o Messias. Diz mais, q es-
tando em Veneza , «Sc cOtinuando a sua Synagoga os mais dos
Sábados por gostar de os ver goayar , & cabecear , veyo a entê-
der q se tratava entre elles , «Sc tinha por cousa certa q dahi a
sete ou uyto annos avia de vir o Messias. Itê que hua Irmã da-
quella Judia Portugueza , entregou suas riquezas à Senhoria de
Veneza para que cõ certo interesse lhas guardasse, & desconfia-
da da vinda do Messias, deixou de ser Judia, & deu em ser
Gêtia. Outro tanto fez hu Judeu natural de Santarém ; cousas
que certamête me entristece, & provocão a lagrymas cõpassivas,
vendo a cegueyra assi destes como dos que passam pelo fogo sem
sentimento algu de sua desavêtura, mais indurecidos & empe-
dernidos q mármores e sua perfídia. Nam hà muytos dias q em
liu Cadafalso do Sãto Officio, se mostrou ao povo híi presbyte-
ro da nação pregador & graduado em Sancta Theologia. O qual
côfessou que sempre fora Judeu , & que não tivera tenção de
tomar ordês, mas q se ordenara por remédio humano, nê de
celebrar , & absolver os penitetes , nè de baptizar , & ungir , &.
q nunca crera o mysterio da Sãctissima Trindade , & sèpre du-
87 — 4. vidara da virgindade de nossa Senhora. Hora mysturai o sangue
Portuguez com o desta gente. O Apostolo diz, q esta gente hâ
de ser cega , & ha de ter o vèo de Moyses sobre o rosto ate q
toda a Gêtilidade venha à Igreja & seja alumiada. E ainda q o
Apostolo diga q esta cegueira não he ê todo o povo Israelitico
senão e parte , quõ pode saber se os q morão neste Reyno sam
da parte cega, ou da alumiada. E parece q são dos cegos pois
por força vierão ao Christianismo, & nao por võtade , & suas o-
bras & maneira de viver manifestão q ainda o velame está na
face de Moyses. E parece q miraculosamête esta Deos manifes-
tado sua palleada Christandade , ê permitir que nunca percão
este nome de Christãos novos. Ficando o? de todas as outras na-
çõis acabados de bautizar Christãos sem titulo de novidade. Per-
missam divina q nos quer mostrar quà novos estão no q cupre
para Christãos. Guardevos Deos de mysturar vosso bõ sangue
Portuguez cõ o seu q he mà liga para tam fino metal & de tan-
tos quilates em todo mundo. Lebrame q conversava hum Chri^-
tão novo docto nas letras humanas, & arte de Medicina : nota-
va sua pessoa, as palavras & obrasj a misericórdia de q usava còs
DA f;F.NTE .1TJDAICA. 193
noccseitados , & de cada vez me parecia mais Christao ! o qual
foi preso polo Sãcto Oftkio , & a cabo de quatro annos q esteve
no cárcere , o vi queimar por Judeu : & nam quereis q choro
isto? Ccrtamête q se meus olhos tiveram mais lagrymas q as
que verterão os filhos de Israel sobre as correntes do Euphrates, .
as tivera por bè empregadas em lamentar a sorte deste povo mi-
serável.
j^nt. Nunca fuy cõtra a razão, nem o posso ser vendo a muy- 88— -1.
ta, cõ que desta gente cega vos doeis. Mas côtinuando o que
pedis digo, q Jonatas Chaldaico, traduzio aquelle lugar de I- Cap. 66.
saias : Antes das dores pario, antes q chegasse o parlo pario ma-
cho; nesta forma. Primcyro que viesse a angustia a Judca foy
feita salva, & antes que lhe viessem as dores do parto foy revê-'
lado o seu I?ey. Quis dizer que antes que Hierusalem fosse cer-
cada de Tito , ja tinha Salvador ; & antes que fosse assolada ja
tinha parido o Messias. Assi entenderam este lugar com Jonatas
os antiguos líabis dos Judeus. Pois se o Messias avia de vir an-
tes que os Romanos destruíssem Hierusalem , & ella foy destruí-
da ha mais de mil quinhètos e tantos annos, que duvida pode
aver agora em ^er ja vindo? Foy tam recebida esta interpreta-
ção de Jonatas que muytos Judeus vendo o estrago de Hierusa-
lem , assentaram entre si q era vindo o Messias , & que o fora
Barchozibas. Itè que responderão os Judeus cegos à trasladaçam Tsal. 3.
dos setèta interpretes ? A qual onde diz a nossa : f^ce animce corwn
quoniam rcddita nunt ci mala, trasladam : Ay da alma daquel-
les, q tomaram mào cõselho contra si dizedo; prendamos o jus-
to porq he inútil para nos. Manifesto testimunho he este contra
os Judeus ^ prèderã a Christo, e o poserã na Cruz cô diabólica
pretensam de extinguir seu nome, & apagar sua gloria. Mas
elle triumphando da morte, esclareceo, &, clarificou sua pessoa
&. fama por todo o Universo : & os Judeus passaram , pelo fer-
io cruel dos Romanos, âs penas eternas do inferno; & os que es-
caparão da sua ira, ficara níservados para afflições, cárceres,
desterros, infortúnios, & afrontas se conto. E inda q despejada- 88—2.
mete quisesse mascabar a autoridade dos setèta & dous varões de
grande erudiçã nas leiras gregas & hebraicas, de que 8. Agosti-
nho disse , que o espiritu , que residio nos Prophetas quando De Civita-
prophetizarâ, residio tambè nelles, quãdo interpretaram suas te Dei lih.
prí phecins : 5c S. Hieronymo algíias vezes disse, q foram cheos 18. ca. 43.
do Espiritu Sancto : para mostrar esta verdade aos Judeus de
ser ja vindo o Redemptor, devera sò bastar o que prophetizou
Jacob em a hora da sua morte, se por secretos juizos de Deos Genes. 40.
nam tevera e«ta gente nuvês tam grossas sobre os olhos ; denun-
ciou aqiicllc juRiissimo Patriarcha a seus filhos no Om de sua vi-
da, ij o Rívno avia de caber em sorte à Tribu de Judu : & que
9b
191, DIALOGO TURCEVUO
depois se avia de tirar delia, & lop^o viria o Messias; Nam be
tirara (diz) o septro do Tribu de Juda, tè que venha o que ha
de ser enviado, & elle será a esperança das gentes : & pois o
septro lhe foy tirado em tempo de Hcrodes Ascalonita, infali-»
velmcnte se segue, que veio o Messias, & que he Christo JESU,
Consta a todo o mundo que na vinda deste Senhor estava Judea
sojeita aos Romanos, & a Tribu de Juda caida de sua gloria
antigua , & tirada de sua potencia , & Real magestade , como
testiíicão Josepho, & S. Agostinho., Bem sei que torcem os Ra-
binos per muytas vias o texto desta prophecia por nam serem for-
çados a côfessar, que he ja vindo o Messias,
%/V»iVVVVV\'VV%%'VVVVVVVVk'\'\>VVVk'VV%/V\VV%ll%%t/VV%/V%irvVt'\>%VV«iVV»/l'V\VV\iVVVVVll
CAPITULO XXV.
'' Sobre o mesmo Thema.
Ant, Huns dizem q se comprio em tempo delRev Saul, que
fíiJ — 3. nam sendo da Tribu de Juda foy Rey dos Judeus; outros, que
em tempo de Nabuchodonosor quãdo aquelle Tribu foy captivo,
& o seu principado se interrôpeo; mas a verdade he , que nun-
ca o septro, & poder foy totalmente tirado daquelle Tribu, se
não em a vinda de Christo. Depois de Saul reynaram David ^
& outros muytos, & depois do cativeiro Babylonico tornou a
Tribu de Juda a continuar com seu principado. Porem em tê-
po de Christo assi soccedeo Herodes estrãgeiro em o governo da-
quelle povo, que de mil & mais de quinhentos annos para cà
nam teveram nelle os Judeus successam algíía. No Livro dos
Keys se lè que fugindo Elias da Raynha Jesabel para o monte
Oreb : & sendolhe por Deos mandado que parecesse ante elle,
«e levantou hua grande têpestade, que sovertia os montes, &
mohia as pedras : & após a tempestade se seguio tremer & abra-
sarse a terra , & por fim hum sovio de ar brando em que Deos
vinha. Quis Deos mostrar a este Propheta o que avia de acon-
tecer ao povo de Israel , sobre o qual veio primeyro o Rey dos
Assírios , que desbaratou os dez Tribus. E depois sobre o Tribu
de Juda, & seu Reyno veio Senacherib que o conturbou, & a-
medrontou, «Sc Nabuchodonosor, que o abrasou, òc por derra-
deyro se seguio o sovio do ar delgado, & fresca viração da hu-
milde vinda do seu Messias. Pois a prophecia de Isaias, desda-
quellas palavras , Nam tem forma nem fermosura , toda quadra
a nosso Senhor JESU Cliristo, & de nenhua outra pessoa se po-
de entender , nem do povo de Israel , quando estava affligido ,
& íeiido da mão de Deos. Porque Isaias era do povo judaico, 6i
D.\ OENTE JUDAICA. 19*
dizia; elle foi ferido, & chagado por nossos peccadoa, & vexa- 80—4.
do j)í r nossas maldades , dle levou sobre si nossas dores , &, cn-
femiidadcá : &. os Judeus foram afílilos, & vexados por seus pec-
cados, &, nam pelos alheos. Item como se podem acc(5modar aos
Judeus aquellas palavras. Por nossa paz veio o castigo sobre el-
le, tSc as nódoas, & vergões de seu corpo foram saúde nos^a? Por
ventura as outras naqões tirarão algíi proveito das calamidades
do povo Judaico? Pois as palavras seguintes a quem serão con-
venientes se nam a Christo? Todos nos erramos, & cada hum
seguio seu caminho, & chegou a elle a pena de todos nòs outros.
Hora fazei força àquellas palavras (como cordeyro será levado à
morte, & emudecerá como ovelha ante quem a trosquia, & nam
abrirá sua boca) que covenhao aos Judeus assanhados, soberbos,
reveis, indómitos, maldizentes, & cruéis. Finalmente a derra-
deira palavra deste oráculo de Isaias , desfaz todolos fingimen-
tos , & sonhos dos Rabinos ; foy açoutado por causa das prevari-
cações do meu povo; ou vede se lhe pode quadrar o que se se-
gue ; Nam fez peccado , nem se achou engano em sua boca.
Anrel. Sabidas são do todo mundo suas trapaças , ingratidões ,
incredulidadeíj , & idolatrias , de que estão cheas as sactas Escri-
pturas ; & suas Ímpias queyxas , & blasphemias , contra Deos ,
& Moyses , & a deshumanidade de que usavão com o próximo.
Perseguiâo com pragas & maldições todolos homês que nam erão
de sua crença , se se nam convertiam às ceremonias &, ritos ju-
daicos , que a estes , como diz Josepho , offerecià muytas cou-
sas. Pelo que veio a dizer Cornelio Tácito, que tinhão os Ju- 89 — 1.
deus grande charidade entre si , &. que não tinhão piedade cò Lih. côtra
outra gente. Erão crudelissimos inimigos de pobres; 6c tam sem Apwtian
misericórdia 5 q compellião a muytos venderêse a si mesmos. Lib. 21.
>íê creo que ouvesse entre os Judeus animais depositados para os 3. Eidr,
pobres usarem delles. Isto poderão fazer os Lacedemonios , por- c. 5.
que eram mais humanos, dos quais se diz que tinham cães, &
bestas còmus a todos, &. cada qual necessitado as podia tomar
no campo, &, no caminho não as avendo por então seu dono
mvster, 6c q os pobres jx)diam tomar qualquer cousa alhea que
llie fosse necessária. Que mais ha myster para se ver claro sua
crueza, & dura condição? não mostravam a fonte, nem o ca-
minho aos estrangeiros, como afluma Juvenal.
Non môstrare via , eadc nisi »acra colêti , Sati/ra 14.
Qiiccsilú ad fonte , solas dcducerc verpos,
E disto pode notar os Judeus a molher Samaritana quando se
escusava de dar agoa a Christo, porque os Judeus nam a davão,
nem còmwnioavam côs Samaritanos. Quanto mais humanos fo-
ram os Alhenienses, que tinhão por grave peccAdo, não mos-
trar o caminho a quem hia errado, & nas publicas festas se
ib «
lOC líIALGGO TliUCEVJlO
cantava entre elles hum verso, que declarava por ímpio os que
o nam mostravão. Por ventura se lhes pegou este costume des-
humano aos Judeus dos Egypeios, dos cjuais conta Estrabo que
excluhião os peregrinos, sem os querer hospedar. Inda que Jose-
hò- 17. íf pho diz que nam se mostravam estranhos os Judeus aos peregri-
l\b. f2. con- nos se nam no espiritual, & c|ue no temporal os tratavào com
tra ylpio- clemência. Em fim quam piedosos fossem bem o sabemos do
nan. Evangelho, pois reprehendiam os ^ se vinhào c\irar cm sabba-
89— 2. do, & murmuravão de Christo porque os remediava. Mais se
compadeciam dos brutos animais que dos homès, pois àquelles
davam de comer & beber nos sabbados , &, os levantavam se ca*
hiam ; tratando estes com aspereza , se nas festas soccorriào aos
enfermos necessitados, & calumniando o Medico que os sarava.
O' que gente esta , para dizer com a dureza de suas entranhas ,
o oráculo do Propheta Isaias que agora referistes? Que cordei-
ros? que ovelhas para soffrerê trabalhos &. tormètos pela saúde
7^.3. p, 8. do próximo? César Baronio diz, que híia das razões q moveo
os Emperadores Romanos que se tinhâo por justos, a perseguir
a ih dos Christãos , foy parecer lhes , que nascera da naçam dos
Judeus , os peores , & mais desprezados de todos os homes do
mundo , & por esta causa o era também a nossa religiam , tan-
to q lhe chamavam superstiçam judaica. Mostrarão Trajano, &
Adriano o ódio que tinham aos Judeus nos males q fizeram aos
. Christãos , tendo o Christianismo por vergôte q brotara do tron-
co do judaísmo & q quasi era ima religiam a de híis & doutros,
em tanto que aos Christãos impunham o appellido de Judeus,
cousa que accendeo a ira dos gentios contra os nossos & impor-
tou grandes males a toda a Christãdade. Donde também veio
pintarem os Gentios o nosso Deos com duas orelhas asininas,
& hum pè ungulado , como refere Tertulliano , em desprezo da
Religiam Christaã, porque movidos de levíssimas conjecturas,
tinham assacado aos Judeus que adoravão a cabeça do asno, ôc
89 — 3. pelo mesmo caso a dava por Deos aos Christãos por ser a sua re-
ligiam chegada à dos Judeus. Híia das conjecturas era criarem
os Judeus asnos , & nam cavallos , aos quais na ligeireza erão
iguais , em a Regiam de Arábia & Palestina como affirma Ori-
fíom. 15. genes. A outra, cjue hum asno padecendo elles sede os guiara a
in Josué, híia fonte , & que a asna de Bala chamado a amaldiçoar o po-
vo de Israel , se queyxou de seu dono que a levava consigo , co-
mo q acodia pela gente Israelitica. Agora folgaria que lhes
mostrásseis como Christo nosso Senhor he filho natural de Deos,
inda que para elles tudo he escusado, pois poseram as mãos so-
bre os olhos despedindo de sy os rayos serenos da divina verda-
de ; & sobre as orelhas por nam ouvirem a prègaçam de Sancto
Estevâk) prrucipe dos Martyres.
PA ge:íte judaicai 1*J7
CAPITULO XXVI.
Da Virrvpe-^a òf verdade da Lei/ de Cliristo.
yínt. A expcriecia mostrou q muytos Judeus vendo a conver-
sam dos Gentios, &. sanclidade dos Christãos, receberam a agoa
do Baptismo. Viam que cò a Ley de Christo nos vinliam todos
os bens juntamente. A verdadeyra sapiência acarretou para as
Kepublicas Christàs todas as cousas preciosas com q a humana
felicidade floresce, convém a saber Reynos, principados, digni-
dades, estados, governo, & excellente administraçam. Em tan-
to cjuo se os Christàos vivessem limpamente , segundo o Evan-
gelho, & suas leys, seriam prosperados, & bem affoitunados
sobre todas as naçtics do Universo, & avantajados nas honras, 89—4.
& magistrados politicos. Mas as demasias, & supérfluo cuydado
da carne, as curiosidades da mesa, vaidades dos ley tos, & dos
vestidos, as soberbas, &, ambiciosas pretençòes, as opiniões con-
tumaces & perfiosas, as contenções, & puntinhos curiosos da
vanissima honra, deram comnosco a travez. Ja pela corrupção
dos mãos costumes, & escândalos, que de nôs damos, nam po-
demos converter os infiéis, se Christo nam acodir pela gloria &
honra do seu nomo. Nam sei se diftirimos dos pagãos em algua
cousa, salvo na Religiam. Mas toda via por cegos que sejam os
.íudeus, nam podem deyxar de ver a gloria & fermosura da
Christandade , a sua limpeza & resplendor; as flores & lilios de
tantos religiosos, e religiosas q vive ê perpetua continecia : a
purpura triíiphal de tantos Martyres, a sapiência & virtude de
tantos Confessores, & Doutores; & isto oiivera de bastar para
sua conversam, porque tal he a potencia & lustre da virtude,
que ate aos inimigos põem admiraçam , & os atrahe ao amor de
sua limpeza. Gravemète disse hiia vez o Papa Pio Segundo,
que bastava sò a honestidade , limpeza , & fermosura da Reli-
gião Christã, para ser amada, &, recebida do mundo, inda
que com tantos sinais, <Sc maravilhas nam estivera cõfirmada.
Quanto mais que alem dos milagres, & prodígios que na pri-
mitiva Igreja a acreditara, está tam provada com razoes de va-
rões insignes em engenho, & doutrina (dos quais ouve em a
piedade Christã copia , & abundância felicíssima ) quo nam se
pode mais desejar do entendimento humano. Grande argumen-
to ho da verdade de nossa Ley (diz hii docto de nossos tempos) F^^wca,
ver que nas outras sedas, & crenças, quanto o homem he mais 00 — 1,
agudo, tSc mais sabe q os outros, tanto menor caso faz delias;
& assi alrotava Luciano dos seus Deoses, dizendo que o verda-
deyro Hercules estava no inferno , & a imagem delle andava eh
neste mundo, & que na nossa religiam única h sò verdadeyra,
quàto cada híi foy niais sabío, tãto foy mais admirável Chris-
tão. Depois que a nossa fè foy ouvida , & pregada pelo mundo ,
toda a erudiçam , & felicidade de engenhos se passou pêra os
nossos , de modo q os letrados da Christandade foram os mais
doctos (Sc sábios de todos os homes de sua idade. Que mais se
pode dizer pela verdade Christaã , que todalas razoes macissas
& firmes côsentirem com ella? Hua cousa se me offerece , que
nam posso dizer sem lagrymas compassivas, dos Judeus, q a
nam vem porque lhes falta a celestial chelydonia que desfaça os
Svp, Psal. nevoeiros de seus olhos; & he, como dízS. Agostinho, colheren-
ii8. se as primícias da fè daquella gente , & ainda que sò a Virgã
Sanctissima Madre de Deos fora de antre elles elegida, gran-
díssima mercê lhes fizera o Senhor, quãto mais sendo esta graça
tam cumulada. Porque do mesmo povo foy o justo Joseph esposo
da Virgem , o sagrado Baptista com seus pays , o venerável Si-
meam , a Santa viuva Anna Nathanael, os Apóstolos, muytos
dos setenta & dous Discípulos , & Sâto Estevão , flor , tSc immor-
tal primícia dos sagrados Martyres ; «Sc após estes creram logo
três mil Judeus, q foram baptizados em hum dia, & depois
sinco mil , &, outra vez dez mil , dos quais era a alma híía & o
00 — 2. coraçâ hum em Deos, alem de outra multidam , que a diviua
In y^cí. y:/- Escriptura nam expressa, como advirtio S. Joam Chrysostomo.
poiiioLc.2. E que nam envejem os Judeus de agora esta tam antigua glo-
ria , tSc ornamentos de sua naçam ?
Jiurel. Hum Judeu depois de se fazer Christam apostatou da
nossa fè pêra a secta malvada, & suja dos Turcos, dizendo que
lhe nam quadrava a nossa Ley em quanto affirma ser Deos pay,
& ter filho natural.
Ant. Conformouse com Mafamede em negar que pode Deos
ter filho , receosos ambos que tendoo estevesse o mundo em pe-
rigo. Porque o filho com desejos de reynar tomaria armas con-
tra o pay, & assi averia guerra entre os homês, & os Anjos.
Digna razam de seu inventor. Cuydou Mafamede que o filho
de Deos fosse tal como Júpiter que lançou dos Ceos seu pay
Saturno, segundo fingem os Poetas.
SA GENTE JUDAICA, l^H
%/%/V%V\»'V*t*'*VV*VV\»/Vl(VV\VV%M/%*/VVVV\VVVV\'%»'\'VVV*VV\VV\VV»VVVVV\VV»V'VV
CAPITULO XXVII.
Que Chrhlo he filio natural de Dcos.
Ant. Mas deyxadas eslas imaginações baixas & infernais, ou-
vi a siimma philosophia dos nossos Thcologos. Cada natureza
gera segundo a faculdade & virtude que Deos lhe deu, & assi a
razam de gerar em Deos ha de ter proporiam , & conformidade
com sua natureza. De maneyra que Deos nam gera segundo a
condiçani do homem , mas segundo a divina admirável , <íc es-
pantosa. Gera Deos a Deos, o eterno ao eterno; & aqucUe que
para obrar nam ha mister ajuda dalguem , gera per si seu filho
tam semelhante a si, que he a mesma essência de todo com el-
le. Parece aos infiéis, q a Deos sendo como he no viver eterno, 90 — 3.
& na perfeiçam infinito, & acabado em si mesmo, nem lhe era
necessário ter filho, nem menos lhe convinha gèralo : porem co-
mo a esterilidade seja híi género de fraqueza, & pobreza, «Sc Deos
seja tam poderoso, & rico, he necessário que seja fecundo. E
porq Deos he summamente perfeito, foy necessário que o modo
de que gera & põem em execuçam a infinita fecundidade que
em si tem, fosse summamente perfeita, de sorte C]ue nam so
carecesse de faltas, mas também se avantajasse a todas as outras
cousas que gerão com aventajens que se na podessê taxar. E por
tanto pêra Deos gerar seu Filho, nam usa de terceyro de quem
o produza com sua virtude ( como fazem os homês ) mas gerao
de si mesmo, & de sua mesma sabedoria, com efficaz força de
sua feciididade , como se cila fora o padre & a madre : E assi
para que o entendesse os homes ao seu modo ( que somente en-
tendem o que o corpo lhes pinta ) a divina Escriptura atribue
ventre a Deos, & que diz a seu Filho : Do vetre antes que nas-
cesse o Luzeiro, eu te gerei. De sorte que em a sagrada Escri-
ptura chamar a Deos Pay , nos diz que em sua virtude o gèru;
& em dizer que o gera em seu ventre nos ensina, que o produ-
ze de Bua sabedoria, & que elle sò basta para produzir este bem;
E porque a divisam he ramo de desemelhança , òc ]irincipio de
desconformidade, assi como foy necessário que Dcos tevesse fi-
lho porq a soedade nam he boa, assi convcio q o l*'ilho nam es-
tivesse fora do Padre, porque a divisam & apartamento, he
cousa perigosa, & occasionada ; & porque na verdade o filho que
he o m<'smo Deos , não podia ficar senão no seo & entranhas do 90 — 4.
mesmo Deos pois a divindade forçosamete he híia &, nam se a-
parta nem divide. Donde por ser íilho gerado se segue que não
âOO J>IAI.OaO TERCEYKO
he a mesma pessoa do Padre que o gera , & por estar no seu
seo se convence que tem a mesma natureza (\ elle. E assi o Pa-
dre , & Filho são distinctos em pessoas para companhia, & hum
em Cisencia & divindade para descanso & concórdia. Este he
luitn dos Mysterios que Deos quis ficasse em nosso credito, &
que os nam vissemos; mas que a fè fosse meio para a vista dei-
les , & por ella crêssemos aqui o que no Ceo avemos de ver , &
merecêssemos prémios que excede nossos méritos , crendo o que
nâo sétimos , nem vemos.
Aurel. E que custava a Deos ja que nos mandou crer este &
outros profundos segredos, fazer que os penetrássemos aqui cõ
entendimento, & parece que fora para elle menos isto do que
fora acabar com o mundo que os cresse.
yínt. Se Deos em quanto objecto da f è , se poderá penetrar,
ouvera grande desigualdade na fè dos homens , como o ha na
capacidade de seus juizos. O entêder he de poucos, & o crer
que pende da pia affeiçam da vòtade ajudada de Deos he de
todos, donde vem poder o homem ser constrangido a fazer ou-
tras cousas nam querendo, mas sem querer nâo pode crer; &
assi inda que seja de rude engenho , & entenda pouco , no q
toca à fè, pode ser igual aos outros. Creamos o que nam al-
cançamos , & Deos quis que crêssemos. E pois cremos que Deos
he summo bem, cujo he próprio comunicarse summamete, crea-
91 — 1. mos também que por ser este não podia estar sem communicar
sua substancia. E se algus Judeus negão a divindade ao Mes-
Cfíp. 26. sias, a sua Ley tSc Prophetas lha confessam. No Levitico falan-
do Deos còs Hebreos diz assi , Eu sou o Senhor Deos vosso , nS
façais para vòs idolo nem estatua esculpida, & andarei entre
vos , & serei vosso Deos. Deos he o que fala & promete de an-
dar entre os. homens; & como seja espirito, não podia andar
sobre a terra còs passos corporais , senão tomando carne huma-
Ca-p. 25. na , & assi se entende o que disse Isaías : E diram naquelle dia
este he o nosso Deos , veloemos , salvarnoshà. Os antiguos Rabis
entenderam estes lugares do Key Messias, & affirmarão que a-
via de ser Deos & homem visível entre os homens : os quais co-
mo ja disse , sendo quasi contemporâneos dos Apóstolos , enten-
deram melhor as Escripturas que os que vieram depois do Thal-
mud; não perdeo algíia cousa de sua omnipotência a divindade
em Christo, nem a forma de servo violou a forma de Deos,
Porque Christo tem duas naturezas divina & humana, & em.
ambas he o mesmo Filho de Deos, hum supposto, híla pessoa
que tomando nossas cousas não perdeo as suas. Hum he Chris-
to, não por confusam de substancia, mas por unidade da pes-
soa. Elegantemente pòs isto Prudencio na Psychomachia di-
zendo.
"DA GENTE JUT)AIí!A, 201
Ille mand quod semper crat , qnx)d non erat esse
Jnclpicns , nos qiiod fiáiniis , jmn non sumus micti.
Nascendo m vidlns inihi conlullt , 2( sihi mdnsit.
Ncc Deus cx nostris mimát sua , sed sua nostris
Dum trihuit , nosmet dona ad cwkslia vexit.
O Filho de Deos encarnado ficou o que era , & começou a ser 91—2.
o que não era, & nòs crecendo nao somos os q fomos. Nascendo
Christo melhorou nos cò a ])arlicipac;íio de sua divindade, & fi-
couse cõ nossa humanidade, sem com ella perder nada do seu,
& unindose com nosco nos levou consigo ao Ceo. No ineffavel
sacramento da Encarnação do Filho de Deos alapar se cobrio o
esplendor da divina Magestade, & se manifestou o cãdor da
bondade & misericórdia de Deos. Que sua sagrada humanidade,
em que se manifestou , ficando juntamente de baixo delia sua
divindade , fov como espelho em que se viram as entranhas da
piedade & paternal amor de Deos para a geração humana : na
qual tais obras fez, tais injurias sofreo por nos remir, que pas-
mão os que as considerão. De sorte que se cobrio o Filho de
Deos cò a carne para melhor nos poder descobrir as riquezas &
thesouros de sua misericórdia. Ha cousas que sem primeyro se-
rem lumiadas, nam podem ser vistas : & ha outras que se hão
de escurecer para se deixarem ver : as tenebrosas hao mister ser
illustradas , & as muyto lúcidas , encubertas. O Sol pela excel-
lencia de sua luz , nam se deixa ver de nòs se se nà mete por
meio algíia nuvem entre nòs & elle ; assi o Lucidissimo Sol de
justiça metido de bayxo da nuvem de nossa carne, he melhor
percebido de nòs. Pois como aquella luz inaccessivel, por se ac-
commodar à fraqueza de nossa vista , ouve por bem de se co-
brir ; assi aquella summa sapiência , por condescender à rudeza
humana, como mãy se accõmodou , & nos falou, avendose co
nosco não a seu , mas ao nosso modo. E o q mais he , deceo aos
noísos bayxos paraq estribados & arrimados a elle nos levãtasse 91—3.
aos seus altos. Os q a modo de serpeies se arrojavão pelos bes
da terra, per beneficio de sua Encarnação, começarão de amar,
& conversar o Ceo : & conhecendo pelo mysterio do Verbo en-
carnado, a Deos visivelmente, por elle forão rebatados ao amor
das cousas invisiveis. Quando o enfermo tem fastio aos manjares
proveitosos, & desejo aos danosos; cò estes lhe aduba o medico
aquellcs , & lhe dà a comer hum mixto apetitoso & não dano-
so : as^i a divina sapiência vendo os homes carnais pôs lhe tanta
doçura em sua carne, que não podem deixar de affcctuosamen-
te o amar, & por este mesmo meyo se espiritualizar. Vestiose
de carne , porque a gente que sò na carne achava sabor , achas-
se na sua delicias espirituais, & fosse compellida ao amar & de-
sejar. Fez se homem , porque tevesse o homem a quem podessa
á03 mxLOdo Tiiucr.vucí
ver como homem & imitar como Deos. Em quanto homem po-
dia parecer participante da mesma natureza, & fraqueza; ê
quanto Deos nào podia ser visto; fez se Deos homem para que
Diobiarfi tevesse o home a quê alapar visse, & scg-uisse como copiosamen-
tnsfitut, lU t(; trata Lactancio Firmiano. Donde se conclue que foy necessa-
^/■. 4. rio, o perfectissimo Mestre das virtudes ser Deos òc homem, pa-
ra que nelle tive-isemos magestade , que reverenciar, 6c exemplo
acabado que imitar. Podendo Deos obrar nossa saúde por muy-
tas vias , elegeo esta porque sendo beneficio sem comparaçam
mayor ser resgatado que criado , nam convinha fazermos graças
a Deos , por nos aver criado , & fazelas a outrem por nos avec
91— '1. remido; a Deos por recebermos delle o ser da natureza que he
humano; & a outrê pelo da graça que he divino, & nos faz fi-
lhos de Deos, & herdeyros do Ceo; nao era licito que cedesse
Deos & desse seu louvor át gloria a algíia creatura, nem justo
que com mores benefícios nos incitasse que amassemos a outrem
mais que a elle; por tãto o que fora Criador quis ser Redêptor,
o que avia formado a imagem que Adam deformou , esse a quis
^erm, dt reformar. Porque o homem não dividisse seu amor entre o Cria-
J^dtivit. dor &. Redemptor, o mesmo Senhor o quis formar, & resgatar,
diz Sancto Anselmo, Dei.\o outros porquês , que apontou Sam
Basílio.
. CAPITULO XXVIIL
Da Divindade de Christo nosso Senhor.
Aurel. He de tanta importância , c5tra infiéis , a prova dessa
verdade, que Christo nosso Senhor he verdadeyro Deos, que
folgaria de vos esprayardes mais na ct^firm.açam delia.
Psnl, 44. /int. Num Psalmo que S. Paulo interpretou dȒ Christo em
Heb. 1. a Epistola ad Hebraeos, cuja inscripçào he , Cantlcum pro dlle"
do, isto he em louvor de Christo, cjue o Padre Eterno chamou
Matlh. 3. filho seu querido, onde lemos, Speciosns forma prce filiis hominúj
lee o Paraphrastes Chaldeu : A tua fermosura, ô Messias, ex-
cede a dos filhos dos homes. Em este Psalmo chamou David ao
Messias claramente Deos, dizendo : Sedes hm Deus in sccuhmi
teculi. Unxit te Deus, Deus tuus óleo Icetitice prcc cQnsortibu$ tuis.
Quer dizer. Tu, ò Deos, cujo throno he sêpiterno, foste ungi-
í)2 — 1. do de Deos com óleo de alegria avantajado a todolos outros Prvw
phetas , Reys, & Sacerdotes. Avia chamado ao Messias Deos,
dizendo, o teu throno, ô Deos, he para sempre; óc logo Lio
torna a chamar Deos dizendo; ô Deos, o teu Deos te ungio.
PA GtNTi; JUDAICA» 803
Conforme à fonte hehrea aquelle primeyro Deos , he vocativo.
}i porque Messias no Hebraico, & Christo no Grego significão
ungiJo, querendo David declarar que fallava do Messias, diz,
Ungio te, A Deos, teu Deos. Nunqua Judeus duvidarão desta
verdade tão clara , se o ódio contra Chrislãos , a perfídia obsti-
nada, a impiedade ingrata & as trevas mais que Cymerias lho
nam offuscaram seu triste entendimento. Em outras partes mos-
tra David ambas as gerações de Christo; Kncaminhame Senhor Psal. '21.
(diz elle) em tua verdade , & ensiname , porque tu es Deos meu
èaJvador, Noutra parte diz , Que homem averà que diga a Sion Psal. 86.
(isto he à Igreja Catholica) que hum homem nasceo delia, &. o
mesmo altíssimo a fundou? falando do nascimento temporal do
Filho de Deos. Item o Deos dos Deoses será visto em Sion , co-
mo se dissera, Aparecerá na Igreja o altíssimo Deos visivelmen- Paalm.Hlt
te em nossa humanidade. Deos vira manifestamente; nosso
Dees, &í nuo callarà. Adverti neste verso que de duas vindas de Psat. 49.
Christo faz a Escriptura menção , a primeyra em carne mortal ,
pêra nos salvar, esperada no Testamento velho, a segunda em
carne immortal , glorioso, & com grande magestade, para nos
julgar : & porque nesta segunda vinda ha de vir manifesto a to-
dos, nào ouve paracjue fosse tam manifestamente revelada em os
Prophetas. Que então nâo ha de ser o Senhor recebido por fè ,
mas claramente visto, posto que no Propheta Daniel aja delia 92—5.
algíía indicação. E porque na primeyra vinda , avia de vir o Cap. lít
Filho de Deos feito homem com sua magestade encuberta, hu-
milde , manso , & pobre , & avia de ser recebido por fè , foy de-
cente , que muyto antes por figuras , imagens , sombras , &, Pro-
phecias se apontasse, & sinalasse o tempo delia : caso que para
ficar algum lugar de merecimêto à fè, nunqua se apontou ma-
nifesta de todo, por onde nam foy perfeitamente entendida dos
Judeus, Mas passemos daqui. Isaias falando em pessoa de Deos Cap. 52»
disse. Por isso conhecera o meu povo, o meu nome naquelle
dia, porque eu mesmo que falava, ja sou presente. Nam se
pode entender isto se não de Deos que fallou aos Padres anti-
guos, & se lhes mostrou presente por sinais, trovões, & fogo,
& depois conversou entre os homens feito homem. Elrey David
de cujo sangue o Messias avia do nascer, lhe chama Senhor,
dizendo. Disse o Senhor a meu Senhor. Donde se infere que Psal. 109.
mayor he o Senhor Christo , que David liey , & pay seu em
quanto homem. Por admirável que fora o Messias, se não fo-
ra mais que homem , David Propheta, Rey , & seu progenitor,
antí>3 lhe chamara filho que Senhor , como fez noutro Psalmo Psal. 44»
onde depois de nomear o Rey , que intitula \x>r Senhor & cha-
ma filha à Raynha esposa do Rey posta à sua direita com dia-
dema de ouro, jx)rque nam via nella mais que humanidade.
136 •
SO-1 DÍALOCJO TERCEYUO
Disse pois o Senhor ao Senhor, assentate à minha mão direita.
Nam ha homem nem Anjo por exccllente que seja que se possa
assentar a par de Deos, Sc à sua direyta. Este lugar desejou
92 — 3. Lúcifer, & por isso foy precipitado do Ceo, sò ao homem que
he participante da divina natureza pode caber este assento , & a
Lib.deTn- este sò se disse, sede à dextris más. Tertuliano entendeo que a
niíate çap. lucta em contençam de Jacob com o Anjo foy figura da cjue
27, ouve entre Christo, & os filhos de Jacob, a qual no Evangelho
se rematou. Contra este Anjo lutou, &, côtendeo o povo de Ja-
cob , & alcançou a victoria de sua maldade , & pelo peccado
que cometeo começou de manquejar nos passos de sua fè & sal-
vacam. O qual posto que fosse superior em julgar & condenar
a Christo , teve toda via & tem necessidade da sua bençam , &
he de admirar que este Anjo em figura de homem lutando com
Jacob lhe mudou o nome & o appelidou Israel, isto he homem
que vè a Deos, por onde mostrou que represètava o mesmo
Deos. De maneyra que via Jacob a Deos no homem que tinha
vencido. E por que nisto nam ouvesse duvida o meimo Anjo lhe
disse; serás poderoso côs homens, pois o foste com Deos. Donde
veio que entendendo Jacob o espiritu deste sacramento, & ven-
do dantes a auctoridade daquelle Senhor com que avia luctado
pos nome de visam de Deos , ao lugar da tal lucta , & dando a
causa desta interpretaçam , ajuntou, vi a Deos de minha face a
sua, &. minha alma ficou salva; vio a Deos com o qual luctou
como com homem , & como vencedor o rendeu em quanto ho-
mem , & como seu inferior lhe pedio a bençam em quanto
Deos. Perfeiçoouse esta figura em o Evangelho de Christo, no
qual lemos , que se o povo de Jacob pareceo mayor em o con-
92 — 4. demnar; Christo o foy em se justificar , &, provar sua innocen-
cia. E que este Anjo que luctou com Jacob representasse a
Gcn. 48. pessoa de Deos, testificouo o mesmo Jacob quando com as maus
cruzadas, bediçoou os filhos de Joseph , & disse. Deos que me
sustenta desde minha mocidade atè este dia, & o Anjo que me
livrou de todos os males , dem sua benção a estes moços ; desi-
gnando que o mesmo Anjo na representaçam era Christo filho
de Deos vivo, & que como pay de Manasses 6c Effraim pondo
as mãos em figura de Cruz sobre suas cabeças, os bendiçoava.
E se com razões ouvessemos de disputar còs Judeus, não nos fal-
ta boa copia delias. Disse Christo que era filho de Deos, & pa-
ra confirmaçam desta verdade fez grandezas que claiamète mos-
travam ser elle autor & Senhor da natureza. As quais foram de
todo género , para que se algSa delias de todo não satisfizesse ,
vendo outras muytas & diversas, não ficasse aos homens matéria,
nem occasiam algíia de duvidar. Nam foram milagres fingidos
como os dos Magos do Egypto, das lamias encantadoras de
PA GEiSTi: JUDAICA. SOÔ
Apollonio Thyaneu , ou dos Brachmanes , ou dos que passavam
as searas de híia terra a oulra segundo a Lcy das doze tavoas,
Neve alienciít scgctcs avcrtcris accanlando j mas verdadeyros quais
sò Deos pode fazer. O qual nam he, nem pode ser testimunha
de mííntira, nem enganar, nem ser enganado, pois he snmma
sapiência, & sempiterna verdade. Certamente que bem pode-
mos os Cliristãos aflirmar que o mesmo Deos nos enganou, se
nos enganamos em CIIRISTO, pois lhe deu tanta sapiência,
tanta bondade &. perfeiçam de vida, tantas obras admiráveis, 93— •!.
& o favoreceo em hum negocio , de si tào saudável para todos
& tam digno de sua clemência, & bondade, que se nòs vivemos
enganados cõ razào nos podemos queyxar que elle nos enganou ,
& chamarlhe injusto justamete, & cuidar delle que nos lançou
em este mundo, como em parque de monteria para montear nos-
sas vidas còs cães da fome, peste, & guerra. Como avia Deos
de consentir que prevalecesse tanto a Ley cjue Christo deu cô ti-
tulo de seu fdho natural, & com obras de Deos Omnipotente,
que chegasse a ser recebida por Ley sua dos mais principais po-
vos do mudo por tantas centenas de annos, & o legislador delia
a ser adorado por verdadeyro Deos, não o sendo? i\am se })ode
crer isto de misericórdia infmita, & magestade soberana. Que
nã seria Deos se tivesse menos providêcia nas cousas de sua of-
fensa , da que os Reys da terra tem nas de seu estado, que he
sombra do regimeto universal de Deos, & de seu supremo go-
verno. E se os Reys contra os que falsam a sua hgura , que nas
moedas mandão imprimir, sam tam rigurosos que mandão punir
gravissimamète os que as contrafazem por via de eng.ano, por
ser em perjuizo de seu estado, & dano de seus povos, como se
pode imaginar que deyxou Deos de tomar vingança de hum ho-
mem que lhe tomou falsamente sua imagem , & se lhe levan-
tou cò a divindade, & omnipotência, offendendo em tal caso
summamente sua divina magestade, & fazendose homicida, ua
condenaçam de tantos mil milhares de almas innocentes.
CAPITULO xxviin.
Que na vida , &; na morte , íf depois delia manifestou o SenJwr
JESU sua gloria , òf divindade.
yliirel. A isto diram os Judeus, que assaz pagou seu peccado 93 — 2.
com morrer morte tam affrôtosa & maldita pela Ley de Deos.
Ant. Algo disserào nisso se cò sua morte acabara a gloria de
eeu nome. JVlas elle depois de morto fez mais milagres & con-
jS06 JíIALOaO TERCEYRG
verteo mais gête , pola pregação de seus bayxos , rudes , & fra-
cos discípulo? , do q avia feito sendo vivo. Se Christo fizera tão
grande injuria, & crime Icesce majestath , ao Omnipotente &
universal Senhor do Universo; justo fora q se extlní^uira seu no-
me, cessara a virtude de suas obras, & a eflicacia de sua dou-
trina. Mas nòs vemos o contrario, que a ignominia de sua morte
descobrio aos homès a potencia de sua divindade , & meteo de
baixo do jugo de sua Ley (sendo iam encontrada còs gostos da
carne ) a mòr parte da terra , contra vontade dos que entáo eruo
Monarchas : & foy recebido, & adorado, não cm as aldeãs ru-
des entre rústicos, mas no meio das doctas Athenas, & da poli-
cia de Roma princesa do mudo, onde todas as sciècias naturais
& morais grãdemête florecião. As quais assi se renderão, & en-
tregarão cò as mãos cruzadas voluntariamente à fè de hum ho-
mem crucificado pelos Judeus, sã favor nem valia dos grandes;
que se aviam por ditosos os que por sua honra se offereciam a
mortes crudelissimas , arriscando suas vidas & fazendas de boa
93—3. vontade. Quando a Luciferina soberba chegou a querer usurpar
o que era próprio da divina Magestade, nam lhe espassou Deos
o castigo ; «Sc por outra parte favoreceo tanto a Christo nosso Sal-
vador , intitulandose por seu Filho Omnipotente ; que foy hum
vivo fogo, para os q mais o côtrariarào , & perseguirão, como
testificam as oppressòes, &. affrontas em que inda hoje se vera
os Hebreos. Mas pois os Judeus pelas obras, & vida de Christo
(que segundo seu Josepho affirma fora maravilhosas) nam quise-
ram entender sua divindade , choremos sua desditosa cegueira ,
& deyxemos de falar nella. Nam sey para quem nam basta este
Orõe cõíra argumento , que S. Chrysostomo faz. Nam he de puro home,
Gctes, To. em tam breve tempo abraçar todo o universo, emendar os cos-
&. tumes absurdos de tantos bárbaros, sem potencia terrena, sem
armas, sem exércitos, per homês vis, idiotas, & pobiissimos;
& persuadir nam sô aos presentes, mas também aos vindouros,
nova Ley, subverterlhe as leys da pátria, & costumes antiguos,
& em seu lugar plantar os decretos do Evangelho tanto contra o
sabor da carne, & tam desviados dos nortes do mudo. Quem
ensinou aos Sauromatas, & Scythas phylosophar da imraorLali-
dade da alma, & da resurreiçam dos corpos, & dos bes ineffa-
veis da gloria ? Quem domou aquelles ânimos feroces tam subi-
tamente, & os traduzío a tanta brandura, & humanidade, &
à suavidade do Evãgelho? Quem fez os Reys soberbos com seus
septros, & diademas inclinar as cabeças ao crucificado? Sem du-
vida o Filho do Eterno Padre por ministros ignorantes, de que
93 — 4. somente se quis servir neste particular, tanto que sendo Natha-
In Joann. nael dos primeyros discípulos em que pos os olhos, não o admi-
tract. 17. tio no Apostolado, porque era Doctor da Ley, segíído S. Agus-
cap, 1. tiuUo.
DA GENTE JUlíAlOA. Í07
yfnreJ. Porque nam fez Chriâto milagres do Ceo sendolhe pe-
didos tantas \e2es?
yínt. Bem poderá o Senhor fazer sinais de mòr magnificên-
cia , & pasmo para o juizo dos ignorantes. Fácil lhe foru fazer
parar o Sol no Ceo, ou lornalo atras como ja avia feito : mas
lembrado do sou nome, tratou mais de fazer maravilhas que
juntamente fossem milagres, dk. benefícios que declarassem ala-
])ar a potencia de sua divindade , & a grandeza de sua charida-
de. Tais eram suas curas nam mtmos proveitosas, «5c saudáveis
aos homès, que a elle honrosas & gloriosas. Que de sua parte
mais pretendia negociar com cilas nossa sauile que sua gloria,
remediar nossas misérias q procurar nomo «Sc hora. S. Hierony-
mo diz, que nos sinais do Ceo te mayor lugar os enganos do
Demónio , príncipe deste ar , e assi pedindoos os Phariseus , des-
cobriram mais o fio de sua malicia , & trevas de sua cegueira ;
pois nam crendo os sinais certos, & palpáveis que cõ seus olhos
ante seus pès vião, pedião os do Ceo; onde podesse achar occa-
siào de mores caliinias : nam respeitando , q nunqua Christo se
lembrou tanto de sua gloria q se esquecesse de nossa saúde, an-
tes assi ajuntou sua honra com nossa utilidade , que aquillo
principalmente teve por glorioso, q a nOs era mais necessário,
iSc proveitoso.
Aurcl, Preguntão os Judeus quando se comprírão os oráculos;
de Isaias , íj se converteriào as landas em fouces , & o lobo mo-
raria cô cordeyro, & o minino meteria a mào na cova do Ás-
pide (St do Basilisco ? Parque dizem que isto se ha de comprir à 94—1,
letra na vinda do Messias.
yJnt. Nam pode ser mayor desatino que o dos .ludeus em
cuydar q pela vinda do Messias se ha de mudar a natureza das
cousas; & que o Leão perderá a ferocidade, & o basilisco a pe-
çonha , & que nam averà motes , nem vales , & assi entende
grosseyramente o que Micheas disse. A paz que Christo trouxe Cap, 1.
ao mundo, foy plantar a Ley de amor fraco engenho em tantas difficuldades , q
senão fora vossa pessoa ja vos laçara de mi, por importuno. Que-
reis q satisfaça aos desgostos q tendes de Christãos novos, à. eu
falo dos Judeus que he cousa muyto differente.
Aurel. Não me ponhais culpa porque estou sem espirito & a-
Iheo de mim. He possível que depois de tantos oráculos de Pro-
DA GEXTK JUBAICA. 209
phetas SSctos, tantos tcstimunhos divinos, tantos sinaes, &. ma-
ravilhas do C.\'0, tantas razoes, &. lào efficazes, vivão os Judeus
entre Chriataos, &. que conversem suas ruas, & praças, & vejão
sua policia, & limpeza, & q nâo recebão a verdade & luz do
Evàgelho? Deos seja comipo, rogiuímos lhe que nos tenha em
sua especial guarda, & nos nào deixe cegar. Povo a que Deos
fez tantos mimos, a cuja võtade obedecia a terra sem. arado,
sem ferro, se suor do seu rosto & ( como dizem ) a boca q que-
res, q estava naquelle pomar do Jiidea que lhe manava outro
JVIaná celestial, a quem nunca faltarão Prophetas, nem no ca-
tiveyro de Babylonia cô que se consolasse, nem socorros parti-
culares de Deos, que o confortassem : & que nao caya na con-
ta, vedo q depois que crucificou o Senhor, ne te regalos de
Deos, nê Prophetas, nem Reyno, ne Cidade, nê Temj^lo ,
nem sacrifícios, nê certo Key ; mas anda espalhado por diversas
gentes cativo, menosprezado, & aborrecido de todas as nações
da terra; tSc como malfeytor esquartejado cos quartos postos à 04— -'t.
vergonha em quatro partes da terra fugitivos , desnaturados em
Roxeto, Ilapheto, & outros lugares do Oriente onde muytos
delles lamentando seus trabalhos, dizem cjue seus peccados os
lião tirado fora de Portugal, tSc de Hespanha, nam pêra a ter-
ra de promissam como elles cuydavão, mas pêra a terra da de-
sesperação como com seus olhos vem , & cò suas misérias experi-
mentão. 'íio capitulo terceyro do Propheta Baruch , se preguta
a este jwvo porq mora em terra de gente inimiga, &. envelhece
por terras alheas, onde he tratado com muyto vilipendio, &
sumo desprezo, & dà por causa, aver deixado a fonte da sabe-
duria, & as vias do Senhor. E Moyses lhes assigna a mesma
razam porque no tempo derradeyro passarião mal. Onde os no-
ta de perfiosos, soberl)os & de durissima cervice, & lhes pro-
phetiza, q se mãos foram sendo elle vivo, peores serião depois
delle morto. Se Christo lhes viera quando estavão em Babylo-
nia, elles o agasalharão como fizerão a JVloyses no Egypto : mas Dcut, 3l#
em tepo de bonança nao he conhecida a divina potencia. E o
que me mais espanta ho, q quando podiao merecer com Deos,
guardando a Ley , tmlão idokitravão, & agora que se condènão
com a observância delia , guardão suas cerimonias tao escrupu-
losamente em as Judarias que nê por híi jota passam , côforma-
dose CO a casca , & côdea da letra , & pervertendo o espiritu re-
velado, que os Prophetas, & o mesmo Deos debaixo de seus
enigmas pretenderam.
yínt. Parece , q não errara quê disser q hiia das causas prin-
cipais por que hoje se nam converte os Judeus he sua cobiça. 95 — I.
Filhos sa*) de Caim tão cobiçoso, que segundo Josepho diz, por yíntiq. lih.
cobiça se moveo a cultivar a terra.; esta acabou com elle, que 1. cap. 2.
27
210 DIALOGO TERCEYUO
offerecesse a Deos os peores fruitos de sua colhcyta; €sta lhe
eclypsou o entendimento. Nasce o eclypse da Lua , de ficar a
terra entre o Sol , & ella : porq como a terra seja espessa , deter
se nella os rayos do Sol, sem podere ir por diante lumiar a Lua :
assi em o home, que he híi mundo abreviado, a cobiça das tem-
poralidades , posta na sua vontade , lhe impede , q os rayos da
razão nào cheguem a sua alma. E por que se nao permite aos
Judeus entre Christaos a usura publica, por isso cuydo q estão
mais indurecidos. Ma ha nem ouve nação tam inclinada a usu-
Sup. E%cc. ra, como a Judaica. Donde S. Hieronymo parece dizer, q lhe
18. foy permitida, por razão de sua incredivel avareza; como lam-
be o libello de repudio porq não matassem as molheres sem cau-
Inpsal. 36. sa. O mesmo parece sentir Sãto Agostinho. E porq Christo lhes
conhecia esta inclinação , &, via quais então eram , & quais ao
diante avião de ser lhes pregava q emprestassem & vendessem
fiado sem esperança de ganhos , prohibindolhe a usura , por ser
de si mà »Sí abominável.
Aurel. Em têpo de Augusto César os Judeus q estavão em
£p'jgJib.l. Roma tinhão seu aposento ale do Rio Tiber, & era lhes permi-
in Ccccillú. tido viverê em sua Ley & ritos dos seus antepassados , donde
veyo chamarlhe Marcial, passeadores Transtiberinos que troca-
vào mechas & pedaços de enxofre, com vidros quebrados, como
testificam estes seus versos.
Hoc quod transtibcrinus arnhulator
Qui palleniia sulphura fraciis
Pernmiat vitris.
95 — S. De maneyra q como bufarinheyros cobiçosos, tratavão em mer-
cadorias bayxas.
yínt. Não de balde se lhes meteo em cabeça aos Soldados de.
Tito, sere verdadeyros os rumores q corrião, q muytos dos Ju-
deus saindo de Hierusalê no tempo q a Cidade íoy entrada ,
engolirão a bocados quãto ouro lhes pode caber nos estamagos ,
fazendolhe cofres de suas propias entranhas, a fim de o salvarem
consigo : mas sayolhes ao revés porque a elles lhes fez das entra-
nhas cofres , fez tambê aos Soldados das espadas chaves , com q
sò em hua noyte abrirão as entranhas a dous mil homens, como
conta o seu Josepho. Daqui entendo cu quanto chega sua cobi-
Debd.Ju^qa.. Antes da vinda de nosso Sor (diz Phylo) ouve muytos Ju-
dai. lih. 6. deus q na virtude se conformarão tanto cô a ley natural, & di-
cap. 14. vina , & cõ a sua ley & Prophetas, que parecião a mesma Ley
Lib. de A- q Deos lhe dera , & os Proplietas q lhe enviara hua historia , &
braliam. comêtarios de sua vida & doutrina : & o mesmo Deos parecia
seu Chronista. Alas depois q porfiaram em não receber a Chris-
to por Messias, vierão a tanta devassidão, & perversidade de
costumes q sofre o mào trataméto, & infame caliveyro q passam
DA GENTE JUDAICA, 611
antre Mouros , & Turcos , porq antre elles pode mais livremete
inintír & (;nganac : & em saindo das Eenogas, confessam q isto
vào fazer, & C\ a isto ordcMiarâ suas orações, esmolas, & jojus,
a que Deo» (^s livrr das «guardas das alfandegas, & dè boa ven-
da a suas mercadorias. O ganho das feiras he o que pretêde, &
não o remédio diis almas. Não querem Deos, sem bes tempo-
raes, & com tal que sejáo ricos nam temem offendelo. Km pes-
soa delles, diz Oseas : Dlvcs cffcclus sum , inveni Tdoluin iniln; 9ó — ^5.
Adorem os outros o Deos que cjuiseríi, q nòs o achamos nos hes Osca il.
que possuímos. Deixemos a ley de Deos, (diziào algíis delles
segundo refere a historiados Machabeus) pijis com cila nos vè 1 • -/^^í' c/t . 1 #
perdas ttporais, &. cô a dos gentios logramos os bes da terra:
cuydo <j foy mysterio sere os .Judeus tam amigos do ouro, &, da-
rê a Aaron quàto tínlião pêra lhes fundir o Bezerro, & entendo
<{ o derâo nam para o perdere, mas para o adorare, &, que nes-
te particular a irjclinaçam à Idolatria os fez dissimular com a
da cobiça.
CAPITULO XXXI.
Que nenliúa escusa 'podein ter os Judeus , òf de suas vãs espe-
ranças,
Ant. Bem parece que pf;r serê avaríssimos lhes nam agradou
o nosso Messias. Que cousa ouve nelle que nam fosse digna de
seu nome, Míigestade, & promessa divina? Nasceo delles,
criouse antre elles, fez lhe inumeráveis benefícios, & nííca ti-
\erào que tachar cõ verdade em seus costumes. Tam admirável
íoy a Sàctidade de sua vida, q a mesma enveja (a qual busca
tcda ocasião de calunia) foy compellida a julgalo por inocentís-
simo. E elegantemcte disse Claudiano. In Stilic.
Est ohquod meriU spalui .^ quod rmlla furcniis ImxuI. 3,
fnvidicE mensura cajnt.
Quis c7Úm Irvescerc possit
Quod nnníjvani -peremit ktdlcc , qvod Jwpiter olhn
Poiúdcat ccclum , quod noverit omnia F1na:hus ?
Quer dizer : Ha nrerecimento tam qualificado q por grande que 95 — i.
seja a medida da furiosa enveja, nem he capaz delle. Ninguém
enveja às estrellas sua perpetuidade, nem a Deos a antigua pos-
sessam do (Vo, nc ao Sol nada se lhe encobrir. Item mostrou
Christo ser Sor dos elemêtos e da natureza per vários & pasmo-
sos milagres, nã escureceo mas esclareceo a ley de Moyses, de
tenebrosa a íez lúcida, de vil, nobre, de áspera, brada, e de
27
f3l2 DIALOGO TFJiCEYKO
ignota, conhocida, A sua doutrina foi qual convinha a Deos,
& o premio q nos propôs fuy aquelle q sobra toJalas cousas se
podia, & devia desejar do home. As gentes barbaras & estranhas
renunciarão os Deoses q adoravào desde sua mininice, seus foros
& costumes inhumanos rendendose à obediècia da ley de Cliris-
to, (Sc adorando postos por terra aquella Cruz, em qos mesmos
Judeus o poseram. N js abrasamos & veneramos a ley dos Ju-
deus , & a reconhecemos por divina , porque contem em sy os
testimunhos sacrosantos de Jesu Christo : Em este Senhor ne-
nhíia cousa notaram indigna do Messias, mais que nam ser quais
elles sam , avaros, ambyciosos, sensuays, crueys, sacrílegos, &
blasfemos. Mas porque nào veyo ornado de sedas, carregado de
ouro, de diamantes, & regalado co bisso & olandilha de Judea,
Cu grande tropel de ministros purpurados, & coa guarda dos
Pretorianos que traz o Turco em Constantinopla : & lhes nào
prometeo dilicias, deleytes, 6c refrigérios da carne, o nam qui-
serão conhecer : E inda esperâo por de mais que venha híí tal
Messias qual elles finge, & forjào ê sua baixa phantasia. Deos
hè espirito puríssimo sem algíía liga de matéria , deleytase cos
96—], bes espirituais, òc faz menos caso dos corporais cjue mais convè
aos brutos q ao home & por esta causa os profetas q Deos man-
dou aos Judeus cò alteza do spiritu e humildade da carne forão
delles mal recebidos & pior tratados. Conselho saudável foy da
divina providecia, q o verdadeyro Messias se assinalasse, & mos-
trasse não por poucos, mas por muytos indicios, para que achan-
dose em sò Jesu Christo todos elles, não se podessem escusar os
que nam conhecessem. E posto q o da entrada de Hierusalê com
tão desacostumado triupho, côparado cos da sua morte & pay-
xão , c* seus milagres , & doctrina , & mais maravilhas pelos
outros Prophetas prenunciadas, pareya pequeno : todavia accre-
cendo a elles, he pêra demostrar o seu Messias efficacissimo.
Depois de o fdho se absentar & andar muytos annos fora de ca-
sa de seus pays , se volta a ella , & elles o não reconhece , &,
duvidão ser aquelle, não sò olhão para o seu rosto, boca, mem-
bros , estatura , & feiqÕes de todo o corpo : mas também pêra a
verruga íc sinal piqueno que nelle ou em qualquer outra parte
do corpo tinha : a vista do qual os tira mais prestes de duvida
que a dos outros. Assi tambê dado que esta vileza de cavalga-
duras & modo cõ que foy recebido cotejada co a conversam do
mundo, prègaqão do Evangelho, destruição da Idolatria seja
hum dos menores sinais do Reyno & pessoa do Messias; c3 tudo
em companhia dos outros mayores faz certo ser Redêptor do
mundo na Ley prometido, aquelle em quê conspirarão todos os
indicios apontados danres pelos oráculos dos Prophetas : & assi
confirma nossa fe, & côfunde a perfídia Judaica»
DA G£NTE JUDAICA. '«ÍIS
yínrel. Que significa o Hosana cõ que o receberam ? 9G— ^2.
Ant. Os mais dos |)adres antiguos convê em dizere ser o mes-
mo que no latim, Salva qu<zso, Voz usada oní a Usla dos Ta-
bernáculos, quando deprecàdo os Sacerdotes a Deos o |)OV(í cos-
tunsava responder, IJoaaiia, isto he livranos, ou salvanos te
rogamos, como fazemos nas Ladainhas. Mas porque a gète do
povo ajuntou ao tíosaim , fdio David, & tudo junto nâo faz
sentido côngruo, salvo se dissermos, q he Hebraismo, & quer
dizer; a nossa saúde vem do fdiío de David, parece a Cansio, Dchcisnc-
ser hiaa sò palavra, & significar ramos de arvores tSc em especial vi yesfam,
de salgueyro, com que o povo recebco o filho de Deos. C) qual cap. 11).
género de honra se costumava fazer a so Deos, &. por isso os
Sacerdotes &. Escribas pergutarão a Christo : Audis qui isti di-
ciint * reprehendedoo porque agasalhava a honra que somente a
Deos se fazia. Nem em as divinas escripturas, nem nos auto-
res prophanos que tratarão das cousas Judaicas, se aciía (diz Tom.l. p.
Baronio) que entrando Reys por Hierusalem alguê os recebesse 171.
com ramos de arvores. Os quais nâo sò em a festa da Scenophe-
gia se cortarão, & trouxerão em contorno, mas tambè na re-
cuperação de Hierusale, & repurgaçào das suas immundicias,
quando Simão Machabeo nella entrou louvando a Deos cò ra-
mos de palmas, & cânticos festivais, & quando Judas AI acha- 2. Jlfach.
beo repurgando o Templo instituyo semelhante solenidade, cap. lo.
Donde se vè claramente ser costume antre Judeus fazer se festa
dos ramos sòmete à honra de Deos. Inda q os Gregos tàbõ ccs-
tumavào em os triciphos levar ramos de palmas, o q depois imi- 9G — 3.
tarào os Itomanos segundo Tito Livio. £ notay q a Palmeira, Tit. Liv,
de que os Judeus colherão os ramos com que honrarão ao Seííor lib. 10. m
JESU em significação de seu divino triumpho, por mais que ^nc.
todas as outras arvores se cortassem em o cerco de Tito, ficou
por providècia de Deos sem ser tocada , e durou muitos tempos.
Delia fez commemoraçáo trazèdoa por testimunha Cyrilo Ale-
xudrino. Esperào os Judeus por hii Alessias q os livre do dester- Caíhcc. 10.
ro triste, em q vivem & os reduza a Hierusale sua pátria para
viverê em ócio , repouso e abundância dos bes da terra ; não
sentindo o q sò se devia sentir vivere desterrados de Deos & lòge
de seu amparo & proleyção. Com razão se queyxava Deos per
Hieremias, & dizia. Porventura sou eu Deos de perto, «Sc não
de longe? Alais chegado estava Daniel em Babylonia a Deos
que muytos dos q estavão em Hierusale, & Judea : logo o ver-
dadeyro desterro he estar o home alongado de Deos, &. a verda-
deira pátria he estar conjunto & unido a elle cò pureza de ani-
mo &i \iveza de fè. Este he o verdadeyro culto, & digno de
Deos, que os Sanctos lhe derão em seus desterros & lòga pere-
grioaçào. Nem os Prophetas, Hieremias, Daniel, Ezechicl, &
JÍi4 Dlif.OGO TEUr.EYRO
outros muytrts, choravão principalmente outro desterro senam o
de Deos, ne outro cativeyro senão o do peecado em q os Judeus
avíào de acabar : nê lhe prometeram como premio fmal & prin-
cipal q avíào de fazer volta a Palestina, se não à celestial Hie-
rusale , se aceitassem o presidio divino. Outra cousa esperào os
Judeus do seu Messias ti be g-raça & favor pelos sacrifícios que
96 — í. lhe hão de fazer era Hierusalem : como se tivessem certo , que
por elles o avião de alcançar. Sei q quando os sacrifícios da Ley
de Moyses estavão em seu vigor, não faltavào em Judea homès
malvados , cruéis , tSc ingratos , & que tambê avia falta de Sá-
bios tSí. Prophetas- Na me quero deter noutras mentiras mons-
truosas q os Judeus machinam do seu Messias no Thalraud,
porque as não soffreram vossas orelhas. O caminho da verdade
he único & simple , & o da falsidade vario & infinito. Daqui
nascco aver antre os Rabis tantos erros &. desatinos acerca do seu
Messias. Os que se vê convencidos pelos testimunlios dos prophe-
tas, dizê que em tepo de Herodes nasceo o Messias, mas que
se escondeo por causa dos peccados dos seus : Hàs dizem q está
oscõdido no Monte Sion cos Anjos : outros que ale dos Motes
Caspios : outros que anda mendigando pelo mudo, &, q se ma-
nifestará quando Deos quizer.
yJurd. Andara mercadeiã'lo de feyra em feyra, ínvêtando no-
vos câmbios : ou estará esfolando alguns bodes 6c escorrèdoos do
sãgue. Que os Judeus sam muyto de vazar as carnes do sangue,
por quanto depois do diluvio foy concedido por Deos aos homês
q comessem pescado & carne, excepto o sangue , querendo di-
zer q as não comesse cruas , senão assadas , ou cozidas.
u4nt^ Fingem mais que ale dos Montes Caspios tê hum Rey-
iio cercado de altas serras , & daqui tomão licença de mentir a
seu sabor. Porem a verdade he , que se comprio & ciipre nelles
Cap. 3. o que prophelizou Oseas. Por muytos dias estarão os fdhos de
Israel sem Key , nem Príncipe, & sem ornamêtos Põtifjcaes &
97 — 1. sacerdotaes , & nos tempos derradeyros se converteram pêra
Deos, & para o seu Messias. Judeus ouve tão obstinados que
j)or nam confessarem a verdade & consentirem com nosco, dis-
seram que o Sancto Propheta Daniel errara na conta das hebdo-
madas. Tanto mais pode o odío que nos tem, que o amor &
reverencia que devem à Ley & Sanctos Prophetas. Outros deram
consigo tanto atravez que cõfessaram serem passados todolos tér-
minos assinados ao Messias, & que ja não restava aos Judeus
outra redepção senão sò a penitêcia. Outros maldisserão todos
aquelles que poserão termos à vinda do Messias. Assi he , q se
nam pode escusar de muytos errores quem busca o que no miído
não ha , nem pode aver. E he muyto pêra considerar que antes
de Christo Filho da Sanctissima Virgem Maria, nenhu Judeu
TíA GENTE JUDAICA. álÒ
OUSOU dizer que elle mesmo era o Messias prometido, porqiip
esta honra ii. gloria estava toda reservada pêra o Senhor JESU
nosso Salvador. Porem depois de elle , muylos sem ver;,'onha
ousarão usurpar a dignidade do Messiado, como consta de va-
rias historias & memorias antiguas. Atè hií Demónio se fez Mes-
sias & acabou cõ muytos Judeus q navega-sem da Ilha de Cân-
dia pêra a terra de Promissão, para onde lhes dizia, que os
queria passar, mas por fim deu com elles em as profundezas do
Alar, como atras fica dito. E ainda em nossos temjxjs, os Ju-
deus se dam novas de novos Messiíis nascidos em diversas re-
giões, & imaginam sinais de suas vindas esperando por elles a-
tè certo tèpo que lhe limita sua cegueira.
CAPITULO X.\XIÍ.
De que culpa hc pena a dcsavcniura dos Judeus^
j4urcl. Bem paga e^la nação o sangue do Justo que derrama- 97 — 2.
râo em seu furor. Gregório Nazianzeno a este prepcjsito disse q 0,-ui. 12.
ouvera Deos por bem que todo o mundo fosse testimunho das
misérias dos Judeus. Os quais nem pola experiência de tanto
tèpo (que he mestra de ignoràtes, como a razào dos Sábios) se
emendarão, sendolhc por Chrislo dito muytos annos antes todos
os castigos, q até agora sobre elles vieram. O Projiheta Isaias Cap. 7,
diz, q ficarão os Judeus destruídos sem Capitam, Príncipe âc
Propheta, porq cò as línguas & obras provocarão a yra do Sòr
& não escòderão mas publicam seu peccado. Isto foy quàdo sua
furiosa perlinaeia os chegou a lata cegueira que obrigarão a
sy , & a sua posteridade à morte por a dare a Christo claman-
do, Sangiáa ejus sitpcr nos óf super Jiãos nostros, E tão cruel-
mente o tratarão q tè os seus se correrão &, afrontarão de o ver
tal em a Cruz, & o desempararão cõforme ao q delle estava (vs-
crito : Alongastes, Serior, de mim meus conhecidos, fuy abomi- Psal. 87.
nação pêra elles. Em pena desta morte cruel & abatida do filjio
de Deos inocentíssimo, foy Hierusalem assolada; esta he a cau-
sa do longo desterro dos Judeus, & nam a Idolatria do deserto.
Foy tempo, que todo Israel avia rebellado contra Deos, & que
os Reys de Judea adoravam os ídolos (dos quaes sòmête achamos
três, que nam idolatrassem) por onde foram levados aBalnlonia
cativos òc là teverào Juizes & prophetas de sua gente q os coso- 97 — o.
larào por esj>asso de seteta annos , & logcj usou cò elles de mi-
sericórdia & os reduzio à sua desejada pátria. Agora derramados
pelo mudo, servos, tributários, de extrema &. mísera (judi;jão,
216 DIALOGO TERCEYUO
lançados do officíos públicos & de outras honras & privilégios c[
ne a bárbaros se nepjão; sê idolatrarê como nos tcpos passados,
não te piophetas cõ q se cusolè , nê sacerdotes, nè clara distin-
çâ de tribus, pêra saberê dude ha de proceder o seu casado Mes-
sias , nê descêdêtes de David , porq por mãdado de Vespasiano
César fora mortos os g se acharão , & na acabão de se entêder
nê se querê desêganar. Se Cbristo não era quê dizia ser, nenhiia
obra poderão fazer mais grata a Deos, nê serviço cu que Eiais o
Oa^/ -3. CO- obrigaram , q tirarlhe a vida, como disputa S. João Chrysosto-
traJitdwos. mo. Se Deos còfirmou a Phinees filho de Aarò no Sacerdócio
] orq cò zelo de sua hura matou o Israelita deshoneslo : q mer-
cês lhes fizera se poserao na Cruz o q falsamête se jactava de
Messias , & filho seu per natureza ? Mas porq Jesu Ciiristo q el-
les crucificara, era na verdade quê dizia ser, experimêtarían o
torrête de penas' que entrou cõ elles em Judea. Sob Cláudio
Emperador padeceram logo gravíssima fome , rapinas & discór-
dias dos Presidentes Felice , <Sc Festo ; depois guerra cruelissima
em têpo dos Césares Nero & Galba , sucedeo logo a Ruyna &
subversam de Hierusalera por Tito, & Vespasiano. E foy para
notar que triupharam delles pay & filho, em pena de não averê
querido conhecer o Padre Eterno Ói seu filho Jesu Christo, como
Lih.7.c.6. bê p(xlerou Paulo Orosio. Poslhe tambê o ferro cruelmete Adria-
97 — 4, no Augusto, & Galo os lançou fora da pátria outra vez. Pois
os Romanos tomados da ira & ódio em nenhàa nação do mundo
executaram tanta deshumanidade como nos Judeus; porque forào
ílagello da indignação divina, mandados por Deos a vingar a
morte de seu filho, inda que elles a não entendessem, cõforme
Cap. 10. ao que diz o propheta Isaias ; Mandarey Assur vara de meu fu-
ror contra gente falsa , Cor ejus non ita existhnahit ,* mas elle
Tom, '3. 19. na saberá a causa. César Baronio falando em Trajano diz, cou-
2. n. 5. sa digna de admiraçam : hum home que nam era de nobre li-
nagê ser levantado ao cume do Império Komano , como tam-
bém primeyro o foram Vespasiano, & Tito. Mas como estes por
averem desbaratado «Sc destruydo de todo os Judeus, da mão de
Deos ídcançarão o governo daquelle Império : Assi Trajano que
de baixo das suas bandeiras ê o mesmo campo contra Judeus
mostrou o valor de sua pessoa sendo Capitam da legião decima,
De IcU.Ju- como he Autor Josepho, porque fez nesta empresa hum serviço
dai. lib. 3. a Deos muy aceyto, sobio ao cume do Império do mundo, pa-
c. 11. IG. ra que fosse manifesto aver sido tam grave o delicto & maldade
17. dos Judeus, que forão ávidos por merecedores de grandes bene-
fícios os q mais contra elles se encruelecerão; Disto se segue ,
que as calamidades dos Judeus sam em pena de não conhecerem
D tempo em que Deos os veyo visitar com consolações do Ceo^
que o Messias lhes trazia, o que Hieremias chorou.
©A gentt: juba TC a. S17
^urel. A isso parece C\ tirarão aqiiellas queixas de Christo : Scrm. c.8.
Jinvldc mensura patrã vcstrorn. Como se dissera aos Judeus cô
q falava; ja tedes mortos os Prophetiis, daqui a pouco topo me
matareis a niT, & a meus discípulos, & assi enchendo a medida 98-— !•
dos peccados de vossos pays, virá sobre v^s todo o sangue dos
justos q se verteo desde Abc-l q clamou cõtra Cai, ate o de Za-
charias que à hora de sua morte; vos ouve por citados com aquel-
la terrivel ameaça; veja, & julgue o Senhor entre mim 6l vÒs.
Mas folp;aria saber de vòs, Anliocho, que Zacharias foy este.
jdnt. Sabida hê a opinião de S. Hieronymo quanto a isso :
xnas parece falar aqui o Sòr de Zacharias pay do Baptista , por-
que quis significar o primeyro, &. ultimo justo, &. incluyr todos
juntamente nestes dous extremos. Que se falara de Zacharias fi-
lho de Joiade , que elRey Joas mandou matar , ficara de fora o
sangue dos justos que depois delle tò o tempo de Christo foy pe-
los Judeus derramado, vogando a mesma razam em híi, & ou-
tro. Nem faz còtra estn sentèça o clamor do sangue de Abel, &
a citação do de Zacharias porque todo o sangue dos justos pede
vingàça a Deos como consta do Apocalypse, & do que os Ma-
chabeus respAderam , quando elRey Antiocho os atormêtava. E
^ o pay do Baptista fosse martyrizado étre o altar & têplo s5
cõtestes Origenes, Basílio, Gregório, Cyrilo, & Epiphanio.
Foy o peccado da gète Hebrea o mayor do mundo &. por tàto
foy tal o castigo delle. Como os q creram , e amaram o Sôr re-
cebera delle por inteyro todas as graças, & prerogalivas q aos
Santos do velho Testamêto foram em parte concedidas : assi os \
q o descreram, &(, crucificaram , sentiram sobre sy toda a ira, &
vingança de Deos, ^ seus padres homicidas dos justos em parte
aviào sêtido : & como toda a virtude dos servos de Deos da Ley 98—3.
\elha nà mereceo tanta graça , quanta se deu aos justos da Ley
nova : assi a malícia dos daquelle tempo nam pode merecer i-
gual pena à cpie sobreveo aos Judeus. Se Deos estima tanto o
sangue humano, que vedou a Noè, «Sc seus filhos a carne co san-
gue dos brutos animaes, para q da tal prohibição aprêdessem o
preço em q divião ter o sangue dos homês, & o não espargissem ;
quanto mais estimará o sangue dos innocentes, q por seu amor
foy espargido ? E se o sangue de Abel , Sc do Piopheta Zacha-
rias chegou cõ seus clamores ao Ceo ; onde terá chegado o cla-
mor do sangue de JESU Christo, que falou muito milhor, &
se queixou cõ mais razão dos Judeus ? Josepho diz , q algíis sos-
peitaram que as desavêturas dos Judeus foram em pena da mor-
te de Sãctiago Menor: mas nam he de crer q por causa de hum
puro home, inda í} justíssimo, toda a gente Judaica fosse affli-
gida cò tantos infortúnios, & castigada cò mortes tam desestra-
das, &, desterros tam prolongados. Todas as maldições do Deu-
ÔlU PIALOGO TÍJUCEyuO
teronomio, & do Levitico vemos executadas nos Judeus deste
têpo, como se pode vèr das seguintes. í'erir te ha Deos cu san-
dice, cegueira, & pasmo do teu coração; andaras às palpadelas
no meyo dia como faz o cego; virão sobre ti grades males ê os
tepos derradeiros. Derramarvos ei antre as getes, & arrãcarei a
espada cõtra vòs, tSc a vossa terra estará deserta, & as vossas ci-
dades destruidas , & cada qual das gentes será herdejra do vosso
Keyno. Aos q ficarê de vòs, raeterlhe ei pavor nos corações ê
as regiões dos inimigos , o sõ da folha vos assombrara , caireis
98 — 3. sem alguém vos perseguir. Descripção poética, & prophetica foy
Psal. 53. da extrema miséria do povo Judaico a que prophetizou David.
Cóvertctur ad véspera , fame paticntur ut canes , à; clrciábmit ci-
vltatê. Quer dizer, quãdo os Judeus chegare à véspera & tèpo
em q os homês soe descasar dos negócios , & trabalhos do dia
passado, & comer cõ recreação, & quietação, morrerão de fo-
me, & bramirão como cães, 6c serão cõpelidos a andar de híi
lugar pêra outro buscado a comida , & onde se possam alojar ;
peregrinarão pelo universo mudo sem certo asse to , pagando q
* tributo onde quer q se acharê. Tudo isto à letra se cupre hoje
nos Judeus. E o q he mais para chorar, q como bêbados, &
X.i6.7.c.22. frenéticos nã sente seus males. Verdade disse Paulo Orosio : a
impiedade atormentada sente os açoutes, mas por estar endure-
cida, e obstinada não sente quê a açouta. Trazê as mãos cheas
do sangue daquelle Cordevro innocêtissimo , figurado pelo q co-
merão a noyte q sairá do Egypto, q se assou em figura de Cruz
In colloq. como diz Justino martyr. Ficarão pèdurados no ar, antre o ceo,
cú Tripho- &. a terra como Achitophel, Absalon, & Judas, & vivem pri-
*^^« vados por seu peccado da vista de Hierusalem. Em toda a par-
te se lhes pede cota do sangue de Christo , & sam tão aborre-
cidos de todo mundo, que ate os que se converte à religião
Christã trazê co a geração o mesmo aborrecimêto. E isto deve
ser o porq vos cheirão mal christâos novos , não devendo ser as-
si- Como os Judeus que perseverão em sua perfídia nos dão ma»
teria de avorrecimento; assi os que se chegão para Deos, & re-
cebe a fè de Christo nosso' Seãor, sam dignos de os amarmos,
& favorecermos.
n\ r.F.NTK JUDAICA. 519
k%^VVVVV^^'^^*^V%VV%VV%%/VV«'VVVV\«/VVVV«'t/V¥t'VtVV%íVVVWV\%/VVVVVVV'%»\'%VVVV'VV
CAPITULO XXXIIÍ.
Da ingratidão ôf crueldade dos Judeus*
yínt. Duas cousas m(! poscrã sempre udmirnc;tto, & me lan- 93— i.
çarâ quasi fora de meu juyzo. A primeyra lie a ingratidão dos
Judeus, vicio que abre n poria a outros muitos, porq nu peito
ingrato todo o crime acha fácil entrada. Vituperar a ingratidão
he cousa escusada, pois q de todos os mortais por hua boca he
cõdènada. Desnecessário he trabalhar por fazer crer o q todos
geralmente crè , & assi está arreigado C{ se nà pode arrãcar. Ou-
ve algíis ci dieserão q a castidade era o mais fermoso atavio da
vida humana. }Z por o còtrario ouve outros q ê si mesmos a me-
nos prezaram, & a tiveram por muy difficultosa. S. Agostinho,
avcdo de ser là grade Varào, sentio isto de sy , quando disse,
q a castidade de Ambrósio lhe parecia cousa mui trabalhosa, q
a outros nào sòmete pareceo tal , mas tàbe estado de vida re-
prensivel. Dos quais hu, dizê , q foi Platão, q avèdo muito
têpo vivido casta dk. limpamète , ao fim se lè q fez sacrifícios à
natureza pola aplacar, como q vivendo da maneira ja dita a
ouvesse offendido , & peccado cõtra ella gravemete. Outros ave-
rà ^ tenham a fortaleza por híia muy alta, & clara virtude, pa-
recèdolhes grande cousa averse defendido do inimigo se lhe dar
as costas ; aver banhado o capo cõ seu sangue , e sem nenhíi te-
nior se aver offerecido à morte ; & ao revez averà outros q digS
ser tudo isto grâdissima locura , & que nam "lia cousa mais acer-
tada, q viver fora de perigo, & levar boa vida : ha algiis q
guardar a fè, e cuprir o prometido louvão com justos, & divi- 99— 1.
dos galx)s : &. outros q quebrar tudo isto dize que nam he enga-
nar , se nòio saber mais, ser de milhor engenho, & ter mais as-
túcia, & sutilcza; seja esta c"clusaò que nenhíía virtude ha tào
gabada, C\ de muytos nào seja reprendida; sò o agradecimeto
he do todos louvado, inda que sejào bárbaros, & de costumes
deshumanos, E nenhíi em nenliu tempo ouve, nem averà, que
nao infame o desagradecimèto , seja ladrão , seja matador , seja
trèdor, & seja ingrato; negará seu vicio, mas não o escusará,
nè aprovará. E nê por isto ser assi , (h^ixa de ser intinito o nu-
mero dos ingratos. Tanto í} quasi não ha vicio q tam estranhado
»eja de todos por palavra, & tam abrasado, & amado dos mes-
mos }3or obra. Porê entre todos os mortais a ingratidão dos filhos
de Israel foi sobre todas notável ; os quaes na terra ]^gyptiana
morarão muitos annos ê irisfe, & duro cativeyro. Depois oS
trouxe Dcí^ delle em têpo de Themuslis Pharao liey, corao af-
S8 «
^^0 DIALOGO TEUCEVKO
^i6.1. t'On- finna Joseplio, & os levou u terra prometida cò grade potecia
tra yjpion. de maravilhas, e cu todos estes favores, & benefícios, se pode-
rão esquecer do Sor de que os aviào recebidos. He verdade q to-
dos somos ingratos a Deos, & q envelhece muy prestes ê nos a
memoria do bê q nos faz, & q quanto mayores, óc mais bene-
fícios delle recebemos, tãto somos mais descuydados, &l negli-
gentes ê darlhe graças, & conhecer o autor delles : mas a ingra-
tidão dos filhos de Israel foy a mais estranha que se pode ima-
ginar; porque teveram clarissimos testemunhos da presença de
Psah 106. Deos, que os tirou da vexação, &. servidão do Egypto, & os a-
ií9 — ^. companhou , & defendeo pelo deserto, & fez q o caudeloso Jor-
dão posesse rédeas à sua furiosa corrôte , e de?se franca passajè a
seu exercito : & elles depois disto duvidarão muytas vezes que
lhes avia feyto estas mercês , & outras maravilhas sem coto , &
algíis derão a gloria delias aos Ídolos q elles fabricavào cõ suas
mãos. Livrou Deos este povo seu mimoso do cruel cativeyro c5
processo milagroso, abrindolhe caminho desusado, & elle por
lhe não ser ingrato, cò ferro, & espinhos lhe abrio na cabeça,
nos pès , nas mãos , & no lado , & em todo o corpo novos cami-
nhos. Para elle rôpeo da pedra dura agoa brada , doce , & cla-
ra ; & esta gente q elle tanto amou por se mostrar grata deulhe
a beber hii vaso cheo de fel, & vinagre, querêdolhe matar a
sede q de sua salvação o atormètava; por mercê sua saindo da
sqjeição do Egypto lhe durarão os vestidos quarêta annos, òc des-
pirão dos seus a Christo pregado o em hua Cruz nii cõ Ima sò
toalha cuberto.
^^VV VVVVVVVVV VVV VVV VVV V«V VVV VVl» VV% VV%> VVV VVVVVV VVVVVVl^f^l vvv vw^ v%« vv» vv%
CAPITULO XXXIIII,
Da Crueldade Judaica,
A outra he sua crueldade. Desusada foy a fereza bruta de
Júlio Capitão dos Unos Bárbaros, q não usou de piedade cõ
dõzellas fermosas desarmadas , & cõtra tal beleza , Sc tal idade
Jnãdou arrãcar as espadas, e desarmar as frechas : cousa í\ nã
fizerào lobos carniceiros , tygres feros , & touros bravos. De quã-
tos animais sostêta a terra ja mais tal crueza foy usada , inda q
tenhão híis cõ outros guerra. Níica do macho a fêmea he mal
tratada, anda a cerva cò cervo pela serra, a vaca vai do touro
99—3. acõpanhada, o leão nã fere a lioa. Sò estes qbrarão as leis da
natureza, e se mostrarão àtre ovelhas leões, c cavaleiros; Igual
foy a crueldade de Herodes q mãdou martyrizar os mininos In-
nocentes , & a do Grão Tamurlão , horrendo flagello do género
liA GENTE JUDAICA. 221
humano , q na guerra ne às criaqas perdoava , sem considerar q
lie fraqueza ser Leão âtre ovelhas. Mas nenhua destas tliegou
àcjlla de q os Judeus deshumanos usarão cõ o maso Cordeiro de
Deos q os vinha remir, e liljcrtar, & salvar. Como nào moveo
os Judeus a ter piedade a mansidão do Coideyro se ma{j;ou , &
a suavidade de sua fahi? como lhes eOsentio o coração pagar co
tal crueza, tal brandura? &. eomo poderão tratar tão mal tal
fermosura? Corações tinhão d(í ferro duro os q desfigurarão tal
figura; cruéis foram sempre as entranhas Judaicas, LeOco vasta-
dores , & homicidas dos Prophetas lhes chamou Dcos pelo Pro- Cap. 9.
pheta Hieremias. A Historia Triparlita cota que na Província Lib. 11. c.
de Syria, anlre Ciialcide, & Ancira, os Judeus crucificaram hum 13.
moço Christão, &. depois de niuylas illuzões, òc escameos q llie
fizerào, o mataram com açoutes. Basta q crucifiearào o Autor
da vida , pêra serem inimigos evuelissimos dos Christãos , &. ter-
mos recebido delles estas, & outras amizades. S. Hieionymo .S*»]?. Esai.
diz, que os Judeus em Duas Synagogas maldizc a Clirislo, 6(,cap. 49.
aos Christãos sob o nome de Nazareos três vezes no dia. Esta
doutrina aprendem os filhos em casa de seus pays , & nas Escho-
las, pêra que criados em ódio do Senhor JESU , sejão inimigos
do nome Christão. No Levitico foy vedado aos Sacerdotes por Ccip. 10. òf
JLey divina que nam rasgassem os vestidos, o q os Judeus eram H.
obrigados a fazer por costume antiguo , quando se dizia, ou fa- 99 — <t,
2Ía algo contra a honra de Deos, ou delle se blasfemava. Alas
o seu Summo Pontifice Caiphas , desprezando a tal Ley com
grande fúria rasgou os seus para mais azedar os ânimos dos Se-
nadores daquelle cego Conselho que se ajuntou contra JESU ,
& por o mesmo feyto foy logo condenado à morte, & levado
preso a Poncio Pilato, a quem pedirão a execuçam da senten-
ça que lhe estava prohibida pela Ley nos sete dias dos ázimos.
Que doutra maneira segundo o animo dos Judeus era ligeyro
pêra o mal, não buscarião o ministério de Pilato para executa-
rè sua crueldade. Os successores dos quaes imitado neste parti-
cular os costumes de seus padres, diz Sàcto Ambrósio, por arte Serm.rcdê,
se insinuào cos homês , penetrandolhe as casas , entrão nos pre- Jan,
tórios, inquictão as orelhas dos Julgadores, & tanto mais per-
valescem , quanto sam mais desavergonliados. E nam he este
mal em elles recente, mas antiguo, & originário, poys detro no
Pretório perseguiram antigamente o Senhor Salvador, & j^elo '
Juizo do Presidente o condenaram. De maneyra que no Pretó-
rio he dos Judeus oprimida a innocencia. Tè anlre Gentios era
tanta a humanidade dos Síimos Pontificcs, q se abstinhão da
morte dos homês. Por esta causa destoou Tito ser Põtifiee Má-
ximo , pêra poder guardar suas mãos puras do sangue dos ho-
mcs, inUa que culpados ; (Sc pelo contrario os Pòtifices dos Ju-
$33 DIALOGO TrnCEYRO
deus derramarão o saj^ue do Innocente. Siietonio Tranquillo
conta, que alem de Tito desejar por este respeyto o Summo
Pontificado , prometeo , & deu sua fè de nao ser autor , nè sa-
100—1. l)ed()r da morte de algíí , ainda q ouvesse razão de tomar delia
vingança; & jurou que antes avia de morrer que punir. Não he
esta a condição dos Judeus; são como abelhas, que perdido o a-
guilhão, inda q percão as forças nam perdem o animo de mor-
der. Em tempo do Magno Constantino em Pérsia nas cidades
Seleucia , & Ctesiphõte os Judeus accusarão falsamête os Chris-
tãos ante Elrey Sapõr , & o indusirao a m.artyrizar grande nu-
mero delles, como escreve a historia Tripartita. Que mais que^
reis? toda a secta de Mafamede foy invençam de dous Judeus,
por levantarem hum cruel inimigo contra a Christandade , iSc
disto se achou híia memoria de que faz mençã Ludovicus Vi-
ves, être os Judeus de Fez,
Áurd. Esse perverso, & falso Propheta, & os mouros, seus
sequases sendo gentios , chamão a Christo nosso Sor espiritu , ôt
bafo de Deos, & confessam que foy concebido pelo Espiritu Sari-
cto, & que nasceo de Maria Virgem. E do grande Baptista
que o apontou cò dedo, dizem q foy voz de Deos : & os Judeus
ousão dizer de Christo que foy blasphemo «Sí embaidor , & nam
reconhescem o Baptista por seu precursor , nem dam credito ao
testemunho que de Christo muytas vezes deu.
Ànt. Sem embargo de tudo isto , & do ódio raivoso que nos
tê os Judeus, & das blasphemias que cõtra JESU entoão, vi-
vendo entre nòs roguemos ao Senhor lhes enterneça ( por quem
elle he) os corações, & lhos lumie os entendimêtos, & cos rayos
de sua luz sereníssima desfaça a serração, & trevas de sua infi-
delidade, para que conheção ao Redemptor do mundo. A quem
100 — 2. demos muytas graças por nos abrir os olhos da alma, & nos li-
vrar da desatinada cegueira, 6c impiedade estranha desta gente.
Acenda este beneficio nosso coraçã em seu amor , inílàmeo em
ódio dos peccados, & avivente nossa fè. Doutra maneyra que
nos aproveitara na viver de baixo do jugo duro da Ley velha,
mas do suave , & amoroso da sancta Ley da graça , & piedade
Chrislã, se nam usarmos dos benefícios da mesma graça? pouco
aproveita ao enfermo vilo visitar hum grande medico , se não
guarda o regimento que lhe dá , nem se ajuda dos remédios (\
lhe receita. He verdade , que somos chamados para o solene
convite, & vodas do Filho de Deos; mas se nos escusarmos de
ir a ellas , por sermos os convidados seremos com mais rigor
castigados. Como os que bê viveram no têpo da Ley escripta-,
pertencem ao da graça ; assi os que neste viveram mal , seram
julgados como se a elle nam chegaram , & porventura mais gra-
vemente atormentados. Nada aproveita nascer a luz a quê lhe
"=*-^.
I>A. GLNTIi JUDAICA. 2ilò
êO.Txa OS olhos, & visitar o bom medico enfermos que sam mal
Tíí^^idos. Se assi usamos dos sacramentos, & mezinhas q do Cuo
nos trouxe Christo, como se nam viera alcj^ora : para bem dou-
tros he vindo, tS». nam para o nosso. ÍSa })rimiliva Igrt^ja quan-
do o sangue de (Jhrislo fervia em o coraçam dos heis, era latila
a sua charidade , que parecia terem todos hum coraçam , & liua
sò alma. Nam eslava hum triste que todos os que sal)iam seu
mal o nam estivessem, nenhu enfermo cjue todos nam procuras-
sem sua saúde, ôc se nam doessem como membros do mesmo
corpo, nem tinlia hum necessidade, que todos lhe nam buscas-
sem remédio. Quem esta enfermo, diz Paulo, que eu com elle
nam enferme? listava nelles vivo o fogo do amor de Deos , & 100—3.
do próximo, & assi fazia naquelle tempo tanta operaçam a cha-
ridade dos Apóstolos, como seus milagres; porque se dez dos
gentios se convertiam vendoos resuscitar mortos, outros tantos
recef)iam o baptismo, vendo o amor com que elles os tratavà<j,
& se tratavam. Assi avia homês duros em suas idolatrias, que
vendo os Apóstolos fazer milagres diziam , q era por poder do
Demónio , & que eram encantadores , mas vendo sua ciiaridade
tornavanse Christãos dizendo , q parecia impossivel nam morar
Deos onde ardia e ala o fogo de seu amor. Alas hay, hay que
nestes nossos ínfelices tempos estando os infiéis entre nòs, pox
mais que lhe preguemos, &. roguemos que deixem sua infideli-
dade , & recebam nossa fò , como lho nà provamos cõ milagres
que pela mayor parte cessaram , 6c olhando jiara nossas màos
vejam c|ue híis roubam seus próximos, & llies tem ódio enlra-
nhavel; outros saem com outras desordês, tam encutradas com
a ordê de toda boa razão , & ley de Deos ; mofam de nòs dizen-
do, que fácil he phylosophar da virtude, & que mais nem a
nossas obras, que a n(jssas })alavras. Hay de nus qut; nam sò jul-
garemos o mal que fazemos, mas tãbem a causa que damos pa-
ra o nome de Deos ser l)lasphemado dos Judeus, & dos Gentios.
E com vos fazer esta lembrança acabo.
AurcL Deos vos mande a saúde, & bes que vòs mais dese-
jais. Pcrdoayme : fui infinito nas preguntas que vos fiz, & ques-
tões que vos propus, mas nâo o serei mais quando vos tornar a
visitar.
Ant. O perdam ouvera eu de pedir, por nam satisfazer de to-
do ao que de mim quisestes saber, & ao que se requeria para os 10<) — 4i.
Judeus se poderem convencer : mas para vòs, & para çdificaçam
dos fieis, bastam os motivos que ouvistes : q\ie para que os ou-
v^ir com animo depravado, & intençam de caluniar, nenhuas ra-
zoes, nem argumentos sam bastantes, inda que sejam urgentes
demonstrações.
Aurtl. Antes vos digo que se o juizo me nam mente, farei*
â2t DIALOGO TERCEYRO
hum assinalado serviço à Igreja Catholica se destas tam quallfi-.
cadas razões, & doutros discursos que entendi irdes cortando por
abreviar, ordenásseis (dando vos Deos forças para isso) als^um
Sumario em forma de Cuthechismo, do qual me parece se deve-
ria esperar bom successo na conversam desta gente : porque era
fim a verdade, & razam tudo acabam.
CAPITULO XXXV.
Que humanamente parece não ter remédio a obstinação dos Ju-
deus , per via de disputas, Òi argumetos.
Ant. Quam consideradamente disse o phylosopho : Ad pauca
respicientes rito tnunciant. Onde se consideram poucas cousas,
por estas se pronuncia, & dà sentêça. Bem parece esse parecer
de quê gastou muytos annos em averiguar pôtos pelas pontas da
lança , & espada , & nam em os liquidar por via de alteraçam ,
& disputa. Tam longe estou de dar a essa empresa as boas ho-
ras , se Deos mas der de vida , que contarei entre as muy desa-
proveitadas as que nisso se empregarem.
Anrel. Como assi?
lOl— 1. ylnt. Três cousas em soma vos apontarei q quanto a mira nes«
ta matéria se devem dar por averiguadas. Primeyra. Por mayor
cabedal de estudo , & erudiçam que nisso se empregue , nam se-
rá possivel tirar â luz híí Cathecliismo tal , que possa , »Sc deva
ter nome , & ser contado entre os remédios que tè agora se tera
achado, & usado para o bem da salvaçam desta gente. A segun-
da. Caso que podesse sair tal , nam somente nam ha razã de
esperar fruíto delle , mas também ha causa de temer dano. Ve-
de agora quam gloriosa, & proveitosa empreza me inculcáveis.
Aurel. Assi q dais isto por impossível, por infructuoso, & por
danoso.
Ânt. Haverá melhores juízos de parecer differente : o meu
he este.
Aurcl. E que perigo aveis que deve recearse ?
Ant. O mesmo que ha em se lerem vulgarmente os escriptos
còtra herejes : porque como necessariamente se hão de refutar os
argumêtos enganosos, e falsas interpretações dos Rabinos, a muy-
tos, & quiçá a algus dos nossos podem parecer melhor suas ra-
zoes apparentes , que as nossas verdadeyras. E esta he a princi-
pal razão porque os livros que tratam de convencer os herejes são
còmumente defesos, nem se permitem se nam a letrados, & es-
ses cõ delecto.
i>A CKNTi: .irDATCA. 325
j4ureL Facilmente vos concedo, que pode nisso aver algtini
periuo; mus nAo vejo razão por qiio nào se deva esperar fructo.
ylnl. Ku e-tou vendo tantas q nam sei quaes vos aponte, mas
SC vos Iiey de dar alguas, sejao estas. Primeyra obstinaqam , u
q nam bastou a viva voz de Cluislo, nem boje basta doutrina
de tantos pregadores cvanfrelicos , nem a vista de tantos mila- 101 — :l-
grés, nem a rontinuaçam de tantas vexac^Ões tam podenwas pa-
ra dar entendimento, nem os danos da hora, das fazendas, das
pessoas, nem a piedade, & eompayxao da Ij^reja, que os tra-
ta como a iilhos , & como mây sua tempera o castipo que mere-
ce com misericórdia de q sempre com eHes usa; inda que sua
contumácia seja porfiada, sua conversam duvidosa, sua peniten-
cia, na frieza que mostram, fingida, & dissimulada, sua cer-
vice ferrenha, & sua fronte desavergonhada. E se nam aprovei-
ta com elles amoestação, nem aviso, nem reprehençao, nè cas-
tigo, nem perdam , nem basta verense cada anno nos cada fal-
ços, do medo q se hào de ver no dia do Juízo convencidos dos
erros em q perseveram , còs sambenilcs de suí.s culpas às costas,
ante o tribunal do Sant to Officio, onde se representa com ver-
dade a inteireza da divina justiça, mais que em t<xlos os outros
da terra : se tudo isto nam basta, como lhes pode bastar a liçam
de hum Cathechisnio? Bem se pode entender delles aquelle verso
do Psalmo, Furor illis scciíndiim simUilndinan scrpcnCia , suul Psal, 07.
yísfndis svrdcr , òç oilitranUs aures st/os, qiice mm cxaudket vocan
incantouint. Tal he o seu furor, & peçonha como a daquella
serpente, que pela grande copia de veneno & raiva q nella ha,
se nam deixa encantar dos mágicos versos, como se fora surda;
e para sair com a sua, entupe hua das orelhas cõ o cabo, & a
outra com a terra em q a fixa de modo que a arte magica a
nam pede amansar nem acabar com ella que ponha de parte o
veneno. Desta maneira cerraram osPrincipes dos Sacerdotes suas
orelhas, por não perceberem as vozes de Sancto Estevão, & os 101 — 3,
Judeus as tem ate hoje cerradas por não ouvirem as verdades da
Igreja Catholica. Segunda. Quem deprava as mesmas Escriptu-
ras divinas, a fim de as trazer em côfirmaçam de seus erros (se-
gundo escreve Sam Justino Martyr, &, outros Padres antiguos)
como se pode cuidar que acharam em nossas composições, effica-
cia que os force a se reder ? Nam foy sô Paulo Burgese, mas
foram outros muytos os que nisto empregaram muyto tepo traba-
lho, & erudiçam : mas nunca soubemos q sua boa diligencia
tevesse cô esta naeam outro effeito se nam foi darlhes aviso pa-
ra 80 armarem de repostas & defensam de sua crêça. Terceyra ,
Os idiotas nam estarão pela doutrina do Cathechismo , porque
so(m appellar para os Rabinos quando se vem cõveneidos : os
liabinos tem ja prestes a resposta aos sentidos que nòs lhes ia-
29
226 DIALOGO TEKCEYIiO
culcamos por literaes : & assi não se alcançara o fim que se pre*
tende nem com idiotas, nem cõ doutos. Quarta, Como esta na-
çam nos tê por capitães inimigos seus , he fácil ver que este an-
tídoto pelo mesmo caso que sae de nòs ha de ser delles aborreci-
do, & ávido por peçonha. Nunqua ate agora parece que se tra-
tou em CScilio algum de se ordenar Cathechismo para naçam
Judaica. Nem a Sede Apostólica tem usado de tal remédio,
tendose offerecido tantas occasiôes de usar de todos , &. nam he
de crer que se lhe escondesse este , onde se lhe descobriram tan-
tos outros , antes parece que o deixou & deixa hoje em dia por
insuficiente & de pouco momento.
Aurcl. Atalhastes com estas razões a que eu tinha para vos-
101—4. perguntar a causa de dardes por impossivel o que a mim se me
antolhava ser muy fácil, porque basta haverdes isto por cousa
infructuosa, & alem disso danosa para julgardes nam ser possí-
vel. Ant. He verdade que a todos nos devia parecer impossivel
fazerse o que em lugar de aproveitar pode danar. Mas nam he
s5 essa a razam que me move a contar a empresa que me apô-
taes entre as que tenho por mais que difficultosas. Outra vos
darei cô que por hora poremos fim ao que toca a esta gente ,
remetendo sò a Deos , a quem mais toca , todo o negocio de sua
salvaçam. Deixada à parte a moléstia que ha em disputar con-
tra hua sorte de gente tam desaforada na obstinaçam , & tain
acesa no ódio de Christo, & do nome Christào (cousa que em
estremo difficulta este negocio) a principal razam que milita
contra isto he pedirem elles & requererem , que pelos oráculos
dos Prophetas , & figuras dos sanctos Padres lhes mostremos cla-
ramente q JESU Filh J de Maria he o Messias prometido na
Ley , & nos Prophetas , nam nos permitindo , nem soffrendo que
as interpretemos cò juízo & razam : antes querendo que com to-
da singeleza , & propriedade de palavras alheas de toda metáfo-
ra lhes façamos evidente a verdade que professamos. Tanta lie
u contumácia, & rebeldia de sua obstinaçam côtra Christo, (\
a olhos fechados à luz do meio dia, & ouvidos cerrados a quan-
to se lhe diz , fogem de ser traduzidos a põto de confessar a ver-
dade. E quando se vem tomados às màos, & con\'encidos de
nossas razões , assacam mil testemunhos falsos às Escripturas di-
vinas, fingindo novas lições tè chegarê a admitir & affirmar des-
102—1, vários indignos de Deos, & de sua Ley com tal que ou sejam
contra nòs, ou nam façao por nòs, como ja vos disse. C5 esta
sua pertinácia corre apàr híia tão insufrivel sem razam, como
he nam quererem soffrer que interpretemos & declaremos os mo-
dos de falar, & palavras de sua língua. E de que língua? onde
os vocábulos são poucos, pouco usaxios, muy to escuros, as for-
mulas de falar perplexas, as distinções varias sendo dates ne-
I>A GENTE JVTíAICA, 287
lihSas, as significações amMguas, & dependentes da mudança
de qualquer letra que se tire, ajunte, ou mude, onde em lu-
gar de vogaes se usa de pontinhos , inveçam humana y & mo-
derna, como cõsla de Genebrardo sobre os Psalmos na Epistola Gcncb.Ps.
eo Leytor; onde a esterilidade da lingoagem tam curta, junta 5. rcr$. 8,
com a frequência das translações , figuras , & enigmas escurece Cf Psal. l»,
tanto o que se diz que escassamente se achão dous interpretes ver s. '^■i.
hebreos , que entre si concordem na exposiçam de qualquer lu-
gar escuro. Passo pela controvérsia que entre elles ha sobre a
divisam dos Psalmos , & distinça dos seus Versos. Sedo pois isto
assi , quam impossível vos parece , que será fundar a doutrina
dos Sacramentos, & dos mais importantes mysterios de nossa
Fè, & sentido literal do Testamento velho com auctoridades dos
Rabinos Thalmudistas, & dos que elles admitem : sendo tam
certo que tudo o que nam vem estabelecido com sêtidos literaes,
& recebidos pelos seus ham que he fundado no ar? Mas sem
embargo de tudo isto , a língua hebraica com razam se diz san-
cta , porq alem de ter consignados os divinos oráculos , & delia
usarem antiguamete Deos , & os Anjos , Adam , &. os Sàíclos
Padres : fala sancta, casta, & honestamente de todas as cousas,
inda ^ deshonestas. E algíis Rabinos affirmão que se ha de usar 105— í.
delia no Ceo depois da resurreiçam, & parece que S. Paulo lhe
chamou Angélica.
Aurel. Que causa ouve porque nos livros do Testamento ve-
lho falou Deos cos hebreos de cousas pertencentes a Christo por
palavras tam obscuras, que S. Paulo lhe chama mysterio es-
condido ?
Ant. Essas para os fieis sâo claras, inda que algo obscuras
para corações cegos da infidelidade. Quanto mais que quis Deos
esconderlhe seus mysterios por justíssimos fins, & hum delles foy
pêra castigar còa ignorância de cousas necessárias aquelle povo
ingrato por seus enormes peccados. O remédio que lhes resta ho
a palavra de Deos pregada por homês doutos, prudentes, &
exemplares. Que desta diz S. Paulo que penetra o intimo de
nossas entranhas, &. enternece corações por mais duros, & secos
que sejam , se de contino se lhes applica. O que em os cercos ,
& batarias dos lugares fortes se faz , em a guerra que ostentak)
por todas as partes , & com todos os engenhos & machinas que
ensina a arle militar, isso mesmo he necessário que façam os
bÕs, & doutos pregadores pêra bem , & remédio da gente Judai-
ca, Resiste o robusto sovereiro, o mármore duro, & indurecido
carvalho aos ptjucos golpes do malho , mas nã pode resistir aos
muytos. S. Joã Chrysostomo diz, Como de híia pederneira nem
de hua s?) vez, nem de duas q a tocaes cò fuzil say sempre fo-
go , assi também ena peitos regelados , & ânimos empedernidos
SJS DIALOGO TEHCEVHO
(quaes sam os Judaicos) não se pode com hua, nem cò duas sòs
prègaçdes aceder o fogo do divino amor, mas tocandoos muitas
102 — 3. vezes cò a palavra dambos os testamentos, pode ser que delies
se tire algíia faisca, com que se possam fervorar, & converter.
E sabei que nam ha cousa fora de tempo, nem que mereça no-
me de importuna onde se trata da salvaçam dos liomês. Sancta-
menle disse Tertuliano , Loquacitas m cedificatione nidla turpis.
Em matéria de edificação, &, salvação das almas falar muytas
vezes , repetir , importunar , & clamar não pode ser culpa , ne
se deve tachar. Sò o Demónio achou q Christo pregava , & fazia
milagres fora de tempo. Clama ne cesses, disse Deos a Esaias,
& S. Paulo a Thimoteo, Prosaica verbum, insta opporhmh òf
hnportunc. E não bastando isto, resta que do Ceo lhe venha o
remédio , & que Deos por sua infinita bondade milagrosamente
os alumie.
Aurel. Elle fique comvosco , elle os remedee , & se lembre
dos peccadores,
Ant. Primeyro que vos vades ouvi híis versos do mysterio da
Trãsfiguração de Christo nosso Redemptor , que recebidos dos
Judeus basta pêra os fazer Christãos.
ELEGIA
De Transfiguratione Domini.
Huc ò Tsacidce passim properate nepotes ,
O nimium sacrh dedita turba tuis ,
Quos Jordanis alit , quos circum caspia saxa
Detinuit pharice y sors inimica fugc ,
Et quos errantes vasti regionihus orbis
Huc lUuc sangiás nuininis uUor agit.
102—1. En vobis ignotus adest , quem carmina vatum
Venturum hwmanis edocuere malis.
Enjam notus adest , en celsi in culmine montis
Occultatur homo , detegiturque Deus.
Vestit Sol humeros , 4' tanquam cernuus ambit ,
Provocat albcntem cândida palia nivcm.
Aslat ài omnipotens genitor , natumquc fatetur ,
yJstant bisseni luiiiina terna chori,
Difulsit radiismons circum-, invidit oli/mpus ,
Protinus , ài CocVi qukl mihi restat , ait f
Quid tecum semper gens dura , ^ pérfida mussas T
Constai viridicis testibus auctafides.
Qui Fharia ediíxlt captam de gente Sionem j
Quem numen soliti credcre j te&tii adest.
PA OENTK JUDAICA. 5^9
Testls adest longo qui non consumpíus ah cevo
Árdua flamrnalis cntni pciivit eqnis.
Ifos habet cx vcslrh /cw Ermigcllca testes y
Nostra iit út vubis indubitata Jidcs.
Ad Christum de ipsius Transfiguralione. -
Píon nisi vidrices maneant po$t hella coronccy
yfudaces propcrant Marth m arma duces,
Non nisi propósito prcccinctus naviía lucro,
Ohjíát irato pinça tcxta freto,
Qui7i ctiarn cclcris volitans ad prceinia cursus
Concitus ad metam cárcere prodit eques.
Sic prcegudata siimmcc dutcedine pahrue
Infirma ad bcllum pcclora Christe moves.
Qui modo f u/gentis tecius velaminc nnbis
Vincis yípoUincas ore micantc faces.
Hei milá quain dcnaa rádios caligine mcrgcs ,
Heu qualis fantum polhiet umJbra decus ,
Cum te disswiilis pcndcntcm in vértice montn
Lúcida non nubes , sed tenebrosa tegct.
In laudem Taboris Montis.
(Si eoit interetcs tellus Ndbathcca capillos ,
Quam curru 2\tan exoriente ferit ,•
Si juga flaventi fcecundat eoa metalh, .
Quw penetrat rtipicUe flamma corusca rótce ;
Desine jam /«/Lr producere gramina collis ,
Jam fcelix gcmmas incipe ferre Thabor.
ISiani te Sol rutilo primum splendore salutat ,
Ta natum magno primus in orbe vides.
Condidcrat cleiusum nubes densíssima solem,
Tcxerat ^" nitidum bis ina lustra jubar ^
Nunc insperato clarns splendore ixfulget ,
Summaquc Thaboris culmina luce ferit,
Scilicet id dubiis pulsa caligine natis
Suscitei ardcntem corde tepcnle Jidem,
DIALOGO QUARTO.
DA GLOBIA, E TRIUMPHO DOS LUSITANOS.
INTBRLOCUTORE&
HERCULANO CAFALLEYRO, ANTJOCHO ENFERMO.
CAPITULO I.
De álgúai antigualhas de Affrica.
103«»1. Herculano. X enhais muy bõs, & alegres dias.
Antiocho. Taes volos dè o Senhor, que pode dàlos; em tudo
sam puntuaes, & aprimorados os homes bem nascidos. Não sof-
frestes que cuidasse eu ser fingido o alvoroço que hôtem na des-
pedida mostrastes , de nos tornarmos a ver hoje.
Hcrc. Nunca soube ser em nada contrafey to , & nisto o con-
trafazerme ouvera de ser dissimulando a sede , & desejo que tra-
go de vos ouvir praticar. Os Elephantes nam podendo nadar ,
deleitanse cos Rios : assi eu sabendo poucas letras recreome com
a conversaçam dos Letrados. E em especial dos lidos nas Histo-
rias, & cousas de Affrica a que sou affeiçoado, mormente a
103—2. Alauritania Tingitana que me meteo em muytos riscos, & a-
pertos, de que sahi com minha honra, por mercê de Deos.
Ant. Foy Affrica (segundo diz delia Virgílio) rica de tryum-
phos , & sempre criou novidades , conforme ao dito vulgar dos
L\h. 8. ca. Gregos, referido por Plinio. E por guardar boa ordem primey-
IG. ro vos ei de perguntar pelas mentiras, que polas verdades que
delia se acham escriptas. Os Gregos fingiram fabulas monstruo*
sas tratando das cousas de Affrica, & outro tanto fizeram alguns
Romanos. Sabermeis dar relaçam das Ilhas do Mar Athlãtico,
em que moram as Hespérides ' E de hua Ilha que tinha duas
fontes de tam singular propriedade , que o que de hua delias
bebia ria tè morrer , & o remédio para deyxar de rir era beber
103 — -3. da outra? Visles o Therebintho arvore que nunca perde a folha,
& segundo Dioscorides também nasce em Affrica? Ha là novas
dos paq(3s Reaes de Antheo, & do seu escudo de couro de Ele-
phãle impenetrável, & da sua sepultura? Perguntovos isto, por-
Lih, 17. c. que Pomponio Mela diz., que avia em seu tempo hum outeiro
k. piqueno , como imagem de homem , & que aquelle he o sepul-
DA OLORIA E TRYUMPHO DOS» LUSITANOS. Oi
rhro de Antheo. Ha memoria por ventura da cova dedicada a
Hercules? Ouvistes a caso trilhando ommortal de seus
esforçados ânimos. Certo he q se não pode acabar a fama com
BA GLORIA E TRll/MPIIO POS LUSITANOS. il37
a viJa, antes as oHras famosas na sepultura cohrão mais larga
vida, & sam mais louvados os autores dcllns. Os feitos valerosos
vào libertando seus donos da ley da morte, fazem que ella sobre ,
elles nenhum poder, nem jurdiqão tenha. Inda mal porque os
nossos aprendem mais pêra esgaravatar demandas, & destruir fa-
zendas, q pêra desenterrar das trevas do eterno olvido, os tryum- 106 — 1,
phos (St conquistas dos seus antepassados. Alas demos falhas aos
homes , pois a natureza os não criou perf(;itos, & a sua inclina-
ção he o leme porq o Navio de sua vontade, pola mayor parte
se governa. Os feytos Illustres dos Alhenienses, & Romanos cre-
cerão & amplilicarãose com a eloquente pena de seus escripto-
res : mas para os nossos tè agora faltarão ingenhos, & aos que
ouve faltarão palavras pêra igualarem sua gloria , & mageslade.
De maneyra, que vay o tempo triííphando de nossas victorias,
& conquistas sepultadas, & quasi extintas por falta de Historia-
dores. Devia se chorar muyto, & com lagrymas do sangue a
miséria de nossa idade , que vemos em Europa ílcrètissimas uni-
versidades , continuadas de tanto numero de estudiosos ,* &, qua-
si todos seguem aquellas artes, & faculdades com que mais pres-
tes pode ganhar pão, «Sc pano pêra sustentar a vida. Ja còmu-
mente lie tida a erudiçani por tralialho diurno a que no cabo do
dia se deve o jornal. Outras causas apõta o Poeta Lusitano no
fim de seu canto quinto.
Em fim nam mitte forte Capitão
Que nam fosse tam,bê douto òf sciente ,
Da Lacia , Grega , oií barbara nação ,
Senam da Portugneza tam somente ,•
Sem vergonha o nam digo , qxie a ra':íão
Dalgum nam, ser por versos excelknte ,
He nam se ver prcsado o verso , &( rhna ;
Porque quê não sabe a arte , não na estima.
Por isso , ôf nam por falia da natura
JNão lia tambê f^irgilios , nan Homcros ,
Nem averà se este costume dura ,
Pios Eneas , nem AchUes feros ;
Mas o peor de tudo he que a ventura
Tão ásperos os fez , ò( tão austeros , 106 — !2.
Tão rudos , ò^ de engcnJio tam re7nisso ,
Que a muitos lhe da pouco ou nada disso,
Nâo faltarão Portuguezes que tentarão a historia de nossos te-
pos, mas forào algíis delles tão censurados q lhes fora milhor
gastar a vida c perpetuo silencio. Não |xxlc o histórico escrever
238 DIALOGO QUARTO
tudo, O que passou no seu tèpo. E por isso calou Amiano Mar-
celino a morte de Theodosio pay do Magno Tlieodosio. E na
verdade a grandes encontros, & perigos offerece sua honra quem
toma a cargo historias do seu tempo. Porque dizer sempre ver-
dades puras sem mistura de respeyto, não se soffre ; pois passar
por ellas com ingrato silencio, ou vèder mêtiras por certo preço,
he fraude infame. Não faltarão algíis que como na vida forào
cativos do dinheiro, assi o forão na historia. De quem lhe deu
muyto disserão muito mais, & nada de quem lhe deu pouco; «Sc
por ventura mentirão onde não forão peytados. Não posso tam-
bè dissimular híia sem razão dos Historiadores Romanos, que
atribuirão as victorias, & devidos tryumphos, que outras naçòes
alcançavão, somente a seus naturais, por pelejarem em sua
companhia. De maneyra que derão a gloria dos feytos fortíssi-
mos aos q tinhão menor parte nelles , que foy a mais ingrata
sem justiça, que no míido pode aver. E nisto não desfaço de to-
do nos Gentios : porque historiadores ouve Christãos mais infiéis
è suas historias , que algíis pagãos. Inda mal porque o amor da
verdade , & a vergonha natural obriga mais às vezes os alheo&
do nome de Christo, q os que jurarão em seus Sacramentos Sã-
1C6 — 3, ctos. Deixão se levar de suas affeições, & fingimentos por não
offenderem as orelhas dos poderosos, & corròpem como falsarios
a sinceridade , & verdade da historia. Mas bê o pagão , porque
polas mentiras que entremete, ganhão discredito as verdades que
contão. Em muytas historias ha muytos erros , porq híías escre-
verão homês de mà consciência , «Sc outros de pouca sciêcia , dos
quais hus saõ côtrarios à fê, e divinas escripturas, e outros à
ley natural , aos costumes & artes liberais , & à historia , e fè
das cousas passadas , & híis , & outros , gèralmête côtrarios á
verdade. Tãbê sofro cô impaciêcia a devassidã q corre nas im-
pressões , q não forão invètadas pêra nellas estãparmos sensabo-
rias , fabulas mal cõpostas , ficções meras , & vâs , q não apro-
veytão pêra exêplos de bôs costumes. Dor incomportável he ver
ocupadas as officinas, q forão invêçao divina, de cousas seme-
Ihãtes.
Herc. Nisso vos sobeja razam, & sam vossas queyxas muy jus-
tificadas. A facilidade das impressões fez q muitos divulgassem
suas fracas habilidades, publicando grandes volumes armados com
privilégios , & ameaças , Neqwis excudat , aut vendai. Este foy
híí grade detrimêto q as impressões importarão à Christandade.
Ant. O peot hè que os impressores perverterão a sincera li-
ção de muytos, & graves Autores : o que obrigou em nossos
tempos a hu Varão doctissimo gastar os melhores annos em e-
mendar as obras de Séneca, Plinio, & Mela, & as alimpar dos
falsos testimunhos que irjipressores desalmados lhe iraposerão.
DA GLORIA E IKIlMPilO DOn LUSITANOS. ^df>
Cuydo qup Cícero, Lívio, & outros nobres escríptores antigos,
& sobre todos Plínio, se tornarão a ler suas obras, que apenas
as reconheceriào, & duvidando a cada passo as lerião por alheas, 106 — l.
ou barl)aras. E certo que |)arece milagre, que em tâo gràdcí des-
truição das humanas escripturas a Sagrada fique em j)eè : ou
porq he mor o cuydado dos home» em a livrar de corruj)(^ão, ou
(o q he mais certí)) porque sendo Deos o Autor delia, quis con-
servar suas Sanctas historias, & divinas Leys comunicando lhes
stia eternidade. As outras por nobres Cjuc sejão, ou acabão, ou
por a mor parte vão ja acabando sem aver remédio para dano
tão grade. K evitandose algus males pequenos com muyto cuy-
dado, se consiiilem os grades em as virtudes, &. costumes; &. a
queda das letras, & depravação delias he tida pola menor de
todas. Calamidade muyto pêra sentir, & chorar, a cjual que-»
rendo obviar Constantino mãdou a Eusébio da Palestina que os
livros não se escrevessem se não por Escrivães experimêtados nas
cousas antigas, & tais que perfeitamente soubessem a arte de
escrever. Mais ditosos sam os nossos tempos, nos quais pela con-
tinua diligencia do gravíssimo Senado do Sancto Officio, se vay
reprimindo, &. metendo por dentro a ousadia dalgus q impri"
mião erros seus & alheos.
Herc. Divina invenção foy por certo a da ímpressam pola fa-
cilidade de tresladar os livros. Da Cjual nasce j)oderem os pobres
ser também letrados, como os ricos, q antes não erão. Mas o
que vòs dissestes he mais que verdade, tanto que não scy entre
clãnos , & utilidades a que parte me incline. Porem Gutèl)ergo,
não se glorie ser o primeyro inventor delia no anno de mil &
quatrocentos, & cjuarenta. Porq os nossos sabe em Japa, e no
Império dos Abexís aver impressores de forma de ferro ha mui- 107— -1.
tas cêtcnas de annos,
CAPITULO IIII.
Dos feytos dos Portugueses em jéffrlca,
Ani. Tornado aos feytos dos nossos Portuguezes nas partes, &
lugares de Affrica, não hà delles tão j)Ouca memoria que noB
não conste do q cstà escripto quanto tendes dito, Foy este Uey-
no dedicado milagrosamente com sanguíí de Mouros : &. daqui
vem ser tão natural aos Reys delle o desejo de extirpar a sua
malvada, & abominável seita. ElRey Dô Affonso o quarto,
nào tendo Mouros ja no íleyno que côquistar, ajudou a ElHey
de Castella seu sojjro : & foy tanta parte na victoria do Salado,
^40 J>IALOGO QUARTO
quanta mostrão os despojos, & tropheos (de cuja lionva se con-
tentou ) que inda hoje vemos na sua sepultura. E poucos annos
depois Ellley Dom João ò prinieyro , começou a conquista de
Affrica, tomado Septa, Baluarte da Christandade , & Chave
de toda Hespanha, & Porta do comercio do ponente pêra levan-
te. Este zelo seguirão os Ileys seus successores, &, sobre todos
ElKey Dõ Manoel , q cõ o felice progresso de seu tempo senho-
reou muyta parte do campo cpie respondia aos lugares, que el-
le, & seus predecessores tinhão tomado. Cujas forças espalha-
das, & sojeitas a custosos acidêtes de cercos, se recolherão em
lugares (inda que mais poucos) mais fortes, & defensiveis : Don-
de os nossos estão hoje encontrando os inimigos com guerra con-
tinua, «Sc fazendoos fogir das faldras fertilissimas dos Mares Gua-
307 — 2. ditano, & Athlantico, tè os meter por dètro das secas áreas do
sertão da Mauritânia , muito contra seu gosto , & pretenção , &
quiçá , fora mais acertado continuar co esta cõquista , q c5 a da
índia. Sabemos que os Romanos sendo tão poderosos , a deixa-
rão, considerando que não podião administrar Republicas, tara
lõginquas da sua, sem grade dano delia. Tinhao também ou-
tras conquistas mais propinquas, & eralhes necessário primeyro
subjugalas, pêra que os inimigos lhes não podessem dar nas cos-
tas, & os nossos Portuguezes têdo inimigos tão vizinhos de suas
portas empregarão todas suas forças cotra gente tão remota do
seu Reyno, que quãdo là cliegão sam fracos, deixando criar
forças aos inimigos vizinhos pêra poderê pretender lançalos fora
de suas terras. Nem sam ja as riquezas destas índias bastantes
para nos livrar delles , antes sam agora tão poucas que passa a
despeza pola receyta. E deixamos criar às portas de nossas casas
os inimigos da fè de Christo , ricos , & esforçados , por irmos
buscar poucos a muitos q estão muy longe de nòs, despovoan-
do o Reyno antigo , enfraquecendoo , debilitandoo , buscando
incertos, & incógnitos perigos, & desprezando a vida, porque a
fama nos vente , & lisonje. Queixa antiga he esta cò que o
nosso insigne Poeta Camões no fim do Canto Quarto das Lu-
síadas, nos affronta.
Não tês junto contigo o línnadita
Com quê sienip7'e terás guerras sobejas !
Nam segue elle do Arábio a la/ maldita^
Se tu pola de Christo só pelejas !
Não tê cidades mil , terra infiràla :
Se terras , &( riquezas mais desejas !
107 — 3 4 Não he elle per armas esforçado :
Se queres per victorias ser louvado ?
DA GLORIA E TRIUMPIIO DOS LUSITANOS. 241
Deixas criar às portas o iminigo ,
Por ires buscar outro de tão longe :
Porque se despovoe o Rcrjno antigo,
Se enfraqueça , ò( se và deitando a lõge :
Jiuscas o incerto , ò; incógnito perigo ,
Porque a fama te exalte , bí te lisonje ,
Chamandote Senhoi^ com larga copia
Da índia , Arábia , Pérsia , íf de Etiópia.
Terra he Affrica tão larga , & espaçosa , tíío fértil , & abundàte
q bê se poderá nella agasalhar , & gastar gete do Reyno , rique-
zas tem como Oriente , «Sc nao menos proveitosas , & necessárias
para o Reyno. Porem está tanto cabedal metido em a conquista
da índia , que parece ser impossível o remédio humano se não
vier da mào de Deos. Muyto se remediaria, se os seus Gover-
nadores a governassem , & não dissipassem , fossem humanos , &
não tyrànos , &. se contentasse com o honesto , & sem pretender
o supérfluo. Deixo as perdas que suas dilicias importarão aos
nossos, & a outros mui esforçados Varões e valerosos Capitães.
Pompeyo Magno avêdo sido vêcedor dos fortes guerreyros de
Hespanha , foy vencido da fraca , & desarmada gente da Ásia ,
& subjugado dos seus vicios. Com os quaes avia ja derribado ao
Magno Alexandre. E não fez muyto em vecer com elles, o que
3a delles estava vencido, & de sy mesmo não fora vencedor. De-
pois dos quaes apenas ouve Capitão , q dos seus deleytes nã fos-
se conquistado. Muytos ouve dos nossos que atravessando em
Affrica os Leões com suas lanças de rosto a rosto, & avedoas
pregadas nas portas das cidades fronteyras de seus inimigos
muytas vezes, em a índia se ouverão como fracos; sendo quã- 107—4.
do pêra là forão fortes, & esforçados, volverão affemeados. Cer-
to he q a terra estéril, & secos terrôes gèrão, & faze os homês
robustos, & valentes, que a fértil, & deliciosa debilita, & faz
mimosos; aquella indurece os que em outras terras nascerão;
esta os faz moles, & enfraquece. A sombra dos freixos, fayas,
& castanheiros, não cria Fabios, nem Sipiôes, nê Torquatos,
antes de fortes os faz fracos , mimosos , & regalados , & os en-
trega a delicias, deleytes, & passatempos. Ásia effeminou pri-
meyro os Franceses, & depois os Romanos : & Babylonia a A-
Icxãdre, & Capua a Anibal , & a Índia Orietal aos nossos. E
polo cutrario aquella seca, & montanhosa parte de Itália cha-
mada Liguria, fez robustos os mancebos de Roma, & os cabe-
ços esteriles, & Ínvios da Lusitânia fezcrão indómitos os seus na-
turaes, que a abíidãcia & regalos do Oriente enfraquecerão.
E com tudo forão, & sau os feytos dos Lusitanos taes, & tantos
31
243 ftlALOGO QUAllTO
que os menores seus podem escurecer aquclles que muitos tem
por milagrosos,
CAPITULO V.
Da Lusitânia, òç seus Conventos Jurídicos.
Hcrc. Polas unhas se conhece o Leão, & eu polo que os nos-
sos fezerão em Affrica, entendo, quaes serião as façanhas que
em defensão de sua Pátria os antigos Lusitanos fariào. Kogovos
que vos não escuseis de as recontar se vossa indisposição o sofre,
103 — 1. jént. Tudo he pouco o q vos posso dizer, mas será mais do q
escreverão algus históricos de nossos tempos; os quais falão de
nossas cousas tão escassamente , q se entende delles o desgosto q
tem delias. Portugal deixada a Região de antre Douro, & mi-.
nho (q he a Calecia Bracharense) & a de Serpa , Moura , Mou-
rão, & Olivensa (q sam da Betica provincia) contem a mayor,
& mais principal parte da Antiga Lusitânia. Na qual ha em
comprimento mais de trezêtos , & vinte mil passos , como con-
lJib,^.c.\. testão Resende, & Vaseu , no q delia escreverão. Chamouse as-
si , diz Plínio , de Luso filho de Bacho , & Lyso seu companhey-
ro; de Luso Lusitânia, & de Lyso Lysitania do q tambe dão
testemunhos mármores antigos. Resende no principio do Primey-
ro livro das antiguidades de Lusitânia , conjectura que onde se
lè em Plinio, ac , se ha de ler, vel , & assi que Luso, & Lyso
he o mesmo. E sem duvida quadra mais que tomasse o nome do
filho, q do sócio, & de hu, q de dous. Entre Salamanca, &
Ávila se achou híi marco q de hua parte dizia : Hcinc Lusitâ-
nia , & da outra , Heinc Tarraco : por onde partia cô a provin-
cia Tarraconense. Mas deveis de notar que os Romanos em di-
versos tempos fizerão diversas partições de Hespanha. No anno
duzentos, «Sc cinco antes do nascimento de Christo, foy Hespa-
nha dividida ê citerior, & ulterior, & ambas forão províncias
pretorias, & os primeyros pretores delias forão Caio, ou Cneo
Sempronio Tuditano, »Sc Marco Helvio. Mas parece que as
rayas destas duas províncias se variarão, & confundirão em áií-
ferentes tempos. No anno cento, & noventa & hum antes de
108 — i, Christo Redemptor do Mudo, Tolledo co suas Comarcas erão da
Provincia ulterior, porque Marco Fulvio Nobilior Pretor desta
ulterior Provincia pelejou jíito de Tolledo, como affirma Tito
Lívio , cos Vectones , & Celtiberos , q trazião por seu General
Hilerno Rey. Mas no anno cento &, setenta , & nove antes da
>inda do Senhor, toda Hespanha se fez híia Provincia, & os Hes-
BA GLOUIA E TIUUMPIIO DOS LUSITANOS. 243
panliocs se forào queixar a Roma da tyiània dos Pretores, aven-
do duzentos annos cj regavão os camjKDs cô seu sangue, do que
he Autor Orosio : E no anno ceio & sessenta, &. sete. Marco Lib.b.c.l.
Cláudio Marcello, Neto do q tomou Saragoça, foy Pretor de
toda Hespanha : porem logo no anno cento & sessenta, & cinco
antes de Christo , se tornou Hespanha dividir em duas Provín-
cias, avêdo catorze annos que era hua sò. E no anno vinte &
quatro antes do nascimento do Redej)tor se partio a ulterior em
Betica, & Lusitânia. E assi Mela que escreveo pouco depois
presupòs ja esta divisam. Do Douro começa Lusitânia, & toda
aquella terra cotra Tejo se cliama jixlremadura, (quer dizer ex-
tra Duriíi, Alem do Douro) & isto he o mais certo. Aqui lià o
rio Vacca, & Vouga em nossos tempos, & o Mondego q traz
ouro, & pedras preciosas. Nam falo em Cale na fòz do Douro,
que com seu porto deu nome a Portugal. Ouve também a Ci-
dade de Talabrica, que agora he Cacía, Villa no Rio Vouga
junto de Aveyro : òc Conimbriga que he Condexa a Velha como
se lè em híia pedra q cstcà na pote da Tadoa. E a que agora
chamamos Coimbra, por ventura se fez das ruynas da velha Co-
nimbriga , a qual esta sita sobre o Mondego que corre tão sosse-
gado, & vay em suas voltas, & rodeos tão brando, & vagaroso, 108 — 3.
q parece arrepèderse de levar sua doce agoa ao mar salgado. E
ouve Colippo junto de Leyria a S. Sebastião , onde morreo La-
beria Galla Flaminia, isto he sacordotiza de Lusitânia. E ouve
Moro onde agora vemos o Castello de Almourol em híi arrecife
metido nas agoas do Tejo, cjue nas suas crescentes o fica cercan-
do a modo de llheo em forma que se não entra , nem say delle
sem barco. Dizem que da Cidade Moro ficou em peè somente o
dito Castello em testimunho de sua grãdeza , & que nos mais
edifficios executou o têpo seu rigor acostumado. Bê pode ser isto,
mas achandome eu al^uas vezes na Villa de Mora, & vendo as
suas ruynas, & quasi nenhíia corrupção do nome , imaginey qu«
podia ser a antiga Moro posta sobre o Rio de Benavente quasi
três legoas acima de Coruclie. E porque não vi algíia antigua-
Iha , q me persuada ser delia híi destes o verdadeyro sitio , ne-
nhíi delles tenho por certo, &. falo de ambos como duvidoso. E
ouve Eburibriciíi , nome que' não se ha de dividir, ne partir è
dous, como anda em Plínio, reclamando inscripçôes de mármo-
res antiquissimos. A híi moderno Cronista parece que Eburobri-
ciu esteve perto de Alferzerão, & não saõ vãs as conjecturas dos
letreyros, & ruynas, em q se funda; inda que algíis affirmê ser
Ebora de Alcobaça. E ouve mais Terabrica que he agora Alê-
quer. Mas pêra mais clareza deyxada esta ordê sigamos outra.
Plinio escreve que toda a Lusitânia se dividia em três con-
ventos jurídicos, que erão como Chãcellarias, & em trcs Comar-
:{1 *
241 IHALOGO QUAUTO
lOu— 4. cas, que concorressem aos ditos conventos como a cabeças, pêra
q a cilas fossem fenecer as controvérsias. Os Procônsules, &
Pretores das Províncias fazião a guerra no Verão quãdo se offe-
recia ocasião pêra aver; e no Inverno recolhiâose a julgar prey-
tos, & determinar duvidas, em estes conventos jurídicos (que
forão Merida, Beja, & ÍSantarem) assi distantes entre sy que
fazem hum triangulo de lados quasi iguais. Donde hè, que es-
tado depois quasi toda a Lusitânia avassalada ao Império Roma-
no, sem cuydado de tomar armas em defensam de sua liberda-
de, obedeceo ao edictal de Augusto César sobre a descripção do
Universo. O qual foy publicado nestas três Chancellarias, onde
avia Pretores, & outros officiaes de Justiça, a que vinhào de
Roma as Provisões , & mandados do Emperador , pêra os execu-
tarem. E a primeyra em que se noteficou , diz Laimundo, que
fov Santarém, aonde concorrerão, & se vierào presentar sem re-
pugnância algua todas as povoações ^ avia desdo Tejo tè o
Douro; e à Chãcellaria de Beja, todo Alè Tejo, & os Algar-
\es. E a Merida o restante de toda Lusitânia. Gotinha quarenta,
& cinco povos, os cinco erão Colónias, & hii Município dos
Cidadãos Romanos. E três, ou quatro do Latio antigo, &. trin-
ta &-seis estipendiarios.
%fvvvvvk'vvvvvv\'vvvvt'%'Vvw%fvvvvv%/%'\'%vv\'VV%vv\iv«'\>%'\'vvvvv\'vvv\v«%vvii jy%v%n0
CAPITULO VI.
Das Colónias da Lusitânia , ^ sua fundaçam,
Herc. Folgaria de saber os nomes das cinco Colónias, & sua
fudaçã.
yínt. A primeyra delias era Augusta, & Merita junto ao Rio
109 — 1, Annàs, chamado dos nossos (Guadiana) cuja fundação foy a se-
guinte. No anno vinte, & quatro antes de Christo Nosso Senhor
acabou Octávio César todas as guerras de Hespanha, & ficou de
todo pacifica, & rendida à clemência Romana : cousa tam esti-
mada delle , que por honra desta paz , diz Orosio , que mandou
cerrar a seguda vez as portas dó' Têplo de Jano. E querendo
Octávio premiar , & aposentar os Soldados Velhos , a q os lati-
nos chamão eméritos, fundou pêra isto na Vettonia Lusitana,
a Cidade Merida. Foy de bravos edifícios, & de grande sitio, e
magestade. Dizem que tomou a seu cargo edificala Publio Ca-
risio Propretor , & legado de Octávio. A seguda Colónia foy
Beja chamada Pacêsis; à qual mandou Júlio César convocar
Embaixadores de muytas partes da província, a fim de receber
os seus moradores no emparo, & amor do povo Romano, &
DA GLOIilA E TRIIMPUO DOS l.lSlTANOá. ?31ô
nella cõcluyo pazes còs Lusitanos, concedendolhe franqua, &
liboralissimamente as côdições da sua parte requeridas, &. resu-
midas, em q os não carregasse de tributos, nem lhes lançasse
soldados dos muros a dentro. E foy tào aprazível a César esta
paz q ale de repartir pelos da junta reqtiissimos does, pêra le-
brança delia, pòs nome a Beja (Pux Júlia) isto he (laz de Júlio
César. Vindo depois Octávio a Hespanha, he de crer q refor-
mou Beja, & a nomeou Pax Augusta, chamandose dantes,
Pax Júlia. Foy distincta com divisiis de cabeças de boys lavra-
das de mármores por gctil arte. E a causa seria porque o boy vi-
ve em perpétuos trabalhos, sêpre tira polo Carro ou polo arado,
& com ellc se cultiva a lerra fértil , &, grossa , qual he a do seu
termo. Ou porque este animal significa mudança de cousas, & 109—2.
a terra tratada com a industria humana nunca está em hum lu-
gar, nem tem hija mesma figura, como diz Josepho. Os anti-
gos Egypcios querendo significar o trabalho pintavão hiaa cabeça
de boy , como refere Pierio Valleriano. O mestre Resende na
carta que cscreveo em graça da Colónia Paccnse , que he de
muyta erudiçam , diz, que Pax Júlia, & Pax Augusta era a
mesma Cidade de Beja , que de Augusto César se chamou Au-
gusta , & de Júlio, Júlia. ¥. Júlio foy o que lhe deu privilegio
de Colónia Romana , como dizem que o deu a Córdova na Be-
tica Província. Porque correndo as guerras civis entre Júlio, &
Pompeo, nam avia em Hespanha Colónias, como affirma Vel-
leyo Paterculo, senão fosse Carteia no Estreito de Gibraltar,
que foy a primeira que os Romanos fezerão em Hespanha de
quatro mil Soldados filhos bastardos de Soldados Romanos , &
Latinos , que nella se acharão , & de molheres Hespanhoes.
Algíis escrevem, que quando Octávio César edificou Merida,
& Çaragoça, fundou também Pax Júlia, & lhe deu o nome de
seu tio. Porem esta conjectura não quadra, porq dantes o tinha,
<-omo se vè em híi pedaço de mármore que sova estar em Beja à
porta de Moura, no muro alto cõ estas letras, e outras gasta-
das do tempo.
C Jvlms Cxie.
1 1 F'ir bis prcc»
Vlrique se.
Que fazê mêçaõ de Caio Júlio Ces. e dos cargos q teve, como
se fora elle o q a fíidou. Manifestamete se enganou que escre-
veo q Beja dista de Badajoz nove legoas, pois dista vinte, &
cinco. O mais certo he que Badajoz não he Pax Augusta, ao 109—3.
qual os Árabes chamaram Guadalgemauzi , que quer dizer Rio
de nozes, & corrompeose em Badajoz. Com sagacidade deu An-
dré de Resende a entender a corrupção do nome Pace em Be-
246 DIALOGO QUARTO
ja; da qual foy causa o vicio da lingoa dos Mouros, que pri-
meyro pronunciarão Baxe, depois Bexa, &. Beja. É inda na
era de mil , & duzentos , na qual foy tomada aos Mouros lhe
sabião o nome de civitas paca, como se deyxa ver em híi Su-
mario dos Reys Godos q Resende approva. Avera vinte, & seis,
ou vinte & sete annos , que em Beja se achou hum mármore
com a inscripção que eu tresladey, & anda mal impressa è li-
vros Castelhanos , & segundo aparece foi o mármore base de al-
giia estatua que os Pacêses poserào ao Emperador, & a inscripção
he a seguinte.
h' Adio Aurélio
Commodo
Jmp. CcEs. T, Adi Ha
ariani Antonim
Aug. Pii P. P. Filio
CoL Pax Júlia
D. D.
Q. Prcetonio Materno ^
C. Júlio Juliano
IIFir.
A declaração he esta. A Colónia Pax Júlia pòs esta estatua a
Lúcio Aelio Aurélio Commodo Emperador, filho de Tito Aelio
Adriano Augusto Pio, pay da pátria, por decreto dos Decuriôes,
& Varões do governo Q. Petronio , & C. Júlio. Foy tempo em
que os de Beja, & os de Évora teverão cotenda sobre os termos,
sendo Emperador Diocleciano , & Maximiano : & Daciano Pre-
109«ii«4. sidente das Hespanhas, compôs esta differença, o que consta de
híí mármore junto a Ouriola , que Resende descobrio, o qual
na parte cotra Beja diz. Hcinc Pacenses. E na contra Évora.
Hànc Eborenses. No Concilio Sardense em Mysia de trezentos
Bispos sub Júlio primeyro Papa, ê têpo de Constantino Ariano,
no anno de trezentos & quarenta & sete , foram presentes Flo-
rentino Bispo de Merida, & Domiciano Bispo de Pax Augusta,
o que se não pode entender de Badajoz, que está na Betica
» Província , estando Merida na Lusitânia , & tendo nella muytos
Bispados suffraganeos , dos quaes hà era Pax Júlia, ou Augus-
ta. E cu tenho por muy provável que quanto os escriptores dis-
serão dos Pacenses, entenderam dos vizinhos de Beja. E delia
cuydo que foy híi Isidoro Pacense, que deixou grande memoria
de suas letras, & engenho. No têpo de Justiniano Augusto o
primeyro, floreceo Aprigio Bispo Pacêse de muita erudição, &
subtileza, que fez illustrissimos Commentarios sobre oApocalyp-
sis, & Cânticos de Salamão. E no tempo dei Rey Dom Rodri-
go floreceo Laymundo Ortega seu Confessor, que escreveo na
DA GLORIA E TRIU.MPIIO DOS LUSITANOS. ;ii7
lingoa Latina onze livros das antiguidades dos Lusitanos , q no
dia de hoje se vem no Real Mosteyro de Alcobaça em letra de
%ião. O qual foy natural de Beja, &, delia pòs em memoria al-
gíias particularidades, que nelles se deixão vèr, & ajuntou em
hum corpo muitas rehiçues antigas, que duravão em seu tempo,
das quaes se não lembrarão os Historiadores Romanos, ocupados
em escrever os feytos de armas, q socederão entre os Tyrànos de
sua Republica.
Hcrc. Muyto bem me parece o que dissestes da Colónia Pa- 110—1,
cense , & muyto melhor a grata memoria de vossa pátria. Bem
lhe respondeis como grato à criação, tSc instituição que em vòs
fez, pois com vossa pena levantastes tãto sua fama. Lembrame
que ly serem entre os antigos ávidos por tam famosos os que en-
grandeciào as cousas de sua pátria , que lhes erigião estatuas , &
dedicavão sacrifícios como a Deoses , a fim de eternizarem seus
nomes.
Ant. Ha benefícios tamanhos que nunca o agradecimêto he
igual a sua grandeza : hà dividas que por mais que façais por
sayr delias, sempre lhe ficais debayxo do jugo da obrigação. E
hà algíias de tal calidade , que para as satisfazerdes aveis de ccV
traher outras de novo. A todo amor natural se ha de preferir o
da pátria, e que teve outra cousa por mais querida, &. estima-
da, errou como ingrato.
Hcrc. A que povoação coube ser a terceyra Colónia?
Ant. A terceyra Colónia foy Santarém, chamada dos Roma*
nos Scalabh Prcesidium Jídium. Dizem algíjs que se chamou de-
pois , Scakibicaítruin , & os Mouros lhe chamaram , Cabclicas-
trum. Mas a verdade he , que hum Monte junto a Santarém
se chamava Scalabis Castrum, defronte do qual foy pelo Tejo
abayxo aportar o corpo de Sancta Eria. E não sey que censura
merece, por informação de ignorantes, virem a escrever homès
peregrinos, da nossa nação, aliás Doctos, que Trozilho na Ex-
Iremadura, era Scalabis, como diz o Vacabulario Latino vul-
gar, sendo Castra Júlia lugar suffraganeo a Nerba Cesárea Co-
lónia. Esta era a Quarta Colónia, que algíis dizem ser Alcan- 110 — 2.
tara. Mas tenho por muy provável , que a sua ponte tam no
meada foy edificada em despovoado, por ser lugar firme, &
passageyro, & assi tem parecido a algiis doctos. E perdoayme
não dizer mais desta Ponte, porque andão livros delia cheos, a
que vos remeto, & em especial a Joam Vazcu na sua Chronica
Latina. A Quinta Colónia foy a Metelliuense, que agora se
chama Medelhim, onde o Tejo mudou o curso antiguo, como
que a deyxava na Betica Província. No anno setenta & quatro
antes de Christo, Quinto Cecilio Metello venceo Hercúleo Ca-
pitam de Quinto Sertório, & lhe matou, & captivou vinte mil
fg48 ])IALOQO QUARTO
Lusitanos. A qual victoria poetn Lúcio Floro junto de Gua-
diana, & parece que se deu a batalha perto de Cáceres, & Me-
dellúm ; porque de Cecilio Metello tomarão nome Castra Cecí-
lia , & Colónia Melellinensis. Estas forão as cinco Colónias da
antigua Lusitânia. Bcrc. E qual era a mane_>ra de sua funda-
ção?
Ànt. Quando os Censores achavão Roma muyto chea de gen-
te , descarregai ãna mandando algíía delia a povoar outra Pro-
víncia , assinalandolhe nella sitio , campo , herdades , & termos.
Também fundavam estas Colónias por outras causas. Muytas ve-
zes quando venciam algíia na^am , a multavão com lhe tirar as
molheres, & terras mais fertiles, que mandavão povoar de Ro-
manos , pêra segurança , & estabelicimêto de seu estado & se-
nhorio. Erão estas Colónias muy queridas & estimadas dos Ro-
manos , como filhos naturaes da sua Republica , & gerados de
seu sangue. O sitio se assinava com hum reguo de arado, don-
110—3, de vemos , nas moedas das Colónias , hua junta de bois cò nome
da Colónia , «Sc dos q tinhão o governo no anno que se bateo a
moeda. Os vizinhos das Colónias todos erão Cidadãos Romanos,
& pelas leys de Roma se região & na policia & cõversaçào a re-
presfíntavão. De maneira q erão híis pequenos retratos da am-
plíssima Republica Romana. E por isto erão mais honradas que
os Municípios, inda que estes fossem de melhor condição, porq
vivíão por suas leys & costumes, & cõtudo erao Cidadãos Roma-
nos, capazes de suas honras, com juro de eleyção. Isto quanto
aos Mvmicipios de Cidadãos Romanos : porque os do antiguoLa-
cio não podião votar, ne tinhao totalmente juro de Cidadãos. E
Li6, 1. de às vezes se dava em premio o direyto, & privilegio de Colónia
ccni,\bu$, a algfis lugares da mesma província, como no corpo do direyto
se aponta.
CAPITULO VII.
Do Mimicipio dc Cidadãos Romanos da Lusitânia ^ òf de algúas
maraúlhosas obras da natxvreza,
TIcrc. Que povoação foy na nossa Lusitânia Município de Ci-
dadãos Romanos?
Ant. A cidade de Lisboa situada no outeyro Oriental , cha-
mada Olísipo Felicitas Júlia, tam insigne & venturosa, que
em poder de Senhorios vários & de varias nações costumadas a
escurecer glorias alheas, augmentou tanto a sua, que em nossos
110 — i. tempos lhe coube ser sem controvérsia algua, a mor povoação
JJA GLORIA E TílirjlPlIO DOS LUSITANOS. 949
de toda Hespanlia, & híía das mayores, mais ricas & nobres
de toda Europa , a cujas leys & Império obedecem , & reconhe-
c» m vassalajem , & pagào tributos, os muy poderosos l\eys das
Índias Orierítaes. E caso que alpjuns sigão outras orthographias ,
os mármores antipuos dam claro & constante testimunho que a
do seu nome he Olysipo. Solino, &, Strabo, dizem que Olysses Lib. 3.
a fundou, &, pòs em ella o Templo de Minerva ; E diz mais
Strabo, q Asclepiades Myrliano na Turdelania he Autor, que
no dito Templo ficaram memorias dos errores de Olysses. O
mesmo Auctor escreve, Olysseia, & Plolomeo Olyosopo; mas Racn/Jivit
Varro, OlisijX), & esta he a verdadeyra orthographia , como fi- in svnm
ca dito, A nobreza de Lisboa ha myster longo tratado, mas por Finceniiú
q pode parecer ingrata deslealdade, passar d(! todo por seus lou-/. 43.
Tore.s , quero me contentar com imitar a Plinio, quando louvou
a Itália. He Lisboa hum olho claríssimo do universo, potentíssi-
ma Raynha do Oceano Athlantico, Arábico, Pérsico, Indico,
& Boreal, Escolhida por Deos pêra esclarecer o Mundo, & a-
cender o lume da fee em gentes Barbaras , & nações feras ; pêra
ajuntar o celebrado Ganges, com o Rio Te;ío, & os fazer co-
municar entre sy as riquezas que cada hum cria, & trazer a cô-
municaqào, & comercio, tantas lingoas dif ferente.s ; & pêra dar
humanidade a tantas nações Idolatras & indómitas. E sabey,
que cõ vt^dade se diz do seu Rio, que he rico, & suas áreas
sam douradas, & que ElRey Dom Dinis mandou fazer híía
Coroa, & hum Septro de ouro tirado do Tejo, tão fmo &l de 111—1.
tantos quilates q não se achou outro q lhe fosse igual. Dizè q
Tago quinto Rey de Hespanha , lhe deu o seu nome pola affei-
çào q tinha a suas bradas corrètes, & frescas ribeiras. Híí Por-
tugutz doclo copos em latim híia elegante discripção desta insi-
gne Cidade, & o q Plinio & Solino seguindo a Varro disserão, LibA.cap.
que as egoas do capo de Lisboa concebiào do vento Favonio, não áíá.
lhe pareceo de todo mal.
hcrc. Ne cousas desta calidade costumao ser incrediveis, se
não a quê dà poucas ou nenhuns honras â lição & consideração
das cousas naturais; Que cousa pode parecer menos possível, q
aver animaes que por espasso de tepo se não mante doutro pasto
q da respiração do ar ? E toda via não he somente Plinio o q
assi o affirma dos Astomos; mas outros escriplores muyto mais ,
antigos , escreve q a respiração do cheiro lê maravilhosa effica-
cia, para restaurar as forças nas syncopes & desmayos. E cm
tèpo do Papa Leão X. consta per testimunho, e autoridade de
Hermolao íiarharo na sua historia, q em Roma ouve hu Sacer-
dote, o qual por espasso de quareta annos se mãteve sò do ar q
respirava. Mas estas saõ mais antigas. Outras acho mais moder-
nas , & nada menos espâtosas , q eu costumo relatar cõ mayor
Ò2
Cap.Q^iil, gosto; Guilielmo Rõdelecio no livro primeyro dos pescados do
1. mar, escreve, como testimunha de vista, allegando em confir-
mação do que diz o testimunho publico de toda a provinda de
Narbona, em França, q ouve nella híia moça a qual por es*
passo de três annos se manteve sò do ar; E que na Cidade de
Esperia em Alemanha ouve outra donzella q por muitos annos
111 — 2. não usou doutro mantimento, q do mesmo ar, que llie servia
de comer, e do beber. E sobre tudo isto affirma ter visto com
seus olhos hua molher q em sua mocidade se sostentara tè os dez
annos de idade, cò este mesmo alimento, que trazemos era
provérbio ser sò de Cameleòes. Nao pretendo porê c5 estas his-
torias (ê que deixo a cada híi livre seu juyzo) fazer vos crète o q
antigos affirmarão das ditas Egoas, antes se a ml me dais fò, fa-
zeime mercê que o não creais; pois he fabula nascida da multi-
dão das Egoas fecundas , que piistão ao longo do Tejo , & a li-
geyreza dos cavalos deu lugar à fabula , que erão gerados do
vento, como be ponderou Justino. Posto q hu lavrador de Be-
lJh.de an- navete que sobre isto consultou Resende, como elle refere, lhe
iiq, Lus. disse, q hua sua Egoa achara prenhe sem lhe chegar cavallo,
& que aos oyto mezes movera. Trata mais o dito Portuguez,
da Serra de Syntra , que dista de Lisboa , cjuasi seis lego is , a
q Varro chamou o mote Tagro. Outros lhe chamarão o JVloiite
Scynthia , isto he da Liia , donde say o cabo , chamado da L'ia ,
pêra o Oceano : ê as raizes deste cabo, na praya esteve antiga-
mete o têplo do Sol , & da Eíia , venerado cô suma religião.
Em híí lado deste Mote esta a Villa de Coilares, que pode dis-
tar do Oceano mea legoa , e perto delle se vè em nossos tem-
po* esta inscripção.
Soli (Bttrno , <5f Lunce
pro ceternitate Imperli
^ salute Imp. Cai, Septluúi
Scveri ^íng. Pii, ò; Imp. Ccca.
M. Jurelii Antonirn
y4ug. Pu. Coes. if Julus yhtgustx
Matrts CcEs. Drusus Falerins
Ctelianus éfc.
Ill — 3. A interpretação he a seguinte, Druso Valério Celiano, & ou-
tros abaixo nomeados, dedicarão este Tèplo , ou nelle sacrifi-
carão ao eterno Sol , & à Lua pola eternidade do Império Ro-
mano, &. pola saúde do Emperador César Septimo Severo Au-
gusto Pio, & Caio César, tSc de Marco Aurélio Antonino Au-
gusto Pio, & de Júlia Augusta May de César. No Oceano de-
fronte de Coilares de bayxo de hua rocha se mostra a cova , ou
DA GLORIA E TRIUMPUO DOS LUSITANOS, S51
fojo, onde calava o Tiiton no teni|)o de Tibério César, a qual
eu vi por vezes, he muy alta, & larga e torno. Da borda delia
se descobre a rotura que tem còtra o mar. Plinio affirma que os Lib.O.c.a,
Olysiponenses mandarão Legados a Roma cõ novas desta mara-
vilha ao Emperadur. E inda agora se vêm por aquellas prayas
homês, & niollicres marinhas, que os Antigos chamàoTritones,
& Nereides. Mas o que o Vulgo diz, que ha em muytos luga-
res vezinhos a estas prayas certa casta de homês que tê todo o
corpo gadelhudo, & cheo de escamas, & q se tem por certo, q
trazè a origê de liomès marinhos, ou Tritones, & q he tradição
dos antigos , q sayâo os tritones a brincar na praya , & comer
fruytas, de q ha muy ta copia ao longo do seu Arroyo das ma-
çãs; òc que fazendo isto muitas vezes por manha forào tomados
em hu faval, &. depois com affagos, & domestica familiaridade
se amansarão, & chegarão a falar, & conversar as Lusitanas,
he fabuloso. Bem creo aver homês marinhos inteyros, com per-
íeyta figura humana, & que podem viver na terra, & falar lin-
goagem como pegas : mas poderse mysturar a semente de ani-
mal bruto marinho cô a humana, lenho o por fabula tão mons-
truosa , como a dos Hipocentauros de Thessalia, celebrados do 111— 1.
Poeta Pindaro. Outra cousa porem seria, se admitirmos o q con-
ta Vives, q no seu tèpo se tomou hií home marinho em Batavia, In l'ih. de
q esteve preso sem fa'ar mais de dous annós , tSc começando ja a cif.
falar porq foy ferido duas vezes de peste o soltarão, & logo se
acolhoo ao mar saltando cõ grande alegria. Mas diz que estes
homês marinhos sau gerados dos homes da terra grandemente da-
dos a nadar, os quaes avezão seus fdhos de pequenos a este ex-
ercício pêra q por muyto temj^o |X)ssam durar debaixo das agoas.
E estes quasi gerados na agoa em que se criào, assi se deleytão,
& recreào nella como peyxes; & como os outros homês vivem
na terra, assi vivem estes no mar. Diz mais, que Hespanhoes
dão relação nas terras, & mares do novo Mundo cm lugares
calidissimos, aver muytos homês desta mancyra. Haphael Vola-
terrano refere aver em Apúlia hum màceho costumado de mi-
nino a nadar dentro no mar entre as feras marinhas por muytos
dias sem lhe fazerem mal, como se fora cada qual delias. Pe-
netrava os íntimos, & remotíssimos Mares, tornava muytas ve-
zes à praya, & avizava os marinlieyros das tempestades que a-
■Vião de vir : & que se chamava dantes Nicolao, & depois Cola-
piscis. Bem pode isto ser : mas fora destes têde por muy certo,
que ha homês marinhos, que sam brutos animaes, como estes
que aparece no Oceano de Lysboa. Eu conheci hum homem J''i-
dalgo , que tinha o corpo semeado de escamas , & seu pay não
era Triton , nê sua may Nereide, ou Syrene.
Herc. Enleado estou com as cousas que ouço; vòs tendes 11 í! — 1,
;)>2 ♦
'2f)3 DIALOGO QVJAUTO
toda a velhisse do mundo metida nesse peito , & apenas hà antir
guallia que nam hajais lido. Se sabeis algíías outras de Lisboa,
rocovos que nam passeis por ellas.
yínt. Do tempo de Gregos, & Romanos nam consta mais. E
quiçá não faltarão escriptores, que illustrassem a gloria desta
Cidade com memoria de suas letras; mas o curso do tempo tu-
do consume. Pois do tempo dos Godos , & Mouros , nam temos
que dizer, porque foram bárbaros, rudos, & miseráveis. Por íim
digo que hoje dà Lisboa leis , & ordem de viver aos mares , &
terras do Oriête; & doma as duras cervices dos Reys soberbos
com armas invencíveis , fazendo tributarias suas provincias à
grande Lusitânia ; & tem dilatado, & extendido o Evangelho
de Chrísto nosso Salvador ate a Regia dos Chinas , & reduzido
à humanidade , os Ethyopios , Arábios , Persas , Brazys , & ou-
tras nações que eram muy alheas da noticia do verdadeyro Deos.
O qual por ventura quis que nam ouvesse ornamentos da lin-
o-ua humaua para se celebrarem as admiráveis façanhas dos nos-
sos , mas que todo seu preço , & valor estivesse fundado na subs-
tancia delias.
CAPITULO vin.
Da Serra , !f Cidade de Portalegre , Município do Antigo Latio.
Na Igreja do Espiritu Santo de Portalegre extra muros em
híí mármore quasi quadrado , q parece aver sido pedestral , ou
peanha de algcia estatua , em suas molduras , &. cornijas : & ho-
112 — 2, ra serve de cepo aonde se lanção esmolas, se vè o letreiro seguin-
te , de todas as pessoas , que nella entrào,
Imp. C(ss. L. Aurd'10
Vero Aug. Divi Anto-
nini F. Pont. Max.
Trih. Po. Con. n. P. P.
Mumcip. Ammai.
Cuja significação na nossa lingua vulgar he esta. O Município
• Ammai dedicou esta estatua ao Emperador César Lúcio Aurélio
Vero Augusto, fdho de Divo Antonino Pontífice Máximo,
Tribuno do Povo, Côsul duas vezes, pay da pátria. O qual
cuido q não carece de algua falta, porque na avia para que es-
crever Ammai com dobrado M. & o verdadeyro nome deste mu-
nicípio, &. sua ortographia, parece que foy Maya, ou Amaya,
TA CLOIIIA 13 TRIUMPIIO JJOa LLólTA.NOJ. «õ'J
ealvo se a povoação se nomeava Ammai, & Maya a serra, co-
mo se mostra de híis quadernos muy j^astados da Antiguidade,
que me parecerão traduzidos de outra lingua na nossa «5c letra
de mão. He a serra de Pijrtalegrc! híia das melliores da Lusitâ-
nia do seu tamanho, em que parece eslrcmarse a natureza na
fresquidào de arvoredo, a muytos prados, &. diversidade de boas
fruitas, suavidade de ares apraziveis, q correndo entre flores, &
hervas cheirosas sopram muy suavemente roido musico, tSc soido-
so de varias plantas, multidão de claras fontes, doces, & frias
agoas. He toda cuberta de sombrios soutos , pomares, vinhas,
olivaes, tSc de muy altos castanheiros, & outras arvores tecidas
per obra da natureza em trocos da graciosa era , & delia cingi-
das & suas ramas , que representão em todo o anno o mes de
Mayo, & nunca perde de todo a fermosura da sua primavera. E
de todas ellas se corta tatá madeyra, que provèe grande parte 112—3.
dos lugares d'Alentejo, & dos da arraya de Castella. Corre pe-
lo meio delia hii fresco arroyo de cristalinas aguas, que todo an-
no a regào, & provèe de muy tas acenhas, & pizòes, em q se
pizoão as graciosas mesclas de varias cores , que na Cidade em
grande abastança se fazem. Dizem q Lysias filho, ou capitão de
Baccho, buscando repouso na velhice povoou Portalegre da ge-
te c|ue vinha em sua companhia, &. nelle edificou hCí forte, &
hum pagode (dos quacs se mostrào inda agora as ruinas) consa-
gràdoo a Dionísio , ou Baccho seu Deos , & appellidando à sua
serra do nome de hiia sua filha chamada JVIaya, dòde se pegou
à povoação o mesmo nome com algiia corrupção, ou sem ella.
Passando depois muy tas idades, & côvertidos os Lusitanos à fè
de Christo, se ergueo sobre as ditas ruinas híia Ermida da invoca-
ção de S. Christovão, onde inda agora he venerado. Dizem mais,
que o dito Lysias foy sepultado naquelle pagode sobre hiis pila-
res de pedra branca, & que e sua sepultura estavão escriptas
híias letras em grego que dizião. Aqui jaz o esforçado Capitão
Lysias primeyro cultor da Lusitânia. Mas isto parecera fabulo-
so , jx)rq ou Lysias fosse còpanhciro de Baccho , ou seu próprio
filho, he cousa recebida de todos os historiadores, que ambos
apportarà à nossa Lusitânia depois de Luso, & de outros muytos
líeys estràgeiros, que primeyro nella reynaram. Avedo pois ví-
vido os Lusitanos muyto tempo antes, em seguridade de paz,
quietos, & em sua liberdade, pastando seus gados no mais fér-
til da terra, & cultivando os cãpos, de cujos fruitos se sustenta-
vão, nam podia Lysias ser o primeyro cultor da Lusitânia. Ao 112 — i.
que se pode respòder que per cultor se entende plantador das vi-
des, e inventor do vinho, do qual careciáo os Lusitanos daquel-
le tempo : em tàto, que ainda no de Estrabo avia muita falta
do tal liquor, como elle o testifica. E nam sO foy Lysias cultor Gcog. lib.
3.
§54 DIALOGO QUARTO
das vinhas o prímeyro na Lusitânia; mas também como bom
discipulo de seu mestre Bucho, ensinou aos Lusitanos fazer cer-
veja de cevada q antigamête se bebia nos convites, & com ella
se festejavão os hospedes. E quãto a Luso, ou Lysias ter sua se-
pultura naquelle pagode , cousa he possivel , porque alem de
falecer dentro da Lusitânia, &. ser devoto dos falsos Deoses, &
muyto inclinado â idolatria, agouros &. superstições genlilicas,
nâo lemos, que em alga outro particular lugar fosse enterrado.
E bem pode ser , que residindo nas faldras da fresca , & famosa
serra de Portalegre, depois de feito o dito forte, nelle acabasse
a vida, & escolhesse a sepultura no seu pagode.
Herc. Que Baccho era esse, em cuja companhia veio Lysias f
Ant. Nam foy o fdho de Júpiter, que domou a índia, do
qual se diz que foy o primeyro que tryumphou em Elephantes
L\b. 3. guerreiros : nem o fdho de Prosérpina, a quem Diodoro Siculo
atribue a invèção de subjugar os bois, &. lavrar cõ elles a terra;
mas o filho de Semeie menos animoso, &. mais lascivo, & ami-
go de boa vida , dado a musicas , a conversação de dõzellas , a
folias , & a beber bõs liquores , o qual deixando a Luso , ou
Lysias em posse do Reyno com algua parte da gente que trazia
(que enfadada da lõga navegação, &, vários climas , por onde
113 — 1. tinha caminhado, desejava de viver ê repouso) se tornou por
meio de Hespanha para Itália.
Herc. Em companhia de tal capitão como esse , mais de Bac-
chistas, effeininados, deshonestos, & rufiães averia, que de Her-
cules , Hectores , Scipioes , & Achiles.
CAPITULO IX.
Das Cidades do Antigo Lafio , òn em que diffinam os Cidadãos
Romanos dos Latinos.
Herc. Lembrevos, que falastes em Cidades do antigo Lacio,
& cidadãos Romanos, & Latinos, sem declarardes quaes foram,
& que privilégios tiveram.
Ant. As Cidades do antigo Lacio erã três na Lusitânia, Évo-
ra, Mertola, & Alcácer do sal. André Resende varão de muy-
ta erudiçam livrou das trevas da ignorância Évora sua nobre
pátria, nam indigna de tal alíino. Da qual quando tratarmos
de Viriato , & Sertório diremos algua cousa , inda que a histo-
ria que delia escreveo ande divulgada por toda Hespanha , tSt de
todos seja sabida. Alcácer se chamava Salacia, & tinha por so-
brenome, Urbs imperatoria.j esta sita sobre o Rio Sadâo, que
r>\ GLORIA 1/ TKIUMI'110 DOs LiblTANOà. iiíJO
05 Homanos chamaram Chalibs , & Ptolomeo Calipus. E parece
que cm alj;u lenij)q foy cidade ('alhedral. Porque em hum (vò-
cilioEliheritatio, tèdo o im[)eri<>Cu3iantino jMagno, subscreveram
estes Bispoí. \ iiicentius Ossonobensis, Liberius Emeritensis, Ja-
nuariíis SaUicièsis, Quintianus Kborensiá. Merlola se chamava
Júlia Myrtilis, & he conhecida pela pescaria dos solhos, que
sam os suillos, como prova líesende contra o parecer de Ronde- 113 — -i,
lecio. Duram inda em JMerlola colunas, estatuas, & mármores L)h,^2. ari'-
com letreiros I»( manos, dos quaes os bárbaros as«i Godos, como tiq. Luút.
Alouros, no repairo dos muros, arcos, torres, & j)onteá usavam, pag'. bb*
pondoas jxr alicerceis, &. fi)damentos, conforme seus bárbaros
ing^enhos. Em meu tem])o n<^s fundumentos da misericórdia des~
ta Villa se acharão sinco, ou seis estatua? de mármores, que eu
vi; & vendoas me alembrou o verso de Virgílio, em q pronos-
ticou que averia entre Romanos imaginários, & estatuários tam
excellentes em sua arte , que nas pedras cortariào imagès tanto
ao natural , como se f(jram cousas vivas.
Stabunt ^' parii lapides spirât\a nigna.
Híia delias era de molher, & tam bem lavrada, & galharda,
que representava â maraxilha a nobreza, & gètileza da pessoa.
A qual me fez hum gostoso espectáculo dos trajos que usavam
as Romanas nobres. Tinha hiaa roupa te os pès com muytas pre-
gas, muyto bem compostas, cingida por debaixo dos peitos (que
algum tanto se enxergavam) com hum cordão torcido da grossu-
ra de hum dedo, &. tinha no meio do peito dous nòs cegos com
dous cabos iguaes q deciào ])ara baixo. Tinha seu roupão muyto
faldrado tè os pès posto nos hombros, & com a mão direita li-
nha recolhida grande parte delle, &. o laçava sobre a esquerua
do cotovello tè a mão com gentil arte. Este nome Myrtilis pa-
rece Grego, como nos ficaram outros muytos, por ventura do
tempo de Ulysses. Nam falta quê diga ser phaíniceo, &. que
IVIyrtiris he o mesmo que Tyro a nova, fundada pelos Tyros, &
Piíteniceos, cjue apportarão na Lusitânia. JSÍyrtilo se chamou
hum filho de Mercúrio, & eu vi em Merlola e híía sepultura 113 — 3.
Romana este nome Myrtilus.
IJcrc. Quisera saber a differença que avia entre Cidadãos Ro-
manos, & Latinos.
JÍnt. André Alciato disputou disso melhor oue todos, & delle Lib.Q.Jh-
o tomaram muytos, que o poseram em Portuguez , & Ca^telha- puncíion.
no. Os Romanos des que domarão com suas armas os povos la-
tinos seus vezinhos, nam nos trataram declaradamente como sul)-
ditos, mas admitirãnos à sua sociedade; de modo que nas le-
giões Romanas tivessem direito para militar, & cargos & magis-
trados como de Decuriões, Tribuno-., Prefeitos dos reays & ou-
tros semelhantes. Este juro se chamou do Lalio velho, porque
f>5G DIALOGO QUARTO
corrêdo o tempo se lhes ampliou este privilegio, & alcançarão
os sócios latinos juro para em Roma avercm honras, & officios,
& juntamente votarem cô as tribus Romanas, & serem eleitos
em magistrados, juro que ja nam se chamava do Latio anliguo,
mas da Cidade Romana. Esta prerogativa íoy primeyramete cõ-
cedida aos I.atinos, porque eram vezinhos, & còterraneos, &
Roma era parte do Latio; & também porque os Romanos se a-
proveitavão ê as guerras da diligencia & fidelidade dos latinos.
Depois se deu o mesmo juro da Cidade Romana a Itália segun-
do os termos antiguos, & aos Hetruscos, Campanos, & Narbo-
ff. de Ce-nenses, & a algíías Cidades de Hespanha. Nas Pandectas se
eiÒMs. nomeam muytas Cidades do direito Itálico, cujos moradores po-
diam em Roma aver magistrados, & como os Romanos, & Ita-
lianos nâo eram obrigados a portagês, tributos, & cabeções. Po-
113—4. vem os Romanos estendiam, ou restringiam estas liberdades &
immunidades quanto elles queriam. Os Gallos Comados primey-
ro foram feitos Cidadãos que lhes dessem juro para as honras &
dignidades de Roma cò favor do Imperador Cláudio. E assi pa-
rece a Alcialo que a muytas nações se concedeo o juro da Ci-
dade Romana, sòmête por honra sem immunidade algua, co-
mo entre nòs se dà a alguns o Habito de Christo sem tença : &
assi entende a constituição de Antonino Augusto que deu a to-
dos os súbditos do Império Romano juro de Cidadãos de Roma,
In tu. de como diz Paulo Jurisconsulto. Mas nam foy de todo inútil esta
staiu ho- ley de Antonino, porque dava a todos direito para militarem nas
niinum. legiões Romanas & nellas terê cargos & honras, o que dantes
era prohibido aos nam cidadãos, que somente eram auxiliarios,
& nam legionários. Nam podiam também ser açoutados, & po-
diam ter os filhos em seu poder, com tal que fossem ávidos de
molher Romana, que com outras nam era matrimonio, & os
fdhos nam eram sobjeitos aos pays, mas seguiam o ventre. Fi-
nalmente os Municípios ficavão com suas levs & sacrifícios que
antes tinhão : &, as Colónias, como geradas das entranhas de-
Roma, levavão cõsigo as leis & governo Romano, mas não os
sacrifícios ; porque o vedava a veligiam de Roma , posto que al-
gíias vezes o concederão a algíís. E todo aquelle que fora de
Roma era cidadão Romano, avia de estar cotado em algua das
Tribus em que Roma estava repartida como em Parrochias &
freguesias. De sorte que chamarse hum estrangeiro do nome dal-
114 — 1. p;ua Tribu , era declarar que era cidadão Romano. Estas Tribus
foram muytas, das quacs sam sabidas trinta & cinco, & outras
Na Corta seis mais que Resende descobrio por seus nomes , afora três , de
a ylmhro- cujos nomes duvidou. E porque me aparto desta matéria com,
sio de Mo- soidade , querome despedir com liuns versos de Claudiano em
raes, louvor de Roma.
J)A GLORIA E TRIUMPIIO DOS LUSITANOS, 857
Jloc ctt m grtmium , meios qncc sola rcccpit ,
Jhmíaniimqxit gemis côinuni nomine fovit ,
Mídris non domince riíu , cwcsqxie vocovit ,
Qiios domuit , ncxuquc pio longínqua rctnnxit.
Sò Roma recebco cm seu grémio os que venceo, & agasalhou o
género humano como mày comum sua , & nam à maneira do
Senhora , & chamou cidadãos aos q domou & captivou , & com
amoroso liame unio consigo os povos delia muy remotos &. alon-
gados.
VV% %/V« VVl VVV VV» «/V% V«f« «/ V« VV« t/%\ VV\ »^a VVt ft'V%VV\ VV^ VV\ ««V^ Vt(\ vvv vv\ vvvvvv
CAPITULO X.
Dos lugarts estipendlarios da Lusitânia.
Hcrc, Sou vindo a Portugal cô pretensam de híia comenda ,
que me he devida por minhas cavallarias, alem dos serviços de
que nam foy feita satisfação a meus avôs : & com vos ouvir tra-
tar destas antiguidades, tudo me esquece : & tomaria por pre-
mio de meus trabalhos, estar sempre pendurado de vossa boca.
Estas proezas alvoroção tanto o espiritu , & a memoria de tão
illustres feitos o incita de maneyra, que sòmête cô ella fica o
coração generoso pago, & contente. E se se poderá comprar por
diamantes, o conversarvos dias & noites, & ouvirvos de conti- 114— 2.
nuo; j)ode ser que me vendera, a que me quisesse cuprar inda
que por menor preço do que valho. Peçovos q continueis tè dar
fim ao que começastes, se o tempo & vossa indisposição o sofre;
que quando ouço cousas de meu gosto sempre o Sol se me põem
de pressa , & os longos dias me parecem horas breves.
Ant. Os outros lugares da Lusitânia eram trinta & seis esti-
pendlarios, & destes nomeou Plinio os principais, & do que a
este propíisilo diz se segue que Lisboa, Beja, Évora, Alcacere,
& Merlola nam pagavam tributo. K quanto a Beja, Paulo Ju-
ri-côsulto hc conteste, que diz na Lusitânia os Pacenses & Eme-
ritenses sam de Juro Itálico. Dos outros quatro está claro, por- De Cvúh.
que depois que Plinio falou delles, disse que avia outros trinta Lih.Ai. '■2'2.
& seis que pagavão estipendio. He verdade q Vespasiano Augus-
to segundo afllrma Plinio, fez toda Hespanha do juro Latino, Lib.S.c.:],
forçado das terríveis tempestades que a Republica padecia , a
fazer esta liberalidade. Que em semelhantes casos & alterações,
quando os súbditos vè os Príncipes necessitados, soem vendeiihe
sua ajuda, & serviço por preço rigoroso. Mas porque este privi-
legio se concedeo por necessidade , parece a Resende que durou Na h'i$lorui
pouco, & ticou somente nos lugares qu(! ilantcs o tinhão por seus Eborhc.
2bQ JJl.VLOGO QVARTO
merecímontos. Que se durara muyto, escusado tevera Plinlo
particularizar algíis lugares que delíe gozavão, dos quaes jaze ja
muylos de baixo de suas ruínas, & de algas não ha memoria.
Illustre documento da inconstância das cousas humanas, pêra
que não sonhemos que somos immortaes, enganados de esperan-
ll-j)-~3. ças vãs, pois cidades nobilíssimas fenece, &. nem rasto fica del-
ias. Que se fez da Ilha Erithicia que Pôponio Mella põem de-
fronte da Lusitânia habitada de Gerion a que Hercules Theba-
no tomou os bois? Que se fez da cidade de Lacobriga nos Al-
garves , perto da Lagoa , a quê o mesmo Hercules pos nome
Hièron, que quer dizer sagrado? A qual Quinto Sertório no an-
uo setenta & oito antes do Redemptor , livrou do cerco do Côn-
sul Quinto Metello Pio, socorrendolhe com dous mil odres de
agua, que por dinheiro fez meter detro, & onde desbaratou a
M. Aquilio Legado de Metello com toda sua legião ? Que se
fez de Ossonoba cidade Cathedral no Algarve onJe agora ac diz
Kstõbre ? & de Mora cujo se diz q foy o Castello de Almourol ?
& de Cetobriga defronte de Cetuval, a q chamào Troya ? Jazem
de baixo da agua & da terra suas ruinas , & delias se fez a no-
bre Cetuval, em que se corrompeo o seu nome, situada nos mo-
tes Barbarios, isto he , nas faldras da serra que chamamos da
Rábida. Destruída jaz a cidade Colippo junto de Leyria^ ondi
chamão S. Sebastião, & a antigua Conimbriga que hora se chi-
ma Condexa velha. Ruinada de todo jaz Mirobriga, ou Medj-
briga , hora chamada Aremenha sita nas raizes dos montes Her-
minios sobre o rio Sever , digno de ser conhecido por sua frescu-
ra, & pela pescaria das muytas truitas que nelle se crião. Em
irieu tempo se adiaram nas suas ruínas muytas column.is & se-
pulturas de mármores preciosos com elegantes letras , &. moedas
de ouro de bellissimas medalhas. Entre as quaes, duas eipecial-
mente recrearão minha vista, pÕdo os olhos nellas. Hua que se
114 — í. bateo, & correo no tempo de Vespasiano Censor, & de Tyto
Empcrador, «5c Trypociauo Pontífice, & outra em tempo de
Trajano como se mostra nas suas inscripqôes. Guillielmo de
Choul Francês no livro que intitulou discursos da religiam , cas-
tramentação, assento de campo, banhos, exercícios dos autiguos
Romanos & Gregos, discorrendo pelas moedas de Trajano de
que faz menqào , refere hua na qual estava insculpida haa agu-
lha, & a imagem de Trajano pcjsla ensinia, com hum í)aitam
na mão, & ao pè da agulha se viam aguas pintadas, &. do re-
dor hum letreiro que dizia, S. P, Q. R. Óptimo Principi. Diz
mais que Tarquino Prisco fez voto de levantar a Júpiter ha tem-
plo famoso & sumptu )S0 sobre todos os de Roma, que depois e-
dificou no Capitollio Tarquinio o soberbo de íigura quadrada cô
três ordês de columaas , como o mostra Trajaao em suas moe-
DA GLOtU 13 TUll MPHO DOí I.IISITANOS. 259
das, nas ffuaes o pos por clova(;ao. E ajunta que se vem no
fronlispicio do dito ttplo, Troplu-os, carros triumphaes, victo-
rias, coroas de louro, »Sc palmas, Sc outras muytas sculpturas
que mostram a exccllècia do seu lav<;r. V porque tudo isto se
enxerga em o retrato que está ní) reverso da dita moeda deTra-
jano que se descobrio na Aremenha, cuido q he deste templo
de Ju[)iter. Vense tàbem em todo o valle & várzea de Areme-
nha muytas torres & pontes sobre o Rio íSevèr, lastros & solhos
de casas nobres bê ladrilhados, & ladeados, & hum cano de a-
goa doce, que de liiiu fonl<* corria pda cidade, muros derriba-
dos, &. outros indicios manifestos da antigua frequência da gelo
que nella avia. Também se achào pelos lados do monte em
muytos lugares, abertas minas de ouro, prata, e chumbo, por 11«^ — 1-
onde parece a razão q teve Plinio para dar cognome de chíibei- LU'- 4. cu.
ros aos M edobrigèses. Que se fez da Igedita cidade Cathedral 22.
que chamamos Idanha? Onde fica com seus mármores, & letrei-
ros inscriptos? & por ventura algíis sam da invínçam de Cyiiaco
Anconitano, porque na verdade parecem fmgidos. Por ella pas-
sava a estrada de prata, que Augusto Ca;sar mandou continuar
tè Caliz , como dizè que se mostra per híi letreiro de mármore
que eu nam vi.
fíerc. Criseguinte he a todos esses preâmbulos, que relateis
Oà feitos dos Lusitanos, porque me tendes assombrado cu seu no-
me , & represcntaseme , que me vejo entre elles cò a lança na
mao, fie a espora fita.
y^n/. Sam tao vàos os Portuguezes que cada qual delles tem
para si quo pode ir seguro a Constantinopla , & por em cadeas
o Gráo Turco, & conquistar lodo o estado dos Othoinanos.
Hcrc. E duvidais disso? Nam estima a vida quem busca glo-
ria. Níiqua lestes em Tito Livio : l^ilc corp^is eú (juarcniibus
gloriam! \ il he o corpo na estima daquelles que buscam glo- Dec» I. li,
ria. Mas tornemos ao propósito, & deixemos os donaires. 2.
«fVt VV« VV« VV«iVV\ VV\ VVV VV\ «/VV«'V\ «rv« VVV VV\ «rV^ »< VI V«/\ «/V\ »iV« %'«(V»'V» «fVtltfV» «fV*
CAPITULO XI.
Quavx i-mquot relatores farão aJgvs fíomanoa hhtorkulnrcs , dos
fcr/los dos Luútauos, que são digtios de, eterna mcmcria.
yínt. Com razão podemos ter yx^r suspeitos algíis Fcriptores
Romanos q se medo augmentã suas cousas & diminuè as alheas.
Be claro se deixa ver isto cm Tito Livio o qual encarecendo os lló — l.
fpytos de Publio Cornelio Scipiào, & particularnièle tratando /^í"f. 1. fl.
da victoria q alcàçou dos Lusitanos sendo Vice])retor, diz assi : 5. hi p/iíi-
33 *i cipio.
3Í30 DlALOaO QUAltfO
o mesmo Pretor acometedo os Lusitanos no caminho p.or onde
destruída a Provincia ulterior, se tornavSo carregados de gran-
des despojos para suas casas , pelejou cò duvidoso successo das
três horas do dia te as oito, sedo desigual no numero dos solda-
dos, mas superior nas outras cousas, q vindo cò gete de refresco
bê armada , «Sc posta em orde , enc5trou os Lusitanos , q vinhào
sem ordè, alugados hus dos outros, embaraçados cò grande mul-
tidão de gado tSc casados do logo caminho, porq começarão a
marchar na terceyra vigilia da noite & còtinuarào a jornada tê
as três horas do dia se podere tomar algii repouso. Ouve no prin-
cipio da peleja algií vigor em seus corpos e ânimos cõ q turbarão
os Romanos : mas depois pouco a pouco se foy igualando a pe-
leja. E neste perigo fez o Propretor voto a Júpiter de hus jogos
solenes, se cõ seu braço desbaratasse os inimigos. Depois sedo
còbatidos os Lusitanos cõ môr Ímpeto, & esforço se retirarão
deixado o lugar , tSc fuialmete derão aos Romanos de todo as
costas. E Os vêcedorcs no seguimêto, & alcance dos q fugiào
anatarão delles perto de doze mil, &, captivarão quinhetos &
quarêta, & tomarão cento, trinta & quatro bãdeiras. E do ex-
ercito Romano se perdera sômete setenta & três. Tudo isto he
Lib.l. an~ de Livio. Agora, como põderou Resende, vede vòs se se pode
iirj. Lusit. crer q em hua batalha de cinco horas cõtinuas se aventajem en-
xergada em nenhua das partes, na qual, diz que forào primey-
115 — 3, ro rotos os Romanos, & q depois pouco a pouco se igualou a
peleja & que no meio deste perigo o Propretor prometeo a Jú-
piter jogos &, festas solenes (cousa que sô costumão neste caso fa-
zer os desesperados da victoria) tSc que morressem dos Lusitanos
doze mil , & fossem captivos quinhetos <Sc quarenta quasi todos
de cavallo : & que ck> exercito Romano sò setenta & três se a-
chassem menos? Direis tomado as partes de Tito Livio, Acome-
teo Scipiào com hum grosso esquadrão, & cõ gente folgada, a
hua companhia mal composta & empedida de muyta copia de
gado & despojos q consigo trazião ale de muyto cansada do lon-
go caminho. Mas disso podereis sò coUigir que matara os Roma-
nos muytos mil dos Lusitanos; porem nam me persuadireis q
morrendo dos Lusitanos doze mil , não morresse dos Romanos
mais de setenta & três. E se nam dizeime que foy o que turbou
o exercito dos Romanos.' Que quer dizer, depois de cinco horas
de combate duvidoso de ambas as partes, pouco a pouco se i-
gualou a peleja? Se os Romanos pelejavao , &, matavào tanto a
seu salvo os inimigos, & as espadas dos Lusitanos estavam tam.
botas , & o seu vigor tam desfalecido , que causa tivera para em
cinco horas continuas que pelejarão, duvidare tanto do fnn da
batalha? se nam que assi morriào de hua parte como da outra?
E se depois foy igual a contenda , bem se segue q tè eatáo fc-
DA GLOUIA E TRH;M1*H0 J)01. LUSITANOS, £61
ram osPomanos inferiores. Quanto mais vezinlio da verdade pa-
rece o qne Laitniindo aflnma q morrerão dos Uomanos 7900. so-
mente andou bem Li\i(j em conf(!ssar contra sua vontade q os
nossos na morrerão vencidos, mas q. cansados de vencer, na po-
derão acabar de cusei;uir a vietoria; e em querer justificar o seu 115 — 4,
cito com virem os nossos desordenados, cansados, desvelados, &
carregados de despojos. Que doutra maneyra ninguê lhe poderá
dar algum credihj, pois o nâo avião com Arménios costumados
a fugir, n(;m com o exercito do venturoso Tigrã ; mas com Lu-
sitanos exercilados nas armas, & guerras contra Romanos, & de
(ujos fortes braços & invoncivel esforço se tinha aproveitado An-
nibal nâo sò em Hespanha, mas também no coração de Itália,
onde elles per si rõperão & desbaratarão junto à villa de Lincou
híi poderoso exercito do Propretor Lúcio Emilio cõ morte de seis
mil Romanos em hua sò batalha, & com tamanha afronta e a-
perto dos que restarão que escassamente defenderão o seu aloja-
mento dos vallos para dentro. E finalmente lhes foy forçado co-
mo quem fugia, caminlmr a largos passos & grandes jornadas
em buíca de algíí valhacouto , como testifica o mesmo Livio. E
atè neste passo mostra quãto mais resj^eito teve aos seus cpie à Dcc. 4. li,
\erdade, palliando a fugida verdadeyra com apparencia delia. 7.
^c tandem (diz elhí) ad modum fugicntium magnis itintnbua m
agrtim pacatum reducVis. Intolerável vicio he em os Cronistas &
Julgadores a accepçao de pessoas. Quanto mais certo he o que
Orosio affirma, que Sérgio Balba Pretor nua grande batalha Li6. 4. ai.
que teve cô os Lusitanos foy vencido com perda de todos os seus, 10. 21.
& que com muyto poucos delles a penas pode escapar. E porque
vamos seguindo o mesmo auctor, conta em outra parte q teve-
rão trezentos Lusitanos híia briga muyto travada cõ mil Roma-
nos, na qual morrerão trezentos & vinte Romanos, & dos Lu-
sitanos setenta, &. que derramandose os vencedores, & hum dei- IIG — l.
les muyto desviado dos outros, indo com sua trouxa às costas,
foy rodeado de inimigos de cavallo, mas nem com isso perdeo o
animo, antes desalivandose do peso que sobre si trazia , trasj)as-
sou de banda a banda o cavallo de hii delles que se lhe vinlia
mais chegando , & com hum sò golj)e da sua espada lhe cortou
a cabeça, o q pos em tamanho medo aos outros, que à vista de
todos foy em salvo a passos cotados, & muyto a seu prazer como
que não fazia caso delles. JVluytos outros excplos teveramos se-
Dielhãtes, se os Romanos escriptores cõ mais modéstia Iratarã de
suas cousas. Mas q podemos dizer jkjís não tivemos que deixasse
memoria das nossas? Somos forçados tomar delles inda (jue in- »
justos possuidores o q lhes aprouve dizer delias, porq em fim
deixara cair algíias verdades nam attétando o que diziào. Júlio Lib.dcpro-
Obsequcnte diz q forào os Romanos gravemente vexados pelas digús ca.
20.
262 niALOGO QUARTO
armas dos Gallos & Lusitanos; & noutra parte affirma q dcstro
Chp. 4. carão os Lusitanos hii exercito Romano. Floro diz q todo o pe-
L'ib. S. ca. so da guerra dos Romanos em Hespanha foy cõ os Lusitanos, «Sc
10. Numanlinos. Diodoro Syculo na li(ja correcta per Resende, tes-
JJbr. l. de údca q de todos os Hespanhoes foram sempre mais valetes os
nnliquita- Lusitanos. Strabo confessa que Lusitânia foy combatida muytos
Vihuá Ltoi- annos das armas dos Romanos. Valério Max. escreve, q nunca
fanorú. pode Sertório persuadir com palavras aos Lusitanos , que narn
TU. de tYí- cometesse por hiia vez todo o poder dos Romanos, tè que lhes
fris dictis pos ante os oUios aquelle famoso exemplo dos dous cavalíos. Lu-
ac fodh. cio Floro confessa que se Hespanha apitara suas forças, & se não
116—2. dividira , & os Hespanhoes nam pelejarão entre si hãs contra
oiitros , fora impossivel aos Romanos sustentarense nella. E na
verdade nam faltou mais aos Lusitanos pêra ojanharê o Império
do mundo que bôs Capitães & ^uias da grandeza de seus pensa-
mentos, & singular força de seus braços. Disto que digo fizerão
boa prova, tanto q acharão hii Viriato, &, hii Sertório, pois q
cõ cada qual delles meterão a potencia Romana em desesperação
de saire cõ a sua. E posto q Valério note os Lusitanos de bár-
baros, & difficiles de governar, e pouco peritos na arte militar,
nam pode deixar de cõfessar na mesma historia, q não erão fra-
cos & covavd(ís , antes animosos e esforçados para acometer todas
as forças do Império Romano.
Uerc. Insignes seriam outras muytas façanhas dos Lusitanos
daquelle tempo. Mas barbara por certo se pode dizer esta nossa
nação nos tempos passados, pois que sendo a primeyra da terra
firme em cpie se empregaram as armas Romanas (depois das guer-
ras de Affrica que se acabou de subjugar pelos felices successos
de Augusto Caesar) & sendo os Lusitanos Iam mãos de domar ,
& avendo feito tantas & tam sinaladas proesas, nam ouve entre
olles quem delias fizesse narração, & nos deixasse algiia memo-
ria , tanto que se algo sabemos de seus heróicos feitos , he per
b(x;a & pena de nossos inimigos os historiadores Romanos, dos
quaes se pode crer que como queriam para si o proveito inda
que fosse cõtra justiça ; assi quererião a gloria , & honra da mi-
licia, inda q fosse contra a verdade. Mas bem se pode cuidar
1]6_3, (los antiguos Lusitanos, que de seu estremado valor, esforçada
mão, & valeroso animo se seguia ficarem postas em silencio suas
façanhas memoráveis. Porque como todos se prezaram de fazer
& conservar a preeminência de sua nação, tiveram em pouco
que as penas os debuxas.-;em com tinta negra, & palavras mor-
• tas, vendo que elles os deixavam pintados de vivas cores tintas
de seu sangue , & do alheo : ficando os Ceos por pregoeiros de
quanto poderã aquelles, que dos que mais poderara & valeram
por tantos segres nam poderam ser domados.
J)A GLORIA E TllIU.MPHO WOS L,rsiTANOS. íiOá
u4nt. Igual he fazer, a escrever, &. fundar a nobreza, a her-
dahí, & ensinar a virtude ao falar delia. A primeyra destas
cousas foy dos nossos antepassados, & a se<i^unda se vai fazendo
dos presentes. Se com verdade Ptolomeo pintando a quarta par- Li. 2. qua-
te da terra, que situa entre o Norte &. o Ponenle de baixo do dripar. c.
Senhorio dos signos Leon , Arie^, Saj^itario (dos quaes comum- 3.
mente se senhoreão os Planetas Júpiter &. Marte quãdo sao ves-
pertinos) conjeictura que os Hespanhoes he gent(; bellicosa que
se nã deixa desprezar, acomeledora de árduas empresas, & man-
tedora de sua verdade : em que predicamento poremos os Lusi-
tanos de quem nossos inimigos pregoaram serem os mais fortes
de todos os Hespanhoes? Sem duvida que nelles per experiência
& excellencia se mostraram as condições &. propriedades que este
grande Astrólogo diz serem naturaes aos Hespanhoes, & pelo
Ceo confirmadas. Mas parece que ja nam somos os que ser so-
hiamos.
Ueix. Passai por isso, & segui a historia a que destes princi-
pio com vossos preâmbulos,
«'v\«'v«k/v%vv«<vvvvv«<i'V\%'V\%'«''\%rv%t/«'\»'V\'»'V%.vvvvv\vv%vv%%'VVi'V%k'vwvv%vvvt'Vt)
CAPITULO XII.
Da conquista de Lusitânia jJclos Romanos.
Ant, Ao que desejacs ouvir, me hia chegando, porque en- IIG— i,
tendo q de cavaleyros he ouvir fai^anhas : (Sc mais Portuguezes
que trazê a cavnllaria na ponta do nariz; & segundo agora di-
zia, se o Império de Constantinopla se ouvera dé dar por desa-
fio, qualquer delles se opposera a tam alta pretendam.
Hcrc. Assi o crede vòs , «Sc se me parecera que sentíeis outra
cousa ou tinheis delles outra opinião, enojarame inuyto. Eu sou
nada & tenhome em pouco; ma» nuri(]ua nic inoveo o estamago
o Hercules venturoso, nem o Júlio Cujsar animoso. Ao meuos
sei de mim, que me nain levara o escudo das uiàos, como fez
a hum dos seus na batalha de ]\Iunda. Nem darei \enlagem a
Scipiam Aemiliano, inda que matou o Hespanhol generoso de
Intercacia entre Valhadolid «Sc A^lorga, como refere Appiano
Alexandrino «Sc Plínio, Ne a Quinto Cocio Legado de Quinto L.h. 37. c.
Cecilio Metello Macedónio, chamado Achiles por sua \aleutia. 1.
Ant. Nesta conta vos tem Portugal; «Sc isso he o que cone
pela terra. Mas tornando ao pro[)(jsilo, nam me deterei em as
cousas de Tubal Patriarcha das Ilespanhas, por que delle esta
talo escrito, quanto poderão levar as impressões, «Sc nas mais
que tocar serei mais breve que os Historiadores de nusso tempo.
2(>4 DIALOGO QUAllTO
EsleTubal, como diz Beroso, floreceo em tepo de Nino filho de
117 — 1. Belo, e deu leis aos Hespanhoes. S. Hieronymo, e Eusébio* di-
Rcscdius zem que foy o primeyro Rei de Hespanha, òc o mesmo diz Jo-
hhr. 1. rfe sepho. Fundou Tubal neto de Noe cidade em Hespanha, mas
avtviuHa-he fabula dizer que foy Cetuval. Se veio cà Nabuchodonosor,
1'ibiis Lu~ & se deixaram os Judeus colónias em Hespanha, não me quero
sitanice. meter nisso, nem tratar dos Phenices que vieram per mar a bus-
car o ouro & prata que rebentou em Hespanha da Montanha
Pyrenea. Venhamos aos Romanos, que illustraram nossa Hes-
panha cô as calamidades que lhe meteram em casa. Duzentos
annos avia que Hespanha estava tyrannizada per Carthaginêses,
antes que Romanos metessem pè nella. Entraram Gneo & Pu-
blio Scipiões por Tarrajrona , e nella morreram no anno duzen-
tos & dez antes do Redemptor. Depois veio Publio Cornelio Sci-
pio , mancebo de vinte & quatro annos , & lançou de todo os
Carthaginenses de Hespanha. Orosio diz que deixou oitenta ci-
dades sojeitas ao povo Romano em Hespanha. E quanto a isto,
sabei cjue sò Hespanha resistio & não soffreo ser sometida a Ro-
ma mais de duzentos annos. Por quanto os povos que em hum
anno ganhavam os Romanos, se lhes levantavam em o outro,
& os que tinham por mais seguros , lhes rebellavam primeyro.
E inda que nam lhes rebellassem todos juntos, contudo hora
híís , hora outros se lhe levantavam coa obediência buscando li-
berdade. Sempre Hespanha foy de mà condição para sofrer so-
jeiçiio; &. sempre os Hespanhoes por cobrar & conservar sua li-
berdade com grande & orgulhoso animo se meteram pelo ferro
117 — 2. & pelo fogo. Nam podem sofrer mãos tratamentos, nem sober-
bos impérios , e fazem bom barato da vida se se lhes faz algUa
sem razão. No anno cento noventa & dous antes do Redemptor
veio Scipião Nasica, fdho de Gneo Scipião, com cargo de Pre-
tor à ulterior Hespanha. E no anno cento noventa & hum ven-
teo grande exercito de Lusitanos , tèdo cargo de Proprelor entre
tauiO que chegava seu successor. Vinhão os Lusitanos carregados
de presas da Betica província , que tomaram dos lugares federa-
dos còs Romanos, & pelejarão cinquo horas sem avantajem al-
gíja de hiaa das partes , & por fim perderam a presa , & morre-
ram muytos, como atrás fica dito. No anno cento oiteta cc, no^
ve antes da vinda do Senhor veio por Pretor a Hespanha ulte-
rior Lúcio Paulo Aemilio, que depois triumphou de Perseo Rey
de Macedónia; & no anno seguinte foy vencido dos Lusitanos
junto de hu lugar chamado Lycon nos povos Vascetanos; perdeo
seis mil Romanos, & os mais fugiram. Mas logo no anno se-
guinte, segundo sam vários os casos da guerra, & dambas as
partes ha ferro, & corpos humanos (como Annibal dizia a Pu-
blio Cornelio Scipião) antes que viesse â Hespanha ulterior
DA GI.OItlA E TRIUMnrO DOS LUSITANOS. SGé
Public Junio Bruto por Pretor, alcançou Paulo Aemilio gran-
de vittoria dos Lusitanos, como magoado do estrago do anno
passado. Matou dezoito mil Lusitanos, & cativou mais de três
mil, mas nam ha memoria q triumplia^se. No anno cento oiten-
ta á. quatro antes de Christo nosso Senhor, Caio Catinio Pretor
da ulterior Hespanha , matou seis mil Lusitanos, & os mais se
poseram em fugida. Catinio morreu no combate da Cidade As-
ta junto a ^arès da fronteira. No anno cento sinquoenta & três 117—3.
antes de Christo , vencerão os Lusitanos alguas vezes aos Roma-
nos tendo por seu Capitão hu homem valcroso nas armas chama-
do Affricano. E vencerão a Calphurnio Piso Prcetor da ulterior
Hespanha. O anno cento sinquoenta óc híí antes do Rcdemptor,
9e travou guerra dos Romanos còs Numantinos; &. tinha o-, Lu-
sitanos por seu capitão hum Cesaron homem de grande animo.
Neste anno veio por Pretor à ulterior Hespanha Lúcio Míimio o
qual ^enceo os Lusitanos; & seguindoos com furiosa desordem
\oltou sobre elle Cesaron , & matoulhe dez mil homens entran-
dolhe os reais & tomandolhe muytas bandeyras & armas. Neste
mesmo anno os Lusitanos daquem Tejo contra Lisboa se move-
ram c(^m seu Capitão Cancheno , &. passado o Tejo se meteram
pelo Algarve decendo pela costa do Oceano, tè os povos Cu-
neos, que era nas comarcas do condado de Niebla gucrrean-
doos asperamente porque eram obedientes aos Romanos. Côquis-
taram a poderosa cidade Cunistorgi, & passaram destruindo tu-
do, tè Cnbraltar. Ali se partiram em duas partes, & Ims deter-
minaram ir fazer guerra a Affrica, outros poseram cerco à Ci-
dade Ocile. O Pretor Lúcio Mumio deu sobre elles cô nove mil
de pè & quinhentos de cavallo, & matou quinze mil Lusitanos,
tomandoos derramados. O melhor da presa n^parlio pelos solda-
dos, & o mais queimou & sacrificou a Deos Marte, & à Deosa
Bcllona , & triumphou em Roma. No anno cento quarenta &
nove antes do Salvador veio por Pretor à ulterior Hespanha Sér-
vio Suljntio Galba, a quem os Lusitanos mataram sete mil ho- 117—1.
mens. () qual depois como malvado traidor matou três grandes
companhias de Lusitanos, dizendo que lhe daria campos fertiles
que povoassem , & segurandoos de maneyra que lhes fez deixar
as armas, &. assi os matou cutra todalas leys de humanidade, &.
do que a clemência & valentia Romana sohia usar.
Herc. E nam foy condemnado cm Roma esse traidor?
y4nt. Era elocjuente orador, & cò a branda & artificiosa per-
suasam encobrio sua nefaria traiçam. Appiano Alexandrino atri*
bue o seu livramento às muytas riquezas que furtou em Hespa-
nha, & rcparlio em Roma, & fala a propósito. Algíis Lusitanos
escaparam , & entre elles Viriato, ao qual pouco depois os Lu-
sitanos levantaram por seu Capitão , & taes cousas fizeram com
3-Jí
«Gj mAI^OGO QUAílTO
elle que levavam ordem para tirar toda Hespanha da sobjeiçarÀ
dos líonuiiios, destruindo os povos que estavam por elles ate
Lib. S. jE"- Navarra & a Estremadura, segundo escreve Velleio. Floro af-
pit. 48. firma que no tempo de Viriato, andavam os HespaJihoes tam
oufanos contra os Romanos, que nam sabiam em Roma o corte
que lhe convinha dar à guerra de Hespanha. E assi este auctor
como também Strabo encarecidamente contestam , que nunca
Hespanha entendeo seu valor & potencia, nem para quanto e-
ra, antes de se ver destruída, que se o entendera nunqua fora
dos Romanos vencida, pois que sôs os Lusitanos cò s.ni animoso
Viriato lhe deram tanto que fezer por espasso de muytos annos,
& depois cô Quinto Sertório os fizeram temer sua deitruiçam.
^%(VV\'VVV«>«/«'«VV%l/V%i«<\'Vk'Vk'%'V«iV\'V«'WVV«'VVVVt««V%'^<VVV\)VVVVVVV%«VV«%(VVVVWi/V«
CAPITULO XIII.
Dos fer/tos do esforçado Viriato,
118—1, Herc. Desse Capitão tenho ouvido grades maravilhas, por
vossa vida más conteis, & vos esprayeis na sua historia.
Ant. A guerra de Viriato começou na fim deste mesmo ati-
no , passada a cruel , & abominável treyção de Sulpitio Galba ,
como escreve Suetonio Trãquillo : & pola vingar , fez guerra
importuníssima aos Romanos , que durou quatorze annos , &. foy
a mais porfiada, & cruel que a Romanos em algua parte se in-
tentou. Não esta posto em memoria de q parte da Lusitânia foy
Viriato natural, cousa q eu muito quisera saber, mas contento-
me cõ lhe chamar Lúcio Floro, Rómulo de Hespnnha. No an-
no cento & quarenta & oyto , antes de Cliristo Redêptor veyo
Marco, ou Caio Vettilio por Pretor à ulterior He^^panha, &
com dez mil homes venceo outros dez mil Lusitanos na Betica
província , matado muitos delles. Os outros se recolherão a hu
lugar forte , ode os cercou , e querèdose dar ao Pretor , Viriato
lho estrovou, & cô arte, & prudêcia os salvou. Então o levãta-
rão os Lusitanos por seu Capitão geral. Vettilio seguio a Viria-
to, o qual lhe armou cilada em hãa Serra c5 que desbaratou os
Lib.b.cA'. Romanos. E posto q Orosio diga que Vettilio escapou, todavia
outros dizê que foy preso, & q quê o cativou, vendoo velho, <Si
gordo o teve por inútil pêra seu serviço, »Sc por isso o matou sem
o conhecer. Dos dez mil Soldados de Vettilio escaparão seys
118 — 3. mil,. que se acolherão à Tartesso antigua na borda do mar, co-
mo refere A piano. O Qucstor de Vettilio ajulou cinco mil Sol-
dados que lhe mandarão os Celtibeiios, aos seys mil q ficarão,-
e derão batalha a Viriato, na qual morrerão todos, Anno ceoí*.
BA GLORIA E TRIUMPIIO DOS LUSITANOS, 267
to, e quarenta & sete, anles do Redêptor do mudo, veyo cõtra
Viriato o Pretor Caio l-laiieio; & quando chegou a Hespanha
ja Viriato andava assolando a Carpelania de Toledo, sem achar
resistência : Planeio o foy buscar com dez mil de pè, & mil &
trezentos de cavallo : fingio Viriato fugida, & seguiràno quatro
mil Komanos; os quais forào mortos por Viriato quasi todos.
Passou Viriato o To^jo & pòs os seus no monte de Vénus cheo de
olivays, que hoje se chama a Serra de (3ssa. Planeio o foy bus-
car , & na batalha perdeo boa parte de sua gente , & elle esca-
pou fugindo à unha de cavallo, & se encerrou e Cidades fortes
no meyo do Verào. Tudo isto escreve Appiano. Esta batalha se
deu perto de Évora, & foy das mais feridas que se derão por es-
tes tempos em Hespanha, como se mostra pela inscrip(^ão do
mármore que está em Sào Bento de Pomares, que Resende pòs
na sua historia de Évora , & ja anda em outros livros,
IJcrc. Daime copia desse letreiro, porque não vi esses livros.
j4nt. Diz assi.
i. Silo Sabinus , bello côtra Viriatum m Ebor. prov» Lusit.
agro , multitudine itlorum confossus ad C.
Plaut, Prcct. dclatus hurncris mil. H. Sep. e. pec. mea m. f.j.
in quo neminê velim, mecum^ nec serv. nec lib. inseri. Si
secits fict , velim ossiia quorunq .
Scpxdcr. meo erui, si pátria libera erit.
Isto he.
Eu Lúcio Sabino, que no campo de Évora da Província de Lu- 118 — 3.
sitania, na guerra contra Viriato fuy com multidão de lanças
trespassado; & em os hôbros dos Soldados trazido ao Pretor Caio
Planeio, mãdei que do meu dinhcyro me fosse feyta esta sepul-
tura, em a qual não quero que algum comigo seja sepultado nê
servo meu nem liberto. E se o contrario se fezer quero que os
ossí)6 de quaesc|uer delles sejão tirados delia se a pátria estever
em sua liberdade,
fícrc. Enfadado parece que morreo esse Romano, & temo-
rizado de Roma perder seu estado, & de Viriato victorioso se
passar a Itália , & chegar aos muros de Roma como outro An-
nibal.
ylnf. Esta pedra parece a mais antigua de quantas se vem em
Hespanha. No anno cento & quarenta, & seys, antes de Chris-
to, succedeo por Pretor em Hespanha ulterior Cláudio Unima-
no cõ grande exercito côtra Viriato q lhe elle destroçou, matan-
do & cativando© todo; tomoulhe os fasces, <Jc insígnias Pretorias ,
& festejou suas claras victorias cõ insignes tropheos, que levan-
tou nos montes da Lusitânia. Neste mesmo anno q foy tambe o
de seis centos, & dez da fundação de Roma, se combateram
trezentos Lusitanos com mil Romanos; & dos Lusitanos morro
34 *
2u3 DIALOGO QUARTO
râo setenta , morrendo dos Romanos trezentos , & vinte , como
Li6.5. c,4. he Autor Orosio.
Ilerc. JESUS me valha, os Lusitanos desse tempo, segundo
erão ferozes comeriao as carnes desses Romanos. Ê pode ser q
não terião outro mantimento, que occupados nessas guerras não
poderião cultivar os campos : quanto mais q boa parte da Lusi-
tânia he mõtuosa , & esterile,
118 — 4. Ant. Disso não sey cousa certa. Strabo diz, que os Lusitanos
das tripas dos homês cativos agouravão & adevinhavã, matàdoos
a este fim. Em tudo o mais, como o mesmo autor affirma, os
costumes dos Lusitanos eram innocentes, & varonis, semelhan-
tes aos dos Lacedemonios. Trás Cláudio Unimano sucedeo em
Pretor na ulterior Hespanha Caio Negidio, q também foy ven-
cido de Viriato, & desbaratado cõ todo seu exercito. No anno
cento & quarenta, & cinco antes do Redeptor veyo contra Vi-
riato o Pretor Caio Lélio, chamado o Sábio. Este começou a
dar esperanças, que podia Viriato ser vencido; & lhe quebrou
liii pouco a opinião , & braveza , deixando aberto caminho pêra
seus successores o vencerê. No anno de cento, & quarenta, &
três, veyo contra V^iriato o Cosul Quinto Fubio Máximo Aemi-
liano , Irmão de Publio Scipio Aemiliano , co duas legiões de
bizoiíos, por falta de veteranos, & com ajudas de Latinos. En-
trou em Hespanha com quinze mil de pè , & dous mil de ca-
vallo , segundo escreve Appiano. E porq era sesudo , & filho de
seu pay Paulo Aemilio, exercitou primeyro as novas Legiões,
& foy sacrificar a Gades no tèplo de Hercules Egyptio que os
ÍÍ6.3.C.6. Tiryos lhe edificaram, como deixou em memoria Mela,
Herc. Nam me entendo cõ tantos Hercules.
Alex. ah yfnt. Nem façais muyto caso delles. Marco Varro diz, que
Alexandra foram quarenta & três deste nome. Viriato foy liuscar o Cõsul ,
lib.l. chi. & trazendo certos Romanos lenha pêra o arrayal , matou muy-
tos delles, & ouve grande presa antes q Aemiliano chegasse. O
119—1. qual chegandose ja o Inverno, batalhou cõ Viriato, & o pòs em
fugida, mas nam ignominiosa. Porque o valeroso Viriato fez
tudo o que divia a excellente Capitão, segundo dà testimunho
-Appiano. No anno cento & quarenta & hu antes do Redeptor
veyo cutra Viriato Quinto Põpeio Pretor, que o venceo, &, fez
retirar ao monte de Vénus junto à Cidade de Évora. Saindo
deste Monte Viriato matou muytos Romanos : e destruio na Be-
tica toda a Costa dos Bastetanos seus federados : & lançou da
Cidade Utica os presídios q nella tinham os Romanos, & fez
que no meyo do outono. Pompeio assobrado se encerrasse em
Córdova. No anno cento, & quarenta sucedeo cõtra Viriato o
Cônsul Quinto Fábio Serviliano Irmão per adopçam de Quinto
Fubio Aemiliano, trouxe dezoyto mil homês de pè cõ mil & seis
TA GLORIA E TKIl'MPHO DOS LlSITANOi. Sítí9
centos de cavallo : & caminhando pêra Utica lhe sayo Viriato
cô seis mil Lusitanos horrendos , desnodados , de cabello & bar-
bas compridas, cu terrivel alarido; mas nam lhe pode impedir
o passo. O Cõsul ajuntou cô si<;o o exercito, q na Província
ficara, & mãdou a Affrica pedir subsidio a J\licij)su filho de
Massanissa. O Cjual lhe inviou dez Eh^phátes encastellados , dt
trezentos homès de cavallo : Porem costa q neste anno a victo-
'lia hora se inclinava pêra os Romanos, hora pêra os Lusitanos,
do ^ he Autor Juiio Obsequente. No anno cento & trinta & no-
ve, ficando Quinto Fábio Serviliano còtra Viriato, & têdo Ser-
\iliano cercada a Cadade Erisana , A'^iriato se metec detro de
noite & deu de súbito nos Romanos , & os pòs em fugida , & fez
acolher aiium lugar forte, do qual cô tudo nam poderam esca-
par, se Viriato se quisera aproveytar da ocasião; e neste aper- 119 — 2.
to fez paz cô elles de animo generoso podendoos cõsumir cò as
arrtias , por nam ver os seus Lusitanos gastados cò a cõtinua
guerra, Mas as cõdiçòes por parte de Viriato foram de venta-
jem , & os Romanos as ouveram por ignominiosas segundo algíis
escrevem : & nam falta quê af firme q Roma as aprovou. Mas
acabemos ja cõ este nosso Viriato, sob cuja bandeira fczeram os
nossos Lusitanos tanto estrago em os Romanos, q delles se pode
inferir, de quàto mor effeyto hè o exercito de Cervos capita-
neado por Leões , q o de Leões capitaneado por Cervos temi-
dos. O que entendido dos Numantinos, quando a segunda vex
vierão sobre elles os Romanos, melhorados no Capitão, disse-
ram , as ovelhas saõ as mesmas , mas o Pastor he outro.
%fV%VVV%'V\<%/VVV«/\%'VVVV\%/VVVV\VVVVV«>VVV«'V\VV%t'V\'%'VVVW\'%'V%VV\VV\l'V%t%VV\'V
CAPITULO XIIII.
Da morte , íf louvores de- f^iriato.
Ant. No anno cento, & trinta, & oyto, mandando Viriato
pedir paz a Quinto Servilio per seus Legados Aulaces, Dita-
Icon , & Minuro, segundo Appiano, o Cõsul Servilio lhes per-
suadio que matassem a Viriato. O que elles executaram venci-
dos da sacrílega cobiça, que tudo envolve, & mistura as estrei-
las cò as fezes da tt!rra. Assi que nam podendo os Romanos ma-
tar a Viriato cõ armas, o mataram cõ treições. E basta pêra
ver seu valor, dizer Floro, sendo Romano, que nam pode Ro-
ma prevalecer cõtra elle per outra via , nem doutra maneyra.
Degolarão os traidores este valentíssimo homem, de animo tam 119—3.
estremado, & tam be affortunado em seus trabalhos, estando
dormindo, &, tendo a porta aberta. O corpo de Viriato foy pos-
570 , PIALOGO QUARTO
to pelos seus no fogo, guarnecido de ricas armas, sacrificaram
lhe grande copia de animaes, & muitos dos seus esforçados Ca-
valleyros cõtorneavão seus cavalos celebrando em prosas, & ver-
sos seus louvores. Ouve desafios tè derramarniito de sangue, e
perda de vidas sobre sua venturosa sepultura. E foram em Vi-
riato tam claras suas boas partes, que pode por muytos annos
cõservar, & manter em obediência o seu exercito feyto de varias
gentes, & differentes cudições , sem nunca se lhe levantarem. O
que cõ muyta rezam encarecerão as historias humanas, & Silio
Itálico o pòs por supremo dos louvores de Annibal.
Tot dlssona língua
j4gmina^ barbarico tot dissonantia ritu
Corda Vira mansere gradu , rebusque retusis
JFidas ductoris tcnuit revercntia mentes.
A reverencia deste Capitão obrigou seus Soldados , inda q Bár-
baros, dissonantes nas lingoas, & discordes nos ritus, a lhe ter
obediência , & guardar fidelidade. Aos que mataram Viriato à
treyçào tomados da sacrílega fome do ouro q lhe piometeo Ser-
vilio, respondeo o Senado que nam aprovavam seu feyto, cõ-
forme ao q vulgarmente se diz entre nòs : Ama o Rey a trey-
çào, & o traydor nam. Algus dizê , que foy a morte de Viriato
junto à antiga, & desveturada Sagunto, Ínclita na fidelidade,
& sofrimento de trabalhos , como diz Mela : muyto celebrada ,
119—4. assi por sua lealdade, como por seu estrago, & assolação mise-
rável. Agora he hum pequeno lugar no termo da Cidade de Va-
lença, chamado dos moradores Monvedre , ou Morvedre, que
Super lib. quer dizer Monte, ou Muro velho. Vives diz que ficou delle por
3. de ciui. relíquias hum antiguo Castello sobre híi m~te que divisa, &, des-i
Del c, 20. cobre grande parte da Hespanha. Assi fez fim o animoso Viriato
per fraudes, & treyções domesticas : & pode ser morto que era
mortal , mas nam vencido da soberba das legiões Romanas.
Quatorze annos cõ insignes victorias casou os inimigos, & que-
brou a cabeça a exércitos Cv~sulares. Foy tã humilde & huma-
no, de tão admirável cÕtinecia, & temperança, que nunca se
infunou com tantos tryumphos , nem mudou as armas , nem os
vestidos, nê se melhorou no comer, mas sempre perseverou no
habito em que começou a militar. De maneira q qualquer Sol-
dado de Ínfima sorte parecia mais ornado , & abastado que seu
Capitão. Tanta igualdade guardou còs seus, que com brandura
lhes chamava comilitones. E sem duvida que põem admiraçam
em hum homem guerreyro, & sempre banhado em sangue hu-
mano aver tanta benignidade, & affabílidade. Sinal he eviden-
te de excellente bondade , ser o homem brando & amoroso pêra
aquellcs sobre quem tê império. Que selo pêra os estranhos que
pode revidar, não he espanto. Viriato com braveza, & ferocin
DA GLOUÍA E Timj.UPHO DOs LVSITANOS, f7i'
dade domava os iniinfpos, & com amor & clemência obrigava os
seus. Orosio diz q \'iriato foy pastor, mas não lhe pode negar
q foy híi valeroso Soldado, & anim^^o Capitão. E se como al-
gíís dizê foy salteador, entèdào q naquelle tempo não se tinha 120 — 1.
por opróbrio saltear os caminhos & campos dos que nào eram a-
migos.
Herc. Quantos trabalhos passam os homes nesta vida por vi-
vcrè sempre em trabalhos, os quaes se cò elles^se comprara des-
canso forào gloriosos, Òc muyto pêra se desejarem , <5c aceytarem.
Lembrame que ouvi pregar do púlpito híia carta que Santo A-
gustiiiho escreveo a bus casados exiiortandoos a desprezo do mu-
do. Nam ves, dizia o Sancto, quanto esta vida miserável obriga
seus amadores q muytas vezes cõ temor de a perder a perde mais
prestes , C(jmo Cjue foge de ladroes &. se laça ao mar tèpestuoso ?
Os navegantes nas tormètas desfeytas alijão seus Navios, & lan-
ção ao mar os mantimentos com q sustentào a vida, & fazem
isto por viver. Por viver perdem o mantimento da vida , & por-
que senão acabe hum pouco mais sedo o trabalho cõ q se vive.
Cô quantos trabalhos procura o homem que lhe durem mais
tempo esses mesmos trabalhos? E quando a morte n<js dà vista
da sua sobra, por isso a tememos, jX)rque mais tempo a possamos
temer. Quàtas dores padece os cauterizados dos Cirurgiões por
morrerem hu pouco mais tarde? Soffrem muytos tormètos por a-
crecentarê à vida poucos dias incertos : & às vezes morrem mais
prestes vêcidos das dores C|ue soffreram cõ temor da morte. Tem.
outro mal intolerável o amor grande desta vida, & hè que mur-.
tos desejando mais viver mais gravemente offendem a Deos q he
fonte da vida : & assi amado esta brevissima vida , perdem a
sempiterna. Nesta consideração me meterão os trabalhos , vigi-
lias, & guerras de Viriato, & tudo por arnor desta violenta vi-
da, a qual em fim porq muito a amava a p<3rdeo mais asinha 150 — i,
cò as pazes que mandou pedir aos Romanos, na petição das
quaes se lhe negoceou a morte.
Ant. Os ânimos generosos nam soffrem sqjeição & pola liber-
dade fazem bò barato da vida. Amarga a vida aos oprimidos óc
sqjeitos : tèna por fel , & a morte por suavidade «Sc grande bene-
ficio de Deos. Esta foy a alta pretcsam do invencivel Viriatcj,
meter o peyto indómito no ferro, &. fogo por sacudir do pesco-
ço o jugo dos Ríjmanos imperiosos. Este ser & natural genero-
so he muy prcjprio d(« Lusitanos, pugnar pola liberdade ate
morder a terra cõ sua Ixjca & a rej;ar cõ seu sangue. Nunca
Lusitanos souberam servir, nem ser màdados sem favor, amor,
& brandura. Sempre foram surdos para palavras desentoadas, 5c
sempre tiveram prestes contra ellas as armas da resistência.
Sempre se ccnaervarào mal com a violência , & soberba ; & pelo
372 DIALOGO QUARTO
contrario se aplacarão, & sossegarão com brandas palavras &
condições benignas.
Hcrc. Parece que his concluindo a historia da cõquista da
nos^a Lusitânia sem vos lêbrardes das cousas memoráveis de Ser-
tório famosissimo Capitão dos Lusitanos.
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CAPITULO XV.
Que os Soldados de Viriato fundaram a Cidade de Valença de
Aragão , ÍJ Bruto conquistou os lugares dantre Douro , à{ o
Minho.
Ant. Relatarei primeyro o que socedeo depois da morte do
120 3. nosso Viriato. No anno de 136. antes do nascimento de nosso
Salvador veyo à Hespanha ulterior Decio Bruto com exercito
Consular pêra reprimir os novos danos que a gente Portugueza
fazia em muytas partes de Hespanha, principalmente a que mi-
litara debaixo da Capitania de Viriato, em vingança da injusta
morte de seu desejado Capitão , procurada com tanta falsidade.
Mas como em suas determinações lhe faltasse cabeça que os go-
vernasse , & o Cõsul trouxesse notável força de gête bè exercita-
da nas guerras , & recontros passados , nã lhe foy difficultoso a-
cabar còs nossos , q deixasse as armas , & lhe pedissem condições
de paz, tão soffriveis, & arrezoadas, que Bruto lhas concedeo
facilmente. E ê comprimento delias lhes assinou càpos abundan-
tissimos, que a branda corrente do caudeloso Rio Turia cõ a
mansidão de suas agoas rega , & faz muy fructiferos , e alegres
aos olhos. Onde começarão a fundar hua povoação a q chama-
rão Valença por memoria da valentia do seu Viriato, debaixo
de cuja bandeyra militarão, Sa das valentias que em sua cõpa-
iihia fizeram. O q pos em memoria Sabellico, & Resende O
cantou no seu Vincencio : Haiid lia multis
Millihus à pélago sejúcta ValMia surgit
Bruti opus. JJesperiã Viriati ccede madentê
llle petens , acics palanfes Urbis honore
Donavit , positisque dm victricibus armis
Exaxictorato complevit milite, àic. •
Cuja significação he : que pouco distante do mar se vè a Cida-
de de Valêça obra , & edificio de Bruto , o qual vindo a Hes-
panha pouco tempo depois da morte de Viriato, quietou a gen-
te darmas , que por sua morte andava espargida por varias par-
120—4. tes , dãdolhe Sitio em q erguessem híía Cidade , a qual elles po-
voarão j deixando primeyro as armas, O que Bruto ordenou com
r>\ GLOIIIA E TUILMPnO DOS LUSITANOS, V./0
singular astúcia lançado chi Lusitânia, & seus confins pcra ter-
ras tam remotas a Soldadesca antiga, & deixâdoa deseinparada
de forças que llie podessem resistir, pêra q os Lusitanos rendes-
sem as armas, & aceytassem as condições de paz que elle qui-
sesse. Alas ainda que Valério Máximo diga q a mòr parte da Lil.(i,cA.
Lusitânia se lhe deu spõtaneamente, na lhe sairão suas venturas
tam baratas q deixassem de custar muyto sangue Romano, pois
como quer Alhidio , em alguns lugares dos nossos se vio muytas
vezes a ponto de ser desbaratado. No anno 135. antes da nascen-
ça do l{etlenij)tor vedose Bruto cõfirmado no officio de Pretor,
& desejando ai^oderarse de todo o Reyno de Portugal , passou a
corrente do Kio Douro, &. dando arrebatadamête nos moradores
dantre Douro, & Minho, fez nelles grade estrago por os achar
desapercebidos. Os cjuaes se subiram aos motes cô quanto tinhão,
donde sairào a deshoras, a cometer o exercito do Pretor desali-
nandoo cõ assaltos repentinos, sem clle poder atalhar os danos
que recebia , nem saber darse a conselho cõ homês tam incansá-
veis. De mancyra q se via vecido sem armas, & sua gête cada
hora posta em desbarato pelos Portuguezes; mas por derradeyro
còs danos, & destruição, que fez nos campos, &. aldeãs daquel-
la gente, os constrangeo a lhe pedirem paz, que elle lhe cõce-
deo com muyta franqueza, por aver delles mantimentos, & cou-
sas necessárias ao seu exercito. E depois de ter seguras as costas
com deixar sojeita a Cidade de Labrica, continuando sua cõquis-
ta chegou a roubar os campos Comarcãos da Cidade de Braga, 121 — 1»
que ja neste tempo era a mais famosa, & bem povoada que avia
entre Douro, & Minho. Mas tendo os moradores delia por no-
tável affronta o seu atrevimento, & sabendo como algija gente
de cavídlo Romana vinha pêra o arrayal em côpanhia de algíias
recovas, & carros de mantimentos, pondolhe híia sillada em
lugar conveniente, os atalharam de mancyra, que nenhum es-
cajx)u, nem ficou cõ vida. E sem aguardar que o Pretor chegas-
se a poerlhe cerco, diz Laymundo, que lhe sairã ao encontro Lib. 3. in
oyto mil, & quinhentos passos da Cidade, & de tal modo se fine.
ouveram na batalha, que ao Am os Romanos lhe alargaram o
campo, & soltas as armas encomendarão as vidas à ligeyreza de
seus pes. Porem Bruto com sua astúcia recuperou esta quebra,
ao que lhe deu occasiam o descuydo dos Bracharenses , que fes-
tejando o succcsso prospero do dia passado toda a noyte gastaram
vm tregeylos, & em cantar ao seu modo, &. dançar ao som que
fazião nos escudos, o q vendo Bruto deu nelles antes que a me-
nhaã rompesse, & sem muyto trabalho os pòs em fugida. E ven-
dose cò tão fermoso successo, & sua soldadesca animada com el-
le, guiou as bandeyras contra Braga, mas achou nos Bracharen-
ses tal resistência, que se cõtentou cõ llie roubar os campos, &
3ó
Í>74 DIALOGO QUAr.TC,
atravessando com este estillo de peleja nniyla parte dentre Dou-
ro, & Minho, chegou ao líio Lynia, chamado Lctheo, na
prava do qual se deteve a sua vaniguarda sem querer passar o
vào , por nam perder a memoria das cousas passadas. E sabida
r;21 — 2. pelo Pretor a causa de sua detença, se rio niuyto, dizendo, c^
as agoas do esquecimento se passavão no vào da morte , & nao
em quanto a vida durava. E pêra mostrar a vaidade da antiga
superstição estando a cavallo arrebatou bua bàdeira das mãos tio
Alferes cõ a qual se lançou ao Rio , t^c passando da outra parte
lhe começou a dar grita , dizedo q ainda se nam esquecia de
Roma. Seguindo pois sua rota ganhou o q restava daquella ter-
ra tè chegar a Cinania , cujos moradores lhe tivera as pellas
muitos dias. De maneyra q elle se vio enfadado, & lhes man-
dou dizer, q dãdolhe certa cotia de dinheiro pcra pagar os gas-
tos do exercito , os aceitaria ê lugar de amigos : ouvida j)elos
Cinanièses a embaixada, de còmu acordo lhe màdarà dizer, q
a herança de seus antepassados , & os bes q possuiào delles eram
armas pêra defender sua pátria de Tyrànos, & nâo dinheiro pê-
ra comprar sua liberdade a homês ambiciosos. Resposta que Va-
Lih.3,cA, lerio JVIaxinio engrandece muyto, mostrado o gosto q tivera de
a ouvir antes em boca Romana, que em gente estrangeyra. Nes-
ta conquista , & na da Beyra gastou Bruto os três annos seguin-
tes atè o de 130. antes de nascer Christo Nosso Senhor, em q se
partyo pêra Roma carregado de riquezas, & de honra. Depois
de sua partida passaram algiis annos em q se nam conta succes-
so notável, nem batalha digna de historia, sendo principal cau-
sa desta quietaçam , as guerras civis em que Roma ardia. En-
trado o anno de cento &. vinte vcyo cò cargo de Procônsul pêra
Lusitânia Cavo Mário, que depoys de os Lusitanos O desbarata-
rem em hiia batalha, valendose dos Hespanhoes de Celtiberia,
& da soldadesca Romana , que tirou dos Presídios onde estava ,
121 — 3, os venceo era diversos recòtros. Em grande silencio passam os es-
critores pelas cousas de Lusitânia te o anno de 109. antes do
Redemptor. Em o anno 107, veyo a Lusitânia Q. Servilio Sci-
Lib. 3. pião fdho do outro Scipiâo por cuja ordem Iby morto Viriato.
Mas se a ventura deste Capitão ahateo desta vez as forças dos
Portuguezes, bem se satisfizerâo no anno 104. em que JuIio
Llh. 4. m Obsequente confessa , q andando híi grosso exercito de Romanos
Jine, em guerra cruelissima cõtra elles, o desbaratarão de modo q
nenhu Romano ficou pêra levar nova desta desgraça. Porê como
a fortuna tenha pouca fumeza nos bês , & os dè debaixo de cõ-
dição pouco certa, cliegado c anno de 99. forão os Portuguezes
vencidos , &. a Hespanha ulterior posta è grande paz , & sojei-
çam , na qual viverão os nossos dous anos tè o de 97. em q
tornarão tomar as armas cõtra Roma , abrazaudo quanto se lhes
D\ r.LOKIV K TIllUMPIlO DOS LUSITANOS. 275
offerecia na iiUerior Ilespanha. Mas vindo cõtra elles de líomar
Lucio Corndio Dolabella cõ titulo de Procônsul , os còpelio a
se retraherê dentro na Lusitânia, & deixarem por aquella vez
as armas cò muyto dano seu. No anno ^ò. antes do nascimento
do Sòr veyo o Cônsul Publio Licínio Crasso, &. socedêdolhe
prosjjeranientc as gut-rras cõtra os nossos, acabado o anno de seu
Còsulado lhe mandarão de líoma , q sem levantar mão da cò-
quista cm q andava, se ficasse na Lusitânia cò titulo de Pro-
cônsul. E neste officio permaneceo quatro annos sem os poder
tQtalmètc domar.
» V» V-VX k^V* * V\ » % \ % VX V V-* k'V% VV\ 1/V\ VV\ %'V% VVk V»/V 1ÍV\ ^íV» VV\ VV\ ^-Ir^i %/V* VV* VV\ kVW
CAPITULO XVI.
Do Capitão Sertório,
yJnt. Postoquc as guerras de Crasso atemorizarão em algu 121 — 4.
modo os nossos, nào íby tanto q bastasse a lhe fa/er deixar as
armas, & j)ertler o animo de as mover còtra osKomanos cò mais
ardor. Dòde resultou q em sabêdo os Portuguezes como e Roma
se acèdiào as guerras civis entre Mário, e Silla , & q os nobres,
e principais do Senado andavão metidos em tantos cuidados , q
lhe nào ticava têpo pêra os terè de Lusitânia , se amutinarà cõ-
tra os soldados Romanos q ficarão e algíis presidies, & dado de
súbito nelles, os poserào à espada, & lhes roubarão quàto tinhão.
K aspirando a mores empresas, entraram por Castella em diver-
sas capilanias matando, & roubando quãto achavâo de l)ò lan-
ço, & còslrangendo os capitães Romanos aos quaes estava enco-
mèdada a gete de guerra repartida pelos presidios a q a recolhes-
sem em algíías Cidades mais fortes, & be povoadas, & desem-
parassè outras de menos cota, por lhe nam ser possivel a defen-
são delias. Nestes alvorosos, &. revoltas andava metida Hes})a-
nha, quando chegou a ella o valeroso Capitão Sertório trazido
da Aêtura pêra cò a valètia dos Portuguezes & sua muita expe-
riecia nas cousas da guerra, mostrar ao Império Romano q na-
da faltava aos Lusitanos pcra lhe ganhar o senorio do mudo,
senam hia pequeno numero de bons Capitães, de q elles tiverão
niuy grade copia. Kra Sertório neste tempo muy conhecido em
Hcspanha, porq avia militado debaixo da bandeira de Scipião
Aemiliano na batalha de Numancia, & depois na Celtiberia em
còpanhia de Tito Didio Cônsul, sendo Tribuno de híia Legião,
onde se estremou na valêtia , & ganhou muy illustre nome. E 122 — L
invernando na cidade de Castulo na Andaluzia, porque os seus
moradores rebellarão, elle cò singular arte, &. prudência deu
35 «
;iyG DIALOCJO QTJATITC
ordc pcia que morressem à espada todos , & à volta delles , os
Girinesos seus vizinhos , q entrarão na sua rebelião.
Herc. Assi vivais muitos annos, Antiocho, que mo dip;ais disso
muito, & vos detenhais nesta matéria porq nunca acabão Por-
tuguezes de falar nesse Sertório & encher a boca de seus feitos ,
& eu não sei se foy algii cavaleyro dos panos de Frades , como
os Hercules da Gêtilidade, & lèbrovos q aos homes hõrados custa
muito caro o q côprão c5 rogos. Os Evorêses se jactào delle &
lhe dão casas e sepultura na sua cidade : e affirmà que foy Ca-
pitão dos Lusitanos Antigos; & q c5 elles fez guerra cruel aos
Romanos destroçandolhe poderosos exércitos, & meteado outros
ê estranhas afrõtas , & fugidas ignominiosas.
Ant, No anno 80. antes do Redèptor se levantou em Hespa-
nha Q. Sertório eòtra os Romanos, & por espasso de cinco an-
íios ouve muita duvida se ficaria Roma ou Hespanha cô a su-
prema victoria, do q he autor Velleio Paterculo. Nasceo Sertó-
rio perto de Roma, «Sc nam era muyto nobre de geração, ficou
orfaõ de pay sendo de dez annos , criouo Rhea sua may q elle
sempre prezou muito. Seguio a Mário nas guerras civis cò car-
gos hõrados; nas quais perdeo hum olho de q muito se gloriava.
Morto Mário, Sylla o proscreveo, q era polo na lista dos en-
cartados. Veose à Hespanha, mas cõ medo de Gaio António
enviado por Sylla, se passou a AftVica : «Sc achando là os ani-
J32 — 2. mos de differête brio do que elle cuydava, veyose a Calis ik. à
Erithia ; «Sc achando aly marinheyros das Canárias , diz Lúcio
Floro q se foy a ellas. JJo que duvido muito , nê sey se naquel-
les têpos algíia delias foy povoada , porq os nossos na acharão
sinal disso quando as descobriram , tirando na grade Canária , q
parecia ser povoada de algus Hespanhoes quando os Mouros des-
truirão Hespanha. Depois fez volta a Affrica, «Sc vêceo Ascalio
^ era das partes Syllanas. E indo Vibio Pacieco Hespanhol,
Varão principal, especial amigo de Marco Crasso o rico, ajudar
os da parcialidade de Sylla, Q. Sertório o matou na primeyra
batalha. Nesta sazão o chamarão os Lusitanos, «Sc o cõstituirão
seu Geral cô entrega do governo de toda a Província , movidos
por sua nobreza natural , «Sc grande esforço , & efficacia nas cou-
De hello sas da guerra. Appiano affirma que nam ouve outro Varam mais
civi. lib. 1. bellicoso, diligente, «Sc bem afortunado que elle, pela qual
causa os Celtiberos lhe chamavam Annibal. Dizem que Espano
homem baixo caçou hua Cerva piquena, «Sc por ser muyto bran-
ca, fez delia serviço a Sertório, que persuadio as gentes de Hes-
Zriò.S.cop. panha , a que a tal Cerva prophetizava , como refere Plinio.
ag. Donde vem que as suas moedas de Bronze tem de híia parte o
seu rostro com o olho menos , «Sc da outra a Cerva , que segun-^
do elle dizia lhe enviara a Deosa Diana. No anno setenta, «Sc
DA OLOUI.V E TUIUMPIIO DOS LU5ITAK0Ç. í277
ovto antes de Christo mandou Sylla contra Sertório o Cônsul
Quinto Metello Pio, que com lagrymas alcançou dos Romanos
levantassem o degredo a seu Pay. \ eyo com elle Lúcio Domicio
Pretor, que Herculio Capitão de Sertório matou em batalha cam-
pal, & tambe desbaratou a Manilio Procônsul de ISarbona, q 122^ — 3.
vinha acodir a MetcUo com três legi»~c's. Este he o Metello q
pòs cerco à cidade Lacobriga no Algarve jíito da Lagoa, preten-
dedo tomala è cinco dias por falta de agoa , &. Scriorio lhe aco-
dio cõ dous mil odres de agoa , como ja vos ccJtey. Sertório des-
afiou o Còsul Metello, porq fugia de pelejar, & elle recusou o
desafio. Tàbè dizê q Mithridatcs Key do Ponto (q em Ásia fa-
zia a segunda vez guerra nos líomanos) movido poja fama de
Sertório, lhe mandou Lúcio Magio, &. Lúcio Pliamo Romanos
por l^lmbaixadores, offerecêdolhe i\aos & dinheiro. Passados dous
annos veyo Cneo Pòpeo Magno, muito mancebo, mas ja co
grande nome , cOtra Sertório : & a primeira vez q pelejarão ,
morreram dez mil dos Põpeianos , & com elles Decio Lélio seu
legado : & Põpeio a grande pressa levantou o rayal «Sc foy íerido De belh
cm hua coxa. Cota Appiano q perdêdo Sertório hua vez a sua c/ri. llb.
cerva, se affligio muito, avcdoo por sinal de infelicidade, & I.
■não queria entrar e batalha, affirmando q os inimigos llia ma-
tarão, & logo q a achou, sayo ao campo cô grande animo. Ou-
tras muitas vezes cò varia fortuna batalhou cõ Põpeio : & por
derradeyro jííto do Rio Turia, q passa por Valêc^a foy Sertório
manifestamête vêcido : o foi morlo ou preso Caio Hereinio seu
Capitão, Paulo Orosio escreve q tâbe morrerão desta vez os dous
Irmãos Hercúleos Capitães de Sertório. Da parte de Põpeio mor-
rerão Caio Alèmio seu Questor, e marido de sua irmã. Emfim
a cabo de dez annos do principio destas batalhas, morreo Sertório
per treyção dos seus negociada pelos Romanos.
CAPITULO xvn.
Da morte de Sertório.
j4nt. Perpèna o matou estando comêdo, & tedoo Sertório por 122 4.
tao particular amigo, q e hu testameto serrado o tinha instituí-
do por seu herdeyro, como he autor Apiano. No anno setèta &.
híi antes de Christo foy a morte de Sertório. Põpeio por estas
victíirias levantou soberbos tropheos nas rochas e cumes dos mo-
tes Pyreneos, suprimindo o nome de Sertório, o q Plinio atribuo
a grandeza de animo : & eu a vaidade & alliveza. Porq muitas
vezes nà sayo bem das escaramuças , 6c recontros c[ teve cu Ser-
270 DIALOGO QUARTO
tório; ne o redeo per armas, pois morreo às mãos infames dos
seus soldados. Tinha Quinto Sertório tomado asseto ê Évora, &
feito nella casas, por estar esta Cidade no meo da Lusitânia,
inda cj cõtinos movimentos da guerra o não deixarão sossegar.
Disto dà testimunho hua inscripi^ão q Resede pòs na iiistoria de
Évora. A qual cidade o servia cõ liíia cohorte de Soldados que se-
rião mais de quinhentos. Cercoua de cantaria lavrada, mandou
fazer o cano da agoa de prata , como parece à porta nova por
liíj letreiro q Resede pòs na apologia cõtra o Bispo de Viseu , a
q vos remito. Velleio Paterculo diz q Sertório morreo perto da
cidade Huesca : mas ê S. João de Évora de S. Eloy dize q se
achou hu letreiro q eu não vi , &. anda impresso na historia de
Ambrósio de Morais; no qual parece dizer q Sertório morreo
cerca de Évora , o q nã tenho por certo , & posto que ( segundo
refere A piano) vendo Sertório os mãos successos da guerra, come-
çasse a despedirse delia , & darse a dilicias , molheres & bãque-
123 — 1. tes; e por varias suspeitas côcebesse suma indignação contra os q
o querião matar , e punisse asperamête algíis delles , todavia foy
sua morte sêtida do seu exercito, & o ódio cõvertido e misericór-
dia, & côpaixão, lêbrãdolhe o sublimado animo & estremada for-
taleza do seu Capitão. Os q a mais sentirão , diz Appiano q fo-
rão os Lusitanos da côpanhia & valêtia dos quaes principalmen-
te se ajudava em a guerra. Em Logronho se vè este letreyro^
que eu não vi.
Piis inanibusque Sertorii me
Itubrlcuis Calagurritaniis
Dcoovi arbit ratas rcliglo-
ncin esse , eo sublato qui om-
ma cum Das iinmortalibus
Communia habebat , in& inco-
Imnc rctinere ammam. Vale
viator, qui hcec legis , ò(
meo discc exemplo fidem
Ser vare. Tpsa fiâes etiam
mortuis placet corpore
humano exutu.
Quer dizer. Eu Rubricio de Calagorra me sacrifiquei à alma de
Sertório avêdo q era cõtra a religião ficar eu cõ vida , perdêdoa
aquelle q todas as cousas tinha cõmus cos Deoses imortais. Passa
e boa hora caminhãte q les estas letras, & aprêde de mi guardar
fidelidade, a qual tè aos mortos despidos do corpo humano, he
agradável. Em a cidade Ausetana q agora chamão Vique ê Ca-
talunha dizê que se vè o letreyro seguinte.
Hic mxiltce^ qtice se manibus Q. Sertorn ^
Turmce , ferrce mortalium omniú parenti
PA GLORIA E TniUMPUO T)Oh LUSITANOS» 279
âcvovcre . clú co Riih/dlo supercsse iadcrct
Et furtílcr pugnado uiinceni cecidere
Morlc ad jyrwicns i)]jt(da jacfMt . fralde postcri.
Miiytos esquadrões se sacrificarão à alma de Q. Serlorio, & à
terra mãy do todos os mortaes, avorrecendo a vida j:K>r vere sua l2'^ — 2.
morte, (Sc pelejado entre sy esforçadamete , cairào aqui onde ja-
ze cõlentes cò a morte desejada. Ficaivos embora vindouros.
Laimíido proseguindo a historia de Sertório, diz q muy tos es-
quadrões de gête Portugueza, nã cjuerèdo mais acõpariliar os
homicidas de tal Capitão, recolhedo cO muyta veneração suas
cinzas as trouxercào à cidade de Évora, &. cò i^rande sentimèto
do povo q cordialmente o amava, lhes derào muy honrada Se-
pultura , é memoria da qual lhe poserào hua pedra q nào ha
muitos annos se descobrio na própria Cidade íazendose a Ij^reju
de S. Luís, & tinha estas letras.
Sertortus Lvsit. JJiur in criran. orb. Plaga D. ímort. vovct.
Ankm, Justo corp. Qiá libi Saio. Tetlú. Scrvatus. Quo loco
circa Ebor. lio. Cor. Cop. Q. ?ps. cecidcrat ollm. Z. Ercx.
S. 'circnventã dolo Linb. Eliúcu. Dirige D. D. S. +. +.
L. yíuliciis. P.
Quer dizer, Sertório Capitão dos Lusitanos aqui nesta ultima
região do míído offerece sua alma aos Deoses imortais, & o cor-
po à sepultura. Este he aqlle , ò Oeosa Thetis, q por ti foy li-
vre do mar, & aqui neste lugar jíito de Évora, ode elle os tê-
pos atrás tinha desbaratado híi Cõsul Ixomano & todo seu exer-
cito, lhe foy posta sepultura. Deosa Diana encaminha pêra os
càpoã Eliseos a sua alma arrãcada do corpo à treição, sejate a
terra leve. Aulico lhe jiòs esta memoria. Alladio no livro dos
sacrifícios, diz, q ao tepo q Sertório foy morto em hu côvite
estava com cUe a sua c(?rva branca , q vendoo banhado em seu
sangue o cheirava de quàdo, em quãdo, òí. depois dando grades
huivos mostrava sentir o mal de rpie a criara, &. ao fim làcàdo-
se JLito delle foi achada morta. E porq não vi os mármores aqui 133 — 3.
referidos, nem outros muitos q ja andavão impressos, passo por
elles, & creyo o que a razão me obriga.
Hcrc. Fazeis muylo be, porque onde ha vergonha, & honra,
nã se pode affirmar senão o q se vè cos olhos , ou se ouve de di-
gnos de fè. E (js homes honrados devem ser quasi supersticiosos
nesta parte, & não hão de dar credito ao que vagamundos ocio-
sos, i5c vadios invêtão. Lembrovos que passastes de corrida pelas
cousas de Braga , e sua Comarca , sendo tão insignes.
ÍI80 . DIALOGO QVARTO
CAPITULO XVII].
Dos Br achar enses,
Ant. A Hespanlia citerior se dividia e sete conventos, & hu
Z26.3.C.3. delles era o Bracliaiêse ao qual diz Plinio q pertencião vinte &
quatro Cidades. Destas era hua a Cidade de Braga, chamada
Augusta, como a intitula o Concilio Sardanense. A sua Co-
marca se rega cò Minho ( a boca do qual quando se mete no
LihA.c.'^. Oceano tem espasso de quatro milhas segundo Plinio.) E cõ o
Rio Lyma , a q Varro chamou Aeminius , & Tito Livio , Li-
XÍ6.2.C.6. mea; & os antigos rio do esquecimèto. Os Bracaros, ou Breca-
Lib. 33. c. ros, ou Bracares , conta Ptolomeo entre os Galegos, & chama
4,. a sua Metropòlis Brachara Augusta. Plinio affirma q foy esta
terra fertilissima de ouro , & outros metais. E diz , de opinião
de algiis, q da Asturia , Galiza, & Lusitânia se tiravão cada
anno vinte mil libras douro, q saõ trinta mil marcos deste tem-
po, & que em nenhíia parte das terras durou por tantos tempos
3cg3. 4, esta fertilidade. E inda agora ha muytos montes entre Douro,
iSí Minho prenhes de veas de ouro purissimo, como se vè por ex-
periência quãdo cay das nuvês agoa grossa , que decendo dos
montes , trás consigo ordinariamente muyta copia de grãos dou-
ro. Outro tanto se vè na Aremenha, & rayzes dos montes Her-
minios, onde semelhantes grãos saõ menos conhecidos, & bus-
cados da gente da terra, que as moedas de fmissimo ouro q com
as tezas chuvas se descobre , das quaes os seus vizinhos cõ a pres-
sa da fugida dos inimigos, se descuydarão. E he cousa averigua-
da q em muytas partes de Hespanha os Rios correm sobre áreas
de ouro, & as pedras te em sy muytas veas de prata. Depois da
lastimosa morte do invêcivel Capitão Q. Sertório, & da de Per-
pena que foy degolado por mandado de Júlio César (pena me-
recida de sua infame treyçao) vierão de Roma contra os nossos
algíis Procõsules & Pretores , & foy a guerra duvidosa entre el-
les , & as victorias custavão sangue aos que as alcançavão. E
porq quero ser breve, passo por ellas. No anno cincoenta antes
do Redêptor, veyo Júlio César por Pretor à ulterior Hespanha,
& rebellando contra os Romanos , os moradores dos montes Her-
minios , q erão os da Serra da Estrella , os cõstrangeo fugir não
para as Ilhas q Plinio chama Cice, «Sc agora se chamão de Bayo-
na, mas pêra a Insula de Peniche, & os q se lhe renderão &
escaparão de suas mãos, se vierão ajuntar còs moradores, & vi-
zinhos de Aremenha. Deixo totalmete as guerras civis entre Ce-
J)A Gi.ORlA li TKIt-MPilO DOS LUSITANOS. !?0l
sar & os Cnpilães dv Pupco cõ Iodas suas dcpcdf^ncias, das quais
couhe boa parte à ulterior Hespauha. Finalmòte veyo Augusto 121—1.
Cos. a Hcspanha & ainda achou etre os dátre o Douro e Mi-
nho, e os Galegos, c Biscainhos armas entrarias a sua potecia ,
na cuquista dos quaes meleo todas suas forqas, tSi p(jr mais que
algíis se encastellarâo &. defcndcvao com singular animo & va-
lentia, em final s(; lho renderam òc reeonhecerào vassalajem , &
assi íuaram de todo domadas as indómitas províncias de Ilcspa^
nha. O remate da guerra que Octaviano & seus Legados fizerào
contra os Bracarenses, nam foy Iam azedo & mal assombrado
como o principio delia, porque se concluirão entre elles pazes
com sati!^fa(^â() dambas as partes, F. da parte de Octávio foy
concedido a Braga privilegio de Colónia Jvomana , & sol;reno-
me de Augusta. A' qual como à Chancellaria da Hespanlia ci'
terior acodiam os lugares denire Douro & Minho, & de trás dos
JVlontes requerer justiça em suas duvidas & demàdas, & nella se
scnteciavào as suas causas. De sorte que no anno vinte & qua-
tro, antes do ^l'ascimento do Kedemptor era Octávio César Mo-
narcha & senhor quasi de todo mundo, & Hcspanha à sombra
de sua clemecia acabou de se aquietar, & ficar do todo sojeita
ao Império Bomano. Muytas mais proezas &. valètias vos pude-
ra recontar dos Lusitanos , e em especial dos Bracarenses & suas
molheres, de quem Vaseu na sua Chronica , & Laimiido nos
seus livros das antiguidades relatam muytas cousas notáveis. Por
onde se mostrao seus ânimos esforçados, & sua constância gene-
rosa, &. admiráveis façanhas, pelas quaes todas passo, porque
ja andào divulgadas &. postas em nossa lingoa em livros moder-
nos. E porque meu intento foy fazer somente hum breve suma- 124 — 2,
rio, & reduzir a hum breve compendio a conquista de nossa
Lusitânia pelos Bomanos.
Jlcrc. Fico còs cabellos arrepiados, &. pareceme que vejo os
nossos Capitães desse têpo armados de ponto em branco , desa-
fiando toda a potencia de Bom a. Justes ânimos altos & alvora-
çados cò a lança no punho, me affeiçoão tanto, que aceitara
por honestíssima condição , renderlhe a liberdade , &, negarme a
mim, por viver debaixo do jugo suave de sua obediência.
36
CAPITULO XVÍIII.
Do que socedco na Luútania em tempo dos Godos,
Ilerc. Aos homens importunos aveis de levar em conta suas
moléstias & prolixidades, inda que fazer muytas perguntas seja
importunac^íio curiosa por vocábulo honesto , quando sam de
cousas desnecessárias. Queria saber de vòs que tempos correram ,
& que mundo se seguio depois que nossa Lusitânia íicou someti-
da à potencia Romana ; & em que tempo recebeo a verdadeyra
Fè de Christo, cousa que faz muito em nosso louvor se pode
:;onstar da antiguidade.
^nt. Quanto a essa questão direi brevemête o q me parece
mais certo. Nam tenho para mim , que S. Paulo veio em pes-
soa pregar à nossa Hespanha , dado que em muytos lugares o
affirme S. JoãoChrysostomo. Ditosa & bem afortunada sobre to-'
dos seus primores fora toda Hespanha, se nella posera os pès a-
joi — 3, quelle divino Paulo, vaso escolhido do Senhor, secretario dos
Ceos , interprete dos Prophetas , architecto daquelle Têplo onde
Salamão figurou. Muyto verisimil he que se S. Paulo viera a
Hespanha Sam Lucas o escrevera. Quanto mais que os dous an-
nos q residio em Roma, antes de sou martyrio, ou esteve sem-
pre retrahido, ou ao menos nam teve licença para se absentar de
Roma. Isto tenho por se duvida , digao o que quiserem algíis
auctores, a que nam vejo fundamento. E passado pela pregação
do Apostolo Sanctiago, & dos sete Bispos que S. Pedro, & S.
Paulo mandarão de Roma a Hespanha, s. Torcjuato , Indalef*
cio, Eufrasio, Cecilio , Secundo, Tliesiphõ, & Aesicio, dos
quaes he de crer que caberia parte à Lusitânia , cò nào pequeno
fruito dos nossos : devenos bastar q S, Mancos discípulo deChris-
to , mãdado pelos Apóstolos, pregou a Fè em Évora no meio da
Lusitânia & nos seus conterminos , & ahi padeceo martyrio. Por
onde parece que os Lusitanos foram em Hespanha os primeyros
que receberam o Evangelho de JESU Christo. Ajuntase a isto
que em tempo de Constantino Magno, ja avia muytos Bispos
na Lusitânia, como se mostra d^lgus Concílios.
Herc, Quanto ao estado da Lusitânia em tempo dos Romanos
fico satisfey to , mas do tempo em que os Godos , e outras barba-
ras nações tiveram o império de Hespanha, folgara de ouvir o
que aveis lido.
u4nt. Succedeo depois o tempo dos Godos, no qual como eram
ferozes bárbaros , pouco Christãos , & inimigos das letras , nam
sabemos em certeza o que passou, ao menos na Lusitânia. Vin-
DA GLOUIA E TUIL.MPÍIO DOS LCõITANOS, 2^3
garase tis letras dolk-s, &. ficou sua líloria escurecida, ôc seus
ífitos (Sc viclorias enterradas, coukj intlignas de memoria, Nam l^H — t.
duvido das bravezas que os Lusitanos fariào, n(ím dos ânimos s^-
nerosos cu q resistiriào ao ímpeto &, crueldade das barbaras nações
seplèlriojiaes. Ju sabereis q do tèpo do Maj^tio & Cliristianissimo
Còstantino começou a declinação do lmi)erio Romano, quâdo
tirou o presidio das quinze legiões que residiào sobre o Kheno,
&. Danúbio, ccnitra as feras, &, indómitas <i,el(!s do Septentriao,
Bem entenderão este mal , & perigo Octávio César , òc Trajano
que guarnecerão aquellas fronteiras. Athanarico foy o primeiro
Key dos Cíodos, morreo em C«"stantinopla anno do Senhor de
Irezètoa, & oitenta & hum em Janeiro. Theodosio o mayor o
màd(JU enterrar cò solcnissima popa. Sucedcí^lhe Alavico que sa-
queou Kíima, & a incendeo, perdoando ao sangue dos Clnistaos
q se acolhiào aos Tèplos. O sancto Papa Innocencio III. entre-
tanto estava em Kavena , &. nam quis Deos que visse o justo a
calanddade da miseralloma, esmagada dos pès dos Bárbaros, em
pena de seus peccados. Nesta destruição de líoma foi cativa
Galla Placidia filha do Theodosio Augusto, meia irmaâ dos
Emperadores Arcádio, &. Honório. A qual Ataulj)ho parente de
Alarico recebeo por molher. O que Deos ordenou para utilidade
da Republica Romana, como escreve Paulo Orosio. Dous annos
antes do sacco de Roma Stilico Vândalo alvoroçou as getes dos
Alanos, Suevos, & Vândalos, de modo que passaram o Rhe-
no , & destruíram as partes de França , & cometerão os Pyre-
neos ; mas achando resistência fizerão se atras. Corria o anno de
1168. da fundação de Pioma quando o Conde Constâncio lançou 125 — 1.
os Ci( dos de Narbona, & os constràgeo passar a Hespanha , se-^
guiido refere Orosio. Era Rey doa Godos Ataulpho marido de
Plucidía, home de forças, animo, engenho, & industria. O
qual desejou muyto riscar da memoria dos homès o nome Ro-
mano, & que todo seu Império se chamasse Gothico , & que
fosse Ataulpho outro Augusto Ce^ar. Porem desesporãdo de sair
com esta tenção começou pretender paz côs Romanos; induzido
taml)em a isto per persuasam , còselho , & suavissimas condições
da Catholica princesa Placidia sua molher. Nestes entrementes
o mataram os seus por traição em Barcelona, ou nã longe delia.
Succedeolhe Segerieo tãbem inclinado a paz, mas tambê foy
morto pelos seus. Devemos aqui deixar estes bárbaros, que per
mu\ los annos teverão os Hespanhoes de baixo do jugo de sua
fera potencia. O Cathalogo dos Reys Godos que ouve em Hes-
panha está no Mosteyro de Alcobaça, «Sc \ azeu o estampou no
seu Chronico , onde o podeis lèr. Destas barbaras nações , Go-
dos, Alanos, Suevos, Vãdalos; os Alanos principalmente oc-
cuparam a Lusitânia, os Suevos a Galiza, os A andalos Anda-
òCi *
'Í?)4i niALOCO QUAUTO
luzia, k os Godos o mais de Hespanlm. Outros dizem qiio os
Alanos depois de meterem a fo2;o, & sangue toda Europa, fize-
rão assento na Lusitânia ; & sobrevindo os CJodos foram forçados
a deixala, «St ir buscar outras terras. De todos estes bárbaros os
Vândalo, eram mais fracos, covardes, avaros, pérfidos, traido-
res, & todavia castos. Salviano Bispo Massiliense lamentando
esta entrada, & rota de nossa Hespanha, diz que deu as dignas
125 — 2. penas de suas deshonestidades , mostrando Deos em seu cativey-
ro, & destruirão, cfuanto amava a castidade, & quanto aborr(>-
cia, & abominava o peccado da carne, pois a meteo de baixo
da tyrania dos Vãdalos inimigos da luxuria, vivendo entáo og
Hespanhoes turpissimamête. Eram os Vândalos com serê bárba-
ros , & Arianos tam honestos que nam permiliao lugares desho-
neslos de molheres publicas. Outros bárbaros avia no mundo
mais esforçados sem controvérsia que os Vândalos, a que Deos,
por seus peccados poderá entregar as Hespanhas : mas feias re-
der a estes homês fraquíssimos , para mostrar clarissimamente ,
que não valiao as forças, senam a causa : & que nam tryum-
phava a baixeza de inimigos vilissimos, mas a impuresa de nos*
sas abominações; & q nossos vícios, & deméritos nos sojeitavão,
& nam a fraqueza , & covardia dos bárbaros effeminados , & pa-
ra muvto pouco. Compriose então nos Hespanhoes o que Deos
dizia contra os .Judeos transgressores de sua Ley. yídducet Do-
minus super te gcntem de longínquo , ^ de cxtremis terrce firúbus
in úmilUudinem aqxàlce volãtis cimi ímpelu , cujus linguam in-
telligerc non pyssi.s, gcntem procacisúmam , qvce non defcrat scni ,
ncc viisereatvr pnpilli , ôf devord fructum jumentorLmi tuorum ,
ac frnges terra- tuce donec intercas. Trará 1)(hxs sobre ti gente de
longe , & do cabo da terra , à semelhança de hua águia que voa
com Ímpeto, cuja lingua não possas entender, gente tão desafo-
rada, que nem respeite ao velho, nem se compadeça do órfão,
& que trague os fruitos das tuas terras, & de teus jumentos, tè
que acab(!s.
IJei-c, O' que thema para hum sermão bellicoso?
CAPITULO XX.
Da entrada dos Mouros em Hespanha.
125—3. yínt. Muytos tempos reynarão os Godos em Hespanha, tè el-
Rey Rodrigo ^ deu triste íim a seu império, pelejando infelice-
mente côs Mouros metidos pelo estreito de Gibraltar , per trai-
ção do ímpio, & maldito Conde Juliano. Dizem que morto
J3A GLORIA E TRIUMPIIO DOS LUSITANOS, 280
Mafamede ouve grande , & profiado debate sobre quem lhe suo*
ced«.'ria no Caliphado, entre infinita multidão de Mouros. Des-
tes, & de toda Affrica coneorrerào inlinitos para a destruirão de
Hespanha, inda que os principaes exércitos fossem dos Marro-
chcses. !No anno do Nascimento de Nosso Redemptor, de seto
centos, & quatorze se perdeo Hespanha. E quanto as cidadí^s
eram mais nobres, & populosas, tanto com mOr fúria foram re-
batidas, entradas, & assoladas pela resistência que faziao aos en-
xames dos Mouros. Brapa jouve em suas minas duzentos annos
com suas venerandas antigualhas, dando as penas (se^^undo a
sorte humana) de sua antiga preeminência, & magestade. Nes-
tes tempos, como tudo era barbaria, jx)iico sabemos dos feitos
dos Lusitanos, que devião ser grandes, & còformes a sua fè, &
lealdade, & muilo mayore? que os de seus anlecessore-, porquo
eram Cliristãos, & confortados eò escudo da fè se meterião nas
lanças, por gloria de Cliristo nosso Senhor. Tanto teveram os
nossos que entender nesta miserável perseguição, que nenhum
teve ócio para escrever historia, nem havia para que a escrever, 125—4.
se não para referir desaveturas, & renovar suas magoas : nem
os Mouros merecerão q algíi Christão fizesse memoria de suas
abominações em historia sua. Somente ouve hum Rases mouro,
que escreveo annaes dos Reys Mouros, que reynarão em Hes-
panha depois da perdiçam dos Godos. Este foy (.'hronista de
Miramolin de Marrochos Rey de Córdova, escreveo em Arábi-
go, & de Arábigo o traduzio em Portuguez Mestre Mafamede
Alouro, de cuja historia apontarei sònuinte o q toca à nossa
Lusitânia. Correndo o anno cento, & trinta & oito pouco mais,
ou menos da era dos mouros : isto he do levantamento da seita
de Mafamede, que concorria co anno do Nascimento de (^hris-
to nosso Senhor setecentos, & st;ssenta, Abderamen filho de
Moabila com favor de Miramolin de Marrochos, passou a Hes-
panha, na qual depois de entrada dos Mouros, reynava Juceph,
& matandoo em V)atailia , tomou aos seus Mouros o s<;nhorio de
quantos lugares tinham na Hespanlia. E fortalecido este estado,
moveo de Sevilha a tomar o Algarve, Beja, Évora, Lisboa, &
Santarém : o mais conta Resende. Por onde parece que tè este Tn hisíor.
têpo, as ditas terras estavam povoadas de Chrislàos que viviam Ebor.
sí)b obediêcia de Reys Mouros. Este Abderame , diz o mesmo
Rast's, affligio os Christãos cruelissimamente; & nam ouve Vil-
la, nem Cidade em to<Ja Hespanlia que lhe podesse resistir.
<TÍueymou as sagradas Relíquias dos Sanctos, quantas pode aver,
destruioliie os Teinj>Ios sumptuosos de que Hespanha estava or-
nada. O? Chrislàos fogiram j^ara os Montes de Astorga (de que
Plinio faz honrosa menção, & do seu convento) & levarão con- 126 1,
ií^so as relíquias dos Sanctos que podcrani salvar. Per estes tem-
58G niALOGO QUARTO
pos esteve Portugal metido entre Douro, & Minho, onde foy
a sua orig-em , & depois se melhorou à força de sua lança , &
estèdeo sua jurdição tè Coimbra sobre o ambicioso Mondego,
que trás ouro , & pedras preciosas em suas ricas áreas , & cristal-
linas agoas. Cuja corrente banha hu dos fertilissimos campos de
toda Europa ; & caminhando cõtra o Poete vay buscar o ultimo
repouso de sua jornada nas espassosas agoas do vasto Oceano.
ElRey Dom Fernando de Lião primeyro deste nome conquistou
Coimbra , & a tirou do poder de Mouros com cerco trabalhoso
de muy tos dias ; & segundo contâo algíis históricos , o Apostolo
Sanctiago lhe valeo milagrosamente. O nome de Portugal se
deduzio do porto de Cale , que era antiguamenle hum piqueno
" lugar situado em hum oiteiro sobre o Douro : & frequentandose
o porto por razão da pescaria , veio a se fazer Cidade nobre , &
celebre, & chamouse Porlucale , & depois Portugal, de q todo
o Reyno tomou o nome,
CAPITULO XXL
De elRcy Dom yíffonso Henriques o primeyro deste nome Rcy
de Poi'tiigal , l) de sua Christandade.
Herc. Sintome alvoraçado cò a menção que fizestes de Coim-
bra , & do seu soidoso Mondego acompanhado de frescas som-
bras; (h'i)aixo das quaes passei os dias melhores de minha vida,
126 — 2. conversíindo a nobreza destes Rcynos, que no mesmo tempo es-
tudava na sua insigne Academia. E pois ella foy o assêto do
primeyro Rey , cujas obras forão milagrosas, nam deveis passar
por ellas.
An.t. Este fov o estado de Portugal tè os tempos do bemave-
turado Dom Affonso Henriquez, filho do Conde Henrico, que
li\rou (juasi toda a Lusitânia do poder & tyrania dos Mouros.
Jà sabereis a origem, & tronco Real deste Principe, & como
sendo Hespanha vexada , & estragada com guerras continuas de
Mouros , muytos Christãos de diversas partes , & varias regiões
se passavão a ella, a fim de ajudarem os Christãos contra os in-
fiéis. Com esta occasião acõteceo vir Dom Raymundo Conde de
Tolosa em socorro de elRey Dõ Affõso de Caslella eleito Impe-
rador. Veyo em sua companhia Dom Herique seu sobrinho filho
de sua irmã. Quanto ao nascimento deste Henrique nam con-
cordão os liistoricos. A hus parece, que nasceo em Constãtino-
pla; a outros que em Lothoringia , os nossos dizem que foy filho
de elRcy de Pannonia superior que agora se diz Áustria; mas
DA GLORIA E TRIUMPHO DOS LUSITANOS. SS7
rf^m hiis nem oiilros dcmonslrao islo por crrio raErío. rvcscndc
no livro das antiguidades da Lusitânia, diz, que foy Tdho se-
gundo dellíey de L ngria , & de liiia lima, de lÀayniundo, sua
iiioliíer. EIR* y de Castella avt^ndo respeito ao merecimento des-
tes deus Prineipes, casou sua fdha Urraca com Dò líaymundo,
& sua filha Therasia com h). Ilenrirjue , a quem dotou o Con-
dado de Portugal , boa parte do qual em aquelles tèpos eslava
occupado dos JNl ouros. Deste H enrico, & Therasia nasceo Dom
Aftonso Henriques, per cuja vida, & saúde accdio Deos mira-
culosamente em sua primeyra idade. O qual depois de alcançar 126— H,
muytas victcjrias dos inlieie, & domar sua ferocidade, estando
híia vez para batalhnr junto de Castro verde, cu cinco Reys
Mouros, foy aclamado dos seus, três vezes, por Key a grandes
vozes, & sõ de trombetas, tam.bores, & doutros instrumentos do
guerra; inda que muitas vezes recusasse o tal titulo. j\las vendo
cjue seus soldados com muyta instancia lho pediam, dizendo que
à sombra da Keal mageslade, pelejariam com mais ardor, ve-
ceriam com mais honra, & morreria mais alegres, lembrados
que morria em serviço &, defensam do seu Rey , ouve de con-
sentilo. E compriram be suas promessas, porque foy tanto o
sangue dos inimigos, que as correntes dellc encherão os Rios
Cobres, e Terges, Os: chegarão a tingir as agoas de Guodiana.
E nam ha nisto que duvidar, porque antes cieste sancto Rey &
valeroso soldado entrar na batalha, dizem as nossas chronicas,
q vio de noite no Ceo sereno, a Christo crucificado, que o es-
tava animando. O mais sabe todo mundo da historia de Duarte
Galvam. Desta famosa vicloria alcançarão os Reys de Portugal
as insignias gloriosas, & mysteriosas de suas armas. As quaes
como Christo lhas màdou do Ceo, assi propagarão, & di\ulga-
râo sua sancta fè pelo mundo. O mesmo Deos, que se lhe pre-
sentou na Cruz para o animar lhe pòs obrigação perpetua a el-
k' , & a seus successores de procurafem cò suas armas a cxalta-
çam do mesmo crucificado, proseguindo a guerra cotra seus ini-
migos. Em memoria da qual obrigaçam , ajuntou à Cruz das
armas da nobilíssima casa , donde descendia , as Chagas figura-
das pelas quinas, obrigado por este exemplo, aos Reys successo- 12C— 4.
res, a que sempre interiormente zelasse a honra da Cruz, e
exteriormente empregassem suas forças na dí^struiçam dos inimi-
gos delia. E como disse hum dos nossos Bispos, nunqua se po- Pinhàro
dera tanto louvar a bondade, & fortaleza delles, que se nam
entenda que a derivarão das heróicas virtudes, & animo invencí-
vel deste seu antecessor, de quem herdaram o espirito, & esfor-
ço, como em seu género Heliseu o iierdou de Helias, & o de
Josué foy tirado do de Moyses. Certo lie que por muyto q hua
pessoa edifique, íc gaste do seu em chão alhco, sempre fica de-
288 DIALOGO QUAUTO
vendo ao dono delle, quando menos o foro & reconhecimento do
Senhorio : assi os successDres deste Rey por miiylo c|ue conti-
nuassem a conquista de Portugal, sèpre lhe devera foro, e lho
pagàrào , confessando que eile foy o antor, & fundador de sua
gloria. E por aqui consta, que o lieyno de Portugal foy apro-
vado sobrenaturalniête do Ceo , c> )mo o Reyno de França pelos
três lilios, & redoma em tempo (ie Clodoveo seu primeyro Rey
Christào. Mereceo Dom Affonso Ilenriquez para si, & para seus
successores a Coroa Real desles Rey nos, como David a mereceo
para os seus; & a ganhou cõ suas armas, & realenga!^ virtudes.
Com este glorioso Rey conspiraram os coraçjes generosos dos
Portuguezes, ])ara còquistar boa parte da Lusitânia. E cora ver-
dade se pode gloriar que elles foram os primeiros, que em Hes-
panha lançaram da parte que lhes coube, os Mouros ale mar,
& lá lhe foram tomar seus castellos , & Cidades fortalecidas do
sitio , & natureza da terra , cometendo cõ tanta audácia , & se-
127 — 1. gurança os que estavão por reder, como se ja esteverã rendidos.
E assi os feytos heróicos deste Rey incomparável, & o destroçar
tantos Reys JMouros com poucos Christàos, nam se deve atribuir
a forças humanas , se nam ao ardentissimo zelo da religião , &
ao favor especial de Deos , que muy tas vezes , nas mayores a-
frontas de seus combates, sentio presente ," & favorável.
Herc. Bem mostrou seu zelo no insigne , & Real Mosteyro
dos Cónegos Regulares de Sancta Cruz de Coimbra , que esse
Rey pientissimo fundou?
yínt. A reformação desse religioso &. sumptuoso Convento,
nam se pode assaz encarecer , & se o propósito em que estamos
o sofrera, tinlia muyto que vos dizer de sua perfeiçam. Mas fa-
InPolit. lo ue religião mais em comum, a qual segundo diz Plato, he
obligarse o homem , & sobjeitarse a Deos. Pelo que os Doutores
Christàos ensinão , c[ue religiam se diz de religar, porque aquel-
le se diz religioso, que se ata, & obriga aos preceptos de Deos.
Pmhn.Gl. O que Plato parece, que tomou daquelle verso de David, Nori''
ne Deo suhjecta ant anima inca? Ab ipso enim sahUarc mewn.
Porque nam scrà minha alma obediente a Deos, pois delle me
vem a saúde? Tornando pois a meu intento digo c[ue as victo-
rias milagrosas que este Ray ouve dos inimigos de nossa f è , se
devem atribuir ao zelo que teve da religião Christaã , 6c ao fer-
vor com que procurou nestes Reynos a limpeza & pureza da san-
cta Fè Catliolica. Que vèdoos cheos de mesquitas, & pagodes,
& doedose das abominações & offesas q nelles se fazião ao fdho
de Deos, por honra sua offreceo milhares de vezes sua pessoa,
& vida a riscos de morte muy evidentes, cometendo, e coba-
ia?— 2. tendo, cõ muy poucos dos seus, infmitos dos infiéis, te arrãcar
de raiz da terra Portugueza a falsa creça , & perversa seita do
PA GLORIA r TRIUMPIIO DOS LUSITANOS. 289
sujo, & maldito Mafamede. E se a Escriptura Sagrada louva
elRey David sò do pensamêto q teve de edificar a Deos híi tem-
plo, & dado q lho nâo edificasse, Deos lhe agardeceo a lêbrãçii
disso, & o desejo q teve de o fazer, quàto he de louvar neste
liey o alto pensamento , que o obrigou a honrar o lugar em q
nosso Sõr se achou nii , & sedento, q foy a S, Cruz, a fim de
ali ser seu nome mais clarificado, espledidamete venerado, on-
de elle ouve por Ijè de se mostrar ao mundo mais necessitado, &
abatido. Como David ja naqlle tèpo tevesse Magnificos aposentos,
nã foy muyto lèbrarlíie, q estando elle tam hè aposentado, a
arca do Senhor estava ainda no seu tabernáculo antigo : mas
foy muyto q lèbrasse a este Rey erguer têplo à Cruz de Christo,
quando para si nam tinha fabricado casas. Oq parece claro, pois
\èdo tàtas Igrejas, tantos, & tam rendosos moesteiros feitos em
seu tempo, não vemos muytos paços q elle habitasse. Funda-
■vase mais em fazer aposentos para sua alma, q para seu corpo,
lembrandolhe dclle sòmête a sepultura, onde por derradeyro avia
de jazer , e não a vida teporal q senão pode perpetuar. Esta lê-
brança lhe fez dar cada anno ao Hospital de Hierusalem oitèta
mil dinheiros douro, sè o obrigar a mais, que a fazer delle me-
moria em suas orações; tSc porq foy tão devoto da Cruz em sua
\ida mereceo vela antes de sua morte em o Ceo tão resplande-
cente , quà gloriosa , & exalçada cò suas armas , & thesouros ,
estava ja em terra. Deixo os Moesteiros de Alcobaça, & de S.
Vicête de fora, que tambê fabricou, & dotou de grossas rendas 127 — 3,
como zeloso da gloria , & serviço de Deos , & da sua religião de-
votissimo. Esta devaçam o levou ao cabo de S. Vicente a bus-
car o corpo daquelle martyr victorioso que cò seu martyrio deu
nome àquelle cabo. Donde mandou trazer à See de Lisboa nam
sò seus ossos , mas tambê os pedaços do ataúde em que foram
metidos- Quis Deos mostrar neste Key , que os Reys seus suc-
cessores, inda que poderosos cò esforço de seus Vassalos, sem-
pre o seriam mais em Deos, que em si, & pela proteição da
assistência divina, que pelo apparato da potencia humana. E
pêra isto ordenou que alem de ser muyto esforçado cavalleyro o
auctor, & fundador destes Reynos, tevesse por ajudadores em
suas victorias a S. Bernardo, &. a S. Theotoaio, & ao glorioso
martyr S. Vicente.
37
iílX) DIALOGO QUAUTO
tíV%1^V%^VV%i'W^VVV^'VV%VVi'V^VV^V«/%V«^%«>VV^V'V>tVVV%%VV>V|'%VV>i'\'t'VVVVVV
CAPITULO XXII.
Qiic favorece Deos aos Rej/a zeladores de seu serviço , ò; amigou
da religião,
Anl. Callemos os feylos maravilliosos delRey Dom Sancho
cjiie mudou a cor às agoa» cleGuadalquibir com sangue de Mou-
ros, & os de Dom João o primeyro, cjue cõcjuistou a potenlissi^
ma Cidade de Seita, ribeyra do mar mediterrâneo; e os de Dom
Affonso IIII. no rio Salado contra Alboaces, posto que hum
letreiro da See de Évora diga que foy contra Abenamarim se-
nhor dalém do mar, & contra Elrey de Granada, era de mil,
trezentos, setenta, & oito annos. Deixemos outros muylos tryum-
1^7 — 1, phos, & conquistas de Portuguezes, de que as nossas Clironicas
estão cheas, inda que metidas em cofres de ferro por falta de
quem aprenda, & queira com letras elegantes illustrar nossa
gloria. Sempre os Lusitanos fizeram illustres feitos, por hum
singular despreso que tem da vida , & pelo vehemente desejo de
gloria, que nelles resplandece. Nunqua Romanos, nem barba^-
ros lhes levaram as victorias das mãos, senão muyto à caista de
seu sangue. E não he muyto, porq onde respira o amor de Deos
todas as cousas se melhorão & recobram. Perdeose Hespanha por
peccados dos seus naturaes, «k começ^ouse a recuperar depois que
os Reys poseram seus fundamentos na sanctidade da religião ,
considerando que Deos regia, & moderava as cousas humanas,
& por sua mercê, & benificencia se cuservão os estados, & im-
périos floretes; & pelo contrario pararão em desaventurados fins,
avendo negligecia no culto da sanctidade, E isto porq em tem-
pos antigos os que erão Reys juntamête eram sacerdotes. Pare-
cialhes pertencer ao mesmo ofíicio applacar a Deos pelos pecca-
dos dos homes, & ajuntar, & unir os homês c5 Deos pelo exer-
cicio de justas, & pias obras. Sabido he que Melchisedec , &
,Tob, «& outros sanctos varòes, alapar foram Reys, & sacerdotes.
Pois em Egypto, & outras regiões recebeo o costume que os Reys
fossem Prefeitos dos sacrifícios, & tivessem a dignidade do sumo
sacerdócio. Os Reys Gregos, que nenhum conhecimento tinhào
da ley divina, também procuravam os sacrifícios, & fazião o of-
ficio de sacerdotes, inquirindo contra os violadores da religiam ,
1S8„— 1, & castigado com severidade os que achavam Ímpios contra os
Deoses da pátria. E dos Princip(;s Romanos se sabe, que foram
tam zelosos de sua falsa religià, que i\o meio das batalhas, mais
cuidado tinitão dos sacrifícios, que delias, porq mais referião as
victorias ao socorro que tinhão por divino , q â industria huma-
DA GLORIA E TltlL.MrnO DOS LUSITANOS, *9l
na. Esfà posto cm memoria, q dizendo híi Romano a Numa
P(jni|)i]io : 05 inimigos, ò Kcy , aparclliào guerra còira nòs : el-
If borindose respondeo, & eufat^o sacrifício, significando que as
forças dos inimigos, mais se aviào de reprimir, 6c vèicr co íavor
de Deos, que cò poderosos cxí.tcíIos. Bè he (pie se faça grande
caso da valentia, fortaleza, apercebimentos &. provimentos com
q se alcanção as viclorias ; mas híia cousa «Si outra se ha de re-
putar por beneficio divino. Pois se isto entendera (letios ein a*
espessas trevas de sua ignorância^ ^ obrigaçam resta aos Princir
pes & Capitães Christaus, illuslrados cos rayos da divina luz, &
doutrinados com os sanctos documentos do l^vangellio, de cairem
na mer,ma cola? Este era o poiq , tendo os Franceses cercado o
Capitólio, sahio delle Caio Fábio côs sacrifícios nas màos, &
per meio das estancias dos inimigos, atravessou contra o monte
Quirinal, para sacrificar solenemente, & o porque Publio Decio
na batalha còtra os Latinos, & seu filho contra osGallos, &
JSamnites, religiosamente se sacrificarão, &. offereceram a mor-
te.' De nianeyra que estes Gentios , & outros que nam tem con-
to, nenliua cousa tevèram por mais honesta, & digna de irn-
jnorlal gloria, que a honra da religiam , & sanctidade das ceii-
monias; entendendo que toda a vida humana q se nam regista
CO Deos, nem g(íza de sua luz, se deve aver por noite horrenda, 128 — ?,
& escura; & que toda a prudência dos homês desem parada do
divino conselho, por temeridade, »Sc sandice se ha de contar.
Os Frincipes de Jsrael vendose afíligidos, & vexados dos Assi-
rios, mandavam pedir socorro aos Egypcios, & Aethiopes : & o
Propheta Isaias os avisava, que em balde ajuntavam exércitos
de Iicmès contra Deos irado, porque com piedade se aviam de
curar os males, & damnos, que a impiedade importara. Bò ar-
dil buscou Hieroboam para estabelecer seu rcyno ; mas nam lhe
aproveitaram os dous templos, nem os dous bezerros de ouro,
que fabricou a este fim ; antes porque usou dellcs sem Deos, tu-
do lhe deu através; em tormentos, cruzes, pestes, &. cruelissi-
mas calamidades, se converteo todo seu estado, & reyno. Os
Judeus cativos tm Babylonia, depois de reduzidos à sua liber-
dade, & restituídos à sua pátria, primeyro começaram edihear
casas para si, que Templo para Deos, dando por razam , que
inda nam era chegado o tempo dito antes pelo divino oráculo ,
para a rcstauraçam delle. Afllijíiaos também a falta dos manti-
mentos, & parecialhes que deviam guardar a edificaçam do tem-
plo para melhores annos; nam entendendo, que aquella pobre-
za, & esterilidade era pena ordenada por Deos, pelo desprezo
da religiam, como o Propheta Aggeo testificava com altos cla-
mores. E assi foy, que tanto que os filhos de Israel começaram
instaurar o Templo, a terra se fecundou, as arbores xeíloreceram,
."/ *
292 DIALOGO QUAKTO
& ouve grande copia de curo, & prata. Saibam os Piincipcs, q
nenhíia cousa os enriquece , e autoriza mais , q serê amigos de
l'^8— 3, Deos, bõs Christãos, & zeladores de sua honra. Porq jslo he o
que mais obriga a Deos, que os favoreça, &. aos súbditos a que
siguão seu império , & este per suas leys. Por este respeito Im-
gio Numa Pompilio colloquios cò a nimpha Aegeria, para q o
povo Romano cresse que de seu conselho fazia todas as cousas;
& Lycurgo fnigio ser Apollo autor das suas leys, para as fazer
religiosas , & sagradas : & Zeleuco que deu leys aos Locrenses ,
fingio, que da Deosa Minerva as recebera, & Homero disse,
que elRey Minos Legislador dos Cretenses, fora muytos annos
contínuos discípulo de Júpiter. E pois tanta auctoridade causa a
opinião da sãtidade fingida, que fará a das verdadeyras? A his-
toria do Testamento velho demostra , que quando os filhos de
Israel tinhâo algum Rey pio, o seu Reyno ílorecia com riquezas,
triumphos , & se amplificava com abundãcia de todas as cousas
boas : mas se vinha a poder de Rey impio , «Sc prevaricador , lo-
go padecia pestes, fomes, & oppressoês de gente inimiga. Em
quanto o Rey he amigo da justiça , & piedade , tem o Reyno a
Deos de sua parte , tudo lhe he favorável , & propicio , com as
màos abertas, &. largas o prove de todos os mantimentos, e cou-
sas necessárias. Testemunha disto he elRey Salamão, que no
tempo em que foy zeloso da honra de Deos, & perfeição da sua
casa, deixou atras de si todos os Monarchas da terra, em glo-
ria , & prosperidade : mas depois que meiguices de molheres , &
deleites da carne, o effeminàram, & tiraram tanto de seu sen-
tido, que levantou Templos, & altares sacrilegos aos Ídolos de
suas concubinas 5 o mesmo Deos, que lhe avia antes concedido
128 — 4. tanta paz , moveo contra elle as nações comarcas , &, tornou tam
mal fortunado seu império , q de doze Tribus , se lhe levantarão
as dez por sua morte, conforme a sentença, q Deos contra elle
tinha dado em sua vida. Os annaes dos Reys, & Príncipes Chris-
tãos sam contestes desta verdade. Tanto tempo durou a prospe-
ridade de seus estados, quãto sua Christandade. Disto deu Hes-
panha claríssimo testemunho. Porque quando foy entrada dos
Mouros, estava corrupta, effemínada com vícios, &. danada
com heresias : & depois de sua perdiçam , nunqua Hespanhoes
ouveram victoria dos Mouros, em que se nam declarasse, que
era mais por virtude divina , que por força de armas , & indus-
tria humana. Aquella praga, & assoute nunqua assaz lamenta-
do, abateo seus faustos, soberba, & devassidões, & os instruio
na fè, & piedade : com zelo inflamado do culto divino restaurou
o que se avia caído , &. ruinado por desprezo delle. Com Prín-
cipes Catholícos, & virtuosos, q maravilhas fizerao Porluguezes
em as batalhas contra infiéis, & quam illustres victorias ganha-
DA GLORIA E TRIUMPHO DOS LUSITANOS, 293
rao? Quantas vezes no n^ayor ardor da guerra lhes declarou Deos
do Ceo, seu presentissimo favor contra os inimigos?
Ucrc. Argumento he esse, para se pregar muylas vezes nas
cortes dos Principcs, &, aos seus exércitos. Bem se segue do que
tendes praticado que sem razam nos espantamos, quando vemos
que poucos Portuguezes vencem Mouros, Turcos, &. Índios in-
numeraveis, pois pelejando pola honra de Deos, o levam da
sua parte às batalhas.
Ant. E que muyto he ser isso assi, se dez mil Athenienses,
com seu Capitão Alilciades, desbaratarão em híia batalha tre- 129— -1.
zètos mil Persas, quàdo mais íloreciào, & senhoreavam muytas
nações? Da qual Iam gloriosa victoria deu Plato por causa nas
suas leys, que os Persas vinhão confiados cm sua multidão, &
desordenados cô a soberba; & os Athenienses moderados, &. re-
gidos per medo, vergonha, & religiam. Thucidides escreve, que
todas as vezes , que os Lacedemonios aviam de batalhar , pola
musica, & harmonia das trombetas, &, tambores, regulavão os
passos, a fim de temperarem o ardor de seus fortes ânimos, cò
aquelle género de melodia, & nào excederem o modo, nem per-
turbarem as ordenanças de suas hazes. Os Komanos nào vence-
rão tanto com fortaleza, quanto cõ moderação, justiça, & arte
militar. O que esta manifesto; porque depois q a perderão, &
preferirão ao bem ccJmum , &, ao cjue era conforme à justiça,
suas particulares pretesoès, &. interesses próprios, dahi a pouco
se destragou seu império,
Hcrc. Tendes concluído, que os feitos dos Portuguezes sempre
foram digno» do seu reyno, aprovado, & confirmado do Oco
er Christo filho de Deos vivo, & eu ouço dizer q os nossos na
ndia estam muy prósperos, & potentes; »Sc que sendo Catholi-
cos, toda via na vida e costumes differem pouco, ou nada do
Gentio da terra. Cousas, que eu desejo ouvir porque nào tive
cccasiam nem vèlura para as ver , desejandoo toda minha vida.
Ant. Quereisme meter em híi pego, a que se nam pode to-
mar fundo , nem sondar o lastro para verdes as falhas de meu
engenho. ÍSòmente vos resumirei, como em hum breve cupedio,
o que esta diffuso per lôgos volumes, da conquista das índias 129 — ^.
Orientaes pelos Portuguezes.
l
294 TJlALOGO (iUAIlTO
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CAPITULO XXIII.
Da conquista da índia peJjs Portugiiezes , íf do Ijfante Dom
Henrique descobridor das Canárias.
Ant. A Conquista dos mares, & lenas do Oritite , merece
maiores louvores q os que lhe poderá dar a lingua de Marco Tul-
lio Principe da eloquêcia Romana : mas por satisfazer a vossos
desejos , mostrarei na empresa desta historia minha pobreza de
palavras. Indignado o espantoso & immenso Oceano por muytos
mil annos , nam consentia q lhe descobrissem os homês suas car-
reiras , reclamando cô bravas tormètas , & pès de furiosos ventos ,
& dando a muytos nobres , & valentes , preciosas sepulturas , no
profudo de suas temerosas agoas. Mas em fim per vários casos j
com singular fortuna triíípharão delle os Portuguezes. Tètou
Trajano ir à índia pelo rio Tigre, mas reparou encontrado das
ondas soberbas do mar Indico, que avia de sofrer o império da
bê fortunada Lusitânia, & nam o da potentissima Roma. Foram
Portuguezes a Calicut pedir comercio , & contratação offrecendo
para isso ricas mercadorias : & porq lhes negaram o q o direito
cias gentes lhes cõcedia , per insíruça dos Mouros contratadores ,
armara suas mãos direitas, & invêciveis cõtra elles, 6c onde lhes
impedira a pregação do Evãgelho, a introduzirão apesar dos in-
fiéis. Triíipharã das agoas do mar Athlãtico, Aethiopico, Ará-
bico, Pérsico, Indico, Taprobanico , & Boreal : & das drogas,
pérolas, diamaês, elephantes, e rhinocerontes do Oriente, &,
129 — S. dos tygres, ou reimoês de Malaca. Revelaram aos sábios da ter-
ra muytos segredos da natureza, que jazião escondidos no pro-
fundo, & como diz o Provérbio, no poço de Demócrito, igno-
rados de excelletes Philosophos. Chegarão , despregando bãdey-
ras , tomando (Cidades , sobjeitando reynos , onde nunqua o vi-
ctorioso Alexandre, nê o afamado Hercules (cujas façanhas os
antigiios tanto admirarão ) poderão chegar. Acharam novas es-
trellas , navegaram mares, & climas incógnitos, descobrirão a
i^arros, ignorância dos Geographos antiguos, que o mundo tinha por
mestres de verdad<^s ocultas. Tomaram o direito a costas, dimi-
nuíram, & acrescentarão grãos, emendaram alturas, & sê mais
letras speculativas, que as que se praticão em o cõvès de hum
navio, gastaram o louvor a muytos, que em celebres Universi-
dades aviam gastado seu têpo. Reprovaram as tavoas de Ptolo-
meo , porq caso que fosse varão doctissimo , não sondou aquelles
mares, nê andou per aquellas regiões. Descobriram o sepulcro &
martyrio do Apostolo S. Thome, e ensinarão aos médicos da
DA GLOUIA E TRIUMPIIO DOS LUSITANOS. S9ó
uoása Europa, C\ cousa era aloé do Çacolora , quo clisla do os- /ízcvrc.
treito de Meca cento, & vinte oilo logoas; &. 4 ^'^ ^ âmbar, Fava de
Anacardo, Bèjuyn , o calamo aromático, a arvore (>anfora, o Malaca.
cardamomo, canafislula, canella, cravo de Maluccj , zin{>;ivre ,
linaloes, & a maça do Malayo, & o rcuharbo da China, »Sc o
sândalo vermelho, 6c branco, acjuem , & al(;m do íiaii^cs. (^u-
so affirmar cjue nam ha naçào na terra conhecida, a cj tanto
se deva como a Portuguiízes , & quem delles souber outras muy-
tas cousas que deyxo, confessará q meus louvores ticàrâo muyto
aquém, & q disse menos do que poderá dizer, Poderoso j)Oi 129 — 4.
certo he Deos para fazer grandezas, & nuiy mila;:rcso se mostra
nas cousas piqucnas, como disse Plinio, «S: em breve exalça os
baixos, & conlurl^a os conselhos dos grandes, quando lhes quer
mudar o estado, l^lstando o poder Lusitano quasi de?baratad(j
pela absencia de seu invencível Capitão Do Nuno Alvres Pe-
reyra , estava elle apartado dos seus posto em oraçam , pedindo
a Deos victoria , & sendo achado, & avisado do perigo em cjue
os seus estavào , rcquirindoUie que acodisse , para que cò sua
presença os esforçasse, respudeo com sancta confiança, que nam
era ainda tempo, como quem tinha em Deos a certeza & segu-
rança da desejada victoria, que logo com grande gloria alcan-
çou. As viclorias que os Porluguezes alcançarão dos Turcos na
Índia Oriental, se tomarmos o voto da razam humana, atri-
buirseão a desatino. Pois os nossos nunqua forào iguaes delles
em numero, forças, tSc aparato de guerra : como na forào os
bisonhos de Põpeio Magno, iguaes aos veteranos de Júlio Ce»ap
exercitados nas Gallias dez annos. Mas quis Deos q r(;si)landc-
cesse assi mais sua omnipotência, Cò moscas, & gafanliot<JS ex-
pugnou o Senhor a altiva dureza delUey Pharaò. Espatilase o
nuuulo, 6i tem enveja à nossa ferocidade, quando vè que pose-
m(js o Oriente d*; baixo de nossas leys, íc inijXTio; &. metemos
«■uas riquezas pehi barra d(^ d(;lici(íso Tejo, tSc descobrimos o nas-
cimento do Nilo (disputado cò contumaz, & sobcnba porfia do
ingenhos liumanos) i!!c as causas verdadtíyras, ))orc|ue o mar Ará-
bico he roxo, cousa de q os antiguos falaram varia, & falndo-
samente.
Jicrc, Cò muyto gosto ouço o c] dizeis pola parte, que me 130 — l,
cabe. Lembrame q me disse hu Porluguez terem experimentado
os nossos, q os diamàes se quebrào facilmente cò iiíi marlello,
& que era fabula dizer, q amolleciào cò sangue de bode; «S. que
lambem ( ra fingimento affirmar q a j)edra de cevar nào alraiiia
o ferro estando presente o diamao. E hum Medico Portuguez
que conversou a Jndia muytos annos, escreve, qu<; a pedra do
cevar, comida em certa catidade , preserva da velhice : à. que
híi Key de Ceilão mandava fazer j)anelas desta pedra , em que
lhe fazião de comer.
59G J)lALOGO QUARTO
^nt. Tudo isso he verisimil, mas tornemos à nossa historia >
q repitirey de mais longe, por vos fazer a vontade. Des que El-
Key Dõ João primeiro deste nome , sendo ja veliio cõquistou
Seyta (a mayor, & mais fortalecida Cidade de toda a Mauritâ-
nia, sita na praya do estreito de Gibraltar) teverào os nossos o-
casião pêra mais estender a potencia de suas armas, & mostrar
na grãtieza, & difficuldade de suas empresas, a fortaleza de seus
peytos animosos» E assi o Infante Dõ Henrique filho do dito
Rey Dõ João (cujo espiritu generoso, & esforçado resplandeceo
muyto na tomada de Seyta) determinou proseguir mais ao lõge
Tn Phe- esta alta pretensam. Dizia Plato, que depois que a alma despia
ciro. as perturbações das partes que carece de razão, & se cõformava
cò exemplar de todalas virtudes, produzia de sy mesma huas
penas cõ que se levantava ao alto , desejosa das cousas do Ceo.
Cap. 6. E por ventura tomou isto emprestado do Propheta Isaias quãdo
130 — 2. disse : Quem sam estes que voão como nu vês? Estas penas rebe-
tarão do coração magnânimo deste soberano Príncipe , pêra voar
per mares, &. terras desconhecidas, nam tanto a fim de esclare-
cer seu nome , & dilatar os términos de Portugal ; quàto pêra
ampliar a religião sanctissima , & manifestar o nome de Christo
a barbaras nações, distantíssimas da nossa Lusitânia. Cõ este
desenho & propósito fez armadas, que correram as prayas de
Africa, ôc os mares cõtra o mar Austral. Cõ esta industria aca-
bou que pela ousadia de valentíssimos homês , Portugal se apo-
derasse de boa parte da Ethiopia, de Affrica, & de muylas I-
Ihas do Oceano Athlantico, & Elhiopico. A elle se deve o des-
cobrimento das seis Ilhas fortunadas celebradas dos antigos escri-
tores, que sam as Canárias, como Plinio diz, referindo a Ju-
L/ih. 6. c. ba. E posto q não falte quem diga q se chamão assi, da abun-
33. dancia das Canas daçucre que ha neílas, todavia Plinio diz, q
híia delias se chamava Canária, da multidão de grades cães, q
Lib. 3. c. nella se criavão. O que disse Mela da fertilidade destas Ilhas
11. he fabula. Não falo em cousas que o vulgo sabe, nê na Ilha
da Madeyra Princesa das Ilhas do mar Ocidental , nem na
Terceira, & outras muytas. Pêra mais cómoda expedição des-
tes nogocios, residia o Infante em o Algarve na Villa de Sa-
gres , qiie dista híia legoa do cabo de São Vicente , dõde par-
tião as frotas a abrir caminho cõtra as regiões Orientaes. Tinha
Líb. 3. c. sabido aquillo q escreveo Pomponio Mela : Nos têpos de nossos
10. avos híí chamado Eudoxo fugindo de lathyco Rey de Alexan-
dria , & saindo pelo mar Roxo , ou Arábico , navegou tè Calis.
O mesmo disserão Plinio, Solino, Marciano, Artemidoro, &
130 — 3. Xenophonte Lãpsaceno, que a carreyra pêra a índia pelo O-
ceano, foy sabida, &. navegada antigamente des das colunas de
Hercules. E mais que em tempo de Caio César , se virão no
i)A CLCTIU T. TUIUMPTIO DOS LVSITANOS, 297
mar roxo pedaços de Nãos de Hcspanha , que fizerão naufrágio,
estando là o mesmo Caio César. Heródoto pòs em memoria que
os Gregos forão de pan-cer , que o mar Atíilanliro se continua-
Ta eò mar roxo, ou Arábico. Em outro lugar disse, q os Gre-
gos moradores no Pulo Euxino , tinliào i^^lo por cousa certa , &
experimêtada. Cota mais segundo antigr,s annaes de Egvpto, 4
>ieco seu Key mandou certos Phenices navegar do mar roxo, &
correrão tfK]o o mar meridional, & passado o ]'!streyto de Her-
cules, depois de dous annos tornarão a Egypto. Tàbem aftirmào
os Gregos, que no tepo de Xerxes, hii Sataspes dobrou o cabo
de boa Esperança : dude se tornou enfadado da longa navega-
ção, às colijnas de Hercules, pelas quaes avia saido ao mar
Athlantico, & assi veyo ter a Egyplo. Finalmente Strabo tes- Lib. I.
tifica per autoridade de Arislonico gramático do seu teni]:)0, q
Menelao navegou de Calis atè a Índia. Como quer que seja,
tenho por muito certo, q se algíi antigo começou, ou còsumou
esta monstruosa navegação, que nunca outra vez a tentou. Sòs
os Portuguczes incansáveis, esporeados de seus ousados, & fero-
zes ânimos, ou custrangidos da maldita fome do ouro Oriental,
facilitarão, & frequentarão a carreyra desta imensa peregrina-
ção. Nâo vio o Infante Dô Henrique, em sua vida, o effeylo
de seus ardentes desejos , anticipado da morte , no anno do nas-
cimèto de Christo de mil &. quatro centos, & sessenta, sendo
elle de sessenta, & sete annos. E inda que os nossos em sua ter- 130 — í.
Ta sejào como plantas novas, fora delia no proseguimento desta
còquista se trocarão em arvores Iam grossas, que nào ouve força
bastante a lhe dobrar as pontas.
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CAPITULO XXIIII.
Do proseguimento da conquida da índia pelos Rcys Dom João
o II. e Dom Manoel de gloriosa memoria.
j4nt. Depois fez muvto , sobre esta empresa, ElRcy Dõ João
Segundo, & insistio neste negocio despendendo magnificamète
seu Thesouro, cò tam grade sucesso, q penetrara os Portugue-
zes a mayor parte da Ethiopia, & chegara cò suas armadas aon-
de se nào esperava poderem chegar. Passaram o circulo equino-
ctial , & perderão de vista o nosso norte , & descobrirão outras
estrellas côtrarias a elle, pelas quais se cemeçarã a governar. E
^ fim , cò porfiado esforço de seus ânimos valerosos , indignãdo-
66 contra elles os mares altos & temerosos, dobraram aquelle
cabo, o mayor que jà nas terras se vio. Onde forào côbatidos
33
2yy IJI.VLOGO QUAllTO
c" tam cslrauluxs tompeslades, & lormetas, que perderam miiv-
tas vezes a esperança da vida : & por tato Uic chamarão caDO
das tormentas, & o Rey tendo este descobrimento por felice pro-
noslico da entrada da índia, pòs lhe nome, de Boa csperãça.
Por morte deste liey glorioso , ficarão estes cuydados , e prctê-
ções em herãça ao bem afortunado, & Christianissimo Rey Dom
Manoel. E caso que muytos lhe dissuadiào cõtinuar esta porfia,
l.]] — 1. não deixou de a proseguir, que as grandes esperanças soem andar
em côpanhia dos ânimos altos , & generosos. No coração deste
Rey ferveo sèpre tal zelo da honra de Christo, & amplificação
da sua fè, que não perdoando a muitos gastos de sua fazeda >
nê à morte de seus naturaes, fez adorar o precioso sangue de
Christo aonde dantes o dos brutos animaes se sacrificava : & isto
tam lõge de seus Reynos , & Senhorios, quã perto elle está do
paraiso, que por esta empresa mereceo. No seu tempo em Gui-
ne, & toda a Costa de Etyopia os negros, que então vivião nas
cavernas da terra ao modo de brutos animais, sem policia hu-
mana, sem ley , sem figura de Justiça, se direyto humano, nê
divino : deixadas as trevas em que vivião, levantarão Tèplos a
Christo , em que hè louvado seu nome , & altares , em que se
offerece cada dia seu corpo, & sangue sanctissimo. Então os
advenas de Tyro , & o povo dos Ethiopios começarão a conhecer
o verdadeyro Deos, Passo pelas victorias de Rumes, & pelos tri-
butos , que poderosos Reys do Oriente lhe começaram a pagar ,
de q a coroa destes Reynos recebe na pequenos proveytos ; &, por
outros muytos tryuphos, q em prosa, &, verso anda espalhados
pelo mtido, não sò pelos nossos históricos, & oradores, mas tam-
be pelos estrangeyros. Basta que suas forças , & armas bè afor-
tunadas, vencerão muytas vezes os Turcos tam desacostumados
a ser vencidos (como se vio no cerco de Diu, e no destroço de
suas gallòs no Èstreyto de Ormiis) & o-, levarão ate os fins do
Estreyto Arábico , onde tèm seus Navios varados sem ousa-
1:51—2, rem levantar as vellas , que elle cò suas grossas armadas tantas
vezes amaynou. Não se fale ja mais nas colíinas de Hercules
postas à nossa vista, cuydando elle q as punha no cabo, & fim
do miido. As quais Elííey D. Manoel riscou da memoria dos
homês cò outras mais altas , & bêaventuradas q arvorou nos
ultimes fins do Oriente, aos homês mais proveytosas (por serem
Jmagês daquella em q Christo nosso Redêptor pòs suas espadoas)
do que foram as de Hercules. Mais linha q dizer deste Rey do
gloriosa memoria, mas cò dito vos avey por satisfeito, se que-
reis q tenha fim esta historia a q me fizestes dar prTcipio. Toda
via darey remate ao q tenho dito cò a còparação que hua vez ly
era Santo Athanasio. Ha híi género de linho chamado Asbesti-p
no, q se costuma a fazer da pedra Amianto. E todas us cousas
j).v <ji/>iiiA r, TPvH MTuu nos lusitanos, 2*39
ouberlas, & vestidas deste linho, se se lançao no fogo, não pade-
ce detrimento alpju. Assi, diz Alhanasio, a Sacralissima Vir^^em
Alaria pari(j aquelle (.'ord(>vro iiinocòlissimo , de cujo vello p;lo-
rioso se nos fezeram roupas de inunortalidadc, vestidos das quais,
iiê chamas, nè cousa al;j;ua nos pode tomar o passo, q nào pas-
semos pêra a gloria, por meyo de todas as difficuldades, &. crue-
zas desta vida. Cubertos destas armas impenetráveis, paasarào
08 Portuguezes por fop:o, & agoa seguros, & aportarão e refrigé-
rio. Cujo invincivel ardor nas armas foi sempre tal q mais tra-
balho deráo aos Capitães em os reger, &, temperar, que em os
animar, óí incitar. E ridevos dos arnezes de Millào, &. das es-
padas AJouriscas, & Pérsicas tam custosas, &. das artelharias que
o Diabo inventou para destruição da geração liumana.
IJcrc. J*]scutay por me fazer mercê, & tirayme de hua igno- 131— «ò.
lancia em que vivo ha muytos tcpos. Quê foy o inventor pri-
meyro das Bomljardas , &. macliinas de metal, &. do artificio da
pólvora ?
yJiii. O uso da artelharia começou no anno do nascimento do
Senhor de mil & trezentos, & oytenta & dous. Não se sabe cer-
to quem foy o primeyro autor : & foylhe bom nã se saber seu
nome , por não ser execrado , maldito , &. anathematizado cada
iryomento. Cô esta abominável arte chegou ao ultimo grão a
crueldade humana, tSc se cscureceo a gloria davahmlia, «Sc o
valor, & primor da cavallaria. Não bastou ao home a ira de
Dcos que do (3eo troveja, & faz espantoso ruydo, mas cumu-
lando a crueldade com sua soberba troveja tambe da terra. E o
Rayo, que segado diz Virgilio, se nam pode imitar, o furor,
& rayva humana o imitou. E o que das nuvês naturalmente se
precij)ita, desda terra sobe ao àr com engenhos de madeyra, Sc
conquista as altas fortalezas. Algíis cuydão que a inventou em
Veneza Bertholdo Alemão. Outros dizè que inventou este arti-
ficio Archimedes no tempo q Aíarcello tinha cercada a Cara-
goça de Sicilia ; porem se este engenhoso velho Siracusano ( &
cuja sepultura se gloria Cicero aver descuberto estado por Pretor
cm Sicilia ) foy inventor , tem desculpa pois o fez pêra cõservar
a liberdade dos seus Cidadãos & pêra estrovar, ou dilatar a des-
truyção de sua pátria. Alas agora usase delle, ou pêra subjugar,
ou pêra destruyr os povos livres. Soyase noutro tempo usar tão
jxjucas vezes, q se admirava muito a gête , quãdo via o seu es-
trondo : & agora como os ânimos estão mais aparelhados pêra
aprèder o mal, &. se ajudar das suas forças; hè ja isto tão cò- 131 — i,
mu , como qualquer oiitro género de armas. As quais saò sinal
de animo buliçoso : mas a artelharia he sinal de animo covar-
de, q aos varu(!s pacificos nã he agradável, & aos esforçado»
guerreiros he avorrecivel. E isto podemos ter por certo q o pri-
38 «
300 DIALOGO íiV-UtiO
meiro q invelou esta arte diabólica , ou em covarde , ou traydor'
desejoso de danar, & temeroso dos inimigos, & por isso machi-
nou artificio q de lõge laçasse os golpes , aude os vetos os qui-
sesse levar; e o mesmo se pode entèder dos mosquetes, & de
outros tiros. O forte guerreyro deseja o encõtro de seu inimigo,
& o bòbardeyro, & espingardeiro foge dellc. Prodegos somos da
•vida, q tãto amamos, pois por tantas partes andamos buscado
a morte q tanto tememos. A mi sepre me pareceo be a opinião
dos q sentirão ser invêção do demónio pelo ódio entranhavel , <Sç
figadal q tê à natureza humana. E esta parece q foy a senteça
de Virgílio, quãdo disse q por esta causa era Salmoneo atorme-
tado nos infernos, por querer cõ instrumêtos de metal imitar os
relãpados, trovões, «Sc rayos do ceo, & fingir o tropel, & estré-
pito dos cavalos que vam correndo.
Vidi ò; crudeks dantS Salinonea pcenas ,
Dâ flamas Jovis , «3f sonitiis imitatur Olympi,
Demens , qui ràmhos , í( non imitabiíe fulmcn
Aere , ^ cornipedum, cwsus símularat equorum.
E por estes graves , & elegantes versos , pode parecer q ê têpos
antiquíssimos se mostrou esta arte ao míido, o qual assombrado
de seus terrores, na quis delia mais usar.
13!?— 1. Berc, Maravilhosas cujecturas sam essas, & voume cô ellas.
Mas tornemos aos nossos Portuguezcs , & a seus fe)'tos de imoi-*
tal memoria. E queira Deos alongar este dia , que he o melhor
de minha vida.
Ant. Muyto avia que dizer, mas he tèpo de abreviar. O
Vasco da Gama animosíssimo offereceo seu nobre peyto a infiní*
tos perigos do mar , & da terra , despedio de sy o amor da vida
por obedecer a seu Rey & acquirir coroas, & tryiiphos à sua pá-
tria; foy vêturoso, & ditoso è seus trabalhos, domador do So^
berbo Oceano , & concjuistador do Império Oriental. Prevaleceo
contra o promotorio incógnito de boa Esperança , & bombardeã'
do as ondas furiosas , que comiáo os seus , & rendendoas , como
se temeram o estrondo da artelharia, &, a força do seu braço; &
por fim tryumphando da fortuna, dos mares tempestuosos, fixou
as insígnias de nossa fè sobre as correntes dos Rios caudelosissi-r
mos, indo, «^ Ganges. Foy este feyto tam admirável, que pê-
ra se celebrar cò devido ornamento de louvores, hè necessária
ima trombeta celestial.
IJerc. Concluístes cò a conquista da índia mais cedo do que
eu quisera, mas nem com isso vos pareça que de todo me tendes
satisfeyto passando por muytas cousas dignas de eterna memoria,
que eu em estremo desejo saber, mormente o descobrimento do
jBrasil , cujos morí^dores dizeui ser os Antípodas verdadeyros,
PA C: QRIA E TRIUMPIIO 1)09 lASXXANOi, JOi
CAPITULO XXV.
J)o %elo da Fê de Christo , ôf cíí//o oTitiwo de ElRaj Dom João
Tcrceyro,
j4nt. Antes de tratar do que de ml quereis, não quero nesta 132—4,
occasião passar cô ingrato silêcio polas obras heróicas delRey Dô
João o III. merecedoras de eterna memoria. Foy tam zeloso es-
te sanctissimo Rey de augmentar pola terra dos Bárbaros o ncK
me de Nosso Senhor Jesu Chrislo antre clles , que cò mu>to a-
mor, & reays obras provocou ElRey de Congo, »5c a outros muy»
tos Keys, nas partes de Guine, & gentios do Brasil a crere eiu
Christo Nosso Kedeplor. Enviou a clles muitos Letrados , iSc
Pregadores de grade exemplo, q exalçarão o nome de Christo,
& o dilatarão por grande parte de Etyopia , &. da dita terra do
Brasil. A cuja instancia se criarão nas parles da Inaia, & nas
sobreditas muytos Bispos. E a cuja vista se levàtarão nellas ca-
sas de Religiosos , Collegios dos Sacerdotes exèplares da Cõpa-r
nhia, que com suas virtudes, & pregações ampliarão entre os
Gentios, & Mouros inimigos da Sancta fè Cathoíica o louvor de»
bendito nome de JESU , & a veneração devida a Maria sua
Sãctissima Madre, & aos Sanctos quanto a ellos foy possiveL
Foy este Rey conhecidamente tamanho protectoi- da Sancta
Igreja de Roma, & tam obedieqte a suas leys, &. acordos, q
mandou examinar por Letrados affamados as Ordenações d(ísle
Reyno & ver se em algíia parte eram contra a liberdade Eccle-
siastica. E de feyto foráo revistas com estudo tSc consideração por
muytos Doutores Theologos, Canonistas, e Legistas, &, sobro
ellas ouve muytas Sessões. E por se achar q as mais das ditas
Ordenações erào conformes a direyto, e aos sagrados Cânones : 132 — li,
c q no espiritual q tocava a boa Christandade , nam offcndiào
em cousa algíia a liberdade & imm unidade da Igreja, Ci. que as
Ordenações que falavào no t(;mporal erào antigua>, justas, &
necessárias, & por taes toleradas (l<js Padre.> Sanctos, «Sc <l((la^
radas, ordenadas &. assentadas por composição q ouve antiga-
mente entre a Cleresia óc seus vassalos : se assentou, ^ deter-
minou, que ficassem como estavào, emendadas & revogadas sch
mete alguas delias. O que tudo se fez com o n-sguardo &. aca--
tameto divido à sancta f è , & Igreja do Senhor. Ale di=to foy
este Rey muy devoto & em extremo curioso nas cousas d(j culto
divino, e ornou o serviço do altar mui co]>iosa, &. ricamente cò
muytas p(!ças de ouro, & de prata, ornamentos de rico brocado,
& lerpiosas sedus, IL foy iam atilado i5u curioso luis cercnivnius
:K)U • THALOCiO aCAHTO
dos oflVios divinos, que os Ecclesiasiicós as aprendião delle. E
se os ministros do altar faziào algum desassocesro , ou desconcer-
to" em seus ministérios, loj^o os mandava advirtir & emendar,
pêra q tudo se fezesse com perfeyçào & cô a reverencia, & de-
cência requerida. Cuydo que nào ouve Rey nem pessoa algua ,
q nesJe particular lhe fizesse avantagê. Em seu tempo íorão os
Prelados das Religiões tã advertidos, & avisados por elle, que
trataram todos de reformar nos costumes, & vidas, os Religiosos
& Religiosas da sua obediência , com grande ediricaçâo dos se-
culares , sem neijhii escândalo , & cõ se apagarem de todo al-
gíias parcialidades q entre elles avia. Polas quais obras tara ou-
blicas , & patentes que ate oje durão, se vè quam Catholico , &
132 — 4. amigo das Religiões, foy este Rey tam caritativo, q a todas as
casas de Religiosos, e Religiosas deu & constituyo esmolas à
custa de sua fazenda , q se nella pagavão , & pagào inda agora
em cada iiíi anno. Tinha tãbê deputada certa esmola em cada
qual dos anãos, à casa Sancta de Hierusalem , & a Nossa Se-
nhora de Guadalupe , & a outros Mosteyros , & casas de fora do
Reyno. E vendo que nelle avia muytas Orfàs, & molheres des-
amparadas, lhes ordenou casa em q se recolhera, & à custa de
suas rendas as proveo sempre de esmola bastante cõ que se man-
linhão. Outro tanto fez às molheres penitentes, que tiradas do
mudo se convertiào pêra Deos. Outrosi por aver muytos mini-
*nos orfaõs q carecião de emparo , & de insino , constituio , &
ordenou Collegios, & cõgregaçues delles, dandolhes Mestres q
os insinasscm a ler, & escrever, & fizesse saber a doutrina Chris-
tã & catalã em lugar de cantigas profanas; ordenandolhe tam-
be esmolas cÕpetcntes pêra sua mantenqa. Fez muytos gastos na
edificaçam de Mosteyros, principalmente no ("onvêto de Tomar,
onde se fizeram em seu tepo obras muyto magnificas, & da mes-
ma maneyra em Sancta Cruz de Coimbra , & no Mosteyro de
Belém. E pêra o edifício das Igrejas Cathedraes que fez acreceu-
iar, oc eregir de novo neste Reyno (quaes sam a de Leyria , a
de Miranda do Douro , & a de Portalegre ) aplicou das rendas
das terças, o que foy necessário pêra se poderem acabar, & se
celebrarem nellas os officios divinos, como agora se celebrâo.
Nas Ilhas dos Açores, & da Madeira, & no cabo Verde, São
Thome , Brasil , & na índia mandou edificar Igrejas Cathe-
133 — 1. draes, & ordenou aos Prelados, dignidades. Cónegos & mais
ministros, e officiais delias cõpetentes ordenados à custa de sua
fazeda, & rendas q nas ditas partes tinha, & proveo hõradamen-
te as ditas Ses de todos os ornamêtos, ôc cousas necessárias ao
culto Divino. No dito Brasil fez muitas capitanias, provendoas
de Capitães q as governasse, dõde veyo a se cultivar a terra de
maneira q saõ feitas nella grossas fazèdas, e muitos engenhos
DA GLORIA D TUItMPHO DOS LUSITA^08. 30«i.
daçiicrc. Eiíi seu lempo se tomou a cidacle de Dio aos Mouros,
is: muitos lugares nas partes da Índia se lhe sojoitaram, como
foy a fortaleza de Baeaim , & Califa tomada aos Turcos, còtra
os quaes ouve muitas tSc mui grades victorias por mar, &, por
terra. Deyxo outras muitas cousas de seu louvor q na te coto,
por escusar prolixidade, e porque na sua Chronica quando sair
a lume se poderão mais largamente relatar.
fícrc. Km estremo folgo de vos deterdes e louvores dcRey tão
pio, q foy pay de seus vassalos, affe) coado às leiras, inclinado
ao serviço de Deos , Mecenas pêra os bôs engenhos, zeloso du
Justiça, prudete no governo, charidoso, e ê sumo grão pacifi-
co. Ouvi dizer q quàdo os annos alràz passados se tirem do lugar
ê q dantes esta\a seu corpo pêra a sepultura onde agora jaz, so
achou algíia parte delle por gastar, & q delle saya lui odor tS.
cheiro tão suave que cõfortava todos os circunstates. Mas prose-
gui as cousas do Brasil, q começastes.
CAPITULO XXVI.
Do dcscóbrimcnlo do Brasil , ^ que cousa hc a que chamão corpo
Sancto.
Ant. Pelo descobrimeto do Brasil q fez o Cabral se pode en-
teder como Deos cò nossas navegações, proveo de remédio a 133 — ?..
muitas naçòes de Gètios, desej)aradas do presidio da S. Reli-
gião, & carecidas de humanidade. Quanta foi a benignidade do
clemètissimo Sõr em hnar PorUiguezes a esta paraje, se mostra
pela barbaria , e cegueira í; q jazia , & pela luz do Evàgclho q
desfeitas as trevas de seus erros receberãíí : Beneficio divino, cu-
ja memoria ha muitos annos q cõ animo grato estào celebrado.
Esta terra he côjunta co a do Penl muito fértil. Tào sadia que
quasi todos seus vizinhos morre de \elhice, por a natureza os
(leseparar, & nà por algíia infirmidade lho abreviar a vida.
Séneca Trágico j)arece que sonhou cò descobrimeto desta nova Trcf^. 7.
terra ocidètal. 3f<dca.
Venient annu secida seris cJioru. C,
Qiábus Occanus vincula rcrum infne,
Laxct , ^' ingens paíeal íeíhis ,
Tjiphisquc novos dctcgat orbes ^
Ncc út tcrris ultima Tlmk.
Vira, diz, tepo ainda q tarde, e q o Oceano se deixará nave-
gar, e se descobrirão largas terras, e novos míidos pela arte de
iiavegação (cujo invètor foy Typhis) (Sc eutâo iião será Thulc
804 DIALOGO QUARTO
(Ilha do Oceano) a ultima das terras alem da qual esta o Bra-
sil. Cujos moradores parecem descender dos Carthaginenses an-
tiguos que esgarraram naquellas partes com algiia tempestade,
porque nam tem uso de letras, como nê os Carthaginenses ti-
nhão. Estes sam os Antípodes verdadeiros ou Antichtones, isto
he que ostam defròte de nòs por baixo da torra q habitamos, sem
Lib.í.c.l. prejuizo da opinião dos antigos que Mela seguio, & Marco Tú-
lio , & outros clássicos autores. Os quaes repartindo esta nossa
parte do descuberto desde o Oriête pêra o occidête ê cinco zo-
133 — 3. nas, ou cingulos, dize q as ultimas por frias nam se pode habi-
tar : nem a do meyo por muvto quente. E tiveram pêra si que
entre nòs que habitamos a parte Boreal , e os moradores natu-
raes duqllas Regiões que habitao a Austral, entrecorria o Ocea-
no nuca navegado de parte a parte. Esta parece que foy a cau-
Dc cw. li. Sã porq Lactancio & S. Agostinho negaram aver Antípodes,
1(). c. i). porq presupondo que da nossa Região Boreal nam avia passajem
pêra a Austral, era lhe necessário dizer que os Austrais nam e-
ram filhos de Adão. Tãto pode às vezes a autoridade de autores
de grande conta , & em tantas angustias mete híi intendimen-
to, & tãta moléstia lhe faz, cjue o obriga a côceder desatinos.
Mas de ser a ec{uinoctial habitável & a Austral descuberta , &
conquistada , consta per navegações de nossa memoria & da an-
tiga , como fica dito.
Hcrc. Antes de passardes ao mais peçovos, Antiocho, façais
hum passo atras , & me digais primeyro , se vira os Portuguezes
nesses mares algiías vezes o corpo Santo, &. q cousa he. Porque
em Africa nas noytes têpestuosas o vi por vezes na ponta da lan-
ça , quando nos achávamos em o capo, & dizê q nos mastros
das Nãos aparece & que se t^m por bom sinal.
ylnt. Os Castelhanos lhe chamão Sant' Elmo. Mas eu não
sou Carneades que me obrigue a respõder a quanto me pergii-
hth. 2. c. tardes. Plínio se enleou nessa questão, & remeteoa aos segredos
27. da natureza, dizêdo q na Magestade delia estava a causa escõ-
dida , q se apareciam duas estrellas , eram prenucias de prospe-
ra navegaçam , & q faziam fugir a cruel & infelice estrella cha-
mada Helena. A's duas pòs a Gêtilidade nome Castor, & Pollux
133—4. & no mar as invocava por Deoses. Tambè se virão sobre as ca-
beças de algíis homês depois de posto o Sol , q os Gêtios julga-
rão por grande pronostico, como foi na cabeça de Ascanio, &
de Sérvio TuUio, sexto Rey dos Romanos. Mas na verdade he
hua exhalação & sutíl fumo q say da terra, & peleja co àr frio
de noite , & apertado delle se encobre & espessa na primeira
região do ar perto da terra; e este fogo não queima como a luz
XJhi supra, do Sol q dâ claridade se queimar. E tudo o mais q Plínio acerca
disto escreveo, he fabuloso, & não ha q duvidar, senã q o vè os
navegantes muitas vezes em viagê de longo tempo.
DA GLORIA E TKIUMPHO DOS LUSITANOS. 30Ò
IJcrc. Dissestes q no Brasil a velhice acaba os homes , & nâ
in ti rm idades, e se assi hc estou quasi movido pêra ir morar a
essa terra Santa. Porcj inda q nâ ei medo da morto, temo muy-
to o caminho q vay a ella cheo de ays, dores, e tormêtos. E
mais dizè q ha nessa terra híia arvore q cortandolhe as folhas es-
tila híí género de Bálsamo precioso, q hà arvores de q se faz
híia tinta vermelha, cu q se tiní^ê as lãs. Kstas saõ muitas &
rauy altas, &, produzè a herva Santa cô q se cura officasmète a Gnngrcn-
asma , fistula , cãgro , herpes , e outros males que a arte dos na herpes
médicos na pode, nê sabe remediar. Uca.
Ânt. Tudo o q dizeis he verdade, cô tanto que não tenhais
pêra vòs q o bálsamo d(j Brasil he da mesma espécie do de Ju-
dca, e de Egypto legoa & mea de Mephis, cuja arvore he mais
semelhàte à vide q a murta segíido Plínio. Deste bálsamo oci-
dêtal disputou Amato Lusitano nas anotações sobre Dioscorides,
e nã mal. Herc. Passai a diãte, Antiocho, assi Deos vos va-
lha , que nuca me enfadarei de vos ouvir em matéria tão des-
enfastiada.
.int. Que côverteo à religião Christã, a Etyopia de Côgo, 134— !•
se nam Portugal? Que primeiro dos estrangeiros atravessou as
agoas do seu Zaire fundo , & rebatado , derivadas das fontes do
!Nilo? Que ensinou ao seu Key D. Afonso fazer públicos ser-
mões da justiça & piedade Christã, da severidade do extremo
juyzo, dos prémios da vida scpitcrna, da doutrina de Christo, &
dos exèplos de homês santíssimos? E não cuide ninguê que falta
prudência às gentes q os Portuguezes illustrarão cò sua prèga-
çam , porq tambê sam bcllicosos, & todos os homcs inclinados
às armas de seu natural , saô outro si prudetes &. amadores da
sapiência, como forão Romanos, & Macedonios, & por isso e-
Tã<j as fortalezas cõsagradas à Deosa Palias, porque com scien-
cia , & valentia se sustentão.
fícrc. Bê me parece o q dizeis , mas essa côquista foy ocasião
de híia grade desavetura, qual hò a multidão imensa de escra-
vos , q se trouxerão a este Kcyno por falta de cuselho , & còsi-
deração, porq nã lendo clle mãtimentos bastantes pêra os natu-
raes, admitio estrangeiros, cò que se deu ocasião a se nam po-
derei agora sostetar liíis, & outros, avedo no Reyno gente bas-
tante pêra o trabalho delle. Quanto mais q por não avcr que
se sirva de escravos, vive toda sua vida ociosos, & se perde híis
vivedo mal, e outros medicando, porq nam tem outra vida.
Antigamète antes q esta canalha viesse ao Reyno , avíido tanta
gente Portugueza como agora, nenhua medigava, antes seguia
j>ela mayor parte a virtude , porq cò isso achava gazalhado. Os
pobres viviào cõ os ricos, & os ricos os sustentavão, &. todos ti-
nhão remédio pêra a vida. Tudo isto se perdeo cO esta gele vir li54 — t.
39
;Í06 r>UI,OGO QV.iHTO.
ao Reyno. E o que peor, he t{ muita dellíi se trás cativa frau-
dulentamcte. E assi os que a trazè não estão seíruros em suas
cõsciencias, inda q tome por desculpa trazerênos pêra se fazerS
Christãos , porq se nam pode dar Cluistandade a troco de servi-
dam : antes será grave injuria pêra nossa sancta fè. A Christan-»
dade ha se de ensinar aos livres , & cativos em guerra justa , &
nam se hà de dar por interesse, & satisfaçam de engano. Pelo q
parece nam se aver de consentir que mais gente desta venha ao
ííeyno. E se movidos de charidade Christã pretende os Reys fa-
zelos Christãos, nas suas terras os mandem ensinar, là lhe man-
dem pregar, là os mande baptizar, sem pertençao algíia de in-
teresse próprio, & trato pouco licito, & occasionado pêra perdi-
ção das almas de seus vassalos.
yínt. Deixemos o q sò Deos pode remediar, & cheguemos ao
cabo do que hiamos tratando,
CAPITULO XXVII.
Que as victorlas dos Portugueses em as índias Oricntaes se hão
de atrihuyr a Deos : E porque nas guerras dos Christãos ha
infelices sucessos.
Ant. Cousa certa he que nam fez Deos menos mimos, & fa-
vores ao povo Christão , que ao Hebreo , ê cujo lugar o susti-
tuyo. E inda q disto dê testimunho as victorias de Theodosio,
Côstãtino, Cario Magno, Cario Quinto Máximo (q assi o no-
meou o Papa Paulo III. ) Pay delRey Dom Philippe o primey-
ro do nome neste Reyno, Pay delRey Nosso Senhor, estamos os
1ÍÍ4 — 3. Portuguezes tam ricos de exêplos próprios, q bê podemos escu-
sar os alheos. Em nossas guerras nuca faltarão mostras de Deos
as favorecer como suas : & porq nas partes remotissimas do O-
riente , covinha mais enxergarse este favor , là ouve por bem de
mostrar muytas vezes quão propicio era a nossas armas, & quà-
to tomava à sua cota a honra delias. Sabemos que em algiias
batalhas das r|ue na índia aos nossos se derão, depois de muytos
encõlros , âc recontros , se vio receberê os Portuguezes os pelou-
ros de ferro no meyo de seus corpos, sem o golpe lhes imprimir
mais q hua pequena nódoa. E o que he mais de admirar, q
voltando delles quebravão os mesmos pelouros grandes escudos ,
& quãto achavão ante si despedaçavão. Tais sinais, Sn visões do
Ceo se virão em guerras travadas cos nossos, q fezerào cufessar
aos Bárbaros q pellejava Deos por nos cõtra elles ; como antiga-
mête confessarão os Egypcios que Deos era da parte dos Hebreos.
DA CLOUIA E TBIlMrUO DOS LISITANOS. 307
E osta cõfissão lhes servia de desculpa do dano q das armas dos
nossos cm mui desigual numero recebiào. Os q isto não crè rou-
bào sua gloria a Christo , & ignorào quàtas forças lè a verdadei-
ra religião daqlles, q fundão, &. estcao suas esperanças no em-
j)aro , & presidio do l)cos , c por sua hora tomào armas pias , e
justas. Porq Uavid j)òs e Dens sua còliança , por isso veceo cõ
híía funda o grande Cliganto Golias, q e suas forç.is \inlia mui
cofiado. Gedè»"> cò panelas de harro, dcsliaralou os JMadianitas.
Quãtomais cada híi medindosc por seu espirilu, cuida q te bastàte
animo pêra vecer cjuíiesquer inimigos, tanto mais lhe conve poer
a côfiança no Sõr, & encomendarlhe a sua causa. l:!>le foy o
norte q guiou o giacdc Duarte Pacheco triaphador do Çamorim l'M— 1.
de Calicut, Soldado & Capitão valeroso, q iãtas vezes pela
gloria de Christo , e dinidade dellícy D. Alor.oel offerecco a
extremos perigos seu peito indómito, & incansável, a cujas vi-
ctorias nà se pode cuparar as de qualqr outro Capitã porq forão
miraculosas, & sobrenaturaes. Tal foy tãbe a cuquista de Ormiis
antiga cidade de ('arniania ode se pelejou de ambas as partes cõ
tão grande animo que a terra se parecia abrir, & o Ceo escure-
cer , & as molheres pejiídas niovião cò estrépito horrêdo da arte-
Iharia. Que diremos do famoso triíipho q alcãçou o clarissimo
Almeida do Cãpson Emperador do Êgypto, tào conhecido pelo
míído? Quê duvida a tomada da poderosa cidade de Goa chea
de armas, & valetes homes, e. espasso de seis horas pelo valero-
so Albuquerque, ser obra da polècia, & mão dereita de Deos?
E q estas victorias se devão atribuyr ao favor divino, colligese
dos adversos sucessos q sobrevierão aos nossos quãdo nellcs avia
insolêcia, & t(^meridade. Grande frota ordenou o mesmo Albu-
querque, na Índia citrrior, de vinte nãos pêra penetrar o inti-
mo do mar roxo, e queimar ns armadas do Soldão c Suez (cha-
mada de Josefo cidade dos Herues) mas nã pode cos tcporais
chegar à cidade de Gidda sita na praya de Arábia, ne fez cõ
cila cousa memorável. De maneira q daqlla armada feita cõ
tanto trabalho, e industria, de q tanto se esperava, não se ti-
rou outro proveyto, senam aprêderem os Portuguezes a teperar
os ânimos altivos coa prospera fortuna da guerra, & reduzillos a
q conhecesse q nã tedo cota cõ a võtade de Deos podia ser ven-
cidos, & q as victorias passadas crão benefícios divinos. Outras 135 — \
muitas memorias hà de victorias milagrosas q os Portuguezes
ouverão por especial favor de Deos, q seria cousa intmita refe-
rir. }\ quão mal foi a Solymão eunucho na índia co a sua gros-
sa armada lavrada no (^ayro da madeira q se carretou de Albâ-
nia, & o dano q recebeo dos nossos, a todos he notório pelas
historias nossas & peregrinas. E porq Cjueria dar o remate q con-
ve a este argumeto, ouso affirmar q nos Revs iSt llaynhas du
3i) *
308 I>IA10G0 CiUARTO
/«ai, 49, Portugal se c5prío por excellècía o H^ Isaiaa profetizou da Ig»"e)a
de Christo. Erunt Reges nutritu há, òç Regince nutrices tiice.
S, Cyrillo disse significar aqui este divino Profeta, q os Reys &
as Raynhas avião de ser ayos, e amas dos fdhos da igreja. Sêpre
foy próprio , & como natural dos Principes , & Princesas cathoi
liças ajudar & promover a piedade Christâ, & entêder nas utili-
dades & acrecêtamentos da Igreja , favorecer pessoas religiosas ,
e estèder coa pregação do Evãgelho, as badeiras da fè. E e
quanto os Reys nisso entederão , tiverão seus negócios & prcte-
çòes prósperos sucessos , & c5 pouca despeza tryupharão dos ini-
migos do nome Christão. Quando nos soldados, & Capitães re-
luzia temor de Deos & zelo da religião , então se viào as claras
victorias arvoradas cu alas brãcas no alto de seus pêdões. Mas
agora, Herculano, nesta nossa idade entrão os Chrístãos na ba-
talha coa Cruz nos peytos, e co as almas cativas de suas depra-
vadas afeições, & acõpanhados de màs molheres, e fumado pela
boca blasphemias. Pêra Scipião Aemiliano conquisj;ar Numãcia,
repurgou primeiro o exercito de duas mil molheres mudanas : &
líJ5-^í2. sendo nòs Christãos baptizados no sangue de Jesu Christo nosso
Sãctissimo Redêptor, na acudimos por sua hora. Disciplina mi-
litar nã se guarda, nõ ordê de Justiça : & o q mayor ladrão he
da fazêda de pobres innocètes, se te por mais escoimado cava-
leyro. O q tê importado à Christãdade mui grades desaveturas,
q da mão do altíssimo lhe sobrevierão. Ballã certo Propheta, &
mao cõselheiro ensinou a ElRey Balac, q a força do povo do
Deos côsistia em estare na sua graça , & q se os queria vècer
como fracos nã usasse de maldições & encãtametos, mas q os
incitasse a pecar , cõ ocasião de molheres deshonestas , porq pec-
cãdo, perdida a graça do seu Deos q os fazia invèciveis, poderiào
ser vecidos. Achior cõselheyro de Holofernes lhe descobri© tam-
bém esta verdade.
VV%VVVVV%VVkVVVVVVVV«VVVVVVV%%iVVVVV\iV\'VVVVV\'Vi'VVVVVVVVVV*VVVVV«VVVVVV
CAPITULO XXVIIL
Da mesma matéria.
Que sucesso podemos logo esperar de nossas batalhas indo a
ellas carregados de pecados, e abominações, cõ soldados amã-
cebados , blasfemos , homicidas , perdoados pouco antes de gra-
víssimos delictos , & cõ as almas vedidas ao demónio ? Plato diz
q como Eryphile por híi colar douro trayo seu marido Amphia-
rào , assi o mao por seus desordenados apetites , quantas vezes
pecça , rede sua alma & a vede a híi Sõr torpissimo , &, nefan-
DA GLORIA E TUITJMPIIO DOS I.LSITANOi. 309
dissímo, e he mais sandeu, & peco q aqlle q por preço vil en-
trega sua querida filha cõ cadeas ao pescoço a cruéis inimigos.
No tèpo de S. Bernardo se juntou a Christàdade pêra a cúquis-
la da terra Sancta, cõ tam infelice sucesso q poucos escapará de
mortos ou captivos. Era a cpresa Sancta , pregada por Sào Ber-
nardo, autorizada pelo Papa, co insígnia da cruzada, & mui- líí.j— :í.
tas indulgências : mas ante a divina Justiça, mòtou mais a cul-
pa dos côciuistadorcs, que a causa da sancta còquista, comoDeos
revelou a Pedro Hermitão Sato. Edado q nào offendamos aDeos
por obras, basta, & sobeja offendelo por j^ensameutos delibera-
dos, & cõsentidos, pêra nâo sayrmos cõ nossas prelençôes. Aris- De genera^
loteies deixou escrito, que as ovas dos peixes, ík. Serpentes da- tumc nnl'
goa, se a&peisam da semente do maclio, saò subventaneas. Quer inaliã lih.
dizer, que se depois que saem da fêmea as uam asperge, &, bor- 3.
rifa o macho cô sua semenle, sam como ovos nik> galados : assi
as suasòes do Demónio, nam sendo aspersas cò a semente de
nosso consentimento, sam ovas que nâo parem animal vivo, nem
nos podem perjudicar : mas com ellc rebetáo em basiliscos. Ho-
ra ivos à guerra de Africa, ou das índias co peyto infunado de
opiniões altivas,, & cheo de respeytos illicitos , & interesses indi-
vidos, & entregue a perversos intentos sem ter contas pêra a
morte, a que vos his offrecer, lendo tãtas caveyras, & mortes '
pêra contas q por devação, ou abonaçào levais ao pescoço. Híi
dos principaes meyos de que Judas usou exhortando os seus Sol-£.i.2. 3Ia-
dados ao tempo de dar a batalha foy, lembrarlbes a observância chah. c. tí/-
da ley de Deos. No que o Espirito Sancto quis declarar aos vin- tim.
douros, quanto mais importa pêra alcançar grandes victorias a
limpeza da vida & exercício da oração, a esmola, & mais vir-
tudes que a destreza das armas , o aparato da guerra , & os ex-
ercícios, & provimentos delia. He verdade q se não escusam es-
tas cousas, antes saõ muy necessárias, & que seria muy teme-
rário, e tètaria a Deos o q passasse por estes meyos exteriores q 135—4.
elle deixou no discurso da prudccia humana , pore quis q se en-
tèdesse quãto mais erão pêra temer os peccados, q os inimigos :
& quanto mais obstava ao bõ sucesso das êpresas da guerra a fal-
ta de Deos , & seu favor , q a falta dos mantimêtos , & dinhei-
ro. E fmalmête nos quis dar a entêdor , que era raayor falta
faltamos Deos, q faltamos todo o demais. E porq sentíssemos
quãto importava crerse isto dos q segue a guerra , quis q por
experiècia de muitos exêplos na escriptura sagrada nos fosse in-
timado. Tendo Sansam inteira a guadellia ( sinal da graça , &,
espiritu de Deos que o fazia esforçado) cô a queixada de híi ju-
mêto desbaratava milhares de Filisteus; mas tàto q Dalila sua
amiga (por quê foi figurada a culpa) lha cortou , logo ficou fra-
co, cego, & como jumento moeo o trigo aos Eilistcus. O cxtcci-
310 DIALOGO QUARTO
to de Josuíj em qiiato careceo de culpa, bastava o sõ de suas
trõbetas pêra derribar os muros de Hierico, & tomar a cidade :
porem depois q híi dos seus Soldados por nome Acha , peccou ,
aplicado a seu uso a lamina de ouro, e ferragoulo de grã, q Deos
tinha aplicado a seu serviço, logo ê outro côbate , & cerco de
liíia pequena povoaçã , três mil dos seus cò morte de algas forão
vecidos, Espãtase Josué do successo côtrario às promessas de
]3('05, & dà se lhe em reposta q a culpa de hu debilitou o es-
forço de muitos. Soubese depois quem era o culpado, & a eme-
da da culpa bastou pêra se alcançar logo a segunda victoria.
Tanto quis Deos mostrar que a culpa impedia o bom successo do
esforço, que pêra que fosse visto o rigor com que castiga pecca-
l:iCi — l.dos, passou por sua reputação, & honra, & teve por menor
quebra de sua autlioridade parecer justo, & fraco para poder ven-
cer, que poderoso em a victoria, & fraco em a justiça, como
])onderou hum nosso Bispo. Trouxerão a arca do Testamento os
iilhos de Hcli ao arrayal , confiados que a presença delia lhes
daria victoria : permite Deos, que com morte dos filhos de He-
li, q a mereciào por suas culpas, fossem vecidos os Hebreos, &
a arca do Testamento ficasse cativa em poder dos Philisteus. E
pelas maravilhas , que a arca etre elles obrou , quis Deos mos-
trar, que deyxar de dar victoria aos Hebreos nam foy falta de
seu poder mas obrigação de sua justiça. Esta fez ficarem venci-
dos por seus peccados , os que pela presença da arca esperavam
ser vencedores. Passo pelo que aconteceo aos filhos de Israel na
primeyra, & segunda batalha contra oTribu de Benjamin, sen-
do a causa da guerra justa, & por Deos approvada. A adoraçam
do Bezerro desarmou , & deixou nii o povo de Deos entre seus
inimigos, como ponderou o Spiritu Sancto; para nos dar a en-
teder, que a graça de Deos sam armas dos seus, & que sem ella
iicâo niis , fracos , & desarmados , por mais armas que sobre si
tenham. A conclusão seja, que reformem os Capitães, & solda-
dos Christãos suas vidas, & costumes, frequentem os sacramen-
tos, cõtinuè còs exercícios da milícia Christaã, que professarão,
se ciuerem ser vêcedores em as suas conquistas. Por experiência
se vè , & nas letras sagradas nos esta revelado , q monta mais
ante Deos a limpeza da vida, & emèda de peccados públicos, com
castigo exemplar, & a dos secretos, com devotas confissões, &
i:\G — 2. saudáveis amoestaçÕes , que a valentia dos soldados , e a justiça
de suas empresas. A guarda dos mandamentos divinos dà victo-
ria aos exércitos, & alcança de Deos felices successos, faz ter-
ror, & dano aos inimigos, 6c enche de desconfiãça seus peitos.
Se Deos não he de nos offendido, ou depois de peccarmos he
per penitencia aplacado, elle nos faz invencíveis : & pelo con-
trario se somos pertinases em os peccados, elle mesmo nos entre-
fi-a cm. raaos de nossos inimigos.
DA GLORIA E TRICMPIIO DOS l.t SITA SOS. 311
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C A P l T U L o XM.\.
Ein que se rcmatâo of> louvores dos Porhi^uc-xf^ ^ tS" se trata do
sepxdchro y ^ Cidade de Savi Tliomr.
Ant. Nam me quero estender em outras muytas cousas dignas
de quem os Portuguezes sempre foram, cjue estam postas e me-
moria per homês de ingenho, & crudiçam. E se me nam en-
gano, o q Plato escreveo singularmente se cõprio cm Portugal.
Sam suas estas palavras. Deos fazedor dos homes misturou no
peyto dos Príncipes que avião de governar as líí^publicas ouro
celestial , que sam virtudes divinas , porque fossem de altos , &
divinos pensamentos. E aos que aviam de ajudar a estes no go-
verno publico inda q se lhe nam iguallassem na dignidadt? , or-
noulhe os corações de prata do Ceo, que sam os esmaltes, & a-
tavios de exccllentes inclinaqòes , & costumes. Mas nos peitos
dos lavradores, & outros officiaes mecânicos que servem a repu-
blica , enxerio ferro , & cobre. Acrecentou mais Plato que a-
quelles em cujos jjcitos Deos encerrara ouro, & prata, eram o- 136 — 'i.
brigados a desprezar os metais da terra, & nam ajuntar thesou-
ros, nem seguir as riquezas deste mundo. Per esta methaphora
figurou este summo phylosopho a vida do. religioso , «Sc perfeito
Cliristão; & segundo parece tomou tudo do Propheta ísaias, /sai. (JO.
onde prophetizou q na vinda de Christo, os ornamentos da Igre-
ja serião estes. Por cobre teriam ouro, quer dizer, por bons ho-
mês, & industriosos, lhe daria Christo Doutores, pregadores,
& religiosos inflammados na rharidade , resplandeseêtes como ou-
ro, & prata; por ferro, «Si. bronze peitos fortes, & valentes sol-
dados. Tudo isto claramente se vio nos nos-^os, engenho, prudên-
cia, artes, letras, religião, doutrina, piedade, misericórdia &
o duro, &. agudo ferro nas mãos. Alelèram na Mauritânia, E-
thiopia , Pérsia, Arábia, nos rios Indo, &. (langes, na terra
de Ophir, na áurea Chersoneso, na Taprobana, em Ceilão,
em Malaca, &. na regiào boreal dos Chinas, os ferros de suas
lanças, espadas, & ricos arnezes, & o bronze de sua artelharia,
& com isto a doutrina do Evangelho do Filho de Deos , & cle-
mência , & piedade Christaâ. E os inimigos que domarão com
violência tratarão, & consíírvarão com humanidade. De sorte
que o que disse hu poeta pelos Romanos, podemos com razão Pro;7( //. .i .
dizer pelos Portuguezes. elcgkarú.
Nã quantum ferro , taniú puí ale poleies
Stamus , victrlces temperai tila inanvs.
Isto he, que quanto cò as armas, tunlo prevalecerão coro
yií DIALOGO QUAUTO
piedade, que temperou suas mãos vencedoras. Seguese do que
tenho dito, que se Plato à republica q instituio, chamou Cida-
de de Deos vivo, como Isaias chamou â Igreja de Deos (porque
136— -4. as Cidades, Respublicas, Reynos, & Monarchias daquclle Se-
nhor, a qvie servem, podem, &. devem tomar o nome) a nossa
Lusitânia tem juro, & razão summa pêra se chamar Republica,
& estado de Deos vivo , & verdadeyro , por cuja honra , & glf>
ria tantas vezes arremeçou a vida no meio das agoas & fogos (e-
lementos bárbaros) «Sc de exércitos potentissimos de Mouros, Tur-
cos , & Gentios innumeravcis. Nem temais, Herculano, q se
transformem os Portugueses animosos em mercadores cobiçosos ,
&, assi percão o Império da índia, que conquistarão como esfor-
çados cavaleyros, porque os nam leva a isso seu alto natural,
& grandioso espirito. Esse mal he de certo gentio, & de homes
que não levantão o peito da terra ; mas sam como serpentes ,
que cobrem de terra os seus ovos, segundo relatão Plinio, &.
Lib. IS. c. Aristóteles. E se tè agora o Império dos Portuguezes no Orien-
(r2 . De lãs- ie ^ tam apartado da Lusitânia, com três mil soldados se co n-
íor.rtnima- servou, vogando muytas vezes a ambição (peste q com sua mor-
liú lih, b. tal contagia subverteo ílorentissimos impérios ê sua própria pa-
c. 2ô. tria, quanto mais o q está fundado em ultimas regiões, tSc terras
de bárbaros , &. infiéis ) que podemos , & devemos esperar daqui
em diante socedêdo na Lusitânia per juro hereditário como neto
mais velho, & legitimo herdcyro do felicissimo Rey Dom Ma-
noel , o potentissimo Rey Catholico Dom Philij:>pe senhor nosso ,
summo zelador da gloria de JESU Christo, devotissimo da ver-
dadeyra religião, que sobre tudo traz ante seus olhos a plenária
conversão da gentilidade das partes Orientais, & Occideritais?
1,37 — 1. Herc. Está tudo dito cõ prudência, & <:onsideraçào ; mas in-
da nã fico contente de todo. Determino usar com vosco do arti-
ficio que Aristóteles ensinou, & he que quando pedíssemos algíia
jnerce aos magnânimos, apoucássemos nossas cousas, & engrã-
decessemos as suas , cotando os beneficio» , & mercê» que delles
aviamos recebido , pois nam ha-pousa que tanto acabe cô animo
magnifico , & generoso , como ter começado a obrigar híia pes-
soa com sua beneficência : pelo qual disse Séneca que a causa q
Cep, 98. tinha pcra dar, era scmcl dedksc, aver hua vez dado. E isto he o
que Isaias allegava ante Deos, quando dizia, quê da multidam
das pias entranhas, & miseraçôes vossas que ale quy em mi ex-
perimentei ? Vòs me tendes feyta amizade , & mercê em me
communicardes muytas particularidades curiosas , de que estava
allieo, fazeima agora cm me dar razão do q mais vos preguntar,
& nam vos enfadeis, porque cessarei muy prestes. Onde está na
índia o sepulchro do bemavèturado Apostolo Sam Thome ?
Ant. Na Cidade de Malipur do Reyno de Narsingua, ceie-
DA GLOUlA E TUIUMPHO DOS LUSITANOS, 313
brado com muytos milagres : os nossos lhe chamão Cidade de
Sam Thome. Na qual como refere hum nosso Bispo, se achou
hu mármore com híía Cruz cortada , & no alto delia eslava fi-
gurada híia pomba , & a base se estendia em semelhança de er- Osório,
vas, & assi ella como os braços, & alio da Cruz acabavão em
feyçam de lilios. Esta cruz eslava rodeada de hum arco tambe
cortado no mesmo mármore, cò letras que ninguém sabia ler,
& nella se vião claras gotas de sangue. Hú Brachmano do Rey-
no de Narsinga de muyto nome em letras, & eiudiçào, as leo
por derradeyro, & a sentença delias era, que Thome varão di- 137 — 2.
>ino discipulo do filho de Deos , fora por ellc mandado àquellas
partes no tèpo delílcy Sagàmo, j)ara instruir as gentes no conhe-
cimento do verdadcyro Deos, & que aly fabricara hii templo,
& fezera maravilhas, & finalmente estando em oração junto da-
quella Cruz de giolhos , hum Brachmane o atravessara com hiia
lança, & que aquella Cruz tinta do seu sangue ficara por me-
ni(jria sempiterna de suas virtudes. Estes C^hristãos de Malipur,
Cranganor, & outros que seguem, & retém tè o dia presente
a instiluiçam de Saneio Thome, celebrao a cõmemoraçam de
nossa Senhora oito dias antes do Natal , como em Hespanha
se ordenou no nono Concilio Tolelano, & ha entre elles esta
ley , que as viuvas , que antes de passar hum anno inteiro de-
pois da morte dos maridos , se cazarem , percão o dote , pelo
mesmo feito. A cpial he muy cuforme à que lemos no Códice
<le Justiniano que diz assi, si qucc ex fceimnh pcrdilo marito
intra anui apatiú altcri fcstinarU nuberc , probro notctur ; & ao
que escreveo Séneca, que os Romanos assinaram às molheres
viuvas dez mezes pêra chorarem os maridos , nam para que tan-
to tempo chorassem , mas porque nam chorassem mais tempo.
E notai o que advertio Abdias primeyro Bispo de Babylonia na
historia Apostólica \ que permitio Christo a incredulidade de
Sancto Thome para ficar mais instructo , & confirmado na fè ,
cujos mistérios avia de pregar às gentes feras, & barbarissimas
da Índia Oriental.
Hcrc. Sempre a castidade nas viuvas foy muyto desejada , &
estimada, quando enterrado o primeyro marido, dizem com a-
nimo determinado, & propósito firme aquellcs versos de Virgilio. 137 — 3
llle meos prhnuH , qui me úbijvxit , amores
^bstulit , tile habcat seca , servctqiic scpiílchro.
Que entendo assi , Aquelle que se unio comigo per matrimo-
nio , & gozou de meus primeyros amores , este os tenba , & con-
serve consiíio.
40
3H DUtOQO QUAUTO
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CAPITULO XXX.
Do Rei/no de N^arsinga, ^ de Mafamede, ò; do rb Gimgcs,
Herc, Do Reyno de Narsinga, & dos costumes de seus mo-
radores ouvi ja cotar muytas cousas , q me parecerão fabulosas.
Ant. As que os nossos poserã em historia sam certas, &. con-
firmadas por testemunho de claros varÔis em letras publicas , a
que se nam pode negar o credito; & alguas delias tenlio lido,
&, ouvido c5 muyto gosto, que vos quero trazer à memoria. Es-
te Reyno he muy grande, povoado de muytas Cidades, regado
com muytos rios, abundante de pescaria, montearia, & caça
de aves, &, de todo o género de gado. A gente diz q crè em
hum Deos , mas tem templos suptuosos cheos de monstruosas
images, & vultos que adorão. Os Brachmanes, & Baneanes
sam os seus sacerdotes , muyto venerados do gentio da terra.
Crem que a alma he immortal , & que ha prémios pêra os bòs ,
& tormentos pêra os mãos na outra vida. A mayor Cidade que
tem he Bisnaga. As molheres morrendo lhe os maridos, metem
se no fogo vivas j & sam celebradas com prozas , versos , & todo
137— 4'. o género de musica. Quando lhe morre o seu Rey , queimano
com lenha de arvores odoríferas , & preciosas , &. nesta fogueira
fenecem todas suas concubinas , familiares , ministros , & priva-
dos , & caminhão com tanta presteza pêra o fogo , como que
tevessem para si, que arder juntamente com seu Rey he o re-
mate de sua bemaventurança. Ajutão os Reys grandes thesou-
ros , e nos que ficarão de seus predecessores nã tocam , senam em
urgentes necessidades , & o contrario tem por sacrilégio. Os the-
souros sam de ouro , prata e pedras preciosas , principalmete de
diamães , que sam naquella região de notável quantidade , &
muyto pezo. E disto nam digo mais porque sam cousas sabidas.
Herc. Falastes no Ganges alguas vezes , (Sc sempre de corrida ,
sedo rio tam caudeloso , &: nomeado.
Ant. Fazemos agravo às cousas grandes de que ha muyto q
dizer quando delias dizemos pouco. O Gãges corre pela espa-
çosa província de Bengala, he muyto largo, & alto, & divide
a índia citerior da ulterior, verte suas copiosas agoas no Oceano
Indico per duas bocas, que distão entre si trezentos mil passos.
Os vezinhos tê estas agoas por saudáveis, & lavam se ameude
com ellas , ou para sarar de infirmidades , ou para limpar a al-
ma de culpas. He Regiam fértil à maravilha, a gente morena,
& nam mal assombrada, curiosa no comer, & na galantaria dos
vestidos viciosa em demasia. He natural nella a fee púnica , óc
DA GLORIA E TRIUMPITO DOS LUSITANOS. 31d
prozasc disso. A idolatria irviiplia nestas partes, caso que aja
lambem muytos da secta de Mafamede.
Herc. Là chegou a peste desse perro malaventurado , & secta
íâ suja &. bestial? Inda que vos divirtais híi pouco do propósito, K>8 — 1.
pór' vossa vida q me dij>ais o q lestes desse ladrão perditissimo,
porque me fedem Mouros sobre todas as cousas, &. tenlio por
gloria aver travessado com minha lança nam poucos dellcs.
ylnt. Foy Arabc, «Sc em sua primeyra idade ptibre , andou ao
salto, &. casando ricc^, militou sob o Imperador Heraclio jun-
tamente còs seus Árabes, & nesta milicia achou occasiam pêra
o seu principado, jjorque rebellando os Árabes indignados còtra
Heraclio, JVlafamede se envolveo com elles, & os amotinou,
& confirmou na sua desobediência. E parte destes Árabes o le-
vantarão por seu capitão ( como se faz onde ha bandos contra os
príncipes legítimos) que soem os que negão a f è , & obediècia a
seus senhores , seguir a bandeyra daquelh^s q aprovão seus màos
desenhos. Mas vendo Mafamede, que muytos o tinhão em pouco,
porque sabiam a baixeza do sangue , & vil fortuna de sua mo-
cidade , & por este respeito desprezavao o novo capitão , buscou
invenção efticaz cô gente do povo, para se segurar deste despre-
zo, dizendo que era propheta, & núncio de Deos, & com este
pretexto meteo a todos de baixo do jugo de sua fingida mages-
lade. Que nam ousam os homês contradizer aos conselhos, &
■vontade de Deos , nem àquelles que entrão no mundo por seus
legados. Desta arte usaram Minos, Numa Porapilio, Lycurgo,
tScipião Africano, & Quinto Sertório. Socedeo este fingimento
a Mafamede ditosamente (se tal se pode dizer cousa, que tam
innumeravel multidam de almas cô a de seu inventor levou, &
leva cada dia ao inferno). O fundamento & sustancia desta in-
venção foy, que Deos mandara primeyro a Moyscs, & depois a 138—2.
Christo instruídos com potencia de milagres , & visto como fo-
rào mal recebidos da geraçam humana, enviara a Mafamede
armado , para constranger cò as armas violentas os que se nam
moveram co as obras milagrosas. Foy ferido em hua batalha de
q rccebeo híia deforme cutilada nas queixadas, & pcrdeo algíis
dentes. A (Cidade de Meca, que agora o adora (nnm tendo por
ventura seu corpo fedorento) o encartou por ladrão famoso, «St
propôs premio a quem lho desse às mãos vivo, ou morto. E sa-
bei que tinha este desalmado cão dito aos seus, que ao tercey-
To dia depois de morto avia de resurgir , o querendo Albimar
seu discipulo provar isto por cxperiecia, deu lhe peçonha com
que expirou. Teverão os discípulos seu corpo cm custodia, espe-
rado que resurgisse : mas em fim (snjoados do fedor o desempa-
tarão , & passados onze dias o acharão comido dos cães. Assi a-
cabou aquelle propheta falso, venerado de tanta canalha. Por
40 «
31G PIAtOGO QUAIITO
sua morte lhe socedeo no Calyphado Alie seu primo, & genro,
cazado com sua fdha Fátima. Este fez grade anatomia na secta
do Mafamede, mudando, innovando, alterando, tirando, a-
crescentando, interpretando & fazendo quasi outra ley de novo,
& assi se repartio a secta em duas tão differentes nos ódios, co-
mo nas perversas opiniões, E esta he a causa por que os Turcos
querem mal aos Persas, segundo Paulo Jovio : mas deixemos
este Antechristo arder naquellas chamas infernaes em companhia
dos demónios , cujas obras seguio , &, falemos em outra matéria
mais gostosa.
CAPITULO XXXL
Da Ilha Czilâo , b; Malucho.
138 — 3, Herc. Nomeastes Ceilam , de que disse hum histórico, qu9
era a Taprobana , 6c vôs tendes dito outra cousa seguindo Pto-
iomeo.
Ant. Do cabo Oriental, que os nosso? chamão Comorim , es-
tá hiia Ilha nam longe, que algíis cuidao ser a Taprobana; mas
Ptolomeo quer que seja Samatra fronteira de Malacha, que he
a áurea Chersoneso, & a Oilão chama Corim , do nome do
cabo fronteiro. Agora se chama esta Ilha Ceilão, ou Zeilão.
Tem era còprimento duzentos, & cincoenta mil passos pouco
mais ou menos , & onde he mais larga nam passa de cento , &
quarêta mil. He fertilissima , & vestida de hervas , & plantas
odoriferas , & fruitas que a terra dâ sem a cultivarem , mormen-
te cidras , & laranjas que sam as melhores que ha no mudo.
Canella em gram soma , outras muytas , & varias fruitas chei-
rosas , & saborosas , muytas pedras preciosas cavadas à força de
ferro, das veas de grandes rochedos, & muytas pérolas de sin-
gular cor , & resplendor , tiradas das ostras do profundo mar.
Cria elephantes em admirável abíidancia , he montuosa , & tem
todo o género de pedraria, tirando diamantes. Antiguamente
era de sete Reys, dos quais hum excedia os outros em riqueza,
dignidade, & império. Este tinha a sua corte na grande Cidade
Columbo. No meio da Ilha ha hum monte muy alto, cercado
de muytas lagoas, & no cume delle está hum pico, que tem no
138—4. meio hum lago, de que manão agoas doces, & perennes. Junto
a este lago esta híia pederneira, ou arricife que tem entalhada
híaa pegada de home, que os moradores crèm ser de nosso pri-
meyro padre Adam : & dizem que daly foy levado pêra o Ceo.
Perto daqui está hum teplo pequeno em que se vem dous sepul-
DA OtORIA E TlClUMPnO DOS LUSITANOS, 317
chros venerados com estranha supcrstiçam da «jonte da terra ,
que cuida nelles jazerem os corpos dos primeyros homes de que
procede toda a gera^jam humana. Esla oj)iniào assi recebida dos
naturaes , faz que muytos mouros , &. gentios vam visitar este
lugar, & que o tenham por religioso, o qual he tam Íngreme,
alto, & fragoso, que cò as màos nam píxlem trepar ao sumnio
delle sem ajuda de escadas, & cadeas. Isto he em summa o que
algíis Portuguezes escreverão desta Ilha, & hum delles disse que
era a melhor que avia no mundo, & que tinha de comprimeto
oitenta legoas & trinta de largura, & que os Índios diziam ser
o paraizo terreal, & Cardano foy desta opiniam. Mas isto nã he
verdade , porque a Sagrada Scriptura diz que o paraíso foy em Gen, 2.
Edem , que os Prophctas Ezcchiel , & Isaías ajuntaram cõ Cha-
ran , donde era natural Abraham , por onde se mostra que o
lugar do paraíso terrestre foy na Chaldea , ou ao menos dentro
na Mesopotâmia. E também vos concederei , f]ue onde quer que
fosse não estava longe dos Assírios. Duas milhas da Cidade de
Damasco cabeça de toda a Siria , se mostra o lugar onde os
naturaes da terra affirmao que Caim matou a seu irmão Abel,
o que nam he ridículo , nem indigno de credito , porque segun-
do contam os peregrinos que de là vem , inda que a terra san-
eia , & os lugares delia estem ao presente quasí de todo dcstrui-
dos, tem se o dia de hoje tão particular memoria das cousas de 139—1,
que a Escriptura sagrada a faz , que parece digno de fè o cjue
contão os da terra , quando não he contra a mesma fè , tSc aos
seus ditos não faltao indícios, inda q podem errar,
Jíerc. Quanto me contais recebo por constante verdade , porq
os nossos devião ínformarse do que passava nessas Regiões Orien-
taes , pois era à custa de seu sangue , & à sua nobreza convinha
dar rezão de si, & verdadeyra relação do que vião. Mas tratay
daciuellas Ilhas que Fernão de Magalhães fez tam celebres com
sua traição, renunciando a pátria em prova de nam ser digno
delia. Como apassionado nam se quis lembrar daquellas graves
palavras de Quinto Fábio Máximo para seu fdho, quando Mi-
nucío batalhou com Aníbal, as quais Silio Itálico }X)s em ele-
gantes versos.
Succenscre , nefan , patricc , nrc fccdior vila
Culpa, Huh extremas feríur morlalihns iinclas.
Grande maldade, diz, hc indignarse o homem contra sua pá-
tria, nem ha culpa no mundo todo mais jnira estranhar em os
mortais. Quanto melhor andou Furio Camillo gentio, que es-
tando desterrado de Roma sua pátria, & co a direita condenada
acodio por ella , & a livrou do cerco dos Francezes. Eu fiz mais
do que ly , mas tamb(>m sou lembrado desta historia.
jínt. Essas Ilhas sam cinco, 6c nellas somente ha cravo, &,
313 niALOao quaiito
as arvores que o dâo sam como loureyro , dâo muyta flor que
nasce, & crece como murta, & quando o cravo eslà verde lan-
çào estas arvores o mais suave cheiro do mundo. O cravo gyro-
139 — '2. phe vem da Ilha Geloulo, que he híia das cinco. E nascem es-
tas arvores de seu , como os laranjaes de Media , celebrados de
In GoDrg. Virgilio com sua limada, & delicada Musa. (^olhense os cravos
com muyta força , &. com cordas que lanção aos ramos , de Se-
tembro tè Fevereiro. Estas Ilhas nào estão longe da linha equi-
noctial, & no descobrimèto delias mostrou Magalhães esforço,
mas nam lealdade.
CAPITULO XXXII.
Da China.
Herc. Híia sô cousa me fica das que tinha para vos pregun-
tar, que desejo saber, & logo me vou para minha casa. Que
gente he a da China? nisto se pratica muyto; mas como vejo,
&. ouço pessoas sem qualidades necessárias para fazer fè , & me-
recer credito o que dizem , fico enfadado , &. primeyro lhe cerro
as orelhas, que elles acabem de falar.
j4nt. O que homès de bõ entendimêto alcançarão da região
dos Chinas, & o que tenho por verdadeiro he ser muyto espasso-
sa, & cõfinar cò a índia, & cò Oceano, & da banda do Norte
estar cercada de Montes muy altos coalhados de perpetua neve,
& geada : da parte do Occidente confina cos Scythas Asiáticos,
q chamão os Tártaros, com os quais tem continua guerra; os
Scythas sam de maiores forças, mas os Chinas sam avãtajados nas
artes, & engenho; de maneyra q híis pelejão com esforço, &
valentia; outros com ardys , & artifícios. Toda esta região he
muy fértil , & abundante de todas as cousas necessárias para vi-
139—3. "ver esplendida, & deliciosamente; os Chinas que habitão contra
o meio dia , sam morenos ; & os das terras sojeitas ao septen-
Iriam , sam muy alvos. Todos tem curiosidade no comer , & seus
banquetes são ordenados com aparato, & limpeza. Vestemse cus-
tosamente de algodão, làm , sedas tessidas com ouro, segundo
os tempos do anno, & nas terras do norte frias forrão os vestidos
cõ varias pelles de animaes. Usam de cavallos ornados, & ar-
reados cõ muyta elegância. Sam inclinados a jogos, & passatem-
pos, & amores de molheres , & a instrumentos músicos, & a
sortes, & agouros. Estimão grandemtmte os mágicos, aprendem
as disciplinas mathematicas, & notão com diligencia o curso das
cstrellas. Tem imprcssôis de formas de arame para trasladar li-
J)A GLOUIA E TUIUMrnO LOS LUSITANOS, 311)
vros. o qiial artificio lic tão anlijjo antro elles, que não ha
memoria do primeyro que o inventou. As casas sam sumptuo-
sas, magnificas, 6c de formosa cstruclura. Os templos amplíssi-
mos, cheos de muytas estatuas, &. pinturas; & posto que ado-
râo vários ídolos, todavia confessam, que princi|>almcntc se ha
de venerar hu sô Deos reitor do universo, &. a dle se hao de
offerccer preces, e orações. Ilonrão summamente a imagem de
hua molher q chamão Nama; a qual dizem ser avogada da ge-
ração humana anle Deos. Adorão também a estatua de híía vir-
gem fjlha de rey, que com desejo inflammado das cousas celes-
tiaes, desprezou as humanas, por gozar na terra da contempla-
ção das divinas. Tem outros muytos Ídolos segundo suas cegas
opiniões, que festcjào em certos dias do anno. Sam muy excel-
lentes artífices, &. pintores. Tem edifícios magnificentíssimos cm
que vivem encerrados homens religiosos, & collegios de virgens,
para se occuparem nos divinos exercícios. Tem escollas geraes 13C — i.
para o exercício das letras, & os mais cursados, & aproveitados
Delias sam mais honrados, & premiados. No estudo das artes,
&. sciencias uzam de híia lingoagem antiga que a outra genle
nam entende, como entre nòs se usa da língua latina. Os que
estudào direito civil sam mais prezados, que todo o outro géne-
ro de letrados. Tem summa reverencia, Ôc acatamento ao seu
Rey, o qual muy raramente lhe dà vista de si. Repartem a sua
republica em três ordês : a primeira , & principal he dos mais
doutos nas sciencias, & direito civil; o segundo grão tem os ho-
mens da guerra ; o tcrceyro he dos mechanícos. Os letrados sam
examinados pelos deputados para isso, & ha exame infinio, mé-
dio, & supremo : & o que alcançou aj)rovação dos examinado-
res ínfimos, se pretende subir a mais alto grão de dignidade,
ha de passar pelo exame grave de homens mais doutos, & o que
he aprovado por muytos, & doctissímos, alcança mais alta di-
gnidade na Republica. Castígào rígurosaniento os erimincsos, &
nam permittem algum homem sam , inda que seja cego , men-
digar. Ha entre elles atafonas de mãos em que os cegos ganhão
de comer. Não admittem homens forasteiros nas suas cidades,
porque temem perv(írsam dos costumes , & institutos da sua pá-
tria CO a communicaçào delles. Alegranse muy to com comedias,
& sam tam inclinados ao vicio da carne, que inventão varias
formas de luxuria, & congressos nefando:., & consultam os De-
mónios, segundo se diz commummenle. ]>tes sam em summa
os ritos, & institutos dos Chinas, jielos cjuais se mostra que pa- LiC — 1.
ra se converterem , & fazerem Christãos tê meio caminho an-
dado.
Herc. Porque chamou S. Paulo ao peccado nefando immun- ^á Bom.
dicia, &. payxão de ignominiai 1.
320 DIALOGO QUARTO
u4iit. Por causa de sua absurdíssima torpeza, que o faz indi-
gno de se nomear. Esse peccado, & a idolatria nascerão ambos
num tempo, & elle foy próprio castigo da idolatria, começou
em Bello Rey de Babylonia , pouco antes do incèdio de Sodo-
ma. E he muy verisimil que antes do diluvio reinava a fúria &
torpeza da luxuria, & assi o diz Beroso, senão he fmgido, &
que por isso veio sobre os mortais tão terrivel pena. Ne se acha,
nem se achou ja mais este congresso nefando, senão onde ha
pouco, ou nenhum conhecimento de Deos, & da outra vida.
Lib. 10. c. Entendeo esta malvada abominação Plínio dizendo, que fora
0'ò. inventada por maldade humana, & corrupção da sua natureza.
CAPITULO XXXIII.
Porque mui/ tos Rei/s gentios ncgâo sua presença aos vassallos , ò(
dos que cometerão a conquista da índia.
Herc. Que rezão tem esses Reys dos Chinas de se escondere,
& negarê sua presença aos vassallos ? Por mais sesudos tenho eu
os Reys de Narsinga que andão em publico acompanhados de
muytos homês de armas, curados com unguentos cheirosos &
ornados continuamente de ouro , 6c ricas pedras.
140 — 5, Ant. Os Reys dos Chinas querem ser adorados como Deos, cõ
suma veneração , <Sc superstição , (Sc porque a continuada preseu-
sa não desfaça nesta reverencia, & acatamento, escondense dos
seus , & muy poucas vezes aparecem em publico. Jà sabereis do
Imperador Christão dos Abexins da Etyopía sobre Egypto, cha-
mado Joanne Bellud, que quer dizer precioso, como declarou
Mattheus Legado do mesmo Imperador (que veio a Portugal,
reynando Dõ João Terceyro, & Damião de Góes o pos em me-
moria ) pois também esta ficção de divindade chegou a elle , in-
da que Christão. Faziase adorar como Deos, & nem aos Prínci-
pes descobria o rostro , senão em dias assinados pêra isso. Aos
que lhe querião fallar , às vezes lhes mostrava o pe , outras ve-
:5es a mão , & tinha por sacrilégio serem vistas as mais partes do
seu corpo. Quando queria responder usava de interpretes : pelos
quais respondia de dentro das cortinas , como os oráculos gentí-
licos davào as respostas dos lugares mais secretos dos templos,
aonde somente o Sacerdote tinha entrada. Mas depois que os
Portuguezes forão soccorrer a esta gente , posta em extremo pe-
rigo , e lhe declararão o costume dos Reys Christãos , cessou
esta idolatria, & ja os Reys se mostrão tSc falão cò rostro descu-
berto. Outra razão vos darey porque muytos Reys bárbaros se
J)A GLORIA E TRirMPHO DOS LUSITANOS» 321
^encerravão. Semiiamis Raynha de Babylonia criou seu filho
Jsino sèpre à sombra, & entre as damas, & donzelas de sua ca-
sa. O qual acquietado seu lmperi<», viveo em o«io recolhido,
conforme à criação que sua mây nelle avia feyto, & poucas ve-
zes aparecia em publico, & daquy manou o custume de seus 140 — K,
soccessores, que nam consentiào ser vistos, nem saudados senão
de muyto poucas pessoas. Per interpretes falavão & per prefey-
tos administravão o lieyno, se cremos a Diodoro, & Justino. E
assi escondidos , & cnserrados nas intimas recamaras de seus pa-
ços, gastavão a vida cm sensualidades, «Sc torpes delicias, a fira
que não ouvesse árbitros, nem testemunlias de seus erros.
fícrc. Tendes concluido q o Tryumpho da índia Oriental es-
lava reservado dos tempos antigos pêra o Reyno de Portugal , &
eu cuydo, & sou lembrado, q ja outras naçòes em tempos nwij
antigos fezerão guerra aos Índios, òc outras contratarão com el-
Ics, que hiào vèder canella aos Persas, & Gregos.
Arà. Dirvos ei por cabo o q ly acerca disso , & isto feito po-*
deis vos ir em paz. Da índia escreverão Heródoto, Diodoro,
Strabo, JMela, Stcj)hano, Plinio, Solino, & Ptolomeo , & os
Gregos, & Latinos que poserão em historia os claros feitos de
Alexandre Magno, o qual discorreo por aquellas regiões com
suas armas. JVlas forçadamente so ha de conceder que em com-
paração dos nossos, souberão todos muyto poucas verdades, &
certezas da índia, inda que Diodoro, tSc Strabo escrevessem
muytas cousas de seu estado, & custumes que tomarão de Era-
toslhenes, & Melasthenes, que foi familiar de Sadrocoto Key
da Índia. Dizem q Semiramis depois de viuva duas vezes teve
guerra còs índios, a primeyra junto do Rio Indo (q segundo
Diodoro, depois do Tsilo he o mayor que ha no mudo) da Cjual
íoy vècedora, & outra mais dclro na índia, donde se retirou 140 — 1.
vècida. Mas Metasthenes referido por Strabo, affirma q nunca
ja mais os índios expedirão armas contra nações peregrinas, nem
armas de gentes estranhas penetrarão a índia, senão as de Her-
cules, & de Bacho. E os nossos forão ter a hum lugar delia,
aonde virão híi campo cheo de sepulturas, & ouvirão dizer aos
naturaes daquella terra , que Hercules matara aly muyta gen-
te. Ne Nabuchodonosor Chaldeo , inda que chegou tè as colum-
nas de Hercules, nem Cyro chegarão a entrar na índia. E Se-
myramis começando a tentar as forças da índia , antes que
saisse delia falleceo.
Herc. Hora vos digo, Antiocho, q daquy em diãte ei de vi-
ver cõtente cu minha sorte, & uffano porq sou Portuguez, q nam
sabia q era tanta nossa gloria. Grande cousa he nacer em boa
torra, & de valentes homès, porq como diz Horatio, as agueas
reaes nam gerào pòbas covardes. ^Inl. Assi o crede vòs, & jxjr
41
32-2 m A LOGO QUARTO
•
isso teve razão Plato de se pjloriar q nacèra om Atlicna-;, «^ nâor
e Tluíbas, inda q Epaminõdas, Pindaro, & Hercules u fazião"
muy illustrc, mas nam tinha que fazer cô as claríssimas Athenas
inventoras, e criadoras de artes excellentes, & fecudos in<:^enlios.
Cujo império florctissimo (inda que Salustio diga que foy mayor
na fama, que na potencia, & que os feitos dos Atheniescs forao
menores que os ingenhos daquclles que os esclarecerão cõ elo-
quêtes historias) não se pode negar q foy assaz amplo, & magni»
fico. Porque como habitavão terras marilimas podiáo muvto por
141 — 1. mar com suas armadas. E pelo contrario teve graça Juvenal, em
zombar da ambição, & vaidade de Alexandre Magno que se não
satisfazia cò império de todo o mundo, sendo nacido em Pela,
colónia vil de Macedónia, onde se registava a gente de guerra,
& se mantinhão os cavallos.
Unus Pelceo juvcni non suffícit orhia.
Com razão lançou em rostro Plinio a Caio Mário, o infunarse
tanto cò a victoria Cimbrica , que nam bebia senão por cântaros
de ouro , & prata ( vasos consagrados a Deos Bacho ) sendo elle
natural de Arpino Cidade vil entre Aquino, & Flora.
CAPITULO xxxriii.
Suspira na despedida Anliocho por scpidtura em sua pátria , ò)
Hercidano o tira disso.
Ant. Mas estas memorias refrescão minhas chagas, & reno-.
■vão minhas soidades , porque me vejo morrer em terras alheas :
tempo foy que vivia esquecido da pátria, sem me affligir a ab-
sencia delia , porem agora dàme sua lêbrança tam cruéis tratos ,
que tenho por muyto certo ser chegado o fim de minha vida.
Pois então nos combate mais o desejo da terra em que caimoà
do ventre de nossas mãys, & recebemos nos olhos a luz do dia,
segundo aquillo de V^irgilio.
Et diilces moriens rcminiscitur Argos.
Herc. Certo q me dá pena vosso mal , e muyto mais me pe-
za de vos affligir o cuydado da sepultura em vossa Pátria : por-
que em fim tão perto, & tão longe he ao Ceo de hum lugar
como do outro. Quanto mais que quando falta terra que nos
141—2. eubra basta o Ceo por cubertura, como disse Lucano. Bem sei
das pregações, q quer Deos, que acudamos cô piedade a enter-
rar os corpos defunctos, ]X)rq forão instrumentos do Spiritu San-
eio, & Templos de Deos vivo. E quando falta quem os sejiulte
manda Deos brutos animaes que o facão, como mandou em fat
J;A GLOIllA L TIllUMPIIO DOS LUSITANOS. 323
Tor de Sam Paulo primeyro ermitão, & oulroá sandes : ou aos
elemèlos q cobrirão de neve o c(jrpo de sarKia ]'2ulalia Emeri-
terise, cujo martyrio Aurélio Prudencio celebrou com elegan-
tes versos.
Ipsa dementa jubentc Det,
Exequian tiòi virqo fcrunt,
Ant. Tanibe os gentios teverào conta rò as sepulturas, indaq
por outras considerações, como escreve Xenoj)li<>nte de Cyro,
que mandou a seus tilhos, q o enterrassem, porque a terra ge-
lava, òi criava toda^ as cousas preciosas : íc Plinio disse que a Lih. íí. ca.
terra fazia os defunctos sagrados, conforme a ley das doze ta- Co.
Aoas, Ne quh agruin consccndo. Porq a terra era domicilio con-
sagrado a todos os seus Deoses, por tanto parecia aos getios que
se nam devia tornar a consagrar, &. assi o deixou escrito Plato.
Quanto mais que sempre os juros dos sepulchros lorão tidos por
sacros, ainda entre bárbaros, donde veio o que os Scythas dis-
serâo, que tè as sepulturas de seus mayores fugiriao de Dário,
mas alem nam. Plutarcho diz que os defunctos se chamão sa- Tn rifa
grados porque seus sepulchros o sam, pelo cjue as leys constitui- Niuncc Pò-
fíio penas aos violadores das sepulturas. Ley anligua foy dosRo-pi/ié.
manos , Ubi corpus omne morhá hominis cundiis , saccr esto. Seja
sagrado o lugar onde se enterrar corpo humano. Porem não a-
Yemos de cuydar cjue perderão algua cousa as almas, se seus
corpos carecerem de sepulturas, como Marco Tullio conta de ai- 141 — 3.
gus que cuydarâo que recebiãopena os corpos defunctos seficavâo bi 1. y'i<.s.
por enterrar, & q a sepultura lhes dava descanso. Nem David
naquelle verso, Posuernnt mortlcima , posèrão os corpos de vos- Psal. 7o.
SOS servos em manjar às aves do Ceo, chorava a falta da sepul-
tura, senão a crueldade dos que perseguirão aos servos de Deos,
Quando os Clodos saquearão U<jma , alrotavão de ver os Chrià-
tàos mortos sem sepultura. O que j)ermitio a divina providencia,
a fim de lhes dar a entender quà pouco monta a sepultura, &,
quam pouco prejudica a falta delia. Que se importara o bem da
alma nam permitiria Deos derramar pelos campos, & desfazer
em pedaços as caru<!s dos seus sanctos. Errarão tanibè os gentios
em cuidar, que tiuhão menos descanso os defunctos em terra a-
Ihea, que na sua. Porem o phylosoplio Anaxágoras no artigo
da morte preguntado se queria que o fosse enterrar em sua pá-
tria, entendendo a vaidade da tal opinião, respondeo que tanto
avia ao inferno di; hum cabo, como do outro. E posto q Deos
disse contra hum proph(;ta desobediente, que nam seria enterra- >U Rcg^ •'•
do na sepultura de seus pays , isto foy para lhe fazer sentir na
vida a pena que nã sentiria depois de morto. Porque como na-
turalinete amemos nossa carne , este amor nos faz desejar a se-
pultura com nossos jjays , & uvòs ( como de mim vos tenho con-
41 *
S31 DIALOGO QTJATITO DA CLOUlA E TRIVMPHO COS LUSITANOS,
ífssado) & em pena de sua desobediência, privou Deos aquelle
proplieta deste gosto, porque ao morto nam lhe vay nisso nem
Tem. Verdade seja que os defiictos ganhão mais sepultados em
341—4, hu lugar, que em outro; nam por eausa do lugar, mas por
respeito dos Officios divinos que nelle se celebrão, mayormente
se concorrem muytos vivos que rogue a Deos pelos mortos, ou se
estam no mesmo lugar algíis corpos sanctos enterrados. Lemos
que hum mâo propheta se mãdou meter no sepulchro doutro bô,
& valeolhe para q nam fossem queimados seus ossos, por reverê-
cia dos do servo de Deos. Tam preciosa, & proveitosa he a com-
panhia dos bõs , inda depois da morte , & debaixo da terra fria.
E por esta, entre outras causas, notão algiis Douctores, que os
Patriarchas Jacob, & Joseph pretenderão, & procurarão enterrar
eeus corpos junto dos lugares , que Christo avia de frequentar , &
onde avia de ser sepultado, para que na vida posesse os pès so»
bre suas covas , & depois da morte deste Senhor resurgissem com
elle para a vida gloriosa. Fora destas, & doutras considerações
pouco vay no lugar da sepultura. Por tãto nam perderão algo
os martyres tryumphaes, que delia carecerão, ne estimaram os
estragos, & anatomias que foram feitas em seus corpos sagra-
dos , porque tinham impressas no coração aquellas palavras
dulcissimas, com que altamente se consolaram no fira de sua
vida : hum sò cabello da cabeça nam perdereis.
Her, Com isso me vou encomendandovos a Deos. Resignay-
vos nas suas mãos, & pedilhe morte sancta. Se soubéreis quanto
me doo de vossos trabalhos, confessareis que vos falo de coraçam,
& vos desejo saúde entranhavelmente , indaq com minha proli-
xidade vos causasse seiscentos fastios , de q vos peço perdão.
, Ant. Cò essa misericórdia se deleita Deos, & elle seja o re-
munerador delia.
DIALOGO QUINTO.
DAS CONDIÇÕES, E PARTES DO BOM PRINCIPE.
INTERLOCUTORES
ANTIOCHO ENFERMO, JUSTINIANO LOVCTOR LEGISTA.
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CAPITULO I.
Que o Rey ha de ser clemente.
Justiniano. X-/eos salve a Antiocho. 142—1.
Aniiocho. Como douctor, tanto madrugaes? Mas perdoayme,
entolhouseme que vinha jà algum desses médicos, que me visi-
tâo. Deos venha cô vosco.
Just. Nam madrugão sô os médicos a tomar o pulso às bol-
sas, também madrugão amigos a saber da saúde dos amigos,
como vos foy esta noite ?
Ant. Como ordinariamente em todas : mil vezes no meio de
seu curso quando vay mais sossegada me espanto, como dando
ella descanso aos montes feros, &. mares bravos, o nega a meu
peito, tSc a meus olhos. Nam sei porque foge o sono de híia ca-
beça tão desvelada como a minha. Ditoso eu se fora purgatório
de minhas culpas, esta longa & prolixa doêça. Trasporteime
hum pouco, & no pensamento forgei híi Príncipe melhor com-
posto, & qualificado que o Cyro de Xenophonte. Estas images
me ficarão na fantasia, do colloquio que hontem tive cò esfor-
çado cavaleyro Herculano, & muyto folgo de vos ter presente 112 — 2.
por juiz, & censor deste argumento nam impróprio para os tem-
pos em que somos.
Ju$t. Ouvinte si muyto prõpto, censor nam.
Ant. Imaginando que jiiègava , fundava o sermão naquellas
palavras do èabio, Bèaventurada a terra, cujo Rey he nobre. Eccks. 10.
O qual então o he quando nam tem vassaílos vis, & afrontados.
He verdade que os Reys delia sam às vezes forçados a poer nota
& fazer afrontas aos seus; como no corpo natural conve muytas
vezes mal tratar hiía parte , paraq as de mais nã percão a saú-
de. E quàto a isto nam sam dignos de rcprchêsão, mas de com-
paixão, pois por esta via vem a ser forçosamente senhores de vis
& ruins vassalos. E tanto mor lastima se lhe deve , quauto hç
mais precisa esta necessidade.
o?.G DIALOGO QUINTO
Jjir.t. E os que cuiJão que entào sam senhores, quando pro-
curam apoucar & afrontar os seus , que taes vos parecem ?
^nt. Esses, nenhua cousa sam menos que Reys, porque o
fim a que se dirige o officio dos líeys he fazer seus vassalos bem-
aventurados. E a si mesmos se dànifjcào na honra, pois se faze
142 — 3, cabeças de eiveis, & desformes corpos, &. pastores de ronhoso
gíido. Bella cousa he mandar entre os illustres. Perjudicão tam-
bém a seus interesses , óc põem em manifesto perigo a paz , «Sc
cuservação de seus Reinos. Como o corpo que em suas partes he
mal tratado, & nos humores desconcertado, está muy ocasiona-
do a infirmidades & riscos de morte : assi o Reyno onde muytas
sortes de homês, & muytas casas particulares estão como senti-
das & feridas, não se pode ter por seguro de enfermar, & vir ás
armas, & se perder; porque a própria lastima, & dor da inju-
ria enserrada no peito , desperta os homès &. os faz velar , & de-
sejar occasião de vingança, & nam passar por ella quado se lhe
offerece. O bom Principe he híia imagem de Deos, & nam er-
rará quem disser que he hum animal celeste , dado por Deos
para bem de muytos. Júlio Pollux que instituio a puerícia de
'Cõmodo César, disse disto muytas cousas : mas eu queria que
o Rey Christão tevesse estas qualidades. Primeyramente que
concebesse animo & entranhas de pay para os seus. Isto signifi-
cava a antigua purpura, insígnia dos Reitores da Republica,
hum amor encendido para os súbditos, cousa que muyto segura
Ds altos estados, & grandes Impérios.
Just. A veste esplendida , & càdida tenho eu per insígnia de
Rey , pois que Herodes zombando do Reyno de Christo , vesti-
do delia o remi tio a Pilato. E o Apostolo Jacobo querendo si-
Cap. 2. gnificar hum varào nobilíssimo, diz que traz anel douro em ves-
te cândida.
Antiq. Vi. Ant. Ue Josepho se mostra q a purpura he o indumento real,
11. ca. 17. & parece que não acertâo os que querem entender que o Apos-
14 J — li. tolo Jacobo chamou nobilíssimo o homem cjue trazia no dedo a-
nel douro, como singular insígnia de nobreza, & andava vesti-
do de branco : porque he claro que nam fala do anel q orna a
mão, mas do que orna a veste. E anel em vestido esplendido
era naquelle tempo extremo douro com que elle se apertava ,
Exod, ca. provase isto daquellas palavras do Êxodo, stringebat rationalc
2>i. annulís suis. O que mais expressamente declara Josepho, que
Antiq. li. diz ser costume entre os Hebreos, os affuis & parentes do Rey,
13. c. 6. & outras pessoas illustres de mercê sua especial, trazerem anulo
de ouro. Era este ornamento quasi o mesmo cô o latus clavus
que os Romanos illustrissimos usavão. E assi quis sinalar o A-
postolo por varão real aquelle a quem era licito trazer este orna-
mento de extremas de ouro, ao modo de dentes de serra em
DAS CONDIÇÕES DO BOM PRÍNCIPE. I5J7
%'este cândida , qual foy aquclla de q Herodes vcslio a Christo
Í)or ftscarnco. Mas voltando ao propósito ehígantcmete disse o
^oeta Claudiano.
Non úc cxcubia , ncc circustantia tela ,
Qvavi Uitulur amor.
Kam segurão tanto os Príncipes, as roídas, e «itiardas de homes
armados, quanto os defende o amor dos seus. T^in o artigo da
morte disse Cyro a seus filhos, que o Septro de ouro não cõscr-
Aava o Ixeyno, mas o amor dos amijíos era o que o assegurava,
Km Tito Livio estào escriptas estas palavras : Aquelle por certo
hc firmíssimo Império com que os súbditos se alegrão, & con- Decad. 1.
lentes obedecem. E na verdade nam deve ser outra cousa olíey, hh. 8.
se não hum pay cumum de toda sua Kepublíca. Sendo este, não
lhe faltará clemência, nam será tyranno; antes castigará os de-
Iinquètes como quem corta per suas entranhas; & se os sofrear 143 — 1.
com justos preceitos , curarlhe à os erros com brandos medica-
mentos, o que disse Tito Livio de Scipiào ; tSc fermosamente
Claudiano.
Qui fruitur pcena fertis est , hgumque mddur
T^maictavi prccslcix sibi , Diis proaAmus Ulc est ,
Quem ratio, non ira movei.
O legislador que se recrea co a exccuqao das penas, he fero, &
parece q faz sua a vingança das leys. Aquelle he próximo a
Deos que se move pola razão, & nam pola ira. O musico nam
corta logo as cordas dissonantes, mas brandamente as traz a cu-
sonancia. Plato ensinou que devia o Príncipe tentar todalas
cousas antes de chegar ao derradeyro castigo. E Salamão disse,
a misericórdia & verdade guardão o Rey , & cõ clemecia se for-
talece o seu Tlirono. Os antíguos pintavão no alto do Septro
híia cegonha, & em baixo a unha do híppopolamo; avisado os
Beys que estimassem a clemência & moderassem a violência.
He o hippopotamo animal impio & crucíl que mata o pay, & Lih. 17.
nefaríamente se junta cò a mày , se cremos a Pierio Vai. nos rcrò. Ci-
seus hieroglíphicos. Tè aos animaes que sam mansos, & tracta- conia , li
veis temos amor, estes chegamos para nòs, & consentimos em /j.29rcr.
nossos braços, & regaços; estes favorecemos pola imagem da CocOf/r?/-
nnàsidão, & brandura cjue nelles se enxerga. Compara o Espiri- hs^ilt.de.
to Sancto a ira & braveza do Rey, ao bramido do Leão, que Flurioli
faz tremer os animaes, & a sua clemência à chuiva serodea que eqvo.
fecunda os campos , isto he que prom<;tc a seus vassalos todas as Prover. '2,
cousas faustas, & prosperas. As insígnias dos grandes da terra, 143 — 2.
sam Leões, Tygres, Lssos, Dragões, Serpentes, & outras fe-
ras semelhãtes : mas as do líey do Ceo, «Sc as dos Reys da terra
que o ímilào são, piedade, mansídãt>, & sofrimento que inci-
tào a amor , & não a terrQr. Rey manso promeleo Zacharias aos
Jifi DIALOGO QUINTO
Judeus , &, Moyses que os governou de seu mandado foi o maia
manso dos homês do sou tempo. Esta virtude desejam os vassalos
no seu Rey , esta o faz bem quisto de todos , co esta se robora
o seu Throno. Quando o Apostolo queria com instancia & effi-
cacia pedir algo aos Christaos tomava por medianeira a masidao
Corln. 10. de Christo. Frafres obsecro vos per mansuetudinem Christi : offi-
cio he próprio dos Reys embotar o cutello das leys. Imprópria,
& temerosa he em o peito do Rey a fúria das bestas feras , a co-
raje dos Javaris , o collo iracundo das Serpentes , a braveza dos
Leões, a crueldade dos Tygres. Desarmado criou a natureza o
Rey das abelhas , & com menores azas ; denotado que devia o
Rey str clemente , andar entre seus vassalos , & nam voar longe
dellcs para os montes & soèdades. He relógio , fonte & coração
de seu povo; por tanto convém, q este em meio dos seus, que
sam corpo seu mystico ; & que se comunique a grandes , & pe-
quenos , & para ouvir a todos tenha tempos , & entradas fáceis.
Seja retrato de Antonino pio, que condenado à morte certo ho-
mem por justa causa, gémeo entranliavelmente porq não acaba-
ra os annos de seu império sê mandar derramar sãgue humano.
Halhe de quadrar o q disse Claudiano por Stilio Vãdalo.
143 — 3. JSon ocVimn fcrrore moves , nec frena resolms,
Gratia diligimiis pariter , pariterque timcmus ,
Ipse metus te no&ter amat.
Não te fazes odioso com terrores , nem te desenfreas com ira ,
de graça te amamos , & igualmente te tememos , & amamos ; o
nosso mesmo medo te ama. E em outra parte canta.
Peragit tranqvÀlla potestas
Quod violenta neqiát , mandaiaque fortins urget
Imperiosa quies.
De Civlt. O governo suave acaba o que nam pode o violento : a serenida-
lib. 5. cap. de & quietação no que governa he mais forte & urgente para ser
'^í. obedecido. Documento he de S. Agustinho que procurem os prin-
cipes ser amados, & entendào q doutra maneyra por muytos be-
nefícios que facão aos seus níiqua estabelecerão seu império, se
forem temidos & tidos por tyrannos.
Just. Nunqua ratos, &. lebres se amanção, porque sam ani-
maes timidissiraos : «5c ninguém ama aquelles de quê se teme.
Do temor procede a crueldade , & delle vem tirar a vida a ou-
trem , o que quer segurar a sua. Daqui nascem as cruezas dos
Tyrannos, cuja morte sendo de hum sò, dà a muytos vida. Fla-
to vedo a Dionisio tyrãno rodeado de muytos soldados de sua
guarda, disselhe que males tês feito tão grandes que tanto te
De pcedia temes , & assi te guardas ? Em Xenophonte dizia Chrisantes ,
Ci/ri lib. 8. que o bom Principe nada diffiria do bom pay.
liàicE 22. Ant. E de Eliachini disse o Propheta Isaias que seria como
DAS CONIMÇuES DO BOM PRTNClPi:. 329
pay dos moradores de Hierusalem. Castigue o Rcy por obriga-
ção, & faça mercês por gosto, & será servido com amor, que-
rido de todos em a vida & desejado em a morte, Livreo Deos de 143—4.
ser lisonjado cm presença, &. murmurado em nbsccia, & desa-
mado dos seus; cousa de que os Príncipes se devem muyto guar-
dar; porque se os vassallos sam criados em ódio, & senhoreados
-com violência, como o amor os não obrigue, &. as obras de seu
licy os escandalizem , abrindolhe o tempo algum caminho do
liberdade, segueno com danada tenção. Quem deixa de fazer o
que deseja porque leme, nam deixa a malicia , mas somente a
encobre; o temor não arranca de todo os mãos desejos, mas sò
CS enfrea por al^um tempo. O Lobo que cos brados do pastor,
ou ladros dos rafeiros solta a prèa não perde o appetite de a tra-
gar, inda he lobo, & tal se mostra perdido o medo. Còserve
pois o Rey seu Ixeyno limpo de insultos, escândalos, & crimes
públicos; & todavia seja compassivo & castigue como pay. O
compadecerse dos ccídenados he próprio de animo justo, como
castigalos com gosto, he sinal de animo riguroso, se não tem
outro pèor nome. A verdadeyra justiça, diz 8. Gregório, tem
annexa a compayxão, & tambê a misericórdia he justiça, quan-
do por ella se alcança o fim que per esta se pretende. Ha bran-
dura que parece severidade , & ha gente que melhor se dobra
com affabil idade & amor, que com aspereza & temor : & em
tal caso mais merece a misericórdia, & suavidade nome de jus-
tiça, c|ue a austereza & rigor. Entre os louvores que S. Ambró-
sio reconta do Imperador Theodosi o os de que faz mais caso sam
estes. Parecialhe que recebia beneficio de quem lhe pedia que
perdoasse ; & então estava mais per' ^ de perdoar quando a sua
ira era mayor. Desejavase nelle o que em os outros se temia. A l-í^ — 1.
sua cólera servia de boa esperança aos culpados, segíído aquillo
que o Prophcta teve por certo em Deos : Cu iratiia fncrís mhc~
ricordicE recorchiheris. E posto que tevesse poder sobre todos, an-
tes queria emmendalos como pay, que castigalos como podero-
so. A clemência de que usou em a terra , lhe ncgoccou a mise-
ricórdia que alcançou em o (,^eo. Desconhecese de homem , o
que nam sabe perdoar. A abcllia mestra que governando as ou-
tras uam tem aguilham cò que lastime, semeliia ho Hey cujo
S'j)tro deve ter severidade sem rigor, gravidade com clemência,
&■ suavidade de mel em a governança de seus \'assallos, os
quais então se lhe rende de boa vontade, & à competência lhe
obedecem , quando delle se vem governados com brandura &. a-
mor. Cem dularação, que por temer o ódio de seus vassallos,
& conservar amigos nà deixe de castigar seus vicios. Dito he di-
gno de Séneca : Odia rjui nimiuvi ihnct ^ rcgnare ncsclt. Néscio
he no rcgnar, o que lic nimio no temer. O mesmo philosopho
330 DIALOGO QUINTO
diz que nâo será pelo processo do tempo difficultosa a çlemêcia
ao Príncipe que nos annos pueris apreudeo servir a piedade. A-
quelle direito tem os Príncipes sobre os seus súbditos, que o Pay
tem sobre seus filhos. O Príncipe justo &. pio, pay lic da ])atria,
■& este foy o mais aceito de todos os títulos a Augusto César
Príncipe dos príncipes getios.
Jud. Muy imprópria he ao Rey a vingança. Adriano Impe-
rador tendo antes do o ser hu inimigo mortal , tãto que se vio
cò império, lhe disse : Náo tes que temer, ja me escapaste,
bem podes andar seguro. Palavras dignas de todo Imperador.
1 14 ;:. ]\^ada he menos próprio do verdadeyro Key , q a vingança , e
nenhua cousa lhe quadra mais que a clemência. Nào sòmete ha
de ser desarmado como o Rey das Abelhas, mas nem ha de
deixar o aguilhão em a chaga como fazem estes pequeninos ani-
mães. Como na merece ser Rey se não faz justiça, assi também
não deve regnar se não usa de clemência , nem se deve ter por
homem se he cruel , mas por leão coroado. Ay do tyranno , ôc
do seu povo, pois igual medo os atormenta de còtinuo. Não
menos teme os seus o tyranno, do que elles o temem. Sò esta
differença ha entre elles , que a miséria do povo se vè , & a do
tyranno esta escondida. Porem não doe menos a chaga por estar
cuberta de purpura, nem afíligem menos os grillioês de ouro
que os de ferro. Se o vestido do tyranno lie de fora dou-rado, de
dentro he afogueado. A serenidade do inverno, a frescura do
<?6tio, o repouso do mar, o sossego da lua, & o amor do povo,
se se coteja , todos sam igoaes. E se os perversos nam sam fieis
a Deos , nem ao Rey justo , quanto menos serão taes ao tyran-
no. Tira o tyranno aos seus a liberdade, & a si a seguridade,
& a elles & a si o repouso. E muytas vezes despoja das riquezas
aos que devera manter, & enriquece aos que devera despojar.
Teme aquelles de que se ouvera de fiar , & fiase dos que se ou-
vera de guardar. Faz injurias aos bôs, & mercês aos.maos. Aos
inimigos tem por amigos , & aos amigos por inimigos. Vive c5
temor & turbação do animo , nenhu manjar comem sem suspei-
ta, e nenhií sono dormem sem espanto, moram em casas fun-
dadas sobre área , tem a cama entre espinhas , & o assento en-
tre barrancos. Finalmête aonde quer q vão, & aonde quer que
l44i— 3. estão, onde quer que dormem, & em todo o tèpo que vivem,
esta dependurada sobre sua cerviz, a espada que mostrou Dio-
nysio ao amigo que de suas riquezas & prosperidade se maravi-
lhava. Tyranno era Dionysio cõ saber quã grande perigo era
selo. Forçado he que tema a muytos, aquelle a quem muytos
temem.
ylnt. OsReys para reger & fazer bem a todos subirão aoRey-
no & de reger tomarão o appellido. Cõvem que sejào de seus
DAS CONDIÇÕES DO BOM PUlNClPEt 331
■vai<?allos p?iys, & delles honrados & amados. O còtrario usão
os tyrannos , que como algozes & ladroes públicos sam dos seus
temidos & avorrecidos. Arte he sua, serem liberaes com pou-
cos do despojo de muytos, & tratarem os vassallos, nam como
pays, mas como rigorosos seíiores, e cruéis verdugos. Tam lon-
ge estava Augusto César, sendo senhor da terra tSc do mar, de
ser do numero destes, que por edicto publicou & deu sob graves
penas q ninguém lh(; chamasse senhor, & lhe nam faltou mai^
que reconhescer ao l^lho de Deos somente por Senhor, & j>or
hum sò altissimo. Guardou o grande Deos de tíxlos es Deoses
sua magestade , em querer que lhe chamassem senhor as creatu-
ras do Ceo, &. da terra : & o dito Imperador delia guardou sua
modéstia em nào querer que por tal o intitulassem. O que cu
justiça rege Óc se rege, esse he o verdadeiro Rey , mas o que do
mais alto Throno não pretende a saúde publica, se não seu par-
ticular gosto, interesse, & vingança, obedecendo em tudo à ré-
dea solta a seu deleite, ira, & cobiça, & dando lugar aos re-
batados & desenfreados movimentos & ímpetos de seu coração ,
nam he senhor , nem he Rey , nem deve reynar , mas he servo 144—4.
de màos senhores, indaque pareça mais alto que todos, & ande
muyto ancho & soberano cò o Septro de ouro & roupa de Pur-
pura. O perdoar &, esquecerse das offensas esclareceo a Júlio
César sobre Uxios os Principes , innumeraveis & grandes sam as
"victorias & gloriosos os seus tryumphos, & nam tem comparação
a sua excellencia na arte da Cavallaria, seu altissimo ingenho,,
sua clara eloquência , a nobreza de seu linaje , a disposição de'
seu corpo, a grandeza de seu invicto animo, & quando recopi-
larmos todos seus louvores, nenhua cousa acharemos nelle mais
sublime & realenga que a clemência e esquecimcto das offensas.
lí estas partes teve em tão alto grão, que justamente se pode
cantar em sua sepultura o que disse Pacuvio, guardei minha
condição inda que fosse causa de minha morte. A ira do varão,
mormètc a do Rey , nam obra a justiça de Deos como esta es-
cripto. He híi breve furor que se não ha de executar, mas re-
frear, porque nam leve o coração ao que nam he justo. Grande
pcnJcr he o nào jwder fazer mal , & ho jiroprio a Deos to<Jo po-
deroso. Bemaventurada he a impotência que nam pode fazer o
cpio dana. Muytos com seus mortaes ódios & desejos de vingan-
ça, iuerào mais mal a si, q aos outros.
42 «
532 DIALOGO QUINTOi
CAPITULOU.
Que o Rcy ha de serjuslOy íf %eloso da justiça.
Just. De tal maneyra porem sejão os Reys piadosos, que nam
145 — 1. facão côtra justiça cousa algua : pois esta he a que fez os pri-
Psah 81. meyros Reys. Temão aquella reprehensam de David : Usquc"
quo judicotis miquitatem ^ fácies peccatorum sumiiis? Convém
que seja oRey norte constante a quem nam cheguem agoas nem
ventos, isto he , que nem por ódio, nem por graça torça o teor
das leys. Cambyses Hey dos Persas severamente exercitou as pe-
nas estatuías pelas suas leys, mandando esfolar Sisanes, juiz q
por dinheyro violava a justiça; «Sc com sua pelle cubrir o Tri-
bunal em que se assentava Otànes seu filho que na judicatura
lhe succedeo. Certo he que todos os Impérios & Senhorios se
sustentão cm duas columnas, que sam justiça & verdadeyra re-
ligião : & que todos os Reys da terra sam lugar tenentes do Rey
do Ceo, & que reynão per elle, & que nam durará mais seu im-
pério, & felicidade, que em quanto lhe agradarem &, forem jus-
tos. Assi o contestão os livros dos Reys em muytos lugares. Co-
mo corrupta a raiz nam podem rebentar nem frutificar os ra-
mos : assi violada a justiça nam pode florecer a paz , nem dar
fructo de bem commum. Quando se não guarda proporção no
tocar das cordas da justiça, & na summa das leys que sam pré-
mios & penas, seguense muytas dissonâncias & desordens na Re-
publica. Por Deoses se intitulão na Sagrada Escriptura os Jui-
zes, porque devem em seu modo representar na terra o justo
juizo do Ceo. He a justiça fim da ley , & a ley obra do juiz, &
este he hiia imagem de Deos c[ue governa o Universo, a qual
se representa, não per industria dePhidias ou arte dePolicleto;
145—2. mas polo exercício da justiça. A Cegonha espedaça as Serpentes,
tira das covas os bichos venenosos & os mata & traga; sustenta
seus progenitores gastados da velhice , & os traz sobre seus hom-
bros quando nam podem voar. Hieroglyphico de justiça & Sym-
bolo significador de piedade. Dizem avcr hum lugar em Ásia
chamado Pythoniscomen , em o qual todas as vezes que as ce-
gonhas se ajuntão, despedação a que vem derradeyra de todas,
castigando em liua a ociosidade das outras. Assi se deve punir
os escândalos de toda hiia Republica cò castigo exemplar em
algum dos seus vesinhos. O Governador da Republica deve usar
de justiça «Sc misericórdia, beneficiando os virtuosos, «Sc punindo
Od viciosos, que com o veneno de sua maldade empeçonhentão
os outros. E nam basta mostrarense os Príncipes justos nas cou-
DAS CONBIÇÒES DO BOM PRÍNCIPE. ií83
sas alhèíis, mas he necessário que sejam exemplares, & se mos-
trem taes em as suas. Nam vem pouco a esle propósito luia fi-
nesa dignissima de elRey Dom Joam oTerceyro verdadeyro pay
de seus vassallos. Estando presente no feyto de hum Capitão da
Ilha de Madeyra, requerido, Ôc demandado pelo Procurador de
sua Alteza (como herdcyro de J-llíey Dom Manoel seu padre)
por quarenta mil cruzados que lhe emprestara : &. tendo ja Ires
votos por si , fiivoreceo o primeyro Des('ml)argador que votou em
contrario, íc foy à mào ao seu l^rocurador, que pedia liceiu^a
para contrariar o tal voto. }i Analmenle de nove Desembargado-
res que eram, teve sua Alteza quatro por si , & todos os outros
seguirão o voto contrario, que foy em favor do Capitão. O qu<;
visto fez logo escrever a sentenqa perante si , & ao outro dia 145 — 3.
mandou chamar o Desembargador que ])rimeyro votara contra
cJle , & lhe gabou seu voto, & Dio agradeceo muyto , mandan-
dolhe que o fizesse assi sempre , posto (jue as causas fossem suas.
I3astava para confirmação do zelo da iusti<;a deste sanctoRey or-
denar novamente mesa do Despacho das cousas de sua consciên-
cia , 6i eleger para isto Letrados Theologos , &: Juristas , onde
se tratava, & trata inda agora dos descargos das almas dos Prín-
cipes deites lieynos. Nem basta ser o Príncipe zeloso da jubliça,
se os seus ministros o nam sam. Cahio em terra &. desfezse a es-
tatua de Nabuchodonosor tendo a cabeça de ouro, por que os
pees erão de barro , & forão tocados da pedra : assi cay muytas
vezes a justiça porque dado que o Príncipe que he cabeça seja
justo & sancto, os seus oflkiaes sam terra, & barro por sua cobi-
ça, & com o toque de qualquer peita dão com a justiça daves-
so. ElRey Dom Pedro cognominado cru fez ley que nenhum
official de justiça recebesse cousa algua de pessoa que cõ clle ti-
vesse negocio sob pena de morte , & con fiscação de todos seus
liens para a coroa. Inform^sC o Rey ameude de como se admi-
nistra os ofl'icios da Republica , & per si conheça das causas co-
mo faziào Pliilippo, & Alexandre seu fdho. O sobre dito Rey
Dom João o Terceyro destes Reynos costumava acharso cos seus
Desembargadores aoDespaclio de todos os casos que erão de fina-
lidade, & em especial dos feitos crimes de vassallos poderosos,
cujos insultos & exorbitâncias rej)rimia & castigava com rigor, 145 — d.
inda que fossem aparentados cos grandes, assi dos seus Reynos
como dos de Castella seus ve/inhos. Sam Luiz Rey de França
duas vezes em a somana subia ao Tril)unal para ouvir as causas
dos pobres, & viuvas. Tenha o Mty faciles entradas & píjrtas
abertas j)ara ouvir a todos, & dè ordíun para que nam gastem
os pobres o cabedal primeyro que sejão admitidos à sua presen-
ça. Os Antigos Reys de Pérsia vivião escondidos, porque vistos
poucas vezes fossem mais estimados, o que deve ser muyto alhco
Sâ4 DIALOGO QUINTO
dos Príncipes Christâos. Híia velha pobre requerendo a Philíppo
Key de Macedónia que a ouvisse, & respondendo elle q narn
tinha tempo , replicoulhe a velha. Pois nam tendes Senhor
tempo para ouvir partes, nam queyrais ser Rey. Despertado
Philippo com estas palavras, ouvio a velha, & a quantos lhe
quiserâo falar. Outro tanto dize que aconteceo a Adriano César,
O mesmo Rey João Terceyro senhor nosso, era em muyto es-
tremo facile , &. suffrido em ouvir os aggravantes , & partes que
lhe querião falar , & em dissimular suas desconcertadas falas , &
despropositados requerimentos. Deve temer muyto o Rey que
por nam serem os pequenos 6c pobres facilmente ouvidos, dei-
xem suas causas a Deos, & appellem pêra o grão juizo fmal
vendose opprimidos dos que mais podem & nam achando quem
HccI. c. 4. lhes valha & os console. Miséria c|ue lamentou Salomon no seu
Ecclesiast. Sara escandalizada de Agar sua serva soberba, as-
sombrou Abraham com aquellas palavras : Julgue o Senhor en-
tre mim , & ti. O Sol he commum a todos, nem tem particu-
14G — 1, laridade com pobre nem com rico : assi o Rey nam ha de res-
peitar pessoas , se nam os momentos das causas & negócios , pos-
to que sempre deve ser mais inclinado a mitigar as penas,
quanto a justiça o sofrer. E isto será quando a parte lesa desis-
tir da accusação; que então fica no arbítrio do Juiz supremo re-
laxar ou comutar a pena do direito , com tanto que o delin-
quente nam seja useiro em semelhantes delictos , nem pernicio-
so à Republica. Antes quando a parte remite o direito que tem
contra o reo, deve advertir o Juiz, & prover de modo que nam
fique lesa a justiça, & injuriada a Republica. Muytos ha que
com misericórdia inconsiderada favorecem peccadores, tSc os li-
vrão das mãos dos Juizes , fazendo manifesta violência às leys
sanctas & justas. Os Philosophos antiguos assemelhavão o Rey
ao Sol que com seu movimento rodeg toda a terra , & a lumia ;
no que denotavam o cuydado & vigilância que o Rey deve ter
sobre seu povo. Metiãolhe na mão hum Septro , sem tortura,
sem folhas , sem noos , nem esgalhos , significando que a sua
justiça devia ser muy recta & nua de affeiçôes, & payxões. E
para significar a firmcsa & constância delia, pintarão Marte (pe-
lo qual significavão o Principe) vestido de hiia túnica adaman-
tina , & querendo dar a entender quanto se devia presar de ver-
dadeyro, poserão sua estatua, no lugar onde estava sepultado
ElRey Simandio, que tinha pendurada ao collo a verdade como
joya preciosa em que o Rey pregava os olhos. Isto deixou em
- memoria Diodoro Siculo. Entendão daqui os Reys a obrigaçam
cjue tem a nam se moverem em o governo per payxam & von-
146 — S. tade danada, nem se entregarem a apetites desordenados; mas
pretenderem tudo o que pede a rezam, & verdade, & nam o
DAS CONDIÇÕES DO BOM PBINCll'IÍ, U35
que deseja sua solta vontade. lia miiylos que fazem da Icy rc-
(la, regra Icsbia de qtic falia Arislolcles, a qual sondo de
chumbo se deyxa rcp,idar das jjíiredes, a\cndoas dia do regular.
Taes sam os que com titulo de justiça cxecutão suas vinganças,
& per ódio ou amor se inclinào a híia parte ou outra : dos quacs
/azia pouco Sam Hieronymo que diziíi cm hum dos seus prólo-
gos sobre aBiblia, Prccscnihnn judiãwn parum me movct , qno~
fúmn m alteram partem aut amure labinitiir aut adio. Tcnhomc
eu com o Tribunal ditquellc eterno Juiz onde esta salva a ap-
pellaçam do justo, & onde se dão as s(!ntenças verdadcyras, &
as falsas se soem romper, & ninguém lie condenado nem absol-
to centra o que pede a razam & justiça , mas a innocenciu se
prenica , & a culpa se castiga. No vicio castigado, junta anda a
justiça com o peccado , & com hum grande mal anda hum
grande bem, mas no vicio nam punido, andam juntos o pecca-
do & a soltura pêra pcccar, que he raiz de muvtos males. E
devese advertir que muyto mais tolerável he, ser condenado sem
culpa que com ella , porque ao innocente somente o tormento
he penoso, & ao culpado, o tormento & a causa delle. Quey-
xandose Aantipe molher de Sócrates que s(ui marido morria sem
culpa, elle lhe respondeo : como? & querias tu que fosse eu con-
denado por minhas culpas? (írande sinal he de innocencia q o-,
culpados nos condene. Nam ha animal mais peçonhêto q o juiz
injusto, &. o Key tyrano, cujos ouvidos andàa desemparados da 14C— 3.
verdade, &, cujo coração está sepre acõpanbado de sobrcsaltos,
dos quaes níica vive isenta a cõsciencia daquelles q nam faze o
C\ devem. Guardenos Deos de vermos embalançada a balança
da justiça por cdio, por amor, por ira, vingança , & cobiça, e
de sermos governados por príncipes dados ao sono, 6c entregues
ao descuido, cuja vontade manda mais, cjue a justiça &. que
a verdade,
t.V«>«,V^ VVV«/V% VV«I VVVVVli VV\ «/V% VVV VV V «/VV ^VV «>V\ tfVl %V» VV\ %^'V «.'VV «/V^ V' V\ V%f% VVIV
CAPITULO IJI.
Que deve vigiar o Rcy.
Ânt. Quando os povos rõcão devem velar es Reys, & os Ca-
pitães, Cjuando o exercito mais dorme. Os vigilantes cuidados,
dos Governadores pedem. De Augusto César se diz, que era de
pouco sono, & muytas vezes interrompido. JMuyto necessário he
ao líey velar, & desvelarse sobre seus ofjiciaes para boa admi-
nistração da justiça. Que ser Rey , he cousa divina, disse Aris-
tóteles , íc não se compadece cO ella dormir sono alto , & segu-
-33t) DIALOGO QUINTO
TO , fazendo conta q velam seus Desembargadores. Vele o dra-
gão que guarda o vello de ouro. Silio Itálico introduz Júpiter,
dizendo a Annihal.
Tnrpc (hici fotam f^omno comsnmerc noctcm ,
O redor Libice , vigkli stant bclla maghtro.
Torpeza he no capitão gastar toda a noite em sono. As guerras
14G — J. entam tê bõs successos quando os capitães vigiam i Devese pintar
o Príncipe à maneyra de pensativo, pois he próprio seu cuidar
por todos os seus, e ser sua sobrerolda. O fim a q ha de tirar
ha de ser fazer seus súbditos bõs , & encaminhalos para a felici-
13. q. 92. dade segundo resolve S. Thomas. Nam merecem o império
ar!, i. quaesquer Príncipes, senam os q geme de baixo da prefectura,
Nuvi, 11. como Moyses q queixandose a Deos dizia : Porq posestes, Se-
Poí. l'ib.7, nhor, sobre ml o grande peso da governança de lodo este povo?
cap. 4. Donde se segue a verdade do q Aristóteles escreveo q na era a
republica melhor por ser maior; mas tanto delia se devia encar-
regar a hum Príncipe, quanto elle per si, ou pelos seus podesse
comodamente governar. Obrigados sam os príncipes a velar mais
por melhorar seu império q polo ampliar. Dizia Theopompo q
pouco hia em deixar o Rei maior Reyno a seu successor, com
De Civit. tanto que lho deixasse melhor : & Sancto Agustinho, que dila-
hb, 4. cap. tar o Reyno domando as gentes parecia aos màos felicidade, &
15. aos bus necessidade, porque a sem rezão dos inimigos obriga os
bõs a que os somelão sob seu império. Deos nos livre de Prín-
cipes buliçosos c{ue nam cabem em seu estado, nê tratão de o
ornar , se nam de lhe espassar , &, estender os términos , íc tudo
cjuerem abarcar.
Just. Gravemente disse híí Legado de Dário a Alexandre
Cuiimsab. Magno : Perigoso he o grande império, difficuUoso he ter cõ
4. firmeza o q na cabe em ti. Os navios que excede o modo e me-
dida nam se pode bê governar : & ja pode ser que o mesmo Rey
Dário perdesse seus Reynos, & thesouros, porque as demasias
147 — 1. abrem portas a grades perdas. JVIais fácil he vêcer algíías cousas
que conservaías, & sabido he que as nossas mãos rebatão mais
do que retém, & que quando querem abarcar muytas cousas,
apertão & recadão poucas. Homero chamou ao Rey pastor de
povos, &. cõ muyta rezão, porque o pastor mais he das ovelhas
que seu próprio, & tal convém seja o Rey. Servo he de todos
• seus súbditos o Rey , ha se de esquecer de suas cousas , & de si
mesmo & acordarse do seu povo. Começando a ser Rey , junta-
mente ha de começar a morrer pêra si , & viver para os seus ,
inda que desagradecidos. Costume he do povo avorrecer o presê-
te, cobiçar o vindouro, & honrar o passado. Por onde se a mi-
'• seria do rey fosse bem conhecida, nam contendirião tão ameu-
de dous sobre hum Reyno, antes averia mais Reynos q Reys,
DAS CONDIÇÕES DO BOM PRIKCIPE. 337
í.'onforme a isto disse Platão q ningue tinha menor parte em o
l)ò lícy, que elle mesmo. lie olho q sempre hu de vigiar para
seus vassalos poderem seguramente dormir,
yínt. Seguras dos Lobos andavào as ovelhas de Labào quando
o sono fogia dos olhos de Jacob : tal pastor como este convcm
ser o Rey , que vigie, vele, & se desvele na guarda de suas o-
'velhas , que não reparta , exercite o cuidado delias per muitos
ministros sem ser jíarte nelle , que seja mais delias, que de si
mesmo, & sedolhe possível elle per si as guie, reja, paste, a-
brigue , cure, trosquie, & cmpare. liecolhe o bom pastor as
ovelhas espargidas, encaminha, & traz ao seu rebanho as des-
carriadas, & assi as trata, guarda, apascenta, & defende q se
nào pode dizer delias pareeere ovelhas sem dono , q não tem
pastor, ne que olhe por cilas. Os Egypcios para representar a
obrigação do Key punhão sobre o Sceptro hum olho pintado, 147 — 2.
dando a entender que o que são os olhos no corpo, ha de ser o
1'rineipe na Republica. Deve ser o Key híia imagem viva de
J)eos, q he poderoso, tudo vè, não se corrompe com affectos,
íaz bem a todos, castiga como forçado, administra o Universo
para nòs, & nam para si, & o premio que pretende disto he a-
proveitarnos. Na basta para ser bom Key , nascer Key. Em
Homero chamou Achilles a Agamcnon tragador, & consumidor
dos povos. Senão somos tão perdidos como outros, & se a terra
não está tão estragada como outras nações estão , he pela miseri-
córdia do Senhor, que nos deu Príncipes Catholicos, que tê
mão na religião , & favorecem a sanctidade ; q se isso nam fora
porvetura q não faltara que fizera seu officio cõ tãta soltura ,
como se faz è Inglaterra.
Ju&t. Quãtos ministros, 6c officiaes dos Reys por se mostrarê
servidores da coroa , embaração a justiça da Igreja ! Religião , &
Justiça , & não sobra de interesse falso côfirmão o estado real ;
fortalecem os reynos, dão illustres victorias, acrecètão os verda-
<3eyros bes, quaes sam os s})irituaes & nos prove dos tèporaes;
cilas amãsam a fúria do mar, quebrãtão as forças dos cossa-
ri<js, &. finalmète te sèpre a Deos em sua còpanhia. Pelo q he
íoreado q todo o Príncipe justo, &. religioso seja glorioso & l)ea-
\enturado nesta vida, & na outra, em q muyto mais nos vay,
])uis he divina, & sempre dura. Pelo cuiiarío a injustiça, &
falta de reli«TÍão tudo arruina, consume, & estragu. E assi que
zela a justiça, & serviço de Deos he leal criado do Rey. E quem
■negocea cò elle que a nam faça , he inimigo mortal de sua al-
ma, honra, íc fazenda.
43
338 DIALOGO QUINTO
CAPITULO IIII.
Quaes convttn sejão as Ici/s , ^ os que as excculâo.
147—3, ^nt. Ha Reys que ordenâo multidão de leys, das quaes se
nâo colhe outro fruito, senão viverem os bãs em cerco, que nam
hào mister leys, & os mãos terem mais leys que desprezar. Isto
he atar as mãos aos bòs, & sollalas aos mãos. Erro he multipli-
car pregmaticas , & publicar cada dia leys , nam sendo necessá-
rias ; pois para a ley ser justa , como diz Isidoro , ha de ser ne-
cessária. E de as leys serem muytas toma occasião a malícia do
povo para serem mal guardadas, porque sempre desejamos o que
se nos nega. Nã se entende isto dii^s leys deste Reyno, das quiies
ouvi dizer a hum esclarecido Doutor , c|ue nam vira outras mais
doctas, & compendiosas, ne de mais rara prudência. As leys
que se devem abreviar , sam as que nam servem de mais , que
de occupar todo o tempo aos julgadores com as devassas que so-
bre ellas se tirão, & as mais que sam justas, sanctas, & hones-
tas , possíveis , & necessárias , haja tal guarda nellas que tenhào
força coerciva , & acabadas de promulgar nam se comecem a
quebrar. Nam sejão teas de aranha, que nam prendem mais
que moscas, & mosquitos; isto he que não se executào nos gra-
des, & ricos, mas nos pobres, & desvalidos. O que causa a,
malícia , o pouco ser , & zelo dos ministros da justiça , & a fa-
cilidade cô que os Príncipes dispensão, & perdoão aos transgres-
sores delias. Destas raízes nasce a multidão que ha de ladroes
147— >4. nas líespublícas , as artes para injuriar, & danar, as forças, &
enganos, de que estão cheas as ruas, & encruzilhadas. Daqui
A'em estarem os caminhos atalhados de salteadores , & bandolei-
ros , por temor dos quaes , he hoje deshabitada gram parte da
terra, & se deixão de ver muytas coiisas fermosas do mundo, &
tudo se dissimula. He tão grande a froxesa da justiça humana,
que tè nas terras pacificas não faltão em cada lugar roubadores ,
& sob color de justiça, & titulo de guardas, a que chamão di-
reitos, & foros, ao solícito, & cansado caminhante, carregado
de cuidados, & receos o despojão do dinheiro que leva. Ja se
não pode andar por diversas partes , & lugares a ver as cousas
notáveis, que nelles ha, sem muytos enfadamentos, muytos
custos , &. perigos. Deste modo os Governadores injustos , por
nam executarem as leys vendem per pouco preço os bõs costu-
mes , & publica liberdade. Que direi das guardas supérfluas , &
dos passos tomados , & cercados , & como tudo está cheo de sus-
peitas j & do interdicto que ha na communicaçào dos homês per
DAS CONDIÇÕES DO BOM PRINClPl!, 339
cartas, refrigério singular dos absentes? nam basta pêra se com-
prirem as loys das passagens, mandar hum Bacharel com alça-
da, & mero mystico império; pois vemos que como sam nas
comarquas se tornâo Imperadores de Pentecoste; &. nam traba-
lhão jDor mais, q por aver dinheyro para cobrarem seus salários,
& tão remissamente se dam na execuçam delias, que no tempo
que elles andão pelas Comarcas, andam os passadores mais des-
embaraçados, &. se paísâ mais mercadorias, «Sc ao Key se furta
muytcs mais mil cruzados, que os ordinários de cada anno. E
Deos sabe o porque. Nam se deve cometer a guarda das leys a H'J — 1.
Letrados encadarroados , 6c mal considerados, se nam aos que
forem inteiros, que sejão temidos dos grandes, & píxlerosos, q
encorrem nas penas delias. E fazendo se assi sobejarão as carnes
no Reyno, & as alfandegas dos Portos seccos renderão muylo
mais. Desta mane\ra nam perecerão os povos per falia de car-
r.es, havendo tantas em o Reyno. Zeleuco Legislador dos Lo- P^akr. VJb.
crenses tendo publicado ley contra os adúlteros , sob pena de 6.
lhe serem arrãcados os olhos , sendo depois côprehedido e adul-
tério hii seu filho o cõdenou ê privaçã de ãbos os olhos. E pe-
dindolhe o povo cò muyta instancia que moderasse sua sentença,
e lhe perdoasse : tomando primeyro têpo pêra deliberar, acor-
dou que lhe arrancassem a elle hum olho, & ao Principe seu
filho outro : moslrandose alapar pio pay . & juiz severo. E assi
de tal modo moderou o castigo , e modificou a ley , Cjue ambos
ficarão com híia vista , & em ambos se executou a sentença. A
taes julgadores como este se deve encomendar o governo, & a
letrados de gravidade, experiência, & authovidade. Princípios
de instituía, & o primeyro do Codego não bastão pêra serventia
de cargos , que pertencem a homès de hora , & consciência. Por
nossos peccados vemos que a justiça ja he de veda , & os mais
ardilosos, que melhor a sabem vender, esses estão mais aprovei-
tados, & sam os mais ricos, & poderosos; segundo as mãos dos
julgadores sam largas, ou aperlad.as, assi se prolongão, ou abre-
viào os negócios & se restringem , ou espaçam as causas , per
mais que as leys sejão poucas & compediosas. Passo per avoga-
doà que com suas replicas, embargos, vistas, revistas, & dila- 148 — 2.
ç«jes para fora do Keyno, causam as d<;mãdas dos pays ficarem
por heranças a seus filhos, & nunqua sairom da linlia como mor-
gados : & as despezas , & gastos dos feitos serem mores que os
fructos & interesses das sentenças. E o pcor he que primeyro
vasam as bolsas aos pobres, que rasoem & determinem as causas.
Querendo Elrey D. Pedro o cru atalhar a tamanho dcsalma-
mcnto (1(^ avogados que per vias injustas causam & prolongão as
demandas e contendas, mandou que nem na sua corte, ne em
lodo seu Keyno os ouvcsse : ordenando taes ministros & officiaes
43 «
3'l-0 DIALOGO QUINTO
da justiça qne n,? partes eram despachadas c" presteza. E tam
boa ordem se guardava em sua Corte & Desembargo que no
mesmo dia em q as partes apresentavão as petições , ou no se-
guinte havião de ser despachadas, &, suas cartas feitas, assina-
das, & selladas.
De Lcg'th. Just. Verdade he o que disse Plato que a governança das
lib. 7. leys escriptas não he a melhor ptn-q saõ hiias & não se mudão,
c 03 casos particuhrres sam muitos , & por horas se varião segado
as circunstancias , dõde vem não ser justo em particulares casos
o que em còmíi se estabeleceo com justiça. Tratar somente com
a ley escrita, he como tratar cõ hu home cabeçudo. A perfeyta
governãça he de ley viva que entenda sempre o melhor , & que
queira sempre o bem que entende. De maneyra que a ley seja
o bom &. saõ juízo que governa òc se acomoda sempre ao parti-
cular de cada hum.
Ant. Mas este governo nã se acha em a terra, porq nenhíí
dos cjue em ella ha, he nem tão sábio, nem tão bò que ou se
148 — 3. não engane, ou nam preteda fazer o que não he justo : por isso
he imperfeito o governo dos homês , & o do filho de Deos he es-
tremadamente perfeyto. O qual como seja perfeitamête dotado de
saVjer & bõdade, nem erra em o justo, nem quer o que he mao-.
E assi sempre vè o q a cada hii convê, & como S. Paulo de sy
diz , a todos se fazia todas as cousas pêra ganhar a todos. He a
ley meyo cò que se governa o reyno, do comprimento da qual se
consegue, o Rey ou fazerse rico, se he tyrãno , ou fazer l)õs &
prósperos os seus , se he Rey verdadeyro. Por rezam da fraqueza
dó home , & da sua incendida inclinação ao mal trazê as leys
pela mayor parte híi grande inconveniete consigo, & he que
sendo a intêção dos q as estabelece ensinar por ellas o que se
deve fazer, retraher o home do que he mao & induzilo ao que
he bom, resulta delias o contrario, porq o vedar qualquer cou-
sa he despertar o apetite delia. E assi o faztn- «Sc dar leys he
muytas vezes occasião de se nam guardarem , & se peyorarem os
homês cõ aquillo que se inventou & ordenou pêra os melhorar.
Sò a ley de q Christo usa com os seus, assi os ensina ser bôs
que de feito os faz taes, &. isto he o principal, & próprio da sua
ley Evangélica : porq nam sò alumia o entendimento , mas
tambê affeiçoa a vontade, & ministra forças pêra se poder guar-
dar. A verdade nesta matéria he , q mais importa aver nos
Keynos & Cidades, bõs Governadores q boas leys, porq estas
•estão mortas , senam ha quem as execute , & os bõs Governado-
res com ellas & sem ellas sempre sam leys vivas.
DAS CONDIÇÕES DO BOM PUINCIPE. 3'il
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CAPITULO V.
AxÀso fera os Jnhes e Dcstijargadores,
Queira Deos não quadre a este Reyno a lamcntaí^ao de Isaías HP — 1.
sobre íiiírusalem. ¥oy tempo que a Justiça eru ti morava, & Caj'. 1.
agora a injustiça. Os teus Prineipes, & Governadores sam iiiiíeis
& accn panhao ec m ladroes, todos amão peytas tSc se deixão le-
var de interesses indevidos, & respeytos ilíicitos. Nào fazem jus-
tiça aos orfaús , &. pupilos , nê abrem as portas às causas das
viuvas que nam enlrào em suas casas. JVhis eu te reslituirey os
teus juyzes, & conselheyros antigos (diz Deos) & depois disso
feito serás chamada Cidade do justo, & Republica fiel. Das
quaes palavras se segue nâo ser Cidade de Deos, nem avcr leal-
dade no Keyno, onde nam ha justiça, nem se dá a cada hu o
seu. Oução CS Juljiadores, & advirtão o aviso que lhes esta dan-
do o Spirito Sancto pola beca do Psalmisla , que diz assi : Pos Psnl. 81.
se Deos de perto pêra cõtcmplar as operaç.res, «Sc acções dos que
julfiào , quis ver, & examinar, & censurar os juyzos, &. senten-
ças di.quelles que tem suas vezes na terra, na junta, & congre-
gaçam dos quaes está elle como primeyro, & supremo Juyz.
CoHK) Deos he líey dos lieys, Ôc Senhor dos Senhores, assi tam-
be he Juyz dos Juyzes, & Desembargador dos Desembargadores.
Entre elles está a sua magestade, com elles absolve o innccente,
& condena o culpado. O Juiz he Deos (dizia Moyses) & ILlPcy \.fJtiifA7.
Josaphat fazia a mesma lembrança aos Julgadores de seu povo, cap. li*.
& lhes dizia : Deos está convosco em as cousas tocantes, & per- í2. Parali.
tencentes à judicatura que exercitaes. Cousa he di^ina tSc nam
humana a administração da Justiça. E por isso te os q julgào
nomeada de Deoses, porque estabelecem, firmão, & defendem 149 — 1.
as leys, & juizos de Deos em a terra, &. representam sua pe-soa.
Porem devese advertir que se os Magi>tr;idos , »Sc De-eml»arga-
dores julpão o povo, também Deos os julga a elles. Saibão que
nam pode escapar de suas mãos, se vendere a Justiça, & nam
fezerem bem seus officios. Elle os argue , acusa , &, reprehende
cò as pala\ra3 seguintes. Usqneqvô judiailia inujuilalc òf Jacus Psal. ÍjI.
pcccatorum sumitis? Ate quâdo hão de ser injustos vossos juizos ,
& aveis de favorecer es que nam te justiça em o q dí mandam?
Ate quando em graça dcs mãos, &. poderosos aveis de condenar
os bõs, &. os desvalidos que menos jxide , respeytando nam as
causas, nem o momento delias, nè o dereyto, mas as peitas,
& pessoas? Julgay em favor, & cómodo dos pobres, dos humil-
des, (Sc pequenos opremidos injustamètc dos grandes, juslificayos,
342 DIALOGO QUINTO
absolveíos, tendeos em vossa tutela, & sob o vosso empavo^ day
a sentença, defendeyos das injurias & forças que lhes fazem os
soberbos : nam permitaes que lhe roubem o seu , & façam presa
em seus bes, & pessoas : julgay segudo as leys justas, nam per-
vertais o juizo, & nam vos deixeis cegar das dadivas dos ricos,
Psal. 61. & ardis dos maliciosos, nam cobiceis rapinas. Ego dixi Dii eatiSy
C) filii cxcclú omnes; olhay que vos ouve por dignos do meu no-
me , & apellido por rezam da dignidade , e excellencia de vos-
sos officios , que vos faz parecer não homês , mas híis Deoses ter-
restres , & filhos daquelle Senhor q tem o seu assento , & Real
Throno ê lugar mui alto & sublime : & q em fmal aveis de
morrer como qualquer outro homem & vilissimo, sem vos poder
149 — 2. valer vossa magestade , potencia, & dignidade : & ainda q na
morte ajais de ser iguaes híís , & outros , a conta que dareys de
vos, &, a que Deos vos ha de tomar será muy desigual, será
mais estreyí.a , tSc o castigo mais riguroso. Potentes potcnter tor-
Sap. 6. inenta jxitkntur. Sereis precipitados no inferno como Iilí dos ty-
rãnos & príncipes das trevas q nelle sam atormetados cõ exquisi-
tissimos , e gravíssimos tormetos , & penas insofríveis. Sicut unus
de Pri7idpibu» cadetis.
Juat. Corre as cousas de maneira, & ha tanta injustiça na
terra , q nos convém chamar por Deos que nos acuda , & dizer-
Ihe com o mesmo Propheta, Exurge Domine, judica terram qiíO'
niain tu hwreditahis in omnibna gentibus. Levantayvos Senhor, &
julgay a terra, ocorrey a tantos males, & misérias humanas,
sois o herdeiro legitimo das gentes , & Senhor de todos os Seiio-
rios, & por esta rezão deveis fazer justiça na terra, & apiadar-
vos do vosso povo.
y^nt. Algíis dos Hebreos mudam o verbo , Hcereditahis , desse
verso em o tempo presente cõforme ao sentido que seguistes.
Mas a outros parece melhor nossa lição, & que a conversam se
faça ao filho de Deos, a quem seu Padre Eterno constituyo Juyz
do Universo, & por quem fez os segres, & criou o Mundo, &
ii quem pertence a herança, & juizo de todas as gentes, pêra
que venha remediar suas misérias, conforme àquella Prophecia
de David, que em i^essoa de Deos Padre disse. Dabo tíbi gentes
in hcereditatem tuam : E aquellas palavras de Sam Paulo ad
HebríEOs, Que condituit hceredem universo mm per que fecit sco-
cida. E ao que Christo de sy diz no Evangelho : Omne judicium
1.1.9—3, dcdit mihi Pater. O que se ha de perfeiçoar no seu ultimo ad-
veio, & no seu Reyno se achara a verdadeyra justiça, & cons-
tante felicidade.
Jíist. Deve Icbrar aos Reytores, & Regedores da Republica
que a misericórdia sem justiça he pusillanimidade : & por tanto
1 . Rrg, ló, foy condenada a de Saul que contra o mandado de Deos per-
PAS CONDIÇÕLh DO nOM fliKNClI'E.f||^ 343
doou a Elrey Agag : & q a justiça sem misericórdia lio cruelda-
de. A verdadeira justiqa (diz o Papa S. Gregório) he compassi-
va : & se na tem compaixão (a qual descende do coração, »Sc
das entranhas) he fal-a, &, deshumnna. Estão em Deos juntas
a potencia , «5í a bondade , a verdiíde , & a piedade , a miseri-
córdia & a justiça : & por isso David o louvou juntamente de
ambas estas virtudes, Misericorcham í:^ jndiciú canlaho tibi Do- Pstal. 100.
mine. O Poeta C(jmico avia que era home, porque não tinha
por alheos os trabalhos, & misérias dos homes. Ser o Juiz justi-
çoso, & riguroso na condenação dos criminosos, & deleitarse cõ
as suas penas, mal he , & perversidade da natureza humana.
Pore nam será o vigor crueldade quando ])rocede do bom zelo :
isto he de hii fervor do animo por ver as cousas mal feitas, qual
era o de David quãdo via os mãos prosperados, & os Ixis aca- l^sal. li.
nhados. Este o cõpcllia a q fezesse a Deos esta petição , Non
unhcrearis omnibus qui crperantur iniquitatem. Este faz que o Psah í>n.
justo se alegre em a vingança dos peccadores, & lave suas mãos Psa/. ò7.
ê seu sangue, não cõ amor de vingança, nê por escarnecer dos
aftligidos, mas co zelo de justiça, & gloria de Deos. A chari-
dade o faz côdoer da tribulação dos mãos, & a justiça o faz fol-
gar pcrq nella vè illustrada a gloria de Deos. Tal Iby o zelo de Psal. 101.
Phinès quando matou o Israelita deshonesto, homicídio de que 140 — 4-.
Deos se ouve por muito be servido , q elle aprovou , &. remune-
rou , porq se fez cô zelo de sua honra, & bem comum do seu
povo, q seguindo o mao exèplo fora castigado, se o pcccador
que o deu nam fora punido. Este be tem a crueldade inda que
còtraria a nossa humanidade , que he proveitosa pêra gente des-
enfreada , & freyo, &, temor pêra os viciosos, e mal acostuma-
dos. Convém aos que não «^íibem amar, q saibão temer. Não
ha Senhor tam cruel, que não seja muyto mais o deloyte síisual.
Aos malfeitores he muy danosa a sííguridade : perto está de cair
quem nada teme. He tão grande be pêra os povos a execução
da justiça, que aos q a executxio actualmente , não sò com pa-
lavras, mas cõ obras (na virtude das quat^ cila consiste) dà o
Propheta David o seguro que se segue. Ifijcrcdúalem suam non PíCiL 9Í5.
<l<rclinqnet , quoadnsque jusiitia convcrlutnr in jndlchun .
^nt. Mas que justiça, &, que «'quidado pode aver onde as
penas das condenações se partem entro os rendeiros qu(í as re-
querè, & os juizes que lhas julgão? J'^ o peor he que se sofre , &
passa sem ser punido, hu mal tamanhíj, & tão prejudicial ao bõ
cômíi da Kepublica. O qual nc per via das residências tem re-
médio, porque os q as dão, & os q as tomão se faze as barl)as
hiis aos outros , & nam saõ livres , ne desent(!ressados , «Sc incor-
rutos em seus officios. E nunca faltão padritdios da iniquidade,
que tomào as portas, & não deixam entrar os q vti denunciar,
311 MÊ^ BIALOGO QUINTO
& se vê queixar destes & doutros roubos , agravos , & semrezòes ,
donde vem não aver emenda nos Juizes desalmados, porque nè
lóO — 1. o amor da virtude os obriga, nem o temor da pena os reprime.
Kesta q chamemos polo Senhor que nos pode remediar , que re-
corramos a elle , «Sc lhe peçamos que nos valha , & proveja de
justiça, &, use cõ nosco de suas infmitas misericórdias por quem
elle he : & que nos dè julgadores que assi julguem como se logo
ouvessem de ser julgados, & se lembrem que hum he o Juiz de
todos , hii he o tribunal sem corrupção , ante o qual todos ave-
, mos de aparecer, & cjue se injustamente julgarem, nè lhes ha
de aproveitar o dinheiro, nê graça algua, nè testemunhas fal-
sas, nem injustos rogos, ne vas ameaças, nem elegantes, agu-
dos , & facundos avogados , por mais que armem as lingoas com
cautelas, & malícias. Estem as portas dos juizes sempre cerradas
aos serviços, & abertas aos pleitos das viuvas, & pessoas desem-
paradas. E nam se esqueçao daquelle dito do Sábio, ja allega-
do, que «e forem desobedientes à ley & vontade de Deos, serão
Psa/. 1 19. mais rigurosamente punidos. O que he cõforme ao que David
prophetizou , q no ultimo juizo os Sanctos por hua parte exal-
çarão a omnipotência , a grandeza , & bondade de Deos , honra-
rão sua immensa magestade (o que delle somente podem côpre-
hender ) louvalohão em si mesmos fazendo lhe graças pola ma-
gnificência & piedade, de que com elles usou. Trarão perpetua-
mente na boca pregoes & exaltações de seus louvores. Exalta-
iioncÁ Del In guttnrc connn , segundo a melhor lição. E por ou-
tra parte , Gladii anclpites in manibas eorum , terão ê suas mãos
espadas de dous gumes, & de dous cortes afiladas como navalhas
para cortar polas carnes das nações & povos que o não quiserão
150 — 2. conhecer & servir. E para que nam cuidássemos q a pena dos
grades , & dos pequenos , dos Reys & dos vassallos , dos infeiio-
K^s & superiores ê o povo avia de ser geral , & igual a todos ,
depois de dizer q as taes espadas lhe servirião de tomar vingança
dos inimigos de- Deos, particularizou esta vingança addèdo, ad
alligandos reges corum in compcdibus , àf nobilcs eorum in manicis
ferreis ; Fecharão os Sanctos em cárceres escuros & tenebrosos ,
porão em prisões , cadeas de feiro , & cruéis correntes , meterão
nos troncos, carregarão de grilhões, & algemas os pès, & mãos
dos Reys, Príncipes, nobres, & julgadores que governão os po-
vos : Ut faciant in eis judicium conscriptum , a fim de executar
nelles com mòr rigor a sentença por Deos dada , o juizo por elle
ordenado , definido , & determinado : Gloria hcec est omnibiis
sci72clis ejus. Isto terão os Sanctos por summa gloria & hora, &
o dia em que forem ministros desta vingança será para elles
honroso , festival &. glorioso. Este seu gosto & prazer encareceo
mais David em outro Psulrao quando disse , Lwtabitur jusíu»
T)\F rONDIÇÕrS DO BOM PRÍNCIPE. 34í)
cum vuferlt vindictam, rnanus suas lavabit in sangrúne peccaloris»
Saltarão de prazer os justos quando TÍrem a Deos vingado das
offensas q lhe omerem feito os grandes peccadores, farào festas,
& lavarão suas màos com grande alegria, tSc con te ta mento, em
o seu sangue : isto he faraó das suas penas & torniètos agoas &
banhos de sangue em q se recrearão, 6: lerào seus passatempos
como zelosos da honra de Deos , & da rectidão , & inteireza de
sua justiça. Nelles banharão & lavarão suas mãos, mostrando
melhor que Pilatos no lavatório delias sua innocêcia , & que per
nenhiia via se llie pode inipuiar a cudenr.rão dos niaos homès q IcC — 3,
se quiserào perder.
Just. Sancta he aquclla ley das doze taboas, Intercessor rei
mala; solutaris civis esto. Seja tido })or cidadão saudador em a
Republica, o que estorva os males, &c vay à mão aos que mal
■vi\em. Da qual ley falando Marco Tullio com sua costumada
elegâcia disse , Qnift reipiilj/ica subvenire non ciifâat , hcEc taiih
praclvra legis você laitchituí^ 1 Quem nam desejará socorrer a Re-
publica, & procurar sua saúde por merecer o louvor da voz tão
cscfarecida desla ley, que ))rcgoa por saudável varão o c]ue des,-
\ia, & impede quanto nelle he os danos, &. perjuizos que os
mãos homès pretende fazer na Kepublica? Por tão honorifico,
& glorioso tinha este excellente orador, & singular republico, o
titulo de bom cidadão & amigo de seus naturaes, que avia elle
sò ser poderoso «Sc bastante para acabar com os homès, que po-
rhào seu estudo, vigilância, &. diligencia em atalhar as cousas
mal feitas, &. peccados que no povo se con)etem , òc se prezem
muylo de zeladores do comum proveito. Que tivera aquelle zelo
que fez clamar a David, Quis conòurget mihi adversus mahgnan- Psal. 93.
ícs, mit quis siohit mccwm adversus operantes iniquitittem? Quem
se porá da minha parle contra os madiinadores de malicias, &
fabricadores de maldades; & me ajudara a lhe fazer rostro, &,
cortar por elles? Indignissimos sam de todo o louvor, & merece-
dores de graves penas os julgadores, & pessoas da governança
que sedo obrigados a se pòr no campo, & contrapor as sem re-
zôes, que se ordenào, & fazem contra a Kepublica, sam causa
delias, & fautores de mãos exemplos, & escandalfjs, que de
nam aver justiça na terra, nem sen^n punidos os atrevimentos 150 — 1.
dos viciosos, se seguem , &. sam cada vez rnais crecidos, & per-
niciosos. Do (|ue he motivo a aceitarão das pessoas, e dos seus
deès , í|ue olirigão a pòr de venda a justiça , & a dissimular cos
muileiíores, & favorecer cousas injustas, aos que tem as mãos
«bertas para tomar tudo o que lhes offerecem os peiteiros. Cousa
que quasi os impossibilita para fazerem o que devem cm seus
officios.
44
3'K5 DTAT.OGO QUINTO
^V^ ^^(% tiVVVVVt/VVVVVVVW^V W% WVWV VW W\ W% w%i (/V%l'V\' V%^ l/V% V VV% W V\'V t w
C A P I T U L o VI.
Qiic os Príncipes , Ò! Julgadores não devem ser avaros , oiem io
mar pcilas.
Just. Como Deos pòs em Christo o verdadeyro conhecimento
dos seus , assi lhe deu o poder pêra lhes fazer mercês , & não sô
llie concedeo que podcsse , mas nelle mesmo encerrou como em
thesouro todos os Les & riquezas que podem fazer ricos & ditosos
seus vassallos sem remitir hijs a outros , »^ sem os enfadar com
largas demoras, muytos gastos & más respostas. Muy verdadey-
ra he a sentença de ]socrates, que mais rico he o Principe com
ter vassallos ricos, que com ter muytos thesouros próprios. Elrey
Dõ Pedro o justiçoso lembrava muytas vezes a seus criados quan-
do o vestião que lhe alargassem o cinto para que podesse estêder
a mão à sua vontade. Significando que he próprio do Rey ser
largo & magnifico. E mandava cada anno lavrar muytos marcos
de prata em copos, taças & outras muytas joy as de ouro & pe-
dras preciosas de q elle mesmo fazia mercê a que lhe parecia 6c
^'^^ ^' dizia que no dia que o Rey não fazia bem a algíía pessoa, era
indigno do nome de Rey. Entre lodos os vicios que se podem a-
char em os Governadores da terra , nenhum lhes he mais con-
trario que a avareza. Pelo q foy saudável aquelle aviso do sogro
Ijxoa. 18. de JVfoyses; Escolhe de todo povo varões poderosos que avorreçào
a avareza, & fazeos tribunos & magistrados. Platão queria que
os Nomophylaces (que sam os que tem a cargo a guarda das
leys) fossem incorruptissimos. E Aristóteles na politica disse que
se avia de prover como dos magistrados não tirassem ganho os
officiaes da sua Rejiublica. Donde se segue , segundo prudência
moral, nuqua ser conveniente vender officios públicos. Ao menos
Alexandre Imperador Romano não consentia védelos, &. dizia co-
mo he autor Lampridio : Os que comprão hão de vèder, & será
vergonha castigar eu os que vendem aquillc) que de mim cõpra-
rão. Quanto mais que roubão, & esfolão seu próximo pêra tirar
dclle o preço que os officios lhe custarão. Eo peor de tudo he que
não fiqua lugar aos pobres virtuosos pêra serê delles providos : &
assi andão os officios nas mãos dos indignos que tem dinheyro
para cõprar, peste das maiores que na Republica se pode ima-
ginar. Quanto melhor se avião neste particular os Romanos, se-
gundo Plutarco, que não davão os taes officios por linajem , ri-
quezas, favor, nem affeição, senão por mais serviços feitos à
Republica. E assi os que pretendião officios honrados, andavão
. vestidos de linho pêra que facilmente podesse ver os que avião
DAfi CONDIÇÕES DO BOM PRINCIPT!.
347
de votar, todas as feridas q os taes avião reccbidcj na^ batalhas.
Còpelindo Paulo Aemilio com Galha, mostrou Aemilio as cu- 151 — 2.
tihidas & laní^adas em seu corpo que no serviço da Republica
recebera, & vistas votarão todos por eUe.
Ant. Nào deve ser o Principe mercador, poiq he baixeza de
Diào cheiro. Dário Rey dos Persas foi chamado capell(>, que quer
dizer negoceador, home questuario, & tratante }X)rq avia par-
tido o reyno com imptsiçao de certos tributos, em vinte Satra-
pias, ou prefecturas. Plutarcho refercí q na Cidade de Theba»
de Pljxypto ouve huas imafíês sem màos, q sinnilkavâo niio as
devere ter os julgadores })ara aceitar peitas, porq cegão os in-
tcndimètos, conforme a pratica q elKey Josaplial fez àquelles a
q encomendou o governo & administração da justiça c seus rey^
nos. Quê me dera, dizia Putio Samnites, ser home no tempo
tm que os Romanos começarão a tomar peitas, para os não con-
sentir senhorear mais híi dia. Entendia este Sábio q nào podia
estar e pè a Republica, cujos governadon^s, & julgadores abre
as mãos aos peiteiros, & recebem quanto lhe offerecè as partes.
JVlas somos em temjxj q se nos lhas nao damos, elles as pede
sem algii pejo; dizendolhes Deos, não aceitarás pessoa, nem Dcxd. lo.
dadivas suas q cegão os olhos do» Sábios, & mudào a linguage
dos justos. E Salamão : O impio recebe peitas para perverter as Prov. 17.
vias rectas do juízo. Hay dos q justificaes o injusto pelo q vos
dà , &. roubais a justiça ao justo, clama Isaias. As portas dos is. 5.
julgadores deve estar cerradas para os presentes q lhe en\iào, &
abertas para os requerimentos das partes. Perverterão os filhos
de Ileli o juizo, porq declinarão após a avareza, diz a divina i?e£i'7(77i l,
Escritura. E David ai"firma q aqlle descansara no mote do Se- G/p. ?».
nhor, Qui viuncra super innocenlê no accepit. Salamão disse, 151 — I?.
conturba sua casa o que segue a avareza, & o que a avorrece ,
vivera. E Job, o fogo destruirá as moradas daquelles que de b<ja Job. 15.
vontade acceitão ])eitas. Sam as dadivas chave com que se abrem
corações ferrolhados em ódio, & se fechào lembranças de vi-
da, & honra, do Ceo, & do inferno. Qni excutit inamis suas Is. 'SÒ.
ah omni mnncrc , hahitabit in crcehia , habitarão nos Ceos os que
sacodem as mãos dos dues que nellas liie metem. A este propó-
sito disserão os Sábios gentios muylas verdades elegantes. Platão
cila aquelle v(Mso celebrado :
Cinn dhns flcchmt vcncramlos imincra reges.
E Euripides disse :
Donh vel ipsos dicttfanf flecti Deos.
Querem diztT que as peitas dobrão não sô os Reys mas também
os Deoses. Guardenos Deos dos pòs de Medca que cegão dragões
de mil olhos, & lhes roubão o vello de ouro (isto he a justiça de
que são guardas) & da sopa de mel que fez o Cerbero dar as
44 *
3-18 niALOGO QUINTO
costas a Eneas, sendo guarda das portas do inferno. Sabido he
o verso Grego.
Auro loquentc ratio quceins irrUa est ,
Siwicrc siquldcm novif ôf loques nihU.
Onde fala o ouro, cala a rezao; estando o ouro calado, sabe
persuadir, não tendo outro bem (se bem se considerasse) que
carregar a quem o traz cõsigo, ou trata de o guardar. Que mal
o acquire, he como a fonte Caceppa onde o pao que cay pri-
meyramente rebenta, & florece, & depois se endurece, & con-
verte em pedra. Reverdece entre nos , o que per mao meio o
ajunta, & no inferno se obstina, & empedernece. A urtiga of-
151—4. fende a que a toca vagarosamente, & se a aperta com toda a
mào, não o lastima : assi o ouro se com escasseza se trata, &
poupa, he nocivo; se com desprezo, aproveita. Achimenes Rey
dos Spartanos enjeitando os does que lhe offerecião os Messenos,
disse , se os tomara , não poderá ter paz com as leys. Phocion
Príncipe Atheniense recusando os cê talentos, que Alexandre
Magno lhe offereceo, deu por causa que queria ser ávido por
bom homem. Fundem as peitas instrumentos de ouro, & de
prata , pelos quaes entra o som das palavras , & defesas dos reos
nas orelhas dos julgadores. As muytas riquezas furtadas na nos-
sa Hespanha, & repartidas pelos Senadores de Roma, absolve-
rão ao infame traidor Galba , merecendo morte cruelissima. A
sede do dinheiro faz dos amigos tredores , & dos nobres faz fazer
■vilezas indignas do sangue de seus progenitores , dk, outras obras
torpes & feas. Ouçamos hum dos Poetas Lusitanos que no fim
do seu Canto 8. diz.
£ste rende munidas fortalezas ,
^a% tredores ài falsos os amigott :
Este a mais nobres fa% fazer vile%as ,
E entrega capitães aos inimigos :
Este corrompe virginaes purezas
Sem temer de honra ou fama (dgús perigos :
Este deprava às vezes as sciencias ,
Os Juízos cegando èf as consciccias.
Donde se infere não sfír nova mercadoria de nossos tempos andar
a justiça posta em almoeda, como bens confiscados para a Co-
roa. Mal velho he. O Propheta Samuel vendose repudiado dos
Judeus quando cõ muita instancia pedirão Rey, & querendo
mostrar sua innocencia, & clarificar sua pessoa, ouve que tinha
dado boa residência & conta de sUa judicatura, tanto que os ft-
Jôív— 1. lhos de Israel confessarão que de nenhum delles avia tomado
algiia cousa. O homem honrado ha de ser de mà condição para
tomar, porque sempre o que dà começa a despresar, «Sc ter em
menos a quem tomou dcUe ; & pelo contrario o que não toma
i
©AS CONDIÇÕES DO BOM PttINCIPE. 349
he depois mais venerado de quem lhe rogava que tomasse, como
disse S. Hieroriymo. Epist. (i'L
Just. Paru mim tenho que a cobií^a (5c o tomar de peitas sao Hellodo-
causa principal de não aver ley g*cral nem particular que se íitw.
guarde como cumpre em as povoações deste Rcyno, donde vem
serem os povos delle os peor governados que nenhíis do míido.
JL hua das cousas que me faz grade espanto he a muyta curiosi-
dade que os Portugueses tem para imitar trajos, & costumes pe-
regrinos : &. a pouca que nelles ha para imitar os estrangeiros
no bom governo que entre elles se guarda. Sòs nòs não temf)s
avesso nem direito em a governança, nem nos deixamos gover-
nar com a ordem divida por falta da qual tudo he confusão.
Híia das cousas por que Deos fez mercê aos Romanos &. lhe
iimj)liou tanto sua Republica, foy pola guarda de suas leys , &
pela execução que delias avia , como diz Sancto Agostinho. T)^ CivU.
Outra cousa se deseja neste Reyno, & he ver as residências to- -^ei.
madas por fidalgos muyto honrados &. abalisados, inteiros &. te-
mentes a Deos, & nào por letrados, que nunca hum lobo ma-
tou outro.
^nt. Tornemos a nosso propósito. Nam convém que o Prin-
cipe seja mercenário, mas que graciosamente reyne, podendo
ser. JNenhua cousa deve tomar por premio de sua administra-
ção, salvo a honra & o necessário pêra a decência de seu real
estado. Que como sabiamente escreve Aristóteles, o próprio pre- ló'2^2.
mio do Principe he a honra , & o que com ella se não contenta
he tyranno. Pore os Principes Christãos devem referir esta hon-
ra à celestial, & divina que nos Ceos lhes está guardada. Chave
se diz na Escriptura a dignidade Real , porque em seu modo
abre & fecha a porta do Qe.o a seus povos, mas he chave que
anda sobre os hombros , porque sò os esforçados podem com o
peso delia.
k'v%vv\vvv%(vv%'V\>vvv\'v\'«/%'%%'V«/vvvv'\'\v\'%vv%i/v\/«/%vvv%vvvvv%w«w\%'«'%w%vw
CAPITULO VII.
Qt<€ o Rcy não seja avaro , nem •pródigo.
y^nt. Do império dos justos & fracos Reys dimanão grandes
bès &L proveitos às Republicas, & com o dos mãos & avaros
muytos detrimentos & desavêturas : & como do ecdipse do Sol
redundào espessas trevas em a terra : assi do seu mao governo &
corrupção de costumes procede a mina de seus povos. E como a
cabeça he assento dos sentidos & a que dà aos membros do cor-
po poderense mover & sentir, assi o bom Riy dà ao ^ovo (seu
350 JJIALOGO QUINTO
corpo mystico que ao natural de cada qual de nos he proporcio-
nado) poder viver em tranquilidade de paz, & igualdade de
jusUça, que he o espirito da vida politica nelle influído porDeos
para prol , & bem de seus vassallos , q são como membros seus ,
& pende das influencias de suas mercês como de sua cabeça.
Propriamente se compara o bom Rey ao Sol , pois de seus rayos
a republica como líia , recebe luz , & em todos seus membros
152—3. hum suave calor, com f|ue prospera, & persevera em seu vigor.
Plinio na sua eloquente panegyris em louvor de Trajano disse
delle, que não curava de enriquecer o fisco, antes de sua judi-
catura não queria outro preço, se nam aver bem julgado. Bas-
^d Tim. ta dizer S. Paulo q a cobiça he raiz de todos os males, princi-
6. palmente em os Principes, & Senhores. Mestura o sagrado com
o prophano , a terra com o Ceo , não tem ley com pay nem
mãy, nem cô amigo, nem consigo mesmo, nê ainda com o
mesmo Deos, pois chegou ao vender, & despojar de seus vesti-
dos. Tudo poè em pregão, & almoeda, alma, vida, sangue,
amizade, lealdade, lee , & verdade. A ninguém, & nuca faz
bè o avaro, senão quando morre. He a avareza hum vicio que
rouba o siso aos homes , em tanto que se fazem inimigos de si
mesmo. Sòmête aquelle avaro fez a si bem , do qual dizem ,
que por não dar por hua corda a quem lha vendia, hum pata-
cão mais que lhe pedia, deixou de se enforcar. Vivem os ava-
ros miseravelmente, &. não tirão das suas riquezas mais proveito,
& commodidade que aquelles que carecem delias, acrescêdolhe
o cuydado de as guardar , & o medo côtinuo que tem de as
perder. Se com o dinheyro crecesse a seguridade , o prazer , &
o repouso, forão para cobiçar : mas nòs vemos que nam sam
ellas suas , mas elles sam delias , nã se servem delias , mas el-
las delles, não as tem elles, mas ellas os tem, não são seus se-
nhores, mas suas guardas. Aos taes condena o Propheta cha-
mando lhes varões de riquezas, & não riquezas de varões. Tal
lie sua cobiça, & pouquidade de animo, que de senhores os faz
o dinheiro servos. As excessivas fazêdas sam laços, & grilhões,
152— >4. nam sam atavios do corpo, mas impedimentos da alma, &
montões de cuydados, & temores. Os averes demasiados a mui-
tos acarretarão a morle , & quasi a todos privarão do repouso,
corromperão os bõs costumes, & enfraquecera a fortaleza dos
ânimos. O povo Romano em tanto foy claro, justo, & inteiro
em quanto foy pobre, & o que com a pobreza foy vencedor de
todas as gentes, & de si mesmo, & dos vicios domador, das
riquezas foy vencido, & sopeado. Se os ricos avarentos adorme-
cidos entre espinhas , tem o sono tão pesado que não sentem os
aguilhões; desperteos o que esta escrito,* dormirão seu sono, «St
não acharão nada em suas mãos todos os varões de riquezas.
DAS CONftrçÒES DO BOM PlllNCIPíi:. 3Úi
Muytos seguindo a avareza padecerão naufrágio cm a fce , íc a
perderão; como parece nos hereges de nossos tempos, que por
não largarc as rendas das Igrejas, & mosteyros que estão co-
mendo, se levantarão com a obediência ao Sancto Padre devi-
da. Sc Pedro como temido negou Ires vezes a Cliristo na sua
payxão, o avaro o nega trezentas mil cada dia. Porque o di-
nheiro que te por idolo, & a quê em tudo obedece lhe manda
que jure falso, seja usurário, & venda por mais do justo pre(*o,
inda que Deos vivo lho defenda. Em fim he o seu D(íos; por-»
que a obediência mostra o Deos de cada hum. Cirande idolatria
lie a avareza, como diz o mesmo Apostolo. Ho grat^a , diz S. Galat. t^
Hieronymo, cluimar idolatra a que põem dous graõs de incenso
nas brasas sol)re o altar de Mercúrio, & não ])òr este nome a
quem toda sua vida adora a prata e o ouro. De mui estreito
corac,ão he amar as riquezas, cõ as quaes se não farta a cobic;a,
antes crece mais, como o fogo qiiãdo lhe poê mais lenha. TfKla 153 — 1.
via deve o Key cortar por gastos superlluos, que o obrigão a
impor tributos intoleráveis a seus povos, &. a fazer peiteiros seus
vassallos. DelRey David se lè no livro dos Reys , q avendo Lib.Q.ca.
]70<). ginetes fermosos, primos, &. castic^os do despojo de híia 8.
victoria , & não faltando porventura quê o acôselhasse q convi-
nha não se tirar delles para q a sua estrebaria fosse hua das af-
famadas do mudo, toda via elle como velho sesudo, dissimu-
lando, & calando, deu ordem cõ q o dia seguinte amanhaces- "■
sem jarretados. A algus pareceria isto desatino, mas a David pa-
receo acerto, porque indaq os podesse sustentar, não quis dar
entrada a gastos excessivos, por não ter occasião de fazer tribu-
tário o seu povo. Ouve q para moderação , e conservação de
seu estado, menos cavallos bastavão. E porq David cortou por
excessos, & demasias, atè por aqueHes que tinhão escusa licita,
como he ter hum liey muytos cavallos, deixou rico thesouro, &.
amplo império a seu filho Salamão, tão vão ê seu <!Stado, que
tinha ò;iOOO. cavalgaduras nas suas estrebarias. E pela mesma
razão com herdar de David grossíssima herãça , deixou a seu fi-
lho Rohoã muytas dividas, & menos tiírra da q de seu pay lhe
ficara. Deve o Rey podendoíí fazer sem detrimento (hx hora &
magniticencia (virtude realenga) rnlhísomar para acudir a ne-
cessitades que sobrevem de repente, »Sc d«;fender seus vassallos,
principalmête dos infiéis. .Justas, & pias sam as armas contra
Mouros per muytas razoes. E onde ixxle o Key Christão empre-
gíir melhor seus thesouros, & o sãgue de seus vassallos, q em
tal cõtenda? Em especial nestes têpos calamitosos, em q os Tur-
cos tratão de meter pè na Mauritânia : cousa que pf>de criar 153 — 3.
grades perigos a toda Hespanha. Conselho he dos Sábio, q aos
inales no principio se ha de acodir. Das cousas pequenas pendw
'SÍ)'2 f)TALOGO QUI%'TO
O momento d.T; gradfís, como disse Tito Livío. Quado Annibal
€om(^çou a combater Sa^íunto, mandarão os Saíuntanos por Le-
gados dizer ao Senado Romano, como he author Silio, q se
appressassê cô socorro, & no principio extinguisse o fogo q co-
meçava arder, antes de o perigo ser maior, & co a tardãça se
lhe difficultar o remédio. Certo he q na brevidade cò q se lhe
atalhàíj os males cusiste a mòr parte do remédio delles. Então
foy seguido, c louvado o conselho de Q. Fábio Máximo que
moveo o Senado a que logo se tomassem armas contra Annibal,
meditando em seu alto peito, & divinhando as guerras que em
Hespanha se havião de levantar. Como Piloto experimentado
em sua arte , q vendo do alto da poppa per sinaes o pè de vento
que ha de sobrevir , recolhe primeyro as vellas , & as envolve ,
òc aperta ao masto. O que Silio Itálico pòs em estes versos.
Prcevidêí liwc rilu vaiis fúdcbat ah alto ,
Pedorc prcEmeditans , Fabiiia surgctia bella
Ut scepc c celsa grãdccvus puppe magister
Prosipicih signis vctwu m carba&a corú
Súmojam dudu substnngit líntca mak>.
Acresce a isto o cerco em q nos tem posto os Cossarios, herejes,
& scismaticos, de cujas velas o mar anda coalhado, «Sc as grossas
perdas & danos , que à coroa , & povos deste Reyno tem causa-
do, & polo tempo podem causar segundo enriquecem com os
roubos que cada dia nos fazem, se cô mão poderosa se não reba-
terem seus atrevimentos, & seus assaltos se não rechassarem.
CAPITULO VIII.
Que o Rey deve ser liberal , mormente com os necessitados.
li>3 — 3. Particular obrigação tê o Rey de olhar para Vassallos neces-
sitados, como Christo olhou para os seus em o deserto. Pergun-
tado Vespasiano a A polónio que faria para ser bom Rey, res-
pondeolhe que tevesse em muito as riquezas para as comunicar
aos pobres. Os inimigos facilmete saqueão os thesouros reaes pe-
la muralha fraca , se senão repaira ; & como as pessoas pobres
sam o mais fraco da Republica, se os ricos lhe não dão remédio,
perigo corre dos bês da fortuna , & dalma.
Just. Elrey Dom Afonso vendose vêcido , e desbaratado dos
mouros, fundou hum grande Hospital em Burgos, &. fez outras
obras pias, com riue mereceo aver delles gloriosa victoria nas
Navas deTolosa. A lil)eralidade, & esmolaria sam guarda mais
segura para os Príncipes, que a dos alabardeiros , & gête de
DAS CONDIÇÕES DO BOM PllINClPE. 3Ó3
guarda. Trás a piedade cõsigo carta de amparo divino, & tem Psal. 40.
Dcos promelido livrar em o mao dia os que forem esmoleres. E
erãono tanto de veras os Princij)es antiguíimente que enterravio
consigo riquezas, porque inda depois de mortos querião, & pre-
tendia© q achassem nellas socorro os necessitados , se acaso des-
sem em suas sepulturas. Egesippo, &. Jostpho escrevem q úva- Fgesip. li.
tão OS Judeus do sepulchro delUey David thesouro, com que se 1-
remediarão em híia grande necessidade , òc do que lhe sobejou Joacph. de.
fundaram os primeyros hospitaes, que ouve no mundo. M. Tui- hcllo li. 2.
lio notou c|ue fora Júpiter appelidado Óptimo, jjor razão dos -/-^e naLu.
benefícios que conferia, & Máximo, por respijyto do muyto que Deorurrt ,
podia, & possuía. Mas que primeyro se chamava Óptimo, \>to fib. 1.
he beneficientissimo, que Máximo, isto he , poderosíssimo, & 1^3 — 4.
riquíssimo ; porque mor &. mais aprazível cousa he aj)roveítar, &
beneficiar a todos, que ter grade potencia, & muylos thesouro^,
& se cremos a este mesmo auctor , os Reys teverão principio cie Lih. 2. dr
se acolherem os pobres perseguidos dos ricos a quem os cmpar;.^- Of,
se , & reverenciado com subjeição a quem os defendia , lhes viu-
rao a dar sobre si domínio, Sc jurdição. No scgre dourado, diz
Séneca, reynavào sábios por defender os fracos contra os podero- Senec. ep.
SOS. Principio foy do líeyno de Rómulo biia junta de servos che- ^-
gadí(^os, pobres & fugitivos. De Christo disse David, adoraloão Psal. 71.
Keys, & serviloào as gètes como a Senhor, porque livrou o po-
bre da mào do poderoso. Parecer he de Gregório Nysseno, q
criou Deos o home nu , & necessitado pêra que vendose tal pro-
curasse senhorear as creaturas , & as grangeasse , visto como as
avia mister. Feio pobre para o fazer senhor delias, para o fazer
Rcy tomou occasiâo da pobrcsa , cepa & tronco real. Nâo sem
mysterio se introduzio o louvável costume dos Reys Christãos,
que no dia anniversarío de seu nacimento veste tantos pobres,
quantos sam os annos q comprirào, &. fazem esmolas muyto a-
"ventejadas às dos outros dias , por entenderem que da esmola
depende a conservacjam dos Reynos, ou pêra declararem que
nascerão os lieys abastados para fazer be a pessoas mingoadas.
yínt. Pois o5 Reys saõ Pastores, obrigados estão a prover de
pastos & alimentos as ovelhas fracas & magras, não com menor 151 — 1.
cuidado do que trosquíao & ordenhão as saus & gordas. Escassa-
mente se achara Rey de memoria gloriosa, entre cujas proezas
scnam conte obras pias admiráveis. De Cyro exemjjlo &. retrato
de bòs Príncipes, diz .Xenophonte q fez de sua casa botica pêra Xenoph.
que n<!lla ai:l)assem mezinhas os que delUis tivessem necessidade. Hf». 8.
Em fim o Reyno he domínio paternal segiído Aristóteles, donde Q/ro.
se segue que o Rey ha de ter cuydado dos vassallos como o pay yírist 8.
de prover a seus filhos. Augusto César nam cõsentia q lhe cha- yJctli.
massem Senhor em publico, nem em secreto, como refere Ter- Tert.Apo!.
45 c. 34.
35-1 DIALOGO QUINTO
tuliano , o que nelle imitou Tibério em os primeiros annos d«
seu Tmperio : porque mai& cõvem aos Reys nome de pays de fa-
milias , q de Senhores. E assi os primeiros Julgadores &. Gover-
nadores Romanos se cognominaram Padres parecendolhes que
tomando os mais principaes & poderosos sobre sua fee & pala-
vra, os negócios & causas dos menores com titulo & affecto pa-
ternal , ficarião os taes descansados & seguros , como fillios de-
baixo do emparo de seus pays. Mais hao de folgar os grandes de
lhe virem pedir os pequenos, q de os vire servir. A excellencia
do Rey consiste em ter muito que dar , (Sc pouco que tomar. E
Armot. segíjjo Aristóteles folga o grande de dar porque he superiorida-
Aetn. 4. çjg ^ ^ affrontase de receber por ser obra de inferior. Pouco vay
que os particulares sejão escassos , ma^ nos Senhores rujo officio
1 r ^^ fazer bem a todos , nam se podem louvar mãos apertadas,
i^^í' Chamou David a Deos Senhor, porque tem que dar, & nam
■^^'* *• tem necessidade de tomar. E Sam Paulo pòs à avareza nome de
servidão, porq os servos grangeao, & ajuntão, mas não destri-
buem. O dar he titulo de Senhor, & insignia de dominio, &
o receber he de servo. Finalmête como da fermosura do Sol
muyto mais participão os que usam de seus rayos, que elle
mesmo que os possue : assi das riquezas & thesouros reaes , mòr
parte deve caber aos vassallos, que aos mesmos Reys. Encobre
a liberalidade todas as tachas que tê os Príncipes, & descobre a
escaceza tè as que nelles não ha. Esta faz parecer grades as pe-
quenas faltas, & aquella pelo contrario representa como nadas
vícios muito enxergados. E em especial devem os grandes exer-
citar sua liberalidade cô os pequenos, movidos da charidade
Christaã, & nam da vaidade mundana. Aí. Túlio depois de
llie parecer cousa muy honesta, que as casas dos Varões Illus-
tres este abertas a Illustres hospedes : acrecêtou no mesmo li-
vro que híía das principaes obras do bô Varam , he quanto algii
tem mais necessidade , tanto mais o ajudar.
VVVVVVVVVV«^'VV%l/VVVVVVVVVVV%/%\lVV%VV\lV\/Vi'VVVV\lVVV%'VVVVVVV%lVV«<VVV«'\'Vl'VV
CAPITULO IX.
Que. o Rey deve ser virtuoso.
Jtid. He tambê muy principal parte no Principe senorear
íeTis apetites, & sofrear contentanKíritos illicitos, senhores bran-
dos era o reyno de nossa alma, que desvião a vontade do que
r^quere a rezam. Este império he amph"ssimo, & ditosissimo.
('yro Mayur costumava dizer, que ninguém devia aceytar prin-
cipado senum fosàe avãtejado nas virtudes aos q avia de gover-
DA» COXJJIÇuES no BOM puincipe. 355
nar. O Governador primeyro se deve a sy rectificar, & depois ao 154 — S.
seu povo. Que doutra maneira avcr se ha como quê quer endi-
roylur a somljra da vara torta. O vcrdadoyro & firme poder está
fimdado sobre a virtude, «S; se se tira o fundamento, quanto he
maior, tanto he mais prigoso o edifício. Aquelle he poderoso
senhor que vence primeiro os inimigos de dentro q os de fora,
& os que combalem a alma , que os q fazem guerra ao corpo,
Aquelles devem os grandes vencer primeyro, & apartalos de sy ;
Vença o Key primeyro a ira, a cobiça, a luxuria, vença a sy
mesmo, pois he inimigo de sua fama, 6í de sua alma, nam cuide
que he grande poder vencer a outros, & ser vencido de suas mes-
mas payxties. Excellentes sam aquelles versos do Poeta Claudiano,
Tu licct extremos late dommcre per índos ,
Te Medus , te mo! lis Arabs , te Seres odorent ,
.Si inctihh 5 si prava citpis , si diiceris Í7yi ,
Servilii paticrc jxigu : iolcrabn iniqnas
ínterins leges : ttic omnlajurç teyicbis
(Jun poieris rex esse tui,
Inda ^ seja» Senhor das ultimas índias, & todo o mundo te a-
dore ; se teus desejos t!x paixões f(M"em desordenadas, serás servo,
& dentro de ti subjeito a leys iniquas. Entào com rezam domi-
narás sobre todas as abusas quando poderes ser Rey de ty mesmo.
De servo he darse aos contentamentos, & de Principe exercitar-
se ê os trabalhos, delle como de treslado hão de imprimir os
vassalos è sy a formosura da virtude. Guardese de ser retrato feo
de cousa tão hella , & de se presentar tal aos que o deve retra-
tar em sy mesmo. Guardenos Deos de Principes taes , que nos
seja necessário apellar delles pêra elles, como fez outro que de 154— -4.
Philippo appellou pêra Philippo quando mais quietamente po-
desse ouvir sua causa. Em a primeira & mais alta região do àr ,
onde elle esta mais puro, & excellente, não ha nuvès, nem so-
breventos, nem vapores alguns escuros, nam tem lugar nella
relâmpagos, nem trovões, toda he serena, quieta, & síjssegada :
o ]{ey que tem o lugar mais alto deve ter o juizo mais claro, &
o coração mais sereno, & livre de perturbações humanas, sub-
jeito à rezam, limpo das névoas da ira, cobiça, & ambição,
moderado, manso, não temerário, nem furioso, & arrebatado.
Antes o Uey por ser bõ &. brando seja tachado dos mãos, que
por ser mao, & irado viva em ódio dos Ms. Advertio esta ver-
dade Aristóteles, quãdo disse cpie era necessário ao Principe ser
ornado de todas as virtudes. Porq reger he officio de prudência,
a qual sem companhia das mais virtudes nam pode ser pcrfcyta.
Que o prudente julga de tudo, & qual he cada híi, tal fim se
lhe offerere. Pelo q he necessário estar be affeyçoado a todalas
cousas de q ha de julgar , o que desemparado das virtudes nam
45 *
356 DIALOGO QUINTO
pode ser. Se senhorear & regnar sobre os oiilros homens, he cousa
íermosa & muito pêra desejar, porque senam desejara que senho-
reê a mais fermosa de todas as cousas, que he a virtude? Desta
se luio de fazer as Coroas dos líeys , »Sí não de ouro , ne de pé-
rolas, & pedras preciosas. A Trajano disse Plínio estas gravissi'
mas sentenças : Nò> sabemos por experiência q a innocencia do
In panegi- Principe he sua fidelíssima custodia. Esta he baluarte fortíssimo
ri. & castello invencível. Por demais se arma o lley desarmado de
iõò — 1. cliaridade. Disse mais q a vida do Príncipe era o molde & regra
por que os súbditos dirigião seus actos, & que mais aviamos
mister exemplo, que império, O medo he infiel mestre da vir-
tude. Tem os exemplos em si este bem, que provão poderêse cõ"
prir as cousas que se mandão. Outro louvor lhe deu singular di-
zendo , não queres para ti mais licença que pêra nòs , o que eu
agora ouço , & aprêdo novamente , nam ser o Principe sobre as
leys, mas as leys sobre o Principe.
^nt. Próprio he do bom Rey ser tão obediête às leys deDeos,
quã obediente quer q o povo seja às suas. Presida a ley de Deos
Deut. ÒÇ enfi aquelle q preside em a Republica. Entre os filhos de Israel
4. Rcgum. ao Principe eleito cô a coroa se dava juntamente a ley escrita,
pêra que segundo ella se governasse primeyro a si, & depois aos
seus. Pergutado Bias Philosopho qual era o verdadeyro Princi-
pe , respondeo, o que primeyro se subjeita à ley. Em o paço
dos Reys se devem guardar primeyro as leys, & por sua casa ha
de começar a justiça. Sam eleitos per Deos em ministros &
mantenedores de igualdade , & por isso são mais obrigados a
mostraj;, por exemplo è si mesmos & em seus familiares esta vir-
tude. Se a justiça he executada em os estranhos, & negada em
favor dos nossos, fora vay dos termos & ordenança que Deos lhe
P&al. 10. deu. JusUis Dominus ÒÇ judWins díiexit , ^c. Justo he Deos em
si , & ama a justiça è suas criaturas , & com o espectáculo da
equidade se alegra sua vista. Celebrada foy dos capitães Roma-
Dec. 3. li. nos aquella sentença repetida em a historia de Tito Lívio : Se
6. mandares algíia cousa ao teu inferior, primeyro a demostra em
ti , & com facilidade serás obedecido. Este cõselho dà o mesmo
Xí>5— 2. Lívio aos poderosos : Quanto mayor he o teu poder , tanto mais
Dcc. 4. U. moderadamente convém que uses do império; Sentença que
é. Claudiano pos em estes versos.
In (õmune jubea si quid , cesesque tencndã
Primus ju$sa subi., tunc observãtior cequi
Fit populus , nec ferre vctat , cã vidcrit ipsii
Ductorem parere sibi. Cbmponiíur orbis
Regis ad exêplu , ncc sic infkctere sêsus
Humanos edicta valêt , quã vila regêtis.
Mobile mutatur seper cu Principe vulgus.
DA& CONDI<iÕES DO BOM PRINClPlu. 307
Se fazes algíia ley geral, a que obrigas teus vassallos, sè tu
o primcyro q a cíípras. Entào o povo hc mais observãte das leys
& sofredor do jugo, quando vè o seu legislador obedecer lhe. O
Povo regese pelo exemplo do líey , & mais pode sua vida que
seus edictos para dobrar os sentidos humanos. O vulgo sempre
se muda co a mudança do seu Principe. Andam os líeys em os
olhos de todos, & por tanto seus defeitos sam contagiosos, &
causam perdição a muytos, & suas virtudes edificao a todos.
Qual he o Heitor da Cidade, taes sam os q nella morão : o mar Eccl. 10.
imita lanto o ar que o rodea , que se este está quieto, tambõ
nelle ha quietação, se tempestuoso, tàbeni nelle ha tempestade;
se o Key he justo nam falta justiça no seu povo; se perverso lo-
go he pervertido. He o povo sombra do Principt; , & por tato
dana mais co exemplo que co peccado. Com a mudança de seus
costumes se mudão os de seus vassallos, & os vieios «Sc virtudes
que nelle ha traspassanse aos que lhe obedecem. Turbada a fon-
te, turbase o rego que delia nace. Turbado Herodes, toda Hie-
rusalem se turbou com elle. E pelo mesmo caso o que deyxa de
si mao exemplo, alem da pena eterna qu(! oliia a omnipotência
da pessoa offèdida , padece outra accidental por razão do escan- 155—3.
dalo que deu. E não sò os inventores de erradas sectas &. crêças,
iiias também os Principes em cujos tempos ellas prevalecerão, ou
os bôs costumes se corrõperão por sua culpa , descuido ou mao
exemplo, entrão neste numero. Pelo còtrario os que com sua
industria deixão bem acostumados seus povos, terão aqui tem-
poral louvor, & no Ceo galardão eterno. Bem disse Ovidio nos
seus livros sem titulo : Eu mesmo sou atormètado com temor de
meu mao exemplo. Da virtude se hão de fazer as coroas dos
Reys, & não do ouro, nê das perlas, as quais nem por^resplan-
decerem mais, canegão & atormentão menos. David assi tinha
poder sobre todos seus vassalos, como se a todos fora suhjeito,
estava no throno real como preso em cárcere, na purpura como
no cilieio, & na cinza, &. nos seus paços reaes, como nas soe-
dades do ermo. Como nos corpos assi nos regnos he gravissima a
enfermidade que procede da cabeça. Se o Key quer subjeitar tu-
do, sobjeitese à razão; a muytos regera se o reger a rezão; re-
jase a sy mesmo, & será Key de híi grande Heyno. Não cuide
que tudo lhe he licito, porque se por ser ivey quer aproi)riar a
sy esta licèça , tyrãno he e não I\ey. Meno^ licèça te que qual-
quer outra pessoa particular, & não pode mais, c|ue o que lhe
eftà bem em quanto Rey.
y58 DIALOGO QUINTO
»V^A<\\VV%«'%'%VVVVV%<VV%'VV%VVVVV\VVVVVV%'V«(%/«i\VVVV%i%'VV%VV^VV%%'VklVV%VVVV%/%
CAPITULO X.
Que o Rcy deve ser txtplar , íf prudête.
Just. Mais deforme he a cutilada ê a face que em qualquer
Ibb — i. outra parte do corpo : assi a culpa em o Príncipe he mais fea q
em seus vassallos». He como jjeqonlia lançada em poço publico
de q bebe todo o povo. Da vida de nossos superiores tiramos os
inferiores agoas de bos ou mãos costumes. Quando vem as folhas
das arvores murchas & amarelas antes de tempo, julgamos que
junto da raiz tem algíi peco : assi quando vemos o povo descô-
posto & enfermo nos costumes temos por sem duvida que a sua
cabeça não está sam. O bom anno nâo se ha de estimar pelos
muytoã fructoá que a terra nelle dá , mas poios justos Príncipes
que nella reinão. Suma felicidade he a dos povos, onde não
pode ser mais poderoso o q não he mais justo & virtuoso. Não
foy o Rey eleito por Deos para obedecer a seus depravados affe-
ctos; mas para que à sua obediência & sombra de seu bom vi-
ver, vivão felicemente os que o alcançarão por Rey. Depois de
aprenderes a ser regido podes reger. Assaz néscio he , dizia hii
philosopho , o que querendo enfrear os outros , não pode enfrear
a sy mesmo ; & o que solta as rédeas a seus appetites , & não
sabe ir à mão a suas immoderadas paixões, Muyto pode o exem-
plo dos maiores com os menores , assi para o bem como para o
mal , & todos tem por glorioso o que co exemplo do seu Rey
está acreditado. Entre os de Ethiopia valem tanto os exemplos
% de seus Reys , que se elles coxeão , ou tê menos hua vista , seus
vassallos se privão voluntariamente do uso dos taes membros, a-
vendo q lhe não está bem andar direitos nem ter duas vistas, se
o seu Rey mãqueija, ou carece de hiia delias. ElRey Dom .Toão
de Portugal o II. deste nome, tomou a salva a hua amargosa
JòG — 1, purga pola fazer beber a híi seu vassallo enfermo. Ley he natu-
ral em as abellias não se apartarem de seus acolhimentos , se o
seu Rey não vay diãte delias. No que o autor da natureza de-
signou que o ofíicio próprio do Rey , conforme , não à ambição
humana , mas à natureza incorrupta , era preceder a seu povo ,
& guialo com sua boa vida. Cyro dizia , como he autor Xeno-
phonte, que o bom Príncipe era ley exemplar para os homês,
aos quaes imperava com razão, quãdo lhes mostrava em si que
sobre todos era ornado de virtudes. E nam serem os Príncipes
súbditos a suas leys nem por ellas constrangidos , não no devem
contar por privilegio singular, mas por condição infelice. A ley
pcra 03 inferiores he luz & pena , & assi tem dous socorros pêra
DAS COiNDlíjÒES DO BOM PKINCIPE. 3i>D
a virtude, hum dos quaes falta oo Príncipe, porque não ha
quem o constranja nem quem lhe mostre a verdade, & o repre-
henda. E porventura isto ententleo Salomão quando disse. Sicut Prov. ^2Í,
divisiones aquarvm, ila cor Jiegis in manu Donárú : como se
dissera q governando Deos os corações dos pequenos pelos minis-
tros da justiça , sò o coraçã do Rey fica posto nas suas máos; &
como sò Deos pode mudar o curso dos Rios caudalosos : assi sò
elle pode entreter, & mudar a võtade dos Keys. Por onde quan-
to elles são mais livres & exemptos do constangimento das leys
que poe , tanto mais obedientes lhes deve ser. Vj convém lem-
brarlíies que sejão cautos em seu viver , pois vivem na praça , <Sc
à vista do mundo, dravemente disse Plinio a Trajano, & Salus-
tio còtra Catilina, In máxima fortuna mínima licenlia est. Teni
isto a alta fortuna, que nâo sofre cousa secreta, nem occulta,
abre portas, camarás, & recamaras, descobre os Íntimos, & tu- 156 — 2.
do olfrece à fama pêra ser pelo mundo publicado. O que pos
Claudiano nestes versos,
Nam, lux altíssima fati
Occultum nihil esse sinit , latebrasqtie per omnes
Intrat , bi obscuros explorai fama rcccssus.
j4nt. Verdade constante he o q dissestes, ser o povo quasi
sempre semelhante a quem o rege. Estando os Numantinos cer-
cados de Scipiào Aemiliano, vendo o seu exercito disserão : As
ovelhas sam as mesmas que dantes, porem o pastor não he o
mesmo; & por tãto são mais para temer. Cõmii doctrina he dos
Philosophos que tratão da Politica que àquellcs convém ser ca-
beças da Jíepublica q nella são mais prudentes. A eminência
dos líeys foy introduzida por Deos, pêra que com a obediência
de seus vassallos ficasse hum entendimcto &. vontade de toda a
Republica; & sendo o intendimento do que governa cego ou
errado, mal pode acertar o povo, besta de muytas cabeças. E
basta para prova disto, constar nos dos Prophetas ser o niòr cas-
tigo de quantos Deos dà aos povos a cegueira dos que os regem.
Grande indecêcia he não exceder aos outros è prudècia &. saber
o que os excede no officio & potencia. O parecer & pensamento
dos Príncipes ha de corresponder à obrigação de sua eminência;
& o seu intendimento ha de ser superior aos daqlles cujos sobre-
Toldas são. Para isto tem mais particular(!s influencias de Deos,
cuja pessoa representão, pêra que suas obras & cõselhos sejão
tanto mais acertados, quâto mais parte lhe cabe dos danos &
perdas que de serem errados se seguem & recrescem. Nam de- 15G — 3.
vem os Reys mandar cousas graves em prejuízo de terceiro pre-
cipitadamente, se não com muyto tento, & acordo, porque ha
tâo pouca verdade & fidelidade entre os súbditos que |)or ])eque-
nos interesses se levãtào grandes falsos testemunhos , & e muytas
360 DIALOGO Qi;iNTO
partes se achàio testemunhas que encontrão a verdade : David
mal informado condenou por tredor a Mephiboseth filho de Jo-
nathas polo dito de Sibà , & o privou da fazenda. O qual ne-
nhua culpa teve em nam sair com David quando fugia de Absa-
lon , pois era aleijado dos pès , & não achou quê o levasse às
costas. Seja pois o Key considerado nas obras , livre nas tenções ,
prudente no governo. Castigue com brandura, & galardoe com
liberalidade. Seja temperado na ira, moderado nos accidentes ,
amado dos seus, temido dos estranhos, solicito por a paz, esfor-
çado em a guerra, justificado nos tributos, tanto que antes pa-
reça , c|ue os vassallos se sustêtão do favor do seu Rey , que o
Key do suor de seus vassallos, pois ale de ser bom para si, obri-
gado he a ser bom para seu povo ; & sò para o governar lhe foy
dada tao alta superioridade. Ha de occupar o mais do tempo no
governo , emendando erros alheos , fazendo taes obras que nel-
las tomem seus vassallos bom exemplo, & dando de mão a mal-
sins , & lisonjeiros q sam a mayor parte dos viciosos que em os
paços, & casas dos grandes vã dar como rios em o mar. Façase
temer cora a potencia , & com a liberalidade amar , offeveça a
Deos seus desejos, & seus cuidados à sua Republica, o tempo
aos negócios, & a fazenda aos que bem servem. Lembrese q tã-
156—4, to he mais grave o peccado, quãto he mayor o que pecca ou
menor a causa que o move : <Sc que não basta ser grande o po-
deroso para }>oder fugir dos golpes da lingoa & pena, & forrar-
se dos juizos dos homes, antes isso os aguça, & desperta mais
contra elles. O vulgo palieiro não perdoa às tachas dos Reys,
& dado que no publico por medo calle , quando no secreto se
sente seguro, usa de sua liberdade. Semea pelos ares vozes, &
pelas ruas cantares , callando clama , &. per sinaes fala , com os
olhos ameaça , co a lingoa & pena fere , & aos claros nomes a-
cha escuros, ôc infames cognomes.
CAPITULO XI.
Que o Rey ha de ser Sábio.
Ant, Ao seu Rey dotou o Padre Eterno de hum verdadeyro,
& perfeito conhecimento de todalas cousas , assi passadas como
presentes & futuras. Porque o Rey cujo ofticio he julgar dando '
a cada hum o merecido, & repartindo o premio & a pena, se
elle por si não conhecer a verdade, traspassara a justiça visto
como as noticias c[ue de seus Reynos tem os Principes per rela-
ções & inquirições alheas , mais os cegào muitas vezes , do que
))AS CONDIÇÕES DO BOM PUINCIPK. 361
05 alumião. Alem de os homes per cujos olhos & ouvidos vem
6 ouvem os Reys se eníjanarcm , procurào ordinariamente en-
ganal'>s por seus particulares interesses &. pretençôes. E assi por
maraviliia entra no paço Ueal a verdade. Mas o Rey de Deos,
porque seu intedimêto como clarissimo espelho lhe representa
quanto se faz , & quanto se cuyda & imagina , nà julga , como
diz Esaias, nem castiga, nem premia polo que lhe dizò ao ou- 157— !•
vido, nem segíido o que â vista parece (que aml^x» estes senti-
dos podem ser enganados ) nem tem do seus vassallos a opinião
em que os põem seus amigos, mas a que pede a verdade, que
cUe claramete conhece. Menos mal he saberem os pequenos en-
ganar , que poderè os grandes per via de ignorantes ser engana-
dos. Perderse ha em breve o míido, se os Príncipes nào forem
sábios. O Rey que erra não he digno de perdão , porque o seu
erro he à custa de muytos, como o dos Ceos, se declinassem de
geu ordenado curso. S. Augustinho diz que a ignorância de que De Ciút.
tem por officio fazer justiça , mais se deve chamar desaventura , /i6. 9.
que ignorância, pois vem a cair sobre a cabeça de muytos, &
Tfdunda em calamidade dos innocentes. Mandava Deos que o Levit. 4.
próprio sacrifício que se offerecia pelo povo quando peccava por
ignorância, se offerecesse pelo Siímo Sacerdote (que muytos
tempos sérvio de Rey ) quando cr)metesse algíí peccado ignoran-
temente, mostrando que n<js olhos 6t juizo de Deos tão grave he
íi ignorância da pessoa do Rey somente , como a de toda a Re-
publica : porque o que delia resulta & o fim em que para sam
geraes infortúnios dos súbditos. Seja pois o Rey nas satisfações dos
serviços & mercês que faz prudente & advertido, assi na quali-
dade delias , como na qualidade , trabalhe por não dar matéria
a seus vassallos para se agravave do excesso & desigoaldade de
híías a outras; (Sc tenha tal prudência q não dè mao exeplo na
rt>partição delias. O Imperador Diocleciano, antes de o ser,
sohia dizer não aver negocio de maior difficuldade , q governar
bem. O Ecclesiastico disse q o principado do sesudo seria esta- 157—2.
vel, & o Rey peco daria à costa cô todo seu império. A razão Cap. 10.
deve ensinar o Rey &, nao o uso. Porq a prudecia q se acquire
per perigos & danos he misera & infelice , principalmète a q se
não escarmenta em a cabeça alhea. Não moramos e Ásia sobre
Paphlagonia entre os Chalibes juto do Thracio Bosphoro, onde
os Masinecos faze os Reys per votos, &. os tê em cust(Kb'a , &
tãto q crrão no governo ou pronucião còtra direito, os affligè cò
fome tè q perece, segíido escreve Mela. Devião os Reys gastar Db. 1. c.
os melhores annos e revolver as leys de seus Reynos, & estados, 21.
& dar de mão a historias & philosophias , não avedo tèpo para
tudo. Elrey D. João III. de Portugal as tinha tão vistas q
muvtas vezes emendava os despachos de seus Dezèburjjadores ,
16
:]C>2 FíIALOdO QUINTO.
dizedo as partes q lhes não podião aproveitar por nâo sere con-.
formes» a suas ordenações. Outras vezes respodia aos q lhe pe-
dião o q nã era justo , q lhes não podia fazer a tal mercê , porq
seria perverter a ordem do direito. D. Philippe N. S. costuma-
va muitas vezes advertir seus officiaes das faltas q achava na5
Provisões q passavão. Este he o ócio q cõvè aos Príncipes, &
não ler por Clarimíido, ou pola Illiada de Homero q traduzio
Laurencio Valia, & gastar o mais tempo com chucarreiros ou
em musicas , danças , jogos , & caças ( alem da honesta recrea-
ção ) esquecidos do estudo necessário para o bom governo em
grande prejuízo dos negociantes. O Sancto Imperador Theodo-
sio Menor ouvia partes de dia, & phylosophava de noite. Ex-
cellente phylosopho lie o Rey que com mete os magistrados &
157 — 3. cargos públicos a varões inteiros & incorruptos, que com summa
prudência escusa guerras nos seus Reynos, que não permite os
grandes & poderosos fazer violências aos fracos, & pequenos,
que os insultos & atrevimentos dos delinquentes castiga com o
mais pouco sangue que pode, que com leys, & costumes san-
ctos estabelece a tranquillidade , & sossego da sua Republica. E
toda via com ser esta a phylosophia própria dos Príncipes , de-
vião os seus conselheiros quando não ousão reprehender seus ví-
cios , darlhe a ler historias graves , & leys que os sábios ordenão
das virtudes, onde vissem suas culpas, Sc conhecessem seus erros.
Porque desta maneyra se raelhorao mais que com a reprehensão
Xi6. 10. da boca, & aviso cie palavras. Híia das cousas porque Aristote-
■jí^th. les dcfmio q melhor era governar a Republica por boas leys,
que por bõs homens, foy porque a ley quando põem preceito de
virtude, posto que vede os peccados, a ninguém he molesta,
nê odiosa como he o juiz , do qual facilmente se sospeita estar
corrupto cõ ódio, ou outro affecto humano. Melhor sofre o
Príncipe a censura da ley que a nota do reprehensor. E porque
ninguém lhe ousa falar verdade, antes tratão todos de lhe com-
prazer, & o temem descontentar, por tanto foy necessário, à
mesa do sacrílego Rey Balthasar, na parede fronteira, estando ellc
bebendo, & prophanãdo os vasos sanctos que seu pay trouxera
de Hierusalem , aparecerlhe dedos como de mão, que escrevia a
pena que por seus peccados lhe estava aparelhada. Justo he que
nos paços dos Princines as paredes falem, pois os homes calão, &
157 — 1'. com hiia mão caida do Ceo se lhe mostre a verdade ê as leys
escriptas, ja q ninguém se atreve nem ousa notilicarlha cõ sua
boca. Por Rey sábio tenho o que favorece a erudição, faz pu-
blicas universidades, & orna seus reynos de ricas livrarias. Isto
pòs Plinio entre os principaes louvores de Trajano na sua pane-
gyris, onde diz : Quáto estimas os Doutores da sapiência? sob
teu império respirarão os estudos das letras, receberão espirito &
líAS CONDIçAe» I)0 bom PRlNCrPTS* «iCS
sangue , & forâo realituidos à sua pátria , sendo dantes pola bar-
bara crueldade dos tempos passsados punidos com degredo. Que
os Príncipes obrigados da consciência de suas maldades , não tã-
to por ódio quanto por reverencia desterravão as artes inimigas
dos vicios por nào vere nellas suas desform idades. Conforme a
isto digníssimo de louvor he ellley Dom Joào o Terceyro, cuja
morte nem com lagrymas de sangue será nunca assaz chorada,
o qual vendo que em seus Rcynos não avia escokis geraes de
todas as sciêcias, por desterrar o barl)arismo delles , criou, &
perfeiçoou a Universidade de Coiml>ra, &, mandou buscar le-
trados estrãgeiros mui doctos, & insignes em todas as faculda-
des, ^ fez vir com grandes partidos de Itália, Frandes, Fran-
ça , & Castella à dita Cidade , onde se lê todas as sciêcias assi
da sagrada Theologia, como d(^ sanctos Cânones, Leys, Me-
dicina, phylosophia, Artes, & varias linguas. De maneyra q
cò seu favor começarão as letras , & virtudes a florecer , & fordo
sempre em crecimento ate estes têpos, & irão cò o favor divino
per todos os segres. O cutrario usam os tyrãnos q lanção de so-
bre seus hòbros, & da vista de seus olhos os varões de letras, &
autoridade por não terê seus vicios testemunhas de lato credito.
Guardenos Deos de taes Príncipes, & provêdonos de Rey sábio, 158-— l.
justo, &. ])io, alegre rn onos , & demos lhe muytas graças, òc
peçamos lhe com muyta instancia, que se não diminua o nosso
prazer presente, com o medo do futuro que lhe ha de succeder,
&. da roda da inconstante fortuna, ^ nenhíia cousa prospera per-
mite durar muyto. Devião os vassallos desejar de morrer em
quanto o seu bom Rey vive , porque depois não chore & se las-
timem cò a mudança do Reino, & entrada do novo Rey, q
muytas vezes não imita o seu predecessor, & muy poucas trás
hum bõ Rey se segue outro equivalente , & muy muytas trás o
niao, vem outro peor, & trás o peor, socede outro péssimo, do
que Deos nos guarde; por quem elle he. E em especial de Rey
bellicoso, que por mal do seu povo he esforçado. Peçamos lhe
Rey tal, que contra sua vontade tome as armas, &. assi ande
armado, que sempre ti-nha seu animo pacifico, & assi se entre-
meta nas guerras como se forçado viesse a ellas, & tal que não
deseje tanto a vingança como sua gloria, &. saúde, & nenhua
c<nisa mais pretenda da guerra c|ue paz honesta. Seja antes Pir-
rho q entrou por Itália com animo de vícer, que Annil)al que
nella fez seus assaltos a propósito de a destruir. Paz he o uso &
íructo da victoria , &. a este sò ími princijxilmente se devem era-
preuder justas guerras.
46 »
.164 DIALOGO QUINTO
CAPITULO XII.
Que o Rey seja pacifico , favoreça a virtude , ài conheçase a si
mesmo.
Ant. Nam tenho por sábios &, prudentes os Príncipes que se
1j8 — 2, presam muyto de cavalleyros; mas quiseraos curiosos das armas
& pouco guerreiros : & que assi guarnecessem seus Reynos de
munições para o tempo da guerra, que os regesse em paz flo-
'lom.ò. li. rente. S. Augustinho diz que he próprio de todo homem desejar
19. cap, 8. contentamento, & pelo conseguinte desejar paz sem a qual não
ha cousa que contente. Levantão os Reys guerras a grande cus-
ta de suas fazendas pondose a perigo de perder seus estados, &
às vezes suas próprias vidas & sempre com dano de seus súbditos
polo muyto sangue que se derrama, & dinheiro que se gasta,
o que deve pretender he gozar elles & os seus de larga & segura
paz conformandose com o filho de Deos que vindo à terra, &
levantandose cõtra elle todo mundo, a pobreza, o frio, a fo-
me , o cansasso , o inferno , os demónios , & os homês seus mi-
nistros, & a mesma morte q o deixou morto em hum pao, o
que pretendeo de toda esta guerra foy fazer pazes entre Deos &
os homês. Eu mais dou graças a Deos porque deu ao nosso Rey
Catholico sabedoria & virtudes dignas de seu império, que polas
victorias & triumphos que tem co seu favor alcâçado. Jà guerras
entre Principes Christãos poucas vezes carece de escrúpulos «5c
alguas estragão a túnica inconsutil de Christo , & não sò estas,
mas quaesquer outras se devião escusar podendo ser sem nosso
dano. Elrey Dô João líl. era tão amigo de paz, que movedose
nlgiias occasiôes pêra elle a romper (como foy a duvida das Ilhas
Malucas com o Emperador Carlos Quinto) tratou com elle todos
os assentos de paz, & concórdia, & acabou que se sobrestivesse
no caso & nam ouvesse causa de rotura ate se ver melhor , & se
158—3. determinar cuja era a cõquista delia. Da mesma maneyra o fez
movedose duvida nas partes de Alentejo sobre a demarcação des-
tes Reynos com os de Castella, & sobre os pastos das terras da
contenda & da serra de Arouche , sobre que erão succedidos
muytos insultos, & feitas muytas represarias de parte a parte.
Item offerecendose muytas occasiôes de differenças, & desasos-
segos com Elrey de França deu ordem a que se determinassem
as causas das tomadias & represarias &, grandes danos que a seus
vassallos erão feitos em o mar ])elos Pyratas, tratando sempre
de còservar a paz entre si & o dito Rey , & o de Inglaterra
quanto lhe foy possível. Pelo que dado que a divisa de Pelica-
DAS C0N'DIÇÕE5 Du BOM PKINCXriS. «ÍGÔ
no fosse de elRey Dô João o Segundo , nam na desmereceo este
Key y antes mostrou em suas oV)ras ser o próprio Pelicano. Teve
outras partes, & inclinações sanctas & realengas & respeito nas
cousas do governo muylo conveniente ao assosego , &. bom regi-
mento de seu povo, & o que nelle algus ignorantes julgavão por
fraqueza era digno de muyto louvor & claro testemunho do amor
q tinha a seus vassallos que sempre coser vou em paz. Quando
Annibal cobrio os campos Canenses dos corpos de nobres Roma-
nos, dando Magon novas da victoria em Carthago, Hãno illus-
tre Carthaginêse aconselhou ao Senado que fizessem paz cos Ro-
manos dizendo o que Silio pòs nos seguintes versos.
Pax óptima remin ,
Qiias homini novisse dalú est. Pax una triumphh
Innumeris potior , pax custodire salutan ,
£t eives (zquare potens , 2íc.
Paz he híia das melhores cousas q vierão à noticia dos homes, 158— ~ls.
nam ha triumpho que lhe chegue. He poderosa para conservar a
saúde & bem das Republicas, & igualar segundo os méritos de
cada híi os cidadãos delias. GuardenosDeos de Rcys que trazem
por letra de sua divisa, o direyto está nas armas, tomandoas
por juizes de suas causas. Donde vem delirarem os Principes
muytas vezes, tSc os povos pagarem suas desordens & delirios co
as vidas próprias, & extorsões de tributos incomportáveis. Sen-
tença he de Homero não menos verdadeyra que antigua.
Qiiidquid dclirant Reges plcctuntur yíchivi.
Em Tito Lívio estão escriptas estas palavras : Justa he a guerra Dccaã. 1,
aos que ella he necessária, & pias sam as armas dos que tendo lih. 9.
justiça , não tem outro remédio em que ponhão suas esperan-
ças. Por peccados do povo, & e pena & castigo delles manda
Deos Reys opiniosos & belicosos. Hclias disse a Elrey Achab : 3. J?íg^.l8.
Tu conturbas Israel & a casa de teu pay. Sobre tudo af firmo
que sam bemavenlurados os Reys que para favorecerem os vas-
sallos tem por norte principal a virtude & para os lançnr da pri-
vança os vicios. Xenophonte refere C]ue Agcsilao lícy de l.ace-
demonia folgava de ver pobres os que trata^ão negócios illicitos,
& enriquecia & honrava os virtuosos porq constasse quãto mais
proveitosa era a bondade q todas as outras artes. Se taes fossem
os Principes, mais seria sua casa templo de Deos que paço Real,
& viver sob seu império seria excellête lil^erdade. Estes sam os
JReys a q Homero chama yími/monas, que quer dizer maiores que
toda reprehensão, nos quaes iMonius filho da nout»' & do sono
não acha q reprovar. ímmensos louvores se devem a Deos quan- 159 — 1,
do dá aos povos taes Principes. Num livro dos Reys está escrito Lib. o.
este dito de híi Rey Gentio : Louvado Dros que deu a David
filho sábio por amor do seu povo. Hyrão Rey de Tyro escrexeo ^.Par.c.O.
366 JJIALOGO QUINTO
a Salomão, porque Deos amou o seu povo, te íez Rey sobre
Jo&ue 24. clle. O mesmo lhe disse a Raynha Sabà. Sérvio Igrael ao Se-
nhor todo o tempo que Josué imperou. Tanto aproveita o bom
Príncipe para encaminhar os vassallos & súbditos ao serviço de
Deos. E pelo contrairo o mao & desatinado basta pêra os con-
taminar a todos. E porque sam tamanhas as obrigações dos Reys,
ouve rnujtos liomes de intendimento que recusarão a purpura &
Scjjtro Keal , & outros depois de o terem aceitado , o renuncia-
lÀh. 4. râo não podendo co seu peso. Quinto Curtio conta que algiis
Sidonios nobres enjeitarão o Reyno, aos quaes disse Ephestion :
Accrescêtados sejais em virtude, que primeyro entendestes quan-
to mayor cousa he desprezar o Reyno, que aceitalo. Infinito se-
ria proseguir este argumêto; do qual disse outras cousas graves
Osorwde & eruditas hum nosso Bispo. Conheçãose os Príncipes, & aviseos
insiitut. aquella lembrança que lhe faz Séneca o Trágico.
fiegis. lUi inors gravií incumbit ,
Qui nutus omnibiis ,
Jgnohis moritur sibi.
Penosa morte espera por aquelle, q sendo conhecido de todos,
morre se se conhecer a si mesmo. O Rey ha de conhecer que he
homem, cousa que raramente na fraqueza de nossa humanidade
se acha, & ser dotado de tantas perfeições, cjue nenhum discre-
ló9 — 2. dito aja em suas obras, & cò ellas se mostre merecedor de pos-
suir a governança de grandes impérios. Felices sam os Principes
que fazem justiça, que se lembrão que sam homés, que sam a-
migos de paz, que procura com sua potencia a dilatação do cul-
to divino, òc a fazem serva da magestade de Deos, que sam fa-
ciles em perdoar & tardos em se vingar , & amão mais que o da
terra aquelle Reyno onde se não teme competência doutro Rey.
^rig. tom. Sancto Augustinho fala a este propósito divinamente , a quem
ò. cap. 24. remito o Lejtor,
líbi plvra
CAPITULO XIII.
Qímm trabalhoso ò( perigoso he o estado dos que governâo.
Jiist. Os peccados do povo muytas vezes & com muyta rezão
se imputão aos que governâo. Os filhos de Israel idolatrarão , e
Aaron foy pela tal culpa reprehendido. Que te fez este povo
para que íu o deixasses cair em mal tamanho. Não disse Moyses
que fizeste tu , mas que fez elle contra ti, como se fora género
de vingança não ir o Príncipe à mão nem resistir aos apetites
depravados dos que lhe estão sobjeitos. O erro do relojo a quem
DAS CONDI^ClS dg BO.J PRÍNCIPE. oG7
O tempera se atribue se lhe não faltão as rodas, pezos & mais
cousas necessárias. Corrupta a caboqa do pexe, todo o corpo se
corrompe. Quem quer saber qual he o estado da Republica,
veja Cjual he o Principe cabeça delia. Todo o peio do seu líey-
no tomou sobre os hombros o Messias. Nam cuidem os Reys que
seu principado lhes dà licença para se entregarem ao descanso,
antes os obriga a mores trabalhos. Polas grandes obrigações, em
cargos & perigos que o governo Iras consigo , nam quadra nem 150 — :*.
esta bem a muylos, & cabe no mérito de muy poucos sendo cc-
biçado de todos. Opinião he de sábios ou faltar o juizo, ou so-
bejar sandice, soberba, & ambição aos que se offerecem a tomar
cargo de vidas alheas. Claro esta que não sam os homes tão a-
migos do bem cúmum que se esqueção de si mesmos, & fazendo
a si dano procurem o proveito dos outros. Nisto se vee quani
grande negocio seja emendar vícios alheos, em serem mui pou-
cos os que emêdão os próprios. Claríssimo & f('rm<isissin)0 he o
nome do Rey , mas muy duro & difficultoso seu oflicio se bem.
o ha de fazer , & por tanto mais se ha de ter delle lastima que
enveja. Digo mais que não cabe em home vergonhoso desejar 6c
procurar off]cío, na serventia do qual para comprir com todos
ha de mostrar o rosto de fora, & híí coração no exterior contra-
rio ao interior; cousa que àquelles somente pode ser facíl , que
tendo de malícia, &. fingimento muyto, de vergonha, &. sim-
pleza tem muyto pouco, & de cusideração quasí nada. O que
toma â sua conta reger a outros busca cuidados para si , enveja
para seus vezinhos, perigo para sua alma, hí^nra, fama, vida,
& fmalmente occasião para perder amigos, & cobrar de novo
inimigos. Se os que governão caíssem nesta conta , sem esperar
mais garrochas se sairião do corro, & acíjlheríão ás tranqueiras,
& palanques mais seguros. Os que vão à praça , & à montaria
correr os touros, porcos monteses, & bestas feras, vo de là cor-
ridos ; assí os ambiciosos cuídào que governão, & sam governa-
dos, & que tem a muytos debaxo de suas mãos, & elles andào
debaxo dos pès de todos , & tudo sofrem , por não sei que. Pe- 15C — í,
rigoso he também o estado dos Príncipes, pois hão de dar conta
dos erros que em seus reynos se sameào, «Si dos vícios que nellcs
se introduzem. Ouvindo Herodes falar dos milagres de Christo
teve para si que este Senhor era o grande líaplista que elle a-
via degolado, & tomou tanta força esta sua opinião, que se es-
tendeo por diversas partes, & fez cair nvslr erro a muytos, se-
gundo se collíge da reposta q os discípulos derào áquella pergíí-
ta que lhe fez seu mestre : Que diz»m Os hcmês ser o filho do Morei 6'.
home? Também he de advertir que c(jirendo ja a esta sazão o Matt. iC.
derradcyro anno da pregação de Christo, & sedo morto o Bap-
tista, & avendo passado dous annos que (.hristo prèga>a, & fa-
3(j8 t)lALOGO QTJINTO
■/Àa milagres onde reynava Herodes , não veio às orelhas do Rey
a fama de seus sermões & maravilhas, sendo ja espargida não sò
])or Galilea, & Judea, & outros lugares propinquos, mas tam-
bém por toda Syria. E o que he mais, desejando de ver a Chris-
LuccB 23. lo, por hum anno inteiro que andou em Galilea, o não vio se
não em Hierusalem , quando Pilatos lho remitio. Triste he nes-
ta matéria a sorte dos lieys, & muyto para temer seu estado.
O que pode aproveitar a suas almas chega a elles tarde; & o
que lhes podo danar muyto cedo. Foy Jonas pregar aos Ninivi-
tas a destruição de sua Cidade, cujos moradores peia pregação
do Propheta hzcrão penitencia , vestiranse de saco desdo mayor
atè o menor, jejuarão, «Sc fizerào jejuar as suas alimárias, &
depois de tudo isto diz a Escriptura q veio à noticia delRey , &
elle foy o derradcyro a que chegou a nova, porque era para bem
160 — 1. seu , & de sua alma. Polo contrario o que he para mal, a elles
chega primeiro. E escassamente tinha entrado Sara em Egypto,
ti Judith no exercito de Holophernes, quando os criados do Rey,
& os soldados do general o fizerão saber a seus senhores, gaban-
dolhes a fermosura para peccarè cõ ellas ; & de feito peccarão se
a providencia divina não acodira pola honra de suas servas. Esta
he a sorte que cabe aos Príncipes assaz miserável , & para cho-
rar. Em tanto perigo estão as pessoas poderosas, principalmente
os Reys, que nem de si mesmos tem o dar se à virtude, & dei-
xar os peccados, nem ha quem se atreva a darlhes a mão para
que não cayão , antes sendo desacerto , & illicito o que preten-
de, achão mil que digão ser acertado, & que tudo lhes he liei-
lo, sem aver hum que lho côlradiga. Todos os que o servem
dão em lisonjar & lhes còprazer. Isto significava a praga das rãs
de Egypto que contaminarão o paço delRey Pharao , & sua me-
sa & cama. Rãs sam os aduladores , que na casa , na mesa , na
cama catão lisonjas ao Rey. Desejando Elrey Achab tomar a
vinha a Naboth, sua própria molher Jesabel lhe disse cousas
com que o veio a effeituar , & deu tal desordem que seu marido
ficou com a vinha, &. Naboth sem ella , & sem a vida. Dou
Elrey N abuchodonosor em tamanho desatino que quis ser adora-
do por Deos em híía estatua , & não ouve grande , nem valido
em sua corte que lhe fosse à mão, antes não faltaria quê lhe dis-
sesse : Pois nôs os Assírios adoramos a Baal , a Bel , & Beelphe-
gor que sam demónios : &, os Gregos adorão a Jupitej adultero,
a Saturno homicida, & a Vénus deshonesta; mais justo he q
IGO — 2. pois Vossa Magestade alcançou tantas victorias, subjeitou tantos
lieynos, & nos sustenta em paz, & defède de todos nossos ini-
migos, & he nosso Rey & Senhor, & Monarcha tão soberano,
seja de todos adorado por Deos. Este voto seguirão os mais do
conselho, & se a algum delles pareceo outra cousa, não ousou de
DAS CONDIÇÕES DO BÔM PRINClPE. 3r>9
boquejar. Esle he hum irremediável dano em as consultas , &
juntas do Conselho Real, que se os collateraes, & primeiros
■votos sam gente desalmada, os outros, ou por respeitos, ou por
\ergonha, ou por pusillanimidade se lhes acostao, &. conchegâo :
donde vem perderse a causa , & ficar sem remédio o que nella
tem justiça , mormente se vai , & píjde pouco. Bem disse Lam-
pridio na vida de Severo, que mor inconveniente he serem mãos
os côselheiros, que selo o mesmo Key. Porque híia sò pessoa
com facilidade se emenda, & muytas com difficuldade. Costu-
mão pintar os lisôjeiros ao seu Rcy todas as cousas com cores ,
que lhe dem gosto , & dão ordem que nâ saibao mais delias que
o que lhe vem bem , & serve a seus intentos. He este hum dos
grandes danos, que recebe os Príncipes daquelles vassallos, que
por não perderem a sua graça , perde a de Deos , & cuidao que
não tem culpa em o mal que se segue, porq lhes não agrada,
nem elles aproveitão, sendo cousa certa que muytas vezes para
com Deos, o não dizer a verdade he vendela, & o não impu-
gnar a falsidade he consentila. De mais disto se o Príncipe quer
íazer o que deve , & lhe pertence , não tem hora de repouso.
Deixo as insidias , & enganos de q se deve sempre temer. Como
tem no seu principado o lugar sublime cpie o grandíssimo Deos
tê em todo o mudo , carrega sobre elle o cuydado de governar 160 — o«
com prudência todas suas cousas, &. fazer que com verdade se
diga , que todos os que estão sob seu governo dormem seguros
cos seus olhos. Mormente, não avendo província em que não
haja tantos escãdalos, tantos ódios, & bandos que seria melhor
yi\GT em a mais áspera, & esquecida soedade, & etre os mais
feros animais, que em qualquer bem governada Cidade entre os
homês.
j4nt. Tudo isso remedea o bô Príncipe, que sabe ter os seus
povos sob as leys, & tão subjeilos que essas perturbações lê nel-
les pouco lugar.
Just. E como se pode acabar isso com híía natureza tão per-
versa como he a dos malfeitores, se não for com penas gravíssi-
mas, & com mortes, & tormentos cruéis, que o fazem odiado,
& quiçá não dão menos pena a quem os dà, que a quem os
soffre. Nam se pode negar que nos que governão nam sejão mais
CS cuydados, & enojos, que os prazeres, especialmêle se amão
a saúde de seus súbditos como convém. Nam valem cê prazeres
hum dos seus desgostos. Tê os homcs tantos desejos ímmodcra-
dos, &. contrários a seu bem, tSc proveito, que nam basta a luz
da razão , nem a multidão das leys , nem a rigorosa execução
delias para os arredar & desviar dos vícios com o temor das
penas.
Jnt. Esses sam os roins, & perversos, mas os bôs obrando o
47
370 DIALOGO QUfNra
que devem por amor da virtude , nem le medo das penas , n§
necessidade das leys.
Just. E que tantos seram esses? bem se podem contar sem se
replicar mu)'tas vezes o principio do numero, & pelos dedos das
mãos.
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CAPITULO XTIII.
Pagão os vassallos a pena que seus Reys inerecem , os quaes , in-
da que mãos , deve ser acatados , óf suff ridos.
160—4. Ant. Lemos na divina Scriptura q mandado elRey David a
Job seu general , que posesse & fizesse lista de todos os varões
que avia em o povo de Israel , porque a causa que a isto o mo-
veo foy vangloria ( q entre todos os vicios com menos sêtimento
nos lança em perdição ) antes de se acabar a lista , como consta
do Paralipomenon , David se arrepêdeo do que tinha mandado ,
& Deos lhe enviou pelo Propheta Gad a dizer , que a culpa lhe
perdoava por sua contrição ; mas em castigo & pena delia lhe
~ dava a escolher híia de três cousas , ou sete annos de fome , ou
três meses de guerra, ou três dias de peste, que deliberasse qual
havia por menos mal. Tomou David tempo para cuidar na re-
posta, & discorrendo cõsigo dizia : Se peço fome, pequena par-
te desta pena me alcançará a mim , q pequei & fui causa de
toda ella. Quãto mais que em tempo de fome muitos se avezão
a pedir sem necessidade, outros se desavergonhao a furtar, fazêse
roubos, & outros graves peccados. Se peço guerra, farseão muy-
tas extorsões & desaforamentos , os meus passarão mal , & eu
que tenho a culpa toda me porey no lugar mais seguro. Quero
pois pedir peste porque a morte he o menor mal que aos bos
pode vir, & em tempo de semelhante trabalho vivem os homês
em temor de Deos vendo que a morte lhes bate à porta , «Sc he
castigo de que eu não fiquo exempto, porque igualmente abran-
ja I-^lt ge grades & pequenos. Feito este discurso respondeo David ao
Propheta : Em grande confusam & angustia me tês posto com
tão triste embaxada, mas pois não posso escapar de algum dos
três males c{ue posestes em minha escolha , digo que antes seja
o da peste, porque melhor he cair nas mãos de Deos cujas mi-
sericórdias não tem conto, cuja indignação pela penitencia se
aplaca; que nas mãos dos homês que quando estão apassionados
& se sentem afrontados , não sabe perdoar. Sobreveio logo tanta
corrupção no ar que em breve tempo consumio setenta mil ho-
mês.
DAS CONDIÇÕES DO BOM PRlflClPE. 371
Jiist. Neste exemplo se deixa ver assaz claro, como às vezes
commetendo o Rey a culpa, padecem os vassallos a pena, que
he o que disse o Poeta, & ja corre por dito vulpar.
Quidquid delir ant Reges plecluntur Achiti.
Pagâio os povos os desvarios de seus Príncipes. Como o Reyno
he fazenda do Rey , nelle o castiga Deos. P^ntendão daqui os
povos quanto lhes vay em ser o seu Rey Catholico, servo de
Deos; & quanta necessidade te de supplicar à divina Magesta-
de , o tenha de sua mão, pois tanto depende delle o seu bem,
& o seu mal, & entendão também daqui os Reys que devem
aver por suas as offensas que se fazem aos de seu povo , pois he
fazenda sua. Na hora de sua morte disse David a seu fdho Sa-
lamâo : Bem sabes o que me fez Joab , q matou dous Principes
do exercito de Israel que anda vão em meu serviço. Nam disse o
que fez a Abner & seu irmão, mas o que me fez a mim mos-
trando que mais fora elle offcndido, que os próprios que foiào
mortos. Como seja officio do Rey guardar sua Republica , & fa- 161 — f ♦
zer a todos justiça, à sua conta ficao os males que os particulares
padecem. Ouve também no tempo de David grande fome & ge-
ral esterilidade no íleyno de Israel, que durou por espas^-o de
três annos, & revelandolhe Deos a ca-isa, disse que vinha a-
quelle assoute por hum peccado que seu antecessor avia cometi-
do negando aos Gabaonitas com perda de suas vidas certo segu-
ro, que lhes tinha dado. Visto isto mandou os David chamar,
& perguntoulhes com q se satisfarião , responderão que nam que-
riào prata nem ouro, senão que pois Saul matara muytos dos
^eus naturaes, morressem também algíis da sua linagem , com
a morte dos quaes perdoarião a offesa, & se averião por desagra-
vados, & que nisto pedião justiça, porque era justo fazerse todo
o possível ])ara que não ficasse na terra geração de tão mao ho-
mem, como fora Saul que tanto mal lhes fizera. Entendido por
David que era võtade de Deos comprirse o que pedia os Gabao-
nitas, tomou dous fdhos de Saul nacidos de Respha sua concu- 2. Reg. c,
bina, & cinco netos do mesmo Saul filhos de Micol sua filha 21.
mais velha, & mandou os por em sete cruzes, onde perecerão
todos sete , & com isto se applacou Deos , & enviou agua à ter-
ra com que cessou a fome. Muytos annos avião passado depois
que Saul fora cruel com os Gabaonitas, & ja Saul era morto,
& tinha o Reyno perdido , & Deos não estava inda applacado ,
nem se applacou tè que síhis filhos , & netos forão crucificados.
Neste mesmo exèplo vemos como Deos castiga todo hum reyno
por culpa do seu Rey. Saul peccou , & todo Israel pagou o seu
peccado, &. tambê seus filhos & netos o pagarão. Do peccado cõ- 1(>1 — Ut^
metido, diz o Sábio, não perca ninguém o medo, ]X)rque inda Ecclc?,. 5.
que o castigo se dilate , cm final elle ha de vir. A ira divina he Fal. Ma-
47 * oàm.
372 DIALOGO <aUiNTO
muy vagarosa cm acaJir com a vingança, mas recompeftsa o
vagar com a grandeza da pena. E todavia os Doutores Hebreos
apontâo híía cousa que deve servir de aviso para dos vassallos
não ser o mao Rey desacatado , & he que sendo Saul tão mao
Key , «Sc tendo tanto ódio & enveja a David , tratando de lhe
tirar a vida , & andandolhe negoceando tantas vezes a morte ,
toda via pelo desacato que David avia feito a Saul sendo seu
Rey, quando lhe cortou a borda do vestido em a cova onde Saul
entrou , & David eslava escondido , nicreceo David em pena
deste atrevimento, & descortesia, q na velhice os seus vestidos
por quentes que fossem o nam aquentas>(>m. x\os Reys, nem na
roupa he licito tocaios, deveselhes serviço, obediência, amor,
& reverencia. Nem porque nelles aja algíias faltas segundo o
parecer de todos, tem os vassallos licença para lhe tomar abor-
recimento , nem para murmurar , & os desacatar , inda que por
elles sejão carregados de peitas, & tributos, que he a matéria
ordinária de seus queixumes. Desfazer nos superiores , he cortar-
Ihes as roupas. Quando as cabeças fazem o que não devem , a
Deos se ha de deixar o castigo, nem ha para que os inferiores
tratem delle, se não querem que lhes venha o seu do Ceo. Com
rogos se ha de procurar a equidade , & misericórdia dos Princi^
pes : & caso que não baste sendo o agravo manifesto, remeta-
molo a Deos a quem hão de dar estreita conta. E se devemos
161 — 4. falar verdade , muytas vezes nam ha mais culpa nos superiores ,
que quanta os agravados lhe querem dar. Amem os vassallos seus
Reys, sejão lhe leaes, & sofrãose em seus desgostos. Cousa è
que os nossos Portuguezes se aventajarão sempre a todas as ou-
tras nações , entre as quaes não ha algua , em que se não ache
aver interrupções de successores legitimos privados de seus reais
patrimónios , & da coroa de seus Reynos , hora com algua cau-
sa, hora sem ella , & sempre sem a bastãte , inda que com tirar
a vida de hum mao se acrecente a de muy tos bus, pois não he
licito fazer males para q no? venhão bcs. Porem em Portugal
não ouve Rey antigo, nem moderno que fora de batalha mor-
resse de morte violenta , nem vassallo que contra seu Rey se le-
vantasse a fim de o privar do Reyno, como lemos de muytos
Príncipes, & senhores Gregos, & Latinos levantados dos seus a
grandes honras , & dignidades para delias os derribarem , &. aba-
terê cõ mores afrontas. De certa nação da índia se lee, que te-
ve em tanta veneração os seus Reys, que mais parecia adoralos
como Deoses, que reverecialos como a senhores : porque bastava-
mandarem dizer a qualquer vassalo seu que tinhão pouco gosto
de sua vida, para elle se matar à própria hora, tendo por crime
nefando viver contra a vontade do Rey , que elles tinhão por
«agrado. Nâ se ha de criar nos Reynos o leão, «Sc se se criar hti
TAS COKJJIçÇeS do DOM fíUNCllT. 373
se de affagar. Antigo refrão he, come o fj criaste. Todo o poder
he de Deos ou para «'xercicio dos Vjõs, ou para pena dos mãos.
Quanto mais que se o Key bc tyranno, quiqà com a obediên-
cia dos seus se amansará, que na ha condição tào terrível que
vendose obedecida, & sofrida não se abrande. A impaciência 162— 1.
não diminue o ^ nos he molesto, antes o augmenta. E deve
bastar executarse per -via do Key o justo juizo de Deos, índa
que seja com injustas, & peccadoras mãos, como se soe executar
a justa sentença do juiz pio per meio de hum ministro tyranno.
Em o primeyro livro dos Reys se lè que chamou David na Scri-
ptura filhos de Belial aos Israelitas, que menosprezarão seu Hei
Saul , & lhe negarão a cortesia , & vassallajem a sua Real pes-
soa devida.
CAPITULO XV.
Quão necessário he ao Rey aconselhar se com Deos.
j4nt. A prudência humana falta em muytas cousas, especial-
mente nas particulares. Dòde he que se os Reys se governarem
por ella somente , passarão muytos perigos & não acertarão em
suas empresas. Sam nossos discursos muy curtos, & nossos juizos
muy incertos , & por tãto se não queremos errar nesta vida chea
de trevas, & enganos, convém não nos fiarmos de nossa prudên-
cia, senão consultar a Deos, que nos alumie em todos os negó-
cios, & casos urgentes. Que para acertarmos nao ha outro cami-
nho que certo seja , senão aconselhamos com elle , & pedirlhe
que seja a guia de nossa razão. O Sábio diz, jx>em