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Full text of "A expedição de Pedro Alvares Cabral e o descobrimento do Brazil"

E 






M 






ELIJAH CLARENCE HILLS • 1867-1932 




Elijah Clarence HiLLS was, from 1922 till his death, first a Professor oí 
Spanish and then Professor of Romance Philology at the University of 
Califórnia. A native of Illinois, reared in Florida, he graduated from Cor- 
nell in 1892 and studied in Paris; he was successively professor in Rollins 
College, in Colorado College, librarian of the Hispanic Society of America, 
and head for romance languages at Indiana University. For his distin- 
guished achievements in Spanish philology, he was made Knight Com- 
mander of the Royal Order of Queen Isabel. 

In Professor Hills were combined vast and precise learning with extraor- 
dinary humanity. Though a grammarian and ,philologist, his teaching 
implied the great world. He had a talent for friendship: capable of the 
scclusions of the scholar and editor and bom to an inviolable personal dig- 
nity, he possessed also an uncommon social charm which exercised itscif 
in widening circles. His charity showed as kindliness, deference, toler- 
ancc, the sharing of the possessions his long labors had accumulated. He 
was a wise collector of books, and specializcd in Spanish lexicons. Mrs. 
Hills presented to the University of Califórnia his collection of books, onc 
of which is here inscribed to his memory. 






ir 



i 

\ 



^ 






AEXPEDICAO 



DKO- ALVARES CABRA 



DEJCOBR.IMEMTO 
BRASIl£:?«>c 



A EXPEDIÇÃO DE PEDRO 
ALVARES CABRAL 



E O 



I DESCOBRIMENTO DO BRAZIL 




I 



DO AUTOR: 



A Morte da Águia, 1909. 

A Arte e a Medicina, 19 10. 

Daquem e Dalém Morte, 191 3, (esgotado). 

Glória Humilde, 1914, (esgotado). 1 

Cancioneiro Popular, (Antologia pendida de um estudo 
crítico), 19 14. 

Cantigas do Povo para as Escolas, (Selecção e pretá- 
cio), 1914. 

O Infante de Sagres, drama em ÍV actos, 1916 (3 edi- 
ções, (esgotado). 

Egas Moniz, drama em iV actos, 1916, (3 edições). 

Memórias da Grande Guerra, 1919, (3 edições). 

Soror Mariana — Cartas de Amor— Nova restituição e 
esboço crítico, 1920. 

Adão e Eva, peça em 3 actfis, 1921. 

hália Azul, 1922. 



JAIME; CORTESÃO 



A expedição de Pedro 
Alvares Cabral 

E o 

Devscobrimento do Brazil 



H n 



LISBOA 

Livrarias Aillaud e Bertrand 

Paris-Lisboa 

1Q22 






£..C.H-i\\s L.V 



Composto e impresso nas Oficinas Gráficas da Biblioteca Nacional 



À Colónia Portuguesa 



DO 



BRAZIL 



87(^05 



^ 



hm boa verdade^ não nos pertence a iniciativa 
deste livro. Convidados a colaborar na Histó- 
ria da Colonisaçáo do Brazil, a obra monumen- 
tal., com que a Colónia portuguesa em terras 
brasileiras celebra o Ceiítenário da Indepen- 
dência da nação irmã, e tendo-nos cabido., den- 
tro do seu largo plano, o relato da expedição 
de Pedro Alvares Cabral., na sua organisação., 
biografas dos comandantes e prÍ7neiros passos 
até à partida do Restelo., veio o nosso trabalho 
a assumir proporções^ que excediam o âmbito 
marcado. Convencidos., todavia., de que lográ- 
mos esclarecer com as nossas investigações al- 
guns pontos obscuros desta parte da história 
portuguesa e brasileira e ajudamos a ve-la q 
uma nova lu\., amavelmente incitados também 
pelo sr. Carlos Malheiro Dias, organisador 
daquela obra, a publicar o 7iosso estudo na in- 
tegra e em separata, resolvemo-nos, assim, a 
da-lo à estampa, acrescentando-lhe a colecção 



dos mais importantes documentos, até agoy^a 
dispersos e que constituem as fontes respectivas. 

Sem esta prévia explicação, fora impossivel 
compreender o traçado geral da nossa obra, tão 
exuberante em certos pormenores e escassa na 
historia da expedição. Algum dia, que tenhamos 
conhecimento mais directo do Atlântico e da 
terra brasileira, concluiremos com um segundo 
volume este relato. 

Ao ilustre escritor, cujo honroso convite ori- 
ginou este trabalho, devemos e agradecemos a 
alegria de termos durante meses convivido, 
numa profunda exaltação de espirito, com ai- 
gu7is dos Homens da nossa Edade de Oiro. 

E, pois, este trabalho foi concebido dentro 
daquela vasta obra, era egualmente dever nosso 
com íntimo júbilo cumprido, oferecê-lo á Coló- 
nia portuguesa, pois deriva do plano das suas 
homenagens ao Brasil, pelo Centenário da sua 
Independência. 




Porto» tUt M<tr 



P -Vora tio ,v„r 



P- da i^onuyen, 
P da Ribeira 

P- do Arco dfM tinrrc/<* 
' P. ftu Arco rio» Prt4i<^ 

PnalP da Mntrín 

1 *P do Arco í/'M /»<Kar 
^ I 

è IP.do Ouro 

« i 

^ ] P. do Carvân 

"^ } P. dos Corte- ««,»** 

P. doa Cuberto* 



LISBOA NO ANO DE t5oO 



Lisboa, a senhora dos Mares, nesse ano de 
i5oo, em que a armada de Cabral largava da 
Ribeira das Naus a caminho da índia, mal 
começava a esburacar a sua velha mas re- 
sistente capa medieval. Possuia um aspecto 
exterior e íntimo, único na sua história. Por 
então ainda os melhores paços do rei e dos 
senhores condiziam na fábrica e na severa 
descomodidade com a singela polícia daquele 
século, a findar. Todas as maravilhas duma 
arquitectura que atingira a expressão da mais 
sublime idealidade, quási exclusivamente se 
guardavam para os templos e os cenóbios, 
a atestar assim um sentido da vida sincera- 
mente religioso. O vuko e a traça da cidade não 
obedeciam a qualquer plano de enobrecimento 
externo. O burgo tumultuário conservava o 
ímpeto e rudeza nativos da grei que o construí- 
ra. Volvidos poucos anos, seria a Lisboa ma- 
nuelina, oriental e faustosa, cujos fidalgos, aban- 



2 EXPEDIÇÃO DE 

donando a antiga cerca e dobrando a última 
colina, que escondia a cidade (a de S.*^ Cata- 
rina), pejavam, a exemplo do rei, de pompas e 
palácios a Ribeira, em direcção ao Mar. 

Aquela data, D. Manuel não completara ainda 
cinco anos de reinado. E as primeiras novas 
certas da índia, vindas pelo Gama, e que iam 
decidir da política e actividade nacionais, só há 
cinco meses que traziam em pasmo e sobresalto 
as gentes. 

Torna-se mister esquecer de todo esta Lisboa 
de hoje, vasta e disseminada por monte e vale 
até ao mar, com sua fria Baixa pombalina e 
as avenidas claras e banais, para evocar com as 
gravuras de Braunio (i) e de Beninc (2) o an- 
tigo burgo, curto e amuralhado. Já não se 
apertava apenas, como nos moiriscos tempos 
em que escrevia Osberno, no alto dum monte 
arredondado, in cacumine montis j^otundi (3). 
Alastrava-se agora por cinco outeiros e outros 



(1) Urbium praecipuarum totiiis mundi theatrum,vo\. V. 

(2) Desenho de Simáo Beninc no ms. i253i; tab. VII, no 
British Aluseunij de Londres, Port. drawings. A Biblio- 
teca Nacional possui a reprodução do manuscrito. 
Igualmente se pode ver o desenho de Beninc em Rai- 
nhas de Portugal, Benevides, e A vida de Nim' Alvares, 
O. Martins. 

(3) De Expugnatione Olissiponis, in Port. Mon. Hist., 
Scripiores, pag. Sgi. 



PEDRO ALVARES CABRAL O 

tantos vales (i). No mesmo rotundo monte (do 
Castelo), cujas barreiras eram então quási lim- 
pas de casario, a mole da Alcáçova continuava 
a dominar, formidável e sósinha. Pendiam-lhe 
das ilhargas, caindo sobre a metade leste da 
cidade até à beira das águas, os esboroados 
panos das muralhas moiriscas. Ali findavam os 
limites da primeira Lisboa. Mas, tendo crescido 
e alagado as colinas vizinhas, circundavam-na 
agora as muralhas mais amplas de D. Fer- 
nando, com as suas setenta e sete torres e as 
trinta e oito portas, vinte e duas das quais so- 
bre a Ribeira. Viam-se-lhe aqui e ali as espessas 
quadrelas, encrespadas de ameias, avançando 
em cada saliência os válidos cubelos, rasgan- 
do-se a toda a volta com os arcos das portas e 
postigos, por cujas aspérrimas ladeiras se en- 
trava na cidade, e, pojando num ou noutro lanço, 
a casaria, que trepara de encosto aos adarves 
cimeiros. 

Todavia, comparado com a área actual, o 
âmbito circundado da cidade era limitadíssimo. 
As muralhas, que nasciam à beira do Tejo, no 
lugar onde hoje assenta o Arsenal do Exército, 



(i) Nicolas de Popielovo, fidalgo alemão, que em 

1484 visitava Lisboa igualava-a na grandeza a Colónia 

e a Londres. Veja-se Viajes de extranj eros por Espana 

y Portugal en los siglos XV, XV ly XVII, traduzidos 

por F. R. Gollecion de Javies de Liske. Madrid, 1878. 



4 EXPEDIÇÃO DE 

subiam por S. Vicente a leste, trepando e ondu- 
lando ao norte, pelos altos da Graça, Castelo, 
Santa Ana, Carmo e de S. Roque, em cujo 
viso extremo a torre de Álvaro Pais sobresaia, 
e dai vinha descendo pelo largo do Loreto e 
Ferregial até ao Largo do Corpo Santo, bei- 
rando depois ao sul toda a margem do Tejo, 
que fora delas se estendia na vasta e tumul- 
tuosa zona dos cais, espalmadoiros e estaleiros, 
coalhada de barcos e navios. 

Na sua metade ocidental, entre os morros do 
Carmo e do Castelo, a cidade formava um apro- 
funda depressão, mais vasta do que agora, até 
ao largo do Rossio ; o qual intestava ao norte 
com a cerca e era muito mais espaçoso. Tam- 
bém as cinco colinas da cidade, salvo em que 
eram mais despidas, não desdiziam muito o seu 
relevo actual. 

Nas ruas sinuosas e sem ândito, de lágea ou 
de ladrilho, tão estreitas que raro excediam oito 
palmos, já naquela época se construíam casas 
com três andares sobre a lógea térrea. Parcas 
de janelas, muitas das quais se resguardavam 
com a pálpebra das rótulas, exorbitavam no 
travejar de sacadas e balcões, enormes, para 
habitação, que alpendravam e escureciam mais 
as ruas, impedindo o trânsito. Predominava a 
construção românica de pedra. Mas usava-se 
a madeira também, à maneira do Norte; e os 
velhos hábitos moiriscos resaltavam ainda na 



PEDxRO ALVARES CABRAL 5 

profusão de eirados, que cobriam as casas, 
das graciosas chaminés, e até, em muita habita- 
ção, do vermelho escuro dos adobes. 

Quem olhasse pela banda do rio o velho bur- 
go, divisaria sobre o embrechado dos cunhais 
e empenas e a revolta toalha das assoteas e te- 
lhados, encardidos pelo mugre do tempo, os 
muitos coruchéus das torres (i), pairando com 
seu leveiro desgarro oriental, e, mais belos e 
altos entre todos, os da Alcáçova, de S. Vicente 
€ Sé. Os monumentos, por poucos, mas gran- 
diosos, ganhavam maior vulto e mais clara ex- 
pressão. A meio, paço do rei e castelo rocaz, 
acrópole gentílica, tatuada do tempo e dos com- 
bates, a Alcáçova poisava sobre o burgo, como 
uma coroa num escudo heráldico. Desponta- 
vam-lhe para o Ceu, em flecha, as torres, — a da 
Menagem, a do Tombo, a de Ulisses, o pró- 
fugo e mítico patrono da cidade. Posta a meio 
pendor, entre o morro do Castelo e o Tejo, a 
Sé erguia a meio dum terreiro, donde naquele 
tempo se avistava o rio, os dois esbeltos mina- 
retes, com três andares de duplas janelas, enci- 
mados por grimpas. Por baixo uma galilé 
francamente rasgada aligeirava ainda mais a 



(i) Dentro ou vizinhos da estreita cerca havia mais 
de trinta igrejas e conventos. Castro. Mapa de Portu- 
gal, tomo III, cap. 2. 



b EXPEDIÇÃO DE 

frontaria, enquanto a torre quadrada pesava 
soturnamente, a meio do transepto, na fábrica 
restante. Sobre o românico monumento, que 
nas suas grimpas e numa ou noutra ogiva de 
ventana sonhava as asas góticas, nem de leve 
tombara o orvalho dos lavores manuelinos. 
Era como um hipogrifo de granito escuro, 
quimera medieval, lembrando idades monstruo- 
sas e fastos esquecidos. Depois, para a esquer- 
da, sobre um morro, então chamado ainda o 
monte do Almirante, porque aí haviam sido as 
suas casas, o convento do Carmo apoiava-se, 
macisso e longo, aos fortes botareus. A ábside 
nascia de espigões fortíssimos, que se erguiam 
no extremo do cerro sobre o Rossio, a pique. 
Lembrava um sarcófago giganteo, assente so- 
bre um monte. Dir-se hia que a estátua ja- 
cente do Santo Condestabre avultara em todo 
o relevo sobrehumano do herói e poisava aa 
longo da arca tumular, gótica e enorme. 

A meio da cidade, a Mouraria e a Alfama dos 
pescadores e mareantes, mais denegridas e 
tumultuosas, escachoavam, com resaltos de 
tectos embatendo-se e sulcos fundos de rue- 
las, contra as abas do Castelo e da Sé. De 
longe em longe, entre as restantes zonas ha- 
bitadas, chapadas nuas de outeiro, encrespa- 
das de fragosidades, ou peças de olival cerrado, 
por S. Francisco, Sant'Ana, Castelo e Graça, 
abriam manchas terrulentas ou azul ferrete no 



PEDRO ALVARES CABRAL 



corpo fusco da cidade. Ramadas de vinhas e 
árvores fruteiras abriam toldos ou pendiam em 
muros quintalejos. Já então se viam fora das 
muralhas vastos edifícios junto ao Rio, e quin- 
tas suburbanas, pastagens e pomares de vale 
em vale (i). Pelos visos as velas dos moinhos; 
nas quebradas os armentios. 

Para a Outra Banda azulejavam serras na 
distância e estiravam-se pelas abras do rio ma- 
rinhas e estaleiros. 

A tarde, a fundura marítima do ocaso di- 
latava os Céus. Águias, contérminas àquela 
gente nessa idade (2), lançadas no profundo 
azul, marcavam-lhe com as remiges podero- 
sas os confins altíssimos. E como o Tejo 
ali em frente era mais vasto nesse tempo, e um 
listrão áureo de areias, entre a cerca e as águas 
estendido, formava praia longa, a cidade, per- 
dida na largueza dos montes e cintada peias 
quadrelas das muralhas, mais achegada e es- 
treita parecia. Na sombra, o grande túmulo do 
Condestável dir-se hia suspenso e levado em 
triunfo, paládio da pequena tríbu errante. Viam- 
-se as grimpas altas luzir sobre as revessas ne- 



(i) Damião de Gois, Urbis olissiponensis descriptio. 
Em Hispanice illusiratae, Doctorum hominium, tomo II. 

(2) {Jataldus Siculus, De obitu Alphonsi principis, in 
í^ousa, História Genealógica, tomo VI. 



b EXPEDIÇÃO DE PEDRO ALVARES CABRAL 

gras dos telhados. E o burgo estremecia coma 
hoste, toda em armas, pronta à marcha, e que, 
antes de entrar às águas, saudasse o Mar com 
as lanças ao alto. - 



A POPULAÇÃO E A VIDA DA CIDADE 



Por esse tempo os moradores de Lisboa e 
do arrabalde não passavam de cincoenta mil, o 
que está de sobejo em relação com o milhão e 
-cem de todo o reino (i). Fora mister para a 
total evocação do velho burgo reviver com esses 
antigos moradores os passados costumes ; repo- 
pular-lhe as abas das colinas, da Alcáçova à 
Ribeira, de cavaleiros, mesteirais, frades e ma- 
talotes; restituir aos primitivos íncolas a Mou- 
raria e as Judarias; e variegar depois a multi- 
dão nativa com a mescla desultória de italianos, 
flamengos, franceses e alemães. Os hábitos e 
condições de vida davam à cidade uma fisio- 
nomia muito própria e totalmente diversa, não 
só da Lisboa de hoje, mas também àquela data 
das demais cidades da Europa. 



f (i) Costa Lobo, História da sociedade em Portugal^ 
no século xVj cap. I e II. 



IO EXPEDIÇÃO DE 

Era a Lisboa ardente e sequiosa, de escassos 
chafarizes, à beira dos quais o povo e os es- 
cravos brigavam pela vez; dos açacais com seu 
asno e os quatro cântaros engradados, apre- 
goando a água pelas calçadas íngremes; e das 
mocinhas negras, quási nuas, que a transpor- 
tavam e serviam com as airosas quartas. Era 
a Lisboa honrada e mesteirosa dos mesteres 
esquecidos, — atafoneiros, regatões, gibeteiros, 
espareveleiros e desses escrivães do Pelourinho 
Velho, que, abancados às mesas, redigiam, ao 
sabor dos freguezes, cartas de amor, requeri- 
mentos, versos, discursos, epitáfios, — (ccoisa 
que em parte alguma das cidades da Europa 
eu vi jamais» — , diria o viajado Damião de 
Gois (i). Era a Lisboa pohcroma dos fausto- 
sos mercadores de toda a Europa, entre os quais 
predominavam os elegantçs florentinos, relu- 
zente das armas cavaleiras e negrejante de há- 
bitos monásticos; e ainda a Lisboa dos moiros,. 
— alvaneis, azulejadores e ceramistas, que nas 
tardes de festa bailava e ondulava aljubas al- 
vas, ao som dos alaúdes e pandeiros. O marí- 
timo burgo falazava desvairadas línguas. A ve- 
niaga cosmopolita disputava os produtos dos 
descobrimentos, dentre os quais àquela época 
avultavam o oiro da Mina e o assucar da ilha. 



(i) Obra citada. 



PEDRO ALVARES CABRAL II 

Era na Rua Nova, a principal* artéria comer- 
cial de então encostada ao lanço meridional das 
muralhas, quási à beira d'água, aproximada- 
mente no lugar, onde hoje fica a Rua dos Ca- 
pelistas, que drapejavam e luziam os primores 
e mercancias forasteiras. 

Mas Lisboa via-se e revia-se mais na Ribeira 
das' Naus, nas Taracenas, Almazem da Mina, 
nos espalmadoiros e estaleiros: aí, sim, mais 
que em alhures inconfundível, era glória dos 
seus e pasmo dos alheios. 

Desde que nos últimos anos o entreposto 
do tráfico africano passara de Lagos para ali, 
se criara a casa da Mina e se lançaram com 
destino à índia os primeiros navios, toda a Ri- 
beira trabalhava, fervia, reboava com a azá- 
fama do Mar. Já para além do extremo nascente 
das muralhas, junto às portas da Cruz, fu- 
megavam os fornos, que coziam o trigo para 
o biscoito das armadas. Mais abaixo, a seguir, 
negrejavam, viscosos, os cães do carvão e da 
madeira. Depois, ladeando o esteiro, naquele 
tempo ainda alagado, do Terreiro do Paço, 
estendia-se a uma banda a Alfândega e da ou- 
tra, prolongando-se até ao Corpo Santo, es- 
tanceavam a Casa da Mina, as Taracenas, 
as Ferrarias, e logo as Tanoarias, contra o 
barrocal de S. Francisco. Sobre o vozeio do 
populacho, que duma a outra banda enxameava, 
zoava e ensurdecia o trom dos rijos mesteirais 



12 EXPEDIÇÃO DE 

que rebatiam as cavilhas férreas ou os arcos e 
aduelas para a louça das naus. E por todo o 
longo, desde as portas do Mar (junto à casa dos 
Bicos) até a Gataquefarás e a Santos se cons- 
truiam os navios novos ou varavam os velhos, 
para compor as obras vivas, limpar os limos 
ou queimar o gusano. Ali veríeis, — exultante e 
esforçosa entrepresa de que os modernos esta- 
leiros dão pálido vislumbre — as carcassas das 
naus contra os esteios arrumadas, e ora apenas 
erguendo o encavernado, ora ajustando as tilhas 
e os costados, logo alevantando os arvoredos, 
ou retonando e estremecendo com as derra- 
deiras marteladas desde o cadaste ou a duneta 
airosa até ao beque recurvado. Pela Ribeira 
em fora, à luz do sol, os remolares afusavam 
e tendiam os remos, os petintais carpintejavam 
os navios, os bragueiros entreteciam redes, e 
calafates, tanoeiros, artilhadores, cordoeiros de 
calabre, oficiais de cartas, mestres, pilotos e 
grumetes, todos borborinhavam, afanosos, com 
as fainas do Mar. 

Também a rija têmpera dos velhos navegan- 
tes e guerreiros conservava-se impoluta. Nem 
os excessos da riqueza mal ganhada nem a mo- 
lícia dos costumes estranhos abastardavam e 
pervertiam os fortes caracteres. Os homens eram 
fragueiros, sóbrios, esforçados e endurecidos 
contra as guerras do tempo e da fortuna. A re- 
ligião continha-se nos limites da tolerância e 



PEDRO ALVARES CABRAL l3 

piedade sincera ( i). E ainda quando o Rei, para 
adular a corte de Castela, punha em scena a 
tragicomédia da expulsão dos moiros e judeus, 
aos quais impunha o êxodo e mandava reter 
do mesmo passo, o povo procurava com pie- 
dosa íástima mitigar junto dos perseguidos as 
sevícias do monarca (2). O flagício monstruoso 
de arrancar os filhos à criação e amor dos pais 
foi recebido com revoltado pasmo pelo povo 



(i) «O fanatismo cego, bruto e feroz veio-nos com as 
primeiras luzes duma falsa civilização, nos fins do sé- 
culo XV, e progrediu com ela por todo o xvi. Dantes a 
raça crista tinha a consciência de uma grande superiori- 
dade religiosa e fazia-a valer na legislação; mas não 
confundia a crueldade com as distinções que nascem 
da diferença entre o superior e o inferior.» Herculano, 
Monge de Cister, I, cap. IV. «E em verdade não conhe- 
cemos em toda a história pátria documento mais de- 
monstrativo da índole nacional do que a benevolência 
de que os judeus gosaram em Portugal até aos fins do 
século XV». Costa Lobo, História da Sociedade Portu- 
guesa no século XV, cap. V. 

{2) «... a qual obra não tão somente foi de grão te- 
mor, mesturado com muitas lágrimas, dor e tristeza dos 
Judeus, mas ainda de muito espanto e admiração dos 
Cristãos, porque nenhúa criatura pode padecer, nem 
sofrer apartar de si forçadamente seus filhos, e nos 
alheios por natural comunicação sente quási o mesmo, 
principalmente has racionais, porque com estas comuni- 
cou naturesa hos efectos de sua lei mais liberalmente 
do que ho fez com has brutas irracionaes, a qual lei 
forçou muitos Cristãos velhos moverem-se tanto a pie- 



14 EXPEDIÇÃO DE 

indulgente e tolerante. Lisboa, como as demais 
cidades da nação, sentia-se agora mais que 
nunca na pujança das suas energias. A longa 
paz dum século, apenas interrompida pelos 
quatro anos da guerra da sucessão de Castela 
(1475-79), em que os portugueses quási sempre 
foram os invasores, permitira o desenvolvi- 
mento gradual da população, a segurança do 
trabalho e o aumento da riqueza pública. A 
vasta empresa educadora preparada pelo In- 
fante D. Henrique e continuada pelo sobrinho 
e pelo Príncipe Perfeito sazonava os melhores 
frutos. Em Lisboa pululavam agora os navega- 
dores e os cavaleiros, os astrónomos e mate- 
máticos, os mestres do astrolábio e do qua- 
drante. A melhor nobreza descendia dos com- 
panheiros do Condestável e Dom João L O 
povo não desmerecia também da arraia que 
alevantara o Mestre. E os fastos que os mais 
velhos memoravam, por ouvirem dos pais, eram 



dade, e misericórdia dos bramidos, choros, e plantos, 
que faziáo-os pais e mais a quem forçadamente toma- 
váo os filhos, que eles mesmos hos escondiáo em suas 
casas por lhos náo virem arrebatar dentrasmáos, e 
lhos salvaváo com saberem que nisso faziáo contra a lei 
e prematica de seu Rei e senhor...» Damião de Góes, 
Crónica dei Rei Dom Manuel, cap. XX. Judeus e mou- 
ros ficaram quási todos em Portugal. Para se avaliar da 
conduta repugnante do Rei, veja-se Gosta Lobo, obra 
cit., cap. I e V. 



PEDEO ALVARES CABRAL ID 

racontos de Aljubarrota e do postremo cerco 
castelhano. 

Mas esta conexão íntima entre a rudeza an- 
tiga da cidade e a plenitude e pureza da sua 
força vai rapidamente esvanecer-se. Breve per- 
derá este queimor do tempo e dos trabalhos 
para se enfeitar de galas emprestadas. Fixemos- 
-Ihe o rosto grave, que uma ansiedade funda 
alterava já. Sim, por agora não era ainda a Lis- 
boa opulenta e rendilhada da Conquista, do 
Paço da Ribeira, da Casa da índia, da Torre 
de Belém e dos Jerónimos; mas a Lisboa épica 
refugida na cerca, que olhava com amor as ci- 
catrizes das muralhas, e cujo povo invocava, 
resando, o Condestabre, no morro do Almi- 
rante. Não ainda o imenso e ribeirinho ca- 
ravansará, pejado pela turba dos mercadores 
que acorriam de toda a Europa ao tráfico das 
especiarias, dos embaixadores do Oriente, dos 
governadores, dos capitães de fortalezas e feito- 
res, e dos áfricos, dos levantinos, dos brasilien- 
ses, entre a chusma dos quais o Rei cavalgava 
e estadeava pompas, seguido dos elefantes, da 
onça pérsia e da rinocerota, ao reboante clan- 
gor dos atabales e trombetas. A esfera proje- 
ctada pela ambição universalista, que ia des- 
vairar os homens, mal se inscrevia sobre os 
monumentos. Os fumos da índia não haviam 
entontecido as almas. Lisboa blasonava apenas 
os pilotos da Mina, e os veteranos de Alcácer e 



l6 EXPEDIÇÃO DE 

de Arzila. Em vão procuraríeis entre os homens 
de armas que hão de embarcar nesta viagem o 
soldado da índia, palreiro e dissoluto, que 
Diogo do Couto amargamente nos bosqueja, 
com a capa bandada de veludo, a coura e os 
calções do mesmo estofo, a barba curta tosada 
com donaire, chapéu de canotilhos e, na cinta 
apertada, a espada guarnecida de dourados. A 
maior parte dos cavaleiros e mareantes que vão 
partir são outros mui diferentes: criaram-se na 
escola do Homem e do «grande e honrado» 
Infante (i). Deles os mais experimentados e 
maduros relembram com saudade e contam aos 
moços, para proveito e exemplo, os casos, os 
feitos, as lições dos tempos de Lagos e de Sa- 
gres. E o destino, que tantas outras memórias 
escureceu e dispersou, quis, volvidos alguns 
séculos, restituir-nos a imagem de tais homens 
nas tábuas de S. Vicente, — a milagrosa apari- 
ção de espíritos e semi-deuses tutelares. Eram 
assim os companheiros de Pedr' Alvares. Esco- 
lhei, para os ver, o painel apoteótico do Infante. 
Olhai as dez figuras, ao fundo alevantadas, tão 
puras, tão severas, tão ungidas de piedade e 
fortaleza. Muitos dos mestres, dos pilotos e 
marujos desta armada tinham o geito igual e 
aquele esguardo, assenhoreados de si mesmos. 



(i) Azarara, Crónica da Guiné, cap. VI. 



PEDRO ALVARES CABRAL I7 

Bem por certo que, entre a chusma dos que, 
trigosos, se aprestavam para a longa jornada, 
erravam então esses titans ingénuos, envoltos 
no mongil e na barreta escura, ou em bragas, 
de gabinardo e carapuça, e nas faces, curtidas 
do vento e da salsugem, no olhar distante, cheio 
de ceu e de mar alto, a iluminada seriedade, o 
orgulho triste dos que andam sempre ao pé da 
morte para gloria da vida. 



INFLUÊNCIA DAS PRIMEIRAS NOVAS 
DO ORIENTE SOBRE A NAÇÃO E O REI 



«Boa ventura! Boa ventura I Muitos rubis, 
muitas esmeraldas ! Estais na terra da espe- 
ciaria, da pedraria e da maior riqueza que há 
no mundo!» Assim grita o Monçaide, direito 
ao Gama, a touca ao vento, ao entrar na capi- 
taina, em Calecut. 

«E quando assi ho ouvirão falar, estavão 
todos pasmados... e davão graças a nosso 
senhor chorando de prazer, e Vasco da Gama 
ho abraçou e ho fez assentar a par de si.» (i) 
Esse grito de triunfo, esse arrepio de pasmo 
e comoção, que arrasa de água os olhos dos 
marujos, trazem-no eles na alma, ao varar em 
Lisboa, e comunicam-no à nação inteira. 

Logo ali na cidade houve touros, canas, mo- 



(i) Castanheda, História do descobrimento e conquista 
Âa índia, Livro I, Gap. XV. 



20 EXPEDIÇÃO DE 

mos, e os sinos todo o dia tangeram em sinal 
de alegria (i). O Rei apressa-se a comunicar a. 
todas as cidades e vilas notáveis do reino a che- 
gada do Gama, os grandes trabalhos que passou 
e a importância do descobrimento, encomendan- 
do-lhes muitas procissões e festas. A imagem 
da índia e das suas riquezas, transmitida pelo- 
deslumbramento dos primeiros navegantes in- 
cendeia as imaginações. E na carta de D. Ma- 
nuel para os reis de Castela, dando-lhe parte 
do descobrimento, a alegria triunfante do rei^ 
e o pasmo deliciado extravasam a cada frase : 
«acharam e descobriram a índia e outros rei- 
nou a ela comarcãos . . . acharam grandes ci- 
dades e de grandes edifícios e ricos e de grande 
povoação, nas quaes se faz todo o trauto de 
especiaria e pedraria. . . trouveram logo. . . ca- 
nela, cravo, gengibre, noz moscada e outros 
modos de especiaria... e muita pedraria fina 
de todas as sortes, a saber rubins e outros; 
e ainda acharam terras em que ha minas 
d'ouro ...» (2) 



(i) Barros, Década I da A$ia, Livro IV, Gap. XI. 
(2) Eis o traslado completo da carta de D. Manuel r 
«Muyto altoSj muyto eixcelentes princepes, e muyto 
poderossos senhores. Ssabeem Vossas Altezas como 
tijnhamos mandado ha descobrijr quatro navios pello 
oceanOj os quaaes agora ja passava de dous annos que 
eram partidos; e como o fundamento principal d esta 



PEDRO ALVARES CABRAL 2r 

Adivinha-se o rei revendo e sopesando as 
primeiras amostras da riqueza da índia. O 
sonho, que a nação durante quási um século 
acarinhara, ia ele realizá-lo emíim. Tinha ali 
nas suas mãos as primícias desse Oriente tão 
longamente cubicado. Antevia os aímazens 
abarrotando especiarias. Ao oiro da Mina vinha 
juntar-se o oiro de Sofala. E contemplando as 
jóias que o Gama lhe trouxera, por certo deh- 



empressa sempre fosse por nossos antepassados de ser- 
viço de Deos nosso Senhor e muy principalmente nosso^ 
prouve lhe por sua piedade asy os encaminhar, ssegundo 
ho recado, que pellos mesmos descobridores, que a nos 
a esta cidade ora chegaram, ouvemos que acharam e 
descobriram a hndia e outros regnnos a ella comar- 
quaãos, e emtraram e navegaram o mar d ella, em que 
acharam gramdes cidades e de gramdes edefiçios e 
ricos e de gramde povaçoom ; nas quaaes sse faz todo 
o trauto da especearya e pedrarya, que passa em naaos,. 
que os mesmos descobridores viram e acharam, em 
gramde cantydade e de gramde gramdeza a Mequa, e 
d hy ao Cairo, homde sse espalha pello mundo; da 
qual trouveram logo agora estes cantidade, saber: 
de canella, cravo, gyragivre, noz mozcada, e outros 
modos de d especearya, e ajnda os lenhos e folhas d. 
elles mesmos ; e muyta pedrarya fyna de todas ssories, 
saber: robijns e outros; e ajnda acharam terra, em que 
que ha mynas d ouro ; do qual e da dita especearya e 
pedrarya nam trouxeram logo tanta ssoma, como pode- 
riam, por nam levarem pêra ello aquella mercadarya,. 
nem tanta, como convynha. E porque sabemos que Vos- 



22 EXPEDIÇÃO DE 

ciava os olhos naquele rutilar das vivas cores, 
repetindo-lhe, embevecido, os nomes raros. 
Que torrente de pedras tinha a índia I 

«Tem robis, diamantes taes 
Que não tem preço ou contia, 
Esmeraldas muy reaes. 
Perlas de muy gram valia : 
Espinellas e tem mais 



sas Altezas d isto ham de receber grande prazer e con- 
tentamento, ouveemos por bem dar-lhe d isso notefica- 
çam; e cream Vossas Altezas que, segundo o que per 
estes sabemos que se pode fazer, que nam ha hy duvjda 
que, segundo a desposisam da gente christâa que acham, 
posto que tam confyrmada na fee nom seja, nem delia 
tenha tam jnteiro conhecimento, se nam sigua e faça 
muyto serviço de Deos em sserem convertidos e jntei- 
ramente confyrmados em sua santa fee, com grande 
•eixalçamento d ella; alem de o trauto principall, de que 
toda a mourama d aquelas partes sse aproveitava, e que 
por suas mãos sse fazia, sem outras pessoas, nem linha- 
jeens nisso entenderem, se mudar e comunicar por esta 
minha parte descuberta a toda christyndade, que ssera, 
com ajuda d elie mesmo Deos, que assy por sua piedade 
ho hordena, mais causa de nossas tenções e proposytos 
com mais fervor se eixercitarem, por sseu serviço, na 
guerra dos mouros, pêra que Vossas Altezas teem tanto 
proposyto e nos tanta devaçam. E pedymos a Vossas 
Altezas que por esta tam grande mercê que de Nosso 
Senhor recebemos lhe queiram la mandar fazer aqueles 
louvores, que lhe sam devidos: e em mercê o recebe- 
mos. Muyto alto etc.» 



PEDRO ALVARES CABRAL 2^^ 

Carbunclos, ametistas, 

Turquesas e chrysolitas 

Çafiras, olhos de gato, 

Jagonças, de tudo ha tracto 

E outras mais q nom sam ditas, (i)» 

Presume-se igualmente o assombro que as 
notícias da índia, aumentadas pela fantasia dos 
marujos e pelo recontar de boca em boca, de- 
viam ter causado no ânimo do povo. Os pri- 
m.eiros cronistas e historiógrafos dão-nos conta 
do facto. 

Convém, não obstante, para se compreender 
inteiramente o significado da expedição de 
Pedro Alvares, que se conheça mais de perto 
esse estado de espírito do Rei e da nação. 

O Rei, cuja idade entrava pelos trinta exa- 
ctos, sobre ter atingido a sua alta gerarquia por 
uma série de acasos quási incrível, o que já de 
si a mór parte das vezes soi marear os cara- 
cteres mais puros, era, de natural, fraco, capri- 
choso e duma vaidade desmedida. Logo no 
começo do seu reinado, a pedido dos futuros 
sogros, comete com deshumaníssima impiedade,, 
contra os interesses nacionais e os mais hon-^ 



(i) Miscellania de Garcia de Re^ejide, e variedades 
de histórias, costumes, casos e cousas, que em seu tempo- 
acontecerão. 



-24 EXPEDIÇÃO DE 

rados pareceres do seu conselho, um dos maio- 
res crimes e erros de todo o seu governo. Do 
seu louco amor das pompas desfiam bastas 
provas as crónicas do tempo. E Damião de 
Góis, com as cautelas que o tempo requeria, 
não deixa de apontar-lhe nobremente a funesta 
improcedência do carácter, (i) 

Acrescente-se a isto um zelo imaginoso (2) e 



( i) Abundam atravez da Crónica de D. Manuel as mal 
veiadas alusões às graves inferioridades do monarca. 
Transcreveremos aqui apenas algumas das eloquentes 
frases, em que o cronista deixa transparecer o seu juizoj; 
ao debuxar-lhe o retrato físico e moral. «... Foi sofrido 
manso, e clemente, perdoava facilmente qualquer des- 
gosto que tevesse dos que tocavam a sua fazenda, e 
pessoa, porque nos casos da justiça seguia a ordem dela, 
posto que fosse algumas ve^es com dilações. alvai'as 
despera, huns em contrairo dos outros, o que por ser de 
boa condigam, e mavioso concedia tam facilmente, que 
por este respeito a huns se divertia a justiça, e a outros se 
alongava. Foi mui prudente, de claro, e bomjui^o, o que 
lhe causava não ser tam sugeito ao parecer dos do seu 
conselho, como o era a seu particular apetite, com tudo 
as mais das cousas que intentou, ou per conselho, ou 
por seu parecer lhe sucederão bem.» Crónica de D. Ma- 
nuel. Parte quarta, cap. lxxxiv. Das feições corporaes 
-dei Rei dom Emanuel, e das calidades de sua real pes- 
soa e cousas a que era inclinado e ordem de sua casa e 
modo de viver. 

(2) «Inventivo e excelente baram» lhe chama Duarte 
Pacheco, Esmeraldo, edição Epifânio, p. 1S2. 



PEDRO ALVARES CABRAL 2S 

ardente na direcção dos públicos negócios, 
muito mais quando lhe interessavam à ambição 
e ao gosto das grandezas. Em homem, de im- 
previsto guindado a tal altura, e em ânimo frí- 
volo e irrequieto, tamanha fortuna como aquela 
havia logicamente de influir por maneira anor- 
mal. 

Relendo e compilando o que rezam as cróni- 
cas e os documentos soltos desse tempo e em 
particular os que ele próprio chancela e inspira, 
aquela presunção volve-se em realidade elo- 
quente. Causa, em verdade, pasmo o que êle 
sonha e ordena ao mesmo tempo. Na mente 
sucedem-se e tumultuam-lhe os projectos. A 
sede de domínio empolga-o até ao desvario. 
Um dos primeiros actos, que decide, logo após 
o regresso do Gama, e que licitamente se lhe 
pode prender, é a trasladação, com grande 
pompa realizada, da Sé de Silves para a Bata- 
lha, dos restos mortais do seu antecessor, que 
havia mais de três anos falecera. O júbilo tor- 
na-o reconhecido. Perante a grandeza do triunfo 
quebra o mal rebuçado desamor. 

De terra em terra, acompanhado por todos 
os grandes da nação e arcebispos, bispos, oi- 
tenta capelães e cantores, a cavalo e de tochas 
acesas, e precedido pela orquestra bárbara 
das trombetas, charamelas, sacabuxas e atam- 
bores, o Rei, durante longos dias, atravessa 
o descampado reino, na cauda do fúnebre 



20 EXPEDIÇÃO DE 

cortejo. As noites, no silêncio dos tristes po- 
voados, por onde fazem alto, o fantasma do 
Rei havia de surgir-lhe em pensamento, com 
a sua altura incomparável. E na Batalha, já 
noite, terminada a ceremónia, ao relembrar 
o Homem que preparara com tamanha cons- 
tância a obra grandiosa, que o cumulava 
agora de ventura, toma-o uma curiosidade 
doentia, e quási clandestinam^ente volta ao mos- 
teiro e manda abrir o ataúde, para o ver. «E 
como assi foy posto, conta o contemporâneo 
Garcia de Resende, se sahiu El Rey com todos 
os Senhores e Prelados, e se recolheo; e tanto 
que foy noite já depois de cea deu El Rey boas 
noites e foyse com alguns ao mosteiro, e me- 
teose dentro da capella, onde o santo Rey ja- 
zia e com o Provincial e outros Frades mandou 
abrir o ataúde, em que o corpo estava, e vio 
que tinha muito pó de cal, e mandou aos Fra- 
des que com canudos de cana lha assoprassem, 
e ele mesmo lha alimpava e beijou-lhe as mãos 
e os pés muitas vezes, e achou o santo corpo 
inteiro com cabelos e barba... e depois que 
o esteve olhando, sempre com o barrete na 
mão, o mandou emburilhar em olanda muito 
fina. . .)) (i). Era de ver-se o dramático encon- 



(i) Garcia de Resende^ Tresladação do corpo de 
Dom João II. 



PEDRO ALVARER CABRAL 2J 

tro dos dois reis. Ali perto descansava o genial 
Infante que primeiro concebera a idea de ga- 
nhar a índia. Outro dos túmulos encerrava o 
bravo fundador da dinastia. Tudo eram prín- 
cipes e reis, que tinham alcançado a glória nas 
batalhas. E entre as pilastras alterosas, na ca- 
lada da noite, à luz trémula das tochas, cercado 
pelos alvos hábitos domínicos, pálido, desco- 
berto, arripiado pelo contacto do cadáver, o Rei 
vivo mais pequeno ainda se sentia diante do 
Rei morto. Estava ali, é certo, o matador de 
seu irmão e que, a ele, o quisera ainda defrau- 
dar do trono. Mas no seu íntimo, revendo a 
imagem torva na grandeza de outrora, calava-se 
o ressentimento acerbo, de novo acobardado. 
Aquela trágica presença por certo o excitou por 
longo tempo e lhe acendeu um desejo imenso 
de exceder-se. 

E é nesses primeiros tempos, como vamos 
ver, depois da chegada do Gama, em pleno 
deslumbramento da visão do Oriente e na im- 
paciente emiulação dos seus antecessores (i), que 



(i) Eis as palavras textuais de Gois: «... mas tudo 
isto aproveitava pouco pêra El Rey deixar de poer em 
obra a vontade que tinha de imitar os Reis seus ante- 
cessores e ser-lhes companheiro na gloria que alcança- 
ram nas conquistas das cidades^ vilas, castelos...». 
Gois, Crónica de D. Manuel, cap. XLVII, De como 
El Rey determinou de passar em Africa. 



"28 EXPEDIÇÃO DE 

ele concebe toda a política imperialista, que 
há de marcar depois o seu reinado. Mas, como 
o desejo pessoal de glória o preocupa, começa 
a preparar um exército para invadir a Africa 
em pessoa, projecto que, pouco depois, vem a 
trocar pela idea de comandar uma grande ex- 
pedição contra os turcos, no Mediterrâneo. 
Forma e inicia também por esse mesmo tempo 
o plano grandioso da transformação da capital. 

Pelo que diz respeito à expedição de Pedro 
Alvares, logo arde em ambição e impaciência, 
pois de começo premedita substituir-se a todos 
os concorrentes no comércio do Oriente e, o 
que é mais, de maneira que, pagando menos, 
dê ao Samorim maiores vantagens. E, se na 
carta para os reis de Castela esconde cautelo- 
samente os seus desígnios, nas instruções para 
o Cabral o seu vasto sonho patenteia-se: «e 
apomtay com elle (o Samorim de Calecut) em 
algúna cousa resoada, que se aja de dar de com- 
pra e de venda, dizendo-lhe que peroo seja me- 
nos do que os outros lhe pagam, ha de ssej% 
prazendo a Deus^ a cmitidade das naus e mer- 
cadorfas tamta^ que lhe rendam os seos dit^ei- 
tosmiiyto mais^ que agora rendem. y) (i). 

Ele sabe, todavia, que os preços das espe- 
ciarias compradas directamente em Calecut 



(i) Alguns documentos da Torre do Tombo, p. loo. 



PEDRO ALVARES CABRAL 29 

dão margem a lucros fabulosos. O Monçaide 
informa minuciosamente o rei de todo o trauto. 
Passados dois anos, quando as naus de Cabral 
regressam, carregadas de mercadoria, o embai- 
xador veneziano escreve, alarmado, de Lisboa, 
para a Senhoria, em carta de 27 de Julho de 
i5oi, isto é, logo sobre a chegada: «Hano 
carga ad stiva per precio cJie me temo dirlo^ e 
dicono comprano uno canter de canela per un 
ducato et meno.» (1). 

Depois, no ano de i5oo a i5oi, entre a data 
da partida e a da chegada de Cabral, continua 
o esforço prodigioso da nação anteriormente 
planeado. No começo do verão de i5oo, e, por 
consequência, já depois da largada de Cabral, 
parte Gaspar Côrte-Real a fazer descobrimen- 
tos na América do Norte (2). A 5 de Março de 
i5oi partem para a índia quatro novas naus, 
sob o comando de João da Nova (3). A 10 de 
Maio desse mesmo ano seguem para as Terras 
de Santa Cruz, a continuar o descobrimento, 
mais três naus, numa das quais viaja Américo 



(i) Copia et sumario di una letera di sier Domenego 
Pixani, el cavalier, orator nosíro in Spagna a la Signo- 
ria, edição de Eugénio do Canto, Imprensa da Univer- 
sidade de Coimbra, 1907. 

(2) D. de Gois, Crónica de El Rei D. Manuel, 
<:ap. LXVI. 

(3) Idem, ibidem, cap. LXIII. 



3o EXPEDIÇÃO DE 

Vespúcio (i). E, logo, a i5 de Junho saem 
para o Mediterrâneo, sob o comando do Conde 
de Tarouca, D. João de Menezes, uma armada 
de trinta naus, em socorro de Veneza e a pe- 
dido da Senhoria, com três mil e quinhentos 
homens de armas a bordo, e uma outra ainda 
que se destina à fronteira de Ourão (2). O en- 
vio deste socorro a Veneza é que o demove 
de outro projecto mais grandioso. Com efeito, 
por essa época, contra a maioria de votos do 
seu conselho, e não obstante o grande descon- 
tentamento da rainha D. Maria, com quem ca- 
sara havia pouco, chega a convocar um exercita 
de 26:000 homens, para invadir a Africa, sob 
o seu comando pessoal (3). Mas tendo momen- 
taneamente que abandonar esse plano, resol- 
ve-se, na sua ânsia delirante de ganhar glórias, 
a comandar pessoalmente a expedição do Medi- 
terrâneo Oriental. Ele próprio o declara em 
carta ao Doge de Veneza: «Pelo que, pondo de 
parte a expedição á Africa, resolvemos logo 
mandar-vos algum soccorro... e ao mesmo 
tempo nos propuzemos partir para ahi em pes- 
soa, isto não só por consideração para com a 



(1) Cartas de Américo Vespucío, in Noticias para a 
Historia e Geographia das Nações Ultramarinas, to- 
mo II, p. 141. 

(2) Gois, obra citada, parte I^ cap. LI. 

(3) Idem, ibidem, cap. XLVIII. 



PEDRO ALVARES CABRAL 3l 

christandade, mas também por atenção á vossa 
pessoa. . .» (i). 

Juntamente medita invadir a Africa com um 
poderoso exército, e invadir os mares da índia 
com armadas. Logo envia a Veneza homens e 
naus, em abundância, e acaricia a idea de ele 
próprioç, para espanto de toda a cristandade, ir 
comandar a expedição; para depois renovar a 
intenção de se passar à Africa em pessoa (2). 

Nesse mesmo tempo em que o Tejo golfa 
armada sobre armada para as costas de quatro 
continentes e em que os estaleiros devem regor- 
gitar de construções, o Rei, antevendo a mis- 
são que Lisboa está destinada a desempenhar, 
trata de a alargar, polir e enobrecer. Os embai- 
xadores da índia das maravilhas vão afluir à 
capital. E D. Manuel peja-se da rusticidade do 
seu velho burgo. Já em 1499 êle procura preen- 
cher os espaços despovoados e promove a cons- 
trução de casas, desde a porta da Alfôfa, ao 
longo da costa do Castelo, até ao postigo de 
Santa Maria da Graça, concedendo aos edifica- 
dores os mesmos privilégios e isenções de que 
gosavam os moradores da Alcáçova e além disso 



(i) Epistola (em latim) de El-Rei D. Manuel ao Doge 
de Veneza, Agostinho Barbadico, com trad. de J. Pedra 
<ia Gosta. Edição Eugénio do Canto, 1907. 

(2) Gois, obra citada, parte I, cap. Í.XV. 



3*2 EXPEDIÇÃO DE 

OS terrenos livres de todo o foro (i). Em carta 
de 8 de Maio de i5oo, um mês depois da partida 
das naus de Pedro Alvares, determina que se 
dê principio à construção dum grande cais «assy 
pello que dello se seguirá de muyto mais nobresa 
da cidade, como pello melhor manejo e provi- 
mêto destas cousas do trauto da mercadorya,. 
q tam jeeralmente a todos toca» (2). Depois, em 
carta régia de 10 de Dezembro de i5oo, consi- 
derando que esta cidade é a principal do reino 
e que muito se deve atender ao seu enobreci- 
mento, manda derribar todos os olivais, dentro 
do seu recinto, quer sejam de igrejas, de mos- 
teiros, de morgados ou de qualquer outro senho- 
rio, e mais determina que em volta da cidade e 
contíguo ás muralhas se abra um rossio comum 
da largura de dois tiros de besta onde os ani- 
mais de carga se possam acomodar, para que 
assim não pejem e afeiem a cidade (3). Deve 
também ter sido por essa data que se começou 
a aterrar o espalmadoiro, onde mais tarde veio 
a ser o Terreiro do Paço. Todavia, o desejo 



(i) Júlio de Castilho, Lisboa Antiga^ II parte^ tomo IIU 
p. 143. 

(2) Carta da Câmara Municipal de Lisboa, livro I de 
El Rei D. Manuel, citada em A Ribeira de Lisboa. 
p. 236, 237, por Júlio de Castilho. 

(3) Gosta Lobo, Historia da Sociedade em Portugal 
no século xv, p. 117. 



PEDRO ALVARES CABRAL 33 

de enobrecer Lisboa revela-se principalmente na 
construção, por esse tempo iniciada, do mos- 
teiro dos Jerónimos, e do grupo formidável 
de edifícios, que se compõe dos majestosos 
Paços da Ribeira, da Casa da índia, dos Al- 
mazens e Taracenas de Cataquefarás (i). Na 
sua impaciência de habitar à beira de água 
em plena azáfama naval e mercantil, enquanto 
os novos Paços não terminam, melhora, para 
instalar-se nele desde logo, o palácio de San- 
tos-o-Velho, que adquire por escambo a Fer- 
não Lourenço (2). E não será aventuroso ima- 
ginar-se que mandasse igualmente nesta data, 
como escreve Damião de Gois, «tirar os balcões 
e sacadas na cidade de Lisboa, obra proveitosa 
e mui necessária» (3). Gompreende-se assim o 
desvanecimento com que num documento desse 
mesmo tempo declarava: «Esta cidade, louvo- 
res a Nosso Senhor cada dia se aumenta assim 
em povoação como em muitas cousas do seu 
enobrecimento» (4). 

Eis a série de factos e indícios sobre que 
assenta a nossa opinião de que as novas do 
descobrimento lançaram D. Manuel numa ex- 



(1) Gois e Júlio de Castilho, obras citadas. /?assim. 

(2) J. de Castilho, obra citada, p. 5g6 e 597. 

(3) Gois, obra citada, parte IV, capítulo LXXXV. 

(4) G. Lobo, obra citada, p. 53. 

3 



34 EXPEDIÇÃO DE 

trema e anormal agitação do espírito. Um de- 
lírio de honras e grandeza se apossa do mo- 
narca. A muito custo os do conselho conseguem 
reprimir-lhe o ambicioso imaginar. E até as pró- 
prias recompensas ao Gama concedidas mos- 
tram, se lhe compararmos a liberalidade ma- 
gnânima ao ingrato esquecimento com que 
despremiou tantos dos melhores servidores, a 
profunda impressão que o serviço galardoado 
lhe causou. 

Esse acontecimento acordava também, como 
era natural, um nobre entusiasmo nos ânimos 
mais esclarecidos da nação. Duarte Pacheco, 
que escrevia cinco anos depois, êle sempre tam 
parco nas referências aos seus altos feitos e 
nos gabos aos navegantes e guerreiros do tem- 
po, encarece francamente a proeza do Gama, 
abrindo a tal propósito uma eloquente excepção 
ao seu austero laconismo. O pensamento de 
monopolizar o comércio, que enriquecera as 
cidades italianas, evocava nos cérebros cultos 
destinos magníficos (i). O problema comercial, 



(i) Poderíamos citar vários passos em abono desta 
asserção. Preferimos transcrever de Duarte Pacheco : 
«. . . honde de suas máaos os Venezianos haviam ha es- 
peciaria e outras cousas com que abastaram Europa, 
Africa e parte d' Ásia, agora nenhua cousa teem nem 
podem hauer; salvo este bemaventurado principe. . .» 
«. . .e quem bem considerar tamanhas cousas como es- 



PEDRO ALVARES CABRAL 35 

que a Itália pusera à Europa, e cujo alcance 
Portugal conhecera pela estreita comunicação 
com Génova e Florença, ia Lisboa resolvê-lo 
emíim. Os florentinos, émuios de Veneza, eram 
os mais numerosos dos estrangeiros entre nós. 
Penetrava-nos pela arte, pela sciencia e pela 
acção, o mais alto espirito do Renascimento. 
E com razões sobejas a idea da cidade adriá- 
tica acudia aos espíritos. ;Veneza, empório 
do mar e do comércio, articulara, durante 
séculos, dois mundos, doirando a sua robus- 
tez itálica do explendor bisantino ? Mas Lis- 
boa, testa dos caminhos marítimos mais vas- 
tos até então sulcados, metrópole declarada 
ou oculta de terras, ilhas, mundos novos, re- 
querida pelos mercadores, espiões, alviçareiros 
e condottieri desocupados de toda a Europa, 
reflectia já com mais intensidade o clarão in- 
diano e aureolava-se do nimbo misterioso, que 
os mundos virgens e lendários sobre ela pro- 
jectavam. Essa consciência secreta duma mis- 
são altíssima a realizar fazia exceder as almas. 
Dentro das muralhas estreitas da cidade ardia 
agora um foco de energias infinitas, que os 



tas, já muyta parte dos famosos feytos d'Alixandre 
Magno e dos Romanos ficam muito abaixo em respeito 
d'esta santa e grande conquista.» Esmeraldo de siíii or- 
bis, Duarte Pacheco^ edição Epifânio da Silva^ p. i55. 



36 EXPEDIÇÃO DE 

mesmos florentinos, genoveses e venezianos es- 
timulavam com os racontos do apogético ex- 
plendor que os seus livres estados atingiam. 
Soava a hora em que a pequena grei ascendia 
ao zénite da carreira. Assim, em pleno ardor e 
plena glória, deviam ter vivido os gregos de 
Péricles e os toscanos de Lourenço, o Magní- 
fico. Em baixo, o povo rude e mesteireiro 
queimava-se no mesmo entusiasmo. E, se al- 
guns mais duvidosos ponderavam o caso incer- 
tamente, a maior parte louvava, à uma, a épica 
entrepresa. João de Barros, posto que relatando 
algumas décadas depois, acende ainda uma das 
suas mais formosas páginas no alor épico, que 
a façanha do descobrimento provocara (i). 



(i) «E como nos taes ajuntamentos sempre concor- 
rem diversos pareceres em tão novos casos, leixâdo 
aquelles que perderão pae, irmão, filho, ou parente nesta 
viagem, cuja dor não leixava julgar a verdade do caso : 
toda a outra gente a húa voz era no louvor deste desco- 
brimento. Quando viáo neste Reyno pimenta, cravo, ca- 
nela, aljofre, e pedraria, que os nossos troxeráo como 
mostra das riquezas daquella Orietal parte que desco- 
brirão : lembrandolhe quão espantados os fazia algua 
destas cousas, que as galés de Veneza traziáo a este 
Reyno. As quaes praticas todas se convertião em louvo- 
res delRey, dizendo que elle era o mães bé afortunado 
Rey da Christandade : pois nos primeiros dous annos 
de seu reynado descobrira maior estado a coroa deste 
Reyno, do que era o património que com elle herda- 



PEDRO ALVARES CABRAL 87 

Dessa atmosfera de heroísmo ideal, que a 
nação respira, vão sair os primeiros gigantescos 
capitães da índia, homens da têmpera dum Pa- 
checo, de D. Francisco de Almeida ou de Albu- 
querque. E' igualmente da consciência esplên- 



ra. Cousa que Deos não concedera a nenhum príncipe de 
Hespanha^ nem a seus antecessores que nisso bem tra- 
balharão, per discurso de tantos annos : nem se achava 
escriptura de Gregos, Romanos, ou d'algí3a outra na- 
ção, que contasse tamanho feito. Como era três navios 
-com obra de cento e sesenta homens quasi todos doen- 
tes de novas doenças de que muitos fallecerão, có a 
mudança de tão vários climas per que passarão, diíFe- 
rença dos mantimentos que comião, mares perigosos 
que navegaváo, e com fome, sede, frio, e temor que mães 
atormenta que todalas outras necessidades: obrar nelles 
íanto a virtude da constância e precepto de seu Rey, 
que pospostas todas estas cousas, navegarão três mil e 
tantas legoas, e contendera com três ou quatro Reys 
tão differentes em lei, costumes, e linguagem, sempre 
com victoria de todalas industrias e enganos da guerra 
<]ue lhe fizerão. Por razão das quaes cousas, posto que 
muito se devesse ao esforço de tal capitão, e vassallos 
como elRey mandara, mães se avia de atribuir á boa 
fortuna deste seu Rey : porque não era em poder ou sa- 
ber de homens, tão grande e tão nova cousa como elles 
acabarão. ElRey de todas estas praticas e louvores do 
caso era sabedor, porque naquelles dias não se fallava 
em outra cousa : que era para elle dobrado contenta- 
mento, saber quão prompta estava a vontade de seu 
povo pêra prosiguir esta conquista.» — Barros, Década /, 
Livro V, cap. I. 



38 EXPEDIÇÃO DE 

dida que a nação toma emíim das suas próprias 
virtudes e energias, que irá nascer, como em 
Atenas, ao calor da glória, após as guerras mé- 
dicas, o teatro nacional. O vaqueiro, em que mes- 
tre Gil se trasvestira e que no dia 7 de Junho 
de i5o2, irrompe pela câmara da Rainha na 
velha Alcáçova, ganhou o ousio no entusiástico 
levante com que o povo celebrou aquela faça- 
nha nunca vista. 

Foi nesta atmosfera que a expedição do Ca- 
bral se organizou. Pelos rossios da cidade, às 
portas, nos mesteres, formavam-se disputas, 
ajuntamentos, alvoroços. Os pormenores iné- 
ditos corriam logo, de boca em boca. O povo 
apinhava-se no largo do Pelourinho Velho, em 
torno do Gaspar da índia, do Monçaide e dos 
nobres malabares, quando, acompanhados dos 
fidalgos da corte, regressavam da Alcáçova. E 
de roldão com os mercadores flamengos e es- 
piões de Veneza seguia-os sob os suportais 
da Rua Nova, caminho da Ribeira, espiando- 
-Ihes as feições e as atitudes. Os raros pilotos 
e matalotes escapos da viagem, quando nos es- 
taus da Ribeira ou baiucas da Alfama começa- 
vam o conto das maravilhas orientais, eram 
logo cercados pela turba e escutados com pasmo 
boquiaberto. 

Como havia de ser bela então a ribeira do 
Tejo, desde as portas do Mar até às bandas 
do Restelo! Raro, em diferente país ou noutra 



PEDRO ALVARES CABRAL 89 

idade puderam olhos de homem alegrar-se com 
tão formoso e exalçante espectáculo. Dum topo 
ao outro da tira flava de areais, construiam-se 
palácios, taracenas, naus e, lá ao fundo, em lan- 
ços claros, a catedral do Mar. No encavernado 
e tilhas dos navios, pelas cantarias alvas das 
empenas ou sobre os mastareus e estrados dos 
andaimes, alevantados em castelos, fervia, como 
bando de pássaros em balsa, o enxame dos al- 
vaneis e petintais. Os camartelos e as enxós 
desciam, batucavam, refulgiam com faúlhas so- 
lares, num revaivem febril. As abas de S. Fran- 
cisco, revestidas de forjas, estrondeavam, qual 
se os Titans, à lufa-lufa, cravassem a ferragem 
sobre uma proa gigantesca. Vozes enrouqueci- 
das de mestres estentores bradavam, alterosas, 
as vozes do comando. E uma inferneira toni- 
troante e erguida a espaços com a celeuma da 
maruja, alevantava-se, corria, empolgava a tur- 
ba, como cântico bárbaro, entoado sobre uma 
nau ciclópica à hora de sarpar. 



EXAME DAS FONTES E PRIMEIROS 
TEXTOS SOBRE A EXPEDIÇÃO 



Antes de entrarmos propriamente na história 
dos primeiros passos da expedição de Alvares 
Cabral, convém fazer o exame das fontes res- 
pectivas. São elas de três espécies diferentes: 
aj documentos oficiais sobre a organização da 
armada; bj testemunhos directos dalgumas das 
pessoas que viajaram ou colaboraram nela; 
cj Informações transmitidas pelo Rei ou por 
italianos para o estrangeiro, quer durante a via- 
gem, quer alguns dias depois da chegada dos 
primeiros navios de Cabral. 

aJ Pertencem ao primeiro grupo a carta da 
capitania mór a Pedro Alvares de Gouveia, da- 
tada de i5 de Fevereiro de i5oo (i) e os dois 



(i) Pedro Alvares Cabral assinava Gouveia, por parte 
de sua mâe. Este documento foi encontrado na Torre 
<io Tombo pelo sr. Aires de Sá e publicado na sua obra 
Frei Gonçalo Velho, vol. I, pág. 283, 



42 EXPEDIÇÃO DE 

apontamentos fragmentários de instruções para 
a viagem, os primeiros dos quais encontrados 
por Varnhagen e publicados na sua História 
geral do Brasil e os outros existentes na Torre 
do Tombo (i). 

b) O segundo grupo é formado pelas cartas 
de Pêro Vaz de Caminha e de mestre João, fí- 
sico, escritas do Brasil e igualmente arquivadas 
na Torre do Tombo (2), e da Relação de toda 
a viagem, feita por um piloto anónimo da ar- 
mada (3). 

Deve acrescentar-se a este grupo a carta de 
Bartolomeu Marchioni, armador duma das naus 
da expedição (4). 

c) Constituem o terceiro a carta de D. Ma- 
nuel aos reis de Castela, seus sogros, escrita 
poucos dias depois da chegada de Cabral e que 
existe não só, em português, num traslado guar- 



(1) Publicados em Alguns documentos da Torre da 
Tombo. 

(2) Idem. 

(3) A Relação do piloto anónimo apareceu traduzida 
do português para italiano em Delle navigatione et 
viaggi, raccolta, Ramusio, vol. I, i5o3, e em latim no 
Novus Orbiy de Grineo. Foi mais tarde restituída a por- 
tuguês e publicada em Noticias para a historia e geo- 
graphia das naçõis ultramarinas, vol. II, com o título 
de Navegação de Pedro Alvares Cabral. 

(4) Códice Voglienti V. Uzielli. Elogio di Emma- 
nuele Re di Portogallo scrito da P. Voglienti. 



PEDRO ALVARES CABRAL 4:> 

dado nos Arquivos de Veneza (i), mas também 
vertida para castelhano em Navarrete (2). Per- 
tencem ainda a este grupo as cartas dos italia- 
nos residentes em Lisboa, com referências à 
viagem, e entre as quais sobresaem, por conte- 
rem informes preciosos, a carta de Pisani e a 
de Ja Faitada escritas poucos dias depois da 
chegada de Cabral (3). 

Nesta mesma série faremos entrar a carta 
de Américo Vespúcío, datada de 4 de Junho 
de i5oi, em Cabo Verde, isto é, no começo da 
sua primeira viagem, ao serviço de D. Manuel, 
e que apareceu em 1745, na Biblioteca Riccar- 
diana (F^lorença), juntamente com outra datada 
de 18 de Julho de i5oo, numa colecção de ma- 
nuscritos do começo do século xvi. O problema 



(i) Trelãdo da carta que el Rey nosso senho?- escre- 
veo a clrrey e a Rainha de Castella seus padres da nova 
Ymdia, publicada por Eugénio do Canto em edição 
í;special. 

(2) Carta dei Rey D. Manuel de Portugal aios Rey es 
Católicos, dando les cuenia de iodo lo sucedido en el 
viage de Pedro Alvare^ Cabral por la costa de Africa 
hasta el Mar Rojo, in Navarrete, Coleccion de las viages 
e descobriviientoS' .., tomo III, pág. 94 a loi. 

(3) Copia et sumario di una letera di sier Donícnego 
Pixani, el cavalier, orator nostro in Spagna à la Sigo- 
noria, Diarii di Marino Sanuto, tomo IV. e edição de 
E. do Canto. Carta de Zuan de la Failada, Diarii ^ tomo 
IV coll. 66 e seg. 



44 EXPEDIÇÃO DE 

da sua autenticidade obriga-nos a algumas pala- 
vras mais. Como tem sido considerada apócrifa 
a carta de i8 de Julho, Varnhagen e Peschel lan- 
çaram sobre aquela a mesma suspeita. Ao con- 
trário, outros escritores, como Baldelli, Hum- 
boldt, Trubenback e Uzielli consideram-na au- 
têntica. Fiske e Vignaud inclinam-se a que a 
carta foi retocada, não só com o fim de lhe 
corrigirem certos barbarismos da linguagem de 
Vespúcio, como pelo acrescentamento de algu- 
mas particularidades. Sem partilhar as dúvidas 
de Vignhaud (i), inclinamo-nos, não obstante 
todos os seus caracteres de autenticidade e cir- 
cunstâncias que a confirmam, a crer que o co- 
pista lhe introduziu algumas pequenas modifi- 
cações. E, pois que historiadores da autoridade 
de Varnhagen a consideraram apócrifa e outros 
como Vignhaud a aceitam com demasiadas res- 
trições, temos que defender por nossa parte 
a opinião da autenticidade no que respeita à 
essência desse documento. Na época em que 
Varnhagen escrevia não se conheciam- algumas 
das fontes e documentos que hoje esclarecem a 
viagem de Pedro Álvares. Por sua parte Vi- 



(i) Toda esta questão é largamente tratada na obra 
monumental ^mer/c Vespiice (I45i-i5i2) de Henry Vi- 
gnaud, 1916, de pag. 60 a 65. O texto da carta, em ita- 
liano, reproduzimo-lo nós da mesma obra de pag. 4o3 a 
407. 



PEDRO ALVARES CABRAL 46 

gnhaud, mau grado o seu vastíssimo estudo so- 
bre Américo Vespúcio, desconhece bastante a 
história portuguesa desse tempo para avahar 
com justeza a missão que o seu biografado po- 
dia ser chamado a desempenhar em Portugal. 
Antes de mais nada a data da carta, escrita 
de Cabo Verde, está em absoluto acordo com 
a carta de Pisani. Sabendo egualmente por este 
úhimo documento que a primeira nau chegada 
a Lisboa e, por certo, que primeiro partiu de 
Cabo Verde, pertencia a um florentino, com 
quem Américo Vespúcio estava forçosamente, 
como adiante veremos, nas melhores relações, 
compreende-se que por esse intermédio enviasse 
a carta para o seu amigo de Florença. Além 
disso, certos factos, como o número de navios 
afundados durante a viagem, coincidem com o 
que as outras fontes nos referem. Ainda assim 
os seus vastos informes sobre a personalidade 
de Gaspar da índia, até aqui mal estudada, mas 
unânimes com a carta de Lunardo da Chá Mas- 
ser, (i) por tão longo tempo conservada secreta 
e com certos documentos só recentemente publi- 
cados, é que provam a sua autenticidade, se- 
gundo cremos, por maneira irrefutável. Mais 
adiante, quando nos referirmos a Gaspar da 
índia teremos ensejo de esmiuçar esta questão. 



(i) Centenário do descobrimento da América, publi- 
cação da Academia de Sciencias de Lisboa. 



46 EXPEDIÇÃO DE 

Quanto às objecções de Vignhaud pelo que to- 
ca ao facto de Vespúcio omitir nas duas outras 
cartas sobre a sua viagem a intenção, expressa 
nesta, de alcançar as índias, quer-nos parecer que 
isso prova apenas a convicção em que estava 
àquela data da continuidade entre a América e 
a índia ou de que já então Portugal procurava a 
passagem para o Oriente, pelo sul da América. 
Mais repara Vignhaud em que Vespúcio não re- 
fira em nenhuma dessas cartas o encontro com 
os navios de Cabral. Todavia a relação do pi- 
loto anónimo comprova inteiramente o facto, e 
essa omissão nas outras cartas explica-se facil- 
mente, dado que ele se arroga aí o falso papel 
de descobridor primeiro. E se a carta não con- 
tém os habituais barbarismos da escrita de Ves- 
púcio, em compensação não lhe falta o costu- 
mado entono de arrogância e glória de si mesmo. 

Outros documentos, mais ou menos coevos, 
vêm acidentalmente lançar luz sobre um ou ou- 
tro ponto. A alguns deles, da maior importân- 
cia, porque ocupam um lugar à parte, havemos 
de referir-nos mais adiante. Por agora citemos 
o mapa de Cantino, o qual contém uma inscri- 
ção acerca da viagem de Cabral e uma carta de 
El-Rei de Cochim a D. Manuel, na qual se fazem 
igualmente referências a esta expedição (i). 



(i) Publicada em Al ff uns documentos da Torre do 
Tombo. 



PEDRO ALVARES CABRAL 47 

Como auxiliares seguem-se em ordem de im- 
portância os relatos dos cronistas portugueses 
do século XVI, Castanheda (i), João de Bar- 
ros (2), Damião de Gois (3), Osório (4), Gas- 
par Corrêa (5), devendo acrescentar-se-lhes 
ainda o Livro das Armadas (6). 

O exame comparativo das fontes originais 
oferece desde logo uma vantagem: estabelece- 
-Ihes a indiscutível e recíproca autenticidade 
(que poderia afigurar-se duvidosa quanto às 
que chegaram até nós em traduções), pois coin- 
cidem inteiramente, salvo pequenas divergên- 
cias, explicáveis aliás pela diferença de inten- 
ções que inspiraram cada um dos documentos. 

Por outro lado, como se completam e escla- 
recem mutuamente, e' possível formar com eles 
um esquema inteiro dos factos mais notáveis da 
expedição, compreendendo a respectiva escala 



(1) Historia do Descobrimento e Conquista da índia. 
O primeiro volume foi publicado em i55i. 

(2) Décadas da Ásia. A primeira saiu em i552, 

(3) Chronica de D. Manuel. As duas primeiras partes 
sairam em i566. 

(4) De Rebus Emmanuelis gesíis, i586. Foi traduzida 
por Filinto Elísio. 

(5) Lendas da índia, publicadas por Lima Felner, 
1898. 

(6) Relação das armadas saídas do reino desde i4gj 
até j566, com desenhos e notas manuscritas. Pertence à 
Academia de Sciências de Lisboa. 



48 EXPEDIÇÃO DE 

cronológica. E se este esquemático relato deixa 
ainda insolúveis alguns dos problemas mais 
graves que à viagem se prendem, serve, pela 
sua indiscutível veracidade, como padrão para 
contrastar a fidelidade dos relatos das crónicas. 
Esse esquema constitui verdadeiramente uma 
pedra de toque. Certas discussões proteladas 
à volta dalguns dos pontos mais escuros da ex- 
pedição, derivam do imerecido crédito a um 
desses cronistas concedido. 

No âmbito deste livro não cabe a restituição 
dos factos principais da expedição, feita segundo 
o exame comparado das fontes. Temos, não 
obstante, que apontar os juizos que fizemos so- 
bre cada um dos relatos dos diferentes cronis- 
tas. Com o decorrer do texto, e a propósito, 
aduziremos algumas das provas respectivas. 

Duma forma geral o esquema obtido pela 
conjugação das fontes lembra-nos uma medalha 
com sua efígie finamente esculpida, que pelo 
andar do tempo e o poluir das mãos a pouco e 
pouco perde o nítido relevo original. Logo de- 
pois o mais exacto é Castanheda. Pormenores 
há que nunca mais se tornam a encontrar nas 
outras crónicas; assim como uma das suas in- 
exactidões nunca mais deixa de reaparecer nos 
que escrevem após. O primeiro livro impresso 
em Portugal sobre a viagem de Cabral é o seu. 
Este facto explica que estabelecesse corrente 
num ou noutro ponto, sem que, todavia, ne- 



O 

> ^ 



PEDRO ALVARES CABRAL 49 

nhum dos que escrevem ou imprimem depois o 
copiasse servilmente. Por sua parte a narrativa 
de Castanheda aproxima-se em especial da Re- 
lação do Piloto anónimo, e pode considerar-se 
dumia fidelidade escrupulosa. Vem a seguir, 
pela ordem cronológica da impressão, a pri- 
meira Década de João de Barros. Nas suas li- 
nhas gerais, acompanha o que se averigua pelas 
fontes; mas omite ou desvirtua alguns dos por- 
menores, ainda que forneça muitos dados no- 
vos verificavelmente exactos. Se é o que melhor 
nos dá a visão íntima dos factos, afigura-se-nos 
por vezes mais cuidoso do estilo, em que so- 
breleva a todos, do que da exactidão, e mos- 
tra um gosto exagerado até ao absurdo no de- 
senvolvimento das intrigas. Gois, mais sóbrio, 
menos eloquente, mas mais exacto do que Bar- 
ros, guiando-se pela Relação do Piloto anónimo, 
que conheceu, chega a corrigir Castanheda, 
posto que omisso num ou noutro ponto. Osó- 
rio, de todos o mais sucinto, procura, sem no- 
vidades, seguir os mais autorizados. Finalmente 
Gaspar Corrêa, sobre ser omisso com prejuizo 
e abundante sem proveito, atinge na inexactidão 
a pura invencionice. Erra a data da partida; 
omite quási todas as outras, incluindo a da che- 
gada; engana-se quanto ao nome do substituto 
de Pedro Alvares; aumenta com nomes falsos 
a lista dos capitães, escondendo alguns dos ver- 
dadeiros; e ignora, transpõe, altera ou inventa 



DO EXPEDIÇÃO DE PEDRO ALVARES CABRAL 

factos, com audaciosa fantasia. Chega a pare- 
cer milagre gue num dos pontos mais notoria- 
mente obscuros tanto nas fontes como nos cro- 
nistas ele rasteasse a verdade tam de perto. A 
obra de Gaspar Corrêa merece apenas o inte- 
resse real que, em história, se deve ligar às len- 
das. 

Deste segundo exame comparativo entre as 
fontes e as crónicas conclui-se que quási todas 
são diferentes, podendo, pois, fornecer subsí- 
dios para a restituição completa da viagem^ 
mas que o relato de Castanheda constitui o au- 
xiliar eleito para completar o que das primeiras, 
se averigua. 

Quanto ao Livro das Armadas, a página re- 
lativa à armada de Cabral não passa, nos dize- 
res, duma cópia mal feita do que dizem as cró-^ 
nicas, como teremos ensejo de provar. 



DISTRIBUIÇÃO DOS COMANDOS. 
FIGURAS PRINCIPAIS DA ARMADA. 



Antes de estudarmos a organização e os 
objectivos da armada de Cabral, devemos ave- 
riguar quais os capitães e figuras principais, que 
acompanham e organizam a armada, e traçar- 
-Ihes o mais possível as origens e biografias, 
lanto com esse prévio exame se esclarece aquele 
estudo. As fontes, sendo na cronologia muito 
mais minuciosas que os cronistas, mostram-se 
em geral escassas, quanto às referências de 
nomes e factos individuais. Hemos, pois, que 
socorrer-nos do auxilio das crónicas neste par- 
ticular. Dentre todos os documentos originá- 
rios, o mais abundante na citação dos nomes é 
a carta de Caminha. Vejamos pelo que diz res- 
peito aos capitães. Estabelece-se incontroversa- 
mente pelas fontes que eram treze os navios 
da armada e treze os capitães, incluindo Pedro 
Alvares. 

Caminha, testemunho de veracidade irrecusá- 



02 ^ EXPEDIÇÃO DE 

vel, cita os nomes de sete capitães, a saber : 
Pedro Alvares Cabral, Sancho de Tovar, como 
sota-capitão (qualidade por várias das outras 
fontes confirmada), Simão de Miranda, Aires 
Gomes da Silva, Bartolomeu Dias, Nicolau 
Coelho e Vasco de Ataide, que por altura das 
ilhas de Cabo Verde se perdera da armada. 
Nenhuma das outras fontes acrescenta a estes 
algum nome. Castanheda, Barros, Gois e o 
Livro das Armadas^ além daqueles sete nomes, 
atribuem tambe'm capitania a Diogo Dias (al- 
guns dizem Pêro), irmão de Bartolomeu Dias^ 
a Pêro de Ataide, por alcunha o Inferno (se- 
gundo Barros e Gois) e a Nuno Leitão, Gas- 
par de Lemos, Luís Pires e Simão de Pina. 
Osório, por mais sucinto, refere-se apenas inci- 
dentalmente a três capitães, ale'm de Cabral, — 
Sancho de Tovar, Gaspar de Lemos e Pêro de 
Ataide. Cita ainda o nome de Nuno Leitão, 
mas sem lhe atribuir aquela categoria. Apenas 
Gaspar Corrêa diverge desta voz unânime. 
Menciona catorze capitães para os treze na- 
vios, percebendo-se que harmoniza esta dispa- 
ridade com atribuir o comando da capitania e 
o sub-comando da armada a Simão de Mi- 
randa, ficando a Pedro Alvares apenas o co- 
mando geral. E elimina da lista dos comandos 
os nomes de Aires Gomes da Silva e Pêro de 
Ataide, que substitui por Brás Matoso, Pedro 
de Figueiró e André Gonçalves, coincindindo 



PEDRO ALVARES CABRAL 53^ 

nos restantes. Quanto à primeira dessas diver- 
gências nem as fontes, nem o costume seguida 
nas demais armadas autorizam a supor que a 
Cabral não coubesse o comando directo dalguma 
das treze naus, sendo ale'm disso erro mani- 
festo atribuir a Simão de Miranda o sub-co- 
mando de toda a armada. Pelo que à segunda 
diz respeito, pois que da lista dos treze capi- 
tães referidos por aqueles escritores, apenas 
dois não aparecem mencionados como tal em 
Gaspar Correia, e um deles Aires Gomes da 
Silva é citado na carta de Caminha, temos que 
o seu depoimento apenas invalida o nome de 
Pêro de Ataide. Ora acontece que depois de 
Pedro Alvares e Sancho de Tovar, sub-coman- 
dante, é esse precisamente o nome de capitão 
que as crónicas mais referem, durante todo o 
relato da viagem, não só por lhe ligarem várias 
particularidades individuais, mas em lhe atri- 
buírem o comando do primeiro dos nossos feitos 
épicos na índia e mais brilhante das missões 
isoladas, confiadas a um só navio durante 
aquela expedição. O próprio Gaspar Correia 
cita o seu nome nesse passo da viagem, atri- 
buindo-lhe primasias da glória em tal empresa 
conquistada. Acresce ainda que Pêro de Ataide 
volta a Portugal e de novo embarca para a 
índia numa das armadas seguintes, coman- 
dando igualmente uma nau e continuando ali 
com maior vulto as façanhas que da primeira 



~.">4 EXPEDIÇÃO DE 

vez já praticara. O conjunto destas circuns- 
tancias, dentre as quais sobreleva a continui- 
dade brilhante dos seus feitos e funções, con- 
firmada noutros passos por Gaspar Correia, 
afasta mais uma vez a hipótese dum erro come- 
tido pelos quatro cronistas. Acrescentemos 
ainda que este grupo de escritores, salvo uma 
única excepção, que mais adiante explicare- 
mos, concorda sempre com as fontes nas atri- 
buições a indivíduos dos factos proeminentes 
da viagem. Uma outra incerteza poderia surgir, 
se algum dos nomes citados por Correia fosse 
confirmado por qualquer documento de impor- 
tância. Mas tal não acontece. Cremos assim não 
haver dúvidas de que os capitães da armada de 
Pedro Alvares sejam os que Castanheda, Bar- 
ros e Gois nomeiam. E releve-se o nosso longo 
interesse em demonstrá-lo ã conta do dema- 
siado crédito com que alguns historiógrafos tem 
discutido o testemunho de Correia, que não 
àquele que nós próprios lhe liguemos. 

Além destes, avultam entre as pessoas notá- 
veis peio sangue e feitos, que seguem nesta ex- 
pedição, os nomes de Aires Corrêa e Duarte 
Pacheco. O primeiro vai por feitor da armada, 
mas leva por missão principal estabelecer a fei- 
toria em Calecut. Quanto à missão, que o se- 
-gundo, porventura, levasse, conservam todos os 
cronistas um singular silêncio. 

Todavia a sua prática e saber excepcionais e 



PEDRO ALVARES CABRAL b> 

OS altos serviços prestados anteriormente não 
podem deixar de assinalar-Ihe ali uma função 
muito elevada. Todos os cronistas, incluinda- 
Gaspar Corrêa, lhe referem a presença na ex- 
pedição. Além disso, Castanheda e Gois, identi- 
íicando-o com aquele herói, que em i5o4 de- 
fende do rei de Calecut a fortaleza de Cochim, 
eliminam a hipótese dum erro devido a homo- 
ním.ia (i). 

O probo e fiel Castanheda vai mais longe: 
identifica-o novamente por uma ligação mais. 



( i) «Deste ano de mil e quinhentos e três, parecendo a 
el rey de Portugal... não quis mandar mais de seys 
nãos repartidas em duas capitainas. Das primeyras foy 
capitáo mór hum fidalgo chamado Afonso dalbuquer- 
que. que depois governou a índia como direy no ter- 
ceyro livro. E forão seus capitães Duarte pacheco pi- 
reyra, de que faley atj-as. . .» Castanheda, obra citada,. 
Livro í, cap. LV. 

«Ao dia segumte, informado el Rei de Calecut pelos- 
Mouros, que forão com Pedro Dataíde, de quão animo- 
samente os nossos o fizerão, mandou pedir a Pedralva- 
rez, que lhe mandasse os que forão naquelle feito, pêra 
se poder gabar que vira homens, que mereciáo ser vistos 
de todolos Reis, e senhores do mundo, aos quaes fez a 
todos mercês e em especial a Duarte Pachequo Pereira, 
por lhe os Mouros dizerem, que nunca virão homem táa 
animoso nem tão esforçado, e que elle fora a causa 
única de se aquella nao tomar, do qual e das façanhas- 
que fez na índia e en outras partes se dirá ao deante.>h. 
Gois, obra citada, parte I cap. LVIII. 



56 



EXPEDIÇÃO DE PEDRO ALVARES CABRAL 



íntima a factos indviduais ali passados. Refere 
com efeito esse cronista que o Rei de Gochim, 
quando em Janeiro de 1604 Francisco de Albu- 
querque lhe deixa, em apoio contra o Samo- 
rim, Duarte Pacheco com um irrisório número 
de soldados, não obstante se dá por satisfeito, 
pelo que conhecia deste capitão (i). Quere alu- 
dir sem dúvida às provas que êle dera na ar- 
mada de Cabral. 

Havemos de nos referir ainda a alguns fidal- 
gos portugueses, quais sejam D. Álvaro de 
Bragança e o Conde de Portalegre, e a merca- 
dores estrangeiros, como Bartolomeu Marchioni 
e Jerónimo Cerniche, que entravam nesta ar- 
mada com suas naus para fins comerciais. 

Passemos agora a ver quais os títulos de no- 
breza, virtudes ou feitos pessoais ,que justifi- 
quem a escolha dos primeiros nomes para os 
postos principais da armada. 



(2) «E como ele sabia que a ficada era muyto peri- 
gosa por a muyto pouca gente que podia deixar nâo 
ousava de cometer a nenhum dos capitães que ficasse^ e 
por derradeyro de a oferecer a todos, e eles a não que- 
rerem a deu a Duarte pacheco que a aceitou de boa 
vontade mais pêra servir a Deus e a el Rey que por lhe 
ser proveitosa, que bem sabia quão pouca fazenda avia 
de ganhar em ficar na índia da maneyra que sabia que 
avia de ficar: e sabendo el rey de Gochim como ficava 
ouvese por contente disso pelo que dele sabia.» Casta- 
nheda, obra citada. Livro I, Cap. LXIII. 



GENEALOGIA E BIOGRAFIA DE PEDRO 
ALVARES CABRAL 



«Por se levantar a glória 
Das linhagens mui honradas, 
que por obras mui louvadas 
de si deixaram memória 
a quem lhe siga as pegadas, 
suas armas decifrando, 
algumas irei lembrando, 
donde lhe a nobreza vem, 
Por que faça quem a tem 
pola suster, bem obrando.» 



«De purpura celestial, 
sobre prata mui luzente, 
a geração mui valente 
que delas se diz Cabral 
traz sem outro diferente. 
E para que estas aponte 



58 EXPEDIÇÃO DE 

escrito trazem na fronte 
seu esforço e lealdade 
naquela grã liberdade 
do castelo de Belmonte.» 

Assim nos pinta João Roiz de Sá (i), em 
■campo de prata, as duas cabras passantes de 
púrpura vestidas, das armas dos Cabrais, cujo 
maior título de gloria, súmula de alto esforço e 
lealdade está na grande liberdade do castelo de 
Belmonte, isto é, «híãa das mayores prehemi- 
nencias do Mundo, que he nam darem home- 
nage dos Gastellos, que se lhes entregam», no 
dizer dum outro linhagista (2). 

Em verdade, ainda que se lhes possam buscar 
origens tão remotas como a própria monarquia, 
a nobreza dos Cabrais íirma-se por mostras 
de lealdade inquebrantada, durante a grave e 
incerta crise da independência portuguesa, no 
século XIV. 

Assim, a legítima fidalguia de Pedro Alvares 
remonta até seu terceiro avô Álvaro Gil Ca- 



(i) De Joam rrórç de saa decrarando algiius escudos 
darmas dalgúas lynhagees de Portuguall, que sabya 
donde vynham. Cancioneiro Geral de Garcia de Resen- 
de, ediçáo Gonçalves Guimarães^ tomo III, pag. 208. 
Modificamos a ortografia para melhor entendimento. 

(2) António de Villasboas e Sampaio, Nobiliarchia 
portuguesa, título dos Cabrais. 



PEDRO ALVARES CABRAL OC^ 

bral, alcaide-mór do castelo da Guarda, ein 
tempos de D. Fernando e do Mestre de Aviz. 
Quando el-Rei D. João de Castela, nos tempos 
do Mestre, entrou em Portugal pela Guarda, 
logo se foram a ele, além do bispo, que já o< 
acompanhava, vários fidalgos e escudeiros da 
comarca. Mas Álvaro Gil Cabral conservou o 
castelo pelo Mestre, mau grado as tentadoras 
ofertas do monarca e as reiteradas pressões 
por interpostos fidalgos portugueses exercidas. 
Daí por diante continuam os seus serviços de 
lealdade e quando, em i385, se celebram em 
Coimbra as cortes que levantam o Mestre de 
Aviz por soberano, Álvaro Gil Cabral é um 
dos que assinam o auto do levantamento. Um 
ano antes, já o Mestre, quando apenas regente 
e defensor do reino, lhe fizera mercê das alçai- 
darias dos castelos da Guarda e Belmonte, de 
juro e herdade para sempre, desobrigando os 
seus descendentes de prestarem homenagem, 
isto, além de outras mercês em boas terras. 
Sua mulher D. Maria Eanes Loureiro era neta 
de D. Rui Vasques Pereira, tio do Condestá- 
vel. Álvaro Gil Cabral faleceu em Coimbra 
em 1433 e jaz, sepultado em jazigo próprio, na 
Sé Velha, dessa mesma cidade. 

Eis o nobre tronco da famíHa. Nas altas fra- 
gas da Guarda e de Belmonte, em rude terra 
centeeira, nas abas da Estrela e da Atalaia, já 
fronteiras da Espanha, nasceram as passantes 



6o EXPEDIÇÃO DE 

cabras, vestidas com a púrpura da lealdade. 
Daí por diante sucedem-se os esforçados e lea- 
líssimos Cabrais. 

De Álvaro Gil nasceram Luís Álvaro Cabral, 
que herdou a casa vinculada de seu pai com 
senhorios e alcaidarias, e D. Brites Alvares 
Cabral, mãe que foi de Gonçalo Velho, o que 
por mandado do Infante D. Henrique desco- 
briu os Açores. 

Luís Alvares Cabral foi escudeiro fidalgo de 
D. João I e vedor da casa do Infante D. Hen- 
rique, que acompanhou na tomada de Ceuta (i), 

Herdou-lhe os vínculos seu filho Fernão Ca- 
bral, que continuou no cargo, junto do mesmo 
Infante e com ele esteve igualmente na tomada de 
Ceuta. «E aqui, — relata Gomes Eanes de Azu- 
rara, traçando-lhe a biografia em breve escorço, 
— aveis de saber que Fernão d' Alvares Cabral 
adoeceu de pestenença na galee do Infante 
Dom Anrique, onde vinha, cujo veador era, e 
foi posto fora em terra e prouve a Deus de lhe , 
dar saúde para lhe fazer adiante muito serviço; ] 
« tanto que Cepta foi tomada, e elle guarido, 
se foi aaquela Cidade, e esteve nella por alguns 
annos, e esteve nos cercos ambos, sempre como 
bom Fidalgo, e foi o primeiro que matou Mou- 
ros de cavallo em aquella cidade, fazendo sem- 



(i) Azurara, Ch-onica de Dom João I, parte I, cap. LX. 



PEDRO ALVARES CABRAL 6l 

pre coisas dinas de muita honra e assy acabou 
ao diante em defendendo seu Senhor sobre o 
cerco de Tangere, cuja morte foi a elle muito 
honrosa, por acabar em serviço de Deos, e do 
Senhor que o criara...» (i). O mesmo Azu- 
rara lhe dedica um largo capítulo na Chronica 
de Dom João I (2). 

De Fernão Alvares Cabral e de sua mulher 
D. Teresa de Novais de Andrade, filha de Rui 
Frei de Andrade, almirante de Portugal, nasceu 
Fernão Cabral, o pai de Pedro Alvares, e 
Diogo Cabral, que casou na Madeira com uma 
filha de João Gonçalves Zarco. Este Fernão 
Cabral, fidalgo da casa de D. Afonso V, pres- 
tou ao dito Rei, segundo os dizeres duma carta 
da sua Chancelaria, grandes serviços não só 
nas partes de Africa, como nos reinos de Cas- 
tela, onde continuamente o seguiu dispendendo 
grande parte da fazenda própria (3). 

Sobre ter herdado a casa de seu pai, com as 
mesmas alcaidarias e senhorios, Fernão Ca- 
bral exerceu durante longos anos o cargo de 
regedor da justiça das comarcas e correição da 
Beira e Riba de Côa, tarefa espinhosíssima e 
onde encontrou as maiores dificuldades. Um 



(i) Chronica do Conde D. Pedro, liv. \, cap. XXVIII. 
{2) Cap. LX da parte I. 

(3) Vide Aires de Sá. Frei Gonçalo Velho, tomo I, 
documentos CXLV. 



02 -. EXPEDIÇÃO DE 

dos mais probos historiadores dos nossos 
tempos, que particularmente estudou a sua 
acção como magistrado^ náo regateia louvores 
aos seus serviços (i). Fernão Cabral, pelo ca- 



(i) «A tarefa deste magistrado que, pelo menos du- 
rante desasete annos até 1842, exerceu o seu alto cargo 
nesta comarca, não era para invejar. Em todo este es- 
paço de tempo o seu nome nos aparece, ora invocado 
para salvaguarda do direito, porem, em maior. numero 
de casos, como o de um réu de desacatos á justiça. As 
acusações eram públicas em cortes, assinadas e seladas 
pelos conselhos da Beira. Da sua defeza que havia de 
ser verbal, náo nos ficou documento : se é que lhe era 
exigida, porque é notável que em geral, nas respostas 
aos capítulos, rara vez o rei contradita as acusações 
contra qualquer funcionário ; mas também não as dá 
por provadas : limita-se a resolver o caso na suposição 
da sua existência. Todavia, em vista da contraposição 
dos testemunhos, da palpável improcedência de algumas 
imputações, da confiança que lhe foi conservada durante 
iam longo tempo, da benevolência que a ele e a seus 
descendentes testemunharam sucessivamente D. Afon- 
so V, D. João II e D. Manuel, não temos a menor dúvida 
em afirmar a probidade e rectidão de Fernão Cabral, 
aferida pelo padrão jurídico da época. Nem era ele do- 
minado da cobiça. Do esbanjador Afonso V que dissi- 
pava os bens do Estado, sem conta nem discrime, este 
funcionário de primeira jerarquia não recebeu outras 
mercês mais que a conversão em hereditária da alcai- 
daria vitalícia de Belmonte e o padroado da igreja de 
S Sebastião em Azurara, O que êle não poude foi re- 
solver a pendência sobre os vinhos, que continuou a 
fornecer acendalhas para as malquerenças entre os ci- 



PEDRO ALVARES CABRAL 63 

^amento com D. Isabel Gouveia, herdeira de 
seu pai, João de Gouveia, alcaide-mór de Cas- 
telo Rodrigo, e senhor de Almendra, Valhelhas 
e Castelo Bom e pelas mercês sucessivas de 
D. Afonso V, D. João lí e D. Manuel e ainda 
porque sucedeu também no morgadio de D. Ma- 
ria Gil Cabral, estendeu por toda a Beira uma 
casa opulentíssima (i). Tão avantajada estatura 
havia, que o cognominaram o gigante da Bei- 
ra^ segundo uma velha tradição conservada em 
Belmonte (2). Já o coudel-mór Fernão da Sil- 
veira, numas trovas que lhe fez, se lhe dirige : 

«Myçer gualante Cabral 

Sois em corte feo, grande, 
E no campo outro tal» 



dadáos da Guarda.» Gosta Lobo, História da Sociedade 
em Portugal no século XV. pag. 23 1 a 23-2. 

Costa Lobo confunde, todavia, por vezes Fernão Ca- 
bral com o pai, Fernão Alvares Cabral, assim como 
Sanches de Baena na sua memória genealógica confunde 
Luís Alvares Cabral com o filho, o que se pode verificar 
em Azurara, nos capítulos citados. Costa Lobo comete 
ainda outras pequenas inexactidões, inúteis de referir. 

(i^ Vide a longa série de documentos que se lhe refe- 
rem, publicada em Frei Gonçalo Velho, de Aires de Sá, 
tomo L 

(2) Pinho Leal, Portugal antigo e moderno, palavra 
Belmonte. 



64 EXPEDIÇÃO DE 

e de seguida acrescenta : 

Um Maneias sois segundo, 
Por servir damas tornado, 
e dos galantes sois dado 
por espelho neste mundo . . . 

Mas logo nos remoques de que as trovas 
estão cheias o fidalgo troveiro insinua que nem 
só das damas Fernão Cabral cuidava, pois lhe 
chama «metedor dalvoroços antre moças de 
pandeiro e soalheiro» (i). 

Atravez dos documentos, que se lhe referem, 
o rico e avantajado corregedor das Beiras^ 
crestado pelas guerras de Africa e Castela,, 
activo, desembaraçado, poderoso, iguala sem- 
pre com a estatura física a moral, saindo ileso 
dos ataques, que em cortes lhe endereçam, à 
conta da sua áspera justiça, e merecendo con- 
tinuamente as mais lisongeiras, quando nâa 
respeitosas referências aos três monarcas, sob 
cujo sceptro a sua fadigosa vida decorreu. As 
mesmas alianças por casamento contraídas en- 
tre os seus filhos e algumas das mais podero- 
sas famílias dessa época, maiores até em 
proeminência, atestam o seu poderio, abas- 
tança e bom nome. 



(i) Cancioneiro geral de Garcia de Rezende, edição 
citada, tomo I, pag. 189 a 192. 



PEDRO ALVARES CABRAL 65 

Pedro Alvares Cabral nasceu em Belmonte, 
aproximadamente no ano de 1467 ou 1468. E, 
se no solar de seu pai aprendeu, de criança, as 
aguerridas e marinheiras tradições da família, 
breve, na corte de D. João II, para onde en- 
trou, como moço fidalgo, havia de arder por 
continuá-las, ao estudar as humanidades desse 
tempo, tam versadas em cosmografia e mari- 
nharia, e ao contacto da plêiade de navegado- 
res e capitães que rodeavam o Príncipe Per- 
feito, Morto D. João II,- D. Manuel agraciou-o 
com o foro de fidalgo do seu conselho (i), ofe- 
recendo-lhe mais o hábito de Cristo e uma tença 
anual. Pelo seu casamento, sobre ter alargado 
consideravelmente (2) a fortuna já herdada (por 
certo diminuta por não ser o primogénito e 
haver mais dez irmãos), aliou-se a uma das 
mais ilustres e poderosas famílias dessa época. 
Sua mulher D. Isabel de Castro, terceira neta 
dos reis D. Fernando de Portugal e D. Henri- 
que de Castela, era filha de D. Fernando de 
Noronha e de sua mulher D. Constança de Cas- 
tro, irmã esta de Afonso de Albuquerque e neta 
do primeiro Conde de Atouguia. 



(i) Historia Genealógica da Casa Real, tomo II das 
Provas, pág. 326. 

(2) Vide doe. XVII, em Sanches de Baena, O desco- 
bridor do Brasil, Pedro Alvares Cabral, memória apre- 
sentada à Academia de Sciências de Lisboa. 



66 EXPEDIÇÃO DE 

iQue feitos ou serviços prestara Pedro Al- 
vares Cabral que lhe revelassem as altas quali- 
dades e o impusessem na escolha para tam ele- 
vado cargo, como o que há de exercer na 
expedição da índia? Se alguns praticou, dignos 
de menção, não os regista a história. E o único 
indicio documental, anterior à sua nomeação, 
que vem quebrar esse silêncio, consta duma 
carta de D. Manuel em que, a pedido de Pedro 
Alvares, o Rei confirma e divide em duas par- 
tes iguais a tença de 26:000 reais que D. João lí 
concedera a ele e a João Fernandes Cabral, seu 
irmão primogénito. A própria concessão de 
D. João II aos dois, dentre 'OS cinco filhos va- 
rões de Fernão Cabral, faz supor que eles se 
houvessem distinguido por serviços praticados. 
Mas esta nova carta, que é datada de 12 de 
Abril de 1497, expressamente declara, com ex- 
clusiva referência a Pedro Alvares: «E visto 
por nós seu requerimento ser justo, havendo res- 
peito a seus serviços e 7nereci/nentos, querendo- 
-Ihe fa^er graça e ??iercé...y> (i). Ignora-se, 



(1) Eis o texto completo da carta, que extratamos de 
Aires de Sá, obra citada, tomo I, doe. CLXII : «Dom Ma- 
nuell por graça de deus Rey de portugail e dos algarves 
daaquem e daallé mar é africa sennor de guince A quan- 
tos esta nosa carta virem fazemos saber que pedro al- 
vares de gouvea fidalgo da nosa casa nos dise ora que 
ele e joham fernande^ cabrall seu irmáao tinham delRey 



I 



PEDRO ALVARES CABRAL 67 

não obstante, quais fossem esses serviços. Mas 
o uso do tempo, que fazia das praças de Africa 
a escola de guerra para os moços fidalgos, a 
tradição ininterrupta da familia, pois desde o 
pai ao bisavô todos ali treçaram armas com 
bravura, o próprio comando duma armada em 
que seguem guerreiros já experimentados, tudo 



meu senor cuja alma deus aja de temça e cada huú anno 
em quanto nosa mercee fosse vime e seis mill Reaes per 
sua carta de padrom que lhe deles mandara dar segundo 
pareceo per o treilado delia que dos livros da chance- 
laria do tépo que aos sobreditos foy dada per o dito 
Sennor a dita temça foy tirada de verbo a verbo pergil 
fernandez escripvam da chancelaria de dom Jorje meu 
muito prezado e amado sobrinho que hos em seu poder 
tem do dito tépo e que eles perderom a própria cartado 
dito Sennor que da dita temça tinham e a nom podiam 
achar pêra a ora vyré comíirmar per nos pedymdonos 
por quanto a dia carta era perdida que nos prouvese 
mandarmos dar a cada hufí nosa carta de padrã apar- 
tada do que a cada hufí montase dos ditos XXbj (26000) 
Reaes. saber Xii) (i3ooo) Reaes a cada huu pcra dos di- 
tos dinheiros aver seu pagamento homde lhes provese 
segundo nosa hordenança. E visio per nos seu Requery- 
mento seer justo avendo Respeito a seus serviços e me- 
recimentos querendolhe fazer graça e mercee Teemos 
por bem e nos praz que ele dito pedro alvare^ de gou- 
vea tenha e aja de nos de tença é cada huíã anno des 
primeiro dia de janeiro que ora pasou deste anno pre- 

c 
sente de mill iiijIR.bij (1497), ^™^ diante em quanto nosa 

mercee for os ditos Xii) Reaes que a ele mota aver da 



68 EXPEDIÇÃO DE 

leva a crer que ao menos ele houvesse prestado 
ali também os serviços a que a carta se refere. 
A falta, pois, de anteriores relatos, que nos 
revelem as suas \irtudes e carácter, vamos afe- 
ri-los pelas provas únicas que a história nos 
conserva. Sem outras, que não fosse o simples 
facto de lhe haverem confiado a capitania mór 
de tão importante expedição, este bastava para 



sua metade dos ditos vinte e seis mill Reaes que ambos 
tinham como dito he por quanto Xiij Reaes da outra 
metade mandamos dar outra nosa carta ao dito Joham 
fernande^ pêra delles apartadamente aver per ella seu 
pagaméto e poré mandamos aos veedores de nosa fa- 
zenda que façam Riscar dos nosos livros delia os ditos 
XXbj Reaes que ambos os sobre ditos juntamente neles 
tem assemtados e mandem assemtar ao á\x.o pedro al~ 
vare^jf soomente os ditos Xii) Reaes cÔ decraraçõ que 
som ametade dos ditos XXbj Reaes que ambos tinham 
como dito he e que perderom o outro padram do dito 
Senor que delles lhe foy dado e lhes mandamos ora dar 
a cada hú delles mota aver è maneira que se em alguú 
tépo o outro dito padrõ parecer lhe seja Roto e nó aja 
per elle duas vezes pagamento dos ditos dinheiros dos 
quaes Xii) Reaes elle tirara em cada huu anno de nosa 
fazenda carta desébargo delles per homde lhe sejam mui 
bé pagos e por sua guarda e nosa lébrança lhe manda- 
mos dar esta nosa carta de padrom per nos asinada se- 
lada do noso selo pemdente dada em a nosa cidade de 
evora a Xij dias dabrill pedro lomelim a fez anfío de 

c 
myll iiijIR.bij (1497) annos. Chancellaria de D. Manoel, 

liv. 27%/. 76». 



PEDRO ALVARES CABRAL 69 

revelar e encarecer-Ihe merecimentos raros. Em 
D. Manuel concorriam inteligência e ambição su- 
ficientes para não entregar o comando da expedi- 
ção, que ia seguir-se à de Vasco da Gama, em 
mãos que não fossem provadamente hábeis e 
seguras. 

Mas vejamos quais os traços, apuráveis das 
fontes sobre a sua expedição, capazes de aju- 
dar-nos a debuxar-lhe o retrato moral. Pedro 
Alvares Cabral era faustoso, amigo de gran- 
dezas e, como tal, possuidor de grande estado, 
para o que haviam de concorrer em grande 
escala os bens e educação de sua mulher. Não 
devia ser este, por certo, para D. Manuel o 
menos recomendável dentre os seus atributos. 
Nas instruções, dadas pelo rei, para bom re- 
cado e direcção da expedição, o monarca mais 
duma vez recomenda a Pedro Alvares que dê 
aos principes do Oriente boas mostras tanto de 
si como de armada. Mas êle, no seu desejo de 
grandeza, excede-as. Quando, chegado a Gali- 
cut, tivesse que avistar-se com o Samorim, es- 
miuçava p Rei: «ireis em terra com dez ou 
quinze homens, quais vos melhor parecer le- 
vardes comvosco, os outros capitães em suas 
naus e em vossa nau um capitão», (i) Ouça- 



(i) Alguns documentos da Torre do Tombo. Alguns 
fragmentos de instruções a Pedro Alvares Cabral, pag. gg. 



70 



mos agora o que diz o piloto da relação anó- 
nima : «Recebendo Pedro Alvares este avisa 
aprontOLi-se para sair em terra e ficar ali dois 
ou três dias, levando consigo trinta homens dos 
mais honrados^ e assim se pós pronto com todos 
os seus oficiais e criados^ como podia convir a 
um Principe, e levou toda a prata que havia 
em as naus, das quais deixou por capitão-mór 
Sancho de Tovar...» (i) Nas terras de Santa 
Cruz, quando os dois primeiros indígenas vem 
a bordo, já de noite, Pedro Alvares Cabral 
recebe-os, à luz das tochas, «sentado, como 
diz Caminha, em huma cadeira e huma alca- 
tifa aos pés por estrado, e bem vestido com 
um colar de ouro mui grande ao pescoço» 
e os capitães das naus e senhores principais, 
sentados no chão, ao longo da alcatifa. 

Preocupado em estadear as suas galas, não 
o faz por soberba insolente. Afável e bondoso, 
sempre que os indígenas vão às naus, veste-os, 
oferta-lhes as pequenas bugigangas com que 
eles se enfeitiçam, ordena que lhes ponham 
mesa e de comer, e quando esses primeiros se 
deitam no chão para dormir, dá-se ao mimo 
tocante de os mandar cobrir e pôr-lhes coxins 
sob a cabeça. 



*{i) Navegação de Pedro Alvares Cabral, in Noticias 
para a histórica e geografia das nações ultramarinas.. 
119. 



PEDRO x\LVARES CABRAL 7I 

Mesmo com inimigos desleais tem rasgos de 
magnanimidade generosa. No próprio dia em 
-que se avista com o Samorim, começam, de 
facto, as hostilidades entre os dois. Os reféns 
de Calicut, a meio da cerimónia da troca, lan- 
çam-se ao mar para fugir. Fica apenas num 
dos nossos bateis um velho gentil-homem ma- 
labar, e dois dos nossos nas mãos deles. «No 
dia seguinte, condoendo-se Pedro Alvares da- 
quele velho, que havia já três dias que não 
tinha comido (em obediência aos preceitos da 
sua religião), o mandou pêra terra, e lhe deu 
todas as armas, que tinhão ficado na nau, 
pertencentes aos que se havião lançado ao 
mar. . .» (i). 

Capaz de desafrontar-se com bravura, mas 
prudente e escrupuloso, mais quere encher-se 
de razão que cevar os primeiros ímpetos da 
cólera. Quando, em Calecut, os mouros e os 
da terra assaltam e roubam a feitoria, matando 
Aires Correia e perto de sessenta portugueses, 
Pedro Alvares, raivando de dôr e indignação, 
tem ânimo para moderar a sua e alheia impa- 
ciência e espera um dia inteiro que o Samorim 
lhe dê satisfações do feio caso; e só depois 
lhe manda combater e queimar as naus sur- 



(1) Navegação de Pedro Alvares, obra citada, tomo II, 
pag. T i3 e 114. 



72 EXPEDIÇÃO DE 

tas no porto e bombardear a cidade, todo o^ 
dia (i). 

Mas em si a bravura exclue toda a bravata. 
A sua prudência chega por vezes ao extremo- 
limite, que, transposto, se torna em cobardia. 
Quando a armada do rei de Calecut o segue 
sobre Cochim, dando mostras claramente agres- 
sivas, Pedro Alvares, que já tem as naus quási 
de todo carregadas, se não foge, procura toda- 
via, cheio de prudência, evitar o combate. Ainda 
que João de Barros e outros cronistas afectem 
o contrário, a relação do piloto anónimo e a 
carta de D. Manuel não deixam a minima dú- 
vida sobre o seu procedimento. 



(i) Treslado da carta que el Rey nosso senhor es- 
creveu a el rey e a Rainha de Castella seus padres^ 
da nova hndya, edição Eugénio do Canto. Gonta neste 
passo Castanheda que, despejadas as naus, «ficarão 
nelas os cativos atados de pés e de mãos. e assi forão 
queimadas á vista de muyta gente da cidade que estava 
na praya pêra lhes acodir, mas não ousarão com medo 
da nossa artelharia. E era espantosa cousa de ver arder 
dez nãos todas juntas, fazerense carvões, e ouvir a gran- 
de grita dos mouros que estavão dentro, e nisto se gas- 
tou todo aquele dia.» Este acto de espantosa crueldade 
está em contradição com o caracter de Pedro Alvares. 
Com efeito não só nenhum outro relato o confirma como 
a carta de D. Manuel aos reis de Castela e Gois o des- 
mentem, afirmando que os cativos forão distribuídos 
qela armada. É este um dos poucos erros graves come- 
tidos pelo honrado cronista. 



PEDRO ALVARES CABRAL 78 

Generoso, afável e escrupuloso até com ini- 
migos, exige, seja de quem for, o máximo res- 
peito a sua honra e gerarquia. Regressado à 
pátria, nomeia-o D. Manuel capitão-mór da 
nova armada que ao Oriente envia. 

Pedr'Alvares, ao conhecer o regimennto de 
Vicente Sodré, que de sua bandeira, com cinco 
naus ò separava, dando-se por ofendido, não 
aceitou o encargo. «Homem de muitos primo- 
res acerca de pontos de honra» lhe chama João 
de Barros neste passo (i). 

Pundonoroso a tal extremo, não o cega a 
vaidade do comando. Antes se havia de sentir 
repeso, por condescendente em demasia, pois, 
•contra o seu expresso voto, cedeu a instâncias 
de Aires Corrêa, em resoluções, que haviam 
de causar a morte a este e o afrontoso assalto 
à feitoria (2). 



(i) Castanheda diz apenas: «e tendo dada a capitania 
mór dela a Pedralvares Cabral lha tirou por alguns jus- 
tos respeitos», fórmula vaga de quem receia afirmar um 
facto, que envolva censura para o Rei. Barros e Gois 
são terminantes e concordes e deles seguimos a versão. 
Correia vem a ponto com uma longa história de impo- 
sições feitas pelo Gama a D. Manuel. Fundando-se na 
versão deste ultimo, Sanches de Baena arquitecta uma 
luta de famílias entre Gabrais e Gamas, para nós mais 
que duvidosa, dada a suspeita origem em que se funda. 

(2) Concordam neste facto com as fontes o minucioso 
relato de Castanheda e Gois. 



74 EXPEDIÇÃO DE 

Um documento precioso, pelo nome que o^ 
firma, as circunstâncias que o ditaram e a pes- 
soa a quem se dirigiu, aponta e confirma plena- 
mente este rápido esboço de tão nobres linhas. 
Referimo-nos à carta de Afonso de Albuquerque,, 
endereçada ao Rei, instando com ele para que 
chame Pedro Alvares ao seu serviço, quebrando 
o injustificado apartamento em que há tanto o 
conserva. Aí se lhe refere o honrado Albuquer- 
que em termos eloquentes, chamando-lhe «mui 
bom fidalgo» por «sua bondade e cavalaria»,, 
«homem avisado», merecedor e desejador de 
ganhar honras, terminando por afirmar <(í^' Jw- 
mem que eu sei certo que terá vossa alteia con- 
tentamente de sua pessoa e de todas as cousas 
honradas que nele há para algumas riecesssi- 
dades de vosso serviço que lhe encarregardes e 
esforça-ine Senhor, a di^er, porque vi que tem 
vossa Alte\a tomado a experiência de sua pes- 
soa e de seus serviços e que em todos os feitos 
em que ele poser as mãos^ que vos há de mere- 
cer mercê' . .» (i) 

Tão claras, convictas e desassombradas são 
estas últimas expressões e melindrosas as cir- 
cunstâncias que as provocam, que atestam irre- 
cusavelmente a elevação e inteireza de carácter 
de Pedro Alvares. 



(i) Esta carta, em que infelizmente há muitos espíi- 
ços apagados pelo tempo, foi publicada nas Cartas de 



PEDRO ALVERES CABRAL 7D 

No seu lugar e em iguais circunstâncias, por 
maneira bem diversa procediam outros dos 
capitães daquele tempo, — um cubiçoso e des- 
leal Sodré, um desapiedado e insofrido Gama 
ou um autoritário e terrível Albuquerque. 



Afonso de Albuquerque, ediçáo da Academia de Sciências. 
Trasladamo-la por inteiro aqui; dada a luz com que 
alumia a figura e vida de Cabral. «Senhor — Eu tenho 
tanta necessidade de meus parentes vos falarem por 
mim e Requererem minhas cousas amte vosalteza que 
nam sey como ouso de fazer por nimguem porem eu ey 
de fazer meu dever; beijarey as máos de vosalteza rre- 
cebermo como obra de minha obrigaçam que neste 
caso tenho a minha irmãa e a meus sobrmhos e a meus 
parentes: e por que isto digo a vosalteza he por pedr 
alvares meu cunhado (cognado) casado com minha so- 
brynha, filha de minha irmãa criada de vosalteza e da 
Senhora Rainha; eu fuy o que concertey e ordeney este 
casamento e lhe fiz dar da fazenda de minha irmãa e de 
meu cunhado dom fernando mais em casamento. ... do 
que seu movell e rraiz podia abastar, e que pêro. . • . era 
muy boom fidalgo e merecedor disto. . . . e cousa mayor, 
todavia se teve respeito a.... e omrra e credito que 
vosalteza tinha de sua pessoa e o contentamento de 
seus seVuiços e de sua bondade e cavalarya e deve- 
mos todos por muito certa sua medramça e galardam 
de seus serviços e ser ele tall pessoa e asy aceito 
a vosalteza e encarregado por vosalteza em carregos 
omrrados que nos pareceo que nam podia deixar 
daver de vosalteza omrra e mercê por sabermos que 
era cavaleiro homem avisado e que ha de dar em todo 
tempo e em todo feito booa rrezam de sy como vosal- 
teza ja dele tem tomado a espiryemcia: agora Senhor 



JÔ EXPEDIÇÃO DE 

Concorrem nele, com a antinomia das sensi- 
bilidades mais ricas e perfeitas, um quê de forte 
e ingénuo, de bravo e enternecido, de gran- 
dioso e humilde, de magnanimidade aparatosa 
e modesta esquivança, que trazem à memória 



vejo esta quebra sua amte vosalteza durar muitos dias 
em tempo que vosalteza se serve jeralmente dos cava- 
leiros e fidalgos do voso Reino e conquistas.... os 
quaes recebem mercê Remdas co.... segumdo cada 
hum faz e merece por. . . cognado pêro alvares homem 
desejador. . . . em obras e em dito e em feito ser sem- 
pre servidor de vosalteza de sua pessoa tem que asy o 
temdes lamçado de voso serviço e quanto me a mim 
mais parece que a culpa deste feito era sua tanto mais. 
sua da parecer e ey de crer que ele tem certo o perdam 
e galardam de vosalteza como viimos por espiryemcia 
em outras pessoas serem lhe seus erros perdoados e 
feita omrra e dado Remdas e mercê e acceitos a vosal- 
teza, e porque a condiçam dos portuguezes he criar nos 
vosalteza e nos castigar fazer mercê e nos chamar e 
desagravar e se seriar de nos e nos tirar de nosos arru- 
fos e errados comselhos como geralmente cada dia vo- 
salteza faz por omde tornamos logo a por nosas vidas, 
ho cutello como noso Rey e senhor verdadeiro e cada 
huum so trabalha por vos merecer. . . . devia pêro alva- 
res de ser por muitas resoes e.... huum destes; e se 
minha pessoa e valia amte vosalteza. ... de isto mere- 
cer, eu senhor vos beyjarei as máos por ele ser chama- 
do de vosalteza aconselhado e rreprendido e tornado 
em vossa graça e serviço por que he homem que eu sey 
certo que terá vosalteza comtemtamento de sua pesoa e 
de todalas cousas homrradas que nele ha pêra alguúas. 
necesydades de voso serviço que lhe emcarregardes e 



PEDRO ALVARES CABRAL 77 

O Condestavel, e, extremando-o dos demais 
capitães contemporâneos, o alevantam acima 
da moral comum da sua época. 

Herdara de seu pai a estatura desmedida, 
como se constatou, ao destapar-Ihe a sepul- 
tura. Devia trazer barba, como os grandes 
capitães daquele tempo, cerrada e longa. Mi- 
navam-no as quartas; e «havia anos que tre- 
mia», informa Castanheda (i). Essa latente 
morbidade havia de acender-lhe com fogachos 
bruscos a sensibilidade já de si aguda. E, como 
a chama íntima dos caracteres fortes e arden- 
tes transluz sempre na face com seu clarão 
peculiar, bem podemos evocar do nobre capi- 
tão o gigantesco vulto, cuidadamente vestido e 
adereçado, a barba pelo peito, o sobrecenho 
altivo, e, na face pálida e sombria de impalu- 



esforçome Senhor a dizer porque sey que ja tem vosal- 
teza tomado a espiryemcia da sua pessoa e de seus ser- 
viços e que em todolas feitos em que ele poser as mãos 
que vos ha de merecer mercê: beijarey as mãos de vo- 
salteza lembrarse das ai.... mem... mãa sobre mim 
pelo falecimento.... que a em minha companhia e 
ajud.... e perder o escamdalo que de mim tem.... 
sem tel o pêro alvares apartado de voso serviço.... 
vosa corte e sua filha como da morte de uns filhos: 
acabada em Calecut a ij dias de dezembro de i5i4 (por 
letra de Albuquerque) feytura e servidor de vosalteza — 
A** dalbuquerque, (Subscripto) A EU Rey noso Senhor», 
(i) Obra citada^ livro I^, cap. xxxviii. 



78 EXPEDIÇÃO DE 

dado, a gravidade, a distância, a tristeza dos 
que não ignoram a sua perfeição (i). 

Concluiremos por isto que a excelência do 
seu carácter fosse o móbil único que determi- 
nou D. Manuel na melindrosa escolha ? Não ; 
Pedro Alvares, suposto que magnificamente es- 
colhido para a missão que lhe era destinada, 
excedia em isenção e pundonor a craveira exi- 
gida pelo rei aos seus bons servidores. Essa 



(i) O retrato, com que vulgarmente se representa Pe- 
dro Alvares Cabral, é reproduzido dos Retratos e elogios 
dos Varões e Donas (Lisboa, 181 7). Náo mencionam os 
respectivos editores a origem dessa imagem. É possível, 
todavia, que dalguma tela ou gravura antiga o tivessem 
copiado, dado que isso mesmo fizeram com outros dos 
retratados. Seja como fòr, o retrato moral, que acaba- 
mos de bosquejar, debuxado esse sobre os documen- 
tos, condiz singularmente com as feições que o repre- 
sentam nos V ardis e Donas. Outro suposto documento 
iconográfico é o busto do medalhão dos Jerónimos, que 
se dá como representando Pedro Alvares. Bem mere- 
ciam um estudo sério os quatro medalhõis, represen- 
tando bustos de navegadores, sobre os pilares duma das 
alas dos Jerónimos esculpidos. Varnhagen, o mais mi- 
nucioso dos autores que ao caso se referem, diz na sua 
Noticia histórica e descritiva do Mosteiro dos Jerónimos 
(Lisboa, 1842): «Nos cinco grandes pilares fronteiros ás 
portas dos coníissionários veem-se também em linha 
horisonial o sol e seguidamenee quatro bustos em me- 
dalhõis, dos quais se diz com toda a probabilidade 
significarem O Oriente com os quatro heróis portugue- 
ses que lá tinham ido quando aí chegava a construção; 



PEDRO ALVARES CABRAL 79 

orgulhosa inteireza de ânimo de futuro arrastá- 
-Jo-hia, de contrário, para um ostracismo, que 
se lhe protraiu pelo resto da vida. E, se, como 
tudo indica, não praticara ate' à data feitos que 
o impusessem para missão tão espinhosa, hemos 
de buscar em outras circunstâncias os motivos 
que, somados às suas nobres qualidades, deci- 
diram o rei a nomeá-lo. Ponderemos prim.eira- 
mente que logo desde o começo do seu rd- 



isto éj ao que parece, o Gama e seu irmão, Nicolau 
Coelho e Pedro Alvares Cabral. Este ultimo busto con- 
firma a tradição, pois está de cara voltada para o lado 
oposto ao Sol, comemorando assim o seu afortunado 
descobrimento das terras ocidentais ou Brazil». Teixeira 
d' Aragão, em Vasco da Gama e a Vidigueira, referin- 
do-se aos três primeiros, chega a dá-los como os retra- 
tos mais autênticos dos heróis que representam. Ainda 
hoje os guardas do claustro repetem, ciceronando, a 
tradição. E deles soubemos que todos os anos o director 
da Casa Pia, adjunta ao mosteiro, manda no dia da festa 
do descobrimento do Brazil engalanar de flores e palmas 
o suposto busto de Cabral. Que os bustos representem 
navegadores não é para duvidar. A autenticá-los, veste- 
Ihes a cabeça a gorra marítima da época. E tanto quanto o 
permite a graciosa estilisação com que o cinzel os escul- 
piu, pode do primeiro dos bustos afirmar-se que se asse- 
melha ao mais conhecido dos retratos do Gama. Como a 
Vai'nhagen mui provável se nos afigura o que a tradição 
afirma. Pondere-se, todavia, que Fr. Jacinto de S. Mi- 
guel, escrevendo no começo de século xviii (Mosteiro de 
Belém, manuscrito publicado por Martinho da Fonseca) 
não faz a minima referencia a semelhante tradição. 



8o EXPEDIÇÃO DE 

nado o novo monarca contrariou a política de 
D. João II de abatimento da nobresa. Bartolo- 
meu Dias, que tão difícil empresa chefiou, era 
um modesto escudeiro. O Príncipe Perfeito te- 
mia enaltecer os orgulhosos fidalgos portugue- 
ses. Ao contrário D. Manuel, não só volta à 
política de protecção à nobresa, sem as prodi- 
galidades de D. Afonso V, como distingue nos 
favores os peores inimigos do seu antecessor, o 
que nesta própria expedição veremos. Auxilia- 
-nos aqui a carta de Albuquerque a explicar, se- 
gundo cremos, dentro destas razões, o segredo 
da escolha. Já vimos que Cabral, pelo seu casa- 
mento, se ligara a Noronhas e Albuquerques. 
Escusa o nome do grande Afonso referências 
a encarecer-lhe os méritos. Dum dos irmãos 
da esposa, D. Garcia de Noronoa, lembraremos 
que findou sua carreira gloriosa como viso-rei 
da índia. Por seu lado, o irmão primogénito, 
João Fernandes Cabral, ligára-se do consórcio 
à casa dos condes de Monsanto e do marechal 
D. Fernando Coutinho, e D. Brites, sua irmã, 
desposava-se com D. Pedro de Noronha, filho 
do marquês de Vila Real, magnate de suprema 
influência nesta época. Mostram estas relações, 
dum lado, a alta gerarquia dos Cabrais, e dei- 
xam entender, por outro, que Pedro Alvares, 
pela razão de ser um dos segundo génitos, mau 
grado os seus primores de cavaleirosa fidalguia, 
não emparelhava inteiramente, em prosápia e ri- 




o Infante D. Henrique 



{i-)o manuscrito da «Crónica do descobri- 
mento e conquista da Guiné» da Bibl. 
Nac. de Paris). 



PEDRO ALVARES CABRAL 8l 

queza, com aquela nata de famílias nobres e opu- 
lentas. Essa desigualdade concorreu em muito 
para a sua nomeação. Os próceres mais altos 
da nação, um senhor Dom Álvaro, o Marquês, 
os condes de Portalegre, de Monsanto, Ta- 
rouca, Vimioso, ou os que, na casa dei Rey 
serviam. Silvas, Menezes, Castelbrancos não 
comandavam até à data empresas tão mal se- 
guras e longínquas. E assim temos por certo 
que os próprios membros da família da esposa 
ou quiçá dos cunhados, Vila Real e Monsantos, 
induziram o rei àquela escolha já para satisfa- 
ção das nobres ambições, já para acrescenta- 
mento na honra e na fazenda do parente menos 
valido e alevantado. 

Sabe-se que, regressado da expedição à ín- 
dia, foi nomeado capitão-mór da nova armada, 
que veio a partir em i5o2, cargo que todavia 
recusou, e vimos quais os motivos que o de- 
terminaram, segundo Barros e Gois, a tal re- 
solução. É tempo de dizermos que, contra a 
lenda de Gaspar Correia, a qual atribui a no- 
meação do Gama a imposições suas ao monar- 
ca, vexatórias por insistentes, ante as primei- 
ras recusas de D. Manuel, conspira a carta de 
IO de Janeiro de i5o2, escrita um mês antes 
da partida da armada. Por esse documento o 
rei concede ao descobridor da índia uma renda 
anual de 3oo:oog reais, de juro e herdade, para 
ê\e e todos os descendentes ; o cargo de almi- 

6 



82 EXPEDIÇÃO DE 

rante da índia «com todalas honrras, primi- 
nências, liberdades, poder, juridiçam, rendas 
foros e direytos, que com o dicto almyrantado 
por direyto deve aver e as tem o nosso almi- 
rante destes reynos» ; a faculdade de êle e seus 
descendentes enviarem uma vez cada ano du- 
zentos cruzados nas naus da índia para se em- 
pregarem em mercadorias ; o título de Dom^ 
que estende a seus irmãos e descendentes; e 
mais ordena que os herdeiros de tamanhas 
mercês «se chamem da Gama por lembrança e 
memória do dito Vaasquo da Gama» (i). 
Acrescente-se que, segundo Barros, os duzen- 
tos cruzados de mercadorias lhe vinham a dar 
regularmente, no reino, um conto e oitocentos 
mil reais (2). Se o Gama houvesse desobrigado 
o Rei, com instâncias insolentes, não o pre- 
miava êle na mesma ocasião com tamanhas 
mercês e em carta, de que transluz a maior 
satisfação dos seus serviços. 

Por outro lado, tendo o rei prometido, se- 
gundo Correia, desagravar Pedro Alvares dessa 
mudança de comando, com mercês generosas, 
deparamos ao contrário, com remuneração 
assas escassa dos seus serviços. Os documentos 
mais antigos que ate' nós chegaram referentes 



(i) Alguns documentos da Torre do Tombo. pag. 127 
a r3i. 

'(2) Década I. livro V, cap. XI. 



PEDRO ALVARES CABRAL 83 

às mercês reais concedidas a Cabral constam 
de duas cartas dirigidas ao recebedor da sisa da 
marcaria, ambas datadas em 4 de Abril de 
i5o2, mandando pagar por esse imposto 
i3:ooo reais e outra 3o:ooo, a Pedro Alvares 
«de sua tença» naquele ano. Um outro docu- 
mento igual ao segundo destes dois nos apare- 
ce, datado em 6 de Março de i5o4, referente 
ao ano anterior. Ainda um recibo, assinado 
pelo próprio Cabral, a 10 de Janeiro de i5i5, 
menciona o pagamento de 200:000 reais de 
tença anual correspondentes ao ano de 1Õ14, 
o que lhe foi conferido por uma carta geral (i). 
Infelizmente nem se conhece essa carta nem a 
data em que lhes foi conferida, elementos muito 
provavelmente preciosos para nos esclarece- 
rem sobre as relações entre o rei e o seu ilustre 
servidor. Não se conhecem também outros do- 
cumentos, que se lhe refiram, com a concessão 
de mercês novas. A mesma escassez no que 
respeita a indícios biográficos demonstra o 
esquecimento a que o votou o rei. Por duas 
cartas régias de 1609 (2) averiguamos que 
Pedro Alvares se retirara para Santarém, onde 
procura alargar as propriedades. Depois disto 
o seu nome só nos aparece no «Livro da Ma- 



(i) Podem lêr-se estes documentos em Sanches de 
Baena. obra citada. 

(2) Aires de Sá. obra citada, tomo I, documentos. 



84 EXPEDIÇÃO DE 

tricula dos moradores da Casa dei Rey D. Ma- 
noel no primeiro quartel do ano de iSiS» como 
cavaleiro do conselho e com a pensão mensal 
de 2:437 reais (i). Finalmente, por três cartas 
datadas em Novembro de 1620, concedendo, 
uma 3o:ooo reais de tença por ano a D. Isabel 
de Castro, em atenção aos muitos serviços de 
seu falecido marido Pedro Alvares Cabral, e 
as duas outras concedendo, cada 20:000 reais 
de tença anual, a António Cabral e a Fernão 
Alvares Cabral, seus filhos, pelos mesmos mo- 
tivos, conclue-se que o seu falecimento se deu 
quási com certeza nesse ano (2). 

Comparando com as mercês concedidas ao 
Gama, ao depois alargadas com o titulo de 
Conde, as que o Rei outorgou a Pedro Álva- 
res, entrando ainda mesmo em desconto com o 
ingrato esquecimento do monarca, demonstrado 
pela carta de Afonso de Albuquerque, vê-se 
claramente que D. Manuel não teve em grande 
conta os seus serviços. 

Pedro Alvares' foi sepultado em Santarém 
na igreja da Graça, que então pertencia ao 
convento dos gracianos, com quem a viuva em 
1629 contratou o jazigo perpétuo. 

Levava êle, consigo a bordo, na viagem, uma 



(i) Sousa. Hist. Geneal.j Provas, tomo II. 
(2) Aires de Sá, obra citada, documentos. 



PEDRO ALVARES CABRAL 83 

imagem de Nossa Senhora da Esperança, que 
ainda hoje existe, como símbolo de fé humana 
e religiosa no êxito da sua singularíssima mis- 
são (i). 

«Pouco fez ou baixamente avalia suas acções 
quem cuida que lhas podiam pagar os ho- 
mens» — dizia o P.® António Vieira. Se a sua 



(i) Transcrevemos duma carta do Conde de Belmonte,. 
D. José Maria de Figueiredo Cabral da Câmara: 

«Na descrição dos encargos e despesa destes Morga- 
dos «Belmonte» ha «uma pensáo» pela qual claramente 
se deduz que a casa e varonia de Pedro Alvares Cabral 
continuou, por morte de seus fllhos, no ramo directo- 
de seu sobrinho Fernão Cabral, donde procedem os 
actuais Cabrais, representados hoje pelo sr. D. José Ma- 
ria de Figueiredo Cabral da Câmara, 4.0 conde de Bel- 
monte: «Francisco Cabral, 5.** sobrmho de Pedro Alva- 
res Cabral, o Descobridor do Brazil, e herdeiro da Casa 
de Belmonte, por morte de seus irmãos Fernão, Luís e 
outros, instituiu uma capela com a pensão de um cirio 
para alumiar quotidianamente a Imagem de Nossa Se- 
nhora da Esperança que há no Convento dos Padres- 
Terceiros, junto de Belmonte.» 

Esta imagem de Nossa Senhora da Esperança (que 
ainda hoje existe) acompanhou Pedro Alvares Cabral 
na sua viagem à índia (e Descoberta do Brazil), o qual,, 
na volta a Belmonte, lhe erigiu ali, em uma Quinta, 
uma ermida, a cuidado dos Franciscanos, ermida que 
ficou na posse de seu sobrinho, Fernão Cabral, Senhor 
de Belmonte e de seus descendentes que a aumentaram 
e lhe cunsignaram rendimentos.» Aires de Sá, Frei 
Gonçalo Velho, vol. II, documento DCCIII. 



86 EXPEDIÇÃO DE PEDRO ALVARES CABRAL 

esperança visava a estreita remuneração dos 
seus trabalhos, o que não cremos, cruelmente 
se iludiu; se, ao invez, punha em longínqua 
mira a dilatação do nome português, bem ex- 
cedidos foram os seus votos, por mais arroja- 
dos que os tivesse concebido, ao levantar do 
seu padrão nos areais de Vera Cruz. 



DADOS GENEALÓGICOS E BIOGRÁFICOS. 

SOBRE OS CAPITÃES E FIGURAS 

PRINCIPAIS DA ARMADA 



Quais, agora, as razoes que indicaram para 
os respectivos postos os outros capitães da 
armada ? A alguns^ inculcavam, é patente, a sa- 
bedoria náutica e qualidades de comando, dou- 
tras vezes provadas. Estão nesse caso Barto- 
lomeu Dias, seu irmão Diogo e Nicolau Coelho. 
Mas, acima dessas claras razoes, a nobreza 
do sangue motivava a escolha dos comandos. 
Coníirmam-no, nesta mesma expedição, Pedro 
Alvares Cabral e Sancho de Tovar, respecti- 
vamente capitão-mór e sota-capitão da armada, 
cujos nomes bem por certo àquela data apenas 
excediam alguns dos outros em primasias de 
nobreza, que não em altos feitos praticados. 
Essa mesma preocupação das precedências fi- 
dalgas na escolha dos comandos se infere a cada 
passo dos relatos das crónicas. Referem elas^. 
por mais clara certeza, que D. Manuel consen- 



■88 EXPEDIÇÃO DE 

tiu aos comerciantes que armassem seus navios 
com que fossem ao tracto das especiarias, com 
a condição de apresentar os capitães das res- 
pectivas naus, para receberem a confirmação 
indispensável. Essa preocupação transparece 
igualmente de todos os documentos que até nós 
chegaram, quási sempre que neles se enumera 
uma lista de capitães. João de Barros, cronista 
palaciano, vai mais longe e declara: «Quando 
nomeamos algum capitão se he homem fidalgo 
e tão conhecido por sua nobreza e criação na 
^asa d'el Rey, logo em falando nelle a primeira 
vez diremos cujo filho he, sem mais tornar a 
repetir a seu pae : e se he homem fidalgo de 
muitos que ha no Reyno, destes taes não po- 
demos dar tanta noticia porque não vierão ao 
lugar onde se os homens habilitão em honra e 
nome, que he na casa d'el Rey, por isso po- 
dem nos perdoar. . .» (i). Com efeito, ao enu- 



(i) Transcrevemos aqui todo o passo do cronista, 
por extremamente elucidativo : «Ca ordenou el Rey pêra 
que os homens deste Reyno cujo negocio era commer- 
-cio tivessem em que poder tractar, dar-lhe licença que 
armassem nãos pêra estas partes, delias a certos parti- 
dos e outras a frete; o qual modo de especiaria a frete 
ainda hoje se usa. E porque as pessoas a quem el Rey 
concedia esta mercê tinháo per condição de seus con- 
tractos que elles avião de appresentar os capitães das 
nãos ou navios que armassem^ os quaes el Rey confir- 
juava : muitas vezes appresentavão pessoas mais suffi- 



PEDRO ALVARES CABRAL 89. 

merar os capitães da armada de Cabral, cuja 
filiação já anteriormente declarara, resa assim ; 
«Pedralvares Cabral, capitão mór, Sancho de 



cientes pêra o negocio da viagem e carga que avião de 
fazer do que erão nobres per sangue. Fizemos aqui de- 
claração porque se saiba quando se acharem capitães 
em todo o discurso desta nossa historia que não sejam 
homens fidalgos, serão daqueles que os armadores das 
nãos appresentavão, ou homens que per sua própria pes- 
soa ainda que não tinhão muita nobreza de sangue avia 
nelles qualidades pêra isso e também por darmos noti- 
cia do modo que levamos em nomear os homens que 
he este. Quando nomeamos algum capitão se he homem 
fidalgo e tão conhecido per sua nobreza e criação na 
casa d'el Rey, logo em falando nelle a primeira vez di- 
zemos cujo filho he, sem mais tornar a repetir seu pae, 
e se he homem fidalgo de muitos que ha no ReynOj 
destes taes não podemos dar tanta noticia porque não 
vieram ao lugar onde se os homens habilitão em honra 
e nome que he na casa d'el Rey; por isso podem-nos 
perdoar: e também a dizer verdade os escriptores, dos 
individos não podem dar conta, e quem muito procura 
por elles quebra o nervo da historia, parte onde está 
toda a força delia. Tk)davia nesta digressão duas cousas 
pretendemos, notificar a todos que nossa tenção he dar 
a quada hum não somente o nome de suas obras: mas 
ainda o de seu avoengo, se ambas estas duas vierem á 
nossa noticia. E a segunda que quando fizermos algum 
grande cathalogo de capitães (porque estes sempre hão 
de ser nomeados) ora sejão de nãos ou navios : sempre 
devem entender que as pessoas mães principaes per san- 
gue e feitos, andavão nas melhores peças d'armada.» 
João de Barros, Década primeira da Ásia, Livro V^ 
cap. X. 



^O EXPEDIÇÃO DE 

Toar, filho de Martim Fernádez de Toar, Si- 
mão de Miranda íilho de Diogo de Azevedo, 
Aires Gomez da Silva filho de Pêro da Sil- 
va-..» (i), e de nenhum dos outros falada 
•ascendência paterna. Daqui podemos inferir 
que dentre todos os capitães estes excediam os 
outros nos títulos heráldicos. Os demais cro- 
nistas, como Castanheda e Góes, se não citam 
a filiação de nenhum deles, contudo enumeram 
também a estes três em primeiro lugar. As in- 
vestigações que fizemos nos nobiliários manus- 
critos confirmam inteiramente o que os cronis- 
tas deixam antever. 

Sancho de Tovar, o substituto de Cabral, 
era fidalgo castelhano, i." filho de Martim 
Fernandez de Tovar, o qual por ter seguido o 
partido de Afonso V, contra Fernando e Isa- 
bel, depois da vitória destes perdeu todos os 
bens e foi mandado degolar. Sancho assassi- 
nou o juiz que sentenciou o pai e fugiu para 
Portugal. O solar dos Tovares era na vila de 
Tovar, a 6 léguas de Burgo^s. Para provar as 
excelências da linhagem, de origem remotís- 
sima, bastará dizer-se que entre os avoengos 
<ie Sancho se conta Fernão Sanchez de Tovar, 
adeantado-mór de Castela e almirante da es- 
quadra que venceu os portugueses em Saltes, 



(i) Década primeira da Ásia, Livro V, cap. I. 



PEDRO ALVARES CABRAL Ql 

nos tempos do nosso D. Fernando e que, às 
primeiras arremetidas, em Aljubarrota foi fe- 
rido gravemente. Os Tovares eram das mais 
nobres famílias de Castela (i). 

D. Manuel, que nesse tempo podia ainda ali- 
mentar a esperança duma Espanha unida sob 
o sceptro dum filho seu, dando a Sancho de 
Tovar a honra daquele posto, se lhe levava em 
conta a provada nobreza e até a tradição ma- 
rinheira da família, obedecia, porventura, aos 
motivos pohticos que naquele tempo aconse- 
lhavam tanto os monarcas portugueses como 
os castelhanos a ostentar a gratidão pelos fidal- 
gos, que, esquecendo as razões de Pátria, legi- 
timavam apenas a sucessão do sangue. De 
facto, o príncipe D. Miguel, filho de D. Manuel 
e neto herdeiro de Fernando e Isabel, só aos 
19 de Julho desse ano, isto é, depois da par- 
tida de Cabral, falecia em Granada (2). 

Morto o príncipe, desapareciam os motivos 
políticos que levavam o rei a distinguir o cas- 
telhano fugitivo. Com efeito, os capitães da 
armada que regressam da índia são quási to- 
dos galardoados com novos comandos ou hon- 
rosas mercês e cargos ; mas de Sancho de 



(i) Nobiliário manuscrito de Rangel de Macedo, exis- 
tente na Biblioteca Nacional de Lisboa. 

(2) Damião de Góes. Crónica de D. Manuel, I parte, 
cap. XIV. 



92 EXPEDIÇÃO DE 

Tovar, que ainda no regresso realizava com 
êxito o descobrimento de Sofala, nunca mais 
falam os documentos e os cronistas. O nome 
de Sancho de Tovar, a revelar-lhe a vida pala- 
ciana, surge uma vez trovando no Caiicioneiro 
Geral de Rezende (i). 

Simão de Miranda ou Simão de Miranda de 
Azevedo, filho de Diogo de Azevedo, pertencia 
a família portuguesa muito nobre, cujas origens, 
ainda que mais longe possam rebuscar-se, de- 
vem, como as de Pedro Alvares Cabral, pro- 
curar-se na crise nacional do século xiv. O 
mais notável entre os seus primeiros ascenden- 
tes é Afonso Pires da Charneca, irmão de ar- 
mas do Condestável Nuno Alvares, seu vedor, 
companheiro dos lances mais difíceis e um da- 
queles por quem ele distribue as suas terras. 
Afonso Pires esteve na Batalha Real e assina 
com os demais fidalgos fieis ao Mestre o auto 
do seu levantamento, nas cortes de Coimbra. 
Seu filho, Martim Afonso da Charneca, arce- 
bispo de Braga, esteve em França, como em- 
baixador de D. João I. Simão de Miranda, seu 
neto, era casado com D. Joana Correia, filha 
de Aires Correia, o qual,, com.o dissemos, ia 
também na armada por seu feitor geral e para 



(i) Ediçáo citada, vol. IV, p. 78. 



PEDRO ALVARES CABRAL qS 

feitor de Calecut (i). Tendo regressado da ín- 
dia, parte na armada de Jorge de Melo, em 
i5i2, comandando uma nau e despachado para 
capitão de Sofala, onde vem a morrer, ao que 
parece em i5i5 (2). O nome de Simão de Mi- 
randa aparece bastas vezes no Cancioneiro de 
Rezende, trovando, a par dos melhores fidalgos, 
sobre as futilidades irrisórias da corte, como 
era uso do seu tempo (3), 



(i) Estes apontamentos genealógicos sáo transcritos 
do Nobiliário manuscrito de Rangel de Macedo, um dos 
melhores que se conhecem sobre famílias portuguesas e 
existente na Biblioteca Nacional, Colecção Pombalina. 

(2) Barros, Década II, livro Vil, cap. II. 

(3) Para se averiguar do seu estro damos aqui uma 
dentre as melhores das suas trovas : 

«De Simão de myranda a senhora dona Briatys de 
Vilhana. aconselhàndo-lhe que se goarde de soberba e 
despregar ninguém 

Fortuna, sortes, mau fado 
sempre vem pela soberba, 
ou por quem muito despreza 
qualquer malaventurado. 

Da soberba vem cayr 
do mays alto no mays fundo, 
goardesse quem neste mundo 
folga mal de bem ouvir. 
Quem cayr neste pecado, 
non se fye em gentileza, 
porque quem muytos despreza, 
seu valer é desprezado» 



94 EXPEDIÇÃO DE 

A família, porventura, mais nobre pertencia 
Aires Gomes da Silva, filho de Pêro da Sil- 
va. Os Silvas descendem de el-Rei D. Fruela II, 
de Leão, tronco, que durante séculos, frondeja 
nalgumas das mais nobres casas de Portugal e 
de Castela. Desde os primeiros tempos da mo- 
narquia aparecem seus nomes cumulando altos 
cargos e assinalados feitos. Dom Gomes Pais 
da Silva foi companheiro de Gonçalo Mendes 
da Maia, o Lidador^ e alcaide-mór do castelo 
de Santa Olaia, um dos postos mais arriscados 
no reinado de D. Afonso Henriques. 

Mais tarde, em tempos de D. Fernando e 
D. João I, os nomes de seu bisavô e avô, res- 
pectivamente Gonçalo Gomes da Silva e João 
Gomes da Silva, surgem bastas vezes nas cró- 
nicas de Fernão Lopes e sempre em termos 
e situações honrosas. Ambos assinam o auto 
de levantamento do Mestre nas cortes de Coim- 
bra. O último foi alcaide de Montemór-o- 
-Velho, senhor de Tentúgal, Vagos, Unhão, 
Buarcos, Jestoço e Sinde, capitão-mór e alfe- 
res-mór de D. João I. Entra na batalha de Al- 
jubarrota e na tornada de Ceuta, e vai como 
embaixador a Castela negociar as pazes. Daí 
por diante, até aos tempos de D. Sebastião, os 
Silvas continuam a privar no paço, a ocupar 
cargos altíssimos e a ilustrar-se em rasgos de 
lealdade e valentia. A um primo e homónimo 
de Aires Gomes da Silva, seu contemporâneo^ 



PEDRO ALVARES CABRAL qS 

vemo-lo íntimo de D. João II, seu camareiro- 
-mór, embaixador a Inglaterra e mais tarde e 
durante o tempo de D. Manuel ocupando o 
mais alto cargo na administração da Justiça, o 
de Regedor da Casa da Suplicação. Os Silvas 
teem pantheon no formoso convento de S. Mar- 
cos, entre Coimbra e Tentúgal. Ainda hoje os 
seus túmulos constituem a mais bela e variada 
colecção de monumentos de arte nesse género 
existente em Portugal. O mosteiro de S. Mar- 
cos é um dos monumentos portugueses que 
mais memórias épicas exala. 

Outro seu primo, e em grau egual ao Rege- 
dor da Casa da Suplicação, era D. Diogo da 
Silva e Menezes, i.^ conde de Portalegre, aio 
de D. Manuel e mais tarde seu escrivão da 
puridade. Sabe-se pela carta de la Faitada que 
um dos navios da armada pertencia ao conde 
de Portalegre e a alguns mercadores, e que 
esse foi um dos quatro sossobrados pela grande 
tormenta entre o Brasil e o Cabo Tormentoso. 
Mais se conhece pela narrativa dos cronistas 
que Aires Gomes da Silva comandava um^ dos 
navios naufragados. Julgamos assim provável 
que uma e outra fossem a mesma nau e que 
Aires desempenhasse na expedição aquele hon- 
roso cargo, ao serviço e por influência do seu 
ilustre primo, o valido do monarca. 

De Aires Gomes sabe-se apenas desde que 
embarcou que durante a sua curta estada no 



96 EXPEDIÇÃO DE 

Brasil trouxe, como Cabral e Simão de Mi- 
randa, um dos naturais da terra por pagem 
algum tempo, sinal de que blazonava altas fi- 
dalguias (i). Pouco depois morria, como disse- 
mos, durante a tormenta que assaltou a arma- 
da, a caminho do Cabo da Boa Esperança. 

Mas, sendo de família tão ilustre, que pode 
bem hombrear com a de Pedro Alvares Cabral, 
senão de mais alta gerarquia, porque motivo 
referirá o palaciano João de Barros o seu, após 
o nome de Simão de Miranda? Porque este 
Aires Gomes da Silva tinha quebra de bastar- 
dia na sua nobilíssima prosápia. Seu pai Pêro 
da Silva era filho bastardo do grande João da 
Silva, o alferes-mór de D. João I (2). 

Nicolau Coelho era, na bravura e esforço 
inquebrantáveis, digno da geração ilustre, de 
quem o poeta João Roiz de Sá, seu contempo- 
râneo, em sua gesta heráldica, trovava: 



(i) «porem não trouvemos esta noute aas naaos se- 
nom iiij (4) ou b (5), saber: o capitam moor dous e 
Simáo de Miranda hum que trazia ja por pajé e Ayres 
Gomes^ outro, asy pajé» Carta de Caminha, Alguns do- 
cumentos, pag. 109. 

(2) Colhemos os informes genealógicos do nobiliário- 
manuscrito de Rangel de Macedo e do nobiliário igual- 
mente manuscrito do abade de Purozelo, Biblioteca Mu- 
nicipal do Porto. Sobre os Silvas veja-se também O 
primeiro livro dos Brasõis. . . de Brancamp Freire. 




Casco de um navio de i5oo 



(Gravura de Dúrer) 



PEDRO ALVARES CABRAL 97 

«Coelhos, tal perfeição 
d'esforço e de opinião 
sostem no que começarem, 
que o coração lhes tirarem 
não lhes tira o coração.» (i) 

referindo-se, é bem de ver, àquele Pêro Coe- 
lho, a quem D. Pedro, o Cru, mandou arran- 
car o coração. Em 1497, acompanha Vasco da 
Gama, comandando o Béí^rio e sendo assim um 
dos descobridores da índia. E ele que no re- 
gresso vem adiante anunciar a nova do desco- 
brimento. Mal refeito dos perigos, fadigas e 
inclemências inúmeras da épica jornada, parte 
de novo, passado um escasso meio ano, na ar- 
mada de Cabral. E em i5o3, pouco mais dum 
ano volvido após o seu regresso a Portugal, 
ei-lo de novo a caminho da índia, comandando 
a nau Faial, na armada de Afonso e Francisco 
de Albuquerque, enchendo as páginas das cróni- 
cas com as façanhas praticadas. De regresso 
da sua primeira viagem à índia, D. Manuel, 
por carta de 24 de Fevereiro de i5oo, isto é, 
duas semanas antes de embarcar de novo, con- 
cede-lhe 5o:ooo reais de tença, sendo 3o:ooo de 
juro e herdado para êle e seus sucessores e 
20:000 «para enquanto for mercê de Sua Alte- 



(i) Cancioneiro Geral de Resende, tomo IIÍ, pag. 211. 

7 



98 EXPEDIÇx\0 DE 

za» (i). Além disso concedeu-lhe que usasse por 
armas, em campo vermelho, um leão rompente 
de ouro (o leão dos Coelhos), entre duas co- 
lunas de prata, que assentam sobre dois mon- 
tes verdes e em cada uma um escudinho azul 
com as quinas de Portugal, e ao pé do escudo 
uma nau no mar: timbre meio leão de ouro, com 
uma das colunas na mão (2). De Nicolau Coe- 
lho conseguimos averiguar que era filho de Pe- 
dro Coelho, do qual Rui de Pina fala como 
tendo sido uma das pessoas principais que 
morreram no escalamento de Tanger. Além de 
Nicolau, teve um outro filho, — Gonçalo Coelho, 
do qual refere o Nobiliário «que dizem foy 
contador mor do Reyno, e delle não temos ou- 
tra noticia» (3). Possível é que seja este o 
Gonçalo Coelho que comandou a expedição ao 
Brasil em i5o3. Da carta de Pêro Vaz de Ca- 
minha vê-se que Pedro Alvares tinha Nicolau 
Coelho na conta dum dos mais desembaraça- 
dos dentre os seus capitães. O mesmo Caminha, 
citando os nomes de capitães que rodeavam 
Cabral na scena da recepção dos primeiros 
indígenas, coloca Nicolau Coelho a seguir a 
Sancho de Tovar e Simão de Miranda, não se 



(i) Alguns documentos da T. do Tombo, pag, 97. 

(2) Vilas Boasj Nobiliarquia Portuguesa, título dos 
Coelhos. 

(3) Nobiliário de Rangel de Macedo. 



PEDRO ALVARES CABRAL 99 

referindo então a Aires da Silva, o que prova a 
sua alta preeminência entre os capitães da arma- 
da. Em todas as viagens êle desempenha sempre 
algumas das missões mais arriscadas. Se, como 
alguns querem, o medalhão dos Jerónimos re- 
presenta a sua imagem, Nicolau Coelho pos- 
suía uma rude face de fauno ou de tritão, res- 
pirando audácia e alegria bárbara. Devia ser 
de rijíssima têmpera o capitão navegador. Dir- 
-se-ia possuído pelo encanto do Mar. Embarca 
infantigàvelmente a cada armada. Quando re- 
gressa da índia com Francisco de Albuquerque, 
a sua nau Faial sossobra e afunda-se com ela. 
A terra não era digna de comer o corpo daquele 
Homem. 

O nome de Bartolomeu Dias ligou-se para 
sempre a uma das maiores datas na história do 
descobrimento do planeta. Dobrou o Cabo Tor- 
mentoso. Caníou-o um dos maiores génios da 
poesia universal. Precursor do Gama, Moisés 
daquela Terra de Promissão, fica na história 
com a figura dolorosa dos profetas que anun- 
ciam mas não chegam a ver o maravilhoso 
mundo das suas profecias. João de Barros, 
numa das suas belas páginas, fixou-o nessa ati- 
tude sofredora do herói, que não consegue rea- 
lizar o seu destino, forçado pela inércia e in- 
compreensão dos homens. «Chegados ao ilheo 
da Cruz, quando Bartholomeu Diaz se apartou 
do padrão, que ali assentou, foi com tanta dor 



100 EXPEDIÇÃO DE 

e sentimento, como se deixara um filho dester- 
rado pêra sempre, lembrando-lhe com quãto 
perigo de sua pessoa e de toda aquella gente, 
de tão longe vierão somete àquelle efecto pois 
lhe Deos não concedera o principal» (i). A ma- 
rinhagem recusa-se a continuar; e como o seu 
regimento manda que nos casos graves consulte 
as principais pessoas que levava, e todos assen- 
taram que se retroceda, Bartolomeu Dias mais 
remédio não tem que regressar (2). As lágri- 
mas, que lhe custou então o apartar-se do pa- 
drão derradeiro, havia de chorá-las toda a vida, 
muito mais vendo com amargura em mãos 
alheias a palma, que êle se conhecera capaz de 
conquistar. 

É êle que dirige 0. construção dos navios que 
pela vez primeira vão chegar à índia. E quando 
o Gama parte, acom.panha-o até à Mina, co- 
mandando um navio que ali vai fazer merca- 
doria. Depois segue com Cabral, e percebe-se 
pela carta de Caminha a confiança que ao ca- 
pitão-mór merece a prática do velho navegante. 

O senhor Henrique Lopes de Mendonça, a 
quem a vida e personalidade de Bartolomeu 
Dias mereceram estudo e investigações muito 
aturadas, não conseguiu ainda assim descobrir- 



(i) Barros, Década L livro III, cap. IV. 
(2) Idem, ibidem. 



PEDRO ALVARES CABRAL lOI 



-lhe antecedentes genealógicos. Infundadas, pois, 
nos parecem as ascendências que lhe atribueni 
dalgum dos vários navegantes -aíi^cTOr^s-^ que 
usavam do meámo patronímico (i}..NãO'Grapop. 



(i) «As genealogias, que consultei em grande numerOj 
são mudas com respeito á família do illustre navegador, 
■cuja linhagem não se me afigura por extremo luzida. 
EíFec ti vãmente, o patronymico Dias, filho de Diogo, era 
por aquelies tempos communissimo em Portugal. É pro- 
vável que a ignorância d'este facto induzisse Major e 
outros autores, sobretudo extrangeiros, a aparentarem 
o descobridor do Gabo da Boa Esperança com vários 
mareantes notáveis que o precederam nas explorações 
marítimas pela costa occideittal de Africa. 

«Abundam pelas paginas dos chronistas os que usam 
do mesmo patronymico. Occorrem-me os seguintes : 
João Dias, capitão de uma caravela na pequena frota de 
Lançarote que em 1444 fez presas na Bahia de Arguim; 
Diniz Dias (chamado também Diniz Fernandes por Bar- 
ros), o mais illustre de todos, que em 1445 passou o 
Senegal e chegou ao Gabo Verde ; Lourenço Dias, mo- 
rador em Setúbal, que fez parte de duas expedições 
subsequentes, a de Antão Gonçalves e a segunda de 
Lançarote, na qual apparece também um Vicente Dias 
como capitão de uma das caravelas pequenas. Não exis- 
tem comtudo dados positivos que liguem genealogica- 
mente qualquer d'elles a Bartholomeu Dias. Nem me 
parece muito provável que se operasse no século xv a 
transformação do patronymico em appellido de familia.» 
Henrique Lopes de Mendonça, Bartolomeu Dias e a rota 
da índia. Sobre B. Dias veja-se ainda do mesmo autor: 
Apontamentos sobre o piloto Pêro de Alemquer e A uni- 
dade de pensamento no ciclo das Descobertas. 



102 EXPEDIÇÃO DE 

certo de fidalguia excelsa a origem do grande 
marinheiro. E* ^té mesmo Barros, quando, refe- 
rindo-se-lhè,-o apelida «cavaleiro da casa de EI- 
R^éi D. João .H», se excedeu. Um documento, 
pouco depois da sua morte escrito, chama-lhe 
escudeiro mais simplesmente. Esse mesmo do- 
cumento vem confirmar a asserção de Casta- 
nheda de que ele fora nomeado recebedor da. 
Casa da Mina (i). Com efeito exerce esse cargo 
durante os anos de 1494 a 1497. 

Presago, o Adamastor bradava ao Gama: 

«E da primeira armada que passagem 
Fizer por estas ondas insuffridas. 
Eu farey dímproviso tal castigo 
Que seja mor o dano que o perigo. 
Aqui espero tirar, se não me engano 
De quem me descobrio suma vingança, 



(2) 



«Quando a armada navegava entre o Brasil e 
o Cabo, veio um tufão tam forte e tam de sú- 
bito, conta o piloto da Relação anónima, que 
nesse mesmo instante se perderão quatro naus, 
com toda a sua marinhagem, sem se lhe poder 



(1) H. L. de Mendonça, idem. * 

(2) ^Q^roáxiçdiO fac-similada da verdadeira 1/ edição 
dos Lusíadas, de 1572, edição da Biblioteca Nacional^ 



canto V, fólio 86, verso. 



PEDRO ALVARES CABRAL 



io3 



dar socorro algum». Numa delas seguia Bar- 
tolomeu Dias como capitão. Tanto ou mais que 
Nicolau Coelho, o descobridor do Gabo Tor- 
mentoso merecia, na morte, o túmulo do Mar. 

DíOGo Dias, irmão de Bartolomeu Dias, en- 
tra igualmente na plêiade dos velhos navegan- 
tes. Acompanha o irmão no descobrimento do 
Cabo; segue com Vasco da Gama à índia, como 
seu escrivão, na nau S. Gabriel; pertence ao 
número reduzido dos que vão com o Gama 
à terra; desembarca de novo como feitor, em 
Calecut; é preso, ameaçado de morte, e só a 
muito custo consegue reembarcar e regressar a 
Portugal. Pelo conhecimento da terra e manhas 
dos naturais estava naturalmente indicado para 
seguir de novo nesta armada. Mas, desgarrada 
a sua nau, após a tempestade que os assalta no 
caminho do Cabo da Boa Esperança, vai dar 
a Magadoxo, sendo o primeiro capitão por- 
tuguês que viaja o Mar Vermelho. Depois de 
uma série de incidentes trágicos, que lhe redu- 
ziram a tripulação a sete pessoas, consegue che- 
gar a Lisboa com as primeiras novas dos nomes 
e regiões que visitara. 

Pertencia SlmÁo de Pina igualmente a uma 
nobre família. Filho de Diogo de Pina, teve por 
avò Vasco Anes de Pina, a quem D. João I, 
em reconhecimento dos serviços prestados, deu 
a alcaidaria de Castelo de Vide. Deste mesmo 
era igualmente neto Rui de Pina, o cronista e 



104 EXPEDIÇÃO DE 

negociador de Tordesilhas, por consequência 
muito próximo parente do capitão de uma das 
naus de Pedro Alvares Cabral (i). 

Essa mesma nau pertence ao número das 
quatro que se afundam na tempestade ocorrida 
entre o Brasil e o Cabo da Boa Esperança. 
Pelo que diz respeito a Pêro de Ataíde, se to- 
dos os informes que as crónicas nos dão sobre 
êle concorrem para crermos que era pessoa 
nobre, todavia os nobiliários, que consultám.os, 
não identificam nenhum dos individuos desse 
nome, naquela época vulgar, com esta de que 
nos ocupamos ao presente. Sabemos que Pero 
de Ataide comandava um navio, que, segundo 
Barros, se chamava S. Pedro, Quási todas as 
fontes e cronistas referem que era um navio pe- 
queno, podendo depreender-se de Vespúcio que 
tinha 70 toneladas. Com esse navio e setenta 
homens de combate, entre os quais alguns no- 
bres, como Duarte Pacheco, Vasco da Silveira 
e João de Sá, foi Pero de Ataide incumbido 
por Cabral da celebre acção da nau dos elefan- 
tes, que era tripulada por trezentos ou mais 
homens e que êle, não obstante, facilmente to- 
mou, com grande pasmo do Samorim de Cale- 



(i) Colhemos estes informes genealógicos no nobiliá- 
rio manuscrito de Manso de Lima, um dos mais auto- 
rizados e completos da Biblioteca Nacional. 



PEDRO ALVARES CABRAL I05 

cut e de quantos malabares presencearam a fa- 
çanha. Regressado a Portugal, Pêro de Ataíde 
torna a embarcar, comandando a nau S. Paulo 
na armada do almirante D. Vasco da Gama, 
que em i5o2 parte para a índia. Ali chegado e 
já depois do Gama ter partido, acompanha a 
armada dos Sodre's a caminho do Estreito. De- 
pois da morte deste, fica comandando uma pe- 
quena armada ate' se juntar aos Albuquerques, 
continuando com igual denodo as proezas da 
primeira viagem. 

Quando voltava com Francisco de Albuquer- 
que para Portugal, perde-se-lhe a nau nos bai- 
xos de S. Lázaro, dos quais, a custo salvo, foi 
ter com alguns dos tripulantes a Moçambique, 
onde morreu neste ano de i5o3. O Livro das 
Armadas^ guiado apenas pela identidade do 
nome, refere-lhe este desastre, como tendo acon- 
tecido na primeira viagem, o que vai contra o 
silêncio das fontes e a diversa referência dos 
cronistas. Isto mesmo basta para aferir do seu 
escasso valor documental. 

De Vasco de Ataíde muito pouco sabemos. 
Barros, sempre o mais completo nas referên- 
cias individuais, junta, ao enumerar os capi- 
tães, o seu nome ao de Pêro de Ataíde, o que 
parece indicar próximo parentesco. Quanto ao 
seu destino durante a viagem, as fontes diver- 
gem dos cronistas. 

Estes incluem o nome de Vasco de Ataide no 



lOb , EXPEDIÇÃO DE 

número dos capitães que morreram durante a 
grande tempestade, entre o Brasil e o Cabo da 
Boa Esperança. Caminha, que viajava na capi- 
taina e escrevia na ocasião em que estava em 
contacto diário com todos os comandantes, 
aíirma que a nau de Vasco de Ataide desgarrou 
da armada por alturas de Cabo Verde. Ainda 
que os cronistas una você atribuam o facto à 
nau de Luís Pires, não podem ainda assim inva- 
lidar o testemunho indesmentivel de Caminha. 
Demais o engano explica-se. A carta de D. Ma- 
nuel, dirigida após o regresso de Pedro Alva- 
res aos reis de Castela, e a Relação do Pilota 
anónimo afirmam categoricamente que a nau 
desgarrada nunca mais apareceu. Logo Vasca 
de Ataide morreu durante a jornada. Sem essa 
mesma circunstância, não poderíamos pôr de 
acordo os factos com a informação, que nos- 
dão as fontes, de serem seis as naus perdidas no 
decorrer da expedição. Por isso mesmo Casta- 
nheda, informando que a nau desgarrada regres- 
sou a Lisboa, se contradiz, ao afirmar de seguida 
igualmente serem seis as naus que se perderam. 
Barros e Gois e com eles os historiógrafos 
modernos continuaram a repetir o erro de Cas- 
tanheda, sem meditar na discordância que assim 
introduziam no relato da viagem. Todavia,, 
não só o testemunho das duas fontes é irrefu- 
tável, como o número das naus perdidas o 
torna necessário. Tendo, pois, Vasco de Ataide 



PEDRO ALVARES CABRAL IO7 

morrido durante a \iagem, compreende-se que 
os cronistas, induzidos naquele erro, justificas- 
sem por maneira diferente a sua morte, 

A Nuno LErrÁo da Cunha chama Barros ca- 
valeiro, mas não lhe conhecemos a origem. Não 
falam dele os vários nobiliários manuscritos 
que consultámos. Sabe-se apenas, pelo relato 
das crónicas, que, no desastre de Calecut con- 
seguiu a custo salvar a vida ao filho de Aires 
Corrêa, — António Corrêa, então de 12 anos 
de idade e que mais tarde assombrou a índia 
com as suas façanhas. 

- Diz Barros que a nau Anunciada era do seu 
comando, e Peragalío que ela pertencia a Bar- 
tolomeu Marchíoni, associado a D. Álvaro (i). 
E' possível, pois, que ele fosse criado da casa 
de Bragança. 

Regressado a Portugal, exerceu, ainda se- 
gundo Barros, o importante cargo de almoxa- 
rife do armazém das armas. 

Da origem ou fidalguia de Gaspar de Lemos 
nada conseguimos igualmente averiguar. Inves- 
tigações especiais feitas na Torre do Tombo no 
sentido de descobrir algum documento que se 
lhe referisse, foram infrutíferas. Pelos cronistas 
sabemos que êle comandava o navio dos manti- 



(i) Ceuni intorno alia colónia italiana in Portogal- 



io, i5* 



108 EXPEDIÇÃO DE 

mentos e que foi encarregado por Pedro Al- 
vares de trazer a Portugal a notícia do desco- 
brimento das terras de Santa Cruz. As fon- 
tes atribuem igualmente essa missão ao navio 
de mantimentos, mas nenhuma individua o co- 
mandante. 

Finalmente de Luís Pires afirmam os cronis- 
tas que, desgarrada a sua nau por alturas de 
Gabo Verde, regressou com ela a Portugal. 
Certificam-nos, ao contrário, as fontes que a 
nau desgarrada era do comando de Vasco de 
Ataíde e se perdeu. Como por outro lado fo- 
ram quatro as naus perdidas durante a grande 
tempestade e dentre os quatro nomes dos res- 
pectivos capitães, mencionados pelas crónicas, 
há que eliminar o nome de Vasco de Ataíde, e, 
além disso, se conhece o destino de todos os 
outros capitães, conclui-se que a nau de Luís 
Pires foi uma das quatro sossobradas. 



Afora os capitães das naus, ainda outra alta 
personagem, — Aires Corrêa, desempenhava na 
armada um elevado cargo, — o de feitor geral. 
Levava também o cargo de montar a feito- 
ria em Calicut. Sabendo-se que a expedição 
visava principalmente fins comerciais, presu- 
me-se que Aires Corrêa era das figuras mais 



PEDRO ALVARES CABRAL lOg 

gradas que seguiam na armada. Do largo 
fragmento de instruções dadas por D. Manuel 
a Pedro Alvares conclui-se a alta preeminência 
do seu cargo e a consideração especial que o 
monarca lhe votava. Não só levava regimentos 
à parte, para o estabelecimento da sua feitoria 
no Oriente, o que lhe concede junto do capi- 
tão-mór foros de independência, como D. Ma- 
nuel expressamente ordena a Pedro Alvares 
que em todas as cousas não apontadas pelo seu 
regimento êle tome «sempre em tudo comsse- 
Iho dos capitães e feytor...» O relato da via- 
gem confirma a atenção especial que o capitão- 
-mór concedia a Aires Corrêa. Tamanha era, 
que o levou a ceder da sua própria opinião em 
acontecimentos tam graves como os que deter- 
minaram a matannça dos portugueses e a morte 
de Aires Corrêa em Calecut. 

As investigações que fizemos nos nobiliários 
mostram-nos que Aires Correia pertencia a fa- 
mílias muito nobres. Era filho de Gonçalo Tei- 
xeira e por sua mãe descendia dos Correias, 
linhagem das mais altas em Portugal. Sabemos 
já que Simão de Miranda, um dos mais nobres 
capitães da armada, era seu genro. Acrescenta- 
remos que seguia também na armada seu filho 
António Correia, que então contava 12 anos de 
idade, mas que ao diante foi um dos mais 
assinalados capitães do Oriente. A António 
Correia deu D. João III o apelido de Babarem, 



no EXPEDIÇÃO DE 

da ilha do mesmo nome por êle conquistada, e 
além disso armas especiais em cujos quartéis 
figuram não só a cruz potenteia dos Teixeiras, 
como a águia negra dos Correias e Aguiares, 
descendentes de Pedro Pais Correia e por êle, 
de D. Payo Correia, o célebre mestre de San- 
tiago (i). 

Aires Correia, feitor da expedição de Pedro 
Alvares, deve ser o mesmo de que fala Casta- 
nheda, quando aíirma que D. Manuel lhe com- 
prou a nau de duzentos toneis, que levou os 
mantimentos na viagem do descobrimento, de 
Vasco da Gama. Esse facto supõe juntamente 
conhecimentos comerciais e náuticos, circuns- 
tância muito de molde a indicar o seu nome 
para o alto cargo que desempenhava. 



Dentre os mais preciosos auxiliares da expe- 
dição de Pedro Alvares avulta ainda o nome 
de Gaspar da índia ou da Gama. Só há alguns 



(i) Veja-se IS obliarquia portuguesa de Vilas Boas e o 
nobiliário manuscrito de Manso de Lima, na Biblioteca 
Nacional, e os dos abades de Purozelo e Esmeriz, na Mu- 
nicipal do Porto. 



PEDRO ALVARES CABRAL I I I 

anos é possível atribuir á sua personalidade a 
importância e relevo devidos. Sumariamente as 
crónicas referem como no regresso do Gama 
da viagem de descobrimento à índia, ao apor- 
tar em Angediva, fora preso um mouro que 
ao serviço do «Çabaio» procurava detê-los. 
Posto a tormento, confessou o homern os ruins 
propósitos com que ali viera; e, chegado ao 
reino e tomado no baptismo, sob o apadrinha- 
mento de Dom Vasco, o nome de Gaspar da 
Gama, ficou ao serviço de D. Manuel. Só Da- 
mião de Gois, ainda que por forma igualmente 
sumária, atribui a Gaspar parte da importân- 
cia, que, em verdade, teve nos primeiros anos 
da conquista da índia. 

Nenhum outro documento português e im- 
presso do século XVI esclarece mais o seu pa- 
pel nessa parte da história nacional. Vejamos 
o que se apura em Gois. Primeiramente diz ele 
que «era judeu natural do Regno de Polónia da 
cidade de Posna». E mais adeante acrescenta 
que Vasco da Gama sempre lhe «fez muita 
honrra e bom gasalhado, pelo achar homem, 
que tinha experiência de muitas cousas da ín- 
dia, e doutras províncias, e o trouxe a Lisboa, 
onde se fez Cristão, e lhe chamarão Gaspar da 
Gama, do qual se El Rei Dom Emanuel depois 
sérvio em muitos negócios na índia, e o fez 
cavalleiro de sua casa, dando-lhe tenças, orde- 
nados, e ofícios de que se manteve toda sua 



I 12 EXPEDIÇÃO DE 

vida abastadamente.» (i) Daqui se depreende 
claramente que haviam de ter sido excepcionais 
os serviços prestados por Gaspar da Índia, 
posto que Damião de Gois os aponte por forma 
muito vaga. Alguns documentos ultimamente 
publicados permitem avaliar melhor esses ser- 
viços. O primeiro deles é a Relação de Leo- 
nardo da Chá Masser, agente veneziano, en- 
viado a Lisboa, no principio do século xvi, para 
se informar secretamente das navegações dos 
portugueses. Nesse longo relatório, cheio de 
informes preciosos sobre as primeiras nove 
expedições à índia e ainda sobre o governo e 
pessoa de D. Manuel, Leonardo Masser, refe- 
ríndo-se a Gaspar da índia, informa que sabia 
faiar diversas línguas e era «pratichissimo di 
quelli paesi (da índia)» e acrescenta «se chia- 
mava in moresco Mamet, e se marido in una 
donna portoghese nativa di questa cittá (Lis- 
boa); e have provision de questo Sereníssmo 
Re de ducati 170 de intrada alPanno per suo vi- 
ver, per aver dato lui talPinformazione delFÍndia, 
essendo stato ditto Gaspar delli anni trenta due 
da poi che parti dei Caiaro per terra alia Mecha, 
e per molti altri lochi in quelle parti d'índia.» (2) 



(i) Crónica dei Rei Dom Emanuel, primeira parte, 
capítulo XLIV. 

(2) Centenário do descobrimento da América, memó- 
rias da comissão portuguesa, Carta de El Rei D. Ma- 
nuel, apêndice, pag. 69. 



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PEDRO ALVARES CABRAL I 1 3 

Ficamos, pois, sabendo que, a par da prá- 
tica de muitas línguas, Gaspar conhecia larga- 
mente o Oriente pelas suas viagens. Estas mes- 
mas informações se confirmam por uma carta 
sua dirigida a D. Manuel e datada, ao que 
parece, de Gochim, a i6 de Outubro de i5o5. 
Por ela se vê que ele e um filho serviam, àquela 
data, os portugueses, como linguas, nas partes 
da índia, (i) 

Segundo esse mesmo documento, o viso-rei 
D. Francisco d' Almeida empregava-o em fisca- 
lizar, por intermédio dos mouros e naturais, 
os actos dos portugueses, em quantos portos da 
índia eles estanceavam. Na carta, o judeu aponta 
a D. Manuel os nomes de vários portugueses 
como réus de desonestas traficâncias. Dela re- 
sai todo o seu caráter de denunciador iison- 
geante, e espertalhão servil. 

Da mesma epistola se depreende, todavia, a 
alta conta em que D. Lourenço e D. Francisco 
de Almeida tinham os seus préstimos. Foi ela 
escrita nas vésperas da partida de D. Lourenço 
para Ormuz. Quere o capitão levar Gaspar 
consigo na viagem. Este, por doença, escusa-se 
e oferece-íhe seu filho Baltazar, «melhor lin- 
guoa que eu». Intervém então o viso-rei pedin- 



(i) Caí-las de Affbnso d' Albuquerque, vol. II, pag. 371 
<Q seg. 



1 14 EXPEDIÇÃO DE 

do-lhe que vá «porque soes lymguoa e conse- 
lho», instâncias e palavras, que dão bem o va- 
lor dos seus conhecimentos. 

Existe, além disto, na Chancelaria de D. Ma- 
nuel, na Torre do Tombo, uma carta pela qual 
o monarca lhe faz mercê, desde o primeiro de 
Janeiro de i5o4, da tença anual de 5oo:ooo 
reais. Nessa carta diz o Rei, ao justificar essa 
mercê: «avendo nos respeyto ao muyto ser- 
viço que Gaspar da Gama nos tem feito no 
negocyo e trautos da índia e esperamos delle 
ao deamte receber... (i) Para se avaliar da 
qualidade desse serviço, convém lembrar que 
a tença concedida a Gaspar da índia é igual à 
que D. Manuel concedeu a Nicolau Coelho. 

A discutida carta de Américo Vespucio, da- 
tada de Cabo Verde, a 4 de Junho de i5oi, vem 
corroborar e desenvolver os principais destes 
informes, do mesmo passo autenticando-se com 
eles. Segundo ela, Américo encontrou-se ali com 
Gaspar, de quem aprende, alvoroçado, bastas 
noticias sobre o Oriente, as quais constituem o 
principal motivo dessa carta. Escreve Américo: 
«che questi mi conto uno uomo degno di fede, che 
si chiamava Guaspare, che avea corso dal Cairo 
fino a una provincia che si domanda Molecca^ 



(i) Sousa Viterbo, Trabalhos náuticos dos portugue- 
ses, vol. II, pag. 198. 



PEDRO ALVARES CABRAL I I S 

(forse Malacca) la quale sta situata alia costa 
•dei mare Indico». E a seguir: ccOra mi resta a 
dire delia costa, che va dallo stretto dei Mare 
Pérsico verso el mare Indico, secondo che mi 
racontono, molti che funno nella detta armata ; 
e massime il detto Guasparre, el quale sapeva 
dimolte lingue, e il nome di molti provincie e 
cittá». Continuando a esmiuçar os informes de 
Gaspar, acrescenta «Item mi disse ch'era stato 
in una altra Isola che si dice Stamatra (forse 
Sumatra), la qual é di tanta grandezza, come 
Ziban (Ceilão). . .» (i). E mais adiante escreve 
ainda que Gaspar lhe falara das Molucas e 
doutras ilhas, cheias de riquezas. São os infor- 
mes de Vespúcio, que aliás tanto ajustam com 
os anteriores, aqueles que melnor patenteiam 
os motivos porque o Gama e D. Manuel pro- 
tegeram com tamanha largueza Gaspar da 
índia. 

Diz Vignhaud (2) que faltam os elementos 
para resolver definitivamente a questão da au- 
tenticidade da referida carta de Américo Ves- 
púcio. Cremos que de ora em diante eles exis- 
tem. Não só, já o vimos, a data da carta de 
Vespúcio coincide com os informes da carta de 
Pizani, e o seu encontro com aquilo que o Piloto 
anónimo refere, como a personalidade de Gas- 



(i) Vignaud, Americ Vespuce, pag. 4o5 a 407. 
(2) Idenij 64. 



Ii6 EXPEDIÇÃO DE PEDRO ALVARES CABRAL 

par se conforma plenamente com o que as de- 
mais fontes nos revelam. A carta de Leonardo 
Masser só em 1846 saía dos arquivos secretos 
de Veneza para a publicidade que lhe dava o 
Archtpo Stórico Italiano e não se pode crer que 
Vaglienti, seu colecionador contemporâneo, ou 
alguém por êle podesse falsificar informações 
que tão extranha e largamente condizem com a 
realidade. 

Quando muito o copista políu-lhe os barba- 
rismos de linguagem. No mais consideramo-la 
uma peça indispensável e do maior alcance 
para o processo definitivo da sua personalidade 
e obra. 



ASSOCIADOS COMERCIAIS DO REI 

NA EXPEDIÇÃO. OS MARCHIONI 

DE FLORENÇA 

Tanto os nossos cronistas de Quinhentos 
como os historiógrafos modernos ignoraram, 
omitiram ou menospresaram' um facto que re- 
veste uma alta importância para se compreen- 
der inteiramente o significado desta empresa, 
qual seja a compartecipação de dois fidalgos 
portugueses e de alguns mercadores estrangei- 
ros, além do monarca, nos interesses comer- 
ciais da expedição. 

Uma das cartas de italianos, que mais infor- 
mes presta sobre a organização da armada e 
os acidentes da viagem, a de Zuan Francesco^ 
de la F^aitada, escrita de Lisboa a 26 de Junho 
de 1901 e dirigida a Domenico Pisani, noticia 
que, dentre as naus e os navios, que seguiram 
para a índia um deles era «dei signor don Álva- 
ro, in compagnia de Bortolo florentino et Hiero- 
nimo et un genovese, Taltro dei conte de Porta 
Alegra e de certi alíri merchadanti assai.» Maia 



íi8 



EXPEDIÇÃO DE 



OU menos individuados cinco dos parceiros da 
coroa nos interesses da expedição, vejamos quem 
èies sejam e as razões tão fortes que podiam 
decidir o Rei a associá-los à primeira empresa 
mercantil com que rematavam e para a qual 
tenderam os esforços duma obra quási secular. 
Dom Álvaro, assim chamado, sem apelido, 
apenas pelo nome do baptismo, à maneira dos 
filhos dos Infantes, era o quarto filho de D. Fer- 
nando, 2.^ duque de Bragança e irmão de 
D. Fernando, o 3/^ duque, justiçado pelo Prín- 
■cipe Perfeito, Desempenhou D. Álvaro o cargo 
de regedor da Casa da Suplicação, cujo exercí- 
-cio começou em 1475, sendo nomeado, volvidos 
-dois anos, chanceler-mór do reino. Acumula os 
dois cargos até 1488, ano em que para Castela 
se expatria, fugindo à justiça, que a seu irmão 
mais velho executara. Isso não impede que em 
1485 seja condenado à morte e confiscação dos 
bens, por cúmplice e encobridor. Magnifica- 
mente aceite pelos Reis Católicos, passa naquele 
reino a ser senhor de Gelves, alcaide-mór de 
Sevilha e de Andujar, contador-mór e presi- 
dente de Castela. Falecido D. João II, cujo ódio 
só na morte cançou, apressa-se D. Manuel a 
'escrever-lhe (i), em afável missiva, ordenando- 
-Ihe que regressasse ao Reino. 



(i) V. a carta em Gois^ Chrónica de Z), Emanuel. 
parte 1, cap. Xlíl. 



PEDRO ALVARES CABRAL I I9- 

Restituído nos bens e acrescentado em hon- 
ras, percebe-se da leitura das crónicas e docu- 
mentos coetâneos que se torna um dos maiores 
validos e confidente do monarca, de quem era 
tio. Os reis de Castela cometem por essa data 
a D. Manuel a casar com D. Maria, a ter- 
ceira das suas quatro filhas. Mas das quatro^, 
confidencia Gois, «ha com que el-Rei Dom Ema- 
nuel mais desejava casar, foi ha Infante Dona Isa- 
bel, viuva do Príncipe D. Afonso, e por ter esta 
vontade se escusou do da Infante Dona Maria, 
por Dom Afonso da Silva, quando ho veo vi- 
sitar da parte dos Reis, . . . e por vir ao fim 
que desejava, estando em Torres Vedras comu- 
nicou este negocio com Dom Álvaro, ho qual 
se lhe oífereceo para ho nelle servir, e dali se 
foi a Castella mui bem acompanhado...» (i). 

Tendo-lhe tratado o casamento com a pri- 
meira mulher, é ainda D. Álvaro quem recebe 
da Infanta D. Maria procuração passada em 
Granada, a i6 de Agosto de iSoo, para em 
nome dela contrair matrimónio por palavras de 
presente com D. Manuel. 

Acrescentemos que sua filha D. Beatriz de- 
Vilhena, por iniciativa do Rei, se casou com 
Dom Jorge, Duque de Coimbra, e filho bas- 
tardo de D. João II, «e has vodas se feseram 



(1) Obra citada, cap. XXII. 



120 EXPEDIÇÃO DE 

€m Lisboa, acrescenta Gois, sendo presentes 
el Rei, e a Rainha dona Leanor sua irniam, que 
criara a dita donna Beatriz em sua casa, des no 
tempo dei Rei dom Joam seu marido e lhe que- 
ria tanto como se fora sua filha. . .» (i). 

Membro da família real, em cujo favor vivia, 
propiciador dos casamentos régios, mantendo 
com o monarca estreita intimidade, compreen- 
de-se que o Rei lhe fizesse a elevada mercê de 
o associar na expedição, quando mais não fosse 
por lhe pagar os serviços tão melindrosos que 
prestara (2). 

Não menos se compreende que igualmente 
associasse na empresa o conde de Portalegre. 
Foi D. Diogo da Silva de Menezes o aio que o 
criou e educou e mais tarde, durante o seu rei- 
nado e até morrer, seu escrivão da puridade e 
vedor da fazenda. Bastas vezes as crónicas dos 
dois reis anteriores se lhe referem, mencio- 
nando façanhas bélicas de grande capitão. Ser- 
viu nas guerras de Castela e Africa, tendo ficado 
prisioneiro em Tanger, a quando o seu terceiro 
escalamento (3). Mas, mais que noutro feito, se 
distinguiu na conquista das Canárias, começada 



(i) Obra citada, parte I, cap. XLV. 

(2) Sobre D. Álvaro veja-se Livro I dos Bra:(õis de 
Brancamp Freire. 

(3) Rui de Pina, Chronica de D. Affonso V, cap. GLIII. 



PEDRO ALVARES CABRAL 12 f 

em 1466, e onde tomou duas fortalezas e se 
aguentou por alguns anos até que foi mandado 
recolher ao reino. Após os pleitos com Castela 
sobre a posse do arquipélago, licou ainda assim 
como senhor das ilhas de Lançarote e Forte, 
cujo senhorio continuou por algum tempo nos 
Silvas de Menezes (i). 

Subido ao trono, refere Gois que um dos 
primeiros actos de D. Manuel foi elevar a conde 
de Portalegre o seu velho aio (2). A cada pas- 
so da leitura da Crónica de D. Manuel se de- 
preende a alta conta em que o monarca o tinha. 
Na Torre do Tombo, diversas cartas de mercê 
a D. Diogo se conservam, em que o monarca, 
mencionando os serviços do seu aio, lhe paten- 
teia funda gratidão (3). Numa delas, o Rei, de- 
pois de referir-lhe extremadas façanhas, acres- 
centa: «. . .e consirando isso mesmo como des 
o tempo da nosa mocidade, em que per sua li- 
nhagem, grandes vertudes e despcriçam nos foy 
dado por ayo, no qual careguo elle nos tem 
muyto servido, com tanto arrior^ hoom comselho 
e lealdade quanto em algún miijto jiell amy- 
giio e servidor se podese achar; e isto asy nos 



(i) Barros, Década I, livro I, cap. XII e George Glas, 
The líistory of the discovery and conquest ofthe Canary 
Islands. 

(2) Idem, parte I, cap. XIV. 

(3) Chancelaria de D. Manoel, Livro 3i. 



122 EXPEDIÇÃO DE 

ditos Regnnos de Gastella. onde amdamos por 
comprir a paz e aseseguo destes Regnnos, como 
depoys que nelles fomos atee ora na guover- 
nança que teve de nosa casa e terras, asy nas 
cousas que Jieste meo tempo vieram que ha nosa 
pesoa e estado tocasem. . .». Como se vê, o do- 
cumento é duma rara eloquência, e infere-se das 
últimas palavras deste passo que seu aio, sobre 
te-lo criado com amor, lhe defendeu por certo, 
contra D. João II e ao lado da Rainha, os di- 
reitos à coroa. Razões nos sobram para crer que 
a Rainha D. Leonor, sua irmã, e D. Diogo, seu 
aio, foram durante os primeiros anos do rei- 
nado os seus mais directos conselheiros (i). 
Assim temos que D. Manuef associava na gran- 
de empresa os dois validos talvez mais próxi- 
mos e íntimos. Dos primeiros dois fidalgos que 
iam usufruir da vasta empresa comercial da 
índia, a qual D. João II com tamanho esforço 
preparara, um era seu inimigo declarado e o 
outro pelo menos contrariador oculto no grave 
lance da sucessão do trono. 

Se as razões que aduzimos explicam a intro- 
missão dos dois validos, mais, por elas mes- 
mas, estranho nos semelha que à empresa se 
ajuntassem estrangeiros. Quem seriam o aBar- 
tolo florentino», o «Hieronimo» e o «genovese». 



{v) Vide Relação de Lunar do Masser 



PEDRO ALVARES CABRAL 12^ 

que nos surgem ao lado de D. Álvaro, como 
armadores duma das naus? 

Segundo la Faitada, foi essa também a que 
primeiro, da armada de Cabral, a Lisboa 
chegou. 

Todavia, referindo-se a essa mesma embar- 
cação, a carta de Pisani (i) diverge das infor- 
mações do cremonês: «Questa nave intrata in 
porto é la nave et el cargo de Bartolo Fiorenti- 
no». A crermos, pois, Pisani, pelo menos a parte 
principal na associação cabia a este. ; Como se 
compreende que D. Manuel consentisse numa 
expedição que tinha um aspecto de solene em- 
baixada para fins de posse e de comércio, a 
intrusão dum ou de mais estrangeiros ? i Que 
espécie de homem seria este Bartolo Fiorentino 
a quem se concedia tamanha honra ? 

Lendo as crónicas quinhentistas depara-se- 
-nos um Bartolomeu Florentim, por esta forma 
nomeado, e em circunstâncias tais que não 
podemos deixar de o identificar com aquele 
Surge-nos pela primeira vez o seu nome na 
Verdadeira inforuiaçam das Terras do Preste 
Joam das índias do Padre Francisco Alvares, 
cuja primeira edição é de 1640, e a seguir em 



(i) Diarii di Marino Sanuto, tomo IV. E. do Canto fez 
uma pequena edição desta carta. Vem egualmeute na 
Raccolia colombiana. 



124 EXPEDIÇÃO DE 

Castanheda. Como as notícias deste por vezes 
confirmam e esclarecem as da Verdadeira in- 
formaçaniy começaremos por transcrever do 
último. 

Quando, em 1487, D. João II resolve, logo 
após a partida de Bartolomeu Dias, enviar por 
terra Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva ã ín- 
dia e a Etiópia «para sua despeza lhes deu 
el Rey quatrocentos cruzados da arca das des- 
pezas da orta Dalmeirim; e tomando deles o 
que podessem gastar foy posto o resto no banco 
de Bertolameií Jlorentwi, e assi lhes deu el Rey 
uma carta de crença para serem socorridos em 
perigo ou necessidade em quaisquer reynos que 
se acharem...» (i). O Padre Alvares acres- 
centa que D. João II encomendou a Pêro da 
Covilhã o feito de descobrir donde vinha a ca- 
nela e as outras especiarias «ew gi^ande segre- 
doy> e que aos dois «lhes dera hua carta de ma- 
rear tirada de Mapamundo e que foram aho 
fazer desta carta ho liceçiado Calçadilha q he 
bispo de Vizeu, e o doutor mestre moyses a 
este tempo judeo e que fora feita esta carta em 
easa de Pêro d' Alcáçova.» (2). Pêro da Covi- 
lhã e Afonso de Paiva, continua Castanheda, 
«forão ambos despachados cm Santarém, aos 



(1) Castanheda, Conquista da Lídia, livro I, cap. I. 

(2) Alvares, Verdareira informaçam^ folio gi. 



PEDRO ALVARES CABRAL 125 

sete dias de Mayo de 1487, per ante el Rej' 
Dom Mambei que então era duque de Beja. > .» 
Chegados os dois viajantes a Barcelona, «lhes 
cambarão ho cambo pêra Nápoles a que chega- 
rão dia de S. João e sendo-lhes dado seucaimbo 
pelos íilhos de Cosmo de Medíeis forão ter a 
Rodes...» Um deles, Pêro da Covilhã, conse- 
gue chegar à índia e visitar Calecut, Goa, Or- 
muz e depois Soíala na Africa Oriental. 

D. João II para obter esses informes teve 
que lhes mandar novos emissários. 

Averiguado temos, pois, que um grande ban- 
queiro florentino, com vastas relações em 
quási todas as nações mediterrâneas, auxilia 
D. João II no seu vastíssimo e secreto plano dos 
descobrimentos. Um outro florentino, o mais 
preeminente dos seus concidadãos durante 
aquele século, auxihava indirectamente o mo- 
narca português. Conforme trasladamos atrás, 
os Medíeis deram seu caimbo a Pêro da Covi- 
lhã e Afonso de Paiva. Aquele tempo o re- 
presentante dos Medíeis, neto de Cosme í, e 
não filho, — como diz Castanheda, era Lou- 
renço de Medicis, o mais culto e brilhante de 
todos os chefes políticos da Renascença. Seu 
pai morrera, havia muito, e o irmão Juliano 
fora assassinado em 1478. Muito provavel- 
mente o banqueiro Bartolomeu serviria de 
intermediário entre o Rei e o florentino. Portu- 
gal e Florença, que desde D. João I colabo- 



120 EXPEDIÇÃO DE 

ravam em negócios marítimos e comerciais (i j, 
aparecem de novo auxiliando-se, com a aproxi- 
mação dos dois mais eminentes vultos de toda 
a sua história política, — o Príncipe Perfeito, 
e Lourenço, o Magnifico. 

Começa a compreender-se que um estran- 
geiro que prestou tão proveitoso auxílio no 
descobrimento da índia, por terra, apareça 
agora usufruindo os primeiros frutos dessa 
empresa. Mas não param por aqui as elucida- 
tivas referências dos cronistas. Quando João 
da Nova parte com uma armada para a índia, 
ainda antes do regresso de Pedro Alvares, uma 
das naus vai capitaneada por Fernão Yinet, 
florentino, empregado de «Bartolomeu Mar- 
chioni, florentino», senhor do navio, «mercador 
muito rico, residente na cidade de Lisboa», in- 
forma Gois (2) e «o mais principal em substân- 
cia de fasenda que ella naquelle tempo tinha 
feito», acrescenta Barros (3), isto é- o mercador 
mais rico e que, em Lisboa, mais" tinha prospe- 
rado àquele tempo. Barros vai mais longe nas 
informações, e diz-nos que João da Nova deixou 
em Cananor dois feitores e um deles «era hum 



(i) Giuseppe Ganestrini, Memoria intorno alie rela- 
^ioni commerciali dei Fioreniini col Portoghesi, tomo 
XXIII do Archivio síorico italiano. 

(2) Obra citada, parte I, cap. LXIII. 

(3) Década I, livro V, cap. X. 



PEDRO ALVARES CABRAL 1 27 

feitor de Bartholomeu Florentim, que o capitão 
Fernão Vinet do seu navio pelo mesmo modo 
deixava ali feitorisando. . . » (i) O banqueiro e 
mercador Bartolomeu cresce de importância : 
envia uma nau comandada por empregado seu 
e deixa feitor próprio na feitoria, em Gananor. 
Por outro lado Barros chama-lhe, como Cas- 
tanheda, Bartolomeu florentino. Cremos inútil 
dispender razões para identificar o banqueiro 
que auxiliava D. João II e o mercador tão im- 
portante, que enviava nau e feitor próprio na 
armada de João da Nova, com o Bartolo Fio- 
rentino das cartas de Afaitaidi e de Pisani, se- 
nhor duma das naus e parte da carga que 
viajava sob o comando-mór de Pedro Alvares. 
Continuemos a dar ainda assim a palavra 
aos cronistas. Gaspar Correia, a propósito 
desta mesma armada de João da Nova, fala 
íam.bém de Bartolomeu Florentim. Dado o 
necessário desconto ao devanear de Correia, 
não deixa de ser curioso transcrever o que re- 
fere: «Sobre o que logo El Re}^ moveo con- 
tractos com mercadores riquos, estantes de 
muito tem.po em Lisboa que antre si fiserão 
armador a um Bertholameu Florentym, homem 
de grossa fazenda... que esperavam muyto 
mais proveito que da Flandres, nem outras 



(i) Obra citada. 



128 EXPEDIÇÃO DE 

muytas partes em que tractavam por todo po- 
nenie e levante. . .)> (i) A crermos, pois, nesta 
passagem, Bartolomeu Florentim foi arvorado 
desde o começo em representante dos merca- 
dores estrangeiros em Lisboa para o comércio 
directo com a índia. Seja como for, na armada 
que a seguir partiu sob o comando do Gama 
lá ia a nau S. Tiago dos Marchioni, conforme 
se depreende duma carta de quitação de D. Ma- 
nuel, por Sousa Viterbo publicada (2). 

Da armada de Afonso de Albuquerque que 
partiu em i5o3, sabemos que fazia parte uma 
nau armada «por conta dos Marchiones de Lis- 
boa», conforme escreveu João de Empoli, flo- 
rentino, que ia por feitor da dita nau (3). 

Acabaremos por agora as citações dos cronis- 
tas, acrescentando apenas que essas viagens se re- 
petiram, voltando João de F^mpoli à índia mais 
que uma vez como capitão de nau, e tendo um 
dos próprios Marchioni, Pedro Paulo, filho de 
Bartolomeu, embarcado em nau sua para a ín- 
dia, em i52o, na armada que Jorge de Brito 
capitaneava (4). 



(i) Lendas, p. 254. 

(2) O Economista, 24 d'outubro de 1884. 

(3) Viagem às índias Orientais, por Joáo do Empoli, 
an Collecção de noticias para a H. e G. das P. Ultra- 
marinas, tomo II. 

(4) Barros. Décadas II e III. passim. 




Estátua orante de D. Manuel, no pórtico axial dos Jerónimos 



PEDRO ALVARES CABRAL I2() 

Omitem, é certo, os cronistas qualquer refe- 
rência à participação dos Marchioni nas expe- 
dições que seguem à de João da Nova, mas, 
tanto como os documentos já citados, as duas 
cartas de quitação, existentes na Torre do Tom- 
bo e publicadas por Viterbo (i), dos anos de 
iSoy e i5i4 provam que as suas relações com 
a coroa e interferência nos negócios da ín- 
dia ganham de intensidade. Não só eles ser- 
vem de banqueiros ao Rei e negoceiam com o 
Estado em navios e mercadorias, como se in- 
fere doutras fontes que os armazéns do floren- 
tino davam o principal fornecimento para os 
faustosos presentes aos potentados indianos (2). 

Documentos anteriores vêem mostrar-nos que 
já vinha de traz este favor da coroa. Quando, 
por carta de 21 de Agosto de 1498, D. Manuel 
dá a primazia, no carregamento e exportação 
do açúcar da Madeira, aos nacionais sobre os 
estrangeiros, ressalva ; « . . .hos mercadores nos- 
sos naturais, no comto dos quais queremos e 
nos apraz que caybam Bertolameu Frorentim e 
Jerónimo Sernige ; e antam entraram os extran- 
geiros» (3). Mais significativa, porventura, do 



(1) Barros, Décadas, II e III,passim. 

(2) S. Viterbo. Notas ao Catálogo da Exposição de 
Arte Ornamental. 

(3) Frutuoso^ Saudades da to-ra, 585. * 

9 



l3o EXPEDIÇÃO DE 

que esta, é a concessão de explorar directa- 
mente o oiro da Mina (i), sabido como severís- 
simas disposições proibiam o acesso de estran- 
geiros à costa da Guiné. 

Estes factos apenas se podem explicar por 
uma grande troca de serviços e comunhão de 
interesses entre a coroa e o Marchioni. Ao 
passo que se lêem as crónicas e os documen- 
tos, cresce-lhe a figura. A esfera da sua acção 
dilata-se. E, só meditando no papel que esse 
homem desempenha nessa época da história 
nacional, *se poderá compreender inteiramente 
esta alusão de Albuquerque numa carta ao Rei: 
« . . e não vos vejo feytor na índia que vos 
saiba mandar um avyso destas cousas, porque 
vejo cadano nas cartas de vosaltesa falar-me 
neste feito como cousa nova que mamdaes apal- 
par e de que nem temdes nenhua emformaçam 
nem aviso : e eu, senhor, nam mespanto diso, 
porque não ha de emtendev pedr' ornem tanto na 
mercadaria como bertolatnein (2). Mais explí- 
cita a passagem duma outra carta sua a Duarte 
Galvão: « .'. . lá tenho escrito a El Rei que creia 
mais no escritório de Bartolomeu com Lionar- 
do soo, que em quantas feitorias e quantos fei- 



(i) Diarii di Marino Sanuto, vol. iV, col. 621, cit. eni 
Peragallo, Cenni intorno alia colónia italiana. 

(2) Afonso de Albuquerque, Cartas^ tomo I, 274. 



PEDRO ALVARES CABRAL l3l 

tores que tem na índia» (i). Este Leonardo a 
quem o Albuquerque se refere é Leonardo 
Nardi, agente comercial de Marchioni na ín- 
dia (2). 

O banqueiro e mercador assume agora a im- 
portância não só dum tipo perfeito de homem 
de negócios, como dum inspirador e director 
técnico na parte comercial da empresa da ín- 
dia. E bem o podemos desde já considerar uma 
das mais curiosas personagens da nossa histó- 
ria dos descobrimentos, digno de desempe- 
nhar perante o comércio cosmopolita de Lisboa 
a função que lhe atribui Gaspar Correia. 

Identificado o Bartolo, vejamos quem fosse 
o Hieronimo da carta de la Faltada. Outro 
não pode ser que o Jerónimo Sernige, a que se 
refere a carta de D. Manuel sobre a exportação 
do açúcar, acima referida. Além dessa conces- 
são, mais sabemos que ele usufruiu igualmente 
da regalia excepcional de enviar navios à 
Guiné (3). Era Sernige gentilhomem florentino 
de há mui|o estabelecido em Lisboa. Quando 
o Gama regressa da índia, Sernige, entusias- 



(i) Obra citada^ vol. I, 104. 

(2) Veja-se a memória de Peragallo, Cenni intorno alia 
colónia italiana in Poriugallo nei secoli xiv, xv e xyi, 
2." ed., 114. 

(3) Raccolia Colomb., parte III, vol. 11^ 82. 



l32 EXPEDIÇÃO DE 

mado, dá logo a nova para Florença, em carta, 
já várias vezes publicada (i). 

Da sua identificação com a obra nacional dos 
descobrimentos pode avaliar-se, sabendo-se que 
em i5ii D. Manuel lhe concedia o título e pri- 
vilégios de cidadão de Lisboa, motivando a 
concessã'o por forma mui particular: «Havendo 
nós respecto aos serviços que temos recebido e 
ao deante esperamos receber de Geronymo Cer- 
niche, Frolentim, morador estante nesta nossa... 
cidade de Lisboa. . . temos por bem e o faze- 
mos cidadão da dita cidade... e lhe seram 
guardados seus privilégios, franquesas, honras, 
liberdades tam enteiramente, como os ditos ci- 
dadãos e com as prem3^nencias que eles teem e 
devem teeer. . . e Nos praz que o dito Gero- 
nimo Cerniche entre nos pelouros e regimento 
da camará da dita cidade pela própria maneira 
que costumam fazer os ditos cidadãos», etc. (2). 

Quanto ao genovês, a que se refere la Fait- 
tada, crê Peragallo que fosse António Salvago, 
duma importante família genovesa desse ape- 
lido que em Lisboa exercia o comércio desde 
longa data (3). • 



(1) Raccolía, parte III, vol. II, ii3, Ramusio, vol. I, 
foi. 1 19 e seg. 

(2) Viterbo, A livraria real no reinado de D. Ma- 
nuel, 72. 

{3) Obr. cit., pág. 104 e 148. 



PEDRO ALVARES CABRAL l33 

Pelas regalias aos dois primeiros concedidas, 
percebe-se que haviam de prestar a D. Manuel 
altos serviços. Peragallo crê até que a célebre 
Bíblia dos Jerónimos fosse oferecida ao Rei 
pelos dois ricos mercadores (i), o que mais faz 
supor as boas relações entre os três existentes. 

Não obstante, por muito valor que se atribua 
aos serviços prestados por Bartolomeu Mar- 
chioni a D. João II e a D. Manuel nos primei- 
ros anos do seu reinado, não deixa de parecer 
estranho que um estrangeiro gosasse de tama- 
nho favor da coroa, que lhe permita desde a 
primeira expedição de carácter comercial enviar 
por conta própria nau sobre nau, a cada ar- 
mada. Esta continuidade na regalia faz-nos su- 
por que existisse qualquer contracto entre o 
rei e o rico florentino, apenas explicável por 
altos serviços continuados a prestar ao monarca 
pelos Marchioni. 

Sabemos pela memória citada de Canestrini 
que os Marchioni, além das suas relações com 
as nações mediterrâneas, eram associados a ou- 
tros ricos mercadores florentinos, os F^resco- 
baldi e Gualterotti de Bruges e outros que mais 
tarde haviam de espalhar os produtos do Oriente 
na Flandres e nas restantes nações do norte da 
Europa. Isso explica até certo ponto o favor 



(i) La Bíblia dos Jerónimos. 



Í34 EXPEDIÇÃO DE 

concedido pela coroa, que inteligentemente pro- 
curava à sua espantosa empresa comercial to- 
dos os meios de expansão. Ainda quando não 
existissem provas dessa política, era inteira- 
mente lícito supô-la. Mas a mesma preciosa 
carta do veneziano Pisani refere que o rei o 
convidara a escrever à Senhoria de Veneza, 
aconselhando-a a mandar a Lisboa os seus na- 
vios, a carregar especiarias, pois lhes faria bons 
recebimentos e se poderiam julgar em casa 
sua (i). 

Todavia, a continuada série de atenções e 
favores e a primazia, a Bartolomeu concedidos, 
não podem, a nosso ver, explicar se apenas pela 
função comercial de intermediário com os mer- 
cados europeus. Já nesse tempo pululavam 
em Lisboa, os mercadores estrangeiros, tantos 
dos quais poderiam exercer essa função; e mui- 
tos outros acorriam aos lucros da especiaria^ 

Que outros serviços, pois, poderiam prestar 
os Marchioni ? A Relação de Lionardo da Chá 
Masser auxilia a esclarecer este mistério. Ao 
dia seguinte da sua chegada a Lisboa, o agente 
veneziano que nos vinha espionar, é preso e 
levado à presença de D. Manuel. Este, depois 



(i) «...et diseme dovesse scriver a vostra screnita, 
lhe mandi da me avanti le galie a levar specie de qui, a 
de qual faria buona cicra, et poriano judicar esser in 
caxa sua. . .» 



PEDRO ALVARES CABRAL l35 

de largamente o interrogar sobre os propósi- 
tos que o levavam a Portugal, manda-o encer- 
rar numa prisão, onde fica incomunicável. De- 
pois de por três ou quatro vezes ser novamente 
interrogado, como ele se mantivesse nas pri- 
meiras afirmações, manda D. Manuel restitui-lo 
à liberdade. Concluiu o veneziano que alguém 
lhe fazia oposição e . informara o rei dos seus 
propósitos. Trata logo de averiguar. 

«Et io liberato che fui volsi diligentemente 
inquerire et intendere quali fussino stati quelli 
che mi fecero tale oposizione; et intesi da piu 
persone degne di fede, li quali me dissero che 
già un mesè inanzi el mio zonzer de li fu signi- 
ficato a Sua Altezza da Venezia da uno Benetto 
Tondo Florentino (nevodo de Bortolamio Flo- 
rentino, el quale fa grandissime facende nella 
-cittá de Lisbona), che el veniva uno ad instan- 
zia delia Signoria de Venezia, e dei Gran Sol- 
dano, per veder et intender quelle cose de quel 
viaggio dlndia nel suo regno, e che la Signo- 
ria de Venezia mandava due nave carghe d'ar- 
tellarie ai Gran Soldano per devedere a Sua 
Altezza il navegar loro.» (i) 

Temos assim que Bartolomeu florentino in- 
formava o Rei por intermédio dum sobrinho 



(i) O centenário do descobrimento da América, Rela- 
■ção, 87. 



l36 EXPEDIÇÃO DE 

seu (i), que em Veneza vigiava, não só da par- 
tida dum agente secreto ao serviço da Senho- 
ria e do Soldão, mas ainda dos auxílios que 
aquela prestava a este para impedir o dominio 
português nos mares da índia. Informações de 
factos tão graves, que em Veneza se deviam 
ocultar o mais possível, dada a politica de 
aparente amizade seguida com Portugal, não 
se podem atribuir a mero acaso, mas antes a 
um serviço adrede organizado. Por muito difícil 
que seja documentar um facto desta natureza, 
este passo da carta de Chá Masser não nos 
parece de molde a deixar dúvidas. Que o rei 
se servia de florentinos em casos mais ou me- 
nos semelhantes, prova-o ainda um outro fa- 
cto. Quando Américo Vespúcio volta da sua 
segunda viagem depois de ter aportado ao 
norte da América do Sul, D. Manuel a quem 
interessaria conhecer os resultados dessa e da 
anterior viagem, manda-o cometer a Sevilha 
para que se passe ao seu serviço. Gomo Amé- 
rico recuse, D. Manuel envia para o convencer, 
Juliano-, filho de Bartolomeu dei Giocondo, que 
então estava em Lisboa e que emfim o conse- 
gue trazer consigo. O próprio Vespúcio narra 



(i) Deve tratar-se de Benedello Morelli Marchioni, 
que viveu também em J.isboa e entrou no comércio da 
índia. Veja-se Peragallo. 



PEDRO ALVARES CABRAL 187 

estas particularidades na terceira das suas car- 
tas sobre as navegações na América. Se este 
Juliano dei Giocondo, pertencente a uma nobre 
família florentina, estava em Lisboa de passa- 
gem, como se depreende dos dizeres de Ves-* 
púcio, não será aventuroso presumir que mais 
uma vez o riquíssimo banqueiro e armador 
Bartolomeu Marchioni prestasse um serviço à 
coroa portuguesa, espiando por intermédio de 
associados ou serventuários as muitas novida- 
des de Sevilha e conseguindo-lhe o interme- 
diário eloquente, que trouxesse Vespúcio a Por- 
tugal. Esta série de razões explicam inteira- 
mente que D. Manuel associasse o estranho 
mercador à empresa mercantil da índia. Basta 
para isso reflectirmos em que o auxílio dos 
mercadores estrangeiros havia de ser utilíssimo 
aos vastos serviços de espionagem mantidos 
peia coroa. 

Elas convencem-nos até que Bartolomeu Mar- 
chioni tinha real direito a ser associado. A tan- 
tos títulos, verdadeiro representante do comér- 
cio cosmopolita, ele auxiliava, nessa qualidade, 
com elevada compreensão a empresa portu- 
guesa dos descobrimentos. 

Não sem profundas razões nos aparecem asso- 
ciados nesta empresa um genovês e os florenti- 
nos. Desde D. Denís que Génova colabora com- 
nosco, sendo genoveses que nos organizam a 
marinha nesse tempo. E em t3i7 que o rei 



i38 EXPEDIÇÃO DE 

trovador investe o genovês Emmanuele Passa- 
no, tronco dos Pessanhas, no cargo de almi- 
rante da marinha nacional, com a obrigação de 
ter sempre sob as suas ordens outros vinte ca- 
pitães genoveses. Lembremos que a primeira 
tentativa de chegar à índia pelo Atlântico, a 
do genovês Ugolino Vivaldi, que partiu de Gé- 
nova com esse fim, sem que se tornasse mais 
a saber dele, data de 1291 ; e que já nessa época 
em Lisboa existia uma familia genovesa com o 
mesmo apelido, gosando de particular conside- 
ração junto da corte. Crê Peragallo que um e 
outra ao mesmo tronco pertencessem (i). 

Da leitura das crónicas conclui-se que até ao 
tempo de D. Afonso V predominaram em Lis- 
boa os genovezes dentre os demais italianos. 
Mais que um navegador de Génova auxilia o 
Infante nos descobrimentos e desde logo os ve- 
mos exercendo a sua actividade nas ilhas re- 
centemente descobertas, como os Dória e Lo- 
mellino na Madeira, Casana nos Açores e 
António Noli, a quem foi concedida, em paga 
de extremados serviços, o senhorio da Ilha de 
S. Tiago de Cabo Verde. E, se mais tarde en- 
contramos uma percentagem maior de florenti- 
nos participando e usufruindo da nossa empresa, 
temos de buscar igualmente as razões desse 



i) Obra citada, pag. 169, 170, i-jb e seg. 



PEDRO ALVARES CABRAL iSq 

•facto em época anterior. Datam do reinado de 
D. João I as relações estreitas entre Lisboa e 
Florença. Em 1429 Luca degli Albizzi, capitão 
das galeras florentinas do Occidente, vem a 
Lisboa pedir ao Rei para os mercadores e na- 
vios florentinos os mesmos privilégios a outros 
italianos concedidos. Pedro Gonçalves, o ve- 
dor da fazenda, visita o capitão da esquadra 
florentina e assenta com êle a concessão, o que 
a República agradece em carta nesse mesmo 
ano (i). Já antes desta data nós importávamos 
o trigo da Toscana, além dos seus estofos. 
Mas desde então crescem muito as mútuas 
relações. 

O Infante D. Pedro depositava dinheiros em 
Florença e existem documentos de créditos seus 
sobre o Monte comiine e das longas negocia- 
ções dos seus herdeiros para os rehaver (2). 
Ao que parece a dinastia de Avis tinha nessa 
época ali por agente e banqueiro a Francisco 
dí Nicoló Cambini, em casa do qual falecia em 
1459 o cardeal D. Jaime, filho de D. Pedro. 

No tempo de D. Afonso V mais do que nunca 
se estreitaram essas relações. Não. só êle par- 
ticipava à República as suas sucessivas conquis- 
tas na Africa e esta sucessivamente o felicitava, 



(i) Canestrini, idem, 98 e 99. 
{2) Canestrini, idem. 



140 EXPEDIÇÃO DE 

como Lourenço, o Magnifico^ emprestava so- 
mas importantes ao mesmo Rei. Numa carta 
a D. Afonso V, em 1466, a República de Flo- 
rença confessa a sua gratidão pela inegualá- 
vel hospitalidade concedida aos seus mercado- 
res «. . -mercatores nostros, quorum vox et 
sententia est et vulgata fama: nullis in mundi 
partibus, hospitalius, benignius, carius recipi et 
tractari quam in regno et quam a clemência 
Vestrae Majestatis. . .» Do Lwro Vermelho de 
D. Afonso V se depreende também que eram os 
florentinos dos extrangeiros, que mais negocia- 
vam e pululavam em Lisboa. 

Em tempos de D. João II e D. Manuel a per-^ 
centagem cresce. Fazendo a destrinça de todas 
as farnílias de origem italiana que habitavam 
então aqui, segundo o citado livro de Peragallo, 
concluimos que mais de metade eram de Flo- 
rença. O mesmo escritor afirma: «Nella storia 
delle espiorazioni commerciali in índia aperte 
alia attività europea dalle navigazioni porto- 
ghese, nessun popolo spiegó tanta iniziativa 
avedutezza ed energia, quanto i cittadini i piú 
illustri di Firenze...» (i) Contam-se, na ver- 
dade, por dezenas as famílias de florentinos que 
naquela época vivem e trabalham em Portugal.. 

Assim melhor se compreende que o sábio 



(1) Obr. cit. 149. 



PEDRO ALVARES CABRAL I4I 

florentino Toscanelli, em cartas a um cónego de 
Lisboa propusesse novas rotas aos descobri- 
mentos portugueses ; que os Marchioni com ta- 
manho zelo nos servissem; e que os-Vespúcio, 
Empoli, Vinet, Buonagrazia, Corsali, Strozzi, 
Verdi e tantos outros dessa mesma nação via- 
jassem a bordo das nossas naus. Mais que uma 
aliança de estados, existiu entre as duas cidades 
uma aliança de tendências, aptidões e esforço ci- 
vilizador. A Florença, a cidade mais culta dessa 
época e à qual a actividade bancária em toda a 
Europa dava uma compreensão mais vasta do 
comércio, estava naturalmente destinado auxi- 
liar a empresa dos descobrimentos. De alguma 
forma se havia de aliar a cidade que melhor 
definiu o pensamento da Renascença àquela que 
mais encarnou esse espírito em acção. Não é 
por mero acaso que os nomes de Pedro Alva- 
res Cabral e Bartolomeu Florentino aparecem 
juntos na história. A nossa primeira expedição 
comercial à índia representa o termo para que 
convergem tantos esforços e acontecimentos na 
aparência obscuros de Portugal e da Europa e 
os três italianos a parte mais alta do comércio 
europeu, atestando com a sua presença o altís- 
simo interesse cosmopolita da empresa. 



DUARTE PACHECO E AS ANTERIO- 
RES VIAGENS AO CONTINENTE 
AMERICANO 



Dentre as pessoas, cuja participação na ar- 
mada pode dalguma sorte esclarecer os seus 
objectivos, falta-nos apenas referir a Duarte Pa- 
checo. Propositadamente guardamos essa refe- 
rência para o fim, pois a presença do grande 
capitão navegador a bordo, sem que os cro- 
nistas lhe refiram qualquer função, afigurando- 
-se-nos de princípio singularmente misteriosa, 
acaba não só por se tornar lógica mas necessá- 
ria para a perfeita compreensão da viagem de 
Cabral. 

Ombreando em nobreza com alguns dos 
capitães da armada, Duarte Pacheco excedia-os 
a todos em sabedoria e ânimo. Pertencia à 
mesma leal nobreza dos Cabrais, Mirandas de 
Azevedo, Silvas, Pinas, que auxiliaram o Mes- 
tre de Aviz, a firmar a independência portu- 
guesa na grande crise nacional do século xiv. 



144 EXPEDIÇÃO DE 

João de Barros, tão escrupuloso, como vi- 
mos, no atribuir dos titulos heráldicos, ao enu- 
merar os capitães da expedição dos Albuquer- 
ques, que em i5o3 foi para a índia, logo diz: 
«Duarte Pacheco Pereira, filho de João Pache- 
co», o que, já sabemos, na pena do cronista 
palaciano, vale uma carta de nobreza. 

De todos os capitães da armada, pôde em 
nobrêsa emparelhar-se a Aires Gomes da Sil- 
va, pois ambos descendiam de troncos nobilís- 
simos e tinham na ascendência quebra de bas- 
tardia. Seu terceiro avô, Diogo Lopes Pacheco, 
um dos perseguidos de D. Pedro, o Crú, e 
em Castela exilados, pelo assassínio de D. Inez 
de Castro, regressa mais tarde a Portugal e 
abraça o partido de D. João I. João Fernandes 
Pacheco, seu filho, pertence à fila mais ardida 
dos vencedores de Aljubarrota. 

O a.ô de Duarte, Gonçalo Pacheco, era filho 
bastardo do herói da Batalha Real; pertenceu 
à casa do Infante D. Henrique; e foi tesoureiro 
da casa de Ceuta, armador de navios e homem 
«de grossa fasenda», conforme Barros elucida. 
O filho deste, João Pacheco, capitaneou, ao que 
parece, uma armada, que andou no levante pe- 
lejando com os turcos, e os mouros o mata- 
ram em Tanger, ao recolher-se ali com os na- 
vios (i). 

(i) Nobiliário de Rangel de Macedo. 




Vasco da Gama 



PEDRO ALVARES CABRAL I4D 

Nasceu Duarte Pacheco em Lisboa, por mea- 
dos do se'culo XV, íilho de navegante e neto de 
armador, o qual durante largos anos conhe- 
ceu, pois ^abe-se que seu avô ainda existia em 
1475 (i). Da leitura do Esmeraldo^ de que é au- 
tor, se depreende que era um dos capitães na- 
vegadores de maior experiência marinheira e 
confiança do monarca. Logo no prologo de seu 
livro escreve: «. . .e por não alarguar mais na 
matéria, deixo de dizer as particularidades de 
muitas cousas que este glorioso príncipe mandou 
descobrir por mim e por outros seus capitães 
em muitos luguares e rios da costa da Gui- 
fiee. . . )) (2). E mais adiante, referindo-se às cos- 
tas da Africa Ocidental, acrescenta: «porque de 
todoíos rios desta regiam da Ethiopia, os quais 
por muitos anos cada dia praticamos .-» y> (3). 
João de Barros, ao narrar a viagem de Barto- 
lomeu Dias, no regresso do descobrimento do 
Gabo da Boa Esperança, conta que ele aportara 
à ilha do Principe «onde acharão Duarte Pa- 
checo cavaleiro da casa dei Rey mui doente. 
O qual por não estar em disposição pêra per 
si ir descobrir os rios da costa a q o el Rey 
mandava, inviou o navio a fazer algum resgate: 



(i) Esmeraldo, edição Rafael Basto, documento IIÍ. 

(2) Edição Epifânio, pag. i5. 

(3) Idem, pag. 28. 



146 EXPEDIÇÃO DE 

onde se perdeo salvandose parte da gente, que 
com elle se veo em estes navios de Bartholomeu 
Diaz.» (i). 

Destes passos e maiormente dos conhecimen- 
tos que revela no seu livro, se infere que êle era 
um dos mais sábios navegadores e cosmógrafos 
do seu tempo ; esses são também os títulos que 
explicam a sua intervenção nas negociações do 
tratado de Tordesilhas. Que D. Manuel conti- 
nua a depositar nele a mesma confiança que o- 
seu antecessor, prova-o a incumbência, que se- 
gundo o Esmeraldo^ o rei lhe fez em 1498 de ir 
descobrir a quarta parte. Tendo seguido para a 
índia em i5o3 capitaneando uma das naus, que 
iam sob o comando de Afonso de Albuquer- 
que, lá permanece até i5o5, praticando na de- 
fesa de Cochim contra o Samorim de Calecut, 
tais prodígios de esforço e de bravura, que na 
história ficou como um dos melhores modelos 
da valentia lusitana. Durante esse tempo, na 
sua qualidade de capitáo-mór dos mares da ín- 
dia é o primeiro que no Oriente firma o pode- 
rio português. Com a fortaleza de Cochim êle 
assenta, na verdade, as bases do nosso império 
oriental. 

Da confiança que D. Manuel continuou a dis- 
pensar a Duarte Pacheco, são indícios o comando 
de alguns navios que em i5o9 lhe entrega para 



(i) Década /, livro III, cap. IV. 



PEDRO ALVARES CABRAL I47 

castigar o corsário Mondragon, a quem aprisio- 
ríou junto do Cabo Finisterra, destroçando-o e 
trazendo consigo as embarcações, que do com- 
bate se salvaram. Em 191 1 novamente comanda 
uma armada que vai socorrer Tanger, cercada 
pelo rei de Fez (i). Mais eloquente, para evi- 
denciar quanto D. Manuel reconhecia os seus 
merecimentos, é o encargo que lhe dá de des- 
crever toda a costa de Africa e de Ásia nave- 
gada pelos portugueses, conforme o próprio 
Pacheco diz no prólogo do seu livro: «e por- 
que vossa altesa me dise que se queria nisto 
fiar de mim, portanto preparei fazer hum li- 
vro de cosmografia e marinharia...» (2) 

Assim, conjugando aptidões ás mais diversas, 
todas, por certo, àquela data já provadas, Duarte 
Pacheco surge-nos como uma das mais belas e 
altas figuras da Renascença portuguesa. Diplo- 
mata, entra nas negociações do tratado mais 
transcendente da sua época; guerreiro, comanda 
as mais e'picas façanhas da história da conquista 
do Oriente ; navegador, pertence à plêiade ilus- 
tre dos melhores capitães dos descobrimentos; 
e cosmógrafo, deixa, inacabado, um dos grandes 
monumentos da sciência do seu tempo. Fixe- 
mos, todavia, de entre as suas aptidões aquela 



(i) Sousa Viterbo, Trabalhos Náuticos, vo\. l, pag. 237 
e seg. 

(2) Esmeraldo, edição Epifânio, pag. 17. 



148 EXPEDIÇÃO DE 

que melhor define a sua personalidade. Em 
Duarte Pacheco as afirmações do valor guer- 
reiro, se documentam a sua maravilhosa força 
de ânimo, são em grande parte obra de ocasião. 
Para diplomata tinha decerto a recomendá-lo 
mais que outros méritos os seus conhecimentos 
scientiíicos. E ainda como navegante permanece 
o homem de sciência, que estuda e cria, experi- 
mentando. Com efeito o seu trabalho Esmeraldo 
de situ orbis supõe uma vida inteira de eístudo 
e experiência scientifica. A par duma notável 
cultura geral, essa obra revela profundos conhe- 
cimentos da sciência cosmográfica e da marinha- 
ria do seu tempo, de que êle se afirma um dos 
melhores continuadores. Duarte Pacheco ficará, 
pois, mau grado as suas bélicas façanhas, na 
história da civilização como cosmógrafo e nave- 
gante. Estes são também os títulos que o ex- 
tremam e caracterísam verdadeiramente. Po- 
dendo em muitos passos do Esmeraldo refe- 
rir feitos seus, quási sempre os cala. Em certa 
altura salta-Ihe mesmo da pena uma sentença 
moral sobre a vaidade, digna do Eclesiastes: 
«... assim que os antipodes habitam hua parte e 
nós a outra, e nesta em que habitamos, nenhum 
he contente de todo o bem que possuy, e emfim 
oyto pees de terra nos habastam e aly se acaba 
de consomir a vaydade de nossas cuidaçõis» (i). 

(1) Esmeraldo de situ orbis, edição citada, pag. 21. 



PEDRO AJ.VARES CABRAL I49 

Todavia, o homem, de cujo rígido carácter se 
podiam multiplicar as provas, ao falar dos obje- 
ctivos do seu trabalho, escreve com a consciência 
do seu valor e o puro desinteresse, que caracte- 
riza o verdadeiro espírito scientífico: «. . .e por 
quanto o lume do descobrimento da redondeza 
do mundo principalmente está na mesma mari- 
nharia e nas rotas e caminhos da costa e golfam 
do mar, portanto convém que aquillo que pelos 
antiguos escritores e assy pellos modernos ficou 
por dizer, pêra sabedoria e comprimento desta 
navegaçam das Ethiopias de Guinee e das ín- 
dias e outras partes, nós o diguamos e descreva- 
mos; porque perdendo-se em algum tempo a dita 
navegaçam, pello que aqui he escrito, brevemente 
se possa tornar a saber e a reformar...» (i). 
O mesmo homem que afirma a vanidade das 
cuidações humanas, levanta ao mais alto grau 
o interesse da obra de sciência, que procura 
servir a humanidade. Torna-se indispensável 
para avaliar a figura de Duarte Pacheco colo- 
cá-lo dentro desta atmosfera, de que ele próprio 
se rodeia. A história, dando corpo a um erro 
de visão, cognominou-o de Achilles lusitano^ 
mas êle no conhecimento melhor do seu va- 
lor, atribui-se aí um lugar menos pomposo, 
mas mais sólido. 



(i) Obra e edição citada, pag. 48. 



l5o EXPEDIÇÃO DE 

Posto isto, façamos algumas rápidas con- 
siderações sobre o celebre passo donde se 
conclui a sua viagem à América em 1498. 
Para confirmar a sua asserção de que a terra 
tem inclusa na sua concavidade e centro toda 
a massa planetária das águas, Pacheco assim 
reza: «E alem do que dito he, ha experiên- 
cia^ que he madre das cousas, nos desengana 
e de toda duvida nos tira; e por tanto, bem- 
aventurado Principe, temos sabido e pisto cotno 
no terceiro anno de vosso reinado do hanno de 
nosso senhor de mil quatrocentos e noventa e 
oito, donde nos vossa alteia mandou descobrir ha 
parte oucidental, passando alem ha grayide^a 
do mar oceano, onde he hachada e navegada 
húa tam grande terra íirme, com muitas e gran- 
des ilhas adjacentes a ella, que se estende. . . » (i). 



(i) Eis o trecho completo do Esmeraldo: 
«... e como quer que a mais baixa parte da terra he 
ho seu centro e ho meo d'ellaj sobre ho qual as auguoas 
estam fundadas, por tanto disse o profeta David no 
salmo trinta e dous, que começa Exultate,justi: «Ajun- 
tou asy como em odre as auguoas do mar ; poz os te- 
souros em ho aviso»; e como asim seja que ho haviso 
<ia terra he ho seu centro e os tesouros das auguoas 
sam postos no mesmo luguar, que he ho seu próprio 
asento, segue-se que a terra tem auguoa dentro em sy e 
ho mar nam cerca ha terra, como Homero e outros au- 
tores diseram, mas antes a terra por sua grandeza tem 
-cercadas e inclusas todalas auguoas dentro na sua com- 



PEDRO ALVARES CABRAL i:)f 



Epifânio, na Introdução à sua edição do Esme- 
raldo^ afirmou: «...a redacção de Duarte Pa- 



cavidade e centro. E alem do que dito he, ha expe- 
riência, que he madre das cousas, nos desengana e de 
toda duuida nos tira; e por tanto, bemauenturado Prín- 
cipe, temos sabido e visto como no terceiro anno de 
vosso Reinado do hanno de nosso senhor de mil quatro- 
centos e noventa e oito, donde nos vossa alteza mandou 
descobrir a parte oucidental. passando alem ha grandeza 
do mar oceano, onde he hachada a navegada húa tam^ 
grande terra firme, com muitas e grandes ilhas ajacen- 
tes a ella, que se estende a setenie graaos de ladeza da 
linha equinocial contra ho pollo artico e posto que seja- 
asaz fora, he grandemente pouorada, e do mesmo cir- 
culo equinocial torna outra vez e vay alem em vinte e 
oito graaos e meo de ladeza contra ho pollo antartico,. 
e tanto se dilata sua grandeza e corre com muita lon- 
gura, que de húa parte nem da outra nam foy visio- 
nem sabido ho fim e cabo delia ; pello qual segundo ha 
hordem que leua, he certo que vay em cercoyto por 
toda a Redondeza; asim que temos sabido que das. 
pravas e costa do mar d'estes Reynos de Portugal e do 
promontório de Finis-Terra e de qualquer outro lugar 
da Europa e d' Africa e d'Asia hatravesando alem toda 
ho oceano direitamente ha oucidente, ou ha loest se- 
gundo hordem de marinharia, por trinta e seis graaos. 
de longura, que seram seiscentas e quarenta e oyto lé- 
guas de caminho, contando ha dezoyto léguas por graao^ 
e ha luguares algum tanto mais lonje, he hachada esta 
terra naueguada pellos nauios de vossa alteza e,. 
por vosso mandado e licença, os dos vossos vassalos e^ 
naturaes, e hindopor esta costa sobredita, do mesma 
circolo equinocial em diante, per vinte e oyto graaos de 



102 EXPEDIÇÃO DE 

checo está longe de ser um primor» (i). Esta 
passagem, salvo a hipótese, dalgum erro de có- 
pia, claramente o demonstra. Essa mesma ín- 



ladeza contra o pollo antartico he hachado nella munto 
e fino brasil com outras muitas cousas de que osnauios 
nestes Reynos vem grandemente carregados; e primeiro 
muitos annos que esta fose sabida nem descuberta, disse 
Vicente istorial no seu primeiro livro que se chama Es- 
pelho das historias no capitolo cento e satenta e sete : 
«Alem das três partes do orbe ha quarta parte he alem 
do mar oceano interior em ho meo dia em cujos termos 
os antipodes dizem que abitam» ; ora como asim seja 
que esta terra d'aleem he tam grande e d'esta parte 
d'aquem temos Europa, Africa e Ásia, manifesto he que 
ho mar oceano he metido no meo d'estas duas terras e 
fica medio-terrano ; pello qual podemos dizer que ho 
mar oceano nam cerca ha terra como os philosophos 
diseram, mas antes a terra deue cercar o mar, pois jaz 
dentro na sua comcavidade e centro; pello qual com- 
crudo que o mar oceano nam he outra cousa senam 
húa muito grande halaguoa metida dentro na comcaui- 
dade da terra, e ha mesma terra e ho mar, ambos jun- 
tamente, fazem húa Redondeza, de cujo meo saem mui- 
tos braços que entram pella terra, que medios-terranos 
sam chamados, e que isto creamos por verdade.» Pag." 
23 e 24. 

É curioso notar que Duarte Pacheco, invocando o 
valor da experiência, se decide no velho pleito entre a 
escola homérica e a de Hiparco pela opinião deste úl- 
timo. Afinal, só quando Gook terminou a experiência, 
após as suas largas exploraçõis pelo Pacificc», se viu 
<iefinitivamente que a razáo estava com Homero, 
(i) Obra e edição citada, pag. 12. 



PEDRO ALVARES CABRAL ID> 

congruência de redacção permitiu que logo de 
princípio se lhe não desse a importância mere- 
cida. Não obstante, se a incorrecção gramatical 
pôde deixar dúvidas quanto ao pensamento do 
escritor, ele depreende-se clara e logicamente 
das outras afirmações implícitas em cada frase, 
e que nós de propósito sublinhamos. O leitor 
não tem apenas de ler, deve construir com q 
pensamento. Quando êle nos refere a ordem para 
descobrir a parte ocidental, que o rei lhe deu 
(donde nos vossa alteia mandou descobrii" ha 
parte oucidental) já falara duma experiência 
desenganadora e dum facto sabido e visto em 
consequência dessa viagem (...aha experiên- 
cia... nos desengana... e portanto. . . temos 
sabido e visto co?no (isto é, que) no terceiro 
afino... y)). Estas consideraçõis de Duarte Pa- 
checo fazem daquela ordem um facto executado 
e constituem uma afirmativa irrecusável de rea- 
lização. 

Cremos nós que se poderia dar a este trecho, 
para a sua melhor compreensão, a seguinte 
paráfrase sintática: — Além disso a experiência, 
que é a mãe da verdade, nos desengana e de 
toda a dúvida nos tira. Assim, bem aventurado 
príncipe, nós o que vimos afirmamos, pois que 
no terceiro ano do vosso reinado, em mil qua- 
trocentos e noventa e oito, vossa alteza nos 
mandou descobrir a parte ocidental, passando 
além a grandeza do Oceano. Aí é achada e 



ID4 EXPEDIÇÃO DE 

navegada uma imensa terra firme com mui- 
tas e grandes ilhas adjacentes a ela, que se 
estende. . . 

Demais pode a Duarte Pacheco faltar a lógica 
sintática, mas sobra-lhe a lógica moral, eixo 
do seu carácter inteiriço. Homem do mais puro 
heroismo, com um desprêso da morte que lhe 
dá a força para realizar as insuperáveis faça- 
nhas do Oriente; dum espírito de justiça que 
o leva a reclamar do Rei com áspera nobreza 
o pagamento dos serviços aos seus compa- 
nheiros de Cochim, e a falar com extenso lou- 
vor dos feitos de Dom Vasco da Gama e, acres- 
centando, ao menos, a cada descobrimento o 
nome do descobridor; mas duma modéstia 
que o obriga a calar outras referências pes- 
soais em lugar onde eram claramente azadas, 
Duarte Pacheco nunca teria omitido o nome de 
Pedro Alvares, ao pé do seu, se legitimamente 
lhe coubessem as glórias do descobrimento. 
Mas ao cosmógrafo e ao navegante, que ^ tanta 
vez na sua obra louva Menelau, Anno Carta- 
ginense e Eudoxo, os primeiros que, segundo 
os antigos realizaram o périplo africano, «de 
que os autores ha trás fazem grande festa e 
mençam» (i), que não pode ter ilusões sobre o 
mérito dos seus cometimentos, antes sabe 



(i) Obra e edição citada, pag. 17. 



PEDRO ALVARES CABRAL l5S 

quanto mais tarde se hão de celebrar os nomes 
dos que realizaram navegações longas e arris- 
cadas, pesa que de futuro uma razão de Estado 
possa prevalecer às da justiça e da verdade. 
Mais que o amor próprio, móve-o a nobreza 
de carácter. Mais que um espirito glorioso de 
si mesmo, um nobre espirito scientiílco, em 
tudo cuidoso da verdade, lhe desata a pena 
sóbria. 

Aqui, pois, a verdade histórica não resalta 
duma única frase, mas conclue-se logicamente 
de toda a vida e obra do escritor. 

Estas razões, para nós concludentes, levam- 
-nos a estabelecer como facto assente a viagem 
de Duarte Pacheco à América, em 1498. Qual 
a região da «quarta parte» que o navegante 
visitou } Conforme cremos, a sua mesma obra 
contém resposta para esta pregunta. Pacheco 
fez do capitulo 7." do primeiro livro do Esme- 
raldo uma táboa em que aponta os graus de 
lade^a^ em relação aos pólos ártico e antártico^ 
de vários lugares da Europa, Ásia e Africa. 
Termina referindo, numa relação aparte, os 
graus de lade\a de 18 ilhas, cabos, angras, rios 
e portos «da terra do Brasil d'aleem do mar 
Oceano» entre 3 e 28 graus, contra o pólo an- 
tártico. Por certo que se o cosmógrafo tivesse 
visitado outros pontos da América, não deixaria 
de apontar-lhes nesse longo capitulo os graus de 
ladeia respectivos, concluindo, assim, que a 



l56 EXPEDIÇÃO DE 

sua viagem de 1498 foi de descobrimento ou 
talvez mais propriamente de reconhecimento ao 
mesmo Brasil. 

Mas, dir-se-ha, i como se compreende que 
Duarte Pacheco reahzasse uma viagem ao con- 
tinente americano, sem que os cronistas men- 
cionem um facto de tão grande alcance ? O 
mesmo silêncio guardado em relação a outras 
expedições imediatamente anteriores ou poste- 
riores tira a essa objecção todo o valor. Sa- 
bemos hoje que uma politica de sigilo seve- 
ríssimo acautelava os interesses nacionais das 
vastas cubicas dos estranhos. E é devido aos 
secretos informes que os italianos de Lisboa 
transmitiam para as suas metrópoles que hoje 
podemos pouco a pouco reconstituir uma par- 
te da nossa obra, desconhecida e imensa. 

Assim é que os arquivos estrangeiros tem 
nos últimos anos revelado uma série de do- 
cumentos, que dão aos nossos descobrimentos 
uma amplitude de plano e realização, que as- 
sombra pelo arrojo e persistência, mas que os 
nossos cronistas inteiramente calaram ou des- 
conheceram. Os materiais para a história dos 
descobrimentos portugueses são actualmente 
tantos e tais, que é necessário reescrevê-la por 
inteiro. A glória de Colombo empalidece dia a 
dia. E os mesmos estrangeiros, que tantas ve- 
zes têem depreciado a obra das navegações 
portuguesas, nos começam a fazer justiça. Já 



PEDRO ALVARES CABRAL iSy 



Vignhaud, o historiador americano, aceita a prio- 
ridade do descobrimento do Brasil por Duarte 
Pacheco e até a possibilidade de ter sido desco- 
berto em data anterior por outros navegantes 
portugueses. Todavia, não só Vignhaud se refere 
a este problema por forma assas sumária, como 
termina por uma conclusão inaceitável. Porque 
as suas palavras estão intimamente ligadas ao 
nosso estudo, não podemos deixar de lhe fa- 
zer uma referência demorada. «11 va de soi, 
diz Vignhaud, qu'il ne s'agit ici que de la décou- 
verte du Bresil par les Espagnols, car les Por- 
tugais revendiquent, non sans quelque raison, 
Ia priorité de cette découverte. Des documents 
anciens, tels que des concessions royales de 
terres nouvelles découvertes ou à découvrir dans 
la mer Océane, des temoignages respectables 
comnie ce de Fructuoso et de Duarte Pacheco, 
des cartes de la première partie du xv® siècle, 
comme celles de Becharia et de Bianco, des le- 
gendes três répandues et des indications de dif- 
ferents genres autorisent Passertion, la supposi- 
tion, si Ton veut, qu'avant les expeditions connues 
de Vespuce, de Pinzon, de Lepe et même de 
Cabral, quelque-uns de ces hardis et aventureux 
Portugais qui navigaient alors en grand nom- 
bre, de Lisbonne aux iles du Cap Vert et à la 
Guinée, avaient aborde, par hasard ou en cher- 
chant fortune, à la cote brésilienne qui est si 
rapprochée de celle de TAfrique Occidentale. 



l58 EXPEDIÇÃO DE 

Ge n'est pas ici le lieu de discuter la valeur des 
preuves ou indications ainsi fournies et des 
conséquences qu'on en peut légitemement dé- 
duire. Un erudít portugais les a toutes réunies 
avec soin et les a commentées judicieusement. 
Nous renvoyons à ce petit, mais substantiel ou- 
vrage pour un expqsé complet de la question.»^ 
Em nota, Vignhaud declara o nome da obra : 
A Descoberta do Bra^il^ por Faustino da Fon- 
seca, sobre a qual pronuncia o seguinte juizo : 
«Ouvrage substantiel qui dans un cadre restreint 
contient un nombre considérable de faits bien 
controles^ la plupart peu connus.» (i) A seguir,. 
o historiador americano afirma «En ce qui con- 
cerne Cabral, disons toutefois, qu'il ne saurait y 
avoir aucun doute sur le fait qu'il nest par le 
premier décoiivreiír portugais du Brésil.y> Ba- 



(i) Vignaud faz uma pequena restrição nos louvores 
à obra de Faustino da Fonseca, a de não ter conhecida 
os trabalhos em hnguas estrangeiras referentes aos as- 
suntos que tratava. Pode-se igualmente dizer de Vi- 
gnhaud que tem um conhecimento muito precário da 
documentação portuguesa sobre as mesmas questões. 
Náo obstante termos por um pouco exagerado o seu 
juizo sobre Faustino, e demasiadamente ligeira a forma 
porque trata o problema, folgamos de ver que se começa 
a prestar justiça ao homem, que, mau grado a facili- 
dade de certas afirmações, tanto abriu o caminho a 
àqueles que tiverem de tratar definitivamente de his- 
tória do descobrimento da América. 



PEDRO ALVARES CABRAL 169 

-seia-se Vignaud para fazer esta afirmação em 
dois testemunhos a que chama «irrecusáveis», 
— o Esmeraldo de Duarte Pacheco e a carta 
-de mestre João, físico. 

Verdadeiramente curiosa é, no entanto, a 
-conclusão que tira : «Mais cette priorité n'a 
aucune importance. Une decouverte n'est eíFe- 
ctive, que losqu'elle a une suite. Qu'importe 
•que Pacheco et d'autres aient vu le Bresil les 
premiers, si personne ne Pa su, si on n'a pas 
pris acte ? Qui peut dire combien de fois les 
Antilies ont eté vues, avant la grande entre- 
prise de Colomb, par des pilotes égarés ou 
aventureux dont les noms sont restes inconnus ? 
La decouverte en pareil cas, est comme si elle 
n'avait pas eu lieu ; celle de Cabral étant la 
seule qui ait été constatée par des documents 
authentiques, la seule dont le Portugal ait repris 
acte et qu'il ait notifie'e au monde, est la seule 
qui compte. Remarquons aussi que Cabral est 
le seul qui donne um nom à la region à laquelle 
il avait aborde.» (i) Se Vignhaud soubesse que 
os descobrimentos portugueses se fizeram se- 
gundo um vasto plano nacional, e não pela sim- 
ples aventura ou com o fito exclusivo de pro- 
curar fortuna, como supõe, outras, porventura, 



(i) As citações que fazemos de Vignhaud referem-se 
todas à sua obra Americ Vespuce, de pag. 143 a 145. 



l6o EXPEDIÇÃO DE 

seriam as suas conclusões. Demais o sigilo 
sobre as viagens anteriores visava exactamente 
a sequência e a posse. Ao contrário de Vi- 
gnhaud, supomos que a viagem de Cabral só 
por si pouco prova e antes deve ser, para sua 
compreensão total, incorporada no grande pla- 
no, de que as viagens anteriores fazem logica- 
mente parte. A nosso ver ainda, o que dentro 
da história e da sciência determina a prioridade 
dum descobrimento é, não a posse que êie re- 
presenta, circunstância essa de ordem politica, 
mas o carácter scientííico que a ele preside. 
A competência do descobridor, a intenciona- 
lidade, o conhecimento de causa e os prece- 
dentes de plano e de organização, eis os dados 
que, em nossa opinião, podem definir um desco- 
brimento como um verdadeiro facto histórico 
e scientifico. São essas precisamente as circuns- 
tâncias que hoje dão à empresa nacional dos 
portugueses um tão elevado alcance na história 
do descobrimento do planeta. Se assim não 
fosse, e apenas o acto de posse validasse um 
descobrimento, teríamos de riscar do número 
dos descobridores homens como Cook, Nor- 
denskjõíd, Nansen e tantos outros, cujas em- 
presas tiveram um carácter puramente scienti- 
fico. Equivalia a negar quási toda a série de 
viagens e explorações realizadas desde a se- 
gunda metade do século xviii até aos nossos 
dias. 



PEDRO ALVARES CABRAL l6l 

Notemos ainda que, sob esse ponto de vista, 
Duarte Pacheco é um verdadeiro precursor. 
Marca para a sua época a mais lata concepção 
scientífica dos descobrimentos. Definindo o ca- 
rácter humano das navegações e estudos geo- 
gráficos, e participando desse espirito, anteci- 
pou-se mais de dois séculos ao seu tempo. 

Ao contrário de Vignhaud, o dinamarquês 
Sophus Larsen, numa obra recente, Dinamarca 
e Portugal no século X F, julga poder fixar em 
época muito anterior as primeiras conscientes 
tentativas portuguesas na direcção ocidental. 
Todo o trabalho do ilustre escritor gira em 
volta duma carta de Carten Grip, burgomestre 
de Kiel, datada de 3 de Março de i55i e diri- 
gida ao Rei Cristiano III. Nessa carta Carten 
Grip refere-se a uma viagem, realizada pelos 
escandinavos Pining e Porthorst, para o que 
«foram providos de alguns navios pelo augusto 
Avô de Vossa Majestade Real, o Rei Christiano 
Primeiro, para, a convite de Sua Magestade 
Real, o Rei de Portugal, procurarem novas 
terras e ilhas nos mares do Norte. y) (i) Sophus 
Larsen, depois de reunir e comentar uma nu- 
merosa documentação, que confirma ou escla- 



(i) Foi publicada pela primeira vez pelo Dr. Louis 
Bobe, em 1909, no Danske Magapn 5 R. Tomo 6, 
pág. 3o3. No tempo de Cristiano I reinava em Portugal 
D. Afonso V. 



102 EXPEDIÇÃO DE 

rece este facto, conclui que essa expedição se 
fez com o tim de atingir a índia pela passagem 
do noroeste; que os navegadores, tendo partido 
dos íiords da Islândia, visitaram as costas oci- 
dentais da Groenlândia (e, por consequência, q 
estreito de Davis), a Terra Nova e a foz do 
S. Lourenço; que a bordo iam certamente por- 
tugueses ; e que estes deviam ser João Vaz 
Corte Real e Álvaro Martins Homem, circuns- 
tância esta que o auxilia a concluir que a via- 
gem se realizou em 1472 ou 1473. 

Manifesta ainda o ilustre escritor a opinião 
de que esse plano foi concebido pelo Infante 
D. Henrique e que este procurou relações com 
a corte de Dinamarca e Noruega, que um ou- 
tro documento prova existirem já de facto no 
tempo de D. Afonso V, época em que se rea- 
liza a expedição. Sem querermos aqui entrar 
no exame da obra de Larsen, que vem confir- 
mar a autenticidade de outros documentos e in- 
dícios e abalar as afirmações de Harrisse quanto 
à provável viagem de João Vaz Corte Real à 
Terra Nova, diremos que o seu trabalho mostra 
suficientemente que, antes de Colombo, nós 
conhecíamos o continente americano, e talvez 
sem a ilusão do genovês de que se tratava do 
extremo oriental da Ásia. 

Que a D. Henrique preocupasse o pensa- 
mento de descobrir um continente naquela di- 
recção, confirma-o Diogo Gomes, seu con- 



PEDRO ALVARES CABRAL l63 

temporâneo e criado quando afirma na sua 
Relação que o grande Infante, no desejo de co- 
nhecer os limites do Oceano ocidental, mandara 
caravelas a descobrir ilhas e terra firme, insu- 
tas an terram firmam^ além da descrição de 
Ptolomeu (i). Além disso os monumentos car- 
tográficos da época como o mapa de Becharia e 
os dois de Bianco deixam supor o conhecimento 
de ilhas ao ocidente e até da terra firme ameri- 
cana, ainda que na suposição bem natural de 
que se tratava de terras insulares. Ao visitar, 
em 1472 ou 73, a foz do S. Lourenço, como crê 
Larsen, os portugueses teriam aí colhido os 
primeiros indícios duma região continental. 
Vinte anos antes de Colombo, pois, já os por- 
tugueses deviam conhecer mais que as Antilhas 
a terra continental da América. 

Em 1488 dobra Bartolomeu Dias o Cabo da 
Boa Esperança, e só nove anos depois desse 
extraordinário acontecimento e mais de quatro 
após a chegada de Colombo, de regresso da 
primeira viagem, Vasco da Gama parte para o 



(i) «Em tempo o Infante D. Henrique, dãsejando co- 
nhecer as regióis afastadas do oceano ocidental, se 
acaso haveria ilhas ou terra firme alem da descrição de 
Ptolomem, enviou caravelas para procurar terras.» A$ 
relaçõis do descobrimento da Guiné e das ilhas dos Aço- 
res, Madeira e Cabo Verde, versão do latim por Gabriel 
Pereira, pag. 28. 



164 EXPEDIÇÃO DE 

definitivo descobrimento do caminho marítimo 
para a índia. Não referem os cronistas durante 
esse longo intervalo façanha descobridora nossa 
digna de mencionar-se. Todavia é em 1494 
que se assina o tratado de Tordesilhas entre os 
Reis Católicos e D. João II, tão longamente 
disputado, e pelo qual finalmente nós consegui- 
mos uma demarcação que abrange na nossa 
esfera os vastos territórios do Brasil. 

É, porventura, crivei que o activíssimo mo- 
narca por tão largo período suspendesse as 
explorações navegadoras? E que êle sistemati- 
camente se obstinasse em alcançar a índia, con- 
tornando a Africa e recusando assim os planos 
de Toscanelli, de Colombo e Monetário, que 
lhe aconselhavam a rota do Ocidente, e ao 
mesmo tempo com tamanho ardor tivesse 
porfiado em obter contra a primeira demar- 
cação uma outra que abrangesse aquela parte 
austral do continente americano, sem o seu 
conhecimento prévio? Os mesmos Reis Ca- 
tólicos escreviam a Colombo, durante as ár- 
duas negociações, que depois da prática com 
os portugueses diziam vários que a sudoeste 
existiam ilhas ou um continente mais rico 
que todos os outros, (i) Mais nos confir- 



(1) «Y porque despues de la venida de los Portugue- 
ses en la plática que con ellos se ha habido, algunos 



PEDRO ALVARES CABRAL l65 

•ma nessa suposição as cartas de mestre João 
•e Estevão Frois. Na primeira, escrita a i de 
Maio de i5oo, do Brazil, o físico da expedi- 
ção de Pedro Alvares, ao falar a D. Manuel 
da terra descoberta, diz: «quanto senor ai sy- 
tyo desta terra mande vosa alteza traer un na- 
pamundi que tyene pêro vaaz bisagudo e por 
ay vera vosa alteza o sytyo desta terra, empero 
aquel napamundi non certyfica esta terra ser 
habytada, o no: es napamundi antiguo e ally 
hallará vosa alteza escrita tam byen la mina. . . » 
Isto supõe que muito antes de i5oo se conhe- 
cia aquela mesma região. Por outro lado, se- 
gundo a carta de Estevão Frois a D. Manuel, 
escrita de S. Domingos das Antilhas, existente 
no Arquivo Nacional, já mais de vinte anos an- 
tes da sua data, 1 5 14, os portugueses conheciam 



quieren decir que lo que está eii médio desde de la punta 
que los Portugueses llaman de Buena Esperanza, que 
está en la rota que agora ellos llevan por la Mina dei 
Oro e Guinea abajo hasta la raya que vos dijistes que 
debia venir en la Bula dei Papa, piensan que podrá ha- 
ber Islãs y aun Tierra firme, que segun en la parte dei 
sol que está, se cree que seran muy provechosas v mas 
ricas que todadas las otras; y porque sabemos que desto 
sabeis vos mas que otro alguno, vos rogamos que luego 
nos envieis vuestro parecer en ello, porque si conviniere, 
y os pareciere que aquello es tal negocio cual acá pien- 
san que será, se enmiende la Bula.» Navarrate, tomo lí 
pag. 109. 



l66 EXPEDIÇÃO DE 

OS litorais do norte do Brasil (i). Quere dizer, 
pois ^ue, pelo menos à data do tratado de Tor- 
desilhas, haviam aumentado já os nossos conhe- 
cimentos do novo continente. Finalmente o m.apa 
de Cantino, de origem portuguesa, feito em 
i5o2 em Lisboa e enviado ao duque de Fer- 
rara por aquele seu agente, no qual se repre- 
senta o litoral da América desde a Groelândia. 
até ao sul do Brazil, revelando conhecimen- 
tos do continente americano muito superiores 
aos dos navegantes espanhóis, supõe uma sé- 
rie de explorações, que os nossos cronistas, uns 



(i) «e lhes perguntavam no tormento se vínhamos de 
Portugal com intenção de entrarmos em terras dél-rei 
deCastela. Responderam que não e que vinham a desco- 
brir terras novas de V. A., como tinham dito em seus 
interrogatórios, e a-pesar disto, senhor, nos não que- 
rem despachar nem nos quizeram receber a prova do 
que alegávamos, como V. A. possuía estas terras ha 
vinte anos e mais e que já João Coelho, o da porta da 
Cruz, visinho da cidade de Lisboa, viera por onde nós 
outros vínhamos a descobrir e que V. A. estava de posse 
destas terras por muitos tempos e que o assento quanto 
a limites era que da linha equinocial para o sul perten- 
cia a V. A. e da mesma linha para o norte a el-rei de 
Castela e nós não passáramos a linha equinocial nem 
chegáramos a ela com i5o léguas... Carta de Estevão 
Fróis a D. Manoel I, tentativa de tradução de português 
arcaico para português moderno, pelo dr. António 
Baião, ín História da Colonisação portuguesa no Brasil, 
Introdução, pag. XVLI. 



PEDRO ALVARES CABRAL l6j 

desconheceram, outros de propósito calaram. 
Nesse mapa surge-nos pela primeira vez deli- 
neada grande parte das costas dos Estados Uni- 
dos da América do Norte, incluindo a Flórida, 
•onde só volvidos pelo menos uns seis anos, o 
primeiro navegante castelhano havia de chegar. 
Aos navegantes espanhoes nenhum motivo acon- 
selhava o silêncio sobre os descobrimentos rea- 
lizados. Não é, pois, de crer que o mapa de 
Cantíno nessa parte, demais traçado em Portu- 
gal, revelasse outros conhecimentos que não os 
dos navegantes portugueses. Acrescente-se que 
já em iSoi, segundo se depreende duma carta 
de Pasqualigo ao senado veneziano, relatando a 
-chegada dum dos navios de Gaspar Corte Real 
no regresso da Terra Nova, nós possuíamos 
o segredo da continentalidade americana (i). 
Esta série de indícios, que podíamos largamente 
continuar, contirmando-se mutuamente, provam 
-que nós muito antes da Espanha possuímos, 
mas ciosos calámos, o conhecimento das vastas 
terras do ocidente, além do mar oceano. 

Ao plano dessa e outras explorações, ante- 
riores e posteriores, que nos deram o conheci- 



(i) «qual terra. . . etiam credono coniungerse con le 
Andilie, che furono discoperte per li reali de Spagna, et 
con la terra dei Papagá, noviter trovata per la nave di 
questo ré che andavono in Calicut...». Marino Sanuto^ 
Diarii, códice Marciano^ vii, 228. 



l68 EXPEDIÇÃO DE 

mento do continente americano, pertence ainda,, 
segundo cremos, além da viagem de Duarte Pa- 
checo, a de Cabral. Após a viagem do Ga- 
ma, que trouxe, com os informes dos pilotos 
indianos e de Gaspar da índia, vastos conhe- 
cimentos geográficos sobre o extremo Orien- 
te, o velho problema da passagem pelo Oci- 
dente deve ter preocupado de novo os portu- 
gueses. A carta de Américo Yespúcio, escrita de 
Cabo Verde, no começo da viagem de i5oi, 
revela-nos que já nessa data tínhamos notícia 
das ambicionadas Molucas. E se êle claramente 
diz que o fim da expedição de i5o3 era atingir 
Malaca pelo sudoeste, igualmente se infere que 
pensava já em alcançar essas regiões com a 
expedição de i5oi, pelo que afirma na carta 
de Cabo Verde. Depois de ter referido a notí- 
cia das terras indianas, que soubera por Gas- 
par da índia, acrescenta «E io tengo speranza 
in questa mia navigazione rivedere, e correre 
gran parte delsopradeto e discoprire molto piú 
e alia mia tornata daró di tutto buona e vera 
relazione.» (i) Para Vignhaud esta mesma frase 
torna a carta suspeita, pois nas duas outras sobre 
essa expedição Vespúcio não refere aquele inten- 
to. Esse facto indica apenas que, dado o malogra 
das suas altas esperanças, ele os calou, ao relatar 



(i) Vignaud, Americ Vespuce, pag. 406. 



PEDRO ALVARES CABRAL 169 

a expedição, o que é de todo ponto natural. 
Além de que a carta tem, como provámos, os 
mais claros caracteres de autenticidade, aqueles 
dizeres são inteiramente confirmados por Go- 
mara, quando afirma que foi, em i5oi, que o 
Rei D. Manuel encarregou Vespúcio de procu- 
rar uma passagem para as Molucas, nas para- 
gens do Cabo de Santo Agostinho, (i) Temos, 
pois, para nós, que a expedição de i5oi, logo 
seguinte à de Cabral, já visava muito provavel- 
mente aquele fim. Aquela data os portugueses, 
que dentro em pouco podiam traçar o mapa de 
Cantino, deviam saber que se houvesse alguma 
passagem praticável pelo Ocidente, só era pos- 
sível encontrá-la para o Sul. Assim Cabral, an- 
tecipando-se aos espanhóis, que já se aproxi- 
mavam do Brasil pelo Norte, ia tomar posse 
duma região duplamente estratégica, em relação 
à índia, quer por servir de escala na viagem 
pelo cabo da Boa Esperança, quer por assegu- 
rar uma suposta passagem pelo sudoeste. 

Qual a função, pois, de Duarte Pacheco, o 
grande navegante e cosmógrafo, nesta expedi- 
ção? Porque se calaram os cronistas sobre a 
sua viagem anterior e sobre o seu papel na de 
Cabral ? 



(i) Historia de las índias^ edição de i55^, cap. 87, 

foi. [!3. 



170 EXPEDIÇÃO DE 

A semelhança das espécies várias, que con- 
servam em pura perda e prejuízo certos meios 
de defesa que a evolução tornou inúteis, assim 
Portugal permaneceu fiel ao instinto que o le- 
vava a esconder os seus planos e desígnios, de 
tal sorte que veio a prejudicar-se no futuro, 
quando chegou a hora de reivindicar a sua 
obra. Não se compreende também que Rui de 
Pina e Resende escondam, por exemplo, a 
notícia circunstanciada da empresa de Bar- 
tolomeu Dias, por certo conhecida deles, ou 
da viagem de Pêro da Covilhã e Afonso 
de Paiva, das negociações de Tordesilhas, do 
projecto de D. João II de enviar à América 
uma armada comandada por D. Francisco d'Al- 
meida (1) e de tantos outros factos, da mais 
alta importância, se não em obediência a um 
velho hábito contraído em anos de sigilo. De 
tal maneira sobre determinados factos, que im- 
portava esconder, abundam os documentos 
adrede fabricados e faltam os únicos capazes 
de os esclarecer que temos de supor um cui- 
dado extremo em propositadamente os seques- 
trar. Felizmente que Veneza espiava e os em- 
baixadores alviçareiros noticiavam às metrópo- 
les respectivas as façanhas, que nós outros, 
ocultávamos tão avaramente. Só uma alta cons- 



(1) Barros, Década l, livro 111, cap. XI. 



PEDRO ALVARES CABRAL I7I 

ciência nacional, convicta de que por então o 
silêncio mais que a vanglória aproveitava, po- 
dia realizar esse heroísmo tão contrário à pró- 
pria natureza humana de calar algumas das 
suas mais lídimas façanhas. 

D. João II, no seu nacionalismo ciosíssimo, 
quis esconder do mundo o próprio mundo. Por 
tantos títulos representantes do Renascimento, 
êie traía nesse ponto o espírito da Época. Ao 
italiano da Renascença, cujo livre individualismo 
não conheceu limites e em cujo espírito o con- 
ceito de pátria era tão deslaçado, mas possuidor 
em alto grau do sentido cosmopolita, estava des- 
tinado, ao descobrir-nos os segredos, revelá-los 
e enfeitar-se com as glórias deles. Valha a ver- 
dade, nós o vimos, a Génova e Florença cabia, 
de justiça, boa parte dessa glória. A política do 
Príncipe Pej^feito realizou, mau grado seu, 
esses votos imanentes da História, permitindo 
que a um genovês se atribuísse o descobrimento 
do Novo Mundo e lhe desse o nome um floren- 
tino. Dir-se hía que uma justiça superior aos 
homens e aos povos tentou compensar os sacri- 
fícios isolados duns e o demasiado zelo nacio- 
nalista de outros. Em troca da glória do desco- 
brimento e nome do Novo Mundo, o naciona- 
lismo português frutificou numa das maiores 
nações americanas. E não é esse, por certo, um 
dos sacrifícios menos duros que essa nação ficou 
devendo ao nosso doloroso esforço de criá-la. 



ORGANIZAÇÃO E OBJECTIVOS 
DA EXPEDIÇÃO 



Em verdade, só agora podemos abranger a 
organização e objectivos da armada de Cabral 
no vasto âmbito dos elementos que a com- 
põem e das circunstâncias que a determinaram. 
A nação atingira, como vimos, o máximo do 
poder criador. O carácter nacional, cujas raí- 
zes mergulhavam ainda na memória do Santo 
Condestável, formara-se na escola e pelo tipo 
do Infante Navegador e do Príncipe Perfeito, 
— áspero, puro, reflectido e apto a sacrificar-se 
em tudo às geniais razoes de Estado, que diri- 
giam a nação. Ao alto o Rei, de fresca data, 
colhidos os frutos do trabalho secular da grei, 
delirava de ambição triunfante. O imenso piano 
nacional atingia a maturação perfeita. Em meio 
do pasmo ou da inveja dos estranhos, favore- 
cida duns e ainda mais estorvada pelos outros, 
a nação radiava na plena posse e realização dos 
seus desígnios. Com efeito, só incorporando a 



174 EXPEDIÇÃO Dt: 

expedição de Pedro Alvares Cabral no plano de 
D. Joáo íí, ela ganha significado inteiro. Vista 
assim, pode considerar-se como a primeira e 
clara afirmação duma política sábia e oculta- 
mente realizada. Pedro Alvares é o Oedipo oíi- 
cial da esfinge dos descobrimentos portugueses. 
Veneza e a Espanha sabiam, emfim, com de- 
cepção e assombro, o segredo que levara 
D. João ÍI conjuntamente a teimar no desco- 
brimento do índia pela Africa e a defender 
presumidas terras no Ocidente, com amea- 
ças de expedições armadas e a incompreendida 
intransigência dos nossos delegados em Tor- 
desilhas. 

Sobe alfim o pano desvelando o scenário 
magnifico, que abrange as costas" de três con- 
tinentes; e o arauto, que adrede se escolheu, 
nobre, magnânimo, vistoso, surge a boca da 
scena, anunciando com solenidade a grande 
peça que vai representar-se. Nem se julgue que 
o facto de apear Pedro Alvares Cabral do seu 
pedestal de primeiro descobridor do Brasil lhe 
diminui o valor dentro dir obra nacional. Ao 
contrário. Florão de abóbada, indica ao mundo 
o ponto central e culminante de tantos dos 
nossos feitos, na aparência ilógicos. Pedro 
Alvares inicia o grandioso drama, que epilo- 
gava com a própria morte da nação : o impé- 
rio económico português, aproveitando a base 
naval da Brasil e o oiro da Mina e de Sofala 



PEDPO ALVARES CABRAL 17^ 

para a conquista de todo o comércio do Oriente. 
Até as cerimórias de Santa Cruz, seguidas da 
carta de D. Manuel para os Reis Católicos, dão 
a quem detidamente as lêr a impressão duma 
scena preparada. 

Demais, a preparação e a elaboração lenta 
duma vasta obra reconhecem-se a cada passo. 
As figuras principais da armada, os que capi- 
taniam e dirigem, pertencem, uns — Pedro Al- 
vares, Simão de Miranda, Aires da Silva, Si- 
mão de Pina, Duarte Pacheco, Aires Corrêa — 
a velhas famílias, cuja servidora lealdade re- 
sistira incólume à terrível crise do século xiv 
ou entravam outros, como os irniáos Dias, Ni- 
colau Coelho e ainda Pacheco na plêiade dos 
fortes navegadores do périplo africano, do des- 
cobrimento da índia e do Novo Mundo, ou re- 
presentavam, como Sancho de Tovar, a aspira- 
ção universalista da coroa, na sua forma mais 
sedutora e perigosa. 

' Enxameavam, por certo, os pilotos, mestres, 
matalotes do Caminho da Mina, da Guiné, da 
índia, das ilhas e da América. Expedição que 
visava fins religiosos, levava a bordo os mis- 
sionários franciscanos, presididos pela figura 
venerável de Fr. Henrique, frade-orador, sa- 
cerdote e aedo, à maneira antiga, que ao che- 
gar ao Brasil podia erguer pela primeira vez 
naquela terra, com a arte sublime da palavra, 
«uma solemne e proveitosa pregação da histo- 



I 7 6 EXPEDIÇÃO DE 

ria do evangelho e ao íini dela. . . da. . . vinda 
e do achamento desta terra...» (i). Nem lhe 
faltava, como expoente máximo da raça, aquela 
alma gémea de Bernardim e de Camões para 
escrever, com homérica frescura, a primeira 
estrofe dos Lusíadas do Ocidente, que se chama 
a carta de Caminha. 

Por outro lado, muito ao contrário do que 
afirma Vespúcio na carta de Cabo Verde, au- 
tenticando-a com a sua jactância costumada, 
ao dizer «perche non fu in essa frotta cosmó- 
grafo nè Mattematico nessuno, che fu grande 
errore», a armada levava um cosmógrafo de 
tam alta envergadura como Duarte Pacheco e 
ainda mestre João, físico, que segundo todas 
as probabilidades era astrólogo de El-Rei e 
traduziu em castelhano, língua da sua natura- 
lidade, o livro da Geografia e Cosmografia de 
Pompónio Mela, cujo manuscrito existe na Bi- 
blioteca da Ajuda (2). 

Iam ainda, segundo Castanheda, i:5oo ho- 
mens de armas e cavaleiros fidalgos, como 
Vasco da Silveira e João de Sá, este último que 
acompanhara já Vasco da Gama, pois, no dizer 
de Barros, a frota ia «mui poderosa em armas 
e em gente luzida». Além de -Gaspar da índia, 



(i) Carta de Caminha, m Alg'ims Docut?ientos,pá.Q. ii3. 
(2) Trabalhos náuticos dos portugueses, Sousa Vi- 
terbo, vol. II, pág. 285. 




Retrato de Pedro Alvares Cabral, reproduzido dos VarÔh e Donas 



PEDRO ALVARES CABRAL I77 

ííeguiam ainda como intérpretes, pelo menos, 
Gonçalo Madeira de Tanger, já experimentado 
no mister, e um grumete negro da Guiné. Nem 
nos esqueçam os 20 degredados que durante 
a viagem haviam de ser deixados em terra, 
onde fosse mister aprender a língua ou colher 
informes. Na maioria das vezes pagavam li- 
geiríssimas faltas com gravosas penas. Alguns 
deles, como João Machado, prestavam adeante, 
com lealdade e zelo inestimável, os maiores 
serviços nas contendas da índia; ou aprendiam, 
como um dos que ficou em Santa Cruz, as in- 
dígenas línguas nunca ouvidas. 

A armada compunha-se de treze embarca- 
ções, naus, navios mais pequenos e três navios 
redondos, que, se empregavam, como é sabido, 
no descobrimento das costas e dos rios. A 
construção das naus ganhara com as experiên- 
cias anteriores. Duarte Pacheco dedica todo o 
2.^ capítulo do 4.'' livro do Esmeraldo aos cui- 
dados minuciosos que se empregaram em cons- 
truir, prover de gente e aparelhar os navios 
que foram à índia com o Gama, e no capítulo 
adiante declara que as armadas seguintes foram 
«tam bem haparelhadas como as primeiras e 
muito melhor». 

Informa João de Barros que o navio de Pêro 
de Ataíde se chamava S. Pedro e o de Nuno 
Leitão, Ammciada. Chamava-se um outro 
El Rei^ e temos todas as razões para crer que 



178 EXPEDIÇÃO DE 

era a nau grande do comando de Sancho de 
Tovar. (i) Em artilharia, munições, aparelho 
e mantimentos a armada levava o máximo e o 
melhor que era possível àquele tempo. Os co- 
fres, maiormente o do capitão-mór e do feitor, 
abarrotavam e reluziam de oiro amoedado— os 
justos e os espadins de D. João II, os cruza- 
dos e os portugueses de D. Manuel, os últimos 
dos quais já celebravam o descobrimento da 
índia, e ainda fora do reino, a3 dobras caste- 
lhanas, os florins de Aragão, as coroas fla- 
mengas, os ducados de Veneza ou Roma e 
até a dobra mourisca ou valedia. Os capitães 
íidalgos levavam ricos vestidos para as re- 
cepções em estofos de Veneza, de Florença e 
Flandres, adornos de oiro e numerosa baixela 



(]) Segundo a Relação do piloto anónimO; a armada, 
após a tempestade em que sossobraram quatro naus, 
fracionou-se em três partes, acrescentando que num dos 
grupos ia o capitão mór e no outro a nau El-Rei. Cas- 
tanheda, confirmando, esclarece que a terceira parte era 
constituida pelo navio de Diogo Dias, que para sempre 
se apartou da armada, e que no segundo iam Sancho 
de Tovar e Nuno Leitão. Sendo assim, sabido o nome 
da nau de Nuno Leitão, a nau El-Rei pertencia ao sub- 
-comandante. Ainda mesmo, quando ao segundo grupo 
pertencesse um terceiro navio, como se depreende da 
Relação do piloto anónimo, este, ao citar uma nau, re- 
feria-se por certo à de Sancho de Tovar, a qual sabe- 
mos ser das mais notáveis da armada. 



PEDRO ALVARES CABRAL 179 

de prata para o seu serviço. E na nau de Cabral 
amontoavam-se para os presentes aos monarcas 
de Melinde e da índia, bacias e gomis de prata 
com bastiães dourados, os arreios de prata, as 
maças com as suas cadeias, tudo em prata, 
vistosas almofadas de brocado e de veludo car- 
mezim, dóceis franjados de oiro, tapetes e pa- 
nos de Arraz opulentíssimos. O que de melhor 
a sumptuária nacional e a estrangeira impor- 
tada podiam fornecer acomodava-se nos almo- 
freixes de bordo, para que a armada tivesse o 
cunho duma embaixada solene e aparatosa. Os 
armazéns do florentino Marchioni haviam de 
ter despejado ali as jóias, os panos, as alfaias 
mais ricas que os seus agentes de toda a Eu- 
ropa lhe enviavam. 

As instruções do capitão-mór, das quais, 
como dissemos, chegaram até nós dois trechos, 
€ que podem ainda completar-se em parte com 
as instruções conge'neres de D. Francico de 
Almeida, Fernão Soares e Diogo Lopes de Se- 
queira, revelam tanto pela vasta concepção do 
plano como pelo ordenar dos mínimos detalhes 
e previsão de acidentais estorvos, uma perfeita 
-Segurança e plenitude de método e de esforços, 
aplicados ao objectivo a realizar. Começam 
essas instruções por determinar o alardo da par- 
tida, e, a seguir a maneira que se deve ter na 
vigia de fogo, no regimento dos mantimen- 
tos, com as chaves dos paióis, na repartição 



l8o EXPEDIÇÃO DE 

do vinho aos marinheiros, com as salvas e 
os sinais para a frota, durante toda a viagem 
e depois a derrota e acidentes possiveis, termi- 
nando com os objectivos da expedição, defini- 
dos e esmiuçados com previsão inexcedivel. E, 
se a carta de capitania-mór concedia a Pedro 
Alvares poderes inteiros e severos de justiça, 
limitados apenas para os nobres, as instruções 
em mais que um passo patenteiam irm cuidado 
paternal pelas tripulações. 

Notemos ainda que, a crermos Gaspar Cor- 
reia, o pagamento adeantado duma parte dos 
ordenados, que ia até um ano de vencimentos 
para a gente casada e a participação de toda a 
tripulação nos lucros, realizada com o direito 
de transportar especiarias, compradas nas mes- 
mas condições do Estado e com a repartição 
das presas, se aproximam, na protecção às 
famílias, e excedem, nos interesses aos indiví- 
duos concedidos, a moderna organização dos 
exércitos em campanha. 

São aquelas mesmas instruções que nos dão 
a entender o carácter da expedição em relação 
à índia. Podem considerar-se objectivos princi- 
pais, por um lado a aliança com os índios e a 
sua melhor cristianização, e por outro a guerra 
aos mouros infiéis, para obter, pela paz comuns 
e a luta com os outros, o exclusivo do comércio 
oriental. Quanto à guerra com os mouros, fazer 
reparo a essas intenções seria ingénua incom- 



PEDRO ALVARES CABRAL l8l 

preensão do tempo. Esse pleito secular consti- 
tuía ainda então um dos fundamentos da própria 
nacionalidade. As duas finalidades, a religiosa e 
a económica, surgem-nos, a cada passo daquelas 
instruções juntas e irmanadas nas figuras de Fr. 
Henrique e Aires Correia. A força de junção 
repetida as duas figuras chegam a parecer-nos 
fundidas numa só, encarnação solidária da grei, 
aportando às praias indianas com a cruz numa 
das mãos e a balança na outra. E a balança, 
mais do que a cruz, era naquele tempo um 
símbolo de paz. Ao comércio se deve em toda 
a história uma grande parte dos descobrimentos, 
geográficos. 

Induzidos na ilusão do Gama e dos seus 
companheiros, os portugueses consideravam 
ainda então os malabares como cristãos. As 
instruções de Pedro Alvares respiram desde 
o princípio ao fim boa fé e desejo de paz. 
E nada nos leva a crer que nesta altura a po- 
lítica imperialista do monarca e dos seus con- 
selheiros revestisse outro carácter que o mera- 
mente económico. Nesse intuito Pedro Alvares 
leva ordens expressas para dar de si e com a 
armada mostras de nobre e magnânima embai- 
xada. ((Ireis, recomenda o Rei, ancorar em 
Calecut com vossas naus juntas e metidas em 
grande ordem, assim de bem armadas, como 
de vossas bandeiras e estandartes e o mais lou- 
ças que poderdes.» Ali chegados e encontrando- 



l82 



EXPEDIÇÃO DE 



naus, de Meca que elas fossem, «não fareis ne- 
nhum nojo, antes as salvareis, e lhe mostrareis 
todo bom rosto e sinal de paz e boa vontade, 
dando de comer e beber e fazendo todo outro 
bom tracto a todos aqueles que às nossas ditas 
naus vierem...)). E temendo que a dualidade 
entre o embaixador magnânimo e o comerciante 
ambicioso possa levantar suspeitas ao preca- 
vido Gamorim, o monarca ordena a Cabral 
que, em casos de hesitação ou dúvida, cure 
mais de afirmar a nobreza' que o interesse. De- 
pois de lhe recomendar toda a cautela no 
ajustar dos preços, as instruções terminam: «E 
parecendo-vos que o dito Rei de Calecut neste 
caso se peja em alguma maneira, e vos parecer 
que não sai a isso assim bem, que espereis que 
nisso se aproveitara, em tal caso não cureis de 
insistir e não lhe falareis mais nisso. . . por lhe 
não parecer que para isto levais cousa deter- 
minada . . . )) 

Acima de tudo, Cabral deverá afirmar a sua 
nobre qualidade de enviado especial «porque 
vós não somente ^oís nem is mercador como os 
outros que à sua terra vão de tão perto, como 
-sabeis; mas que sois nosso capitão e principal- 
mente por nós enviado, com fundamento de 
muito amor, paz e amisade. . .)). Nem a cubica 
extrema mareava ainda o carácter nacional, 
nem as mesmas claras instruções de guerra aos 
mouros prevêem ou dão margem às crueldades 



PEDRO ALVARES CABRAL l83 

com que alguns capitães desluziram a honra e 
as proezas. As instruções expressamente deter- 
minam que, após a tomada dalguma frota mou- 
ra aos prisioneiros, que se não possam trans- 
portar ao reino ou resgatar na índia, se metam 
numa nau e que os deixem ir nela. 

Isto pelo que toca à índia. Quanto à missão 
de Cabral, aportando ao Brasil, falta no seu 
fragmentado regimento a parte que nos podia 
elucidar sobre as instruções que levava a tal 
respeito. Essa falta, junta a outras da mesma 
natureza, tem para nós o aspecto dum seques- 
tro e constitui mais uma prova da intenciona- 
lidade da derrota, tantos são os factos que por 
outro lado a documentam e lhe demonstram 
em volta especiais cuidados de sigilo. Assente 
como um facto provado, pelo menos uma via- 
gem anterior de Duarte Pacheco ao Brasil; de- 
monstrado o conhecimento anterior de vastas 
regiões americanas; esclarecida a ambição do 
monarca, incendiada com as novas do Gama, 
de patentear ao mundo, em toda a grandeza o 
plano nacional, agora também que o verdadeiro- 
caminho para a índia estava descoberto e não 
havia a recear as ilusões da Espanha; definida 
o carácter de embaixada solene e de conquista 
marítima e económica da expedição; conhe- 
cidos ainda os avanços dos castelhanos pelas 
costas da América em direcção a Santa Cruz; 
tudo concorre para explicar e tornar necessá- 



184 EXPEDIÇÃO DE 

ria a intencionalidade da derrota naquela di- 
recção. 

Um outro facto da maior importância vem 
corroborar, em plena harmonia, com várias 
destas circunstâncias, a derrota objectivai para 
o Brasil: referimo-nos à presença, na armada, 
de Duarte Pacheco. Que representava ali o 
antecessor de Cabral na viagem ã América, o 
cosmógrafo, o negociador de Tordesilhas, o 
homem rígido que estava nos segredos trans- 
cendentes do Estado, o futuro executante de 
tão altas missões, por agora sem capitania de 
nau ou expressa função, numa aparente obs- 
curidade tal que a carta de Caminha não o 
cita? Luminosamente se patenteia agora que 
ele era ali o elo secreto e forte que ligava 
a expedição ao plano nacional e o guia da- 
quela parte da derrota, em nome da obra 
realizada. 

E aqui uma objecção naturalmente ocorre. Se 
nesta mesma época os alviçareiros italianos, 
excedendo o conhecimento dos futuros cronis- 
tas nacionais, transmitiam para as suas metró- 
poles tantas novas da índia, das viagens dos 
Côrte-Reais e das seguintes expedições à costa 
sul-americana, como se compreende que aquele 
segredo não houvesse transpirado, tanto mais 
que na armada se incorporava um navio estran- 
geiro ? 

Ora a verdade é que o segredo transpirou. 



PEDRO ALVARES CABRAL 



l85 



A carta de Domerxego Pisani, escrita logo após 
a chegada da primeira nau da expedição de 
Pedro Alvares, e aqui já tantas vezes referida, 
reza assim: «De sopra el Capo de Bona Spe- 
ranza, verso garbin (para sudoeste), hanno dis- 
coperto una terra nuova, chiamano la terra de 
li papagá, por esser li papagá longi uno brazo 
e piú, de varij colori, de li quali hano visto 
doy. Judicano questa terra esser terra ferma^ 
perche corseno per costa 2000 mia e piu, né 
mai trovorono fin.y> Emquanto a carta de Ca- 
minha fala duma ilha e a Relação do piloto 
anónimo hesita entre chamar ilha ou terra fir- 
me à região descoberta, Pisani fala claramente 
duma terra firme e duma extensão de costas 
já exploradas, superior a 2:000 milhas. Muito 
diferentemente sabemos, pela carta de Cami- 
nha, que a porção de costa avistada pela ar- 
mada de Cabral foi muitíssimo mais curta. 
«Esta terra, senhor, diz êle, me parece- que da 
ponta, que mais contra o sul vimos, até outra 
ponta, que contra o norte vem, de que nós. 
desta parte houvemos vista, será tamanha, (\\iq 
haverá nela 20 ou 25 léguas por costa.» Aquela 
informação revela, pois, viagens e explorações 
anteriores daquela costa. Acrescentemos que 
Pascuáligo numa carta sua dessa mesma data 
corrobora os informes de Pisani, ainda que 
dando apenas 600 milhas de extensão à costa 
conhecida: «corsa ia costa de ditta terra per 



l86 EXPEDIÇÃO DE PEDRO ALVARES CABRAL 

spazio de 600 e piú milia no hanno trovato íin 
alcuiio.» (i) 

E Vespúcio, na sua carta de Cabo Verde, 
-referindo-se às terras de Santa Cruz, tal noção 
adquire de que se trata duma grande terra fir- 
me, que não hesita em a afirmar ligada à que 
que êle descobrira muito mais ao norte, em 
companhia de espanhoes : «E dipoi d'aver na- 
vigato venti giornate circa a settecento leghe 
(che ogni lega é quattro migla e mezzo) posono 
in una terra dove trovorono gente branca e 
ignuda dela medesima terra, che io descoperi 
per Re di Castela, salvo que é piú a levante. . . » 

Atribuir esta estranha concordância com a 
verdade e as possibilidades dum anterior co- 
nhecimento ao acaso, seria reincidir num erro 
<]ue tem apenas a recomendá-lo a comodidade 
àe resolver dificuldades com pequeno esforço. 
Ao contrário, tudo novamente concorre para 



(i) Harrisse. depois de citar estas duas passagens, 
acrescenta : «If either of those assertions was exact, 
Cabral could have furnished the cartographical data 
south of Porto Seguro : but such is not the case, and 
-the two Venetian diplomatists were certailhy led into 
^rror by their Portuguese informers.» The Discoveiy oj 
Nofth America, pag. 341. A Harrisse faltaram muitos dos 
elementos para avaliar com justeza desta viagem, tantos 
que considera como meramente casual o aportar de Ca- 
bral a Vera Cruz. A carta de Pascualigo vem em Sanu- 
to, Diariij vol. LV, col 200. 



PEDRO ALVARES CABRAL 187 

dar viabilidade a semelhante informação. Vi- 
mos atrás que o primeiro navio da armada a 
Lisboa chegado pertencia a um estrangeiro: 
Bartolomeu Marchioni, florentino. 

Sabemos já que Bartolomeu era associado 
nesta expedição nem mais nem menos que de 
D. Álvaro, tio e confidente do monarca. Dada 
a elevadíssima categoria do florentino, por este 
mesmo facto provada, não será arriscada em 
demasia a suposição de que ele por inconfidên- 
cia do Bragança, homem, ao que parece, jac- 
tancioso (i), conhecesse uma parte dos segre- 
dos de Estado. 

Averiguado igualmente ficou que Bartolomeu 
Marchioni prestava à coroa tais serviços, pelo 
que respeita à realização do plano dos desco- 
brimentos, que é lícito supô-lo um pouco no 
segredo desse plano. Essa conjectura mais ve- 
rosímil se afigura, considerando que muito pro- 
vavelmente o rico mercador interferiu na vinda 
de Vespúcio para Portugal, com o fim de reve- 
lar ao rei os conhecimentos, adquiridos a bordo 
dos navios espanhóis, das costas sul-america- 
nas. De novo lembraremos que Vespúcio na 
carta de Cabo Verde identifica as costas por 
ele descobertas e as visitadas por Cabral como 



(i) Brancamp FreirCj Livro 1 dos Bra^jõis^ V. D. 
Álvaro. 



lOÒ EXPEDIÇÃO DE 

a mesma terra firme. Aquele facto, por essa 
data realizado, mais que nenhum poderia ex- 
plicar que Marchione e os seus colaboradores 
mais próximos estivessem no segredo do co- 
nhecimento anterior desta parte da América. 
Uma dúvida podia subsistir quanto à possibili- 
dade de Pisani e Pasqualigo terem obtido aquela 
informação por esta via. ^* Sendo Marchione um 
auxiliar do Rei, iria trair aquele alto segredo 
junto dos venezianos, os quais, como se vê pela 
carta de Chá Masser, o consideravam seu ini- 
migo e que, por sua banda, eram rivais dos 
portugueses ? Antes de mais nada, e em princi- 
pio, essa duplicidade de carácter não é deveras 
estranhável num italiano da Renascença. Além 
disso, fornece-nos uma carta de Pietro Pasqua- 
ligo, embaixador de Veneza em Lisboa, a prova 
de que Bartolomeu Marchione auxiliava àquela 
data os venezianos igualmente (i). 

Outro ainda dos objectivos da expedição era 
o estabelecimento duma feitoria em Sofala, en- 
cargo particularmente destinado a Bartolomeu e 
Pêro Dias. A posse do Brasil e do oiro de Sofala 
constituiam ambos, segundo cremos, dois obje- 
ctivos auxiliares da conquista do * comércio 
oriental. Assim, a expedição revestia essen- 
cialmente um carácter de imperialismo econó- 



(i) Racolta colombiana, parte III^ vol. I, pág. 83. 



PEDRO ALVARES CABRAL 189 

mico e continha já em si, com a participação 
estrangeira, a garantia da expansão comercial 
em toda a Europa. 

Seja como for, pois que falamos de imperia- 
tismo, dois documentos preciosos, o fragmento 
maior das instruções e a carta de Caminha ga- 
rantem-nos que o comandante da expedição, 
ao tractar com os indigenas das regiões visita- 
das, sobre guiar-se pelos melhores desejos de 
honra e bôa paz, irradiou de si e quasi sempre 
comunicou à sua gente uma elevada piedade 
cristã. 



A PARTIDA DA ARMADA DO RESTELO 



Chegado o tempo azado e prestes as naus 
para a partida, a um domingo, 8 de março 
de i5oo, dirigiu-se D. Manuel, com toda a sua 
corte ao Restelo, onde já estavam as naus com 
as gentes de mar e de armas, para juntos ou- 
virem missa na ermida de Nossa Senhora de 
Belém (i). Em torno da velha ermida do Infante 



(i) A tradição aponta a ermida, que ainda hoje se 
vê no mais alto da cerca dos Jerónimos, como sendo 
aquela donde partiu Vasco da Gama e Pedro Alvares 
Cabral. Vários escritores o afirmaram, e entre eles Lu- 
ciano Cordeiro (Portugueses fora de Po7'íugal — Uma 
sobrinha do Infante, pag. 122). È, todavia, essa ermida 
<le construção posterior àquela data. Fr. Jacinto de 
S. Miguel, frade Jerónimo, que nos princípios do sé- 
culo XVIII escreveu a Relação da insigne e real casa de 
Santa Maria dé Belém, diz a pag. 107 e 108 da sua obra : 
«A terceira e ultima destas três ermidas é a que está 
mais no alto desta cerca, que é a do nosso padre S. Je- 
rónimoy com três altares nella e por dentro de obra de 
cantaria, toda lavrada e com tanta galanteria o seu 



192 EXPEDIÇÃO DE 

D. Henrique começava a erguer-se dos funda- 
mentos entre os andaimes alterosos, o futuro 
mosteiro dos Jerónimos. 

Devia ser um desses dias de primavera pre- 
coce, dum "extranho encanto, tão comuns em 
Lisboa neste mez. O ar fino e macio esperta o 
sangue, ao respirar-se. O Tejo dum azul lus- 



lavor que bem se vê ser grande primor dárte de sua 
arquitectura^ sendo de tanta capacidade o corpo de 
toda ela que bem podia servir de templo e egreja a 
uma comunidade pequena». Náo menos eloquente é o 
testemunho de Damião de Gois. Ouçamos: «esta capela 
se converteu no sumptuoso mosteiro, que no mesmo lo- 
gar fundou el-rei D. Manuel, depois que Vasco da Gama 
tornou da índia, o que certo é muito de louvar em el- 
rei, que com náo ter mais conquistado da índia, que 
saber que se podia ir a ella por mar, foi tanta sua fé 
em Deus, que como se já tivera ajuntados muito^ tesou- 
ros da conquista dela, logo da sua própria fazenda 
mandou abrir os alicerces em redor desta capela, sobre 
os quais se fez um dos grandes e magnificos edifícios 
de toda a Europa...» Trata largamente deste assunto 
Faria e Silva em A Igreja da Conceição Velha, Destes 
testemunhos, hemos de concluir que, náo obstante as 
obras do mosteiro terem começado, ainda existia em 
baixo a primitiva ermida, fundada pelo infante D. Hen- 
rique, sobre a areia da praia, no mesmo sítio dos Jeró- 
nimos, que nos primeiros tempos estavam à beira 
d'água. Demais a posse aos frades Jerónimos só foi 
dada a 21 de Abril de i5oo. A data da partida de Ca- 
bral, pois, devia existir a primitiva ermida e ainda a 
cargo dos freires de Cristo que só depois passaram para 
a Conceição Velha. 



PEDRO ALVARES CABRAL igS 

troso maravilha os olhos. E das funduras ma- 
rítimas da barra vem um apelo aliciante e mis- 
terioso. 

Naquele tempo o Tejo era mais Jargo em 
frente do Restelo; e as praias, que, hoje só 
mais abaixo principiam, alastravam da ermida 
até às águas, num declive de areais lavados. 
Nos tesos dos outeiros mais próximos, por cujas 
remançosas faldas viçavam hortos e pomares, 
girava com lenta majestade o velame trigueiro 
dos moinhos. Na outra banda, as ásperas coli- 
nas de abruptos barrancos humilhavam-se ali, 
às entradas do mar, e iam morrer em praia, à 
Caparica. 

Por ser domingo, dia de festa e despedir da 
armada, despopulara-se Lisboa e o povo denso 
alastrava e revolvia-se pelas praias e pomares 
vizinhos. Predominavam no sombrio arraial os 
tons escuros do bristol, do condado ou do 
pano de varas com que a arraia miúda se co- 
bria. Por entre a desenvolta chusma dos mes- 
teirais, com seu gibão cintado e os vastos bor- 
zeguins festeiros, ou das mulheres, grossas de 
saias e leves de corpete, a entornar pelo decote 
os seios altos e morenos, os grados mercadores 
arrastavam as suas capas negras e compridas, 
como as dos frades agostinhos. Aqui e além, os 
matalotes, de partida, o pé descalço, as bragas 
soltas, o rude cotáo cingido ao peito, o barrete 
vermelho para trás, ou os homens de armas, de 

i3 



194 EXPEDIÇÃO DE 

saio laminado e gorgeira metálica, eram feste- 
jados e abraçados em roda por amigos e pa- 
rentes. 

De quando em quando, do mais espesso do 
arraial vinham mulheres chorosas, com a man- 
tilha escura descaida da testa até aos ombros, 
tombavam dobradas de aflição à porta da ca- 
pela, e encomendavam, arquejando, os filhos e 
os maridos, à Virgem do Restelo. 

As naus de mastro e verga limpa, a enxárcia 
fina flutuando, empavezadas de estandartes e 
bandeiras divisas de cada um dos capitães, ba- 
loiçavam o bojo curto e negro, na fundura do 
rio. Um ou outro pano solto, erguido pelo 
vento, enfunava a direito. Apenas nalguma ca- 
ravela as vergas altas das latinas obliquavam 
contra o mastro, como asa lassa repousando. 

Rodava já o sol no alto, quando o Rei e toda 
a corte, em altaneira cavalgada, vieram e atra- 
vessaram, direitos à ermida, por entre a negra 
multidão, numa levada de cores vivas. Ao an- 
dar, enfunavam-se as capas roçagantes e os 
sombreiros garbosos ; e ouviam-se as espadas 
com seus punhos dourados, batendo em tihn- 
tins agudos. 

Já Pedro Alvares, os capitães das naus e as 
pessoas mais gradas da companha se ajuntavam 
na ermida. 

Celebra a missa pontifical o bispo de Ceu- 
ta, D. Diogo Ortiz, matemático e cosmógrafo, 



PEDRO ALVARES CABRAL IÇ)S 

que auxiliara D. João II no plano dos desco- 
brimentos e conhecia os altos segredos da na- 
ção. Mais uma vez a continuidade do plaho se 
afirmava na figura que ia sagrar, à partida, o 
capitão-mór da expedição. 

A capela da ermida, armada com panos de 
cores rútilas, regorgitava da gente nobre, de 'ca- 
pitães e navegantes. Faiscavam na sombra os 
elos dos colares, os borlados e guarnimentos 
de oiro e pedras finas. Junto do Rei. agrupavam- 
-se, por certo, o duque D. Jorge, filho do Prítt- 
ctpe Perfeito^ D. Álvaro de Bragança e o Conde 
de Portalegre, que vinham ver também os seus 
navios, o Albuquerque, para abraçar o sobri- 
nho pela última vez, o Alcáçova, que redigira 
as instruções, Aires Gomes da Silva, o Rege- 
dor, o Gama, D. Francisco da Almeida, e a 
ílôr da fidalguia cortesã. E não haviam de ficar 
distantes, entre a gente que acompanhava a 
corte, o Marchioni, o Serniche, o Salvago e os 
demais opulentos parceiros dos validos reais, 
na expedição. 

Junto do altar, do lado da epístola, ruti- 
lava o sólio episcopal, com seu docel franjado 
de oiro, ladeado pelos assentos mais humildes 
dos acólitos. Do lado do evangelho, vergava e 
fulgia a credencia com os vasos dourados, as 
pratas e as alfaias, que serviam à celebração do 
sacrifício. O bispo, de capa magna e mitra a 
oiro e pedras preciosas, avançou para o altar, 



196 EXPEDIÇÃO DE 

empunhando com aprumada majestade o báculo 
doirado, ladeado dos acólitos e precedido dos 
ceroferários, turiferários e do porta-cruz, com 
os capitulares de capas roçagantes. Sobre o 
altar, para melhor vista da assistência, enquanto 
durou a cerimónia, esteve arvorada a bandeira 
da- cruz da ordem de Cristo. Um cheiro es- 
pesso a cera e incenso entontecia. Lentos, os cân- 
ticos dos padres abismavam os homens em me- 
ditação. Pregou Dom Diogo Ortiz, glorificando 
aquela santa empresa e louvando e incitando 
Pedro Alvares Cabral e os seus companheiros, 
com o exemplo de quantos o tinham precedido 
no heróico esforço. Cá fora, a matalotagem 
descoberta, que se apinhava à entrada da er- 
mida, escutava em silêncio ou mesurava com 
as frontes em sinal de assentimento. E dentro 
da cortina real, ao lado do monarca, Cabral, 
solenemente adereçado, mostrava no rosto grave 
e sombrio de impaludado uma funda e ardente 
comoção. Eras novas, cheias de glória para 
os homens, alvoradas de fé, antevisões de im- 
périos, anúncios em boca de profeta, por mais 
imaginoso, nunca ouvidos, relampejavam das 
palavras inspiradas do bispo. Muitos olhos 
abriam- se de pasmo; e um arrepio de entusiasmo 
heróico corria à flor das almas. 

Finda a missa, o bispo lançou a bênção a 
Pedro Alvares e igualmente benzeu a bandeira 
de Cristo, que o Rei solenemente lhe entregou^ 



PEDRO ALVARES CABRAL I97 

colocando-lhe tanibém na cabeça um barrete 
bento, que o Papa lhe mandara. Depois fez-se 
uma solene procissão de relíquias e cruzes para 
acompanhar Pedro Alvares ao embarque. Se- 
guia à frente o bispo, ladeado dos acólitos e 
precedido do porta-cruz e dos capitulares; 
acompanhavam-no os freires de Cristo, com as 
tochas na mão; e, empós o Rei, que conser- 
vava ao lado Pedro Alvares Cabral, seguia-se 
a corte, os outros capitães e os tripulantes des- 
cobertos; atrás o povo acompanhava os cân- 
ticos, em coro. 

A imensa voz religiosa reboou pelas praias. 
Uma fé sublime alagava os peitos rudes e bor- 
bulhava em lágrimas nos olhos. 

Na orla da água, o Rei, à despedida, reco- 
mendou uma última vez, com palavras ami- 
gas, a Cabral, a armada e os tripulantes. E de- 
pois que o capitão-mór e os outros capitães lhe 
beijaram a mão, todos começaram de entrar 
para os bateis. As colchas dos barcos, as ban- 
deiras, estandartes e librés cobriam de cores o 
Tejo, que, no dizer de João de Barros, «não pa- 
recia mar, mas um campo de flores, com a prol 
daquela mancebia juvenil, que embarcava». Nos 
bateis, que acompanhavam os que iam para o 
mar, sopravam, gemiam, batucavam, retiniam, 
num alando bárbaro e atroante, as trombetas, 
os atabaques, os sestros, as frautas, os tambo- 
res. 



igS EXPEDIÇÃO DE 

Erguera-se, como é de uso, à tarde para a 
barra, um vento íino e sacudido. Escuras, as 
naus boiavam mais na urna azul do rio, e sobre o 
trigueiro treu das velas oscilando sangrava a 
cruz de Cristo, emblema do sacrifício eterno 
do Homem pelo homem. Gaivotas, banda- 
das pelo alto, traçavam em volta os augúrios 
heróicos. A marinhagem encostada às amuras, 
ou debruçada das varandas, das janeladas e 
grades dos chapiteus, sacudia nas mãos com 
saudoso desgarro as carapuças encarnadas. Dir- 
-se hia que o clarão apoteótico do ocaso nascia 
dos corações em fogo. Sobre as cobertas dos 
navios, as pontas das lanças fulgiram, pela úl- 
tima vez, à luz do poente. E na terra, os an- 
daimes da catedral do Mar, em construção, 
cresceram no crepúsculo, arrancaram da som- 
bra, e figuravam um arco de triunfo gigantesco, 
alevantado sobre aquele povo. O próprio Ve- 
lho do Restelo, se de novo olhava da praia os 
que partiam, havia de louvar agora a sublime 
e nunca vista empresa. 

Mas, ao cerrar-se a tarde, a turba debandou e 
o vento começou a soprar com mais violência. 
Na praia agora apenas os vultos ermos das mu- 
lheres, arrancadas aos últimos abraços, e des- 
grenhadas pelo arrepio vesperal, começavam 
de bradar ou de chorar baixinho. As bandeiras, 
as flâmulas, as latinas agudas das mezenas, 
drapejaram mais ansiosas, como se as sacudis- 



PEDRO ALVARES CABRAL I99 

sem mãos convulsas de quem grite ou soluce. 
As velas dos moinhos, num sobresalto súbito, 
giraram com mais força, qual se na sombra os 
montes, comovidos, acenassem, acenassem tam- 
bém para dizer adeus. 

Quantas daquelas naus, quantos daqueles 
liomens não mais tornariam a ver estes céus, 
estes montes, estas águas! 

Só no dia seguinte a armada havia de partir. 
Raros fecharam olhos nessas últimas horas. 
E toda a noite o vento, numa exaltação, asso- 
viou pelas enxárcias, — nos cabos e amanti- 
Ihos, nas betas, nas driças, nos ostingues, 
contra as escoteiras retezados, tangendo como 
em outras tantas cordas daquelas treze liras, 
com gemidos lancinantes, a balada saudosa 
das viagens. 



CONCLUSÃO 



Iniciou Pedro Alvares Cabral os dois actos 
políticos mais grandiosos de toda a nossa his- 
tória, —o império económico do Oriente e a 
colonização do Brasil. Como hoje do primeiro 
quási que só restam, padrões da vasta rota, as 
nossas colónias africanas, os historiadores con- 
temporâneos ligam-lhe o nome, por via de re- 
gra, apenas ao segundo desses feitos. 

Não obstante, o alcance da viagem de Pedro 
Alvares, dentro da sua época, provém de que 
ele revelou à Europa, em toda a grandesa ma- 
gnífica, o plano nacional dos descobrimentos, 
tão longa e ocultamente conduzido e realizado. 
Ele inicia de facto com a primeira expedição á 
índia de carácter comercial, o império econó- 
mico português, que aproveitando a base naval 
do Brasil e o oiro da Mina e de Sofala, vai 
dominar todo o comércio do Oriente. E, tanto, 
como um plano da nação, realiza desta sorte 
uma aspiração multisecular da Europa. O sonho 
comercial da burguesia medieva encarna emíim 



202 EXPEDIÇÃO DE 

no nosso navegante. Nem o acto da posse e do 
baptismo de Vera Cruz, por ele realizado, e as 
origens da nação brasileira se podem inteira- 
mente compreender, sem que os encaremos 
neste largo âmbito de história. 

Intuitos comerciais sobrelevavam no plano 
dos descobrimentos portugueses. E o descobri- 
mento da América foi uma consequência da pro- 
cura do caminho marítimo para a índia; derivou 
como um complemento daquela empresa formi- 
dável, que durante séculos preocupou a Euro- 
pa. Portugal quis guardar-se, como fruto es- 
colhido do seu conhecimento oculto e a custa 
de ceder a glória de prioridade nesse descobri- 
mento, a posse do Brasil. 

Diminui em grandeza a origem da nação brasi- 
leira, pela sua inserção numa empresa de cará- 
cter comercial ? Não o cremos. Essa origem sai 
assim dos domínios do acaso para a intenciona- 
lidade dum plano nacional. Vejamos o que se 
propunha, na essência, esse grandioso plano. 

Pretende o materialismo histórico explicar 
pelos factos económicos toda a história humana. 
Segundo essa escola íilosóíica, são as necessida- 
des de ordem material e os meios inventados 
para as satisfazer, que originam e transformam 
as instituições sociais. No polo oposto, supõe a 
concepção idealista que a humanidade traz em 
si uma idea prévia de justiça e de direito e se 
move num caminho progressivo de civilização.. 



PEDRO ALVARES CABRAL 2o3 

não pela transformação mecânica dos modos de 
produção, mas sob a influência daquele ideai. 
Pensamos, à maneira de tantos, que as duas 
concepções se podem e devem conciliar. Se a 
organização económica da sociedade influi po- 
derosamente na sua concepção moral e direcção 
geral da sua vida, não é menos verdade 
que os sentimentos e as ideas generosas são 
igualmente factores da história humana. 

Noutro capítulo afirmamos que os Descobri- 
•mentos portugueses vieram resolverum problema 
económico da Europa. Já um dos mais claros 
e penetrantes espíritos contemporâneos, num 
estudo sobre a Conquista de Ceuta, fundando- 
-se no exame crítico duma das fontes respecti- 
vas, a Crónica da Conquista de Ceuta de Azu- 
rara, defende, com um raro poder de lógica, a 
hipótese de que a iniciativa daquela empresa, 
longe de pertencer aos Infantes, partiu da bur- 
guesia comercial de carácter cosmopolita (i). 
Motivo? «Conquistar Ceuta era o primeiro 
passo decisivo para a solução do problema 
em que se empenhava o alto comércio: o do 
tráfico do Oriente». Na verdade em quási toda 
a Europa a burguesia comercial predominava. 
Florença, o mais civilizado dos estados con- 
temporâneos, era uma república de mercado- 



i) António Sérgio, Ensaios. 



204 EXPEDIÇÃO DE 

res. No norte da Europa, para onde logo após 
as cruzadas se deslocara do Mediterrâneo o cen- 
tro da actividade comercial, fundára-se a Liga 
Hanseática, estado único, no género, de origem 
e propósitos meramente mercantis, mas que ar- 
mava esquadras, construía fortalezas e movia 
guerras por conta própria. Desde o século xrv 
que as nações italianas concorriam, fazendo es- 
cala por Lisboa àqueles portos de comércio. 
Acresce que naquela época os conquistadores 
maometanos do Egipto e da Ásia Anterior 
ameaçavam cada vez mais o comércio europeu 
com a Ásia e que, por esse motivo, os italianos 
aspiravam desde os fins do século xiii a desco- 
brir um caminho marítimo para o Oriente. A 
uma dessas tentativas já noutro logar nos 
referimos. 

Além disso foram os descobrimentos portu- 
gueses precedidos das inúmeras viagens por 
terra, em especial as de Marco Polo e Nico- 
lau Gonti, que mais particularmente deram à 
Europa o conhecimento das riquezas orien- 
tais. 

Durante longos séculos, a Europa sonha e 
trabalha na empresa que nós havemos de rea- 
lizar. Pelo que diz respeito à arte de navegar, 
se nós conseguimos mais tarde desenvolvê-la 
largamente e dar-lhe um carácter nacional, sa- 
be-se hoje, pelos estudos de Steinchneider, que 
à literatura árabe e judaica, se devem, desde o 



PEDRO ALVARES CABRAL 2o5 

século XII, OS conhecimentos de astronomia náu- 
tica que haviam de servir de base às nossas 
primeiras navegações; assim como aos catalães 
os primeiros esforços donde havia de sair a 
«ossa sciência cartográfica (i). 

Uma vasta aspiração e preparação humana, 
em que colaboram os povos e raças mais diver- 
sas, precede a nossa obra. E quanto mais rece- 
bemos e somos dos outros influidos, mais a 
deante oferecemos e influímos na Humanidade. 

Posto isto, teríamos nós obedecido apenas a 
razões de ordem económica geral? Não; ao 
iniciar e realisar os Descobrimentos comunga- 
mos o mais elevado espírito da Renascença. E 
antes, se recuamos o prólogo dessa empresa às 
viagens terrestres ao Oriente e às primeiras ten- 
tativas de descobrir o caminho para a índia, 
devemos buscar-lhe as raízes espirituais no es- 
tudo de Aristóteles e no franciscanismo, que 
durante a última parte da Idade-Média tanto 
contribuíram para aproximar o homem da Na- 
turêsa. Os alvores do renascimento português 
incorporam-se nesse grande clarão espiritual. 
Os recentes estudos de história de arte e das 
sciências nesse período mostram que nós cami- 
nhávamos então ao lado dos mais civilísados 



(i) Bensaude. Uastronoinie nautique aii Portugal á 
Vépoque des grandes découvertes. 



2o6 EXPEDIÇÃO DE 

povos. Se proseguíamos com as navegações al- 
tos interesses económicos partilhávamos tam- 
be'm a aspiração que animava os povos europeus 
de alargar a consciência humana e conhecer o 
Universo. Ao lado, dos grandes estadistas que 
dirigiam a politica comercial tivemos, alem 
duma plêiade só hoje conhecida de grandes ar- 
tistas, homens animados do mais puro espírito 
scientifico. E a deformação da história, que fez 
dos Descobrimentos uma aventura bélica, foi ao 
ponto de travestir algumas das nossas mais 
lídimas figuras de sábios, como Duarte Pacheco 
e D. João de Castro, quasi apenas com a cou- 
raça do guerreiro. 

Facto eloquente, assistem à posse do Brazil, 
os representantes do espirito e dos povos 
que prepararam c auxiliaram a obra nacional 
dos Descobrimentos. Em volta do berço verde- 
jante de selvas, impregnadas pelo hálito do 
Atlântico, donde a nação brasileira surgiu, es- 
tão representadas no acto solene e oficial do 
baptismo, ao lado da nação que lhe vai dar a 
vida, com o sangue e o sofrimento, Génova e 
Florença, que ali enviam juntas uma nau, Cas- 
tela, que partilha comnosco as glórias descobri- 
doras do Novo Mundo, nas pessoas de Sancho 
de Tovar e do físico e astrólogo mestre João, 
os judeus cosmopolitas na pitoresca figura de 
Gaspar da Índia, o franciscanísmo, que inicia a 
Renascença na compreensão e amor da nature- 



PEDRO ALVARES CABRAL 207 

za, nos oitos frades, a que preside Fr. Henri- 
que, e até o próprio Oriente asiático nos fidal- 
gos malabares, que o Gama trouxera a Portugal 
e agora regressavam à índia. 

O Brasil, nascendo de Portugal, na sua ple- 
nitude e pureza máximas, quando atingíamos o 
fastígio da nossa obra e antes de lhe sofrer- 
mos as terríveis consequências, nasce também 
do coração da Renascença, dentro do seu livre 
espírito cosmopolita, restringido apenas no que 
êle afectava os interesses nacionais. 

Nunca nação algumas teve tão elevados pre- 
núncios a propiciá-la na sua origem. Nunca 
nação alguma nasceu dum esforço mais cons- 
ciente, grandioso e harmónico. 

Isso permite que à ceremónia tocante do 
baptismo, imortalizada pela carta de "Caminha, 
presida um fidalgo, em cuja alma há um quê 
de angélico, tão elevado, generoso e enterne- 
cido como um puro símbolo da grei. 

Desde logo a bordo da sua nau, pedaço da 
terra portuguesa, dormem os dois indígenas 
brasilienses, embalados pela doçura do grande 
capitão. E se Caminha fala dos dois degre- 
dados, que são forçados a ficar em terra, 
acrescenta ^ue dois marinheiros, na véspera 
da partida, desertaram da armada, por se aco- 
lher às selvas. Um dos espiões italianos, que 
então viviam em Lisboa, mais bem informado, 
porventura, sobre o número dos desertores, só 



208 



mais tarde com precisão verificável, vai mais 
longe e fala de cinco marinheiros, que fugiram, 
atraídos pelo encanto da terra (i). Assim, desde 
a origem, Portugal sagra também a sua posse 
com a atração irresistível dos nossos pelas flo- 
restas brasileiras. 

E, se Caminha representava ali a religiosa 
ternura lusitana, a alma lírica da grei, para es- 
crever a carta de origem do Brasil, não faltou 
igualmente uma figura vicentina, a de Diogo 
Dias, «homem gracioso e de prazer», tocando 
«um gaiteiro nosso com sua gaita» e dançando 
com os indígenas, para dar àquela scena o 
carácter nacional dum auto ou dum presépio 
pastoril. 



(i) «Mettero un termine il quale hora ha posto in uso 
questo Re; tutti coloro quali nel suo regno commettono 
cose digne de gran pena overo di morte, tutti quelii fa 
pigliare ne alcun ne amaza, et servandoli col tempo gU 
manda in questi lochi et insule ritrovate, et imponeli 
questo, che se mai per alcun tempo ritornarano de 
dende gli harano lassati per terra a Lisbona, perdonali 
el delicto, et fali mercede de cinque cento ducati, ma 
credo io che rari ve ne ne tornarano, benché in un locho 
che se chiama Sancta Croce, per essere dilectevole di 
bona ária et de dolcissimi fructi abon^ante, fugirno 
cinque marinari dele nave dei Re, et non volseno piu 
tornare innave, et li restarno.» 

Dispacci dalla Spagna. sub anno i5oi. Cancelleria 
Ducale. Arquivos de Modena. Citado em Harrisse, 
The Discovery of North America, pag. 346. 



PEDRO ALVARES CABRAL 209 

Bem iongc duma obra de acaso ou de aventu- , 
ra, o aportar da frota a Santa Cruz incorpora-se 
assim num vasto plano nacional, metodicamente 
previsto e realizado. Portugal, ao conceber, com 
a inconsciência de todos os grandes criadores, 
a pátria brasileira, no zénite do génio e no ex- 
plendor do seu heroismo consciente, entregava- 
-Ihe com o seu nacionalismo tão disciplinado e 
isento, a constância da vontade e o espírito or- 
ganizador, gérmens da sua futura grandeza 
geográfica e espiritual. Brazonavam na origem 
a futura nação alguns dos mais puros repre- 
sentantes da fidalguia lusitana, a que alevantou 
e defendeu o Mestre, com a fidelidade à terra e 
à grei natal, elemento primário na génese dum 
povo. Os sacerdotes franciscanos, representan- 
tes do mais compreensivo e abrazado cristia- 
nismo, erguiam-lhe nos fundamentos, para a 
sagrar, o símbolo duma religião, que fora o 
melhor apanágio de humanidade, durante toda 
a Idade Média. Fixavam-lhe, sob os astros, a 
posição no globo, os melhores marinheiros e 
cosmógrafos do tempo. Pela voz e arte de Diogo 
Dias, ecoavam-lhe desde logo pelas selvas os 
cantos e músicas populares de Portugal. Rega- 
vam-lhe o chão, numa indelével afirmação de 
lusitanismo, as primeiras lágrimas de saudade, 
choradas pelos olhos dos dois pobres exilados. 
Caminha escrevia com emoção enternecida a 
primeira página dos seus fastos. E para apa- 



2 IO EXPEDIÇÃO DE PEDRO ALVARES CABRAL 

drinhar a nação que surgia com a Renascença^^ 
Portugal levava às festas solenes do seu baptismo 
uma nau de Florença, como que a predestiná-la 
para as glórias da Arte e a ansiedade divina da 
Beleza. 

Sim, bem longe das inspirações ou caprichos 
do acaso, o Brasil nasce de nós, na plenitude 
do sentido e do ritmo, como um primeiro canto 
de epopeia. 



DOCUMENTOS 



PFRO ALUAREZ DE GOUUEA. CARTA DA CAPITANYA 

MOÓR E PODERES QUE LEUOU QUANDO FOY EN- 

UYADO ÁS JmDIAS PER CAPITAM 



Dom Manuell etc fazemos saber a vos quapitaes fidal- 
guos caualeiros escudeiros meestres e pyllotos mari- 
nheiros e companha e ofiçiaes e todas outras pesoas 
que hys e jnviamos na frota e armada que vay pêra a 
Jmdia que nos pela muyta comfiamça que Temos de 
pedraluarj:^ de giiouuea íidalguo de nosa Casa e por co- 
nhecermos delle que nysto e em toda outra coussa que 
lhe emcaregarmos nos saberaa muy bem seruir e nos 
daraa de sy muy boa comta e Recado lhe damos e 
emcarregamos a Capitanya moõr de toda a dita frota 
e armada Porem vollo noteficamos asy e vos mamda-^ 
mos a todos em geerall e a cada huu em espiçiall que 
em todo o que per elle vos ífor requerjdo e da nossa 
parte mamdado cumpraes e facaes jmteiramente seus 
Requyrjmemtos e mamdados asy e tam jmteiramente 
e com. aquela deligemcia e bom cuydado que de vos 
comfiamos e o faryes se per nos em pessoa vos fosse 
dito e mamdado por que hasy o avemos por bem^ e noso 
seruiço e aqueles que asy o fezerdes e comprirdes nos 
fares nysso muyto seruiço e os que o comirario que 
nam esperamos nos deseruiram muyto e lhe daremos, 
por elo aqueles castigos que por taes cassos merece- 
rem ^ Outrosy por que as coussas de nosso seruiça 



:2I4 EXPEDIÇÃO DE PEDRO ALVARES CABRAL 

sejam guardadas e ffeitas como deuem em semelhamte 
frota e armada e por tall que sejam castigados aqueles 
que alguús mallefiçios e delitos cometerem comtra noso 
seruiço e em quaes quer outros cassos que acomteçer 
possam per esta presemte lhe damos todo nosso jmteiro 
poder e alçada da qual em todollos cassos ataa morte 
naturall vssaraa jmteiramemte e se daram ha emxuca- 
çam seus juízos e mamdados ssem delle aver apelaçam 
nem agrauo/ Porem este poder e allcada se nam em- 
temderaa nas pessoas dos capitães das naaos e nauyos 
que com elle vaao e fidalguos e outros que na dita frota 
e armada emviamos quamdo alguús casos crimes come- 
terem per que deuam ser castiguados por que sobre 
-estes ssoomemte se faram os processos de seus cassos e 
nos seram trazidos pêra os vermos e segundo as cali- 
dades delles seram ponydos e castiguados como for 
justiça e em testemunho de todo mamdamos fazer esta 
•carta per nos asinada e aseelada do nosso sello a qual 
em todo mamdamos que se cumpra e guarde como nela 
se comtem sem mjmguoamemto alguú. Dada em a nosa 
cidade de lixboa a xb dias de feuereiro amtonio car- 
neiro a fez anno de nosso Senor Jhuú x.° de mjU e qui- 
nhentos. 

Chancellaría de D. Manuel, liv. 13.". fl. lo. 



Fragmentos de instrucçóes a Pedro Álvares 

Capral quando foi por capitão mór de uma 

armada á Índia 



Jesus. Item tanto que, a Deus prazeendo^ partirdes da 
Angadyva, hirees vosa via ancorar davante de Gallecut^ 
com vosas naaos juntas e metidas em grande hordem, 
asy de bem armadas, como de vossas bandeiras e esten- 
dartes, c as mais louças que poderdes ; e pousares 
n aquele lugar, que souberdes que he melhor ancoraçam^ 
e de mais segurança das naaos, e a nenhúas naaos que 
hy achees, posto que saibaes que sejam das de Meca, 
nem da dita Angadyva até Gallecut, nam fares nenhum 
nojo, ante as salivares, e lhe mostrares todo boom ros- 
tro e synall de paz e booa vontade, damdo de comer e 
beber, e fazendo todo outro boom trauto, a todos aque- 
les que as ditas nosas naaos vierem ; teendo, porem,, 
resgardo que nam emtrem tantos juntos, que gastem 
mujto mantymento, nem das naaos sse posam apoderar. 
E, depois de ancorados e amarrados, e tudo concertado,, 
lançares ffora em huum batel, Balltasar e estes outros 
indyos que levaaes, e, com eles, hum par d homens, dos 
que vos parecer que tem pêra ello desposisam e des- 
cripçam, e manda los es que vaão com os ditos yrídios 
ao Çamorym, rey de Calecut, e lhe digam como sem- 
pre, nos tempos pasados, dessejamdo muyto de saber 
das cousas d aquellla teerra da índia e jemtes delia,, 
principalmente por serviço de nosso Senhor, por termos. 



2l6 EXPEDIÇÃO DE 

enformaço que elle e seus súditos e moradores de seu 
reyno sam christaáos e de nosa fee, e com que devemos 
folgar de ter todo trauto amizade e prestança, nos des- 
posemos a emvyar allguiías vezes nossos navyos a bus- 
car a via da Yndya, por sabermos que os yndyanos sam 
asy christáosj e omeens de tal fe, e verdade, e trauto, 
que devem ser buscados, pêra mais jmteiramente ave- 
rem pratica de nosa fee, e serem nas cousas delia dou- 
trynados e ensinados, como compre a serviço de Deus 
-e sallvaçam de suas allmas ; e despois, pêra nos pres- 
tarmos a tratarmos com elles, e elles comnosco, levamdo 
<ias mercadaryas de nosos regnos a elles necesarias, e 
asy trazemdo das suas ; e que prouve a Deus, visto noso 
bom preposito, que, agora pouco tempo he, Vasco da 
Gama, noso capitam, ffoy em três navios pequenos,entra- 
<io no mar da Yndya, teer a sua terra, aa cidade de Gal- 
lecut, domde os ditos jndios trouve, pêra delles se aver 
falia e pratica, os quaaes lhe mandamos tornar, e per elles 
pode saber o que em nosas terras ha ; e que, assy como 
Ih os manda tornar, assy elle lhe deve mandar pagar a 
mercadarya que ao dito Vasco da Gama per seu man- 
dado deceo em terra e lhe foy tomada, e que nos deu 
nova, principalmente d elle e de sua christindade e 
booa tençam acerqua do serviço de Deus, e, despois, 
de sua verdade e boom trauto de sua teerra, do que 
ouvemos muyto prazer. E detrymynamos emviar a vos, 
■com estas poucas naaos, carregadas das mercadaryas 
que ouvemos enformaçam que ha sua terra eram neces- 
saryas e proveytosas, pe^a com elle asemtardes, em 
nosso nome, paz e amizade, se elle asy follgar de ha ter 
comnosquo, como confyamos poUo que o dito Vasco 
<ia Gama nos dise; e nos parece que elle deve follgar, 
pois he Rey christaáo e verdadeiro ; porque, de nosa 
paz e trauto em sua teerra, se lhe seguira grande pro- 
veyto, prmcipallmente pêra ser ensynado e alumyado 
da fee, que hee cousa que mais que todas se deue jsty- 



PEDRO ALVARES CABRAL 217 

mar ; e, despois, pellos grandes proveytos que avera, 
das mercadaryas que de nossos reynos e senhorios a 
sua terra lhe mandaremos, e nossos naturaaes lhe leva- 
ram ; porque o que agora vay he ssomente pêra amos- 
tra ; porque nam sabeemos se estas, ou outras, ssam as 
que se la mais querem, E, porque vos folgaryees de vos 
veer com elle, pêra mais largamente lhe dizerdes as 
cousas que de nosa parte vos mandamos que lhe falias- 
seijs, e lhe dardes nossas cartas, e alguúas cousas que,. 
de pressente, por começo e synal d amizade, lhe emvya- 
mos ; e que vos parece que como quer que d elle e sua 
verdade todo se deva confyar, que nam deves sajr em 
terra ssem vos dar arrefeens pello que se fez ao dicto 
Vasco da Gama, que foy reihyudo em Pandarane ; e 
assy por certa mercadarya nossa, í^ue levava pêra mos- 
tras, que em terra mandou poher e lhe ífoy tomada; o 
que creemos que nam foy por. sua causa nem culpa, mas 
por requerymento e modos d allgúas jentes fora d:i fe, 
que ssem serviço e gardada (sicj de sua verdade nam 
dessejam ; e, por tamto, lhe pedijs que vos queira dar as 
dietas airefes, pêra ficarem em vosas na'aos atee vos a 
elas tornardes ; e que folgaryes, pella enformaçam que 
d elles temdes, que fossem íf. e ff. ; os quaees vos terces 
toda maneira, que vòs la beem parecer, pêra, per all- 
guum djs nossos que com os ditos Índios logo emviar- 
des, sserem vistos e conheçudos, de maneira que, em- 
viando os o dito rey de Calecut, possa conheceellos, e 
vos nom posam em lugar deles meter outros, qae nam 
sejam de sua valia e condiçam, no que teres muy grande 
resgardo ; e que, damd os elle, yres em teerra e lhe dares 
o que o dito he, e ff^allarês cousas que elle muyio fol- 
gara d ouvyr, e que lhe trazera muy to proveyio e 
homrra, e que lhe pedijs que lhe nam pareça estranho 
pedirdes as ditas arrefens, porque asy he costume d es- 
tes reynos, que nenhum capitam principall nom sse 
saya de sseus navyos, em lugar em que ha paz nom. 



"21 8 EXPEDIÇÃO DE 

«stee asentada, ssem arrefeens e segurança, e que nesta 
viagem asy o fezeste sempre ; porque^ posto que em all- 
guuns lugares tocásseis, em que fostes muy bem rece- 
bido, e comvidado pêra sayr em terra, o nom quisestes 
ffazer neem fezereys em casso que arrefeens vos dee- 
rem ; mas que ho farês a elle. por ser christáo e ver- 
tuosso, e porque vos a elle emvyamos, e que, ante de 
vos emviar estas arrefens, pode emviar seguramente aas 
•ditas naaos seus feytores e carranes da terra, aos quaees 
todas as naaos seram mostradas, e as arcas e ffardos 
abertos ; e veeram como sam cheas de mercadarya, e 
que mandamos a elle mercadores pêra lhe dar proveyto, 
e que nam sam ladroes, como nos foy dito que lhe que- 
ryam fazer a emtemder. quando o dito Vasco da Gama 
laa ffoy. 

E, se vollas deer, emtam, leixando as dietas arrefeens 
em vossas naaos e poder, homrradamentee muyto beem 
tratadas, e poreem, com tanto resgardo, que se nam 
posam hijr. — hijrês em terra com dez ou xb (i5) 
homeens, quaaes vos milhor parecer levardes comvosco, 
os outros capitaáes em suas naaos, e na vosa naao, 
hum capitam, todo asy a recado, que, do mar nem da 
terra, as ditas naaos nam sse possa fazer nenhuum dano; 
e leixando recado que, ate vos nam tornardes as naaos, 
nenhúa jente nam vaa mays em teerra, neem lancem 
nenhúua cousa fora ; salivo sse vos mandardes recado, 
per cada huum dos homens que comvosco foram, que 
ho faça; e emtam, yrees fallar ao dito rey, e lhe darees 
nossas encomendas, e asy lhe ofereceres aquillo, que 
por vos Ih em.viamos ; e lhe direes de nossa parte, como 
desejamos sua amizade e comcordya, prestança, e trato 
€m sua terra, e que pêra ello vos emviamos la, com 
aquelas naaos de mercadarya ; e que lhe rogamos que 
elle dee bordem como seguramente nosas mercadnryas 
se posam vender, e nos faça dar carrega pêra as ditas 
nãos, d espeçiarya e das outras mercadaryas da terra. 



PEDRO ALVARES CABRAL 219-. 

que pera ca sam proveytossas; e dee hordem como as. 
ajaees per aqueles preços que na teerra estam e sse 
costumam vemder, de guissa que, se allguuns mercado- 
res hy estantes^ d esprouver de noso trato sse fazer hy, 
nom posam tear formas de as m.ercadarias da terra as 
fazerem mais levantar, daquillo por que elles as ham ; 
e, se a vosa chegada, as dietas mercadarias pellos es- 
tantes forem atravesadas, vos faça dar pelo preço as 
que sejom necesarias pera carregar estas naaos ; ou,, 
sse amtes quisser obrigarsse sseu feytor a per ssy sso- 
mente vos dar toda a carrega que ouverdes mester pera 
as naaos, repartida per aquelas partes e ssorte de mer- 
cadaria que lhe apontares, apontados os preços das 
suas, e de como tomaram as nossas, a vos vos prazerá 
de assy sse fazer por mais breve despacho vosso, e 
mais brevemente se fazerem as mercadaryas 

em qualquer d estas que asentardes vos ele prometer e,. 
ffeita, começares de mandar vender as mercadaryas que 
levaaes, e asy comprar das que queres trazer, e que no 
começo de vossas vendas e trato, elle sentira quem 
sooes e o proveyto que, agora e ao diante, de nossas 
naaos ha de receber. 

Item Arntes d yrdes a el rey, se vos for posyveU 
temde maneira de saber sse os direitos que se aly pa- 
gam das mercadaryas que entram, e asy das que saem, 
sam estes, que nos disse Gaspar, de que levaaes húua 
folha ; e, achamdo que he assy, dirês ao dito rey, que 
vos fostes sabedor como em sua teerra ha grandes de- 
reytos, e que vos parece, que a nos nom se devem de 
levar tam gramdes ; porque teemos novamente emviado. 
a sua terra, e no começo dos trautos sempre em todas 
partes se costuma fazerem quyta e favor aos que vaáo 
com mercadaryas; e que nos asy o costumamos em 
em nossos regnos ; e, portanto, vos parece que elie asy 
ho deve fazer a nos e nosa mercadarya, e apontay com 



1120 EXPEDIÇÃO DE 

elle em algííua cousa rezoada. que se haja de dar de 
compra e de venda, dizemdo lhe que, peroo seja menos 
<io que os outros lhe pagam, ha de sser, prazemdo a 
Deus, a cantidade das naaos e mercadaryas tamta, que 
lhe rendam os seus direitos muyto mais, que agora 
remdem. E, parecemdo vos que o dito rey de Calecut 
neste casso sse*peja em algúa maneira, e vos parecer 
que nam say a ysso assy bem. que esperes que nisso se 
aproveitara, em tall casso, nam curares de insisti jr, e 
nom lhe fallares mais nisso, porque abastara o que lhe 
temdes fallado, por lhe nam parecer que pêra ysto le- 
vaaes cousa detrymynada, e que perde aligúua cousa 
dos direitos que os mouros lhe dam. E, se porventura 
rrescusar de vos dar estas arrefens aquy nomeadas, ou 
outros taaes, de que tenhaaes enformaçam certa, que 
sam de toda segurança e pêra receberdes, pêra, so- 
br ellas, vos em pessoa sayrdes em terra, nam sayrêes 5 
e emtam, lhe mandares apomtar que, pois vollas nam 
quer dar, que vos parece que nom folga tanto de lhe 
fallardes, e ver e ouvjr nosas cousas, como nos parecia, 
e que, por ysso, semellas, vos parece que nam deves 
sayr em terra ; mas que, pêra se fazer o trauto da mer- 
cadarya, e lhe sser fallado nas cousas d ele e lhe levar 
o que lhe envyamos per vos, lhe pedijs que vos queira 
enviar as naaos três ou quatro mercadores e pessoas 
pêra ysso, ssobre as quaees enviares outras tamtas, 
pêra as ditas cousas per ellas lhe emviardes, e lhe falla- 
rem de vossa parte. E, emtam, emviarês Ayres Corrêa, 
e, com elle dous dos sseus sprivaáes huum da receita, 
e outro da despesa, e lhe mandares o que lhe cmvia- 
mos, e lhe fali aram no trato e asento da mercadaria e 
dar da carega, pella maneira que em cima apomtamos 
que lhe vos avyes de dizer, vendo vos com ele ; e lhe 
diram que lhe parece gramde erro e pouco seu serviço, 
nam dar as arrefees que, pêra sayr em terra, lhe vos 
mandastes pedir, porque, se vos com ele vyrees, lhe 



PEDRO ALVARES CABRAL 221 

<iisereys cousas muyto de seu serviço^ e asentareys aly 
huúa nosa cassa, em a qual ficaram os clérigos e frades 
que envyamos pêra lhe ensynarem a fee, e como nela 
ham de crer e se salvar. E assy ficaram mercadaryas 

e de que elle recebera muyto proveyto... 

omra. . . hirem a sua terra e abastarem sseu fsic) 

naturaes das, cousas necessaryas, que as terras muyto 
nobrecem. E, se, todavya. elle se lançar de vos dar as 
ditas arrefeens pêra, sobre ellas, vos poderdes segura- 
mente hyr em terra, emtam lhe pediram que, aquelas 
que as naaos mandou, pêra eles sobre ellas, hirem a 
elle, aja por bem estarem comvosco nas naaos, ate que 
elles carreguem. 

Emtam asemtado ysto com o dito rey, em que nam 
cremos que aja duvjda, começara o dito Ayres Corrêa 
de tirar suas mercadarias em teerra, e vemder e com- 
prar as que lhe parecerem proveytossas pêra nosso 
serviço ; e nam pohera em terra toda a mercadaría 
junta, senam aquela que parecer necesarya pêra se po- 
der vemder, e empregar o dinheiro que d e!la proceder 
em outra que logo sse venha as naaos ; de maneira que 
sempre em terra sse corra o menos risquo que poderdes. 

Em casso que o dito rey diga que nom ha de dar 
arrefeens, porquamto elle o nam costuma fazer a ne- 
nhuuns, porque sua terra, pêra todos aquelles que a 
ella quisserem hijr trautar, he certa e segura, e que asy 
será a elles, sse nella quisserem decer, trautar, comprar 
e vender, e quaaes quer outras pallavras a este rrespeyto, 
de modo que todavya se escusse de dar as ditas arrefes 
asy pêra sobre ellas vos sayrdes, como atras he dyto, 
como outras pêra sobre ellas fazer o dyto Ayres Corrêa 
ha mercadaryada carrega, em tall casso, vos lhe poderes 
mandar tornar a dizer que, o que elle asy diz, será muy 
gramde verdade, e que vos nam credes que ali se faça, 
nem elle o conssemta ; mas que, posto que tall seja o 
costume seu e de sua terra, e ysto que lhe requeres das 



222 EXPEDIÇÃO DE 

ditas arrefens, lhe pareeca cousa nova, a vos se deve 
fazer o que lhe apontaaes, porque vos, nam ssomente 
ssoes nem hjs mercador como os outros que a sua 
terra vaão de tam perto, como sabees ; mas que sooes 
nosso capitam, e principallmente por nos emviado, com 
fundamento de muyto amor, paz e amizade, por ser rey 
christaáo e tal, com que muyto o dessejamos, e que 
tantos annos e tempos ha que proseguymos, pello' 
fruyto principall de serviço de nosso Senhor, que d isso 
se segue, e sua sallvaçam d elle dito rey, e dos de sua 
terra, pêra que levaaes todos os aparelhos e cousas que 
myudamente neste recado lhe poderes apontar, asy de 
clérigos e frades, como de todallas outras cousas d esta 
necesydade ; e, despois, pêra que, ssobre as cousas do 
trauto sse ífaz tall assemto e acordo, com que pêra os 
tempos vimdoyros fique seguro e certo, e se possa fazer 
com todo descamsso d aqueles que ao diante emviar- 
mos, e poder asy pasar que sem nenhuum receo posam 
os nossos hyr a sua terra, e os seus vijr a nossa, sse 
compryr. 

E, semdo casso que o dito rey de Calecut per nenhuum 
modo nam queira vijr a dar, asy as ditas arrefeens, 
nem pêra vossa sayda em pessoa em terra, nem pêra o * 
dito Ayres Corrêa fazer ssobre ellas o negocio da car- 
rega da mercadaria, como acima he apomtado, emtam, 
vos lhe tomares ha emviar dizer, que, a vos vos vos (sic) 
despraz muyto d elle assy o fazer ; porque nam espera- 
vejs que nisso ouve (stcj pejo allguum ; e que vos des- 
praz ainda muyto mais, pello desprazer que nos avere- 
mos d aver, por hy nom asentardes nem fazerdes com 
elle as cousas e negócios de nossa paz, amor e asento, 
como esperávamos que se fizesse, pêra o que, nam ssoo- 
mente vinheys nem ereys por nos emviado, mas ajnda 
pêra despois de vosa carrega tomada, leixardes hy em 
sua* cidade nosso feytor, e com elle ficar casa de nossas 
mercadaryas e outras pessoas que, pêra com elle fica- 



PEDRO ALVARES CABRAL 223 

Tem na casa, levaveys hordenadas ; de que a elle se se- 
guyrya tanto proveyto, que recebesse, aliem d elle, 
muyto contentamento, por sua terra ser mais abastada 
e aproveytada em suas necesidades ; e que, poys elle 
tanto pejo tem em cousa tam pouca, e por que segurii 
tanto noso amor, prestança e amizade, posto que d isso 
se vos syga muyto desprazer, pellas rezóes ja dytas, 
<jue vos hirees loguo a Gallemur, e hy farees vosso 
asemto, paz, e asentarês vosso feytor e casa, que pêra 
sua cidade levaveys, e com elle comsertarês todas cou- 
sas pêra que se sygua e faça todo nosso serviço, o qual 
vos sabees que sse fará asy inteiramente, com'em sua 
cidade, e pella ventura, mays abastado e certo, e que 
elle sabe que ysto he assy verdadeiramente. 

E, despois de assy myudamente com o mais que so- 
bre ysto vos parecer, segundo o que la mais souberdes, 
veemdo que elle nam se muda pêra o fim que aly que- 
remos, emtam, pasado allguum dia ou dias, como vos 
milhor parecer, ainda que nisto deve aver poucas dila- 
ções, pellos pejos que sabees que d isso se sseguem, — 
emtam lhe tornares a mandar dizer que, posto que te- 
nhaes certeza que nosas cousas e nosso serviço sse 
farya muy jmteiramente em Galemur, e aly posamos 
teer muy segura nosa cassa e feytor, vos peílo despra- 
zer que sabees que d isso receberemos, por a elle prim- 
cipalmente vos emviarmos, e antes querermos com elle 
paz, amizade e asento, que com outro nenhuum rey da 
Yndya, detrymynaes, pospoemdo todo prasmo que dos 
vossos, neste casso, possaaes receber, ffazerdes com 
elle vossa mercadarya, e tomardes em sua cidade sua 
carrega; e com esta detryminaçam derradeira, emvia- 
rês em terra Ayres Corrêa e seus sprivaáes, os quaes, 
em cada huua das maneiras atras apontadas, trabalha- 
ram d aver e comprar as mercadaryas de vosa carrega, 
com ha mais brevidade e boom despacho que poderem, 
fazendo com a mayor segurança que vos la bem pare- 



224 EXPEDIÇÃO DE 

cer, e virdes que compra por mais certo recado das 
cousas de nosso serviço. 

E, emquanto nestas negociações e falias andardes 
com o dito rey de Callecut, trabalhar vos es, per qual- 
quer modo que milhor posaes, de ssaber sse podes aver 
carrega em Callnur pêra vossas naaos, e assy, se, que-^ 
remdo vos lia pasar e asentar vossa cassa, sse poderá 
fazer com nosso serviço, e seres la bem recebido, e 
assy, sse pêra o diante, asentando hy, poderam sser se- 
guras todas as cousas, asy pêra a carrega dos tempos 
vyndoyros, como da estada do nosso feytor, e toda 
outra enformaram, semelhante, pêra que, nom soomente 
posaes ser enformado no que la ajaes de fazer, mas 
ajnda pêra d isso poderdes trazer jnteira e certa enfor- 
maçam, quando em booa (sic) vierdes. 

Iteem, porquanto nesta mantira, nom saymdo a jemte 
fazer suas mercadaryas, se sseguyria jnconveniente, ter 
sse ha esta maneira, saber : o dicto Ayres Corrêa com- 
prara toda a espeçiarya que as ditas partes quisserem 
comprar, as quaaes lhe entregaram suas mercadaryas, 
pêra per ellas as aver, e dar lha a peilos preços por 
que a possa comprar, ssem nisso aver nenhuQa outra 
mudança, segundo mais compridamente em seu regy- 
mento se decrara ; e, se pella ventura parecer que esto 
será gramde trabalho ao dito Ayres Corrêa, e que ho 
nam poderá ssofrer, pello que ha de fazer no nosso, 
enuam vos com elle e seus sprivaáes embjerês huum 
feytor, que pêra ello vos pareça mais auto e pertecente 
e ser lhe a hordenado huum spí ivam, o quall a compra 
da espeçiarya das ditas partes fará das mercadarias 
que d ellas receber, passamdo em tall hordem, que se 
faça toda verdade, e se nom syga as partes nenhuum 
engano, semdo o tal feytor, porem, sempre acordido 
com o dito Ayres Corrêa, no preço das mercadaria ísic) 
asy das nossas que vendar, como das que na terra com- 
prar. E quanto aas outras mercadaryas myudas de pe- 



PEDRO ALVARES CABRAL 225 

drarya e outras^ pêra estas ssera hordenado huum outro 
feytor, em cada naao, que venha em terra, saber : cada 
dia, huum feytor de cada naao huum dia, e faca a com- 
pra das taaes mercadaryas, e vyra cada dia dormyr a 
naao ; e, nesta maneira, será provydo a huúa cousa e 
outra, com segurança de nosso serviço. E sse for casso 
que el rey de Gallecut vos dee as arrefens atras apom- 
tadas, ssobre que avees de ssayr em terra, pêra lhe fal- 
lardes e dardes nosso presente, e fazerdes o mais que 
atras vos he apomtado, emtam, vendo que as cousas 
passam em tall hordem, que sejam fectas com toda se- 
gurança, e que elle estará nellas certo, e se nam pode- 
rya seguyr jncomveniemte o que todo bem poderes sen- 
tyr pellos modos e meyos dos negócios, e todas outras 
cousas que bem o poderam mostrar, — dir lhe es que 
nos vos nom emviamos a elle pêra ssoomente esta pri- 
meira viajem com elle fazerdes nosa paz e amizade, e 
assy nella carregardes nosas naaos que levaaes da espe- 
ciarya e cousas da Yndya e de sua terra ; mas pêra que 
loguo em sua cidade leixees e fique nosso feytor e casa 
de nossas mercadaryas e pessoas outras que nella ajam 
de ficar, e assy clérigos e frades, e as cousas da Igreja, 
pêra que nosa fee lhe seja asy jnteiramente mostrado e 
ensynada que possa nella ser dotrijnado, como fyel 
christaáo, no que elle sentyra quanto amor lhe teemos, 
e dessejamos todos sua amizade e prestança; e que lhe 
lhe pedijs que, pêra sua ficada, elle vos ordene e mande 
dar casas em que seja apousentado, e tenha com toda 
segurança suas mercadarias e as pessoas que com elle 
ham de ficar; e que pêra elle, e todos os que com elle 
ficar, e asy as mercadaryas que lhe leixardes, fiquem e 
sejam seguros em todos tempos ; de que vos mande dar 
sua carta, e toda outra segurydade, tall como ssouber- 
des que he usso e costume da terra. E, dando vos assy 
o dito rey de Calecut estas seguranças, e quaesquer ou- 
tras que la sentardes que devaes rrequerer, pêra maior 



226 EXPEDIÇÃO DE 

segurança da ficada do dito feytor, segumdo o que la 
milhor poderdes saber, pelo costume da terra, ficara o 

dito feytor em a dita cidade com as mercadaryas 

ssobejarem da carrega e assy do toda a mais especia- 
ria ordenado pêra sua..., e dir lhe es que, pois 

asy leíxaaes o dito feytor e pessoas outras, e asy nosas 
mercadarias, a que muy principalmente fomos movydo 
por elle conhecer com quanto dessejo de sua amizade 
e prestança estamos, e quanto com ella sempre nos he 
de prazer, que lhe pedijs que queira emviar comvosco 
allguúas pessoas homrradas que nos venham ver, pêra 
que nom ssoomente vejam a nos e a nossos reynos, 
mas, ajnda pellas obras, honrras e merçes, que de nos 
receberam posam milhor sentijr a vomtade que teemos 
pêra elle e suas cousas ; e trabalhar vos ês de as trazer, 
e, trazemdo, as receberam de vos toda honrra e boom 
trauto, que seja posyvel. 

E se for casso que vos nam sejam dadas nenhQas das 
arrefeens, por nenhuum dos modos atras apomtados, e 
de necessidade ajaaes de trabalhar por aver a carrega 
das naaos, na forma atras scripta, per homde crara- 
mente ssemtirês e veres que nosso feytor e mercadaria, 
e asy as outras pessoas que com ele vaão hordenadas 
pêra ficarem, nam devem ficar seguras na dita cidade 
de Callecut, em tal casso, depois de nossas naaos carre- 
gadas, lhe emviarês dizer que vos levaveijs preposito, e, 
ajuda, nosso mandado, de aly leixar nosso feytor e casa 
de nossas mercadaryas, como no capitulo atras se de- 
crara, com o mais que emtam vijrdes ; e, assemtando 
vos asy a ficada do dicto feytor, e as cousas com o 
dito rey de Callecut fiquem acordadas, com todo sseu 
prazer e nosso serviço, e vos, tomada vossa carregua, 
por derradeiro lhe direes, que elle deve ter ja conhecido 
quanta segurança de nossa paz e amizade seempre ha 
de teer, a qual per nos, e pellos nossos, em todos tem- 
pos lhe ssera jmteiramente gardada, e com todo sseu 



PEDRO ALVARES CABRAL 227 

proveyto e beem de seus reyno e j entes d elles ; mas 
que, porquamto nos teemos sabido que em sua cidade 
tratam mouros, jmigos de nosa santa fee, e a ella vem 
suas naaos e mercadaryas, com os quaaes, assy pella 
obrigaçam que a ysso deve ter todo rey cathoUico, 
como porque a nos vêem quassy por direita sobcessam, 
pello que myudamente lhe poderes apontar das cousas 
da guerra d aalleem, nos teemos contjnuadamente 
guerra, porem, que, por tal, que as cousas grandes he 
pequenas fiquem craras. e certas, como antre nos e elle 
comveem, lhe fazees saber que, sse com as naaos dos 
ditos mouros de Meca topardes no mar, avees de tra- 
balhar, quanto poderdes, por as tomar, e de suas mer- 
cadaryas e cousas, e asy mouros que nellas vierem, vos 
aproveytar, como milhor poderdes, e lhe fazerdes toda 
guerra e dapnno que posaaes, como a pessoas com 
quem tamta jmizade, e tam antyga, temos ; e também 
porque comprimos com aquelo que a Deus nosso Se- 
nhor somos obrigado ; porem, que seja certo que, em 
seu porto, e davante sua cidade, posto que vos as to- 
pees, e asy quaaesquer outros nossos capitaaes, que ao 
diante emviarmos, por lhe gardarmos o que em toda 
cousa de sseu prazer e contentamento sempre aveemos 
de folgar, lhe nom farês dano nem mall allguum, e 
ssoomente lhe ssera asy feito topamdo as no mar, como 
he dyto, homde elles a vos, e assy aos nossos que ao 
diante acharem, asy façam o que poderem; e que sseja 
ajuda certo, por saber como a elle e a suas cousas ha 
de ser gardado o que se deve como a rey com que tanto 
amor, paz e amizade senpre avemos de folgar de teer ; 
e que, tomando vos, ou quaesquer outros nossos capi- 
taaes, as ditas naaos, que todos os jndyanos que nellas 
se acharem, e suas mercadaryas e cousas, nom se fará 
nojo nem dapnno, antes toda homrra e boom trauto, e 
seram seguros d isto pêra livremente com todo o sseu 
serem leixados ; porque ssoomente aos ditos mouros 



228 EXPEDIÇÃO DE 

sera feita a guerra, como a jmygos que sam nossos ; e 
ajnda nos praz que, pois elle pode escusar estes mouros 
em suas terras e trato d ellasç, pois prouve a nosso Se- 
nhor que de nos e de nossos recebesse todo o proveyto 
que d elles ate ora ouve. e ajnda muyto mais^ que seria 
beem, e serviço de Deus. e porque nisto comprya o que 
deve como rey ciiristaâo, os lançar de sua terra e nom 
consentyr a elo mais vimjr nem trautar, poys d elles e 
de sua detemça, vinda e estada nella^ lhe nom segue 
mais bem^ que o proveyto que d elles ha^ o qual em nos 
nossos (sic) recebera, com ajuda de nosso Senhor, com- 
tanto mais acrecentamento, que elle seja contente ; e 
que, semdo asy os taaes mouros e naaos de Mequa pellos 
nossos tomadas, que, neste casso, elle dê segurança, per 
sua carta, que, posto que, por causa d ello, os ditos 
mouros de Meca, que aos taes tempos, em sua cidade e 
terras estéverem, e quaesquer outros que ho depois re- 
queiram requeiram (si/:) que lhe seja feita represarya 
em nosso feytor e casa e nosas mercadarias e pessoas 
que com ellas estéverem, pêra per ello serem satisfey- 
tas do dapnno que lhe pellos nossos for feito, elle ho 
nam faça; nem aos nossos, nem nosas mercadary as seja 
por ysso feito costrangymento, nem dano allguum, an- 
tes os defenda sempre, como he obrigado pella paz e 
amizade que comnosco tem. 

Item, lhe direes que, porquanto nos temos sabido que 
em sua cidade e terra, ha costume qiie, ffalleçemdo 
nella allguum mercador, toda sua fazemda, mercadaryas 
e cousas suas fiqua a elle dito rey, e se recada pêra elle, 
o que nom serya rezam se entender em nosso feytor, 
porque o semelhante se deve gardar naquellas pessoas 
que suas propyas mercadaryas e cousas fazem e trau- 
tam, o que nosso feytor nom faz, por tudo ser nosso, 
que, nisto, elle dê segurança que, posto que Deus nosso 
Senhor desponha do dito nosso feytor, e lia falleça, 
que emtam, todas nossas mercadaryas e cousas, e asy 



PEDRO ALVARES CABRAL 229 

Toda nosa casa, seja fora do tall costume e d isso lyvre, 
e nosso feytor, que por seu falleçemento íicar faça ly- 
vremente e sem nenhuum jmpedimento, todo, como o 
feytor fallecido fazia, sem a elle dito rey vimjr cousa 
alguúa, nem com ho nosso sse bollyr, porque, como 
dizemos nom serya rezam se gardar, nem fazer no nosso, 
o que aos outros mercadores e pessoas se faz. 

Item, a esta falia pode se vjir, segundo os passos dos 
negócios que passardes, e que preseemtirdes nelle tan- 
tos pejos em cousa em que elle o nam devera teer, so- 
bre vos dar as ditas arrefens, que vos o hijs leixar e 
poher em Callemur ; e emtam vos partires asy carre- 
gado, e vos hijres dereytamente a Callemur, e lhe darees 
as cartas nosas que llevaaes e lhe direes como nos vos 
emviamos a essas partes da Indya pêra com os reys 
d ella asemtardes paz e amizade, como muytos tempos 
ha que ho desse] amos, e sse deve d huuns reys chris- 
taãos aos outros ; e que, por vos ser dyto que em sua 
terra nom poderyes, logo esta primeira viajem achar 
carrega pêra nossas naaos, fostes primeiro a Gallecut, 
homde vossa carrega tomastes ; e que, por nos termos 
sabido que elle he rey verdadeiro, e por tall ante todos 
conhecido, e assy que nas cousas de nossa fee estaa 
mais certo e ífora da comversaçam e prestança dos 
mouros, jmigos d ella, e por muyto desejarmos, por to- 
dos estes respeytos, e todos outros que temos sabidos 
de sua vertude, vos mandamos que fosseijs a elle, e 
com elle em nosso nome asentasseijs paz e amizade, 
pêra, ao diante, como.. . amigos, nos e os nossos nos 
prestarmos de suas terras, e elle e os seus das nossas, 
como he rezam e aveemos de follgar; e nam ssoomente 
por esto,... mais ajnda, recebemdo elle nossa paz e 
amizade, como esperamos, logo leixardes em sua cidade 
nosso feytor e pessoas nossas, è casa de nossas merca- 
daryas, pêra que, nos tenpos vijmdoiros podessem a 
sua cidade himjr nossas naaos e navvos tomar sua 



200 EXPEDIÇÃO DE 

carrega, e se venderem nossas mercadaryas, e compra- 
rem as que de la ouvermos mester, de que a elle, e a 
toda sua terra, se sseguyra gramde homrra e proveyto ; 
e, tanto que, pella ventara, fique em sua cidade a prin- 
cipall porta de todollos reys da índia, que lhe pedijs 
que sse elle comvosco quiser asentar, receba d isso pra- 
zer e aja por bem ficar asy o dito feytor e vos dê d ello 
toda segurança do costume da terra, saber : suas car- 
tas, e qualquer outra semelhante ; e, sse quiser mandar 
alguúa pessoa ou pessoas suas, que venham comvosco 
a nosos reynos, pêra verem o que neles ha, e lhe poder 
levar de tudo certeza, que credes que nos o averemos 
em prazer, e Ih as mandaremos tornar nas nossas naaos, 
e que receberam de nos homrra e merçe, e assy de vos 
no caminho sseram tratados como vos mesmo. E, 
damdo a, emtam ficara o dito nosso feytor, com todos 
os que vaáo hordenados de com elle ficar, mercadaryas 
e cousas que leva pêra sua ficada ; e, tudo concertado, 
vos vos vimjres em booa ora. E nesta falia primeira, 
que com ho dito rey ouverdes, trabalhares loguo de sa- 
ber se em sua cidade se achara carrega das especiaryas, 
e viram a ella as outras mercadaryas da Indya, e sse 
elle sse trabalhara d isso ; e assy sse as mercadaryas 
que agora levastes, as querem aquy, ou o.itras ; e, sse 
outras, de que ssortes, pêra nos saberdes dar de tudo 
rezam, e aliem disso ficara cujdado principal do fey- 
tor. . . saber e sse dar hordem como o dito rey lhe 

e.mvie por ellas e dê forma como aly se tragam a 

vender, pêra as elle poder comprar e ter prestes, pêra 
quando nosas naaos forem, prazendo a nosso Senhor, 
acharem certa sua carrega, com todallas outras cousas 
de que se ha de ter cuidado, segundo que em seu regy- 
mento se decrara. 

E, tanto que, em booa ora, aquy em Canelur, tever- 
des comcertado e a ficada do dito feytor asemtada, e 
elle decido em terra com todo o que vay ordenado de 



PEDRO ALVARES CABRAL 23 1 

sua ficada, na forma que no capitulo atras sse decrara, 
partir vos es em booa ora, vya d estes reynos ; e sse no 
caminho topardes allguúas das naaos de Meca, e pare- 
cemdo vos que tendes desposisam pêra as poderdes 
tomar, trabalhar vos es de as tomardes, nam jmves- 
tymdo com ellas, podendo escussar, e soomente com 
vossa artelharya as fazerdes amaynar e lançar seus 
botes fora e nelles emviarem e virem seus pillotps, mes- 
tres e mercaaores, por que nesta maneira se faça mais 
seguramente esta guerra, e se possa seguyr menos dano 
a jente de vosas naaos ; e, se, com a ajuda de nosso 
Senhor, per vos forem tomadas, de todas as mercada- 
ryas que nellas achardes vos aproveytarês o miihor que 
poderdes, e as recolheres a nossas naaos ; e todos os 
pillotos e mestres e allguuns mercadores principaaes 
que hy posam vimjr nas nossaas naaos, nos trarês ; e os 
outros, e jente das ditas naaos, que assy tomardes, res- 
gatares, avemdo pêra ysso disposisam e lugar, e o 
tempo o consentijr; e, nam o podemdo asy bem fazer, 
-entam, meteres todos em huíãa das naaos, ha mais desa- 
parelhada que hy ouver, e os leixarês hijrnella;e todas 
as outras meteres no fundo e queymarês, teemdo muy 
grande recado que, se, prazemdo a nosso Senhor, as ditas 
naaos tomardes, sse aproveytem as mercadaryas grossas 

e myudas que nellas com todo nosso serviço. 

E, tanto que, prazemdo a nosso Senhor, teverdes 
atravesado, e fordes em Melynde, porque ja emtam teres 
sabido quaaes dos navyos de toda a armada sam mj- 
Ihores velleiros e quaes menos, e zorreiros, como fordes 
no dito Melymde, teres esta maneira, saber : todos os 
navyos que forem milhores veleiros, apartares a huua 
parte, e estes mandares que façam seu caminho via 
d estes reynos, sem por os outros esperarem, mandando, 
porem, que estes, que asy forem mais velleiros, esperem 
huuns por outros, e gardem todo outro mais regimento 
que levaaes hordenado, na espera e synaes d huuns a 



232 EXPEDIÇÃO DE PEDRO ALVARES CABRAL 



outros, por se nom perderem ; e os que forem menos- 
velleiros e zorreiros apartares a outra parte e estes fa- 
ram seu caminho apartados per^sy, na forma que man- 
damos e he decrarado que no façam os velleiros; e, se 
for casso que ha vosa naao cayba no conto dos vel- 
leiros, vimjrês vos na sua companhia e conserva, e hor- 
denarês pêra a parte dos que forem zorreiros, e piores 
da veella, huum capitam moor, taall pessoa, qual pêra 
ysso escolherdes e vos parecer que pêra ysso será mais 
auta e pertencente, ao qual ficara e dares todo vosso 
jnteiro poder; e mandamos per este que todos os outros 
capitaáes e companha lhe obedeçam, e cunpram seus 
mandados, como a vos mesmo ho faryam; e, se vos 
cayrdes e vos... com os zorreiros, ficares com elles, 
e pêra os outros hordenarês outro capitaão moor, na 

forma sobredita dos mais velleiros, ou na parte 

dos zorreiros cayr Sancho de Toar nam cayndo elle 
comvosco jumtamente, neste casso, na parte em que 
elle cayr, ficaram (sic) elle capitam moor. 

E, posto que asy myudamente, neste regymento, vos 
apomtemos as coussas que facaes e gardês, porque se- 
gumdo os tempos e modo dos negócios, especialmente 
neste, de que ate ora tam pouco he sabido, e pella di- 
versidade que, pela ventura, poderes achar nos costu- 
mes da terra, parecemdo vos que em outra maneira 
deves mudar e fazer as coussas, pêra que as tragaes e 
venham ao fim que conveem, e dessejamos por nosso 
serviço, neste casso, pella muita comfiança que de vos 
teemos, aveemos por beem e vos mandamos, que facaes 
e syguaaes todo o que milhor vos parecer, tomando 
ssempre em tudo comsselho dos capitaáes e feytor e de 
quaesquer outras pessoas que vos pareça que nisso de- 
vaes meter ; e, emfym, o que escolherdes e acordardes^ 
seguyrês e farees. 

Item, o capitam segundo ► 



Carta de Pêro Vaz de Caminha 



Senhor. Posto que o capitam moor d esta vossa frota, 
e asy os outros capitaães, sprevam a Vossa Alteza a 
nova do achamento d esta vossa terra nova, que se ora 
neesta navegaçom achou, nom leixarey também de dar 
-d isso minha comta a Vossa Alteza, asy como eu mi- 
lho r poder, ajmda que, pêra o bem contar e falar, o 
saiba pior que todos fazer; pêro tome Vossa Alteza 
minha inoramçia por boa vomtade; a qual bem certo 
crea, que por afremmosentar nem afear aja aquy de 
poer mais ca aquilo que vy e me pareçeo. Da marinha- 
jem e singraduras do caminho nom darey aquy conta a 
Vossa Alteza, porque o nom saberey fazer, e os pilotos 
devem teer ese cuidado ; e portanto, senhor, do que ey 
de falar começo e diguo : 

Que a partida de Belém, como Vosa Alteza sabe, foy 
segunda feira ix de Março, e sábado xiiij (14) do dito 
mes, amtre as biij (8) e ix oras, nos achamos amtre as 
Canareas, mais perto da Gram Ganarea ; e aly amda- 
mos todo aquele dia em calma, a vista d elas, obra de 
três ou quatro legoas ; e domingo xxij (22) do dito mes, 
aas x oras, pouco mais ou menos, ouvemos vista das 
jlhas de Gabo Verde, saber : da jlha de Sam Njcolaao, 
segundo dito de Pêro Escolar, piloto ; e, a noute se- 
gujmte aa segunda feira, lhe amanheçeo (sic) se perdeo 
da frota Vaasco d Atayde com a sua naao, sem hy aver 
tempo forte, nem contrairo pêra poder seer ; fez ocapi- 



234 EXPEDIÇÃO DE 

tam suas deligençias pêra o achar a huúas e a outras 
partes, e nom pareceo majs ; e asy segujmos nosso 
caminho per este mar de lomgo ataa terça feira d oita- 
vas de páscoa^ que foram xxj (21) dias d Abril, que to- 
pamos alguuns sygnaaes de terá, seemdo da dita jlha, 
segundo os pilotos deziam obra de bj*^ Ix (660) ou 
Ixx legoas, os quaaes heram mujta camtidade d ervas 
compridas, a que os vnareantes chamam botelho, e asy 
outras, a que também chamam rabo d asno ; e aa 
quarta feira segujmte pola manhaã topamos aves. a 
que chamam fura buchos ; e neeste dia, a oras de bes- 
pera, ouvemos vista de terá, saber : primeiramente 
d huum gramde monte muy alto e redomdo, e d outras 
terras jnais baixas, ao sul d ele, e de terra chaã, com 
gramdes arvoredos, ao qual monte alto o capitam pos 
nome o monte Pascoal, e aa terá a tara da Vera Cruz. 
Mandou lançar o prumo ; acharam xxb ('25) braças ; e 
ao sol posto, obra de bj (6) legoas de terá surgimos 
amcoras em xix braças, amcorajem limpa. Aly jouve- 
nmos toda aquela noute ; e aa quinta feira pola manhaã 
fezemos vella e segujmos direitos aa terra, e os navjos 
pequenos diante, himdo per xbij f/7), xbj (16), xb (i5)y 
xiiij [14), xiij (i3), xij (j2), X e ix braças ataa mea legoa 
de terra, omde todos lançamos amcoras em direito da 
boca de huum rio ; e chegariamos a esta amcorajem 
aas X oras pouco mais ou menos ; e d aly ouvemos 
vista de homeens que amdavam pela praya, obra de 
bij fj), ou biij (8), segundo os navjos pequenos diseram, 
por chegarem primeiro. Aly lançamos os batees e es- 
quifes fora ; e vieram logo todolos capitaães das naaos 
a esta naao do capitam moor ; e aly falaram ; e o capi- 
tam mandou no batel em terá Nicolaao Coelho pêra 
veer aquelle rio ; e tamto que ele começou pêra la d hir 
acodiram pela praya homeens, quando dous, quando 
ires, de maneira que, quamdo o batel chegou aa boca 
do rio, heram aly xbiij (j8) ou xx homeens pardos, to- 



PEDRO ALVARES CABRAL 235 



dos nuus, sem nenhuúa cousa que lhes cobrise suas 
vergonhas r traziam arcos nas maâos e suas seetas ; 
vjnham todos rijos pêra o batel ; e Nicolaao Coelho lhes 
fez sinal que posesem os arcos ; e elles os poseram. Aly 
nom pode d eles aver fala nem entendimento que apro- 
veitasse, polo mar quebrar na costa; soomente deu lhes 
huum barete vermelho e huúa carapuça de linho que 
levava na cabeça e huum sombreiro preto ; e huum 
d elles lhe deu huum sombreiro de penas d aves compri- 
das com huúa copezinha pequena de penas vermelhas e 
pardas coma de papagayo ; e outro lhe deu huum ramal 
grande de comtinhas bramcas meudas, que querem pa- 
recer d aljaveira; as quaaes peças creo que o capitam 
manda a Vossa Alteza ; e com jsto se volveo aas naaos, 
por seer tarde e nom poder d eles aver mais fala, por 
aazo do mar. 

A noute segujmte ventou tamto sueste com chuva- 
<:eiros, que fez caçar as naaos, e especialmente a capi- 
tana ; e aa sesta pola manhaã, aas biij (8) oras. pouco 
mais ou menos, per conselho dos pilotos, mandou o 
capitam levamtar amcoras, e fazer vela ; e fomos de 
lomgo da costa, com os batees e esquifes amarados 
per popa. comtra o norte, pêra veer se achávamos 
alguúa abrigada e boo pouso, omde jouvesemos, pêra 
tomar agoa e lenha, nom por nos ja mjnguar, mas por 
nos acertarmos aquy ; e quamdo fezemos vela seriam ja 
na prava, asentados jumto com o rio, obrra de Ix ou 
Ixx homeens que se jumtaram aly poucos e poucos ; 
fomos de lomgo, e mandou o capitam aos navios pe- 
quenos que fosem mais chegados aa terra, e que, se 
achasem pouso seguro pêra as naaos que amaynasem. 
E, seendo nós pela costa obra de x legoas d omde nos 
levamtamos, acharam os ditos navios pequenos huum 
arrecife com huum porto dentro muito boo, e muito 
seguro, com huiía muy larga entrada, e meteram se 
dentro e amaynaram ; e as naaos arribaram sobr eles e 



236 



EXPEDIÇÃO DE 



huum pouco amtes sol posto amaynaram, obra de huua 
legoa do arrecife, e ancoraram se em xj (ij) braças. E 
seendo Affonso Lopez^ nosso piloto, em huum d aque- 
les navios pequenos per mandado do capitam, por seer 
homem vyvo e deestro pêra jsso, meteo se loguo no 
esquife a somdar o porto demtro, e tomou em huúa ai- 
maadia dous d aqueles homeens da terra, mancebos e 
de boos corpos ; e huum d eles trazia huum arco e bj 
(6) ou bij (j) seetas, e na praya amdavam mujtos com 
seus arcos e seetas, e nom lhe aproveitaram ; trouve os 
logo ja de noute ao capitam, omde foram recebidos 
com muito prazer e festa. 

A feiçam d eles he seerem pardos, maneira d averme- 
lhados, de boos rostros e boos narizes bem feitos ; am- 
dam nuus, sem nenhuúa cobertura ; nem estimam ne- 
nhúua coussa cobrir, nem mostrar suas vergonhas, e 
estam açerqua d isso com tamta jnocemcia como teem 
em mostrar o rostro ; traziam ambos os beiços de 
baixo furados e metidos por eles senhos osos d oso 
bramcos de compridam,de huúa maão travessa e de 
grosura de huum fuso d algodam, e agudo na ponta 
coma furador; metem nos pela parte de dentro do 
beiço, e o que lhe fica antre o beiço e os demtes he 
feito coma roque d enxadrez ; e em tal maneira o tra- 
zem aly emcaxado que lhes nom da paixam, nem lhes 
torva a fala, nem comer, nem beber ; os cabelos seus 
sam. coredios, e andavam trosqujados de trosquya alta 
mais que de sobre pemtem, de boa gramdura, e rapa- 
dos ataa per cjma das orelhas ; e huum d eles trazia 
per baixo da solapa de fonte a fonte pêra detrás huúa 
maneira de cabeleira de penas d ave amarela, que seria 
de compridam de huum couto muy basta e muy çarada,. 
que lhe cobria o toutuço e as orelhas, a qual amdava 
pegada nos cabelos pena e pena com huúa comfeiçam 
branda coma cera, e nom no era, de maneira que am- 
dava a cabeleira muy redomda e muy basta e muy 



PEDRO ALVARES CABRAL 287 

jgual, que nom fazia mjngua mais lavajem pêra a le- 
vantar. O capitam, quando eles vieram, estava asentado 
em huúa cadeira, e huúa alcatifa aos pees por estrado, 
e bem vestido com huum colar d ouro muy grande ao 
pescoço, e Sancho de Toar, e Simam de Miranda, e Ni- 
colaao Coelho, e Aires Gorea, e nos outros que aquy 
na naao com ele himos asentados no chaão per esa alca- 
tifa. Acemderam tochas e emtraram, e nom fezeram 
nenhuúa mençam de cortesia, nem de falar ao capitam,, 
nem a njmguem ; pêro huum d eles pos olho no colar 
de capitam, e começou d acenar com a maáo pêra a 
terra, e despois pêra o colar, com o que nos dezia que 
avia em terá ouro; e também viu huum castiçal de 
prata, e asy meesmo acenava pêra a terá e entam pêra 
o castiçal como que avia também praia. Mostraram lhes 
huum papagayo pardo que aquy o capitam traz ; toma- 
ram no logo na maáo, e acenaram pêra a terra, como 
que os avia hy. Mostraram lhes huum carneiro ; nom 
fezeram d ele mençam. Mostraran lhes huúa galinha; 
casy aviam medo d ela, e nom lhe queriam poer a 
maâo ; e despois a tomaram coma espantados. Deran 
lhes aly de comer pam e pescado cozido, confeitos, 
fartees, mel, e figos pasados ; nom quiseram comer 
d aquilo casy nada, e alguúa coussa, se a provavam, 
lamçavam na logo fora. Trouveram lhes vinho per húa 
taça; pozeram lhe asy a boca tammalaves e nom gos- 
taram d ele nada, nem o quiseram mais ; trouveram lhes 
agoa per huúa albarada ; tomaram d ela senhos boca- 
dos e nom beberam ; soomente lavaram es bocas e lam- 
çaram fora. Vio huum d eles huúas contas de rosairo 
brancas ; acenou que Ih as desem ; e folgou muito com 
elas ; e lançou as ao pescoço ; e despois tirou as e en- 
brulhou as no braço ; e acenava pêra a terra e entam 
pêra as contas e pêra o colar do capitam, como que 
dariam ouro por aquilo. Isto tomavamo nos asy polo 
desejarmos ; mas se ele queria dizer que levaria as 



238 EXPEDIÇÃO DE 



contas e mais o colar, isto nom querjamos nos emten- 
der porque Ih o nom aviamos de dar; e despois tornou 
as contas a quem Ih as deu, e entam estiraran se asy de 
costas na alcatifa a dormjr sem teer nenhua maneira 
de cobrirem suas vergonhas, as quaaes nom heram fa- 
nadas, e as cabeleiras d elas bem rrapadas e feitas. O 
capitam lhes mandou poer aas cabeças senhos coxijs, e 
o da cabeleira procurava asaz polia nom quebrar, e 
lançaram lhes huum manto em cjma, e eles consentiram 
e jouveram e dormiram. 

Ao sábado pola manhaá mandou o capitam fazer 
vella, e fomos demandar a emtrada, a qual era muy 
largua e alta, de bj (6)^ bij (j) braças, e entraram toda- 
las naaos demtro e amcoraram se em b (5), bj (6) bra- 
ças, a qual amcorajem dentro he tam grande e tam fre- 
mossa e tam segura, que podem jazer dentro nela mais 
de ij"^ (200) navjos e naaos. E tanto que as naaos foram 
pousadas e amcoradas vieram os capitaSes todos a esta 
naao do capitam moor, e d aquy mandou o capitam 
Nicolaao Coelho e Bertolameo Dias que fosem em terra 
e levasem aqueles dous homecns, e os leixasem hir com 
seu arco e seetas ; aos quaaes mandou dar senhas cami- 
sas nuvas e senhas carapuças vermelhas e dous rrosai- 
ros de contas brancas d oso, que eles levavam nos bra- 
ços, e senhos cascavees e senhas campainhas. E man- 
dou com eles pêra ficar la huum mancebo degradado, 
creado de Dom Joham Teello, a que chamam Affonso 
Ribeiro, pêra amdar la com eles, e saber de seu vjver e 
maneira, e a mym mandou que fose com Nicolaao 
Coelho. Fomos asy de frecha direitos aa praya ; aly 
acodiram logo obra de ij' (200) homeens todos nuus e 
com arcos e seetas nas maáos ; aqueles que nos leváva- 
mos acenaram lhes que se afastasem e posesem os ar- 
cos ; e eles os poseram e nom se afastaram muito ; 
abasta que poseram seus arcos, e emtam sairam os que 
nos levávamos e o mancebo degradado com eles ; os 



PEDRO ALVARES CABRAL 289 



quaaes, asy como saíram, nom pararam mais, nem es- 
perava huum por outro, senom a quem mais coreria ; e 
pasaram huum rio que per hy core d agoa doce de 
mujta agoa, que lhes dava pela braga, e outros mujtos 
com eles ; e foram asy corendo aalem do rrio antre 
huúas moutas de palmas, onde estavam outros ; e aly 
pararom ; e naquilo foy o degradado com huum homem, 
que logo ao sair do batel ho agasalhou ; e levou o ataa 
la ; e logo ho tomaram a nos ; e com ele vieram os ou- 
tros que nos levamos, os quaaes vijnham Ja nuus e sem 
carapuças. E entam se começaram de chegar mujtos, e 
entravam pela beira do mar pêra os batees ataa que 
mais nom podiam ; e traziam cabaaços d agoa c toma- 
vam alguuns barris que nos levávamos, e emchia nos 
d agoa e trazia nos aos batees; nom que eles de todo 
chegasem a bordo do batel, mas, junto com ele, lança- 
vam no da maão, e nos tomavamo los, e pediam que 
lhes desem alguúa coussa. Levava Nicolaao Coelho 
cascavees e manjlhas, e huuns dava huum cascavel, e a 
outros huúa manjlha, de maneira que com aquela em- 
carna casy nos queriam dar a maão. Davam nos d aque- 
les arcos e seetas por sombreiros e carapuças de linho, 
e por qualquer coussa que lhes homem queria dar. 
D aly se partiram os outros dous mancebos, que nom 
os vimos mais. 

Amdavam aly mujtos d eles ou casy a maior parte, 
que todos traziam aqueles bicos d oso nos beiços, e 
alguuns que amdavam sem elles traziam os beiçcs fu- 
rados, e nos buracos traziam huuns espelhos de paao 
que pareciam espelhos de boracha ; e alguuns d eles 
traziam três d aqueles bicos, saber, huum na metade e 
os dous nos cabos, e amdavam hy outrros quartejados 
de cores, saber, d elles ameetade da sua propia cor, e 
ameetade de timtura negra maneira de zulada, e outros 
quartejados d escaques. Aly amdavam antr eles três ou 
quatro moças bem moças e bem jentijs, com cabelos 



240 EXPEDIÇÃO DE "^ 

mujto pretos comprjdos pelas espadoas, e suas vergo- 
nhas tão altas e tam çaradinhas, e tam limpas das ca- ' 
beleiras. que de as nos mujto bem olharmos nom tij- 
nhamos nenhuúa vergonha. Aly por emtam nam ouve 
mais fala nem emtendimento com eles por a berberja 
d eles seer tamanha que se nom emtendia nem ouvia 
ningem. Acenamos lhe que se fosem ; e asy o fezeram e 
pasaran se aalem do rrio, e saíram três ou quatro 
homeens nossos dos batees, e encheram nom sey quan- 
tos barrijs d agoa que nos levávamos^ e tornamo nos 
aas naaos ; e em nos asy vyndo acenavam nos que tor- 
nasemos ; tornamos e eles mandarem o degradado, e 
nom quiseram que fie ase la com eles ; o qual levava 
húaa bacia pequena e duas ou três carapuças vermelhas 
pêra dar la ao senhor, se o hy ouvese. Nom curaram de 
lhe tomar nada, e asy o mandaram com tudo ; e entam 
Bertolameu Dias o fez outra vez tornar que lhes dese 
aquilo ; e ele tornou, e deu aquilo, em vista de nós, 
aaquelle que o da primeira (sic) agasalhou ; e entam 
veo ssee trouvemolo. Este que o agasalhou era ja de 
dias e amdava todo per louçaynha, cheo de penas pe- 
gadas pelo corpo, que parecia aseetado coma Sam Se- 
bastiam ; outros traziam carapuças de penas amarelas, 
e outros de vermelhas, e outros de verdes; e húua 
d aquellas moças era toda timta de fumdo a cima 
daquela timtura, a qual certo era tam bem feita e tam 
rredomda, e sua vergonha que ela nom tjnha, tam gra- 
ciosa, que a mujtas molheres de nossa terra, veendo lhe 
taaes feiçoees fezera vergonha, por nom terem a sua 
com eela. Nenhuúm d eles nom era fanado, mas todos 
asy coma nos ; e com isto nos tornamos ; e eles foram sse. 
Aa tarde sayo o capitam moor em seu batel com 
todos nos outros e com os outros capitaáes das naaos 
em seus batees a folgar pela baya, a caram da praya ; 
mas njnguem sayo em terá, polo capitam nom querer, 
sem embargo de njmguem neela estar ; soomente sayo 



PEDRO ALVARES CABRAL 24 1 

ele com todos em huum ilheeo grande que na baya esta^ 
que de baixamar fica muy vazio, pêro he de todas par- 
tes cercado d agoa, que nom pode njmguem hir a ele 
isem barco ou a nado. Aly folgou ele e todos nos outros 
bem húa ora e meya e pescaram hy amdando mari- 
nheiros com huum chimchorro ; e matarom pescado 
meudo nom mujto ; e entam volvemo nos aas naaos ja 
bem noute. Ao domingo de pascoela pola manhaá de- 
■tremjnou o capitam d hir ouvir misa e preegaçam na- 
quele ilheo, e mandou a todolos capitaâes que se cor- 
rejesem nos batees e fosem com ele ; e asy foy feito. 
Mandou naquele ilheeo armar huum esperável, e dentro 
neele alevantar altar muy bem coregido ; e aly com to- 
dos nos outros fez dizer misa, a qual dise o padre frei 
Amrique em voz entoada, e oficiada com aquela mees- 
ma voz pelos outros padres e sacerdotes que aly todos 
heram ; a qual misa, segundo meu parecer, foy ouvjda 
por todos com muito prazer e devaçom. Aly era com o 
capitam a bandeira de Ghristos com que sayo de Belém, 
a qual esteve sempre alta aa parte do avamjelho. Aca- 
bada a misa, desvestio se o padre, e pose se em huúa 
cadeira alta, e nos todos lamçados per esa área, e pree- 
gou huúa solene e preveitossa preegaçom da estoria do 
avanjelho, e em fim d ela trautou de nossa vjnda e do 
achamento d esta terra conformando se com o sinal da 
cruz sô cuja obediência vijmos, a qual veo mujto a 
preposito e fez mujta devaçom. 

Emquanto estevemos aa misa e aa preegaçom seriam 
na praya outra tanta jente pouco mais ou menos como 
os d omtem com seus arcos e seetas, os quaaes amda- 
vam folgando e olhando nos ; e asentaram se ; e, des- 
pois d acabada a misa, aseentados nos aa pregaçom, 
alevantaran se mujtos d elles, e tanjeram corno ou vo- 
zina, e começaram a saltar e dançar huum peduço, e 
alguuns d eles se meteram em almaadias duas ou três 
que hy tijnham, as quaaes nom sam feitas como as que 

16 



242 EXPEDIÇÃO DE 

eu já vy, soomente sam três traves aladas jumtas ; e 
aly se metiam iiij (4) ou b (5) ou eses que queriam, 
nom se afastando casy nada da terra, senom quanta 
podiam tomar pee. Acabada a pregaçom, m.oveo o ca- 
pitam, e todos pêra os batees com nosa bandeira alta, 
e embarcamos, e fomos asy todos contra terra pêra pa- 
sarmos ao longo per ond eles estavam, hjndo Bertola- 
meo Dias em su esquife, per mandado do capitam, 
diamte com huum paao d huúa almadia que lhes o mar 
levara, pcra Ih o dar, e nos todos obra de tiro de pedra 
trás ele. Como eles viram ho esquife de Bertolameo 
Dias, chegaram se logo todos a agoa, metendo se neela 
ataa onde mais podiam. Acenaran lhes que posesem os 
arcos, e mujtos d eles os hiam logo poer em terra, e 
outros os nom punham. Amdava hy huum que falava 
mujto aos outros que se afastasem, mas nom ja que 
m a mym parecese. que lhe tijnham acatamento, nem 
medo. Este que os asy amdava afastando trazia seu 
arco e seetas, e amdava timto de timtura vermelha pe- 
los peitos e espadoas e pelos quadrijs, coxas e pernas, 
ataa baixo ; e os vazios com a bariga e estamego era 
da sua própria cor, e a timtura era asy vermelha, que 
a agoa Ih a nom comya nem desfazia, ante, quando 
saya da agoa era mais vermelho. Sayo hunm homem 
do esquife de Bertolameu Dias, e andava antr eles sem 
eles emtenderem nada neele quanta pêra lhe fazerem 
mal, senom quanto lhe davam cabaaços d agoa, e ace- 
navam aos do esquife que saisem em terra. Com isto se 
volveo Bertolameu Dias ao capitam, e veemo nos aas 
naaos a comer, tanjendo tronbetas e gaitas, sem lhes 
dar mais apresam ; e eles tornaram se a asentar na 
praya, e asy por entam ficaram. Neeste jlheo omde 
fomos ouvjr misa e preegaçam espraya mujto a agoa e, 
descobre mujta área e mujto cascalhaao. Foram al- 
guuns, em nos hy estando, buscar marisco, e nom no 
acharom ; e acharam alguuns camaroões grosos e cur- 



PEDRO ALVARES CABRAL 248 

tos, antre os quaaes vinha huum majto grande camaram, 
« muito grosso, que em nenhuum tenpo o vj tamanho ; 
íambem acharom cascas de ber^oões, e d ameijeas, mas 
nom toparam com nenhuúa peça inteira ; e, tamto que 
comemos, vieram logo todolos capitaáes a esta naao 
per mandado do capitam moor, com os quaaes se ele 
apartou, e eu na conpanhia, e preguntou asy a todos se 
nos parecia seer bem mandar a nova do achamento 
<1 esta terra a Vosa Alteza pelo navjo dos mantijmentos, 
pêra a mjlhor mandar descobrjr, e saber d ela mais do 
<\uo agora nos podiamos saber, por hirmos de nosa 
viajem; e antre mujtas falas que no caso se fezeram, 
foj per todos ou a mayor parte dito que seria mujto 
bem, e nisto comcrudiram; e, tamto que a concrusam 
foy tomada, pregnmtou mais se seria boo tomar aquy 
per força huum par d estes homeens pêra os mandar a 
Vossa Alteza, e leixar aquy por eles outros dous d es- 
tes degradados. A esto acordaram que nom era necesa- 
reo tomar per força homeens, porque jeeral costume 
era dos que asy levavom per força pêra algúa parte 
dizerem que ha hy todo o que lhe preguntam ; e que 
mjlhor e mujto mjlhor emformaçom da terra dariam 
dous homeens, d estes degradados, que aquy leixassem, 
do que eles dariam, se os levasem, por seer jente que 
njmguem emtende, nem eles tam cedo aprenderiam a 
falar pêra o saberem também dizer, que mujto mjlhor 
ho estoutros nom digam, quando ca Vosa Alteza man- 
dar ; e que portamto nom curasem aquy de per força 
tomar njmguem, nem fazer escandolo, pêra os de todo 
mais amansar e apaceficar, senom soomente leixar aquy 
os dous degradados, quando d aquy partisemos ; e asy 
por mjlhor parecer a todos ficou detreminado ; acabado 
jsto, dise o capitam que fosemos nos batees em terra e 
veersia bem o rrio quejando era, e rambem pêra folgar- 
mos. Fomos todos nos batees em terá armados, e a 
bandeira comnosco. 



244 EXPEDIÇÃO DE 

Eles amdavam aly na praya aa boca do rrio. omde 
nos hiamos, e ante que chegasemos, do emsino que- 
d antes tynham, pozeram todos os arcos, e acenavam, 
que saisemos ; e, tanto que os batees pozeram as proas 
em terra^ pasaram se logo todos aalem do rrio, o qual 
nom he mais ancho que huum jogo de manqual, e,, 
tanto que desenbarcamos, alguuns dos nosos pasarom 
logo o rrio e foram antr elles. e alguuns aguardavam, e 
outros se afastavam ; pêro era a cousa de maneira que 
todos andavam mesturados. Eles davam d eses arcos 
com suas seetas por sonbreiros e carapuças de linho e 
por quallquer cousa que lhes davam. Pasaram aalem 
tamtos dos nosos e amdavam asy mesturados com eles,, 
que eles se esqujvavam, e afastavan se, e hian se d eles 
pêra cima onde outros estavam ; e entam o capitam, 
feze se tomar ao colo de dous homeens, e pasou o rrio 
e fez tornar todos. A jente que aly era nom seria mais 
ca aquela que soya ; e, tanto que o capitam fez tornar 
todos^ vieram alguuns d eles a ele, nom polo conhece- 
rem por senhor, ca me parece que nom entendem, nem 
tomavam d isso conhecimento, mas porque a jente 
nossa pasava já pêra aquém do rrio. Aly falavam e tra- 
ziam mujtos arcos e contjnhas d aquelas ja ditas, e 
resgatavam por qualquer cousa, em tal maneira, que 
trouveram d aly pêra as naaos mujtos arcos e seetas e 
comtas; e entam tornou se o capitam aaquem do rrio, 
e logo acodiram mujtos aa beira d ele. Aly verjeès ga- 
lantes pimtados de preto e vermelho, e quartejados, asy 
pelos corpos, como pelas pernas, que certo pareciam 
asy bem ; também andavam antr eles iiij (4) ou b (5} 
molheres moças asy nuas, que nom pareciam mal, antre 
as quaaes andava huúa com huúa coxa dogiolho ataa o 
quadril e a nádega toda tinta d aquela tintura preta, e 9 
ai todo da sua propia cor; outra trazia anbolos giolhos 
com as curvas asy timtas, e também os colos dos pees, e 
suas vergonhas tam nuas e com tanta inoçemçia descu" 



PEDRO ALVARES CABRAL 24D 

bertas. que nom avia hy nehuúa vergonha. Também an- 
dava hy outra molher moça com huum menjno ou me- 
njna no colo atado com huum pano nom sey de que aos 
peitos, que lhe nom parecia senom as pernjnhas, mas as 
pernas da may e o ai nom trazia nenhuum pano. E des- 
pois moveu o capitam pêra cima ao longo do rrio, que 
anda sempre a caram da praya, e aly esperou huum 
velho que trazia na maão hua paa d almadia ; falou, 
estando o capitam com ele, perante nos todos, sem o 
nunca njmguem emtender, nem ele a nos quant a cou- 
sas que Ih omem pregumtava d ouro, que nos desejáva- 
mos saber se o avia na terra. Trazia este velho o beiço 
tam furado, que lhe caberja pelo furado huum j^ram 
dedo polegar, e trazia metido no furado huúa pedra 
verde roim que çarava per fora aquele buraco ; e o ca- 
pitam Ih a fez tirar; e ele nom sey que diaabo falava, e 
hia com ela pêra a boca do capitam pêra Ih a meter; 
estevemos sobre iso huum pouco rijnado (rijnando), e 
entam enfadou se o capitam e leixou o ; e huum dos 
nosos deu lhe pola pedra huum sonbreiro velho, nom 
por ela valer algúa coussa, mas por mostra ; e despois. 
a ouve o capitam, creo pêra com as outras cousas a 
a mandar a Vossa Alteza. Amdamos per hy veendo a 
rribeira, aqual he de mujta agoa. e mujto boa; ao 
longo d ela ha mujtas palmas, nom mujto altas, em que 
ha muito boos palmitos. Colhemos e comemos d eles 
muitos. Entam tornou-se o capitam pêra baixo pêra a 
boca do rrio, onde desenbarcamos, e aalem do rrio am- 
davam muitos d eles damçando e folgando huuns ante 
outros, sem se tomarem pelas maãos, e faziam no bem. 
Pasou se emtam aalem do rrio Diogo Dias, almoxarife 
que foy de Sacavém, que he homem gracioso e de pra- 
zer, e levou comsigo huum gayteiro noso com sua gaita,, 
e meteo se com eles a dançar tomando os pelas maãos,. 
e eles folgavam e riam, e amdavam com ele muy bem 
ao soom da gaita. Despois de dançarem fez lhe aly am- 



246 EXPEDIÇÃO DE 

dando no chaão muitas voltas ligeiras e salto real, de 
que se eles espantavam, e riam e folgavam mujto ; e 
com quanto os com aquilo muito segurou e afaagou, 
tomavam logo huúa esqujveza coma montezes ; e foran 
se pêra cjma; e entam o capitam pasou o rrio com to- 
dos nos outros ; e fomos pela praya de longo, himdo os 
batees asy a caram de terra, e fomos ataa huúa lagoa 
grande de agoa doce, que esta jumto com a praya, por- 
que toda aquela rribeira do mar he apaulada per çjma 
e saay a agoa per mujtos lugares ; e, depois de pasar- 
mos o rrio, foram huuns bij ('j) ou biij (8) d eles amdar 
antre os marinheiros que se recolhiam aos batees, e 
levaram d aly huum tubaram, que Bertolomeu Dias 
matou ; e levava Ih o, e lançou o na praya. Abasta que 
ataa quy, como quer que se eles em alguúa parte aman- 
sasem, logo d huúa maáo pêra a outra se esquivavam 
coma pardaaes de cevadoiro ; e homem nom lhes ousa 
de falar rijo, por se mais nom esqujvarem ; e todo se 
pasa como eles querem, poios bem amansar. Ao velho, 
com que o capitam falou, deu huúa carapuça vermelha; 
e com toda a fala que com ele pasou, e com a carapuça 
que lhe deu, tanto que se espedio, que começou de pa- 
liar o rrio, foi se logo recatando, e nom quis mais tor- 
nar do rrio pêra aquém ; os outros dous, que o capitam 
teve nas naaos, a que deu o que já dito he, nume a aquy 
Tnais pareceram ; de que tiro seer jente bestial e de 
pouco saber ; e por" ysso sam asy esqujvos ; eles porem 
comtudo amdam muito bem curados e mujto limpos, e 
naquilo me parece aimda mais que sam coma aves ou 
alimareas monteses, que lhes faz ho aar mjlhor pena e 
milhor cabelo, que aas mansas ; porque os corpos seus 
sam tam timpos é tão gordos e tam fremosos, que nom 
pode mais seer; e isto me faz presumjr que nom teem> 
casas, nem moradas em que se colham, e o aar, a que 
•se criam, os faz taaes ; nem nos ainda ataa gora nom 
vimos nenhuúas casas nem maneira d elas. Mandou o 



PEDRO ALVARES CABRAL 247 

capitam aaquele degradado Affonso Ribeiro que se 
fosse outra vez com eles ; o qual se foy ; e andou la 
huum boom pedaço ; e aa tarde tornou se, que o feze- 
ram eles vimjr ; e nom o quizeram la consemtir; e de~ 
ram lhe arcos e seetas, e nom lhe tomaram nenhuúa 
cousa do seu; ante, dise ele que lhe tomara huum d eles 
húas continhas amarelas que ele levava, e fogia com, 
elas; e ele se queixou, e os outros foram logo após ele 
e Ih as tornaram e tornaran lhas a dar; e emtam manda- 
ram no vimjr; dise ele que nom vira la antre eles se- 
nom húuas choupanjnhas de rama verde e de feeytos 
muito grandes coma d amtre Doiro e Mjnho ; e asy nos 
tornamos aas naaos ja casy noute adormjr. Aa segunda 
feira depois de comer saimos todos em terra a tomar 
agoa; aly vieram emtam mujtos, mas nom tamtos coma 
as outras vezes; e traziam ja muito poucos arcos; e 
esteveram asy huum pouco afastados de nos ; e despois 
poucos e poucos mesturaran se comnosco; e abraça- 
vam nos e folgavam ; e alguuns d eles se esquivavam 
logo ; aly davam alguuns arcos por folhas de papel, e. 
por algúa carapucinha velha, e por qualquer cousa ; e 
em tal maneira se pasou a cousa, que bem xx ou xxx 
pesoas das nosas se foram com elles onde outros muj- 
tos d eles estavam, com moças e molheres, e trouveram. 
de Ia muitos arcos e baretes de penas d aves d eles 
verdes, e deles amarelos, de que creo que o capitam ha 
de mandar amostra a Vossa Alteza ; e, segundo deziam 
eses que la foram folgavam com eles. Neeste dia os 
vimos de mais perto, e mais aa nosa vontade por an- 
darmos todos casy mesturados ; e aly d eles andavam, 
d aquelas timturas quartejados; outros de metades; 
outros de tanta feiçam coma em panos d armar ; e todos 
com os beiços furados ; e mujtos com os osos neeles ;. 
e d eles sem osos. Traziam alguuns d eles huuns ourjços 
verdes d arvores que na cor querjam parecer de casti- 
nheiros, senom quanto heram mais e mais pequenos ; e 



248 EXPEDIÇÃO DE 

aqueles heram cheos de huuns graáos vermelhos peque- 
nos, que. esmagando os antre os dedos fazia timmra muito 
vermelha, da que eles amdavam timtos, e quanto se mais 
molhavam tanto mais vermelhos ficavam. Todos andam 
rapados ataa cjma das orelhas, e asy as sobrancelhas e 
pestanas ; trazem todos as testas de fonte a fonte tim- 
tas da timtura preta que parece huúa fita preta ancha 
<ie dous dedos. E o capitam mandou aaquele degradado 
Affonso Ribeiro e a outros dous degradados que fosem 
amdar la antr eles; e asy a Diogo Dias, por seer homem 
ledo, com que eles folgavam ; e aos degradados mandou 
que ficasem lá esta noute. Foram se la todos e andaram 
antr eles ; e^ segundo elles deziam, foram bem huúa le- 
goa e mea a húa povoraçom de casas, em que averja 
ix ou X casas, as quaaes deziam que eram tam conpri- 
das cada húa com eesta naao capitana ; e heram de 
madeira, e das jlhargas de tavoas, e cubertas de palha 
•de razoada altura, e todas em huúa soo casa, sem ne- 
nhuum repartimento ; tinham de dentro mujtos esteos, 
e d esteo a esteo huúa rede atada pelos cabos em cada 
esteo, altas, em que dormjam ; e debaixo, pêra se aquen- 
tarem, faziam seus fogos ; e tinha cada casa duas por- 
tas pequenas, huúa em huum cabo, e outra no outro ; 
^ deziam que em cada casa se colhiam xxx ou R (40J 
pesoas, e que asy os achavam ; e que lhes davam de 
comer d aquela vianda que eles tijnham, saber, mujto 
jnhame, e outras sementes que na terra ha, que eles 
comem. E, como foi tarde, fezeram nos logo todos tor- 
nar, e nom quiseram que la ficasse nenhuum, e ajnda, 
segundo eles deziam, queriam se vimjr com eles. Res- 
gataram la, por cascavees e por outras cousinhas de 
pouco valor que levavam, papagayos vermelhos mujto 
grandes e fremosos, e dous verdes pequenjnos, e cara-- 
puças de penas verdes, e huum pano de penas de muj- 
tas cores, maneira de tecido, asaz fremoso, segundo 
Vosa Alteza todas estas cousas vera, porque o capitam 



PEDRO ALVARES CABRAL 249 

volas ha de mandar, segundo ele dise. E com isto vie- 
ram, e nos tornamo nos as naaos. Aa terça feira, depois 
de comer, fomos em terra dar guarda de lenha, e lavar 
roupa ; estavam na praya, quando chegamos, obra de 
Ix ou Ixx sem arcos e sem nada ; tamto que chegamos, 
vieram se logo pêra nos sem se esquivarem , e depois 
acodiram mujtos que seriam bem ij*^ (200) todos sem 
arcos ; e mesturaram se todos tanto comnosco, que nos 
ajudavam d eles a acaretar lenha e meter nos batees e 
lujtavam com os nosos, C' - tomavam muj to prazer ; e,. 
emquanto nos faziamos a lenha, faziam dous carpen- 
teiros huua grande cruz de huum paao que se omtem 
pêra yso cortou. Mujtos d eles viinhám aly estar com 
os carpenteiros ; e creo que o faziam mais por veerem 
a faramenta de ferro com que a faziam, que por vee- 
rem a cruz, porque eles nom teem cousa que de fero 
seja ; e cortam sua madeira e paaos com pedras feitas 
coma cunhas metidas em huum paao, antre duas talas 
muy bem atadas, e per tal maneira que andam fortes, 
segundo os homeens que omtem as suas casas (sic) de- 
ziam, porque Ih as viram la. Era ja a conversaçam 
d eles comnosco tanta, que casy nos torvavam ao que 
havíamos de fazer; e o capitam mandou a dous degra- 
dados, e a Diogo Dias que fosem la a aldeã, e a outras, 
se ouvesem d elas novas, e que em toda maneira nom 
se viesem a dormjr aas naaos, ainda que os eles man- 
dasem ; e asy se foram. Emquanto andávamos neesa 
mata a cortar a lenha, atravesavam alguuns papagayos 
per esas arvores, d eles verdes, e outros pardos, gran- 
des e pequenos, de maneira que me parece que avera 
neesta terra mujtos ; pêro eu nom veria mais que ataa 
ix ou X ; outras aves entam nom vimos, somente algúuas 
ponhas seixas; e pareceram me mayores em boa cam- 
tidade ca as de Portugal; alguuns deziam que viram 
rolas ; mas eu nom as vy ; mas, segundo os arvoredos 
sam muy mujto e grandes, e d jmfimdas maneiras; 



2bO EXPEDIÇÃO DE 

Tiom dovjdo que per ese sartaão ajam mu j tas aves ; e 
acerqua da noute nos volvemos pêra as naaos com 
nossa lenha. Eu creo, senhor, que nom dey ajnda aquy 
eonta a Vosa Alteza da feiçam de seus arcos e seetas ; 
-os arcos sam pretos e comprdos e as seetas comprjdas, 
e os feros d elas de canas aparadas, segundo Vosa Al- 
teza vera per alguuns quecreo que o capitam a ela ha 
<i emvjar. 

Aa quarta feira nom fomos em terra, porque o capi- 
tam andou todo o. dia no navio dos mantijmentos a 
despejalo, e fazer levar aas naaos isso que cada huúa 
podia levar; eles acodiram aa praya mujtos, segundo 
das naaos vimos, que seriam obra de iij": (Soo), segundo 
Sancho de Toar, que la foy, dise, Diogo Dias e Aífonso 
Ribeiro, o degradado, a que o capitam omtem mandou 
<iue em toda maneira la dormisem, volveram se ja de 
noute, por eles nom quererem que la dormisem, e trou- 
A^eram papagayos verdes e outras aves pretas casy coma 
pegas, senom quanto tijnham o bico branco e os rabos 
curtos ; e quando se Sancho de Toar recolheo aa naao 
querian se vimjr com ele alguuns, mas ele nom quis, 
senom dous mancebos despostos, e homeens de prol. 
Mandou os esa noute muy bem pensar e curar, e come- 
ram toda vianda que lhes deram ; e mandou lhes fazer 
•cama de lençooes, segundo ele dise, e dormjram, e fol- 
garam aquela noute ; e asy nom foy mais este dia que 
pêra sprever seja. 

Aa quinta feira, deradeiro d Abril, comemos logo 
casy pola manhaá, e fomos em terra por mais lenha e 
agoa ; e, em querendo o capitam sair d esta naao, che- 
gou Sancho de Toar com seus dous ospedes, e por ele 
nom teer ajnda comjdo poseran lhe toalhas, e veo lhe 
vianda, e comeo ; os ospedes asentaram nos em senhaS 
cadeiras, e de todo o que lhes deram comeram muy 
bem, especialmente lacam cozido frio e arroz; nom 
lhes deram vinho, por Sancho de Toar dizer que o nom 



PEDRO ALVARES CABRAL 20 í 

bebiam bem ; acabado o comer, metemo nos todos no 
batel, e eles comnosco ; deu huum gromete a huum 
d eles huúa armadura grande de porco montes bem 
revolta, e tamto que a tomou meteo a logo no beiço, e^ 
porque se lhe nom queria teer, deram lhe huúa pequena 
de cera vermelha, e ele corejeo lhe de trás seu aderemço 
pêra se teer, e meteo a no beiço asy revolta pêra 
cjma, e vijnha tam comtente com ela, como se tevera 
huua grande joya ; e tamto que saymos em terra, foi se 
logo com ela, que nom pareçeo hy mais. Andariam na 
praya, quando saymos biij (8) ou x d eles, e d hy a 
pouco começaram de vimjr, e parece me que vimjriam 
este dia aa praya iiij'' (400) ou iiij" (45o). Traziam al- 
guuns d eles arcos e seetas, e todolos deram por cara- 
puças e por quallquer cousa que lhes davam; comjam 
comnosco do que lhes dávamos ; e bebiam alguús d eles 
vinho, e outros o nom podiam beber ; mas parece me 
que, se Ih o avezarem, que o beberam de boa vomtade.. 
Andavam todos tam despostos e tam bem feitos e ga- 
lamtes com suas timturas, que pareciam bem ; acare- 
tavam d esa lenha quamta podiam com muy boas vom- 
tades, e levavam na aos batees, e andavam ja mais 
mansos e seguros antre nos, do que nos andávamos 
antr eles. Foi o capitam com alguuns de nos huum pe- 
daço per este arvoredo ataa huúa ribeira grande e de 
muita agoa, que a noso parecer era esta mesma que 
vem teer aa praya, em que nos tomamos agoa ; ali 
jouvemos huum pedaço bebendo e folgando ao longa 
d ela antr ese arvoredo, que he tamto e tamanho e tam 
basto e de tamtas prumajeens, que lhe nom pode homem 
dar conto ; ha antr ele muitas palmas, de que colhemos 
mujtos e boos palmjtos. Quando saymos do batel dise 
o capitam que seria boo hirmos dereitos aa cruz, que 
estava encostada a huúa arvore junto com o rrio, pêra 
se poer de manhaã, que he sesta feira, e que nos pose- 
semos todos em giolhos e a beijasemos, pêra eles vee- 



'252 EXPEDIÇÃO DE 

Tem ho acatamento que lhe tijnhamos ; e asy o fezemos. 
Eestes x ou xij (12) que hy estavam acenaram lhes que 
fezesem asy, e foram logo todos beijala. Parece me 
jemte de tal inocência^ que, se os homem emtendese, e 
eles a nos, que seriam logo christaãosç, porque eles nom 
teem^ nem emtendem em nenhuúa creemça, segundo 
parece. E portamto, se os degradados que aquy am de 
ficar aprenderem bem a sua fala e os entenderem, nom. 
dovidoj segundo a santa tençam de Vosa Alteza faze- 
rem se christaáos. e creerem na nossa samta fé, aa 
^ual praza a nosso Senhor que os traga : porque certo 
esta jente he boa e de boa sijnprezidade, eenpremarseá 
ligeiramente neeles qualquer crunho que lhes quiserem 
dar; e, logo lhes nosso Senhor deu boós corpos e boõs 
rostros coma a boos homeens, e ele que nos per aquy 
trouve, creo que nom foy sem causa; e portanto Vosa 
Alteza, pois tamto deseja acreçeritar na santa fe católica, 
deve emtender em sua salvaçam, e prazerá a Deos que 
com pouco trabalho será asy. Eles nom lavram, nem 
criam, nem ha aquy boy nem vaca, nem cabra, nem 
ovelha, nem galinha, nem outra nenhuã alimária que 
custumada seja ao viver dos homeens; nem comem se- 
nom d ese jnhame que aquy ha muito, e d esa semente 
e fruitos que a terá e as ars^ores de sy lançam; e com 
jsto andam taaes e tam rijos, e tam nedeos, que o nom 
somo nos tanto, com quanto trigo e legumes comemos. 
Em quanto aly este dia amdaram, sempre, ao soom de 
huum tanbory nosso, dançaram e bailharam com os 
nosos, em maneira que sáo muito mais nosos amigos 
-que nos seus; se lhes homem acenava se queriam vimjr 
aas naaos, faziam se logo prestes pêra iso, em tal ma- 
neira, que se os homem todos quizera comvidar, todos 
vieram; porem nom trouvemos esta noute aas naaos 
senom iiij (4) ou b (5), saber: o capitam moor dous, e 
Simão de Miranda huum que trazia já por pajé, e Ayres 
Gomes outro, asy page; os que o capitam trouve era 



PEDRO ALVARES CABRAL 253 



huum d eles huum dos seus ospedes que aa primeiraç> 
quando âquy chegamos lhe trouveram, o qual veo hoje 
aquy vestido na sua camiza e com ele huum seu irmaão, 
os quaes foram esta noute muy bem agasalhados, asy 
de vianda, como de cama de colchoóes e lenço5es, 
poios mais amansar. 

E oje^ que he sexta feira, primeiro dia de Mayo, pola 
manhãa saimos em terra com nossa bandeira, e fomos 
desenbarcar acima do rio contra o sul. onde nos pareceo 
que seria milhor chantar a cruz, pêra seer milhor vista; 
e aly asijnou o capitam onde fezesem a cova pêra a 
chantar; e emquanto a ficaram fazendo ele com todos 
nos outros fomos pola cruz, abaixo do rio, onde ela 
estava; trouvemola d ahy com eses relegiosos e sacer- 
dotes diante cantando, maneira de precisam. Heram já 
hy alguuns d eles, obra de Ixx ou Ixxx; e quando nos 
asy viram vimjr, alguns d eles se foram meter de baixo 
<i ela ajudamos; pasamolo rio ao longo da praya e 
fomola poer onde avia de seer, que será do rio obra de 
dous tiros de beesta: aly andando nysto vimjriam bem 
cl (i5o), ou mais. Chentada a cruz com as armas e de- 
visa de Vosa Alteza que lhe primeiro pregarom arma- 
ram altar ao peé d ela. Aly dise misa o padre frei Am- 
rique, a qual foy camtada e ofeçiada per eses ja ditos; 
aly esteveram comnosco a ela obra de 1 ou Ix d eles 
asentados todos em giolhos, asy coma nos, e quando 
veo ao avanjelho, que nos erguemos todos em pee com 
as máaos levantadas, eles se levantaram comnosco e 
alçarom as mãaos, estando asy ataa seer acabado ; e 
entam tornaram se a asentar coma nos. E quando le- 
vantantarom a Deos, que nos posemos em giolhos, eles 
se poseram todos asy coma nos estávamos com as maãos 
levantadas, e em tal maneira asesegados, que certefico 
a Vosa Alteza que nos fez mujta devaçom. Esteveram 
asy comnosco ataa acabada a comunham, e depois da 
comunham comungaram eses religiosos e sacerdotes e 



204 EXPEDIÇÃO DE 

O capitam com alguuns de nos outros; alguuns d eles^ 
por o sol seer grande, em nos estando comungando^ 
alevantaram-se, e outros esteveram e ficarom; huum 
d eles, homem de 1 ou Ib (55) annos, ficou aly com 
aqueles que ficaram ; aquele em nos asy estamdo ajum- 
tava aqueles que aly ficaram, e ainda chamava outros ; 
este andando asy antr eles falando lhes acenou com o 
dedo pêra o altar, é depois mostrou o dedo pêra o ceeo 
coma que lhes dizia alguúa cousa de bem; e nos asy 
o tomamos. Acabada a misa, tirou o padre a vestimenta 
de cjma e ficou na alva, e asy se sobio junto com ho 
altar em huúa cadeira; e aly nos pregou do avanjelho 
e dos apóstolos, cujo dia hoje he, trautando em fim da 
preegaçoan d este voso pressegujmento tam santo e 
vertuoso, que nos causou mais devaçam; eses, que aa 
preegaçam sempre esteveram, estavam, asy coma nos, 
olhando pêra ele ; e aquele que digo chamava alguuns 
que viesem pêra aly; alguuns vijnham e outros hiam se; 
e, acabada a preegaçom, trazia Njcolaao Coelho mujtas 
cruzes d estanho com cruçufiços que lhe ficarom ainda 
da outra vijnda; e ouveram por bem que lançasem a 
cada huum sua ao pescoço; pela qual cousa se asentou 
o padre frey Anrique ao pee da cruz, e aly a huum e 
huum lançava sua atada em huum fio ao pescoço, fa- 
zendo lhe primeiro beijar e alevantar as maãos ; vinham 
a isso mujtos e lançaram nas todas, que seriam obra de 
R (40) ou L ; e, isto acabado, era ja bem huúa ora de- 
pois do raeo dja, viemos aas naaos a comer, onde o ca- 
pitam trouve comsigo aquelle meesmo que fez aos ou- 
tros aquela mostramça pêra o altar e pêra o ceeo, e 
huum seu irmaão com ele, ao qual fez mujta homrra; 
e deu lhe huúa camisa mourisca; e ao outro huúa ca- 
misa d estroutras ; e, segundo o que a mym e a todos 
pareçeo, esta jemte nom lhes falece outra cousa pêra 
seer toda christaá ca entenderem nos; porque asy tor- 
navam aquilo que nos viam fazer coma nos meesmos,. 



PEDRO ALVARES CABRAL 255 

per onde pareçeo a todos que nenhuúa jdolatria nem 
adoraçom teem. E bem creo que^ se Vosa Alteza aquy 
mandar quem mais antr eles de vagar ande. que todos 
seram tornados ao desejo de Vosa Alteza; e pêra isso, 
se alguém vjer, nom leixe logo de vimjr clérigo pêra os 
bautizar, porque ja entam teeram mais conhecimento 
de nosa fe pelos dous degradados que aquy antr eles 
ficam; os quaaes ambos oje também comungaram. 
Antre todos estes que oje vieram, nom veo mais que 
-hhúa molher moça, a qual esteve sempre aa misa, aa 
qual deram huum pano com que se cobrise, e poseram 
Ih o d arredor de sy ; pêro ao asentar nom fazia me- 
morea de o mujto estender pêra se cobrir; asy, senhor, 
que a jnoçençia d esta jemte he tal, que a d Adam nom 
seria majs quanta em vergonha; ora veja Vosa Alteza 
quem em tal jnocencia vjve, ensinamdo lhes o que pêra 
sua salvaçom perteeçe, se se converteram ou nom. Aca- 
bado isto, fomos asy perante eles beijar a cruz, e espe- 
dimo nos, e vjemos comer. 

Creo, senhor, que com estes dous degradados, que 
aquy ticam, ficam mais dous grometes, que esta noute 
se sairam d esta naao no esquife em terra fogidos, os 
quaes nom vieram majs, e creemos que ficaram aquy, 
porque de manhaã, prazendo a Deos, fazemos d aquy 
nosa partida. 

Esta terra, senhor, me parece que da pomta, que mais 
<;ontra o sul vimos, ataa outra ponta, que contra o 
norte vem, de que nos d este porto ouvemos vista, será 
tamanha, que avera neela bem xx ou xxb (25) legoas 
per costa. Traz as lomgo do mar em alguúas partes 
•grandes bareiras, d elas vermelhas, e d elas bramcas ; e 
a terra per cima toda chaá e mujto chea de grandes 
arvoredos. De pomta a pomta he toda praya parma 
mujto chaã e mujto fremosa; pelo sartaáo nos pareceo 
do mar mujto grande, porque, a estender olhos, nom 
podíamos veer senem terra e arvoredos, que nos parecia 



256 EXPEDIÇÃO DE PEDRO ALVARES CABRAL 

muy longa tera. Neela ataa agora nom podemos saber 
que aja ouro nem prata, nem nenhuíãa cousa de metal^ 
nem de fero, nem Ih o vimos ; pêro a terra em sy he de 
mujto boos aares asy frios e e (sicj tenperados coma os 
d antre Doiro e Minho, porque neste tempo d agora asy 
os achávamos coma os de Ia; agoas sam mujtas imfim- 
das ; em tal maneira he graciosa que querendo a apro- 
veitar, darseá nela tudo per bem das agoas que tem;. 
pêro o mjlhor fruito que neela se pode fazer me parece 
que será salvar esta jemte; e esta deve seer a principal 
semente que Vosa Alteza em ela deve lamçar; e que hy 
nom ouvese mais ca teer aquy esta pousada pêra esta 
navegaçom de Calecut abastaria, quanto majs desposi- 
çam pêra se neela conprir e fazer o que Vosa Alteza 
tamto deseja, saber, acrecentamento da nosa santa fé. 
E neesta maneira, senhor, dou aquy a Vosa Alteza da 
que neesta vosa terra vy (sic) ; e se a alguum pouco 
alonguey, ela me perdoe, e ao desejo que tijnha de vos 
,tudo dizer m o fez asy poer pelo meudo. E pois que, 
senhor, he certo que, asy neeste careguo que levo, como 
em outra qualquer coussa que de vosso serviço for 
Vosa Alteza ha de seer de mym mujto bem servida, a 
ela peço que por me fazer simgular merçee mande vijr 
da jlha de Sam Thome Jorge Dosoiro meu jenrro, a 
que d ela receberey em mujta merçee. Beijo as maáos 
de Vosa Alteza. D este Porto Seguro da vosa jlha da 
Vera Cruz oje sesta feira primeiro dia de Mayo de i5oo.. 
Pêro Vaaz de Camjnha. 

(Sobrescripto:) A ElRei noso Senhor. 

(Tem nas costas por letra coeva:) Carta de Pêra 
Vaaz de Caminha do descobrimento da terra nova que 
fez Pedro Alvarez. 



Carta de Mestre JoÂo 



Senor : O bacherel mestre Joham, íisjco e çirurgyano 
de Vossa Alteza, beso vosas rreales manos. Senor : por- 
que, de todo lo aca pasado largamente escrivjeron a 
Vosa Alteza, asy Árias Corrêa, como todos los otros, 
solamente escrevjrê dos puntos. Senor : ayer segunda 
feria, que fueron 27 de Abril, desçendjmos en tierra, yo, 
e el pyloto do capytan moor, e el pyloto de Sancho de 
Tovar; e tomamos el altura dei sol, ai medjo dja ; e 
falíamos 66 grrados, e la sonbrra era septentrional. Por 
lo qual, segund ias rregras dei estrslabjo, jusgamos ser 
afastados de la equinocial, por 17 grrados ; e, por con- 
sygujente, tener el altura dei polo antartico en 17 grra- 
dos, segund que es magnjíiesto en el espera ; e esto es 
quanto a la uno. Por lo qual, sabrra Vosa Alteza que 
todos los pylotos van adjante de mj, en tanto que Pêro 
Escobar va adjante i5o léguas, e otros mas. e otros me- 
nos ; pêro quien d^so la verdad, non se puede çertyficar, 
fasta que en boa ora allegemos ai cabo de Boa Espe- 
rança, e ally sabrremos quien va mas çierto ; ellos con 
la carta, o yo con la corta e con el estrolabjo. Quanto, 
senor, ai sytyo desta tierra, mande Vosa Alteza traer 
un napamundj que tjene Pêro Vaaz Bisagudo, e por ay 
podrra ver Vosa Alteza el sytyo desta tierra j en pêro, 
aquel napamunj non certifica esta tierra ser habytada, 
o no. Es napamundj antjguo ; e ally fallara Vosa Alteza 
escripta tanbyen la Mina. Ayer casy entendjmos por 

X7 



258 EXPEDIÇÃO DE 

asenos que esta era ysla, e que eran quatro, e que de 
otra ysla vyeiien aqui almadjas a pelear con ellos, e los 
llevan catjvos. Quanto, senor, ai otro pumto, sabrra 
Vosa Alteza que, cerca de las estrelias, yo he trabajado 
algo de lo que he podjdo ; pêro non mucho, a cabsa de 
una pyerna que tengo muj mala, que de una cosadura 
se me ha fecho una chaga, mayor que la palma de la 
mano ; e tanbyen a cabsa de este navjo ser mucho pe- 
queno e muj cargado, que non ay lugar pêra cosa njn- 
guna. Solamente mando a Vosa Alteza como estan si- 
tuadas las estrelias dei; pêro en que grrado esta cada 
una, non lo he podjdo saber, antes me paresçe ser jn- 
posjble, en la mar, tomarse altura de njnguna estrella ; 
por que yo trabajê mucho en eso ; e, por poço que el 



00 

? O 

cr 



O 

o 
o 



o .00 

el polo antartycQ 
la bosya 



navjo enbalançe, se yerran quatro o cinco grrados, de 
gujsa que se non puede faser, synon en tierra ; e otro 
tanto casy djgo de las tablas de la Indja, que se non 
pueden tomar con ellas, synon con muj mucho trabajo ; 



PEDRO ALVARES CABRAL 2^9 

que sy Vosa Alteza supyesse como desconçertavan to- 
dos en las pulgadas, rreyrya dello mas que dei estrola- 
bjo 5 porque desde Ljsboa ate as Canárias, unos de otros 
desconçertavan en muchas pulgadas, que unos desyan, 
mas que otros, três e quatro pulgadas ; e otro tanto 
desde las Canárias ate as yslas de Cabo Verde ; e esto? 
rresguardando todos^ que el tomar fuese a una mjsma 
ora, de gujsa que mas jusgavan puantas pulgadas que 
eran, por la qnantydad dei camjno que les paresçia que 
avyan andado, que non el camjno por las pulgadas. 
Tornando, senor, ai propósito, estas guardas nunca se 
esconden 5 antes syempre andan en derredor, sobre el 
orizonte, e aun esto dudoso, que non sê qual de aquel- 
las dos mas baxas sea el polo antartyco ; e estas estrel- 
las, principalmente las de la crus, son grrandes, casy 
como las dei carro; e la estrella dei polo antartyco, o 
sul, es pequena, como la dei norte, e muy clara ; e la es- 
trella que esta en rriba de toda la crus es mucho peque- 
na. Non quiero mas alargar, por non ynportunar a Vosa 
Alteza, salvo que quedo rrogando a Noso Senhor Jesu 
Christo la la (sicj vyda e estado de Vosa Alteza acres- 
çiente, como Vosa Alteza desea. Fecha en Vera Crus, a 
primero de Majo de 5oo. Pêra la mar, mejor es rregyrse 
por el altura dei sol, que non por ningunas estrella fsicj ; 
e mejor con estrolabjo que non con quadrante, njn con 
otro ningud estrumento. 

Do criado de Vosa Alteza e voso leal servjdor Joha- 
nes artium et medicine bachalarius. 

( Sobrescripto) :) A El Rey noso Senhor. 



Relação do Piloto anónimo 

CAPÍTULO I. 

De como ElRei de Portugal mandou huma 
Armada de doze nãos, de í^ue era Capi- 
tão MÓR Pedro Alvares Cabral ; dez das 
quaes forÃo ter a Calicut, e as outras 
duas a çofala, que fica na mesma der- 
rota, a fim de contratar em mercadorias; 
e de como descobrírão huma terra muito 
povoada de arvores e de gente 



No anno de mil e quinhentos mandou o Sereníssimo 
Rei de Portugal D. Manoel huma armada de doze náos 
e navios para as partes da índia, e por seu Capitão mór 
Pedro Alvares CabraU Fidalgo da sua Casa, as quaes 
partirão bem apparelhadas, e providas do necessário 
para anno e meio de viagem. Dez destas náos levavâo 
regimento de hir a Calicut, e as duas restantes a hum 
lugar chamado Çofala para contratar em mercadorias, 
ficando este porto na mesma derrota de Calicut, para 
onde as outras dez hião carregadas. Em hum Domingo 
outo de Março daquelle anno, estando tudo prestes, 
sahimos a duas milhas de distancia de Lisboa, a hum 
lugar chamado Rastello, onde está o Convento de Be- 



PEDRO ALVARES CABRAL 2Ól 

lém, e ahi foi EIRei entregar pessoalmente ao Capitão 
mór o Estandarte Real para a dita Armada, No dia se- 
guinte levantámos ancoras com vento prospero, e aos 
quatorze do mesmo mez chegámos ás Canárias : aos 
vinte e dous passámos Cabo verde ; e no dia seguinte 
esgarrou-se huma náo da Armada, por forma tal, que 
nâo se soube mais delia. Aos vinte e quatro de Abril, 
que era huma quarta feira do Outavario da Páscoa 
houvemos vista de terra ; com o que tendo todos gran- 
díssimo prazer, nos chegámos a ella para a reconhecer, 
e achando- a muito povoada de arvores, e de gente que 
andava pela praia, lançámos ancora na embocadura de 
hum pequeno rio. 

O nosso Capitáo mór mandou deitar fora hum batel, 
para ver que povos eráo aquelies, e os que nelle forâo 
acháráo huma gente parda, bem disposta, com cabellos 
compridos ; andavão todos nús sem vergonha alguma, 
e cada hum delles trazia aquelle seu arco com frexas, 
como quem estava alli para defender aquelle rio : não 
havia ninguém, na armada que entendesse a sua lingoa- 
gem, de sorte que vendo isto os dos bateis, tornarão 
para Pedro Alvares, e no em tanto se fez noute, e se le- 
vantou com ella hum muito rijo temporal. Na manha 
seguinte escorremos com elle a costa para o Norte, 
estando o vento Sueste, até ver se achávamos algum 
porto aonde nos podessemos abrigar e surgir; finalmente 
achámos hum aonde ancorámos, e vimos daquelles 
mesmos homens, que andaváo pescando nas suas bar- 
cas ; hum dos nossos bateis foi ter aonde elles estaváo, 
e apanhou dous que trouxe ao Capitáo mór, para saber 
que gente eráo ; por^m, como dissemos, não se enten- 
dido por falias, nem mesmo por acenos, e assim tenao- 
os retido huma noute comsigo, os poz em terra no dia 
seguinte, com huma camiza, hum vestido, e hum bar- 
rete vermelho, com o que ficáráo muito contentes, e 
maravilhados das cousas que lhes haviáo sido mostradas. 



202 EXPEDIÇÃO DE 

CAPITULO II. 
Como os homens daquella terra principiarão 

A tratar COMNOSCO : DAS SUAS CASAS, E DE 

ALGUNS PEIXES QUE ALLI HA MUITO DIVERSOS 

DOS NOSSOS 



Naquelle mesmo dia, que era no Outavario da Pás- 
coa a vinte e seis de Abril^ determinou o Capitão mór 
de ouvir Missa ; e assim mandou armar hum tenda 
naquella praia, e debaixo delia hum altar; e toda a 
gente da Armada assistio tanto á Missa como á Prega- 
ção, juntamente com muitos dos naturaes, que bailavão,. 
e tangiáo nos seus instrumentos ; logo que se acabou^ 
voltámos aos navios, e aquelles homens entraváo no 
mar até aos peitos, cantando e fazendo muitas festas e 
folias. Depois de jantar tornou a terra o Capitão mór, 
e a gente da armada para espairecer com elles : e achá- 
mos neste lugar hum rio de agoa doce. Pela volta da 
tarde tornámos ás nãos, e no dia seguinte determinou- 
se fazer aguada, e tomar lenhas ; pelo que fomos todos 
a terra, e os naturaes vieráo comnosco para ajudar-nos. 
Alguns dos nossos caminharão até huma povoação 
onde elles habitavão, cousa de três milhas distante do 
mar, e trouxerão de lá papagaios, e huma raiz chamada 
inhame, que he o pão de que alli uzão, e algum arroz ; 
dando-lhe os da armada cascavéis e folhas de papel, 
em troca do que recebião. Estivemos neste lugar sinco 
ou seis dias: os homens, como já dissemos, são baços^ 
e" andão nús sem vergonha, tem os seus cabellos gran- 
des, e a barba pelada ; as pálpebras e sobrancelhas são 
pintadas de branco, negro, azul, ou vermelho ; trazem 
o beiço debaixo furado, e metem-lhe hum osso grande 
como hum prego ; outros trazem huma pedra azul ou 



PEDRO ALVARES CABRAL 203 

verde, e assobiáo pelos ditos buracos : as mulheres an- 
dáo igualmente nuas, são bem feitas de corpo, e trazem 
os cabellos compridos. As suas casas são de madeira, 
cobertas de folhas e ramos de arvores, com muitas 
colunnas de páo pelo meio. e entre ellas e as paredes 
pregão redes de algodão, nas quaes pode estar hum 
homem ; e de cada huma destas redes fazem hum fogo, 
<le modo que n'huma só casa pôde haver quarenta ou 
sincoenta leitos armados a modo de teares. Nesta terra 
não vimos ferro nem outro algum metal, e cortão as 
madeiras com huma pedra : tem muitas aves de diver- 
sas castas, especialmente papagaios de muitas cores, e 
entre elles alguns do tamanho de gallinhas, e outros 
pássaros muito bellos, das pennas dos quaes fazem os 
chapeos e barretes de que uzão. A terra he muito abun- 
dante de arvores, e de agoas, milho, inhame, e algodão; 
e não vimos animal algum quadrúpede : o terreno he 
grande, porém não podemos saber se era Ilha ou terra 
íirme; ainda que nos inclinamos a esta ultima opinião 
pelo seu tamanho; tem muito bom ar ; os homens uzão 
de redes, e são grandes pescadores ; o peixe que tirão 
he de diversas qualidades, e entre elle vimos hum, que 
podia ser do tamanho de hum tonel, mas mais com- 
prido, e todo redondo, a sua cabeça era do feitio da de 
hum porco, os olhos pequenos, sem dentes, com as 
orelhas compridas : pela parte inferior do corpo tinha 
vários buracos, e a sua cauda era do tamanho de hum 
braço ; não tinha pés, a pele era da grossura de hum 
dedo, e a sua carne gorda e branca como a de porco. 



264 EXPEDIÇÃO DE 

CAPITULO III. 

Como o Capitão mór mandou cartas a ElRei 
DE Portugal, dando-lhe parte de ter des- 
coberto AQUELLA NOVA TERRA ; E COMO POR 
causa da TEMPESTADE SE PERDERÃO QUATRO 
NAOS: DA POVOAÇÃO DE ÇoFALA, AONDE HA 
HUM A MINA DE OURO, A QUAL FICA JUNTA A 

DUAS Ilhas 



Nos dias que aqui estivemosj determinou Pedro Alva- 
res fazer saber ao nosso Sereníssimo Rei o descobri- 
mento desta terra, e deixar nella dous homens conde- 
nados á morte, que traziamos na Armada para este 
eífeito ; e assim despachou hum navio que vinha em 
nossa conserva carregado de mantimentos, além dos 
doze sobreditos, o qual trouxe a ElRei as cartas em que 
se continha tudo quanto tinhamos visto e descoberto. 
Despachado o navio sahio o Capitão em terra, mandou 
fazer huma Cruz de madeira muito grande, e a plantou 
na praia, deixando, como já disse, os dous degradados 
neste mesmo lugar ; os quaes começarão a chorar, e 
forão animados pelos naturaes do paiz, que mostraváo 
ter piedade delles. No outro dia, que eráo dous de Maio, 
flzemo-nos á vela, para hir demandar o Gabo da boa 
Esperança, achando-nos entáo engolfados no mar mais 
de mil e duzentas léguas de quatro milhas cada huma ; 
e aos doze do mesmo mez, seguindo o nosso caminho, 
nos appareceo hum cometa para as partes da Ethiopia, 
com huma cauda muito comprida, o qual vimos outo 
ou óez noutes a fio : em fim quando se contaváo vinte 
do mez, navegando a Armada toda junta, com bom 
vento, as velas em meia arvore e sem traquetes, por 
causa de huma borrasca, que tinhamos tido em o dia 



PEDRO ALVARES CABRAL 205 

antecedente, veio hum tufáo de vento táo forte, e tão 
de súbito por diante, que o náo percebemos senáo 
quando as velas ficarão cruzadas nos mastros ; neste 
mesmo instante se perderão quatro náos com toda a 
sua matalotagem, sem se lhe poder dar soccorro algum; 
e as outras sete que escaparão, estiverâo em perigo de 
se perderem ; e assim fomos agoentando o vento com 
os mastros e velas rotas, e a Deos misericórdia todo 
íiquelle dia: o mar embraveceo-se por maneira tal, que 
parecia levantar-nos ao Ceo; até que o vento se mudou 
de repente, e posto que a tempestade ainda era táo 
forte que não nos atrevíamos a largar as velas; ainda 
assim navegando sem ellas, perdemo-nos huns dos ou- 
tros de modo que a Capitania com duas outrai náos to- 
marão hum rumo, outra chamada ElRei com mais duas 
tomarão outro; e as que restavão ainda outro; e 
assim passámos esta tempestade vinte dias consecuti- 
vos sempre em arvore seca ; até que aos dezaseis do 
mez de Junho, houvemos vista da terra da Arábia onde 
surgimos; e chegados á costa podemos fazer huma boa 
pescaria. Esta terra he muito populosa, como vimos, 
navegando ao longo da praia com bom vento, e tempo 
aprazivel : além disso he muito fructifera.com muitos 
rios grandes, e muitos animaes, de modo que toda era 
bem povoada. Continuando a nossa viagem chegámos 
diante de Çofala, onde ha huma mina de ouro, e achá- 
mos junto a esta povoação duas Ilhas : estaváo aqui 
duas náos de Mouros, que tinháo carregado ouro da- 
quella mina, e hiáo para Melinde, os quaes tanto que 
nos avistarão, começarão a fugir, e lançáráo-se todos ao 
mar, tendo primeiro alijado o ouro para que lho não 
tirássemos. Pedro Alvares depois de se ter apoderado 
das duas náos, fez vir ante si o Capitão delias, e lhe 
perguntou de que paiz era, ao que respondeo que era 
Mouro, primo de EiRei de Melinde, que as náos eráo 
suas, e que vinha de Çofala com aquelle ouro, trazendo 



206 EXPEDIÇÃO DE 

comsigo sua mulher e hum filho, os quaes se tinháo 
afogado querendo fugir para terra: o Capitão mór 
quando soube que o Mouro era primo de ElRei de Me- 
linde (o qual era muito nosso amigo) se desgostou so- 
bre maneira, e fazendo-lhe muita honra, lhe mandou 
entregar as suas duas náos com todo o ouro que se lhe 
tinha tirado. O Capitão Mouro perguntou ao nosso se 
trazia comsigo algum Encantador, que podesse tirar a 
outra porção que tinhão deitado ao mar, ao que elle 
respondeo que éramos Christáos, e que não tínhamos 
semelhantes uzos. Depois tirou o nosso Capitão mór in- 
formações das cousas de Çofala, que ainda neste tempo 
náo era descoberta senáo por fama, e o Mouro lhe deo 
por novas, que em Çofala havia huma mina muito 
abundante de ouro, cujo Senhor era hum Rei Mouro, o 
qual assistia em huma Ilha chamada Quilôa, que estava 
na derrota que devíamos seguir: e que o parcel de Ço- 
fala já nos ficava atraz ; com isto o Capitão se despe- 
dio de nós, e continuámos a nossa jornada. 



CAPITULO IV. 

Da Ilha de Moçambique; e como chegámos a 

Quilôa aonde achámos as outras náos 

QUE se tinhão escarrado : como o Capitão 

Mór fallou com o Rei da dita terra, e 

DA Cidade de Mombaça 



Aos vinte do mez de Julho chegámos a huma Ilha 
pequena, que he do mesmo Rei de Çofala, chamada 
Moçambique, não muito povoada, apezar de assistirem 
nella mercadores ricos ; aqui fizemos agoada, e tomá- 
mos refrescos, e hum Piloto para nos levar a Quilôa r 



PEDRO ALVARES CABRAL 267 

í:sta Ilha tem muito bom porto, e está pouco distante 
■da terra firme ; daqui partimos para Quilôa ao longo 
da costa, e achámos muitas Ilhas povoadas, que são 
deste mesmo Rei. Chegámos a Quilòa aos vinte e seis 
•do dito mez, e ahi nos ajuntámos seis das nossas velas, 
porém a outra nunca mais se encontrou. Esta Ilha he 
pequena, junta com a terra firme, e tem huma bella 
Cidade; as suas casas sáo altas ao modo de Hespanha: 
habitão nella mercadores ricos, que commercêáo muito 
^m ouro, prata, âmbar, almíscar, e pérolas : os da terra 
andão vestidos de panos de algodão finos, e de sedas e 
brocados finíssimos, e sáo negros. Logo que aqui che- 
gámos mandou o Capitão mór pedir hum salvo-con- 
dueto ao Rei, que lho enviou immediatamente, e assim 
■que o teve mandou a terra Affonso F^uriado, com sete 
ou outo homens bem vestidos, por seu Embaixador, e 
por elle lhe fez dizer que aquellas náos erão de ElReí 
de Portugal, as quaes vinháo allí para commerciar com 
elle ; e trazião muitas mercadorias de varias qualidades 
de que podia escolher; e bem assim que teria muito 
gosto de fallar-lhe. ElRei respondeo que era muito con- 
tente disso, e que no dia seguinte lhe viria fallar que- 
rendo elle sahir em terra. Affonso Furtado fez-lhe então 
saber, que o Capitão mór tinha regimento para não 
desembarcar, e que sendo sua vontade se fallariáo an- 
tes nos bateis; e nisso ficarão de accordo para o outro 
dia, em que o Capitão mór se poz em ordem com toda 
a sua gente, e as náos e bateis todos embandeirados, 
<:om os seus toldos, e com a artilharia prestas. O Rei 
mandou também apparelhar as suas Almadias, ou ba- 
teis com muitas festas, e tangeres ao seu modo, e Pedro 
Alvares com as suas trombetas e pifaros, e assim par- 
tirão hum para o outro : logo que se avisinhárão, dis- 
parou-se a artilharia das náos, fazendo hum tão grande 
estrondo, que ElRei com toda a sua comitiva ficou 
iittonito e assustado ; depois disto estiverão hum bom 



268 EXPEDIÇÃO DE 

espaço em conversação/ e despedindo-se hum do outra 
voltou o Capitão mór para a náo. No dia seguinte tor- 
nou a mandar Aífonso Furtado a terra, para principiar 
a negociação, porém achou o Rei muito fora do propó- 
sito em que primeiramente estava, escusando-se que não 
tinha necessidade das nossas mercadorias, e persuadido 
de que éramos Corsários; deixando pois as cousas neste 
estado voltou Affonso Furtado ao Capitão mór. Demo- 
rámo-nos ainda neste lugar dous ou três dias, mas por 
mais diligencias que pozemos, não nos foi possível con- 
seguir cousa alguma ; e no tempo que alli ficamos, esti- 
verão sempre mandando gente da Ilha para a terra 
firme receando que a tomássemos por força. Quando 
Pedro Alvares percebeo isto, determinou partir, e se fez 
á vela pelo rumo de Melinde. Ao longo desta costa 
achámos muitas Ilhas, povoadas de Mouros, e vimos 
outra Cidade por nome Moçambique, que tinha hum 
Rei da mesma nação, e de que he povoada toda esta 
costa da Ethiopia: tanto porém na Ilha como pela terra 
dentro, dizem elles, que ha Christãos, que lhes fazem 
muita guerra ; porém nós não o soubemos senão por 
informações. 

CAPITULO V. 
Como chegámos a Melinde, aonde fomos muito 

BEM RECEBIDOS PELO ReI ; DO PRESENTE QUE 

LHE ]^ANDOU ElReI DE PoRTUGAL, E COMO O 

DE AfELINDE FALLOU COM O CaPITÃO MÓR 



Chegámos a Melinde aos dous de Agosto deste mesmo 
anno, e alli achámos surtas três náos de Cambaya^ 
cada huma do porte de cem toneladas ; são muito bem 
feitas, de boas madeiras, e bem cosidas com cordas 



PEDRO ALVARES CABRAL 209 

pois não tem pregos ; e alcatroadas com huma mistura, 
em que entra muito encenso^ e náo tem senão o cas- 
tello de popa : estas náos vinhão aqui a contratar das 
partes da índia. Logo que chegámos, mandou-nos ElRei 
visitar, e ao mesmo tempo hum refresco de muitos car- 
neiros, gallinhas, patos, limões, e laranjas as melhores 
que ha no mundo, e com ellas sararão de escrobuto al- 
guns doentes, que tínhamos comnosco. Apenas ancorá- 
mos diante da Cidade, mandou o Capitão mor dar fogo 
a todas as bombardas, e embandeirar as náos, e foráo 
logo a terra dous Feitores d'ElRei, hum dos quaes sa- 
bia fallar Mouro, isto he, Arábigo, com hum cumpri- 
mento para ElRei de Melinde, e a dar-lhe parte como 
éramos chegados, ao que vínhamos, e que no dia se- 
guinte mandaria o Capitão mór a sua embaixada, com 
a carta que ElRei de Portugal lhe escrevia. O Rei teve 
grande prazer com a nossa vinda, e a rogos seus ficou 
cm terra o Feitor, que sabia fallar Arábigo, e logo no 
dia seguinte mandou á náo dous Mouros mnito honra- 
dos, e que fallavão a mesma lingoagem, para visitar a 
Pedro Alvares, e por elles lhe fez dizer como tinha 
grande contentamento com a sua chegada, rogando-lhe 
mandasse a terra por tudo quanto lhe fosse necessário, 
do mesmo modo que o faria se estivesse em Portugal, 
pois que elle e todo o seu Reino estava á disposição do 
nosso Rei. Com isto determinou logo o Capitão mór 
mandar a terra as cartas com o presente que ElRei de 
Portugal lhe remettia, e era huma sella rica, hum par 
de cabeçadas com seu esmalte, hum par de estribos com 
humas esporas tudo de prata esmaltado e dourado, com 
seu peitoral irmão para a dita sella, e todas as corrêas 
e mais jaezes de carmezim muito ricos ; e hum cabres- 
tilho de fio de ouro também para hum cavallo : duas 
almofadas de brocado, e outras duas de veludo carme- 
zim ; hum tapete fino, hum pano de Arraz, e dous cor- 
tes de pano escarlate ; huma peça de setim carmezim, 



270 EXPEDIÇÃO DE 

e outra de tafetá da mesma cór ; o que tudo em Portu- 
gal valeria mil ducados; e tiverão conselho de que Ai- 
res Corrêa, que hia por Feitor mór, lhe levasse aquelles 
presentes, pelo que foi a terra com as cartas, e com. elle 
muitas pessoas das principaes, com os seus trombetas : 
e igualmente mandou ElRei todos os seus príneipaes a 
receber o Feitor mor. O seu palácio era junto da praia, 
e antes que os Portuguezes chegassem a elle, lhes vie- 
râo ao encontro muitas mulheres com perfumadores 
chêos de brazas, deitando-Ihes tantos perfumei, que 
toda a terra estava embalsamada ; e assim entiárâo 
aonde o Rei estava assentado cm huma cadeira, acom- 
panhado de muitos Mouros dos principaes, o qual mos- 
trou muito prazer com o presente e a carta, que de 
huma parte era escrita em Portuguez e da outra em Ará- 
bigo ; e tanto que a leo, fallou áquelles Mouros, que fi- 
zerão muita festa entre si, e todos a hum tempo derão 
hum grande grito no meio da sala, dando graças a Deos 
em ter por amigo hum tão grande Rei e Senhor como 
e.víi ElRei de Portugal : depois disto, mandou vir alguns 
panos, e sedas e as repartio por áquelles que tinhão 
trazido o presente, e disse a Aires Corrêa, que lhe ro- 
gava ficasse em terra em quanto a Armada não partia, 
porque sentia grande contentamento em fallar com elle ; 
Aires Corrêa lhe respondeo que não podia sem licença 
do Capitão mór, e assim ElRei lhe expedio hum cu- 
nhado com hum anel seu a rogar-lhe deixasse ficar 
Aires Corrêa, e que mandasse a terra por tudo quanto 
lhe fosse necessário, tanto para agoada como para o 
mais. Pedro Alvares foi disso contente, e ElRei mandou 
logo dar a Aires Corrêa hum muito bom alojamento, 
com todas as cousas que lhe havião ser necessárias, 
como carneiros, gallinhas, arroz, leite, manteiga, tâma- 
ras, mel, e fructos de toda a espécie, salvo pão que elles 
não comem ; e assim esteva em terra três dias, fallan- 
do-lhe ElRei a todo o instante a respeito do de Portu- 



PEDRO ALVARES CABRAL 27 1 

gal, e das cousas Portuguezas^ dizendo-lhe que teria 
grande satisfação em vêr-se com o Capitão mor. Aires 
Corrêa fez tanto com elle, que o resolveo a isso, e logo 
o mandou dizer a Pedro Alvares, o qual se fez prestes 
com os seus bateis deixando as náos em bom recado : 
o em que elle hia era coberto de seda, e levava a gente 
secretamente armada por baixo das suas vestes de gram 
e panos finos: ElRei mandou igualmente apparelhar 
dous bateis dos seus também com toldos, e com a gente 
mais luzida, e fez ajaezar hum cavallo ao modo de Por- 
"tugal mas os seus não o souberâo fazer, tanto queforão 
os nossos que o arrearão ; depois desceo por huma es- 
cada, e no fundo delia estavão-o esperando todos os 
Mouros mais ricos e honrados, com hum carneiro, que 
degolarão apenas montou a cavallo : ElRei passou so- 
bre elle, e toda a gente gritou muito e com grande vo- 
zaria; tendo este costume por ceremonia e feitiço. Fal- 
íárão depois ambos hum grande espaço, até que o Ca- 
pitão mór disse, que desejava partir; mas que tinha 
necessidade de hum Piloto que o conduzisse a Galicut r 
ElRei lhe respondeo, que lho mandaya dar; e assim se 
deepedirão hum do outro. Logo que ElRei chegou a 
terra mandou Aires Corrêa para a náo com muitas car- 
nes, e frutas para o Capitão, e igualmente hum Piloto 
Guzarate daquellas náos de Cambaya que estaváo no 
porto. O Capitão mór deixou alli dous homens Portu- 
guezes que hião degradados, para ficar hum delles em 
Melinde, e o outro hir com a náo de Cambaya ; e no 
dia seguinte, que se coniavão sete de Agosto, fizemo-nos 
á vela, e começámos a atravessar o golfo para Calicut. 



27- EXPEDIÇÃO DE 

CAPITULO VI. 

Da Cidade chamada Magadaxo ; da Ilha Jul 

FAR, E Ormuz, e da mui fértil e pingue 

Provinxia de Cambava 



Deixámos atraz em toda esta travessa a costa de Me- 
linde, e huma Cidade de Mouros que se chama Mag^a- 
daxo muito rica e formosa ; mais adiante está huma 
Ilha grandissima, com outra Cidade também muito 
bella e grande, cercada de muro ; chama-se esta Ilha 
Socotora, e caminhando mais avante pela costa está a 
embocadura do estreito de Meca, que terá obra de le- 
goa e meia de largo, e dentro delle jaz o mar roixo, a 
Casa de Meca. e a de Santa Catharina do monte Sinay, 
por onde leváo as esperiarias e jóias ao Cairo e Ale- 
xandria, atravessando hum dezerto em dromedários, 
que sáo huma espécie de camelos corredores : deste 
mar se poderião contar muitas cousas que passo em 
em silencio. Da outra banda do Estreito está o mar da 
Pérsia, no qual tia grandíssimas Províncias e Reinos 
sugeitos ao Gráo Sultão de Babilónia ; no meio deste 
mar ha huma Ilha pequena chamada Julfar, na qual se 
pescâo muitas e bellissimas pérolas ; ha também outra 
Ilha na sua embocadura chamada Ormuz, que he de 
Mouros, e tem hum Rei que também o he de Julfar. Em 
Ormuz ha óptimos cavallos que se leváo a vender por 
toda a índia, e tem hum grande valor, e em todas estas 
terras ha um grande trafico de navios. Passado este 
mar da Pérsia acha-se huma Província chamada Cam- 
bava, a qual tem o seu Rei, que he muito poderoso e 
forte ; esta terra he mais fructifera e pingue, que nenhu- 
ma outra do Mundo; nella se acha muito trigo, cevada, 
arroz, cera, e açúcar, produz também encenso, e fabrí- 
câo-se nella muitos panos de seda e algodão, e tem 



l^EDRO ALVARES CABRAL 273 

muitos cavallos e elefantes : o Rei foi Idolatra, mas 
fez-se depois Mouro por causa dos muitos de que 
abunda o seu Reino ; porém entre os naturaes ainda ha 
bastantes idolatras. Achão-se aili grandes mercadores, 
os quaes por huma parte contratáo com os Árabes, e 
pela outra com a índia, que começa propriamente aqui, 
e correm estes mercadores toda esta costa até ao Reino 
de Calicut, e por toda ella ha grandes e bellissimas 
Provincias e Reinos de Mouros e de Idolatras. Deve 
advertir-se que tudo o que neste Capitulo deixo escrito 
foi observado por nós. 



CAPITULO VII. 
De huma Ilha chamada Anchkdiva 



Chegámos á vista da índia aos vinte e dous de Agosto,, 
e a primeira terra que vimos foi a do Reino de Goga : 
assim que o reconhecemos, fomos ao longo delle até 
chegar a huma Ilha pequena chamada Anchediva, a 
qual he de hum Mouro ; tem no meio hum grande lago 
de agoa doce, e he despovoada ; d'alli á terra firme são 
duas milhas ; foi n'outro tempo habitada por Gentios, 
mas porque os Mouros de Meca fazem este caminho 
para hir a Calicut, e alli se demoráo pela necessidade 
de agoa, e lenhas, por isso se despovoou mais. Tanto 
que alli chegámos, descemos a terra, e estivemos bons 
quinze dias a tomar as ditas provisões ; aguardando en- 
tre tanto se vinhão as náos de Meca, que queríamos 
aprezar, se nos fosse possível ; e durante este tempo a 
gente da terra vinha a bordo, e nos trazia muitas noti- 
cias, recebendo-a o Capitão mór com muito festejo. Ha 
em esta Ilha huma espécie de Ermida na qual, nos dias 
<jue alli estivemos, se celebrarão muitas Missas pelos 

i8 



274 EXPEDIÇÃO DE 

Padres que levávamos para ficarem com o Feitor de 
Calicui ; e assim nos confessámos e commungámos 
todosj e depois de tomada a agoa e lenha precisa vendo 
que as náos dos Mouros não acabavão de chegar, par- 
timos para Galicut, que dista daqui setenta legoas. 



CAPITULO VIII. 
Como chegámos a Calicut, e o Capitão mór 

SAHIO A TERRA A FALLAR COM ElReI 



Chegámos a Calicut aos treze de Setembro, e a huma 
legoa de distancia da Cidade, sahio a receber-nos huma 
frota de bateis, em qne vinha o Governador, e hum. 
mercador Guzarate muito rico e principal; os quaes 
entrarão na Capitania, dizendo como ElRei tinha 
grande prazer com a nossa vinda, e que assim lançásse- 
mos as aecoras diante da Cidade. Principiámos logo a 
desparar a nossa artilharia, do que elles se maravi- 
lharão grandemente, dizendo que contra nós ninguém 
tinha poder senão Deos; e assim estivemos toda aquella 
noute : no dia seguinte pela manhã determinou Pedra 
Alvares mandar a terra os índios que trouxéramos 
comnosco de Portugal, que erão sinco, a saber, hum 
Mouro que entre nós se tinha feito Christão, e quatro- 
pescadores Gentios, e enviou-os todos muito bem vçs- 
lidos á Cidade, para fallar com ElRei, e dizer-lhe a 
causa porque alli éramos chegados; e que lhe pedíamos- 
hum salvo-conducto para podermos sahir em terra. O 
Mouro fallou com ElRei, porque os outros que erão 
pescadores náo se atreviam a chegar a elle, nem mesma 
o poderão ver, tendo esta ceremonia por estado e gran- 
deza Real, como ao diante se dirá. O Rei mandou o 
salvo-conducto, dizendo que qualquer de nós podia 



PEDRO ALVARES CABRAL 27D 

sahir em terra : o que visto pelo Capitão mór fez desem- 
barcar logo AíFonso Furtado com hum Interpreta, que 
5abia fallar Arábigo, o qual devia dizer a ElRei como 
£Stas náos eráo de ElRei de Portugal, que as mandava 
a esta Cidade para tratar de Paz, e trafico de mercan- 
<:ias ; e que para fazer isto era necessário que sahisse a 
terra o Capitão mór, o qual levava em o seu regimento 
de não desembarcar em parte alguma, sem primeiro ter 
hum penhor pela sua pessoa; e que assim lhe houvesse 
de mandar para as nãos aquelles homens que Affonso 
Furtado lhe indicasse. ElRei ouvida a dita embaixada, 
recusou hum pouco ; dizendo que os reféns que lhe pe- 
dião erão muito velhos e anciãos; e que não podiáo 
ficar no mar; mas que elle lhe daria outros. Afl;bnso 
Furtado lhe tornou, que não havia de tomar senfio 
aquelles que lhe pedia pela memoria que o Capitão mór 
lhe tinha dado, que era a mesma que lhe entregara 
ElRei de Portugal. O Rei se maravilhou bastante com 
isto, e esteve em duvidas dous ou três dias, até que 
finalmente se resolveo a mandallos. Recebendo Pedro 
Alvares este aviso aprontou-se para sahir em terra, e 
ficar alli dous ou três dias levando comsigo trinta 
homens dos mais honrados, e assim se pôz pronto com 
todos os seus officiaes e creados, como podia convir a 
hum Príncipe, e levou toda a prata que havia em as 
náos, das quaes deixou por Capitão mór Sancho de 
Tovar, com o encargo de fazer honra e agazalho aquel- 
les homens da terra, que ficavão em penhor. No dia se- 
guinte veio ElRei a huma casa, que tinha junto á mari- 
nha, e dahi mandou os reféns para as náos, a saber 
sinco homens muito principaes, e cem outros de espada 
e adarga, que os acompanhavão com vinte e sinco ou 
trinta tangedores : o Capitão mór sahio da não em os 
5eus bateis, depois de ter mandado para terra tudo o 
que lhe parecera necessário, e sahindo na praia vierão 
lambem os smco homens da Cidade, que não quizerão 



276 EXPEDIÇÃO DE 

entrar na náo, sem que elle desembarcasse ; e sobre isto 
estiverâo em questão hum grande espaço, até que Aires 
Corrêa subio a hum seu Zambuco, e tanto fez que en- 
trarão nella. Logo que Pedro Alvares sahio em terra 
vierâo recebello muitos Gentis-homens, que o tomarão 
nos braços como igualmente toda a sua comitiva; por 
tal maneira que não tocarão com os pés em terra até 
que chegarão perante o Rei, o qual estava pelo modo 
que ao diante se dirá. 

• CAPITULO IX. 
Da grande magnificência e pompa de ElRei de 

CaLICUT ; E DO PRESENTE QUE LHE FEZ O CaPI- 
TÂO MÓR EM NOME DE ElReI DE PoRTUGAL 



Estava ElRei em huma casa alta, assentado em hum 
^estrado com duas ou três almofadas de seda debaixo 
do braço; a coberta deste estrado era de seda côr de 
purpura ; estava nú da cintura para cima, e dalli para 
baixo envolvido em hum panno de seda e algodão 
muito subtil e branco, e com muita roda, todo lavrado 
de ouro. Tinha na cabeça hum barrete de brocado, 
feito a modo de capacete comprido, e muito alto : as 
suas orelhas erão furadas e delias pendião grandes 
brincos d'ouro^ com rubins de muito preço, diamantes, 
e duas pérolas muito grandes, huma redonda, outra do 
feitio de huma pêra, e maior que huma grande avelã: 
linha lambem nos braços do cotovello para cima bra- 
celetes d'ouro adornados de ricas jóias, e pérolas de 
grande valor : as pernas estavão igualmente adornadas, 
e em hum dedo do pé tinha hum anel de hum rubim ou 
carbúnculo de grande fogo e estima. Os dedos das mãos 
estavão também cubertos de jóias, como rubins, esme- 



PEDRO ALVARES CABRAL 277 

raldas e diamantes j e entre estes hum do tamanho 
de huma fava grande : tinha dous cintos de ouro cheos 
de rubins, de modo que não havia preço que pagasse 
as riquezas que o adornavão. Ao seu lado estava huma 
grande cadeira toda de prata, salvo o lugar aonde en- 
costava os braços, que era de ouro, e as suas costas 
engastadas de jóias e pedras preciosas. Havia nesta casa 
huma espécie de andor, em o qual tinha vindo do pa- 
lácio aonde costumava residir habitualmente ; este an- 
dor he levado por homens infinitamente ricos, e junto a 
elle tocavâo de quinze a vinte trombetas de prata, e 
três de ouro, huma das quaes era de grandeza e pezo 
tal, que custava a dous homens a levalla ; as bocas 
destas três tinhão cravados muitos rubins. Tinha tam- 
bém Junto de si quatro vasos de prata, muitos de bronze 
dourado, e bastantes candieiros de latão grandes e 
cheos de azeite com pavios sempre accesos ; a pesar de 
não ser necessário para a claridade, mas somente para 
grandeza. Estava também alli hum seu parente com 
sinco pagens em pé, e igualmente dous Irmãos seus 
cobertos de infinitas riquezas ; e muitos outros Gentis- 
homcns, que estaváo mais desviados, mas também 
muito ricos ao modo do Rei. Quando o Capitão mor 
entrou, quiz hir direfto beijar-lhe a mão ; porém acce- 
narão-lhe para que parasse, por não ser costume entre 
elles avisinhar-se-lhe ninguém, e assim o fez. ElRei fello 
sentar por maior honra, e Pedro Alvares lhe começou 
a dar a sua embaixada, e lhe ícz ler a carta de ElRei de 
Portugal, que era escrita em lingoa Arábiga, e logo 
mandou pelo presente, que se compunha do seguinte : 
huma bacia de prata para as mãos lavrada de bastiões 
todos dourados, e muito grande ; hum gomil dourado 
com a sua tampa também de bastiões ; huma taça 
grande de prata lavrada pelo dito modo ; duas maças 
de prata com as suas cadêas do mesmo metal para os 
maceiros, e quatro almofadas grandes, duas de brocado 



■278 EXPEDIÇÃO DE 

-e duas de velado carmezim : demais disto hum docel de 
brocado com franjas de ouro e carmezim, hum tapete 
grande, e dous panos de Arraz muito ricos, hum de fi- 
guras, e outro de verdura. Quando ElRei houve recebido 
este presente juntamente com a carta, e a embaixada, 
mostrou-se muito alegre, e disse ao Capitão mór que 
se podia retirar para aquella casa que lhe tinha man- 
dado preparar, e que fizesse vir os homens que dera 
em reféns, porque erâo de qualidade, e não podião 
comer, beber, nem dormir no mar; e que se elle queria 
hir para as nãos que fosse, pois no dia seguinte tor- 
naria a mandar-lhos, e elle voltaria a terra, para tratar 
do que lhe fosse necessário. 



CAPITULO X. 

Como tornando o Capitão mór para as mãos, 
SE deitarão ao mar os que estavão em re- 
féns, E dous delles forÃo retidos ; dos 

INCONVENIENTES QUE DAQUI PROVIERÃO E 

COMO Aires Corrêa goncluio com ElRei o 
acordo que pertendia. 



Voltou Pedro Alvares para as náos, e deixou em terra 
Aífonso Furtado com sete ou outo homens, para cuida- 
rem no que tinha em casa. Apenas elle partio da praia, 
logo hum Zambuco dos de Calicut lhe foi adiante até 
ás náos, para dizer aos que estavão em reféns, como o 
Capitão mór voltava; assim que elles ouvirão isto 
immediatamente se lançarão ao mar ; e logo Aires 
Corrêa Feitor mór se metteo em hum batel, e tomou 
dous dos principaes, com dous ou três dos seus fami- 
liares que os tinhão acompanhado, porém todos os ou- 



PEDRO ALVARES CABRAL 279 

tros fugirão a nado para terra. Neste instante chegou o 
Capitão mór á náo, e mandou pôr os dous prisioneiros 
debaixo da coberta, fazendo dizer ao Rei, que quando 
elle chegara tinha achado aquella desordem, que hum 
Escrivão da sua terra tinha causado; e que elle man- 
dara depois reter aquelles dous, por terem ficado em 
terra muitos homens dos seus, e igualmente muita fa- 
zenda ; que assim Sua Alteza lhe enviasse tudo e elle 
lhe entregaria logo os que tmha retido, que entre tanto- 
erão muito bem tratados. Com esta embaixada partirão 
dous Italianos daquelles que tínhamos tomado, e toda 
aquella noute esteve o Capitão mór esperando a res- 
posta; no dia seguinte veio o Rei á praia com mais de 
dez ou doze mil homens, e os nossos que tinhão ficado 
em terra forão prezos, a fim de serem mandados á Ar- 
mada e trocados por aquelles que o Capitão mór tinha 
retido. Estando as cousas nestes termos vierão vinte ou 
trinta almadias, e sahirão os nossos bateis para eftei- 
tuar a dita troca, mas nem as almadias tiverão animo 
de chegar-se aos nossos bateis, nem estes a ellas ; e 
assim estiverão todo aquelle dia sem se fazer cousa 
alguma ; e como voltarão outra vez para terra com os 
nossos, principiarão a fazer-lhes grande descortezia 
metendo-lhes medo, e dizendo-lhes que os querião ma- 
tar : os nossos estiverão toda aquella noute em grande 
tribulação, e no dia seguinte tornou ElRei a mandar 
dizer a Pedro Alvares, que lhe mandaria os Portugue- 
zes e sua fazenda nas almadias totalmente desarmados,^ 
e que do mesmo modo mandasse elle os seus bateis. 
Pedro Alvares logo lhos mandou, e com elles Sancho 
de Tovar segundo Capitão, e chegando aonde estaváo 
as almadias principiarão a receber todos os trastes de 
prata e tudo mais que tinháo em terra (de modo que 
não restava já senão hum almofreixe ou mala aonde 
estava o leito com os seus preparos) e igualmente quasi 
todos os homens : senão quando hum daquelles Gentis- 



^So 



EXPliDICAO DE 



homens, que estavão nos nossos bateis, e que Sancho 
■de Tovar tinha pelo braço se deitou ao mar, o que visto 
pelos nossas que estavão em algumas das aimadias, 
principiarão a ensoberbecer-se e indignar-se de modo, 
que deitarão á agoa os Mouros das aimadias apode- 
•derando-se delias. Nos nossos bateis ficou hum velho 
Gentil-homem que estava em penhor ; e dous rapazes 
Portuguezes que não pod<^ráo escapar- se, ficarão nas 
suas aimadias. No dia seguinte, condoendo-se Pedro 
Alvares daquelle Velho, que havia já três dias que não 
tinha comido, o mandou para terra, e lhe deo todas as 
armas, que tinhão ficado na náo, pertencentes aos que 
se haviáo lançado ao mar, com hum recado para que 
EiRei lhe mandasse os dous moços, o que elle fez. Pas- 
sado isto estivemos três ou quatro dias, sem que nin- 
guém fosse a terra, nem viesse ás náos, e tendo Pedro 
Alvares conselho com os outros Capitães sobre o que 
deviáo fazer ; disse o Feitor mór que se alguém de Ga- 
licut lhe mandasse dous homens para segurança, elle 
estava pronto para hir a terra: a todos pareceo bem 
esta resolução, mas não sabião se haveria quem qui- 
zesse levar a embaixada, e logo hum Cavalheiro cha- 
mado Francisco Corrêa, disse que elle estava pronto, e 
partindo immediatamente representou a ElRei como 
Aires Corrêa Feitor mór ordenava de hir a terra a fir- 
mar o contrato com S. Alteza ; e que assim lhe man- 
dasse por penhor dous mercadores, que elle lhe nomeava, 
hum dos quaes era Guzarate muito rico. Este Mouro, 
que estava presente, respondeo que entregaria em seu 
lugar dous netos seus : com o que ElRei se mostrou 
muito satisfeito. No outro dia mandarão esta resposta 
ao Capitão mór e os reféns juntamente : e assim Aires 
Corrêa partio para terra levando comsigo outo ou dez 
homens. Naquella noute veio dormir á náo, e no dia 
seguinte tornou novamente para terra a effeituar quanto 
estava determinado, ficando todavia os penhores na 



PEDRO ALVARES CABRAL 28 1 

náo. ElRei mandou que se lhe desse a melhor casa da 
terra, que era a de hum Mouro Guzarate, a quem 
cometeo o cargo de ensinar ao Feitor os costumes e 
tratos do paiz, e assim Aires Corrêa principiou a ne- 
gocear e vender as suas mercadorias. O hiterprete que 
fallava por nós era Árabe, de modo que náo se podia 
fallar ao Rei, sem se meterem Mouros de permeio, que 
são huma gente má e muito nossa contraria; que a 
todo o instante usavão de embustes, e nos prohibiâo 
que mandássemos ninguém ás náos. Quando o Capitão 
mór vio que todos os dias hiáo homens a terra, sem que 
nenhum voltasse, determinou-se a partir e mandou dar 
á vela ; e estando nós prezos em terra em huma casa 
guardada por muita gente, vimos como as náos se hião 
embora, e o Guzarate por respeito de seus netos, que 
também partiáo, deo azo a Aires Corrêa para mandar 
hum rapaz em huma almadia a protestar ao Capitão 
mór por semelhante partida. Pedro Alvares voltou em 
razáo disto para o porto, e Aires Corrêa principiou a 
tratar com ElRei, e se concluio depois de algumas dila- 
ções, o contrato como eile queria; porque o Guzarate 
fazia para isso todas as diligencias por causa dos netos 
que tinha em penhor. ElRei encarregou hum Turco- 
grande mercador, de fazer todos os nossos negócios, e 
nos mandou sahir daquella casa para outra mais visinha 
á sua; e logo principiámos a ver algumas mercadorias 
de que comprámos parte ; e assim estivemos dous me- 
zes e meio antes que o dito tratado se acabasse de 
assentar; mas em fim ficou terminado com muito tra- 
balho de Aires Corrêa, e dos que com elle estavão, e 
acabado elle tornamo-nos a mudar para huma casa 
junto ao mar, a qual tinha hum jardim grande e nella 
arvorou o Feitor huma bandeira com as Armas Reaes. 
Deste contrato deo ElRei duas escrituras as&ignadas 
pela sua mão, huma das quaes era em huma lamina de 
cobre com o seu sello esculpido em latão, e esta devia 



282 EXPEDIÇÃO DE 

ficar na Feitoria : a outra era de prata com o sello es- 
culpido em ouro ; e deviamo-la trazer comnosco para 
ElRei de Portugal. Feitas estas escrituras veio logo Ai- 
res Corrêa ás náos, e entregou a de sello de prata ao 
Capitáo mór, e levou para terra os homens queestavão 
em reféns, e dahi para diante principiámos a fiar-nos 
tanto desta gente, que parecia que estávamos no nosso 
próprio paiz. 

CAPITULO XI. 

•Como o Capitão mór, a rogos d'ElRei, mandou 
huma sua caravella a combater com huma 
não grande ; e depois de aprezada entre- 
GOU TANTO A NÃO COMO O CaPITÃO DELLA 

AO MESMO Rei 



Aconteceo hum dia apparecer naquellas paragens 
huma náo, que hia de hum para outro Reino, dentro da 
qual estavão sinco elefantes, hum delles muito formoso 
e de grande preço por ser pratico na guerra. A náo que 
os trazia era muito possante e tinha muita gente de 
guerra ; quando ElRei soube da sua chegada mandou 
rogar ao Capitáo mór, que a mandasse aprezar, pois 
trazia hum elefante pelo qual tinha offerecido muito 
dinheiro, mas não lho tinháo querido vender. Pedro 
Alvares lhe mandou dizer que assim o faria ; mas que 
a tripulação corria risco de ser morta, se náo se qui- 
zesse render ; ElRei o houve por bem, e fez hir hum 
Mouro comnosco, para ver como tomávamos a náo, e 
para fallar com os que nella vinhão a fim de se entre- 
garem. O Capitáo mór mandou huma caravella de 
bombarda grossa e bem armada, com sessenta ou se- 
tenta homens, a qual partio de noute direita á náo, 
sem a poder abordar; mas no dia seguinte cahio sobre 



PEDPO ALVARES CABRAL 283- 

ella gritando-lhe que se rendesse: os Mouros puzeráo-se 
a rir, porque erâo muitos, e a não muito grande ; e 
principiarão a atirar com frechas. Quando o Capitão 
da caravella vio isto, mandou disparar a artilharia, de 
modo que achando-se os da náo sem esperança, logo 
se renderão; e assim a levarão a Galicut com toda a 
gente. O Rei sahio á pfaia a vêllos, e o Gommandante 
da caravella veio entregar-lhe o Capitão Mouro, e a 
sua preza ; e o deixou muito maravilhado de ver como 
huma caravella tão pequena, e com tão pouca gente, 
tinha podido aprezar huma náo tão grande, na qual 
havia trezentos homens de batalha ; assim recebeo a 
náo e os elefantes, com grande prazer e satisfação, e a 
caravella tornou a ajuntar-se á Esquadra. 

CAPITULO XII. 

DescripçÃo DA Cidade de Calicut, e dos uzos 
DO Rei e do seu Povo 



A Cidade de Calicut he grande, e não tem muros que 
a cerquem; no seu interior tem muitos lugares vasios, 
e as casas afastadas humas das outras; são de pedra e 
cal, chapeadas de relevos, e em cima cobertas de folhas 
de palmeira; as portas são grandes, e os portaes muito 
bem trabalhados ; em torno das casas ha hum muro, 
dentro do qual estão muitas arvores e lagos de agoa,. 
em que se lavão, como também poços de donde bebem. 
Pela Cidade ha outros lagos grandes, aonde o povo 
miúdo vem lavar-se; e he isto preciso, porque cada dia 
lavão duas ou três vezes o corpo todo. O Rei he Idola- 
tra, ainda que alguns pensarão que era Cristão ; mas 
procede isto de não terem sabido tanto dos seus uzos, 
como nós, que temos negociado bastante em Calicut. 



^84 EXPEDIÇÃO DE 

O Rei actual chama-se Glafer, e todos os seus Gentis- 
homenSj e gente que o serve são homens pardos como 
os Mouros, mas bem dispostos. Andáo nús da cintura 
para cima, e trazem á roda de si panos finos de algodão 
brancos e de outras cores : náo uzáo de calçado nem 
de barretes, salvo os grandes Senhores que os trazem 
de veludo e brocado, e algum delles sáo muito altos- 
Tem as orelhas furadas, e nellas póem muitas jóias, e 
braceletes de ouro em os braços. Estes Gentis-homens 
trazem espada e adraga. e as espadas nuas; sáo mais 
largas na ponta do que no resto, e as adargas redondas, 
como rodelas de Itália; muito leves, e de cor negra ou 
vermelha; e são os maiores jogadores que ha de espada 
e rodela, náo se empregando quasi noutra cousa ; e 
havendo innumeraveis homens destes na Corte. Casão 
com huma só mulher, e convid Jo sinco ou seis dos seus 
maiores amigos para dormirem com ella; de modo que 
entre elles náo ha honestidade, nem vergonha, e assim 
as raparigas quando tem outo annos principiáo a pros- 
tituir-se. Estas mulheres andáo nuas assim como os 
homens, e trazem sobre si muita riqueza e os cabellos 
muito bem pintados; sáo muito luxuriosas, e pedem 
aos homers que lhe tirem a virgindade; porque em 
quanto estão virgens não acháo marido. Estes povos 
comem duas vezes ao dia, porjm náo usáo de pão, 
vinho, carne, ou peixe; mas sim de arroz, manteiga, 
leite, açúcar e frutas. Laváo-se antes de comer, c depois 
<ie lavados, se algum que o náo estivesse, lhes tocasse, 
náo comerião sem se tornar a lavar; de modo que fa- 
zem nisto grande cerimonia. Tanto homens como mu- 
lheres trazem todo o dia na boca huma folha de betele, 
que tem a propriedade de a fazer vermelha, e os dentes 
negros: os que náo fazem isto sáo homens de baixa ex- 
tracção. Quando algum morre, os que devem trazer 
luto tingem os dentes de preto, e náo comem desta 
folha durante alguns mezes; 



PEDRO ALVARES CABRAL 285 

CAPITULO XIII. 
Como os Sacerdotes chamados Brâmanes tra- 

TÂO CARNALMENTE COM AS MULHERES DO ReI 
E DA GRANDE REVEREECIA 
QUE O Povo TEM AO SEU ReI 



O Rei tem duas mulheres, e cada huma delias he 
acompanhada por dez Sacerdotes, a que chamâo Brâ- 
manes, cada hum dos quaes dorme com ellas para o 
honrar. Por esta causa não herdáo os filhos o Reino, 
mas sim os sobrinhos, filhos da irmá. Habitáo no palácio 
mais de mil a mil e quinhentas mulheres, para maior 
magnificência e estado ; e a sua occupaçáo he de varrer, 
limpar, e agoar as casas por onde ElRei quer andar, 
com agoa misturada com bosta de vacca. Os quartos 
do palácio sáo muito grandes, e tem nelles muitas fon- 
tes de agoa em que se lava; quando sahe fora vai em- 
hum andor muito rico que leváo dous homens, e váo 
com elle muitos tangedores de instrumentos, e muitos 
Gentis-homens com espadas e rodelas, e muitos archei- 
ros, e adiante de tudo os seus guardas, e porteiros : 
vai ElRei coberto com hum docel, de sorte que lhe fa- 
zem mais honra do que a nenhum outro Rei do Mundo, 
porque ninguém se avisinha a elle senáo na distancia 
de três ou quatro passos; e se lhes querem dar alguma 
cousa he em hum ramo para o náo tocarem : quando 
lhe falláo he sempre com a cabeça baixa, e a mão 
diante da boca ; e nenhum Gentil-homem lhe apparece 
sem espada e rodela : quando fazem cortezia põem a 
mão sobre a cabeça, e nenhum official, nem homem de 
baixa extracção se atreve a ver o Rei, nem a fali ar com 
elle, especialmente os pescadores ; de tal sorte que se 
hum Gentil-homem viesse por hum caminho, e dous 



286 EXPEDIÇÃO DE 

pescadores lhe sahissem ao encontro; ou fugiriâo, ou 
receberião muitas bastonadas. Estes principaes quando 
morre o Rei. ou suas mulheres, queimão o corpo com 
madeira de sândalo pelo honrar: a gente de baixa con- 
dição he enterrada, e cobrem-lhe com cinza a cabeça e 
as costas : trazem sempre a barba comprida. 



CAPITULO XIV. 

De huma casta de mercadores Guzarates, 
E dos seus uzos. 



Os Guzarates são grandes músicos, e escrivães : es- 
crevem em huma folha de palmeira, com huma pena de 
ferro sem tinta: sáo grandes mercadores, e naturaes de 
huma Provinda ehamada Gambaya. Estes e os naturaes 
são Idolatras, e adorão o Sol, a Lua e as vaccas ; de 
sorte que se alguém matasse huma, seria logo morto. 
Estes Guzarates não comem cousa alguma que padeça 
morte, nem igualmente pão ; nem bebem vinho, e se 
alguma criança das suas come carne, deitão-a fora a 
pedir esmola pelo mundo, ainda que descendesse, ou 
fosse filho de hum senhor grande, ou de hum mercador 
rico. Crem nos encantamentos e nos adevinhos, são 
mais brancos que os naturaes de Galicut, trazem os 
cabellos da cabeça e barba muito compridos ; os seus 
vestidos são de algodão fino, uzão dos cabellos ornados 
e enlaçados como mulheres : trazem çapatos, e casão 
com huma só mulher como nós, são muito ciosos, e as 
mulheres muito bellas e castas ;commerceão em panos, 
sedas e jóias. 



PEDRO ALVARES CABRAL 287 

CAPITULO XV. 

De outra casta de mercadores chamados Zeti- 
res, e dos seus uzos 



Ha também outros mercadores de outra Província, 
chamados Zetires, os quaes são Idolatras, e grandes 
contratadores de jóias, de pérolas., de ouro e de prata. 
Sáo mais negros, andáo nús, e trazem toucados mais 
pequenos, e os cabellos metidos por baixo em huma 
espécie de bolsas compridas, que parecem caudas de 
boi, ou de cavallo. Estes homens sáo os maiores encan- 
tadores do mundo, fallão todos os dias invisivelmente 
com o Demónio ; e as suas mulheres sáo muito luxu- 
rios^s. Nesta Cidade ha também Mouros de Meca, de 
Turquia, de Babilónia, de Pérsia, e de muitas outras 
Províncias. Sáo mercadores grandes e ricos, que tem 
de todas as mercancias, que aqui vão; isto he, jóias 
de muitas qualidades, sedas de ouro e prata muito ri- 
cas, almíscar, âmbar, beijoim, encenso, páo aloés, rui- 
barbo, porçolana, cravo da índia, canella, páo Brazii, 
sândalo, laca, noz moscada e massa, o que tudo vem 
de fora : além da gengibre, pimenta, tamarindos, miro- 
balanos, e cassiafistula, que nascem mesmo em Calicut, 
juntamente com alguma canella silvestre. Estes Mouros 
são tão poderosos e ricos, que quasi são os que go- 
vernâo em todo Calicut. 



288 



EXPEDIÇÃO DE 



CAPITULO XVI. 



Do Rei de Narsinga, e do grande numero de 

MULHERES QUE TEM, E COMO POR SUA MORTE 
TODAS ELLAS SE QUEIMÂO VIVAS : DOS SEUS 
ELEFANTES ; DO TEMPO EM QUE TEM O VeRÃO 

E O Inverno, e em que mezes partem os 
NAVIOS DE Meca com as especiarias. 



Nas montanhas deste paiz ha hum Rei muito grande 
e poderoso, com o titulo de Rei de Narsinga ; cujos 
Povos sáo Idolatras : tem eile duzentas ou trezentas 
mulheres, e no dia em que morre queimáo o seu corpo, 
e todas estas mulheres juntamente. Por igual maneira 
todas as pessoas casadas, quando morrem fazem-lhe 
huma grande cova, em que as queimáo; as suas viuvas 
vestem-se o mais ricamente que podem, e acompanha- 
das de todos os seus parentes, com muitos instrumentos 
e folias váo á cova, e bailando á roda delia como ca- 
ranguejo, se deixão cahir dentro estando a cova chea 
de fogo. Os parentes estão com muita attençâo, e appa- 
relhados com panellas de azeiíe e manteiga, e tâo de- 
pressa cahem dentro como lhas deitâo em cima para se 
abrazarem com mais brevidade. Ha neste Reino muitos 
cavallos e elefantes, com que fazem guerra, e tem-os 
tão bem ensinados, que não lhe falta nada senáo fallar; 
e entendem tudo como se fossem gente, segundo vimos 
em Calicut. Os elefantes que tem o Rei, e em que elle 
cavalga, sáo os mais robustos e ferozes animaes do 
mundo; por modo que dous delles, arrastão huma não 
para terra. As náos não navegáo aqui senáo em Outubro 
e Novembro, até o fim de Março ; nestes mezes he o 
seu Veráo e nos outros o Inverno, durante o qual tem 
as náos em terra. No mez de Novembro partem de Ca~ 



PEDRO ALVARES CABRAL 289. 

licut estás náos de Meca carregadas de especiarias, que 
levão a Zeide que he porto de Meca, e dalli por terra 
ao Cairo para Alexandria. 

Havendo já três mezes que estávamos em terra com 
o tratado assentado, e duas das nossas náos carregadas; 
mandou o Capitão mór hum dia dizer a ElRei, que já 
era passante de três mezes que alli estávamos, e que 
não havia ainda carregadas senão duas náos ; que os 
Mouros lhe escondiáo as mercadorias, as quaes as náos 
de Meca carregaváo occultamente ; pelo que elle lhe 
fizesse dar melhor despacho, pois a monção estava 
próxima. ElRei lhe respondeo que aprontaria todas as 
mercadorias que quizesse, e que nenhuma náo de Mou- 
ros carregaria em quanto as nossas não estivessem 
carregadas ; mas se alguma contraviesse esta ordem, o 
Capitão mór a poderia tomar para examinar se conti- 
nháo especiarias, que elle lhe faria dar pelo mesmo 
preço que os Mouros as tivessem comprado. 



CAPITULO XVII. 

Como os Portuguezes forÃo assaltados de 
IMPROVISO pelos Mouros, e por elles com- 
batidos, e como foi morto Aires Corrêa, 
Feitor d'ElRei. 



estando Aires Corrêa 
fazendo contas com os Feitores das duas náos carrega- 
das : fez-se á vela huma náo de Mouros chea de espe- 
ciarias, a qual Pedro Alvares aprisionou. O Capitão 
delia, e os mais principaes sahiráo em terra, e fizerão 
grandes lamentos e rumores, de modo que todos os 
Mouros se juntarão, e forão fallar a ElRei, dizendo-lhe 

19 



290 KXPEDIÇAO DK 

que nós tínhamos ajuntado em terra mais riquezas do 
que leváramos para o seu Reino, e éramos ladroes e 
roubadores, que andávamos pelo mundo : e tendo apri- 
zionado aqueila náo cm o seu próprio porto, que se 
podia esperar que fizéssemos dalli por diante? que 
assim elles se obrigavão a matar-nos todos, e Sua Al- 
teza roubaria a casa da Feitoria. ElRei como homem 
avaro disse logo que assim se fizesse, e em quanto nós, 
que náo sabiamos nada do que se urdia, andávamos 
alguns pela terra tratando nos nossos negócios, de 
repente vimos vir todo o povo sobre nós, matando e 
ferindo : o que tendo sido participado aos da Feitoria 
sahirão logo em seu socorro, de modo que nesta praia 
matámos sete ou outo, e elles dous ou três dos nossos. 
Éramos cousa de setenta homens de espada e capa, e 
elles hum numero infinito com' lanças, espadas, rodelas, 
arcos e frechas ; e apertaráo-nos de modo, que foi ne- 
cessário refugiarmo-nos na casa da Feitoria : mas náo 
o fizemos tanto a salvo, que sinco ou seis não ficassem 
feridos; e assim fechámos a porta com muito trabalho. 
Os Mouros combatião por todos os lados a casa, que 
era cercada de hum muro da altura de hum homem a 
cavallo ; achavamo-nos nós com sete ou outo bestas, 
com que matámos hum montão de gente, mas nisto 
tendo-se ajuntado mais de três mil homens de peleja, 
içámos huma bandeira para que nos mandassem soc- 
corrro das náos. Immediatamenie vierão os bateis até 
junto da praia, e dalli atirarão com as suas bombardas, 
mas não podião fazer mal algum. Os Mouros princi- 
piarão a arrombar as paredes da casa, de modo que no 
espaço de meia hora a deitarão toda por terra, ao som 
de trombetas e atabales, com grande vozaria, e muito 
prazer d'ElRei ; o que podemos conhecer por causa de 
hum pagem seu, que aqui vimos. Vendo Aires Corrêa, 
que náo tinhamos remédio algum em resistir, porque 
havia já duas horas que combatíamos, tão asperamente 



PEDRO ALVARES CABRAL 29 1 

que nos náo podiamos sustentar ; determinou que nos 
recolhecemos á praia, rompendo por meio delles^ para 
ver se nos podiamos salvar em os bateis, e assim o fi- 
zemos ; chegando a maior parte dos nossos até meter-se 
na agoa, sem que os bateis ouzassem avisinhar-se para 
recebel-os ; e assim por falta de socorro matarão Aires 
Corrêa, e com elle smcoenta e tantos homens ; e nós 
podemos escapar sendo por todos vinte pessoas, porém 
muito feridos, e entre estes fugiu hum filho de Aires 
Corrêa de idade de onze annos : assim quasi aífogados 
entrámos nos bateis cujo Capitão era Sancho de Tovar, 
porque Pedro Alvares estava doente, e chegámos ás 
nãos. Quando o Capitão mór vio esta destruição e máo 
recado, mandou aprizionar dez núos de mouros, que 
estavão no porto, e ítz matar toda a gente que nellas 
se achava, que serião de quinhentos a seiscentos homens; 
e achámos vinte ou trinta, que se havião escondido no 
fundo por baixo das mercadorias, e assim roubámos e 
saqueámos o que tinhão dentro ; achando n'huma três 
elefantes, que matámos e comemos. As náos depois de 
descarregadas forão todas queimadas : no dia seguinte 
chegarão a terra todas as nossas embarcações, e bom- 
bearão a Cidade de maneira que lhe matámos infinita 
gente e fizemos muito dano. Elles nos respondião com 
bombardas, mas com muita frouxidão ; e estando nisto 
passarão duas náos ao largo, que hião paraPandarame, 
daqui sinco legoas de distancia, e vendo-nos forão va- 
rar em terra de companhia com outras sete náos gran- 
des, que já ahi estavão em seco, e deitarão muita gente 
em terra, pelo que também as bombardeámos, e lhe 
matámos grande parte da matalotagem que ainda ti- 
nhão ; mas não as podemos aprizionar por estarem 
mtai-to em seco. Depois disto feito determinou Pedro 
Alvares hirmos a Cochim aonde carregámos ás náos. 



292 EXPEDIÇÃO DE 

capítulo XVllí. 
Como hindo para Cochim, Reino trinta legoas 

DISTANTE BE GaLICUT, QUEIMAMOS DUAS NÁOS 

QUE VINHÃO CARREGADAS DAQUELE ReINO, E 

COMO ElReI de CoCHIM teve GRANDE PRAZER 

COM A NOSSA CHEGADA. 



Partimos para Cochim distante trinta legoas de Ca- 
licut ; he Reino diverso cujos Povos sáo Idolatras e 
uzáo da mesma lingoagem ; e seguindo a nossa derrota 
achámos duas náos de Calicut, carregadas de arroz ; 
fomos direitos a ellas e os Mouros fugirão para terra 
nos bateis e nos deixarão as náos : vendo o Capitão 
que não levavão mercadorias, as mandou queimar ; e 
com isto chegámos a Cochim aos vinte e quatro de 
Dezembro, e lançamos ancora na embocadura de hum 
rio. Pedro Alvares mandou a terra hum pobre homem 
de nação Guzarate, que por sua vontade partira de Ca- 
licut para vir a Portugal, o qual disse ao Rei quanto 
nos tinha succedido em Galicut, e que o Capitão lhe 
mandava pedir carga para as náos, em cuja troca lhe 
podia dar dinheiro e mercadorias. Respondeo-lhe ElRei 
que sentia muito ter-lhe sido feita tamanha injuria, e 
que tinha grande prazer em termos vindo á sua terra, 
pois bem sabia quão boa gente éramos, e que assim 
faria tudo quanto quizessemos. O Guzarate lhe tornou, 
que para a nossa gente hir a terra com segurança, 
precizava de algum penhor, o qual se dava homem por 
homem ; que lhe mandasse algum dos seUs, e logo os 
nossos desembarcarião. O Rei mandou logo dous 
homens dos principaes com outros mercadores, e algu- 
mas amostras de especiarias e os seus preços, com hum 
recado ao Capitão mór que fizesse tudo o que lhe agra- 



PEDRO ALVARES CABRAL 293 

dasse : este mandou logo o Feitor a terra, com quatro 
ou sinco homens para fazer as compras, retendo toda- 
via os outros para penhor, e tratando-os muito bem ; 
trocaváo-se porém todos os dias, porque todos os 
homens destes Paizes não comem no mar, e se por ven- 
tura comessem não poderiáo mais ver o Rei : aqui nos 
demorámos doze ou quinze dias carregando as náos. 

CAPITULO XIX. 

Como veio huma Armada de Calicut para com- 
bater os Portuguezes, e chegámos ao 
Reino de Cananor cujo Rei nos fez t.ran- 

DES OFFERTAS, E MANDOU LOGO DAR A CANELLA 
QUE NOS FALTAVA PARA COMPLETAR A CARGA 

Algum tanto aífastado de Gochim está hum lugar 
•^.hamado Carangolor, aonde ha Christáos, Judeos, 
Mouros e Cafres ; e neste lugar achámos huma Judia 
de Sevilha, a qual veio pela via do Cairo e de Meca; 
e aqui vieráo também ter comnosco dous outros Chris- 
táos, os quaes diziáo que queriáo passar a Roma, e 
dahi a Jerusalém. O Capitão mór teve grande prazer 
com estes dous homens, e estando as náos já quasi 
carregadas, veio de Calicut huma Armada de outenta 
ou outenta e sinco velas, entre as quaes vinte e sinco 
muito grandes. Como o Rei teve esta noticia, mandou 
logo dizer ao Capitão mór, que se queria combater elle 
lhe mandaria náos e gente : Pedro Alvares respondeo- 
Ihe que não era necessário ; e a Armada inimiga por 
ser já noute surgio distante de nós cousa de legoa e 
meia. O Capitão mór assim que escureceo de todo 
mandou dar á vela, levando comsigo os homens que 
tinha em penhor; porém o vento acalmou de todo : no 



294 EXPEDIÇÃO DE 

dia seguinte, que eráo dez de Janeiro de mil qu!nhen..os 
e hum. podemos adiantar-nos para elles e elles para nós. 
de modo que depressa nos ajuntámos. Estando Pedro 
Alvares determinado a combatellos, e na distancia de 
hum tiro de bombarda, reparou que Sancho de Tovar 
segundo Capitão com a sua náo, e outro navio tinhão 
ficado para traz ; e vendo assim que náo estavão em 
ordem resolveo com os outros Capitães tomar o rumo 
de Portugal, para onde tinhamos o vento em popa. A 
Armada de Calicut seguio-nos todo aquelle dia, e huma 
hora depois de noute, até a perdermos de vista: então 
o Capitão mór determinou partir para Portugal, dei- 
xando os seus sete homens com o Feitor em terra, e 
levando comsigo os dous de Cochim, os quaes princi- 
piámos a acariciar pedindo-lhes, que quizessem comer 
pois erão já três dias passados sem terem tomado ali- 
mento algum ; e com eífeito comerão com grande pena 
e paixão, e nós seguimos a nossa jornada. Aos quinze 
de Janeiro chegámos a hum Reino áquem de Galicur, 
chamado Cananor, que he de Cafres; e tem huma lin- 
guagem quasi como a de Calicut, e passando por elle 
mandou ElRei dizer ao Capitão mór, que tinha grand..^ 
desprazer em nao abordarmos no seu Reino, e que 
assim lhe rogava lançássemos ferro, pois se não levásse- 
mos carga elle no-la daria. Vendo isto Pedro Alvares 
ferrou as velas e mandou hum Guzarate a terra, e di- 
zer-lhe que as náos estavão carregadas e não tinha ne- 
cessidade senão de cem bahares de canella, que são 
quatrocentos quintaes, os quaes logo se lhe mandarão 
com muita brevidade ; fiando-se ElRei muito de nós. O 
Capitão mór fez immediatamente pagar tudo, e foi de- 
pois trazida tanta que já náo havia onde a meter. ElRei 
mandou dizer a Pedro Alvares que senão a tomava por 
não ter dinheiro, nem por isso deixasse de carregar á 
sua vontade, que na viagem seguinte lhe pagaria ; por- 
que bem tinha sabido, como ElRei de Calicut o tinha 



PEDRO AÍ.VARES CABRAL ^gS 

roubado, e quam boa gente nós éramos. O Capitão mór 
lhe agradeceo muito o recado e mostrou ao mensageiro 
ou embaixador, três ou quatro mil cruzados, que ainda 
nos restaváo ; e assim mandando-lhe ElRei perguntar 
se queria mais alguma cousa, lhe respondeo que não, 
salvo que mandasse S. Alteza hum homem comnosco 
para ver as cousas de Portugal. EÍRei mandou-lhe hum 
Gentil-homem; e os dous de Gochim, que tinháo ficado 
comnosco nas náos, escreverão ao seu Rei como vinháo 
para Portugal, e do mesmo modo o fez Pedro Alvares 
ao Feitor, que lá tinha ficado. Não nos demorámos aqui 
mais que hum dia, e principiámos a atravessar o golfo 
para Melinde ; no ultimo de Janeiro estávamos no meio 
delle, e encontrando huma náo de Gambaya a aprizio- 
námos julgando ser de Meca : vinha ella muito rica e 
carregada com mais de duzentos homens e mulheres : 
quando o Capitão mór vio que erão de Cambava dei- 
xou-os seguir a sua viagem excepto hum Piloto que lhe 
drou, e assim partirão elles pelo seu caminho, e nós 
pelo nosso. 

CAPITULO XX. 

Gomo a náo de Sancho de Tovar carregada 

DE especiaria DEO EM SECO, E SE ABRIO DE 

modo que náo SE SALVOU NADA SENÃO A 

GENTE EM CAMIZA. 

Aos doze de Fevereiro quasi á boca da noute, todos 
os Pilotos e aquelles que tinhão cartas de navegar, di- 
zião que estávamos juntos a terra ; e Sancho de Tovar, 
que era Capitão de huma náo grande, disse que queria 
hir adiante de todos ; mandou deitar fora todo o pano, 
e se poz adiante das outras : pela volta da meia noute 
deo elle em seco e principiou a desparar a artelharia. 



296 EXPEDIÇÃO DE 

Quando o Capitão mor vio isto mandou ferrar ; mas o 
vento cresceo tanto pela noute adiante, que o nâo po- 
diamos augoentar ; logo que elle amainou, mandou Pe- 
dro Alvares os batéis á náo, com ordem de a salvar se 
podessem, e se não, queimarem-na voltando com a 
gente. Neste tempo estava já a náo aberta, e posta em 
paragem donde náo podia sahir; e o vento crescia 
tanto, que as outras estaváo em grande perigo ; de modo 
que foi necessário muito trabalho para salvar a gente 
em camiza, tudo o mais se perdeo. A náo era de du- 
zentas toneladas, carregada de especiarias 5 e tendo ella 
ardido partmios dalli somente em numero de sinco, e 
passámos por Melinde aonde náo podemos entrar : de- 
pois viemos a Moçambique aonde fizemos agoada, to- 
mámos lenhas e espalmámos as embarcações. Por or- 
dem do Capitão mór partio dalli Sancho de Tovar em 
hum navio mais pequeno, com hum Piloto que tínha- 
mos tomado, a fim de reconhecer a Ilha de Çofala ; e 
nós depois de reparados, partimos em numero de qua- 
tro náos, e fomos dar a huma angra aonde fizemos 
huma grande pescaria de pargos, e partidos de lá tive- 
mos huma tormenta, que nos fez voltar para traz em 
arvore seca, perdendo neste meio tempo huma náo de 
vista, por maneira que ficámos somente três. 



CAPITULO XXI. 

Como de toda a Armada que foi para Calicut 
VOLTARÃO A Portugal somente seis náos ; 

DO PAIZ DE BeSENEGUE E DA IlHA DE COFALA 



Chegámos ao Cabo de Boa Esperança dia de Páscoa 
de flores, e ahi achámos bom tempo, com o qual viajá- 
mos para diante e abordámos na primeira terra junta 



PEDRO ALVARES CABRAL 297 

■com Cabo verde que se chama Besenegue aonde achá- 
mos três navios, que ElRei de Portugal mandara para 
descobrir a terra nova, que nós tínhamos achado 
quando hiamos para Galicut. Estes nos deráo noticias 
da náo que se tinha esgarrado quando hiamos para lá, 
a qual foi até á embocadura do estreito de Meca, e 
chegou a huma cidade aonde lhe tirarão o batel com 
toda a fgente que tinha; e assim vinha a náo somente 
com seis homens a maior parte doentes, e somente com 
a agoa que podião ajuntar quando chovia. Partindo 
4aqui chegámos a esta Cidade de Lisboa no fim de Ju- 
lho : hum dia depois chegou a náo que perdemos de 
vista quando voltávamos, e igualmente Sancho de Tovar 
com a Caravella que foi a Çofala; que elle disse ser 
huma pequena Ilha na embocadura de hum rio ; e que 
o ouro que alli vem, he de huma montanha aonde está 
a mina ; he povoada de Mouros, e Gentios, que resgatâo 
o dito ouro por outras mercadorias. Quando alli che- 
gou Sancho de Tovar achou muitas náos de Mouros, e 
tomou hum destes para reféns de hum Christão da 
Arábia que mandara a terra, e pelo qual esperou dous 
ou ires dias; passados os quaes vendo que elle não vol- 
tava o deixou ficar vindo com o Mouro para Portugal ; 
de modo que da Armada que foi a Calicut vieráo seis 
náos, e todas as outras se perderão. 



Carta de Américo Vespucio, escrita de Cabo 

Verde, a 4 de Junho de lóci, a Lourenço 

DE Pi KR Francisco de Medicis. 



Magnifico padron mio, agli otto di Maggio fu rukima 
vi scriss stando a Lisbona presto per partirmi. In questo 
presente viaggio. che ora coiraiuto dello Spirito Santo 
ho cominciato, e pensato tino ai mio ritorno non vi 
avere a scrivere piú; e pare che la sorte m'abbia dato 
tempo sopra uno di potervi scrivere non solamente di 
lunga terra, ma delTalto maré. 

Voi arete inteso, Lorenzo, si per la raia. come per 
lettera de' nostri Fiorentini di Lisbona, come fui chia- 
mato, stando io a Sibilia, dal Re di Portogallo; e mi 
prego che mi disponessi a servillo per questo viaggioi 
nel quale m'imbarcai a Lisbona a' tredici dei' passato, 
e pigliammo nostro cammino per mezzodi; e tanto na- 
vigammo, che passammo a vista deli' Isole Fortunate, 
che oggi si chiamano di Canária, e passammole di largo, 
tenendo nostra navigazione lungo la costa d'Africa. e 
tanto navigammo, che giugnemmo qui a uno cavo, che 
si chiama el Cavo Verde, eh' è principio delia província 
d'Etiopia. e sta ai meridiano deli' Isole Fortunate. e 
tiene di larghezza quattordici gradi delia linea equino- 
ziale. dove a caso trovammo surto due navi dei Re di 
Portogallo. ch'erano dí ritorno d' alie parte d'índia 



EXPEDIÇÃO DE PEDRO ALVARES CABRAí. 299 

oriemale. che sono di quelli medesimi che andaroiio a 
Galichut. ora quattordici mesi fa, che furoiio tredici na- 
vigli; CO quali i' ho auto grandissimi ragionamenti noii 
tanto dei loro viaggio. come delia costa delia terra che 
-corsono, e delle richezze che trovorono. e di quelle che 
tengono, tutto sotto bre vità si fará in questa menzione 
a Vostra Magnificenza, non per via de cosmografia, 
perche non fu in essa frotta Cosmógrafo, nè Mattematico 
nessuno. che fu grande errore. Mas vi si diranno cosi 
disjcontortamente, come me la contarono, salvo quello 
io ho alcun tanto corretto colla cosmografia di Tolo- 
meo. 

Questa frotta dei Re di Portogailo, patti di Lisbona 
Tanno 1499, dei mese d'Aprile. e navicorono ai mezzodl 
fino air Isole dei Cavo Verde, che distanno dalla linea 
equinoziale quattordici gradi circa. e fuora d' ogni me- 
ridiano verso Toccidente, che potetc dire che le stamio 
piu air occidente che Tlsole di Canária sei gradi poço 
piú o meno. che ben sapete come Tolomeo, e la mag- 
gior parte delle scuole de' cosmografi, pongono el fine 
deir occidente abitato Tlsole Fortunate, le quali ten- 
gono di latitudine coll' Astrolábio^ e con el quadrante, 
e r ho trovato esser cosi. La longitudine é cosa piú dif- 
ficile, che per pochi si può conoscere, salvo per chi 
molto vegghia, e guarda la cogiunzione delia Luna co' 
Pianeti. Per causa delia detta longitudine io ho perduti 
moiti sonni. e ho abreviato la vi ta mia dieci anni, e 
tutto tengo per bene speso, perche, spero venire in fama 
lungo secolo, se io torno con salute di questo viaggio. 
Iddio non me lo reputi a superbia, che ogni mio trava- 
glio raddirizzarò ai suo santo servizio. 

Ora torno ai mio propósito : come dico questi tredici 
navigli sopradetti navigorono verso el mezzodi deli' 
Isole de) Cavo Verde, per il vento che i dice fra mezzo- 
di, e libeccio. E dipoi d' aver navigato venti giornate, 
circa a setteceato leghe (che ogni lega è quattro miglia 



Soo EXPEDIÇÃO DE 

e mezzo) posono in una terra, dove trovorono gente 
bianca e ignuda delia medesima terra, che io discopersi 
per Re di Castella, salvo che è piú a levante, la quale 
per altra mia vi scrissi, dove dicono che pigliorono 
ogni rinfresc amento, e di quivi partirono, e presono loro 
navigazione verso levante, e navigorono pel vento dello 
scilocco, pigliando la quarta di levante. E quando furono 
larghi dalla detta terra, ebbono tanto tormento di maré 
col vento a libeccio, e tanto fortunoso, che mando sotto 
sopra cinque delle loro navi, e le somerse nel maré con. 
tutta la gente. Iddio abbia auto misericórdia deli' anime 
loro. E le otto altre nave, dicono che corsono ad albero 
secco, cioè sanza vela quarantotto di, e quarantotto 
noite con grandíssimo tormento. E tanto corsono, che 
si trovorono colla loro navigazione sopra a vento dal 
Cavo di Buona Speranza, che sta figurato nella costa 
d' Etiópia, e sta fuora dei Trópico di Capricórnio dieci 
gradi alia parte dei meridiano, dico che ista dali' altez- 
za delia linea equinoziale verso el mezzodi trentatre 
gradi. Diche fatta la proporzione dei parallelo truovono 
che'l detto Cavo, tiene di longitudine dali' Occidente 
abitato sessantadue gradi, poço piú, o meno, che pos- 
siamo dire che stia nel meridiano d'Alessandria. E di 
qui navigorono di poi verso el settentrione, alia quarta 
dei greco, navigando di continuo a lungo delia costa, la 
quale secondo me è'l prencipio d'Asia, e provincia d' 
Arábia Felice, e di terre dei Presto Giovanni, perche 
quivi ebbono nuove dei Nilo, che restava loro verso 
r Occidente, che sapete eh' elli parte 1' Aífrica, dali' 
Ásia. E in questa costa vi sono infinita popolazione, e 
cita, e in alcuni ferono scala, e la prima fut Zafale, la 
quale dicono essere città di tanta grandezza come è' 
1 Cairo, e tiene mina d' oro ; e dicono che pagano di 
tributo alio re loro dugento migliaia di miccicalli d' oro 
V anno, che ogni miccicalle vale una castellana d' oro, 
o circa. E di qui partirono e venono a Mezibinco, dove 



PEDRO ALVARES CABRAL 001 

dice, è molto alue, e infinita lacca. e moita drapperia di 
seta. Ed è di tanta popolazíone come el Cairo, e di Me- 
2Íbinco furono a Chiloa, e a Mabaza, (Monbaza) e da 
Mabaza a Dimodaza, e a Melinde. Dipoi a Mogodasco 
(Magadasso), e a Gamperuia, e a Zendach dipoi a 
Amaab, dipoi Adabul (forse Rasbel) e Albarcon. Tutte 
queste città sono nella costa dei maré Occeano, e vanno 
fino alio stretto dei Maré Rosso. El quale maré avete da 
costa dei maré Indico. Credo che sia la província che 
Tolomeo la chiama Gedrosica. Questo Maré Pérsico, 
dicono che è molto ricco, ma lutto non s'ha credere, 
perciò le lascio nella penna a chi meglio ne porgerà la 
verità. 

Ora mi resta a dire delia costa, che va dallo stretto 
dei Maré Pérsico verso el maré Indico, secondo che mi 
racontonno, molti che fanno nella detta armata; e mas- 
sime il detto Guasparre, el quale sapeva dimolte iingue, 
e il nome di molte provincie e citta. Come dico è uomo 
molto aitentico, perche ha fàtto due fiate el viaggio di 
Portogallo ai Maré Indico. 

Dalla bôcca dei maré Pérsico si navica a una città, 
che si dice Zabule (forse Dabule) ; di Zabule a Goosa 
(Goa), e da Goosa a Zedeuba, e dipoi a Nui, dipoi a 
Bacanut, (forse Barcelor), dipoi a Salut; dipoi a Man- 
galui, ^Mangalur), dipoi a Batecala, dipoi a Calnut, poi 
a Drcmepetam, dipoi a Fandorana, dipoi a Catat, dipoi, 
a Caligut. Quesia città é molto grande; e fu 1' armata 
de ' Portogallesi a riposare in essa. Dipoi di Caligut a 
Belfur, dipoi a Stailat, dipoi a Remond, dipoi a Para- 
vrangrari, dipoi a Tanui (Tanor)^ dipoi a Propornat, 
dipoi a Cuninam, dipoi a Lonam, dipoi a Belingut, di- 
poi a Palur, dipoi a Gloncoloi, dipoi a Cochin, dipoi a 
Caincolon (forse Culan) dipoi a Cain, dipoi a Coronca- 
ram, dipoi a Sto mondei, dipoi a Nagaitan, dipoi a Del- 
matan, dipoi a Garepatan, dipoi a Conimat. Iníino a qui 
hanno navigato le frotte di Portogallo, che benchè non 



3o2 EXPEDIÇÃO DE 

si conti delia longitudine. e latituduie delia detta navi- 
gazione, ch'è fare cosa impossibile, a chi non tiene 
moita pratica delle marinerie che la possa dare ad in- 
tendere. E io tengo speranza in questa mia navigazione 
rivedere, e correre grun parte dei sopradetto, e disco- 
prire molto piu. e alia mia tornata darò di tutto buona 
e vera relazione. Lo Spirito Santo vada con meço. 
Qtiesto Guasparre, che mi conto le sopradette cose, e 
molti Cristiani le consentirono. perche furono in alcuna 
d' esse. mi dise di poi el seguente. disse eh' era stato 
dentro in terra deli' Índia in uno regno che si chiama e' 
regno de' Perlicat. el qualc è uno grandissimo regno, e 
rico d' oro, e di perle, (j di gioie. e di pietre prezione, e 
conto essere stato dentro in terra a Mailepur, e a Gapa- 
tan, e a Melata, e a Tanaser. (Tarescrim). e a Pego e a 
Starnai. e a Bencola. e a Otezen, c a Marchin. E questo 
Marchin dice sta presso di rio grande, detto Enparlicat. 
E questo Enparlicat è città dove è il corpo di Santo 
Marco Apostolo, e vi sono molti Cristiani. Et mi disse 
essere stato in molte Isole, e massime in una che si dice- 
Ziban (forse Seilan), che dice che volge 'joo leghe, e ché' 1 
maré aveva consumato d' essa, el rio, aitre 400 leghe. 
Dissemi eh' era ricchissima isola di pietre preziose, e di 
perle, e di spezierie, d' ogni generere, e di drogherie, e 
altre ricchezze, come sono alifanti, e gran cavalleria; 
di modo che istimo che questa sia 1' Isola Taprobana, 
secondo che lui me la affigura. E piii mi disse, che mai 
senti mentovare Taprobana in cale parte, che come sa- 
sapere che non è rosso, ed è come questo nostro, ma 
tiene solo il nome di rosso. E tutte queste città sono ri- 
chissime d' oro, e di gioie, e drapperie e spezzerie, e 
drogherie, e di suo próprio nascimento, eh' elle sono 
tratte colle carette dalla parte d' índia, come intende-' 
rete, che sarebbe cosa lunga a ripricalla. 

Da Albarcone, traverso lo Strétto dei Maré Rosso e' 
vanno alia Moca. la dove fu una nave delia detta frotta, 



FEDRO ALVARES CABRAL 3o3 

che in questo panto è arrivata qui a questo cavo, e in- 
lino a qui è scritto la costa d' Arábia Felice. Ora vi dirò 
la costa dei Maré Rosso verso V índia, cioé dentro alio 
Stretio d' esso maré. 

All-\ bocca dello stretto sta un p<;rt() nel Maré Rosso, 
che si chiama Haden, con una gran città. Piú innanzi 
verso el settentrioncsta, uno altro porto, che si chiama 
Camarcauj e Ansuva; dipoí è uno altro porto che si 
dice Odeinda (Odeida), e da Odeinda a Lamoia (Lahoía) 
e da Lamoia a Guda (Gudda). Questo porto di Guda è 
giunlo con il Monte Sinai, che come saprete è in Ará- 
bia Diserta, dove dicono eh' e iscula di tutti e' navili 
che vengono da inadia, e da Mecca. E in questo porto 
dicono che discaricano tutte le spezzerie, e drogherie : 
e gioie; e tutto quello che pongono qui, di poi vengono 
le carovane de' camnielli dal Cairo, e d' Alessandria, e 
le conducono li, che dicono che vanno ottanta leghe pel 
deserto d' Arábia. E dicono che in questo Maré Rosso, 
non navigano se non di di per causa di molti scoglj, e 
secche che vi sono. E molte altre cose mi furono conte 
di questo maré, che per non essere prolisso si lasciano. 

Ora diró la costa dei Maré Rosso dalla parte deli' 
Africa. Alia bocca dello stretto d' esso maré sta Zoiche 
[Zeile], eh' e signore d'essa uno Moro, che si chiama 
Agidarcabi, e dice che sta tre giornate apresso ai porto 
di Guda, tiene molto oro, molti alefanti e infinito man- 
tenimento. 

Da Zoiche ad Arbazui [forse Asab]. Di questi duo 
porti d' Arboiam e Zala n' è signore el Presto Gíovanni, 
e ivi dirimpetto è un porto che si nomina Tui é quale 
e dei gran Soldano di Babilónia. Dipoi da Tui a Ar- 
dem, e da Ardem a Zeon. Questo c quanto io ho potuto 
avere dei Maré Rosso ; riferiscomi a chi meglio lo sa. 
Restami ora a dire quello io intesi delia costa delia 
Mecca, eh' e dentro dei Maré Pérsico che si è el se- 
guente. 



304 EXPEDIÇÃO DE 

Partonsi dalla Mecca. e vanno per costa dei maré fino 
a una città che si domanda Ormuz, el quale è un porto 
nella bocca dei Maré Pérsico. E dipoi da Ormusa a Tus 
(forse Kis) e di Tus a Tunas, dipoi a Gapan. dipoi a 
Lechor, dipoi a Dua^ dipoi a Torsis, dipoi a Pares, di- 
poi a Stucara. dipoi a Ratar. Tutti questi porti che 
sono molto populati stanno dentro dalla costa dei Maré 
Pérsico. Credo che saranno molto piú alia mente mia, 
che alia verità mi referisco, che questi mi coniò uno 
uomo degno di fede, che si chiamava Guaspare, che 
avea corso dal Cairo fino a una provincia che si do- 
manda Molecca, (forse Malacca) la quale siasituata alia 
pete e' sta tutta in fronte di rio suddetto. 

Item mi disse, eh' era stato in una altra Isola che si 
dice Stamatara (forse Sumatra), la quale è di tanta 
grandezza, come Ziban, e Bencomarcano, insieme è 
tanto ricca como lei; sicchè non essendo Ziban l' Isola 
Taprobana sara Scamatarra. Di questi due isole ven- 
gono in Pérsia e in Arábia infinitissime navi cariche d* 
ogni genere spezierie, e drogherie, e gioie preziose, E 
dicono. che hanno visto gran copia de navilj di quelle 
parte, che sono grandissimi, e di 40 mila, e 5o mila can- 
tari di porto, e' quali chiamano giunchi, e hanno li al- 
beri delle navi grandissimi, e in ogni albero tre, o quat- 
tro cabin. Le vele sono di giunchi, non sono fabbricate 
con ferro, salvo che sono intrecciate con corde. Pare 
che quello maré non sia tempestuoso. Tengono bom- 
barde, ma non sono e' navilj velieri, ne si mettono molto 
in maré, perche di continovo navicano a vista di terra. 
Accadde che questa frotta di Portogallo, per fare pia- 
cere a petizone dei Re di Galigut, prese una nave eh* 
era carica d' alifanti, e di riso, e di piú di Soo uominij 
ella prese una carovella di 70 tonelli. E un altra volta 
misono in fondo dodici nai. Di poi vennono a una Isola 
detta Arenbuche, e Maluche, e molte altre Isole dei maré 
Indico, di che sono di quelle che conta Tolomeo, 



PEDRO ALVARES CABRAL 3o5 

che stanno intorno ali' Isola Taprobana, e mtte sono 
ricche. 

La detta armata se ne torno in Portogallo, e alia volta 
eh' írano restaté otto navi se ne perde una. carica di 
inolte ricchezzej che dicono che valeva centomila duca- 
tij e le cinque per temporali si perdenno. Delia capi- 
tana, dei quale oggi n' è capitata una qui fsicj, come di 
sopra dico; credo che 1' altro verrano a salvamento. 
Cosi a Dio piaccia. 

Quello che le dette nave portano è' 1 seguente. 

Vengono carice d' infinita cannella, gengiavo verde e 
secco, e molto pepe, e garofani, noci moscadi, mace, 
muschio. algalia, istorac, bongiui, porcellane, casia, 
mastica, incenso, mirra, sandale rosi e bianchi, legno 
alce, cânfora, ambra, canne, moita lacca, múmia, anib e 
iujia, oppio, aloé patico, folio indico, e molte altredro- 
gherie, che sarebbe cosa lunga ai contalle, Di gioie non 
sol el resto, salvo che vidi dimolti díamanti, e rubini, e 
perle, fra' quali viddi uno rubino d' un pezzo, rotolo di 
bellissimo colore, che pesava sette carati, e mezzo, Non 
mi vo piú rallargare perche el navilio... non mi lascia 
scrivere. Di Portogallo intcnderete le nuove. In concru- 
sione el Re di f^ortogallo, tiene nelle mani uno grandis- 
simo traffico, e gran richezza. Iddio la prosperi. Credo 
-che le spezierie verrano di queste parti in Alessandria, 
e in Itália, secondo la qualità e pregj. Cosi va el mondo. 

Credete, Lorenzo, che quello che io ho scritto iníino 
a qui è la verità. E se non si risconteranno le provincie, 
e regni, e nomi di città, e d' isole colli scrittori antichi, 
è segno ben che sono rimutati, come veggiamo nella 
nostra Europa, che per maraviglia si sente uno nome 
antico. E per maggiore chiarezza delia verità si trovo 
presente Gherardo Verdi, frattello di Simon Verdi di 
Cadisi, el quale viene in mia compagnia, e a voi si rac- 
comanda. 

Questo viaggio, che ora fo, veggo eh' è pericoloso 



3o6 EXPEDIÇÃO DE PEDRO ALVARES CABRAL 



quanto alia franchezza di quesio vivere nosiro umano. 
Nondimeno lo fo con franco anime per servire a Dio, 
el ai mondo. E se Dio s' é sei*vito di me, mi dará virtú. 
quanto che io sia apperechiato a ogni sua volontà, pur- 
chè mi dia eterno nposo ali' anima mia. 



Carta dk la Faiiada 



Quesia é copia di una letera di Zuan Francesco de 
la Faitada, scrita in Lisbonaj a di 26 zugno i5ai,drizata 
in Spagna, a sier Domenego Pixani, el cavalier, orator 
nostro ; Ia qual per sue di X iuio, la mando ia questa 
terra. 

Magnifice orator etc. 

A questi zorni passati scrissi per Zuan Vesiga ; poi 
in questo zorno havemo vostra, per la qual ne cometéj 
li dagamo notitia de laexpedition de Tarmata di questo 
sereníâimo re, Ben che per missier Gretico sara scrito a 
compimento, io voglio dar notitia a quela de Ia partita 
de questa armata, la qual partite de qui a li 17 zugno, 
et a li 18 fu in Lacus, terra de lo Algarius, che de qui 
a questa terra fanno 40 lige. Del qual loco de Lacus 
siamo avisati, luni passato la predita armada era in- 
grossata de molte nave et moita gente ; e, secondo 
m'avisano per letere de domenica passata, dei regno de 
Algarius montarano piu di 2000 homeni, oltra quelli 
che de qui andorono con le nave che partino. Lo effe- 
cto che questo re manda questa armada a questo loco 
dei mori, é per pigliarlo ; et eri, che fo lo di de Sancto 
Joanne, havevano lo arsalto in terra. Questo é quanto, 
íin questo di, se intende de la prefata armata. Da po' se 
extima andara a suo cammo, dove era deputada ; che 
Dio li concieda vitória! La magnificentia vostra sapera, 



3o8 EXPEDIÇÃO DE 

che eri, ai tardi. vene uno de li navilij, che fu in zener 
fino a Coloqut, el qual loco si é quello donde si aspe- 
tava le spiziarie. Et perche so, quella haverá piazer in- 
tendere le nove portano, faro notitia, como questo sere- 
nisimo re mando a lo dito loco de Coloqut 12 nave e 
navilij, de li quali g'é X soi, uno dei signor don Álvaro, 
m compagnia de Bortolo, fioreniino et Hironimo et 
uno genoese, Taltro dei conte de Porta Alegra e de 
certi altri merchadanti assai. In tutto sono 12 ira nave 
e navilij, de li quali, a Tandata, de qui lontano 80 lige, 
una de queste nave dei re se perdete, che de lei non s'é 
saputo mai novela ; le altre 1 1, andorono a suo viagio, 
arivarono ad un loco, che se dimanda el Cavo de Bona 
Speranza. Un zorno de luio, da poi de disnar, li sopra- 
vene grande vento, in modo, che, per quella fortuna, se 
perdete altre tre nave di quele dei re, e lo navilio dei 
conte di Porta Alegra; si che non restorono se nom 7, 
le quale andorono piu avanti, tanto che arivono ai Co- 
loqut; tamen dicono. che avanti giongeseno ai Coloqut, 
discosto da lo ditto loco lontano 100 lige, arivono in 
uno loco; che lo re di quel loco li feze grande honor, 
e le mando refreschamenti di carne, agneli et altri pre- 
senti. Zonti poi a Coloqut, el capetanio vene a parla- 
mento com quel re, e li feze, per nome di questo sere- 
nissimo re, presente de molte cosse, in modo che 
restorono. grandi amici ; e il capetanio se ne ritorno a 
la nave, e mando el fator general, com li altri deputati 
officiali, che havesseno a star li in terra, ecomenzorono- 
a contratar e far partiti de sue mercantie. In quelo 
tempo se atrovava, in lo dito locho de Coloqut, la 
frota de le nave de' mori de la Mecha, che stavano per 
cargar specie. A uno giorno, li mori con lo factor dei 
re vegnirono a diferentia ; dicendo Tuno, che volea car- 
gar prima che Taltro ; et li mori comenzorono a mazar, 
di portogalesi da 25 in 3o de li principali, intra li 
qual fu lo factor general e scrivani, et certi frati 



PEDRO ALVARES CABRAL 3o9> 

de observantia, che lo re in la dita armata mando.. 
Alcuni de quelli che erano in terra, butati in mar, na- 
torono a la nave, e deteno noticia ai capetanio di la no- 
va. El qual mando a parecchiar tute le nave a vela, e 
comenzo a bombardar le nave de. morí, in modo che ne 
mando in fondo circa XII nave, et occise piu de 3oo mori. 
Facto questo, comenzo a tirar le bombarde in terra, et 
amazo moita gente, ruínando molte case: e Taltro zor- 
no pigliarono molti homéni de Coloqut, e li menorono 
a la sua nave. El capetanio stete in deliberation de ri- 
tomarse qui. Uno Judeo, che Taltro capetanio meno qui. 
la prima volta che'l fu in Coloqut per questo re,fu man- 
dato in questa armata, tuta via non lo lassorono mai 
andar a terra, comenzo a dir ai capetanio che non si 
retornasse, ma che se andasseno piu avanti 70 in Solige 
che lui li meneria ai loco próprio, donde nasceno la 
spiciarie, che e loco de altro re. El capetanio, visto le 
proposition dei judeo, determino de far quello che lui 
diceva, e mando a far vela verso questo loco che cos- 
tui li diceva, tanto che arivorono a questa terra, che se 
domanda Chuchi, dove el capetanio mando homeni in 
terra a parlar a lo re de questa terra, et a quello naro- 
no quello li é sta fato in Colocut. Questo re de questa 
terra é grande inimico dei re di Coloqut, et inteso ques- 
to, li mando 4 homeni, de li sui piu principali, a le na- 
ve, che stesseno li, per contro de altri 4, che lo cape- 
tanio mando in terra; e comenzorono a far partiti, per 
modo che in nove zorni carichono tutte 7 le nave de 
spiziarie; zoe garofali, canelle, nose muschate, pevere 
et altre sorte specie. E da poi che le nave fonno dei 
tutto cargate, questo re li mando altre 14 barchaze de 
spiziarie, e loro le retornorono a remandar, perche non 
le podevano alevar; e questo re ge le mando a dar 
senza denari, né altra cossa per contro. El re de Cha- 
liqut, inteso che questa armada era andata a cargar a 
questo loco, perche era inimico de queFaltro re, e dubi- 



3 IO EXPEDIÇÃO DE 

landose che lo trafico de Galiqut non se vastasse, or- 
deno una grande armada, per mandar a pigliar le nave 
de Portogallo, in Ia qual armata andava no piu de i5 
milia homeni: El re de Chuchi, che sepe questa nova 
de questa ma armata. lo faze às aper ai capetanio de 
Portogallo, fazendoli grande oífertO; per salvarli quanto 
lui potesse; et oltra quesio feceno partito, che li 4 homeni 
■de le navCj stavano in terra, restasseno la, et li 4 altri 
de la terra, che stava no in le nave. vegnisseno qui con le 
dite nave, e cussi feceno, con grande amicitia. Unogiorno 
stavano per partir le dite nave, per vegnir a suo camino. 
l'armata di Chaliqut aparse ; et quell de la nave deteno 
le vella. ché haveano bon vento, e lassorono per pope 
Tarmata de Chaliqut. perche quele nave non vano a 
vela, se non con vento in pupa. In Chaliqut remase 
grande valuta de zoic, che za haveano comprado ; tuta 
via se existiam ne vegna qui, in queste nave dei re, 
grande summa. La fama de la richeza di questo re é 
tanto grande, che, hessendo la terza parte, é una grande 
cossa.' Da poi, come é dfto, che fossemo partiti da 
■Chuchi, luntadadi dal dito loco 200 lige, trovorono 
un'altra terra, chiamata Lichinocho, e li stava uno re 
molto richo. el quelle mando presentf ai capetanio, et 
mandoli doi ambasadori, i qualli vegnano a lo re de 
Portogallo. Expediti da questo re, partirono ai suo 
viazo, e se ne veneno a Zafale, che in questo loco dicono 
eseere grande rescato de oro e, de le 12 nave- el re or- 
deno che do de esse se ne andaseno a questa terra ; ma 
-quando se perdei eno le 4 nave, haveano ad andar a 
questa terra de Zafale. Da poi se nc veneno piu avanti, 
e uno giorno se feze grande vento, in modo che una de 
le sette nave fu a dar in terra, e le persone se salvo- 
rono. El capetanio mando a brusar la dita nave con la 
mercantia. Gionti ai Capo de Bona Spuranza, el cape- 
tanio mando a tute le altre nave, se zoncesen insieme, 
-et andono in compagnia 3 in 4 zorni. Da poi comando, 



PEDRO ALVARES CABRAL 3 I I 

che qiíesta, ch'é venuta, per esser neglior de le vele, se 
partisse da le altre^ e venisse a dar nova de esse nave 
qui; a questo re de Portogalo ; e cussi feze. Quesio na- 
vilio, che é venuio, é lo piu pícolo de tuti, et é dei si- 
gnor Álvaro e tre altri merchadanti nominati di sopra. 
Lui é lo piu povero de tutti li altri^ lo quale porta Soo 
cantera de pevere et 200 de canella, nose muscade, la- 
cha, benzui ; et porta la novella de esse cosse ; de modo 
che de tuto vien cargate. Questo discorso vi ho facio^ 
per dar notitia a vostra magniíicentia dei successo de 
questa cossa de Coliqut. Le sopradit nove se sono 
havute da uno marinaro de lo navilio che é venuto. ei 
quale navilio ancora sta in restello, et ozi s'aspeta qui.. 
Intendendose altro, ne sareti avisato dei turto particu- 
larmente etc. 



Carta de Pisani á Senhoria de Veneza 



Credo, vostra serenitá, per letere dei magnifico amba- 
sador, domino Piero Pasqualigo. doctor, habia inteso 
quello ho per capitolo di una letera di missier Gretico, 
doctor, ch'è apud regem Lusiíaniae, de 27 luio, in Lis- 
bona. Come questo serenisimo re havia mandato nave a 
la volta de índia, le quale ai presente son tomate ; ma 
<li i3 che furono son perse le 7. El lor viazo, serenisimo 
principe, é : prima per la costa de Mauritânia et Getulia, 
per ostroj fin ai Capo Verde, che antiquitus si chiamava 
Hespeviceras dove sono le insule de le Hesperide. Qui 
principia la Ethiopia, verso levante tanto, che cores- 
ponde per linearii rectam a la Sicilia. Dista dita costa 
de la linea equinoctiale 5 m 6 gradi ; et a mezo dieta 
costa è la mina de questo sereníssimo re. Da poi extende 
uno capo verso ostro in tanto, che excede el trópico de 
Gapricomo 9 gradi. Questo capo chiamano Capo de 
Bona Esperanza, che vien esser larga la Barbaria in 
questo loco piú di 5ooo mia, dal lito intrínseco verso 
nul ad questo cao de 11. Iterum se incolfa verso uno cao, 
chiamato da gli antlqul Prason Promontorium, fino ai 
qual fu noto a li antiqui. Da Taltra banda, de qui iterum 
scorre, quasi greco e levante, per la Tragloditica, dove 
trovano una mina d'oro, la qual chiamano Cephala, 
(Sofala) dove li antiqui aífermano esser mazor copia 
d'oro che in alguna altra parte. De qui entrano nel mar 



EXPEDIÇÃO DE PEDRO ALVARES CABRAL 3l5 

barbarico^ et poi nel mar de índia et arivano ai Coliqut.. 
Questo é il lor camino, ch'è piú di XV milia miglia; ma 
iransversando lo scurterano assai. 

De sopra el Capo de Bona Speranza, verso garbin^ 
hanno discoperto una terra nuova, chiamano la terra de 
li papaga', per esser li papaga' longi uno brazo et piú, 
de varij colori, de li quali hanno visto doy. Judicano 
questa terra esser terra ferma, perche corseno per costa 
2000 mia e (sic) piú, nè mai trovorono fin. Habitano 
homeni nudi et formosi. A la lor andata perseno, per 
fortuna, 4 nave, dove mandorono a la mina nova dieta, 
le qual si judicha, siano perse. Le sete andorono ai 
Coliqut, dove forono prima ben visti et foli dato una 
caxa per quel signor; dove rimaseno alcune de le nave, 
le altre erano in lochi vicíni. Da poi soprazonse zerme 
X dei soldan, li quali se sdegnavano che portogalesi 
fosseno andati ad torleli lo inviamento, et volevano car- 
gar prima. El fator dei re de Portogal se lamento con 
el signor de Coloqut, (sic) et qual, judicano, se mten- 
desse con mori, et disse che se gli cargavano, li tolesse 
le specie. De che venero a le mane, che tutta la terra 
favori a'mori, et corseno a la caxa designata a'portoga- 
lesi, et tagliorono a pezi tutti che erano in terra, per 
numero 40, tra li quali el fator dei re, qual se à butata 
in aqua par fuzir. Inteso questo, le altre nave venero et 
abrusorono le zerme dei soldan, che erano X, et le bom- 
barde fecero gran danno a la terra et brusorono assai 
caxe, che el forzo è coperte de paglia. Per questo rumor 
se parti da Coloqut, et forono conduti de la lor guida, 
ch'è uno judeo batizato, ad una altra terra piú oltra, 
chiamata Chucin, (Cochim) de uno altro re, inimico dil 
re di Coloqut, el qual li ha fato óptima compagnia et 
ha mazor copia de specie che ai Coloqut. Hano carga 
ad stiva per precio che me temo dirlo ; et dicono com- 
prino uno canter de canela per un ducato et meno. 
Questo signor de Chucin manda soi ambasadori com 



3 14 EXPEDIÇÃO DE 

queste nave a questo signor re, et eiiam obstasi, a ci6 
che torniano securamente. Nel retorno mori et quelli de 
Calicut (sic) se misseno in ordene per prenderli, et ar- 
marono i5o navilij con i5 milia homeni ; tamen costoro, 
siando chargi, non volseno combater, né quelli li poteva 
ofFender, cliè lusitani se messeno a la vela de la borina, 
che lore non sano andare. Venendo, arivono in una in- 
sula, dove è el corpo di San Thomà. El signor de quella 
li ha fatto gran chareze et datoli de la reliquie de San 
Thomà; li pregava volessero tuor specie da luietchele 
tolesseno in credenza a Taltro viazo; questi erano za 
cargi et non poteva tuor piú. Sono stati mesi 14 sul 
viazo, ma nel ri torno solo 4; et dicono voler da mo 
avanti far questo viazo in g o ver 10 mesi ai piú. Nel ri- 
torno, de 7 nave, le 6 son venute salve, una de te in una 
secha, li homeni de le qual son salvi ; et questa era de 
ôoo bote et carga. Ma ancora non è arivate qui, salvo 
una di bote 3oo; le altre son propinque, per quanto di- 
cono; e queste introno la será di San Zuane. Io me ri- 
trovava dal rc, el qual me chiamò et diseme, me con- 
gratulasse, che le sue nave de índia erano zonte cariche 
de specie; et cussi mi congratulai con li debiti modi. 
Feze far festa in palazo et letizia de campane per tutta 
la terra; el di sequente feze una procession solenne. Da 
poi, iterum atrovandomi con sua-magestà, me retorno a 
la nave et diseme dovesse scriver a vostra serenità, che 
mandi da mo avanti le galie a levar specie de qui, a le 
qual faria bona ciera, et poriano judicar esser in caxa 
sua; et che omnino vuol prohibir che ai soldan nonvadi 
specie; et voler meter a questo viazo 40 nave, de le qual 
algune vadi et algune torni; et JemMm tiene haver la 
índia ai suo commando. Questa nave intrata, in porto, 
è la nave et el cargo de Bartolo Florentino, el cargo de 
la qual è piper, cantera 3oo; canella, cantera 120; lacha, 
cantera 60; benzui, cantera i5; garofalli non hanno, 
perche mori gli haveano levati ; neanche zenzeri, perche 



PEDRO ALVARES CABRAL 5l> 

a Chuchin, (sic) dove hanno carga non nc hè. ma nasce a 
Caliqut (sic); specie minute non hanno di alguna sorte.. 

Dicono haver perso assai zoglie in quel rumor de Gha- 
liqut (sic). Non preterirò eíiam questo, esser venuti de 
qui ambasadori de uno re de Ethiopiaj chiamato re 
Ubeam, qual à mandato presente a questo re, schiavi et 
denti de avuolio et altre cosse, et son de qui za assais 
Li a presso eíiam de quelli nasse piper, ma non è cussi 
compito come Taltro. Praeterea queste nave nel suo ri- 
torno scontrarono do grosse nave, che erano partite de 
la mina nova et andavano verso la Índia, li qual haveano 
gran suma di oro ; et, temendo che costoro non i volesse 
pigliar, li oíferse i5 milia doble/^ro /jrtmo, che chadauna 
vai piú dei ducato; ma questi non hanno voluto*tuor 
cossa alguna; imo li hanno fato presenii a loro et bona 
compagnia per poter navegar quelli mari, nec alia. 

Data Ulysiponi, die 27 julii i5oi. 



Carta dk D. Manuel aos Reis Católicos 



<2arta dei Rey D. Manuel de Portugal á los Reyes Ca- 
tólicos, dándoles cuenia de todo lo sucedido en el viage 
de Pedro Alvare^ Cabral por la costa de Africa hasta 
el Mar Rojo. (Existia en Zaragoza en el archivo de la 
antigua Diputacion de Aragon, destruido en la guerra 
de la independência. Copia sacada por D. Joaquin 
Traggia.) 

Muy altos y muy excelentes y muy poderosos Prínci- 
pes Senores padre y madre : estos dias pasados, despues 
que la primera nueva de la índia llegó, no escribí luego 
á vuestras Senorias las cosas de allá, porque no era aun 
venido Pedro Alvarez Cabral mi capitan mayor de la 
flota que allá tenia enviada; y despues de su llegada 
sobreseí en ello, porque no eran aun venidas dos nãos 
de su compama, de las cuales la una tenia enviada á 
Zofala, que es mina de oro que nuevamente se halló, no 
para rescatar sino solamente para hacer verdadera in- 
formacion de las cosas de allá, porque de dos nãos que 
para ello iban una de ellas ce perdió en la mar, é otra 
se aparto de la flota con tiempo fortunoso, é no fué la 
dicha. Y despues de llegadas las dichas nãos é estando 
para notiíicarlo todo á VV. SS.. Pêro Lopez de Padilla 
me dijo que folgábades de saber las nuevas de como las 
cosas de allá sucedieron; las cuales de como todo su- 
mariamente pasó son estas. 



EXPEDIÇÃO DE PEDRO ALVARES CABRAL .>I7 

El dicho mi capitan con trece nãos partió de Lisboa 
á nueve de Marzo dei ano pasado. En las octavas de la 
pascua siguiente Uegó á una tierra que nuevamente des- 
cubrió, á la cual puso nombre de Santa Cruz, en lacual 
halló las gentes desnudas como en la primera inocência, 
mansas y pacíficas ; la cual parece que nuestro Seííor 
milagrosamente quiso que se hallase, porque es muy 
conveniente y necesaria para la navegacion de la índia, 
porque allí reparo sus navios é tomo agua; y por el 
camino grande que tenia por andar no se detuvo para 
se informar de las cosas de la dicha tierra, solamente 
me envio de allí um navio á me notificar como la halló, 
é fizo su camino la via dei cabo de Buena-Esperanza; 
en el cual golfo, antes de Uegar á ella, pasó grandes tor- 
mentas, en que en uno solo dia se anegaron juntamente 
á sua vista cuatro nãos de que nó escapo persona algu- 
na ; siendo á este tiempo desaparecida dél otra nao de 
que hasta agora no he habido noticia, y la en que en él 
iba con las otras que quedaron pasaron grande peligro,' 
é así fué su via para aportar ai reino de Quiloa, que es 
de moros, debajo de cuyo senorío está la dicha mina de 
Zofala, porque para el Rey dél llevaba mis cartas e re- 
caudos para con él asentar la paz, y trato acerca dei 
rescate é negoeio de la dicha mina. E antes de llegar ai 
dicho reino halló dos nãos con gran suma de oro, las 
cuales tomo en su poder, y porque eran dei dicho rey 
de Quiloa, faciéndoles mucha honra, las dejó ir. Del 
cual Rey fué muy bien recibido, viniendo en persona á 
verse con el dicho mi capitan á la mar, y entro con él 
en su bajel, y le envio presentes, y despues de haber 
visto mis cartas y recaudos asenló el trato, y porque 
las nãos que para la dicha mina iban dirigidas eran de 
las que se perdieron, no se comenzó por entónces allí 
ningun rescate porque la mercadería que las otras Ue- 
vaban, no era conforme á la que para aquella tierra con- 
venia. Partióse de allí é fuese á otro reino Melínde, 



3l8 EXPEDIÇÃO DE 

para donde llevaba tambien mis cartas y recaudos para 
el Rey dél, que asimismo es moro^ y lenia fechas buenas 
obras à D. Vasco^ que fuc el primero allá á descubrir. 
el cual Rey asimismo se vió con él en la mar, y le en- 
vio tambien presentes y con él firmo y asentó amistad 
é pa2^ é le dió los pilotos que le convenian para su 
viage. Los cuales reinos son de la mar Bermeja para 
acá: de la parte de la tierra confinam con gentiles, los 
cuales gentiles confinan con el Preste Joan, que ellos 
allá llaman Coavixi, que en su lengua quiere decir fer- 
rados, porque de hecho lo son, y se fierran por senal 
que son bautizados en agua. E de allí se partió pára 
Calecut, que es mas allá setecientas Icguas, la cual ciu- 
dad creemos que ya temeis sabida es de gentiles que 
adoran muchas cosas y creen que hay un solo Dios, y 
de muy gran pueblo, y hay en ella muchos moros que 
hasta agora siempre trataron en ella de especería, por- 
que ella CS así, como Brujas en Flandes. Está la princi- 
pal de las cosas de la índia que de fuera viene á ella, v 
en ella no hay sino canafistola y gengibre, á la cual 
ciudad llegó habiendo cinco meses que era partido de 
Lisboa, y fué dei Rey muy honradamente recibido, vi- 
niéndole á hablar á una casa junto á la mar, con todos 
sus grandes y mucha otra companía, é allí le dió mis 
recaudos y asentó mi paz y concierto, dei cual asiento 
el dicho Rey mando facer una carta escrita en pasta de 
plata, con su senal de íauxia dorada, por ser así el cos- 
tumbre en su tierra en las cosas de grande instancia, e 
otras cartas escritas en fojas de unos árboles que pare- 
cen palmaS en que acordadamente escriben, y de estos 
árboles y de su fruto se hacen estas cosas que se siguen: 
azucar, miei, aceite, vino, agua, vinagre, carbon y cuer- 
das para navios, é para toda otra cosa é esteras, de que 
hacen algunas velas de nãos, é se sirven de ellas en todo 
lo ai que les cumple, y el dicho fruto allende de aquello 
que de él así se hace es grande manienimiento suyo, 



PEDRO ALVARES CABRAL 3l9 

principalmente en la mar; y despues dei asiento así 
fecho con el dicho Rey puso mi fator con toda la casa. 
ordenada que para la dicha fatoría enviaba en tierra, é 
comenzó luego de tratar sus mercaderías, é de cargar 
las nãos de especería ; y en este médio tiempo envio el 
Rey de Calecut á decir á mi capitan que una nao muy 
grande é muy armada de otro rey, su enemigo, le habia 
enviado á decir que pasaba por ante su puerto sin nin- 
gun miedo suyo, é que ya otras veces le tenia enojado 
que le rogaba mucho que le maniase tomar, encare- 
ciéndosels como cosa que tocaba mucho á su estado é 
honra. Y el dicho mi eapitan viendo el tratamiento que 
éi y el dicho fator comenzaban á recibir dei dicho Rey 
por mas confirmar mi paz e amistad, acordo de lo facer 
y por le mostrar la fuerza de nuestra gente en navios y 
artillería, envio solamente á ella el mas pequeno navio 
que tenia con una lombarda gruesa é alcanzóla dentro 
en el puerto de otro Rey su vecino, é á vista dei é de 
coda su gente la tomo y la trujo á Calecut con cuatro- 
cientos hombrcs arteros é alguna artilleria é con sietc 
elefantes enseííados de guerra dentro de ella que allá 
valdrian 3oi!t> mil cruzados, porque por uno de ellos solo 
daban 5^ cruzados, é con otra mercadería de especie- 
ría, la cual nao le envio á presentar é se la diócon todo 
lo que en ella vénia, é él la vino á ver á la ribera, por 
ser a ellos muy grande espanto tan pequíío navio con 
tan poços hombres tomar una tamana nao, é con tanta 
gente, é á recebir el recaudo que el dicho capitan sobre 
ella le enviaba, viniendo con todo su estado é fiesta. Y 
estando así en esta concórdia é amistad siendo ya dos 
nãos de especiería, los moros, principalmente los de 
Meca que allí estan estantes, por ver el gran dano que 
se les seguia, buscaban todos lo modos que podian para 
poner discórdia entre mi fator y el rey, y pusieron la 
tierra en alboroto por estorbar el trato ; y porque todas 
las mercaderías estaban en manos de los moros, escon- 



:)20 EXPEDIÇÃO DE 

díanlae y enviábanlas secretamente para otras partes ; 
y sabiendo esto el dicho capitan envio á decir ai rey de 
Calecut quejándose y pidiéndole que cumpliese lo que 
con él tenia asentado, que era que dentro de veinte dias 
se le daria mercadería de que cargase las dichas nãos é 
que hasta ser ellas cargadas no daria lugar que ningu- 
nas otras cargasen, y el rex le respondió que toda la 
mercadería- que hubiese en la tierra le mand iria luego 
dar, é que si alguna se cargase en su puerto si.> saberlo 
sus oficialeSj que él le daba lugar é poder para que la 
detuviese hasta que él enviase los dichos sus oíiciales^ 
para que en ello hubiesen de proveer para se la entre- 
gar; é en sabiendo esto los moros acordaron, con grande 
diligencia, de cargar una nao publicamente, dando aún 
mayor diligencia en esconder la mercadería de lo que 
antes solian, y esto para dar causa á que él escândalo 
se comenzase, porque son poderosos y la ciudad es de 
muchas naciones y de extendida poblacion, y en que el 
rey mal puede proveer á los alborotos dei pueblo. E 
viendo mi fator como la nao se cargaba, requirió ai ca- 
pitan que la detuviese como con el rey tenia asentado, 
y el dicho capitan, recelando el escândalo, dudó de lo 
hacer, y el dicho fator torno á le requerir que todavia 
la detuviese, diciendo que los principales de los moros, 
é así algunos gentiles, le decian que si la dicha nao no 
era detenida, en ninguna manerapodria cargar sus nãos, 
y segun lo que se siguió, pavecece que lo hacian á fin 
de dar causa ai dicho escândalo. Y mi capitan despues 
de lo dudar muchas veces, recelando lo que se seguió, 
envio á decir á la gente de aquella nao, por el poder 
que para ello tenia, que no se pártiese, y ellos no lo 
quisieron hacer, y entónces fué necesario de la mandar 
retener, y mando á sus bajeles que la metiesen en den- 
tro dei puerto donde estuviese segura de no poder par- 
tir sin su placer. Y luego que esto vieron los moros,. 
como era el íin que ellos deseaban, en aquel mismo ins 



PEDRO ALVARES CABRAL 32 



tante vinieron luego con. tcdo el otro puebío, que ya 
antes tenian alborotado sobre eldicho fatory casa com- 
batiéndolo ; y él con esos poços que consigo tenia se 
defendió por algun espacio, y se salió de la casa vinién- 
dose recogiendo á la mar. Y el mi capitan, que entónces 
estaba dolientC; luego que le faé dicho dei alboroto, que 
habia en tierra, envio todos sus bajeles ú le socorrer, y 
puesto que la mar estaba muy brava, todavia recogió 
alguna parte de la gente, mataron ai fator, y con él se 
perdieron cincuenta personas entre muertos y cativos, y 
esto así fecho, viendo el dicho capitan como el rey á 
esto no acudia, e veiendo que no le enviaba ningun re- 
caudo, antes se proveía de algunos aparejos recelando 
guerra, y que asimismo estaba apoderado de mi hacienda 
que quedo en tierra, sobreseyendo un dia por ver si se 
hacia enmienda dei dicho caso, cuando vió que ningun 
recaudo le enviaba, temiéndose que armase gruesamente, 
como despues fizo, para que le pudiese impedir la ven- 
ganzá que en aquel tiempo podia tomar, acordo de lo 
poner luego en obra, é tomóle diez nãos gruesas que en 
el puerto estaban, y mandou poner á espada toda la 
gente que en ellas habia, salvo alguna que quedo escon- 
dida, la cual despues no quiso matar, y me la trajo ca- 
tiva, y mando quemar las dichas nãos delanie dei dicho 
puerto, que fué ai dicho rey é á la gente de tierra grande 
espanto, en las cuales estaban três elefantes que allí 
murieron, y en esto gasto todo aquel dia, y luego que 
fué noche se fué con todas las nãos, é se puso lo mas 
en tieçra que pudo ai luengo la ciudad, y en amaneciendo 
le comenzó á tirar con artillería, é le tirou hasta la 
noche principalmente á las casas dei rey, en la cual 
le fizo mucho dafío, é le mato tnucha gente, como 
despues supo, é le mato un hombre principal que 
estaba con él, por lo cual él se salió luego fuera 
de la ciudad por parecerle que en toda no estaba segu- 
ro. De allí fizo vela, y se fué á otro puerto suyo que se 



322 EXPEDIÇÃO DE 

llama Fandarene. en que tambien le íizo enojo con ar- 
tillería, é le mato gente, é de alíi fizo vela la via dei 
reino Chochim, que es aquella parte donde viene la es- 
peciería, treinta léguas mas allá de Calecut, y en el ca- 
mino halló otras dos nãos de Calecut, que tambien tomo 
é mando quemar, é llegado á Chochim, despues de ha- 
ber hecho saber ai rey lo que habia pasado en Calecut, 
fué de él muy bien recibido, é asentó con él su trato de 
la manera que lo tenia asentado en Calec^.it, é puso 
luego mi fator é ciertos hombres con él en tierra, para 
lo cual le dieron rehenes de hombres honrados que le 
trnjiese, y le cargaron las nãos en diez y seis dias, y la 
mercadería le traian en sus bateles á ellas con tanto 
mas amor é seguridad que parece que Nuestro Senor 
permitió el escândalo de Calecut, porque se acertase 
este otro asiento que es de mucho mas provecho é se- 
guridad, porque es mucho mejor puerto, é de mucha 
mas mercadería, porque cuasi toda la mercadería que 
va á Calecut mucha de ella hay en aquella tierra, y Ias 
otras primero van allí que no á Calecut: en la cualciu- 
dad de Cuthin hay muchas nãos, y supo que dos merca- 
deres solamente tenian cincuenia nãos. En aquel reino 
hay mucho cristianos verdaderos de la conversion de 
Santo Tomás, y los sacerdotes de ellos siguen la vida 
de los apostoles con mucha estrechura, no teniendo 
propio sino lo que les dan de limosnas, y guardan ente- 
ramente castidad, y tienen iglesias en que dicen misas, é 
consagran pan zenceíío é vino que hacen de pasas secas 
con agua, porque no pueden hacer otro : en las iglesias 
no tienen imágenes sino la cruz, é todos los cristianos 
traen los vestidos apostólicos con sus barbas y cabellos 
sin los nunca hacer. Y allí halló cierta noticia donde 
yace el cuerpo de Santo Tomás que es ciento y cin- 
cuenta léguas de allí en Ia costa de la mar, en una ciu- 
dad que se llama Mailapur, de poça poblacion, y me 
tmjo tierra de su sepultura, y todos los cristianos, é así 



PKDRO ALVARES CABRAL 



323 



los moros é gentiles por los grandes milagros que hacc 
van á su casa en romería, y así nos trujo dos cristianos, 
los cuales vinieron por su placer é con licencia de su 
perlado para que los enviasemos á Roma é Hierusalem, 
é viesen ias cosas de la iglesia de acá, porque tienen 
que son mejor regidas por ser ordenadas por San Pedro, 
que ellos creen que fué la cabeza de los apostoles, por 
ser ellos informados de ellas. Y tambien supe nuevas 
ciertas de grandes gentes de cristianos, que son allende 
de aquel reino de Ghochim, los cuales vienen en rome- 
ría á la dicha casa de Santo Tomás, y tienen reyes muy 
grandes, los cuales obedecen á uno solo y son hombres 
blancos y de cabellos loros, é habidos por fuertes, é 
llamase la tierra Malchima, de donde vienen las porce- 
lanas é asmisle é âmbar é ligno aloé, que traen dei rio 
Ganje, que es acuende de ellos, y de las porcelanas hay 
vasos tan Unos que uno solo vale hallá cien cruzados. 
Y estando en este reino de Ghochim con el trato ya 
asentado y las nãos cargadas, le vino recaudo dei rei de 
Cananor é dei rei de Colum, que son allí comarcanos, 
requiriéndole que se pasase á ellos porque le harian el 
trato mas á su provecho, y por tener ya el asiento fecho^ 
5e escuso de ir. En este tiempo, estando para partir de^ 
Chochim, le envio el mismo rey á decir como una ar- 
mada gruesa de Calecut vénia sobre él, en que venian 
hasta quince mil hombres, con la cual á mi capitan no 
le pareció bien de pelear por tener sus nãos cargadas, 
y tener poça gente, y no le pareció tiempo ni necesidad 
4e aventurar por tener receio que le matarian ó heri- 
rian alguna delia por largueza dei camino que tenia de 
andar, que eran cuatro mil léguas de aqui ; pêro fízosc 
â la vela con ellas no dejando su camino, y ellos no 
osando de se alargar á la mar se tornaron recelando de 
ir sobre ellos, j de allí fizo su camino por el reino de 
Cananor uno de aquellos reyes que lo mandaron reque- 
rir, é pasando luego que de tierra hubieron vista dél le 



324 JEXPEDIÇÂO DH 

mancJÓ oiro recaudo. rogándole que pasase por allr" 
jwrque queria enviar con éi a mi su mensagero, el cual 
me trujo, y en un solo dia que allí estuvo le mando traer 
tanta especiería á las nãos que las cargara dei todo si 
vinieran vacías, y se la daban que la trujese de gracia 
en presente á mi por cobrarme amistad, é así vinieron 
iodos sus grandes á mi capitan, diciendo de parte dei 
ley que por allí veria que seria allí de otra manera tra- 
tado que fué en Calecut, que le ayudariaii é iria él en 
persona por tierra, é toda su armada por mar : y des- 
pucs de se lo mucho agradecer de mi parte, se despidió 
dél diciéndole que en esta oira armada que luego habia 
de enviar, le enviaria mi respuesta de todo. E se vino 
por su caminOj y en el médio de aquel traves lomó una 
muy grande nao cargada de mercaderías, pareciéndole 
que seria de las de Meca, que entónces habian de venir 
de Calecut, é bailando que la dicha não era dei ray de 
0)baía, la dejó, enviando por ella á decir ai dicho rey 
que la dejaba porque no iba a facer guerra ã nenguno,, 
solamente la tenia fecha á aquellos que le faltaron de 
la verdad que con él en mi nombre tenian asentada: y 
siguiendo mas adelante se le perdió una de las nãos que 
traia cargada porque de noche fué a dar en tierra, y 
salvóse la gente, y mando quemar la nao porque no se 
podia sacar salva, y desta, parado .. . envio el navio á 
haber r^uevas de la mina de Zofala, como ya detrás está 
dicho, el cual es ya venido, y me trujo informacion cierta 
de allà y así dei trato y mercadería de la tierra, y de la 
gran cantidad dei oro que allí hay, y allí alló nuevas 
que entre los hombres que traen el oro allí á cuestas, 
vienen muchos que tienen cuatro ojos, dos delante y dos 
detrás, y son hombres pequeííos de cuerpo é bermejos, 
y diz que son crueles é que comen los hombres con 
quien tienen guerra, y que las vacas dei rey traen col- 
lares de oro gruesos ai pescuezo. Y cerca de esta mina 
hay dos islãs en que cogen mucho aljôfar é âmbar. Y 



PEDRO ALVARES CABRAL 32> 

de alls se vino el dicho mi capitan. y liegó á Lisboa á 
liempo que hacia diez y seis meses dei dia que delia 
panió, y bendito sea Nuestro Senor en todo este viage 
no le murieron de dolência mas de tres hombresj é to- 
dos los otros vienen sanos é en buena disposicion. 
Agora nos vino cierio recaudo como uno de los navios 
que iba para Zofala que tenia por perdido, viene é será 
un dia de estos aqui, el cual dicen que entro en la mar 
Bermeja, y que trae delia alguna plata, é así alguna in- 
formacion de la cosas de allá, puesto que ya de la dicha 
mar Bermeja estábamos largamente informados por el 
dicho mi capitan, y por muchas vias fui de ello sabidor. 
Las otras particularidades deste negocio ú Pêro Lopez 
Ias remitOç, que á todo fué acá presente. Muy altos y 
muy excelentes é muy poderosos príncipes senores Pa- 
dre é Madre. Nuestro Sefíor haya vuestra vida y Real 
Estado en su santa guarda. Escrita en Santaren á veinte 
é nueve de Júlio. -= EL REY. 



índice 



Pág. 

Dedicatória 

Lisboa no ano de i5oo i 

A população e a vida da cidade ç^ 

Influência das primeiras novas do Oriente sobre 

a nação e o rei iq 

Exame das fontes e primeiros textos sobre a ex- 
pedição 41 

Distribuição dos comandos. Figuras principais da 

armada 5 1 

Genealogia e biografia de Pedro Alvares Gabral. 5j 
Dados genealógicos e biográficos sobre os capi- 
tães e figuras principais da armada 87 

Associados comerciais do rei na expedição. Os 

Marchioni de Florença 117 

Duarte Pacheco e as anteriores viagens ao conti- 
nente americano 144 

Organização e objectivo da expedição 173 

A partida da armada do Restelo iqi 

Conclusão 201 



DOCUMENTOS 

Carla de capitania a Pedro Alvares Gouveia 2i3 

Fragmentos de instruções a Pedro Alvares Cabral 21 5 

Carta de Pêro Vaz de Caminha 233 

Carta de Mestre Joáo 25/ 

Relação do piloto anónimo. 260 

Carta de Américo Vespúcio 398 

Carta de La Faiiada. 3o7 

Carta de Pisani. 3i2 

Carta de D. Majmel aos Reis Católicos 3iõ 



LiTrarias AILLAUD e BERTRAND 

LISBOA -73, Rua Garrett, 75 



BITOLOfim PORTDOOESB 

ORGANIZADA PELO 

Dr. Agostinho de Campos 

Sócio correspondente da AcEc^einia das í-cièticias 
de I.isboa 

/7 série da ANTOLOGIA PORTU- 
GUÊS A, que virá a constar de uns trinta vo- 
lumes, pelo menos f não será apresentada ao pú- 
blico com numeração editorial. Cada possuidor 
a ordenará como entenda, ou cronologicamente, 
cu por poetas e prosadores, segundo o seu crité- 
rio e vontade. 



-^- 



VOLUMES PUBLICADOS: 

Manoel Bernardes, dois volumes. 
Alexandre Herculano, 1.° volume. 
Frei Luís de Sousa, 1.° volume. 
Barros, 1.*^ volume. 
Guerra Junqueiro, verso e prosn, um 

volume. 
Trancoso, um volume. 
Paladinos da linguagem, dois volumes. 
Fernão Lopes, trôs volumes. 
Lucena, dois volumes. 

EM PREPARAÇÃO : 

Eça de Queiroz, Camões lírico, 

António Vieira, Augusto Gil, Antero 

de Figueiredo, etc. 



THIS BOOK IS DUE ON THE LAST DATE 
STAMPED BELOW 



AN INITIAL FINE OF 25 OENTS 

WILL BE ASSESSED FOR FAILURE TO RETURN 
THIS BOOK ON THE DATE DUE. THE PENALTY 
WILL INCREASE TO 50 CENTS ON THE FOURTH 
DAY AND TO $1.00 ON THE SEVENTH DAY 
OVERDUE. 



Vi ti ' f^ 



(L pv_gt? (f, 



J"M 1 1944 



Ml 26 1946 



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BMBfZfiijNiKõv 



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JANíl'e7-9AM 



i,OAN PEPT. 



LD 21-100m-7,'40(6936s)l 



YB 3éfe54 



STOQOS 



UNIVERSITY OF CALIFÓRNIA LIBRARY 



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