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Full text of "Obras completas"

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EnrjiJ^rriídíí 



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OBRAS COMPLETAS 

lik. 

NICOLAU TOLENTINO DE ALMEIDA 

• M)iii iilmiiiK inediíos 

E Uivl KNSAIO RIOGRAPHÍCO-CRITICO 
JOSÉ DE TORRES 




1861 

KDTTOHKS - CASTHO. IRMÃO .V «: 
>M ia Bta-TIa», hI*c1« U r«B4f é« %*mf\: 



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TTP. nu RASTRO A IRlfÃn. 



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SONETOS 



A NOMA «RNHOIIA 



Se a febre atraiçoada em íim declina, 
E se se esconde a aberta sepultura, 
Ao vosso rogo o devo, 6 Virgem pura, 
Por-quem me quiz livrara mão divina: 

Sem Vós debalde a experta medicina 
Traça, e apparelha a desejada cura; 
Sem Vós o mdio adusto em vSo procura 
A amarga casca da saudável quina. 

Quando em lucta co'a morte me contemplo. 
Sem haver já no mundo quem me valha. 
Do vosso grão poder, que grande exemplo ! 

Vencestes; e em memoria da batalha 
Penduro nas paredes d'este templo, 
Rasgando, um novo Lazaro, a mortalha. 



A %V\ AI.Tt/A 



IV'esta eançada triste poesia 
Vedes, senhor, um novo pretendente, 
Que aborrece o que estima toda a gente, 
Que é ter no mundo cargos e vaiia. 

Sobre aito thronó ha annos que regia 
De docíl povo turba obediente: 
Mas quer antes sentar-se humildemente 
N'um banco da real secretaria ; 

Qual modesto capucho n^vorendo, 
Que em iím de guardiania triennal 
Passa a porteiro as chaves recebendo. 

Em mim conheço vocação igual : 
E co'a mesma humildade hoje pretendo 
Passar de mestre a ser official. 



A. SUA. ALTBXA 

Ue bolorentos livros rodeado 
Moro, senhor, n'esta fatal cadeira; 
De quinze invernos a voraz carreira 
Me tem no mesmo posto sempre achado : 

Longo tempo em pedir tenho gastado. 
E gastarei talvez a vida inteira; 
O ponto está em que, quem pôde, queira. 
Que tudo o mais e trabalhar errado. 

Príncipe augusto, seja vossa a gloria: 
Fazei que este infeliz ache ventura; 
Ajuntae mais um facto á vossa historia. 

Mas, se índa aqui me se^ue a desventura. 
Cedo ao meu fado, e vou co'a palmatória 
Cavar n*uni canto da aula a sepultura. 



A SI' A ALTKKA 



Por espalhar cruéis melancolias 
Fui seguindo do Tejo a clara veia; 
Cheguei ao sitio, em que sonoro ondeia 
Nas frescas praias da real Caxias: 

Não vi n'aquelle, como nos mais dias, 
De seges e de tropa a margem cheia; 
Não ouvi resoar na vasta areia 
Do rouco patrão-mór as gritarias : 

As Tágides gentis não levantavam 
Ao lume d'agua as cristallinas tranças; 
Seus hospedes reaes não esperavam : 

Dormia o vento sobre as ondas mansas ; 
Só na deserta "praia revoavam, 
Alio senhor, as minhas esperanças. 



A RIA ALTRZA 



Uual naufrago, senhor, que foi alçado 
Por mão piedosa d'entre as ondas frias, 
Tal eu de antigas duras agonias 
Por vossas reaes mãos fui resgatado. 

Pois vencestes as teimas dó meu fado, 
E já vejo raiar dourados dias, 
Deixae que possa em minhas poesias 
O vosso augusto nome ser cantado. 

Não é digna de vós minha escriptura, 
Nem harmonia, nem estilo a adoça ; 
Mas valha-lhe, senhor, vontade pura. 

Príncipe excelso, consenti que eu possa 
Fazer inda maior minha ventura. 
Contando ao mundo que foi obra vossa, 
i 



— 6 — 



A SUA ALTEZA 



Tornae, lornae, senhor, ao Tejo undoso, 
Vinde honrar-lhe oulra vez a clara encheníe^ 
E deixae que ajoelhe entre a mais gente 
Um protegido humilde e respeitoso. 

Não leva a vossos pés rogo teimoso 
De importuno cançado pretendente; 
Vem beijar-vos a mão humildemente, 
A mão augusta que o fará ditoso. 

Pois foi por vós benignamente ouvido^ 
Não váe fazer em pretençòes estudo, 
Váe só mostrar-vos que é agradecido. 

Ante vós ajoelha humilde e mudo : 
Mostrae-lhe que inda é vosso protegido ; 
Que, se isto lhe íicou, íicou-lhe tudo. 



AOS ANNOS DO PRIICCIPK 



hm quanto em áureos tectos estucados 
Entre imagens de pompa o de alegria 
VêdeSy senhor, n'este plausível dia 
Tantos joelhos qmte vós dobrados, 

Debaixo de oiilros tectos sustentados 
Por vossti real nrão augusta e pia 
Ao céu minha familia hymnos envia 
Com lagrimas de gosto acompanhados: 

Alli lhe |)edc com vontade pura. 
Que junto da doirada vida vossa 
Quebre o tempo vora^ç a fouce dura: 

Tão justo rogo ser ouvido possa, 
E queira prolongar a alta ventura 
Da augusto coração que faz a nossa. 



-7- 



ÁOt AMNOê DO MUXCWÉ 



Foi esle, alio senhor, o santo dia, 
O céu o concedeu, o céu que é justo ; 
Afflicto o povo> posto ein dflr, e em susto 
Com lagrimas ardentes lh'o pedia. 

O fértil Ganges nas entranhas cria 
Offertas para vós, principe augusto, 
E ajoelhado na praia o povo adusto 
Rico thesouro a vossos pés envia. 

Ao reino tecereis dias dourados, 
Sem precisar que os Tastos lusitanos 
Vos contem as acções dos reis passados. 

Ponde os olhos nos vivos soberanos, 
Estudai-lhe as doutrinas e os cuidados, 
£ a pátria acciámará os vossos annos> 



^ A I^RI.IÍCEZA HEAL kí^TRAXnO XO BAMIO 

Nynfas do Tejo já por mim cantadas, 
Xossa augusta princeza está presente; 
Pedi-lhe, que honre a plácida corrente, 
È as aguas licarão mais prateadas. 

Diante de seus pés ajoelhadas 
Em justo acatamento reverente, 
Serenem vossas mãos a clara enchente, 
E as frias aguas corram temperadas. 

Sobre as ondas as frentes levantando, 
Ao tempo que as douradas tranças bellas 
Brandamente lhe fordes enxugando, 

Dizei-lhe, que sustento irmãs donzellas. 
Outras viuvas; e ide-lhe lembrando, 
Que o bero queime fizer é feito a ellas. 



— 8 — 



AO 8ECABTAKIO l>«EgTAI»0, VISGONDfe »B VILLA NOVA l»A CKmtLIKA, 
0KPOII «ASQUEZ l»B rONTK 0B LIMA 

A longa cabelleira branquejando, 
Encostado no braço de um tenente, 
Cercado de infeliz chorosa gente 
Ia passando o velho venerando. ^* 

Geraes respostas para o lado dando : 
€ Sim, senhor; bem me lembra; brevemente; 9 
Na pragiiejada mão omnipotente 
Nunca lidos papeis ia acceitando. 

Mas eu que já esperava altas mudanças, 
Melhor tempo aguardei, e na algibeira 
Metti a petição e as esperanças. 

Chegou, senhor visconde, a viradeira: 
Soltae-me a mim lambem doestas crianças, 
Onde tenho o meu forte da Junqueira. 



AOS A^^OM l»0 MARQIiFZ DK P4)!«TK DK UMA 

Se as insignias da eschola pendurando, 
Honrosas, porém rígidas algemas. 
Fosse em humildes, simplíces poemas, 
O teu nome ás estrellas levantando : 

Se eternas ferias aos rapazes dando, 
Me instruísse em políticos syslemas; 
E esta mão, que atéqui riscava themas, 
Reaes decretos fosse registando : 

Se do alto da Ajuda, onde os destinos 
Me salvassem dos dois Quintilianos, 
Desse o ultimo adeus aos meus meninos ; 

Que favores, senhor, tão soberanos! 
São quasi incríveis; mas por isso dinos 
Uo faustissimo dia dos teus annos. 

1 ) o marquei do Pombal. 



— 9 — 



AO HAKQUBZ l»B A96EJA 



Treze invernos, senhor, tenho contado 
Depois que o fado meu, triste e mesquinho, 
Soore alto assento de lavrado pinho, 
Me faz ser de crianças escutado : 

Metti á força este rebelde gado 
Dos amenos estudos no caminho; 
E alçando um velho, crespo pergaminho. 
Por elle sans doutrinas lhe hei dictado : 

Entre mim, e esta bi-ava gente moça, 
É jà tempo, senhor, de assentar pazes ; 
Porém, sem vós, receio que não possa: 

Interponde palavraâ eflicazes; 
E fazei com que eu dê, por mercê vossa, 
Sueto para sempre aos meus rapazes. 



AO MKSVO MARQUEZ 

Se me vedes, senhor, ao vosso lado, 
Não me julgueis teimoso requerente; 
Sou um calado, manso pretendente, 
E s6 venho fazer-me a vós lembrado: 

Quando ao destro cocheiro for mandado. 
Que os fogosos cavallos apresente, 
Permitti-me que eu vá, entre a mais gente, 
E vos dê n'uma vénia o meu recado: 

Se o trouxerdes, senhor, bem na memoria, 
E puzerdes em mim olhos beninos, 
Fareis acção illustre e meritória; 

E eu, por desfeita aos bárbaros destinos. 
Quebrarei n'este pateo a palmatória. 
Triste insígnia dos mestre» de meninos. 



— 10 — 



AOS AXXOt DO MESMO H«BQL'K7 



Mil virtudes, senFior, pondo de lado, 
E mil louvores, filhos da verdade, 
Por malícia só louvo a imuianidade, 
Que com jarretas tendes praticado : 

Um Rodrigues por \ós aírasalhado 
Em longa, trabalhosa enfermidade; 
O que é do sèilo, e em quem o poz a edade^ ^* 
Co' seu barrete a par de vós sentado: 

Dar franco abrigo aos míseros humanos^ 
Principalmenle aos qne já foiam moços^ 
Fará amor cm coratões hircanos; 

Por isso enfeito estes cançados ossos. 
Por isso venho n*este dia de annos 
Co' sentido nos meus, louvar os vossos. 



AOS Ali\<»S DO MtSMO «I ARQIE/. QUE TI^HA MI.ITA hUlXO DK CAtinF.& 

N'este dia aos louvores consagrado. 
Por matéria, senhor, tenho a' verdade; 
O préstimo, a prudência, a humanidade, 
E as mais virtudes, de que sois ornado: 

Faltava só estilo levantado, 
E de roubar Camões tive vontade; 
Mas de cór o sabeis de tenra edade, 
E co' furto nas mãos logo era achado : 

Dos vossos annos, para nós vividos. 
São na pátria sinceios pregoeiros 
De baixa inveja os coiações despidos; 

Juram-vos isto os versos meus rasteiros; 
Os do vosso Camões são mais polidos, 
Porém estes, senhor, mais verdadeiros. 

1 ) Um criado que tinhi oMeio na eMa do iW<u 



— 11 — 



AO HiSIHO MARQUEZ 



j^ão ponho em vossas mãos a prosa fria 
De longa petição impertinente; . 
Novo género sou de pretendente. 
Que trato de negócios em poesia: 

Não peço n'esta p que nas mais pedia ; 
Não fallo nos rapazes certamente; 
Fallo, senhor, por uma afilicta gente, 
Que em vós somente espera, em vós confia: 

Om desgraçado, que em fatal tormenta 
Ora soçobra, ora resurge acima, 
Seu naufrágio por mim vos representa; 

Quer que eu vos peca, e que vos peça em rima ; 
Lembrou-lhe bem; porque o Camões assenta 
Que só quem sabe a arte, é quem a estima. 



AOS Aai:iQfl DO CO:iDE ttF. VII.Ll VKHDE, DKPOIS MARQUEZ DE AXGEJA 

Em seus braços robustos vos lomaram 
Os destinos, que á terra hoje desciam; 
E dos dias dourados que teciam, 
A fatídica historia começaram: 

Mil brilhantes acções de vós cantaram, 
Que através do futuro ao longe viam; 
E entre as cousas famosas que diziam. 
Este caso, senhor, prognosticaram : 

Por vós será a mais fortuna alçado 
Quem viva treze annos, por castigo, 
A narrações e exórdios condemnado ; 

Elles, senhor, vos chamam meu abrigo; 
E se no mais verdade tem fallado. 
Não flquem mentirosos só commigo. 



— 11- 



mo DIA EM V^E O MEKWO CMMttE CBEliUt' OO ALEMTÉJU 

Largas do Ti^o a' esquerda ribanceira, 
lllustre conde,' e aos ventos te abalanças; 
E eu, deixando em decurias as crianças, 
Sai dois passos fora da trapeira: 

Os olhos alongando pela esteira. 
Que ia abrindo o escaler nas ondas mansas, 
Sentia renascer as esperanças 
De deixar os rapazes e a cadeira. 

Chega a lacaio o sórdido garoto, 
Cuidadoso anspeçada a galões finos, 
E chega o gorumete a ser piloto : 

Ou tarde ou cedo mudam os destinos; 
Só eu, senhor, supponho que íiz voto 
De não passar de mestre de meninos. 



KM:itEVfn«fK> DAK CALDAS O Al «ITOR iO NKVVO COXDK 

As ferradas muletas encostando, 
No banho entrava um velho macilento, 
A quem eu em sisudo comprimento 
Seus males lastimei, quasi chorando: 

A trémula cabeça um pouco alçando, 
Me pergunta o convulso rabugento: 
— Quem és tu, que as^m vás o meu tormento 
Com tristes reflexões acrescentando? 

— Eu sou, lhe digo, um ramo desgraçado 
Da antiga geração dos Tolentinos; 

A dar eschola vivo cohdemnado. 

— Maldize, ó moço louco, os teus destinos ; 
Que^não deve chorar alheio 'fado, 

Quem tem o de ser mestre de meninos. 



13 — 



AOt ANNOt »0 MBtllO CON»B 



Vir beijar-vos a mão^ senhor, não posso 
'Rio louçSo, como o dia me aconselha; 
É de pedra enganosa a cruz vermelha, 
E este pobre vestido é velho, e é grosso : 

Se não trago mais pompa, o crime é vosso ; 
Já podéra, senhor, em sege velha 
Governando a cordões meia parelha, 
Ornar com fita preta o meu pescoço : 

Vestido em ar de corte, festejara 
Da preciosa vida a luz primeira, 
D^aquelle que os meus ferros me quebrara : 

Na véspera accendéra uma fogueira; 
E em honra vossa a minha mão queimara 
Quatro bancos de pinho, e uma cadeií-a. 



rARTIMIMI PABA SALVATEBBA D. DIOCO DE NOKOWHA. 
DKPOIS Cil^DK DF. VILLA-VKRDB 

Em quanto sobre o Tejo prateado 
Te enfuna fresco vento os soltos pannos, 
E vás ser dos amáveis soberanos, 
Com grato acolhimento agasalhado : 

Em quanto corres, de espingarda armado, 
Da fria Salvaterra os canipos planos. 
Eu cá fico entre os-dois Quintilianos, 
Livrinhos a que vivo condemnado. 

Se no meio de imagens de alegria 
Lembrar d'um triste mestre a historia crua. 
Que já co'as taes crianças se agonia ; 

Faze, illustre senhor, por vida tua. 
Que elle possa, com muita cortezia. 
Pela ultima vez polH)s na rua. 



— 11 



Lm quanto, ó bom Noronha, as brancas vdas 
Vás felizmente aos ventos desfraldando, 
Sobre as apenas te vão acompanhando 
Filhas do Tejo as cândidas donzeilas: 

Largando de oiro fino as ricas telas, 
Vão diante da proa o mar cortando; 
No lume d'agua aos ares ondeando 
Sobre os hombros de neve as tranças belias: 

Cos tristes olhos cá de longe as sigo: 
Sem mim, senhor, aos ventos te abalanças? 
Não foi assim em tempo mais antigo; 

Mas em vão foges n'essas ondas mansas. 
Que através d^ellas hão de ir comtigo 
O meu desejo, e as minhas esperanças. 



AO MESMO, í:nLGAXDO DE FORA DO RKi:VO 

Inda me lembra o venturoso dia, 
Em que pisei comvosco estas estradas; 
Hoje as deixei dos olhos meus regadas 
Com pranlo de saudade e de alegria : 

Não só obrigação, mas synipalhia 
Aqui vos trazem estas cans geladas. 
Que a vossa illustre casa fez honradas, 
E d^onde hão de ir â sepultura fria: 

Um ginja achaes, do Pindo desterrado; 
Um banqueiro infeliz, que em jogo grosso 
No mesmo instante liça desbancado : 

Não sou (|uem eia no bom tempo nosso; 
Só não achaes meu coração mudado ; 
É sempre o mesmo, é sempre aberto e vosso. 



13 



Em puro YOto aqui vos dou pintada 
De meus successos a feliz historia ; 
Deixae, illustre conde, que em memoria 
Fique n'estas paredes pendurada : 

Vereis uma cadeira destroncada, 
Despojo honroso de immortal victoria; 
Vereis uma vencida palmatória 
Entre as armas de Angeja debuxada : 

Se os náufragos, senhor, que a praia beijam, 
E escaparam da morte ás mãos mesquinhas, 
Devotas taboas pendurar desejam; , 

Acceitae vós também oflertas minhas; 
Não zombeis do painel ; talvez que estejam 
Com menos causa alguns nas Barraquinhas. (^ 



AOS AIVNUS no MESMO 

Lm quanto me inflammar fogo sagrado 
A solta, voadora phantasia, 
lllustre conde, este brilhante dia 
Sobre áureas cordas ha de ser cantado ; 

Mas jà o velho Tempo atraiçoado 
Com os gelos na mão me segue e espia; 
E em breve o espirito, que no ar se erguia, 
Das louras musas se vera mofado. 

Então jà frio ginja, mas de gala, 
Rebocados os cândidos monetes, 
Farei em prosa uma rançosa falia ; 

E á noite, governando os minuetos, 
Encherei as funcçOes de niestre-sala 
Com óculos, bordão, e joanetes. 

1 ) Cau dt romagem. 



16- 



%AUimO OOMSBLIilUmO BA rAZBSTDA ». MOCO »E NOAOmiA 

Nem sempre em verdes annos a imprudência 
Produz irregular procedímeuto : 
Nem sempre encontra o humano entendimento 
Só perto do sepulchro a sS prudência. 

Em vós n3o esperou a Providencia 
Que longas cans vos dèm merecimento : 
Em vós mostrou que estudos e talento 
Yalem mais do que a larga experiência. 

Os eruditos velhos conselheiros, 
Depois que o vosso voto alli for dotado, 
Serão de vós eternos pregoeiros : 

E dirão que deveis ser escutado 
Onde os ministros vossos companheiros 
Não sejam da fazenda, mas do estado. 



AO riLMO IM) MARQUEZ DK ANGEJA, EB DESCULPA DE ítXO ENTRAR 
no SEU QUARTU QUA>íl»0 TE\ E BEXIGAS 

Bem conheço, senhor, sem que m*o digas, 
Que passa a ser um crime este receio. 
Em quem por ti se deve ir pôr no meio 
Das lanças, e de espadas inimigas: 

Não me lembrar de obrigações antigas, 
Nem por onde a fortuna em íim me veiu, 
É coisa feia; mas ioda é mais feio 
O semblante de um velho com bexigas: 

Das roxas marcas, que no rosto trazes, 
Tua grande bondade me dispense ; 
Ajunta este favor aos mais que fazes : 

E qual fez maior bem, o mundo pense ; 
Se teu pae em livrar-me de rapazes, 
Se tu, do cruel mal que lhes pertence. 



t 



— 17 — 



no MA SM QUB HASCSU B. JOtA BB JfOAONHA 

Formoso infante, ao mundo ha pouco dado, 
Gloria e amor dos Ínclitos parentes; 
lue á sombra illustre de tropheos pendentes, 
o regaço da paz sereis criado ; 

O caminho da gloria achaes trilhado 
Por mil famosos, claros ascendentes; 
Ou na corte, com máximas prudentes, 
Ou na guerra, com sangue aerramado : 

Vossa vida prolonguem os destinos ; 
lereis dos bons Noronhas algum dia - 
Honrosos feitos, de seu sangue dinos : 

Lereis que o braço seu tanto podia, 
Que trocava cadeiías de meninos 
Por bancos da real secretaria. 



NO MA EH QDK O MESMO mi BAPTISAOO MW SKU TIO 
O PBinCIPAL ALMEIDA 

Da alta Sião as torres levaniadas. 
Já, senhor, ante vós vedes patentes; 
Já manam sobre vós santas enchentes 
Do tio illustre |jelasi mãos sagradas: 

Se achaes no mundo máximas erradas, 
Co'as do puro Evangelho incoherentes, 
Ponde os olhos nos Ínclitos parentes, 
E vereis mil virtudes praticadas: 

Segui, senhor, de seus honrados peitos 
Nos politicos dogmas, ou divinos, 
As sans doutrinas e os illustrcs feitos ; 

E quando manejardes Calepinos, 
l)ae-me a honra de ouvir os meus preceitos, 
Se eu for ainda mestre de meninos. 



Aos Asraiot »a nabquua »b arabía 

Senhora, ha muito tempo pretendia 
Ser do vosso favor patrocinado : 
Mil vezes vos quiz dar este recado ; 
Porém sempre o respeito me impedia. 

Chegou em fim o venturoso dia 
A fazer beneíicios destinado : 
Vou ji'este privilegio confiado ; 
Que, a não ser isso, não me atreveria : 

Vou pedir que, descendo da cadeira, 
Onde explico os cruéis Quintilianos, 
Me ensineis a tomar melhor carreira. 

Que em mim ponhaes os olhos soberanos, 
E que me chegue em íim a viradeira ^^ 
No faustissimo dia crestes annos. 



lAZKNDO Al«\Om FORA HA CÕRTl^^ A MABQUP.ZA DE LA\»AI>10 

Se de alheios lacaios emplumados 
Tropel brilhante não abafa a estrada, 
Nem vedes essa mão sacriíicada 
A falsos beijos, por costume dados: 

Vedes em canibio coraçOos honrados, 
E sobre o nosso rosto a alma pintada ; 
Vôdes, senhora, a illustre mão beijada 
Do esposo, e filhos, e fieis criados. 

Este ouro^ que aqui brilha, não tem fezes; 
Pega innocencia^ aos corações humanos 
O campo aberto, os ares montanhezes; 

Aqui não doura a vil lisonja enganos: 
Vinde, senhora, aqui passar cem vezes 
O faustissimo dia doestes annos. 

i) Tem aHado fi primdio «on<*to dn pagina ^. 



-1»- 



A C09»ES8À 90 VODKqiO 



Aos pés da illustre Vimieiro um dia 
Lagrimosas quintilhas recitava, 
£ o digno coração, que as escutava, 
Da causa por que as liz se coudoia: 

Na sisuda attenção com que as ouvia 
Já por bem pago o triste auclor se dava; 
Mas a tanto favor se adiantava, 
Que até a protecção lhe promettia. 

Nobreza, discrição, semblante, agrado, 
São contra a má fortuna tantas lanças. 
Que me supponho quasi despachado; 

Mas se até falham estas esperanças. 
Vou ser já na eschola, desesperado, 
Em vez de mestre, Herodes das crianças. 



PEDIXDO O ArCTOR AO CO!VDE DE I1E/E5CDE VM BEIVePirm 
PARA CM SOBRIWRO 

Se em meio de altas coisas, em que trazes 
Por serviço do throno o teu cuidado ; 
Se de importantes prosas rodeado, 
De humildes versos algum ca^so fazes ; 

Ouve, illustre senhor, singelas phrases 
De um antigo poeta aposentado, 
(lujo assumpto, por teima de seu fado. 
Sempre é pedir que o livi*em de rapazes: 

Foi mão real, e nunca assas louvada. 
Como em meus versos muitas vezes lèslc. 
Quem me livrou da mais rapaziada : 

É digna a tua de livrar-me doeste; 
Peior que todos; carga mais pesada^ 
Davam-me os outros pão, e eu dou-o a este. 



— ÍO — 



BH AcmAseaHBirro ao ■■•■o f3on»K 



Os óculos, senhor, ao ar alçados. 
Os filhos e a consorte compungindo, 
Váe piedoso jarreta construindo - 
Em santo alpendre os votos pendurados : 

AUí mostra grilhões despedaçados, 
Rotos baixeis aos mares resistindo, 
E pallidos doentes resurgindo 
D'entre médicos maus, até pintados : 

São más as tintas ; mas é bom o intento ; 
E pois que o grato coração se esmera 
Em pôr ao benefício um monumento; 

Não te rias do voto que te espera ; 
Em teus altos portaes ao mundo e ao vento 
Vou pendurar um clérigo de cera. 



AOK AX5f4M 1»4I Cd^tllK OK A%i:VTI-;S 



A varonil edade florecente 

Vos tece, illustre heroe, annos dourados 

Para serem á pátria consagrados; 

Pois sois de Almeidas claro descendente. 

Sobre as terras o mares do Oriente 
Inda veio os troplieos alevantados : 
Vejo beber mil corpos abolados 
Do turvo Gang(»s a férvida corrente. 

No diflicil caminho dlionra e glopia 
Por ferro e fogo a seus bons reis servindo, 
Vos deixam por doutrina a sua historia. 

Foram diante o duro passo abrindo: 
Enti-ae, spnhor, no templo da Memoria, 
Os bons avós e o illustre pae se^iindo. 



— il — 



AO Mll!VCirAL CASTBO, PEDIXDO-I.HR A SOLTITR % l»K UB RSTUDAKTE 

rmcto vom -njm»ni.Bi«To, e em allviIo aos AWTBCEiíEiíTEg 

Aquelle de quem tu o sangue trazes, 
Já me livrou de um intimo cuidado ; 
Deu ouvido piedoso ao meu recado, 
O mesmo fez, que tu agora fazes. 

Em mal polidas, mas humildes phrases, 
Um soneto lhe foi apresentado ; 
O papel vinha em lagrimas banhado, 
O assumpto, já se sabe, eram rapazrs. 

Mostrou ao rogo meu ledo semblante; 
E o seu illustre coração clemente 
Honrou e despachou o supplicante. 

Tu es seu íilho; e nâo será decente, 
Que sendo o caso em tudo similhante, 
Só o successo seja dilTerenle. 



£« AURADKCI.lIRliTO AO MESMO 

As pistolas, senhor, deitando fora, 
E d esta vez sem verdeaes ao lado, 
O manso Ferrabraz ajoelhado 
A mão vos beija austera e bemfeilora : 

Contrafazendo cara de quem chora. 
As culpas attribue á inveja e ao fado; 
E por doutas algemas ensinado. 
De ser um sanfo faz tenção por ora. 

Não fico pelo novo penitente: 
Só sei que a mão, que os ferros lhe rompèi^a, 
A mim preso me deixa eternamente; 

E á vossa porta o vulto seu quizera, 
Qual do sobrinho meu, deixar pendente; 
Mas homem tal, quem o fará de cera? 



-11- 



Ao ■«m«uu ME ^KiiALVA, c»E«ABiM> O Afirroit A quiuta das lapas 

Um triste fatigado caminhante 
Chega a vós, iHuslrissimo Penalva: 
Co'a mão na espada a angusta casa salva, 
Segundo as leis do cavalleiro andante. 

Sobre ronceiro fraco rocinanle, 
Que pesca a dente encontradiça malva, 
Por auras rochas, por areia calva 
Cem vezes prompla morte viu diante. 

Cuidando achar aqui melhores íados, 
Aos pés de outro rocim, por novo caso, 
Quasi que viu seus dias acabados. 

Quiz correr junlo a vós sobre o Pégaso: 
Caiu, e por signal colheis iTgados 
Do sangue seu os louros do Parnaso. 



XJk l>bSI>i:DID% DA Qtl^TA DAS I.AP*» 

]N'esla quinta, onde mora a sii verdade, 

A doce paz, a solida alegria, 

K aonde da suavissima poesia 

Vi correr outra vez doirada edade; 

Um triste, que parliu para a cidade. 
Chorando sobre as loiras que escrevia. 
No verde tronco do um cy presto abria 
Este padrão da sua saudade: 

<r Em (juanlo, ó bom marquez, as musas bellas 
Vão porfiando a qual primeiro lomo 
De mirto e loiro para vós expelias ; 

« Este tronco, que o tempo não consome, 
li-á erguendo ás lúcidas ostrollas 
A minha gratidão, e o vosso nome. > 



-23 — 



o rLl.l-$TKK. O «R^RnCM TAUnfTC* 



De míi credores hórridas lembranças 
Em Ifimo da cabeça revoando, 
Irmâs rotos sapatos amostrando, 
E já sem pós as empeçadas tranças ; 

Cruel fortuna, inda te não canças, 
Tantos desejos nieus era flor cortando ! 
E com sceptro de ferro eslás mandando 
Que eu seja mestre eterno de crianças ! 

Ora talvez que brevemente vejas 
Um triumpho escapar-le. ó deusa louca, 
Porque já nâo «ou eu com quem pelejas: 

Conheci nos meus braços força pouca, 
Chamei o grande Almeida, os bons Angejas, 
O Illnstre, o Benéfico Tarouca, 



K LI 17. ri^To iiK Kors%. iivv. moMovM- o DEKP\(:no 

l»E 1 « IBN\(» DO Atr.TOR 

Senhor, d'esto volcâo convencionisla, 
Eu, mais que o trislc irmão, no p'rigo entrava: 
Que tem que ver fusil, que não niatava, ^* 
Co'a setta horvada de uma letra á visla'? 

Do Rosselhão na rápida conquisla. 
Da Magdalena na subida brava, 
Eu d'a(iui mesmo ao lado seu marchava, 
Nomeado por elle cm assentista ; 

Hoje, porém, em que ambos nós curamos, 
Elle o golpe do peito, eu os da caixa, 
E com a espada a bolsa pendurámos, 

Qualquer de nós o alegre rosto abaixa ; 
E essa mâo bemfeitora vos beijámos, 
Elle por despachado, eu por dar baixa. 

1) Tíohaa 
2. 



-Í4- 



A JOSá DB SBAkmA DA SILVA, QUE PKOHOVED O DBSPACHO ME DHA TBfiÇA 
PAEA AS lEMlS DO AVITrOE 

(iOm pardo carmelita vestuário, 
IrniSs que contam já muito janeiro, 
Abrindo-vos lambem um mealheiro, 
Também vos estão dando o p3o diário : 

De registos ao vasto sanctuario, 
Com três lumes acceso o candieiro, 
A tença que lhe destes de dinheiro 
Recompensam com outra de um rosário; 

Co'as vozes suas váe a minha unida ; 
Mas riscavam-me logo de confrade, 
Se a tenção co'as palavras fosse ouvida : 

Peço, senhor, á Eterna Polestade, 
Que ao bemfeitor conceda mais de vida 
Os annos que as devotas tem de edade. 



AO CONSI-J.HKIRO FRANCISCO FKMCI%!VO VKLHO DA CORTA, 
PROCUBADOR FISCAL DAS MERCÊS 

Senhor, um triste alferes reformado. 
Pobre e casado, além de pretendente, 
Seus papeis me apresenta humildemente, 
E quer que vão á Cruz do Taboado : 

Apenas lhe cobria o peito honrado 
Farpada casaquinha transparente: 
Os pobres fazem dó, principalmente 
A quem do mesmo mal anda apalpado; 

Peguei nas certidões, fui combinal-as; 
E depois de arranjal-as e cosel-as. 
Em nome meu lhe prometti mandal-as; 

E pois que são mercês o objecto d'ellas, 
É digno oflício em vós íiscalisal-as, 
£ em mim costume antigo recebel-as. 



-25 — 



Ba LOUVOU »K CAFORALim, CAWTOII DO THBATEO »B •. CAMLOê 

No grão theatro vejo sempre enchentes: 
As cans annosas, os cabellos louros, 
Illustradas nações, bárbaros mouros, 
Todos da lua toz ficam pendentes. 

Que importa que não deixem descendentes 
Teus ex-viris deshabitados couros; 
Que importa que tu roubes aos vindouros, 
Se enriqueces, se encantas os presentes? 

Não é ti-aição^ao sexo feminino; 
É só razão quem te elogia e preza, 
Cómico mestre, musico divino. 

On naçãa de harmonia e de crueza! 
O leu ferro nem sempre é assassino: 
Não insultou, honrou a natureza. 



A ISABKL XAVIER CLBASB, N%TA!fDO O MARIDO GOH UM 

Uue novo invento é este de impiedade. 
Que extirpar gente^vem pela trazeira, 
E para aproveitar-se da cegueira 
Fez pelo olho do., a atrocidade! 

Se a mulher por seu gosto fosse frade 
De S. João de Deus, parca enfermeira. 
Com esta vocação de cristeleira, 
Mataria os irmãos por caridade : 

Mulher, que concebeste tal na bola, 
E para abbreviar do homem os dias 
Mellesle o bem fazer em carambola. 

Se tens desejo doestas obras pias, 
Yàe fozer aos nerejes esta esmola. 
Serás a extirpação das heresias. 



•I 



Meu padre guardião, que exemplarniente 
Regeis essa capucha sociedade, 
Que munida do véu da santidade 
Passa como não passa a uiais da gente: 

Vós que à forca de braço otBiiipotenle 
Fazeis tiemer do inferno a potestade, 
E aos exorcismos só de um vosso fi-ade 
Se explica o demo em porluguez corrente: 

Logo que d*essa estola o forte escudo 
Buscar esbelta nynfa, que atacada 
Seja d*algum demónio surdo ou mudo, 

Mandae dos iMárques conte a trapalhada: 
Pois só elle, que foi o que urdiu tudo, 
Sabe quem commetlcu a velhacada. 



A LM LF.IOO ABRAfelIlU % liSGO I»I:KFKI>I0<» D% «KilA DK S. i'., P. SILVA, 
PUll TU.1IA» A «KLIIOR PKBA UA MKS V 

O vesgo monslro que co^a gente ralha 
K de nmnhã a (odos atravessa, 
A cuja hirsula sórdida cabeça 
Nunca chegou juízo, nem na\alha; 

Que os gazeos olhos pela ntesa espalha 
Por ver se ha mais comer que tire, ou peça, 
Entrando n'elle com lai fome e pressa 
Qual famrnio Irisâo em branda palha; 

Por criir.es d(» alta gula e pouco siso. 
De mesa bem servida, mas seveia, 
Foi n'um dia lunradt» do improviso. 

Hoje chorando o síu perdão esj)era: 
Perderam dois gIo(r>es o paraiso, 
O anligo [)or maçíi, este por pêra. 

1 ) Os Mirques compraram em IJsboa uiiui cas4S « cerlu homrm da m«tlua por preço 



exorliitauU : teila t e>criptura, • paSMdo o «liiibrtro «m carluxu», «uilvii t 
ditendo que indo em casa a contar os cartuxob, acl.ira cobre e iiâo oiro. Qaem fiompn por 
preço tal. parece que dAo Ui tenção át ^gar : l^tum vende for preço i«l» parece ler 4Mia- 
siada cubica. To<lo* esUtam em boa reputação. 




Por crimes de alta gula e pouco siso, 
De mesa bem senrida, mas severa. 
Foi n'am dia lançado de improviso. 



26 



■VI- 



A lia CAUxuiftEiao quk, roa leves cxvmks ha futoba noiva, 
QUinioi; o BifXEE^Ko, m Ajotveo omn» CAtAMEvro 

Nupcial enxergão em chammas arda 
Em pena do trahido amor primeiro ; 
Que este honrado, infeliz cabelleireíro, 
Pelas manhas da besta pune a albarda ; 

Poz logo aos pés de mais formosa Anarda 
Seu vago coração aventureiro ; 
Comprou novo enxergão por mais dinheiro, 
Que amor consei ve em sua santa guarda : 

Ouviram-se terníssimas promessas, 
A que elle respondeu : « Por vida tua. 
Dos protestos que fazes, não te esqueças. > 

Mas praza ao ceo, que em quanto elle na rua 
Enfeita á moda marlyres cabeças. 
Não lhe façam em casa o mesmo á sua. 



A UM SUJEITO QUE PkLA PRiSIbIRA VtZ SK TUM)UEOU 
l*AR\ PÔR CABkLLEIRA 

Desaffronla esses cascos cabelludos, 
E o sol os veja pela vez primeira; 
Saiba lambem essa vestal caveira, 
Qte ha nortes frios, e a(iuilOes agudos: 

Chovam-le aos pés os crespos gadelhudos, 
Que te abafam a pallida viseira; 
E rolem sobre as praias da Junqueira 
Ao som do vento os sórdidos canudos: 

Tesouras, com o gume de cutellos, 
Aliadas em ásperos rebolos, 
Deixem-te os cascos limpos de novellos; 

Porém de todo poderás compol-os. 
Se assim como lhe pões outros cabellos, 
Poderás encaixar-lhe outros miolos. 



— 18 — 



A HULHEm QVA AV«»ITUU O HABIfeO 



Mulher (lo capellisla, acaba a empreza, 
Que o inundo sem razão chamou tyranna; 
Vàe açoitando esse infeliz banana, * 
Nódoa (lo sexo, horror da natureza: 

A vil rapaziada portugueza 
Com falsa .cantilena o povo engana; ^* 
Nem coifas inventaste á castelhana, 
^em as vastas fivelas á malteza; 

De mais alta invenção ô bem te prezes; 
Legislando melhor que Tilo, ou Numa, 
Emendaste uma lei dos porluguezes : 

Não padece isto duvida nenhuma; 
A lei açoita a quem casar duas vezes; 
Tu mostras que comtigo basta uma. 



\ i m \Ki.ii\ pRisf miit 



Debalde s()l)i(» a face (Micaiíiuilhada 
Pendendo louros bugres enipreslados, 
Dás inda ao louco amor teus vãos cuidados, 
Em carmins enganosos confiada. 

Postiça formosura em vão comprada. 
Não torna atraz os annos apressados: 
Nem alvos dentes de marfim talhados. 
Tornam em nova a Ireníula queixada. 

De ti no mesmo tenq)o que do (jauia 
Cantou mil bens a deusa trombeleira, 
A que os baixos poetas chamam Fauia: 

Porém sempre licaste em boa esteira; 
Porque, se já não prestas para dama, 
Inda serves mui bem como tt»rceira. 

1 > Foi obJKto dt CAotigu d«a rapatt». 



— Í9 — 



Á IHAVfiiniAÇÃO »A BSTATUA BQliBSTBE »B KL-aU ». J(MÉ I 

Em quanto o reino cheio de ternura 
Ao grande bemfeitor te ha consagrado, 
E respeita aos teus pés ajoelhado 
O rei augusto de quem és figura : 

Em quanto os que me vencem em ventura 
Abrindo o antigo cofre chapeado, 
Mandam de prata e d'oíro recamado 
Entretecer a rica vestidura: 

Eu que não tenho doesta louçania, 
De outra sem pejo sairei composto, 
Que não cede à mais fina pem*aria. 

São terníssimas lagrimas de gosto: 
Nem infama o triumpho d'este dia 
Quem põe por gala o coração no rosto. 



AO NEZ DE J«:VF.WO 

lyranno mez, não te bastavam frios, 
Nem vis catarros, de que vens armado? 
Queres também que marchem a teu lado 
C'os mandados nas mãos os senhorios? 

Em podre Ihrono de caixões vasios. 
Na praça do deposito assentado. 
Gostas de ouvir porteiro esganiçado, 
Mettendo a trote os alugueis tardios? 

Embora seja assim; malsins ingratos 
Combovem pela suja Cotovia 
Os pennoraaos domingueiros fatos; 

Mas não juntes o escarneo à tyrannia; 
Não mandes que entre tantos desacatos 
Te chamemos o mez da cortezia. 



— 30- 



4 laraRTimuiciA •«• attuM ml viu.a viçntA 

Que importa, ó torre, que dds ceos beninofl 
Chegue o dia a partirmos destinado, 
Se um milhão de cabeças tem quebrado 
O ingrato som de teus teimosos sinos? 

Entre os males que os bárbaros destinos 
Para os nossos ouvidos tem creado, 
Peior que ir-vos ouvir, só tenho achado 
Ir ouvir as lições dos meus meninos: 

Não posso fazer mal senão. oo'a penna ; 
Se podesse, apontara um tiro rudo, 
£ tizera o que fez o Cari acena: (' 

Sinos cruéis, vós fazeis raiva em tudo, 
Dobrando, repicando; e em íim é pena 
Que não toqueis lambem a entrar no estudo. 



PI^T«!«DO L.1l\ BtLUA l>K DOIS BEBCUUS 

De descalços miqleles rodeado, 
Por escuro armazém da Boa-visla, 
Vinha saindo um trómnio chupista, 
Em rota capa ás canhas embuçado; 

Outro (|ue lai o traz desafiado. 
Cachimbo no chapeo, calçíio de lista; 
E fóia o caso, porque o tal copista 
Pagou primeiro, sendo convidado; 

Ambos errando uma infeliz punhada, 
Comsigo em terra os vis athlelas deram 
Ao som de ver^íonhosa surriada; 

Famosos socos enlre os dois se esperam; 
Mas a gente ao redor ficou lojíiada, 
Porque em vez de brigar adormeceram. 

1) Cfnrral gaslHliano. qii*» com um* bala qii«>bri u um sino rm VilU Vl(Ofa. 



"''''■'i;;:;i.;l;::'il"^ 



:i:.ii'' 




Ambos errando uma inffiiz luinhadn, 
Comsigo em terra os vis atlitetns deram 
Ao som de vergonhosa surriada. 



30 



— 51 



AOS AnnOB BR ou JVtZ 1>0 CmiMC, EM DIA QCB TIHHA AC0H#A1IHA»0 
Oa ^ASCCBNTft 

Ergueu ao6 M» ale^^re gritaria 
Do escuro tronco o aladroado bftndo; 
£ nas rotas abobadas voando 
Teu claro nome resoar se ouvia: 

Altanado marujo em pé ^ erguia, 
E a suja bolsa com ehibanç« alçando 
€ Haja vinho e cotner, vamos cbuptndo, 
Acceite Baccho est« sagrado dia ; 

c Aos bellos annos, diz, do illustre Ramos 
Cem vezes dêmos empinada taça. 
Porque por íim com elle nos achámos : 

cOs antigos grilhões nos despedaça; 
D'aquí nos vem tirar; com elle vam^ 
Dar gosto ao povo no Cardai da Graça. » 



A VMS AN5IOS 

Lm tafui, oue passou ao vosso lado 
No férvido Estoril um quente dia, 
De cuja bolsa já cotão saíar 
Que assim o quiz o séve endiabrado; 

Hoje a lyra na mão, o rosto alçado. 
Largando 6 copo, para os ceos dizia: 
cCem vezes lâies, ó ditoso dia, 
Que deste ao mundo este taful honrado: 

cNão lhe peço que imite os seus maiores; 
Bem nro encommenda o sangue, inda que mudo, 
Dos antigos, leaes progenitores: 

«Só lhe peço que faça ao séve estudo, 
E deixe sem real estes senhores 
Com o copo na mão topando tudo. 9 



— 32 — 



AOS ANHOS »e VU\ FOftllOtA DAMA 



Deíxae, pastores, na montanha os gados, 
Vinde ao sitio melhor d'esta campina 
Beijar a mão à bella, e peregrina 
Deidade tutelar dos nossos prados: 

Vinde oíTertar-Ihe aos annos celebrados 
O cravo, a rosa, a angélica, a bonina; 
£ ao mais suave som da flauta fina 
Decantar seus illustres predicados. 

Mas já a cercam pastores e pastoras; 
Uma lhe beija a mão, outra o vipstido; 
Elles a coroam de vistosas flores, 

E em doces vozes todo o rancho unido 
Canta que ella é a deusa dos amores; 
Pois tem no rosto as settas de Cupido. 



A IMS AM-WOS 

íoi este o (lia (mu que a teus pés baixaram 
Vénus, e as lindas graças innocentes, 
E em torno do áureo borco nwerenles 
Ao som de alegres hymnos te embalaram. 

Aos teus olhos gentis (ommunícaram 
Cruel poder de conquistar as gentes: 
Mil suspiros, mil lagrimas ardentes 
A muitos corações prognosticaram. 

Deram-te uma alma hei oiça, um nobre peito: 
Deram-te discrição e fornmsura, 
Dons a que o mundo está mui pouco afeito. 

Mas, oh humana sorte, triste, escura! 
Para na terra nada haver perfeito, 
Deram-te um coraçáo de pedra dura. 



— 33 — 



DBIGftrrÇlO ]»E BADAJOI 



Passei o rio, que tornou ali*az, 
Se acaso é certo o aue Camões nos diz, 
Em cuja ponte um Dando de aguazís 
Registram tudo quanto a gente traz. 

Segue-se um largo, era frente d'elle jaz 
Longa Oleira de baiucas vis: 
Cigarro acceso, fumo no nariz, 
É como a companhia alli se faz. 

A cidade por dentro é fraca rez. 
As moças põem mantilhas, e andam sós, 
Tem boa cara ; mas não tem bons pés. 

Isto, coifas de prata, e de retroz, 
E a cada canto um sórdido marquez. 
Foi tudo quanto vi em Badajoz. , 



NO DIA EM QUE CâKttOl A ?VAU DOS QOIMTOS 

Se a larga popa Irazes alastrada 
Cos prenhes cofres de metal luzente, 
Que importa, ó alta nau, se juntamente 
Vens de pranto, e penhoras carregada? 

Para ver tanta cara envergonhada, 
E pôr no Limoeiro tanta gente. 
Para isto sulcaste a gran corrente 
Dos ventos, e das ondas respeitada? 

Se alegras uma parte da cidade. 
Ergues na outra um sórdido porteiro, 
Vendendo trastes velhos por metade: 

Traz bens e males teu fatal dinheiro: 
Uma alta paz aos homens de verdade. 
Um estupor a rada caloteiro. 



-íl- 



fmjk rp.rrA m» aibaval 



Ao nume excelso, nume saerosanlo, 
Attenta devoção loB\'ar queria; 
De Orfeos mimoso» doce companhia 
Principio dá ao sacrifício santo. 

Fendendo os aros com geral espanto 
Rijo foguete as bombas espargia ; 
Caterva jovial então nutria 
Longe dos males que lhe dilo quebranto. 

Bronco saloio já no largo dança ; 
Toca-se a gaita, fervem os tambores; 
Vaga no an-aial chança e mais chança. 

Esta foi toda a festa, meus senhores; 
Louvada seja a )>olsa que nâo cança. 
Louvada seja a Mâe dos peccadores. 



DEs«;Rii>r\n dk m peralta awaltezado (\ 

Um vulto cuja fórnui desconsola 
Pelo muito que mostra o pouco siso, 
E que pela pobreza do juizo 
Mil trastes esquisitos desenrola: 

Chapéu que bem carrega um mariola, 
E que ainda aos sisudos causa riso, 
Casaquinha cortada de improviso, 
Fivela que lhe vem de sola a sola: 

Espantalho que em praça nunca falta 
Sem ter occupaçáo, nem má, nem boa, 
Que apenas moça v6 logo lhe salta: 

Eis-aqui, sem medir qualquer pessoa. 
Breve quadro de um misero peralta, 
Que affecta de maltez cá em Lisboa. 

i) Duvidoso. 




Qiio sego. senhor 'ondt^f iii Hz um vo'c) 
De nnflar antes |»or mar, o mar co<v. i!)oirn< 
È lri5ie habilaç.io «los máns apoiros, 
É um resto infeliz lio ferromoio. 



35 



— as- 



A miA SBCB »B Auwuai 



Que sege, senhor conde? ch tiz um voto 
De andar antes por mar, e mar com moiros; 
É triste habitação dos maus agoiros, 
Ê um resto infeliz do terremoto: 

De astuta palmatória e bico ignoto, 
Em ySo fura do macho os surdos coiros; 
Em vão fulmina rígidos estoiros 
Do bêbedo arreei ro o braço roto; 

, A parda caixa é documento antigo; 
É prova de que os annos gastadores 
De cada ponto fazem um postigo ; 

É sege lai, que em nada poupa dores; 
Por mais que a feche, lá vão ter commigo 
As injurias do tempo, e as dos credores. 



A08 iiAcnos missos 

Dos russos niachos na caída orelha 
De três lustros a marca anda estampada; 
Entre as eãimbras, um palmo pendurada 
Babando rega a terra a língua velha; 

Troquei por andaluz senil parelha, 
De alegre cara e corpulenta ossada; 
Os pés sem ferro, a cauda tosqueada, 
E o vasto bojo cheio de guedelha; 

São machos taes, que natural fereza 
Do iMfjoia á fatal cavallariça 
Us levará co'a sege a arrastos presa ; 

Mas já que em dar-lhe a torna houve preguiça, 
Se forem ler-lhe a casa por braveza, 
Poupo a vergonha de irem por justiça. 



— 36 — 



AOS LEQUES MUI PCQUEHOS CH4MAIH>S IIAKVtlXUOS ( 1 

Fofo colchão, as plumas bem erguidas, 
£ sobre os hombros nas jucundas frentes 
De enrolado cabelio anueis pendentes, 
Longos chorões, bellezas estendidas, 

Era esta das matronas presumidas 
A moda, aue traziam bem contentes; 
Riam-se d eilas as modestas gentes 
Vendo pequenas poupas esquecidas. 

N'isto a gentil madama aperaltada. 
Grande auctora de trastes exauisitos, 
Nova moda lhe inventa abandalhada. 

Reprova-lhe áureos leques com mil ditos. 
Eis senão quando (oh moda endiabrada !) 
Abanahi-se com azas de mosquitos. 



ULFINIV^O DE CHA^TAIVA 

liOmprada em asqueroso matadoiro 
Sanguinosa forçura, quente, e inteií-a, 
E cortada por gorda taverneira. 
Cujo cachaço adorna um cordão d'oiro; 

Cabeças do alho com vinagre e loiro, 
£ alguns carvões, que saltam da fogueira. 
Fervendo tudo em vasta frigideira, 
C*os indigestos ligados de touro; 

Suavíssimo cheiro, o qual augura 
Grato manjar, mas que por causa justa 
Dá um sabor, que nem o demo o atura; 

Isto é chanfana, e sei quanto ella custa; 
Deu-me ô berço, dar-me-hia a sepultura, 
A não valer-me a vossa mão augusta. 



— 37 — 



ÁS COimA»AllÇA8 BH DIAS DB FKOCISSÕES »B QUABBSMA 

Ainda os vagos ares atroava 
De velhas regateíras sujo bando, 
Que a cruz sétima vez acompanhando, 
A incerta salvação assegurava 

O devoto taful se alevantava, 
Escolhida parceira convidando; 
Eu vi um, que inda os olhos alimpando, 
À caixa da rabeca a mão lançava; 

Retine a contradança nos ouvidos; 
Destramente se trocam pés e braços, 
De que todos lícámos compungidos: 

Que este era o lim da procissão dos passos, 
Cuidávamos; mas fomos advertidos, 
Que inda faltava o jogo dos abraços. 



NETTAL\l»0 A RiniCl LO LHAS 4.05irRAnA^VA' 

n^uma trémula sala mal armada 
Com placas velhas e papel pintado, 
Clamava jà o povo alvoroçado 
Que fosse a Favorita começada. 

Guincha em venal rabeca desgrudada 
De velho musico o arco estuporado: 
Cadeia, grita um muito suado. 
Olhem que váe a contradança errada. 

Nervoso chispo, saborosas frutas 
É fazenda que alli nunca governa: 
Aquellas bocas andam sempre enxutas. 

Nunca mais alli torno a fazer perna: 
Quanto mais vai o ir com uuatro trutas 
Fazer uma funcâo n'uma taoerna. 



-38 — 



A MODA DOS CIlArKUS MAIORES DB ItAftCA 

Amigo e senhor meu, de França ou Malta 
Um chapéu mande vir a Ioda a pressa; 
A copa aue me ajuste na cabeça ; 
Mas as aoas na forma a mais peralta. 

A de traz aue me fíque muito alta, 
A presilha e ootão pequena peça: 
Estimarei que disto não se esqueça ; 
Que a demora me faz bastante falta. 

Gostei muito do invento, é bem traçado. 
Porque vi no Loreto um certo dia 
Muito povo a correr para o Chiado, 

Para ver um senhor, quem tal diria! 
Cum chapéu de tal forma desmarcado 
Que nem a gente a pó passar podia. 



AOS TOUCADOS ALTOS ( t 

Foi ao Manique um homem accusado 
Por contrabandos ter; elle sciente 
Chama a quadrilha, corre diligente, 
Entra, busca, e não acha o malsinado. 

Acha a mulher, que tinha por toucado 
A torre de Belém: ella que o sente. 
Banhada em pranto, desmaiada a frente, 
Prostra por terra o corpo delicado. 

Co boléo se esbandalha a mata espessa. 
Saem d'ella esguiOes, cassas lavradas, 
E de belbule trinta e uma peça. 

Fivelas, espadins, rendas bordadas: 
Até tinha escondido na cabeça 
O marido, e três arc^s encoiradas. 

1) DuTidoto. 




Arremelte-lhe á cara e ao penteado ; 
Eis senào qnanao fcaso nunca visto 1) 
Sáe-lhe o colchão ae dontro do toucado. 



39 



— 39 — 



U COLCa\U DERTmU DO TOUCADO 



Chaves na mão, melena desgrenhada, 
Batendo o pé na casa, a mãe ordena, 
Que o furtado colchão, fofo, e de penna, 
A filha o ponha alli, ou a criada: 

A filha, moça esbelta, e aparaltada. 
Lhe diz co'a doce voz, que o ar serena : 
cSumiu-se-lhe um colchão, é forte pena; 
Olhe não fique a casa arruinada:» 

cTu respondes assim? tu zombas d'isto? 
Tu cuidas que por ler pae embarcado. 
Já a mãe não tem mãos?> E dizendo isto, 

Arremette-lhe á cara e ao penteado ; 
Eis senão quando (caso nunca visto!) 
Sàe-lhe o colchão de dentro do toucado. 



NA OCCAttiJIO DA LOTEDIA IR4»LEZA 

Louro rapaz em alto levantado, 
Com o ar da nação, franco e singelo, 
Ao duro golpe de fatal niartello, 
Alçava o braço meio arregaçado : 

Na movei urna, onde habitava o fado, 
Mettendo a mão até ao cotovelo, 
Mostrava ao povo tímido e amarello. 
Em negro fio um papellinho atado. 

Alguns grosso thesouro em si continham; 
Mas as sortes que d'antes se faziam, 
Para os pobres tafues de molde vinham: 

Salvas, chouriços, sempre ao ar pendiam; 
Real cada papel; de mau só tinham 
Que os prémios, (|ue eram grandes, nâo saiam. 

8 . 



40- 



AO JOGO OO tSQVE 



Qualquer tafui, que nas partidas roda, < 
Logo na mesa do isque se intromette; . 
Ao jogo da tristeza se submette, 
Escravo vil da variável moda: 

Quando em guerras ardesse a Europa toda, 
E suasse aos ministros o topete, 
Nenhum no aferrolhado gabinete 
Andara tanto co'a cabeça á roda. 

Deve o jogo causar divertimento; 
Mas o tal isquezinho endiabrado 
Mette as sérias cabeças a tormento : 

Eu nunca o jogo; só me traz tentado 
Bisca coberta, truque fraudulento. 
Que são os jogos com que fui criado. 



AO J0€0 DO TRraTA-B-liM 

Por ti, senhora illustre, ouvido e honrado, 
Do trinta-e-um á mesa me assentava, 
E nos campos do jogo a medo entrava 
D^outra batalha ainda ensanguentado; 

Mostrou respeito o meu teimoso fado 
A quem commigo às vezes conversava; 
£ sobre outros tafues descarregava 
Os golpes que me tinha preparado: 

Já diante de mim o erário via; 
Mas era noite de tão bom agoiro, 
Que este era o menor bem que eu recebia. 

Sim me dava a fortuna prata, e oiro; 
Mas nos ditos discretos que te ouvia, 
Ne deram as Ires graças um thesoiro. 



41 — 



AO J0€0 DA »A!«€A 



De infaustos parolins nunca vencidos, 
Mil vezes levantei jogo brilhante; 
Perdia-os todos, e no mesmo instante 
Iam ao chão, sem ninguém ver, mordidos. 

Alvejando entre os lúgubres vestidos 
A Dvnfò tutelar se poz diante; 
Na doce voz, no angélico semblante. 
Vi logo os circunstantes embebidos: 

Indo lavrando o rígido banqueiro 
De marcas numerosa quantidade. 
Ouvi, que me dizia um companheiro: 

cNão choremos a nossa adversidade; 
Poraue aonde perdemos o dinheiro, 
Peraerà muita gente a liberdade. » 



O coração com ferro temperado 
Tinha o duro inventor da banca injusta; 
Jogo fatal, que tantas penas custa, 
E que tem fartas bolsas despejado: 

Quantas vezes eu tive ao ar alçado 
Vistoso parolim, que a banca assusta! 
Quantas vezes o vi, á minha custa, 
Co'as doces esperanças derribado! 

Já lá ha de ter dado conta estreita 
Quem inventou a triste corriola, 
Que a cega mocidade a perder deita; 

Porque ainda que ás vezes nos consola, 
Em malhando meia hora na direita, 
Deixa o maior taful pedindo esmola. 



_íi_ 



A DOIS %'ELH08 J«K»A1IIHI O GAHIC» 



£m escura botica encantoados, 
Ao som de grossa chuva que caia, 
Passavam de janeiro um triste dia 
Dois ginjas no gamão encarniçados: 

Corra, visinho, corra-me esses dados, 
Gritava ura d^elles, que nem bóia via: 
De sangue frio o outro lhe dizia 
Mil anexins n'aquelle jogo usados : 

Dez vezes falha o misero antiquário; 
E ardendo em fúria o tremulo velhinho, 
Atira c'uma tabola ao contrario: 

O mal seguro golpe erra o. caminho; 
Quebra a melhor garrafa ao boticário, 
Que foi só quem perdeu no tal joguinho. 



A rW TAFITL QUB PROTEJITOII !«Xo APOVTAR A BÁSICA 

Que tornas a apontar, prometto e atlesto; 
Que eu, pássaro bisnau, íino garoto. 
Depois de já ter feito o mesmo voto, 
Jogo o que trago, e jogarei de resto : 

Seguimos os tafues o mesmo aresto, 
Que segue nas tormentas o piloto; 
Um parolim desfeito, um mastro roto 
Tem produzido muito vão protesto: 

Ainda dos ardidos jogadores 
Vão as pragas subindo sobre o vento, 
Já tornam para o jogo os taes senhores: 

É caso em que não liga o juramento; 
Qual parida, que grita com as dores, 
E sáe prenhe no lím do regimento. 



— 43 



somas PftOTESTOS DE %\0 APONTAB Á BANCA 

Babando sobre sórdida tigela 
Subtil mercúrio em pilulas tomado, 
Jura o dorido^ palliuo soldado, 
Nunca mais ver a cara à tal donzella; 

Mas como fados zombam de cautela, 
Com bom capote, á choupa conquistado, 
Sobre duas muletas encostado. 
Se poz a assobiar á porta d'ella; 

Tal, ajoelhado ao vencedor banqueiro. 
Com mil votos formaes, mas sem virtude, 
Jurou a paz este infeliz parceiro ; 

Chegam as horas, resistir não pude; 
E da porta a aue fui, vim de dinneiro, 
Como o soldado veiu de saúde. 



kxteeg;i:«do o poivto A deusa da fortuna 

Ímpia deusa, um taful desesperado. 
Profanando estes hórridos logares, 
O ponto queima sobre os teus altares. 
Dom funesto, que tu lhe tinhas dado: 

Recebe em vil triumpho este az rasgado, 
Que aqui penduro ao rouco som dos ares; 
E vem, por ser mais digno de o aceitares, 
Em lagrimas de sangue inda banhado: 

Jà puz nas tuas mãos grossos tostões; 
Mas se em paga me dás cançados dias, 
Mais não quero provar-te as sem-razões; 

Que aos que apontam, por flm, tu sempre envias, 
Qu com faca na mão pai-a os Pegões, 
Ou com tigela para as portarias. 



— ii — 



A ARTC DE RHKTOftlCA 



Arte infeliz, rhetoríca chamada, 
Ensino as tuas leis, mas nSo as creiu 
Ou nunca ergueste fogo em peito alheio, 
Ou tu já hoje estás degenerada: 

Da conjunção dos tempos ajudada, 
Teu v5o poder só dos acasos veiu ; 
Na demanda fatal que em ti pleiteio, 
Cicero mesmo nSo vencera nada. 

Quero suppor que a minha causa toma; 
Veria então que a força dos destinos 
Com força de palavras não se doma ; 

£ a lingua, que abrandou peitos ferinos. 
Que os povos attrahiu, que salvou Roma, 
Me deixaria mestre de meninos. 



FOUCO PROGRESSO DOS DISCÍPULOS 

Em rolos pergaminhos encostado, 
Sobre nua cadeira ao alio erguida. 
Vou consumindo a miserável vida. 
De bizonhos rapazes escutado: 

Da antiga Roma o século doirado 
Anda sempre entre nós em crua lida; 
De Cicero a facúndia conhecida. 
Do puro Horácio o gosto delicado: 

Mas d'estes homens mil passagens bellas. 
Que na cabeça á viva voz lhe encaixo, 
Vão>lhe lá hoje perguntar por ellas? 

Só para consolar-me, n^elles acho 
Os mais bonitos moldes de fivelas, 
E de sapatos com entrada abaixo. 



— 45 



MO ULTIMO MA »e FBftlAS 



Pregou O eloquentíssimo Macedo 
Em casta lingiiagem portugueza; 
Veiu a fortuna ao lado da riqueza 
Doirar-me a banca, que eu armei a medo; 

Com modo affavel, com semblante ledo 
Dava alma a tudo a senhoril marqueza; 
Assemblea por fim de tal grandeza, 
Que acabando alta noite, acabou cedo: 

Sentiu ferver meu cavernoso peito 
Escumante licor, manjares finos, 
Funcção a que nio anda muito afleito : 

No meio d'isto os meus cruéis destinos 
Me lembram (por não ter gosto perfeito) 
Que era o outro dia dia de meninos. 



LKVAXTANDO-tB O AUCTOft »A MLftA DB UM GRAIf »R, 
PO» SEKEM HORAS DK IR PARA A AULA 

Não tomando em desprezo o escuro estado 
Em que me poz fortuna e natureza. 
Olhastes sem horror minha baixeza, 
E fizestes sentar-me ao vosso lado. 

Então de ingrata obrigação chamado 
Deixei á força a companhia e a mesa, 
E indo cheio de idéas de grandeza 
Vim dar por thema um verbo conjugado. 

Não sei com dois oppostos conformar-me; 
Soffrem-me os grandes, sou taful e moço. 
Não sei a senhor mestre costuraar-me. 

Taes extremos, senhor, unir não posso: 
De dois génios não sou : mandae fecnar-me 
Ou a minha aula, ou o palácio vosso. 



— 4f) 



Ás FIVELAS CHAJIAPAS A 1^ CBAftTftE 



Oh quantos mexicanos patacões, 
Mareados talheres jà sem par, 
À tonta avó o neto váe furtar 
De mofendos decrépitos caixões : 

Fundidos em quadrados fivelões 
Para à Chartres o neto passear, 
Ti*az nos pés a baixeiia singular 
Que podia servir em correões. 

Capitão Yento-sul, rico hollandez, 
Que de prata subtil pequenos ós 
Servem só de fivelas nos teus pés, 

Vem admii*ar-te, vendo que entre nós 
Ti-az o pobre pei*alla porluguez 
Por fivelas molduras de tremós. 



As PIVRLAS GEAXDES 

£m curto josézinho rebuçado 
Louro peralta a rua passeava; 
Seus votos pela adula lhe aceitava 
Com bi-ando riso um rosto delicado : 

O pae da moça, que era ginja honrado, 
£ o caso havia dias espreitava, 
De membrudo caixeiro se escoltava 
Com bengala na mão, chambre traçado : 

Fugira o moço, qual ligeira péla, 
Se as fivelas dê maiva agigantada 
Deixassem navegar a náo á vela; 

Mas viu uma eqtre esquinas encalhada; 
£ se ninguém comprou maior fivela, 
Também ninguém levou maior massada. 




o pae da moca, que era ginja honrado. 
E o caso havia dias es^preitava, 
l)e membrado caixeiro se escollava, 
Com bengala na mão, chambre Iravatlo. 



4c 



— 47 — 



A UMAS SEIOeS TKIMOSAS 



Não posso mais, cruéis sezões maliDas, 
Tratar- vos bem como vos hei tratado; 
Jà misero cotão sáe despegado 
Das rotas algibeiras cristallinas; 

Buscae agora a quem chegar das minas, 
Ou quem entronque em linha de morgado; 
Que algum vintém que eu tinha, está fumado 
Em aguas de Inglaterra, purgas, quinas; 

Mudae sitio, que eu mudo de costume; 
Já não revoam n'esfè promontório 
Rolas de peso, frangas de chorume; 

Torna a surgir no simples refeitório 
O fiel bacalhau, o vil legume, 
Que é o que d'antes dava o reportório. 



CONVALESCENDO O AUCTOR DE UNAS SEZÕES, N^O TENDO AINDA 
U ORDENADO POB INTBIBO 

A côr perdida, o gesto demudado, 
Sobre um pobre sobrinho posto o braço. 
Vou ensaiando o mal seguro passo 
Pelas nuas paredes encostado. 

De cem papeis de quina rodeado, 
A amarga dose em fresco rim amasso; 
Ao cheiro horrivel feias caras faço, 
Tendo na mão o fatal copo alçado: 

Seguindo do bom Cunha os documentos. 
Vim fazer n'esles campos exercício, ' 
Lavados sempre de sadios ventos ; 

Aqui mil votos faço ao ceo propicio, 
Que me mude algum dia es crescimentos, 
£ me passem dos pulsos para o officio. 



— 48 — 



B«T.%!IDO MAS CALDAS 



Por mais que vos alongue olhos cançados, 
Olhos ha tanto tempo descontentes, 
Não vedes mais que pallidos doentes 
Por mãos estranhas n'agua sustentados. 

. Quantas vezes ficastes magoados 

Por ver ir entre as férvidas correntes 

Envolvidas mil lagrimas ardentes 

Do que em vão quer alçar braços mirrados! 

Vistas são estas de bem pouco gosto: 
Porém bem pagos ficareis um dia 
Quando virdes de Arminda o lindo rosto. 

E o pranto que atégora vos caia 
De lastima, d'ausencia, e de desgosto, 
Ella o fará correr; mas de alegria. 



Depois que á luz de trémula candeia 
Enlre os pobres lençoes me revolvia, 
E ao cereoro dormente já subia 
O grosso fumo da indigesta ceia ; 

Brilhante sonho na enganada idéa. 
Por maior mal, venturas me fingia; 
Fez-me entrar na real secretaria, 
Fez-me logo deitar sege á boléa ; 

Poz-me na sala um espaldar comprido. 
Um valido lacaio em camisola, 
E um correio com chapa no vestido: 

Eis que soa na porta a dura argola; 
Foge-me o sonho, acordo espavorido. 
Era um rapaz que vinha para a eschola. 



-49- 



roa OGCASiHo bb csrAAiraArnsa ao avgtok vm toHMo 
QOB A ifiHGun orwmmiA 

Atiça, ó moço, a moribunda chamma 
D'essa faminta, sórdida candèa, 
E encostado á parede cabecèa, 
Posto de guarda ao pé da minha cama. 

Se o somno que em meus olhos se derrama, 
E os languidos sentidos me encadèa, 
Tentar com sonhos esta pobre idea, 
Em altos gritos por meu nome chama: 

Assenta-me na cara essas mãos frias: 
Pois vês o fructo que sonhando tiro. 
Corta em raiz traidoras fantasias. 

Contra os sonhos desde hoje me conspiro: 
Se ao primeiro me dizem heresias, 
Em sonhando outra vez pregam-me um tiro! 



A VMA CA«F01BZ« 

Não moram em palácios estucados 
Almas singelas, almas extremosas: 
Nutrem da corte as damas enganosas 
Em tenros peitos corações dobrados. 

Venham por longos mares conquistados 
As indianas sedas preciosas: 
Cubram-lhe as carnes alvas e mimosas 
Ricos vestidos em Paris bordados. . 

São isto eíTeitos da arte e da ventura: 
Estimo mais que toda a vã grandeza 
Um limpo coração, uma alma pura. 

Não na corte; das serras na aspereza 
Fui achar innocencia e formosura. 
Sagrados dons da simples natureza. 



— 50- 



AO MWAftOe BAC aiTLaiSABi 



Vens debalde,- oh bellissiina perjura, 
Co lindo rosto em lagrimas banhado : 
Jà fui por ti mil vezes enganadoj 
E sempre me aflfectaste essa ternura. 

Esse alvo peito, que é de neve pura, 
Mas de aço e fino bronze temperaao, 
Encobre um coraçío refalseado. 
Um coração de viva rocha dura. 

Em vão trabalhas, se enganar-me queres, 
Vejo correr com animo sereno 
Esse pranto em que fundas teus poderes : 

Mal inventado ardil! ardil pequeno! 
Tu mesma me ensinaste, que as mulheres 
' Misturam com as lagrimas veneno. 



A UMA DAMA INTEAESSEIRA 



Podiam ser felizes meus amores 
Quando por oiro o amor se não vendia : 
Já de palavras Nize desconfia. 
Só crê ou em dinheiro, ou em penhores. 

Viu-me assaltado d'ancias e temores 
Quando na porta irada mão batia: 
Por costume infeliz ella sabia 
Que era algum dos cançados acredores. 

Foram-se os dias bemaventurados,' 
Em que só almas grandes, peitos nobres. 
Eram do deus de amor agazalhados: 

Negro destino hoje preside aos pobres: 
Poz termo a bella Nize aos seus agrados, 
Vendo esta bolça condemnada a cobres. 



l 



i 




Váe, mísero cavallo lazarento. 
Pastar longas campinas livremente. 



51 



51 — 



o cmtm. «iSTAmcB 



Sem murmurar padecerei calado 
Cumprindo o teu preceito violento : 
Faltava a envenenar o meu tormento 
Dever ser por mim mesmo disfarçado. 

De trazer o semblante socegado 
Farei o inculpável fingimento : 
Nos olhos mostrarei contentamento, 
Tendo um punhal no coração cravado. 

Este peito onde nunca engano viste, 
Que não sabe a vil arte de alTectar-se, 
Onde a verdade e a intacta fé existe, 

Marlyr do amor e do infiel disfarce. 
Nas tuas adoráveis mãos desiste 
Té dos tristes direitos de queixar-se ! 



fenTA!l»0 tm CATALLA A HARCBa 

Váe, misero cavallo lazarento, 
Pastar longas campinas livremente; 
Não percas tempo, em quanto t'o consente 
De magros cães faminto ajuntamento : 

Esta sella, teu único ornamento, 
Para signal de minha dor vehemente. 
De torto prego ficará pendente, 
Despojo inútil do inconstante vento : 

Morre em paz; que em havendo algum dinheiro, 
nei de mandar, em honra de leu nome. 
Abrir em negra pedra este letreiro : 

«Aqui, piedoso entulho os ossos come 
Do mais fiel, mais rápido sendeiro, 
Que fAra eterno a nao morrer de fome. d 



•52- 



AaiAlllM>-SB O AVCTOK FRBtO MM BELLOS OUIOff »B HAMOA 

£u vi a Mareia bella, vi Cupido 
Com arco, seitas e cruel aljava, 
Com ímpeto sair de d'onde estava, 
E voar para mim enfurecido. 

Fugi; bradei: porém não fui ouvido; 
E o tyranno rapaz que me buscava. 
Com uma e outra setta me atirava, 
Até de todo me deixar rendido. 

Atou-me as mãos com ásperas cadeias. 
Sem o mover o sangue que corria 
Do roto coração, das rotas veias. 

Antes, com frio riso me dizia; 
cE não sabias tu, que amor receias, 
«Que nos olhos de Mareia amor vivia?» 



AMOR CAPTIVA TOI»OS 08 <:iJ1DAI»OS 

Um ginja, que ás trindades recolhido 
Calça as ehinellas, no roupão s'embuça. 
Pede à fdha mais velha a carapuça, 
E em fofo canapé fica estendido; 

Um ginja, que de amor todo esquecido, 
Mostra seus vivos de melena russa, 
O saráo, cotilhão, e escaramuça 
Sempre reprova quasi embravecido ; 

Que às modas todas chama bagatella, 
Um ginja, em quem jamais se viu mudado 
O molde d'um vestido, ou da fivela, 

Do mundo não está tão retirado. 
Quanto eu estou, depois que á minha bella 
Dei o meu coração e o meu cuidado. 



— :>:i-- 



€K«UKIKA DU AMOR 



Fiei-me nas promessas qiic afTcclavas, 
Nas lagrimas fingidas que vertias, 
Nas ternas expressões qiie me fazias, 
N'e8sas mãos com que as minhas aperlavas. 

Talvei, cruel, que quando as amimavas, 
Que eram d'outrem na idéa tingirias, 
E que os olhos banhados mostrarias 
De pranto, que ()or outrem derramavas. 

Mas eu sou tal, ingrata, que inda vendo 
Os meus tristes amores mal seguros, 
De amar-te nunca nunca me arrepeníh». 

Ainda adoro os olhos teus perjuros. 
Ainda amo a quem me mata, ainda accendo 
Em aras falsas holocaustos puros. 



soMe A inuratidIo de uma dava 

lioraçáo, de (|ue gemes, de que choras? 
Que parece tens ódio á |)ropria vida ! 
Se perdeste teu bem, foi mão nerdida, 
Com te pôr a morrer nada melhoras. 

Eu bem sei que a belleza a quem adoras, 
Foi-te ingrata e ciiiel, foi fementida; 
Mas que esperavas tu, se é lei sabida 
O mudar-se a mulher todas as horas. 

Socega, coi-açáo, deixa a tristeza; 
Quem te mandou querer com fé tão pura. 
Quem te mandou mostrar tanta iirmeza! 

Erraste, tem paciência, em íim procura 
Não fazer por mulher jamais line/a. 
Acharás mais amor, maior ventura. 

4 



-5Í- 



AOS AX?IO» DO FRIMCIPE 



N^este dia em qae a corle se alvoroça, 
Também se enfeita o mísero poela, ' 
£ pondo sobre si nova roupeta 
Rasga a suja nojosa saragoça: 

Ninguém hoje haverá, que assentar possa 
Que anda esta bolsa em rígida dieta, 
Só me falta, senhor, a fita preta. 
Mas vós tendes a culpa, ou cousa vossa: 

Fiou-me a gala um mercador de pannos, 
E manejei, porque rebelde o via. 
Quanto aprendi nos Quintilianos: 

Por vós me envergonhei, e assim pedia, 
Que pois o tiz para vos dar bons annos, 
Vós me pagásseis dando-me um bom dia. 





QUARTETOS 



Ifiitrial a Ma allta 



Se 08 príncipes nos são dados 
Para geral beneficio, 
Ç se o seu mais digno ofTicio 
E ouvir os desgraçados: 

Ouvi minha desventura, 
£ consenti que esta vez 
Se lastime a vossos pés 
Um queixoso da ventura. 

Saírem humildes ais 
De um peito singelo e aberto, 
É o direito mais certo, 
Quando os juizes são taes. 

Fundadas sobre a verdade 
As minhas supplícas vão : 
Não peço por ambição, 
Peço por necessidade. 



Em mim o cuidado cáe 
De irmãs postas em pobreza: 
A piedade e a natureza 
Me fazem irmão, e pae. 

Olhos em pranto banhados. 
Que eu sefti dor não posso ver^ 
Vos fazem a^ora ler 
Esles versos mal Jimados, 

São tristes órfãs donzellas, 
E merecem suas dores 
One vós, augustos senhores, 
Hajaes piedade d\'llas. 

Por mais esforços que eu faça 
Como hei de dar-Ihes favor, 
Se o seu triste bemfeitor 
Vive na mesma desgraça? 

Da miséria as tirareis. 
Se eu da miséria sair: 
Sobre muitos vàe'cair 
O favor (|ae me fazeis. 

Vós, ó augusta |)rinceza. 
Em (|uem o c^o quíz juntar 
O melhor que podem dar 
A fortuna, e natureza, 

Tende dó de seu lamento: 
E dae a mão favoravei 
A um sexo respeitável, 
De (|ue vós sois ornamento. 

A petição que vos faço 
Não ê de fácil indulto; 
Para pouco, fora insulto 
Valer-me do vos^o braço. 



Nâo é fácil, mas é justa: 
E será bem despachada, 
Se uma vez apresentada 
For por vós à irmã augusla. 

Príncipes, tende piedade: 
Ponde a meus queixumes pausa: 
Protegei na minha c^ausa 
A causa da humanidade. 

O que de Tito se diz, 
Um' vH vosso avft dizia; 
Chamava perdido o dia, 
Se nâo fe^ alguém feliz. 

Motivo de tristes ais 
Quaesquer mãos o podem dar; 
Más venturas emendar 
Só pertence a mãos i-eaes. 

1)08 homens, índa que ingratos, 
Ouve Deus os rogos justos: 
Vós, ó principes augustos, 
Sois na terra os seus retratos. 

Mas já o tempo opportuno 
Apressa as azas escassas, 
E nâo devo ás mais desgraças 
Ajuntar a de importuno. 

Acabe a triste escriptura, 
Digna por ta! de piedade: 
Eu dei-Jhe pranto e verdade, 
Vós podeis dar-lhe ventura. 



--58- 



Ai t9Ut de Villa -Verde, B. J«s« de Ntreiha, itfèii Mrqiei dt laftja 



Senhor, cu nâo sou culpado; 
Traçar outros versos quiz; 
Mas tenho perdido o trilho 
Com as trovas do Luiz: 



A musa, que ha pnouco as fez, 
Outra rima nâo me inspira; 
Por mais que mordo nas unhas, 
E que em vão tempero a lyra. 

Acceilae meus bons desejos; 
£ como homem de í*azSo 
Nâo desprezeis baixos versos, 
Quando os dieta o coração: 

Minhas fieis expressões, 
Filhas de amor e saudade, 
O que nâo tem em poesia, 
Lhe váe supprido em verdade. 

Em quanto co'as soltas velas, 
Forçadas do vento rijo. 
Demandava a galeota 
Os areaes do Montijo; 



1 



— 59- 

Em quanto ao príncipe augusto 
O pátrio Tejo se bumima, 
E sobre os rasgados bombros 
Lhe leva a soberba quilha ; 

Meus olhos, meus Irisles olhos, 
Nas aguas seguindo a esteií^a, 
De lagrinoas se arrasavam 
' Sobre as praias da Junqueira : 

Dentro do rançado peito 
Se ateou crua peíeja ; 
Senti uma guerra viva 
De saudades, e de inveja : 

Não era de baixa inveja 
Affecto grosseiro e injusto; 
Era invejar ao criado 
Ir junto a seu amo augusto. 

Senhor, não sou atrevido; 
Ha logares derradeiros; 
O meu desejo me punha 
Entre a chusma dos romeiros; 

Com as faces açoutadas 
Dos agudos ventos frios, 
Entre os borrifos das ondas, 
E as pragas dos algarvios ; 

A Apollo pedindo a lyra. 
Que só para isto invejo, 
Chamara das frias grutas 
As louras filhas do Tejo; 

Que escutando o som divino 
Entre as húmidas moradas, 
E levantando nas ondas 
Suas cabeças douradas; 



— GO — 

De lai hospede so))erbas 
O tenho rodeapíaip ; 
E as ajpuas c'ò branco peito 
Á porfia lhe abririam: 

O fatidico Proléo, 
Cheio de saber divino, 
Uevélái-a ao novo heroe 
Os segredos do destino; 

Famosas acções cíinlára, 
Levanlando a sabia voz, 
Moldadas sobre as historias 
Dos augustos pães, e avós. 

Mas, senhor, a minha musa 
Sem tino ao ar se remonta; 
E váe-se mettendo em obra, 
De que não pódé dar conta : 

Esta levantada empreza 
Até a Boileau deu sustos; 
Dizia que só Yirgilios 
Podiam louvar Augustos: 

É queimar-lhe baixo incenso, 
Cançal-o com versos frjos; 
Amor respeitoso, e vojlos 
Serão os meus elogios. 

Vós, iliusti-e Villa-Vei-de, 
(]om quem sempre me hei achado, 
Fazei que seia o meu nome 
A seus ouvidos levado: 

Se lhe der acolhimento. 
Sigamos de Horácio as traças. 
Façamos que a par das musas 
Marchem as risonhas graças: 



-6Í- 

Dizei-lj^ç, mut n^ foIlMi^h;}, 
Com I^fáíi iífflara!??8 ffSí? 
Aquelles íqfisfosm ãíj»^ 
Das escadas de Quel^^ ; 

Aquelles dias ditosos, 
Quando a seus pés ajoelhado, 
Era ao abrigo das mjifsa^ 
Benignameiite escutado; 

Quando, tendo já traçado 
iMeIhorar-me os mejfs aeslrnos, 
Se dignav^ perguAta]r-iue 
Como estavam os meninos; 

Quando me mandou, que em verso 
Contasse como escapara 
Waquelle funesto •epcontro 
Dos íaes carreiros da Ehxára : < * 

E se ainda o favor mereço 
De 1^0 a)t9 proiecç^o; 
Dizei, que mucjei de officío, 
Porém de veptiir^, nlo; 

Que não me enganam zumbaias 
Doç humildei supp|ic^ntef ; 
Forque áboI^â niais sincenai 
Trata-me iíida co/apio 4'an|^; 

Que inda os cães atrás do russo 
Esperam n'çlle a merenda, 
Quando eu vou para Lisboa 
Fazendo versos e renda; ' 

Que dando aos Aços ilhaes, 
Váe marchando triste e só; 
Que as m^is seges (azem ^cia, 
Porém què a minha fez dó; 

1 ) AUii4t é« dfdMS. 



— fi2- 

Que até o boçal gallego, 
Que eu tinha pôr innocente, 
Já me conhece a fraqueza, 
E já me revira o dente; 




ãmi. 



Depois que as vélas de cebp 
Já cerceia no topete, 
E váe conquistar o bairro 
De polainas e colete; 

Depois que em chapéu de Braga, 
Que só pOe em dia claro, 
Coseu em devota rosca 
Candeia de Santo Amaro; 

Depoi^ que em destros meneios 
O suado corpo bole, 
E abre guerra ás cozinheiras 
Ao som da gaita de folie; 

Já responde focinhudo, 
E eu me calo as mais das vezes; 
Porque, pelos meus peccados, 
Sou réu de uns poucos de mezes. 



— S3- 

Mas, senhor, este episodio 
Yáe sendo dos arrastados, 
O gallego Teiu n'elle, 
Como me váe aos recados : 

Se o julgardes enfadonho, 
Ao príncipe o não conteis; 
Nos factos da minha vida^ 
Á vontade escolhereis: 

Pintae-lhe a triste familia, 
Grítando-n^e por dinheiro ; 
Hoje o rolde um alfaiate, 
Amanhã o de um tendeiro : 

Pintae-lhe um procurador, 
Que aqui vem todos os dias 
Saber da minha saúde 
Da parte das senhorias: i^ 

Enfeitae de côr alegre 
A funesta narraçSo; 
Marcham às vezes os risos 
Ao lado da compaixão: 

E pois que os vossos esforços 
Nunca me tem sido vãos. 
Acabai, benigno conde. 
Esta obra das vossas mãos: 

De um malfadado poeta 
Trocae em prazer as penas; 
Já diante d outro Augusto 
Fez o mesmo outro Mecenas. 



"~^^^^^6í^5t)^P^ 



— «4 — 



Am mim do utàf íf TilU-?»nk, u oc^tiio d« ito dM^adM 



Senhor, soffrei os louvores; 
Hoje não i^e sâo vedados: 
São estes solemnes dias 
A elogios consagrados. 

Aos lypniens, que ao ^eni d^s oulros 
Seus iliii^ir^ ^^ àevdiífí^ 
A pátria ^sim sanctifica 
Os dias em qi^e nasceram. 

E eiQ bojora d'um sentimenlo, 

?ue liopra o humano corjação, 
mais austera modesMa 
Cede a gera) gratidão. 

O dia pois me auctor/sa, 
E manda, senlior, aue ouçaes 
Que o thjTono yos q?i favor 
Por saber que vós o daes. 

Quer que todos os. negócios 
Ante vós sejaip levados, 
Pondes na frente de todos 
A caus^ dos desgraçados. 

Junta^ç ao dom de conselho 
Ternos dons djç sentimentos; 
Em vós v^e sempre ia bondade 
Guiando os vastos talentos. 

Enxugaes alheio pranto, 
Sois com todos terno e justo; 
Por isso deu a Mecenas 
Sua confiança Augusto. 



Sei que vindes de dois reis, 
Não ..diaoio, agora nenhum , 
É niémor que víf de rfois, * 
O serrir assim a um. 

Santo dia, eu té ábeíiçôo; 
Na frente dos pòrtuá^uézês 
Sobre nossos horisóntes 
Possas tu raiar cem vezes. 

Tu hos désíè um peito iduslre, 
Feito para bemTeitor, 
Em que os cèos foram ereando 
O valido e o valedor. 

Más, senhor, íneu estro fraféo 
Profana H gloria dó dia 
Com os inúteis esforços 
])'esta cançáda (!K)es?á. 

Já 09 sellàdos IhesoWos 
D'Apollo ihe nSo sSo francos; 
Em vão nrf doèe Hypocrêné 
Mer^lho os cabeíFos brancos. 

Tehfi a culpa fogo extincío, 
Tem a culpa o frio peito, 
A diiTrénçá em nossos aVihos 
É a causa doeste effeilo. 

Quanto ellcs sáío différentes, 
Eu \ott facilmente expoT-o: 
Os vossos honram a pafría, 
Os meus inTanham Apóllo. 






— 66- 



At cnfc k VUU-Vtrit, afrádectid» a Mllara i» Enfiicl, 
dcií^ k biirri k Mea 



Senhor, o meu Ferrabraz, 
Que co'as mSos faz obra grossa, 
Promette abaixar a sua, 
E vem beijar-vos a vossa. 

Tinha força, e tinha amor, 
Poz em linda face a m9o, 
E a fineza, por ser sua, 
Teve ares de bofetão. 

Queíxou-se a nympba soberba, 
Falsa dor com arte exprime. 
Fez apparecer o amor 
Com os vestidos do crime. 

Themís também é mulher, 
Deu-Ihe ouvidos e carinho, 
Quiz favorecer o seu sexo, 
Deu á balança um geitinho. 

Succumbe o amante valente, 
£ no seu coração disse: 
cSe eu tal paga adivinhara. 
Fizera maior meiguice, d 

Mas ferro abranda leões. 
Com pranto os ferros banhava, 
Promettia mil emendas 
Do delicto que negava. 

Dar ao vento afDictas queixas 
Eu o vi por muitos dias: 
Já nSo era Ezequiel, 
Converteu-se em Jeremias. 



Por elle então vos roguei ^ 
Gratidão m'o pede assim ; 
Não guarda só a cadeia, 
Guarda-me também a mim. 

Tenho a barbara mania, 
Por fugir de mfnhas dores, 
De ir dentro no Limoeiro 
Ouvir as dos malfeitores. 

E a meu lado co' o bambu 
Tal segurança me faz. 
Que na habitação do crime 
Estou no seio da paz. 

Armam a vossa justiça 
Os réus na prosperidade. 
Mas carregados de ferros 
Fazem-vos os réus piedade. 

Levastes seus ais ao throno. 
Vencestes a causa sua; 
Por mim a vossa bondade 
O poz no meio da rua. 

Cbamou-me o seu bemfeítor, 
Abraçou estas cans frias. 
Jurou não dar bofetões 
Estes oito ou quinze dias. 

Prometti-lhe que se os desse, 
E eu o livrasse assim, 
Desde já tinha licença 
Para os dar também em mim. 

Senhor, beijámos as mãos. 
Eu, o réu, e o carcereiro, 
Com todos os mais tafues 
Da sucia do Limoeiro. 



— 68- 



Ai têtàè ét Villa-fer^, aíiislrt dt rfiit, ifradecfidt en ftne dts seai ctllefas 

•§âm da secretaria, • ter apprtradt ina tiielia qie ao^entara 

M eatlneitoi dài fracas • Bercés 



Senhò^ ()oi* mil bèiíeÀcIos 
Tenho as vossas tríi(k beijado; 
Das mais veies viAhâ só, 
Hoje venho acotíipáiihado. 

Eu venho em home de rhiíiíos, 
E em nome da gratidão, 
Rôr nossas humildes bòccas 
Sobre a vossa iltustfe mSo; 

Elfá ás tira de ociosas, 
Ella lhes dá qde fòzer 
Na obrigação dè beijar, 
No exercicio de comer; 

Ah, sèhTiòf, (^ue obra tão justa! 
É obra da vo^sa mão: 
É fazer que pá^è o Itixo 
Tributos á precísáò; 

QúéiH haverá tSo íniqiio, 
E d'uma ambMo tão criíà, 
Que infame á nÒ^ fohuna, 
Que fez o caníínho á sàa I 

Queííi por muito foi* dar pouco. 
Mas com forcada vontade, 
É sectário (lo egois^ip, 
É traidor da sociedade. 



— 69 — 

Fazem por vós puros votos 
Os peitos imparcíaes, 
Que assim as communs fortunas 
Sabiamente equilibraes. 

De altas graças despenseiro 
Intentaes com mãos prudentes 
Repartíl-as de tal arte, 
Que fiquem todos contentes. 

Pelo quinhão que nos rabe 
Vossa recta mão beijámos; 
E sem sei-mos atrevidos. 
Também nós vos despachámos. 

Bênçãos, amor merecido, 
Gratos, ternos sentimentos. 
Para uma alma como a vossa, 
Não são maus emolumentos. 




--70~- 



Ao narqifz df Aigcji. D. JoNr df \ornnbj. no dia dos »fu» aano». 
fslando o anrior iwuW 



Senhor, se vos são acceilos 
Pobres versos, mal limados, 
Entre vidros e receitas, 
Em Irisle leito traçados; 

Se de um sombrio doenie 
A fúnebre poesia 
Os prazeres não perturba 
D'este Taustissimo dia; 

Consenti, que a branda lyra. 
Por vós outr^ora escutada, 
E que teimosa moléstia 
Tem ha muito pendurada; 

Sobre este cançado peito, 
Eerida com débil mão. 
Mande ao ceo singelos hymuos. 
Nascidos do coração : 

Consenti, que eu louve o dia, 
Para mim assignalado, 
Que i-aia em nosso horisonte. 
De nova luz coroado; 

Dia, que vos viu nascer; 
E que quiz trazer comsigo 
Quem une ao nome de grande, 
O sanlo nome de amigo; 



-71- 

Quem não quer só a nobreza 
De illustres antepassados; 
E mais ama uma virtude, 
Que cem títulos herdados; 

Quem sabe, que o vir honi'ar 
Dos pequenos a baixeza, 
É entre os que nascem grandes 
A verdadeira grandeza; 

Quem a favor de infelizes 
Traz sempre occupada a idéa; 
E estima a fortuna própria, 
Só para fazer a alhèa: 

Om vezes, formoso dia, 
Vem o horisonte dourar; 
Nunca possam negros venlos 
Tuas luzes perturbar; 

Tu nos deste em peito illustre, 
Que se doe de alheios ais. 
Um coração adornado 
De mil virtudes moraes. 

Senhor, eu nuo douro enganos, 
Que venal lisonja approva; 
Sabidas verdades digo, 
E sou d'ellas uma prova; 

Sou um dos muitos exemplos 
Do vosso bom coração ; 
A minha felicidade 
Foi obra da vossa mão; 

Razoando em meu favor 
Contra teimosos destinos. 
Felizmente pleiteastes 
A causa dos meus meninos ; 



Ap bom príncipe pedistes, 
Que com mão compadecida, 
Lhes concedesse umas Terias, 
Que durassem toda a vida; 

Pedistes depois, senhor, 
Que a sua real grandeza 
Se dignasse de arrancar-me 
D'entre os braços da pobreza; 

Sei que n'elle é natural 
Ter dó das alheias penas: 
Mas ouve-as melhor Augusto, 
Quando Ih^as conta Mecenas; 

Por esto modo alegrastes 
A triste Tamília minha; 
E em casa nos levantastes 
O interdicto da cozinha: 

Já um segundo frízão, 
Pendurada a lingua velha, 
I)á reboque, cx)mo pôde, 
Á antiga meia parelha; 

Já o sórdido gallego, 
Meu antigo companheiro, 
De gravata e carrapito 
Arvorado em boleeiro; 

Açoutando surdas ancas 
De dois sendeiros roazes, 
No mesmo bairro apregoa. 
Ora barris, ora pazes: 

Mas, senhor, deixando graças, 
Pois não as pede a matéria, 
E pedindo á minha musa, 
Que sqa romvosco séria; 




^•^c 



'"ST,; KC 



— 73 — 

Rogo ao ceo vos dè mil annos, 
Já que são tão bem gastados ; 
Annos que achareis depois 
Em livro de ouro apontados; 

E se em dia de mercês 
Ides de semana entrar, 
Seja a mercê doestes annos 
O meu nome apresentar: 

Ao príncipe, ajoelhando, 
Em favorável momento, 
Por mim, senhor, lhe jurae 
Eterno agradecimento ; 

E eu, em largando este leito, 
Jà sei a hora opportuna 
De poder ajoelhar-Ihe, 
Quando elle chega á tribuna ; 

E pondo-me ao pé do Ginja, 
Que na náo Ajuda falia; 
E faz a lodos os Glorias 
Contineucias co'a bengalla; 

Surdo à historia do naufrágio. 
Com que elle ás vezes me aferra, 
Rezarei ao Deus do ceo, 
E assistirei aos da terra. 



_,..,^o^.- 




— 74 — 



Ao natqiiN ^f Aisfja. futnk aoBos a (illia dt Marquez de Abratten, 
MB qara Miau |Mra rasar. 



Siínlior, aos llorenles.ann(>s 
Hoje em pompa festejados 
Eu devéi-a lambem ir. 
Pois vão comvosco criados. 

Gâ^to e obrigação m'o pedem; 
Mas vós, hercúleo cadete, 
Sabeis a fallada historia 
Do meu antigo collete. 

É elle o réo que hoje impede 
Devidos respeitos meus; 
Não váe a annos alheios, 
Pelp delicto dos seus. 

Foi collete das func-cões, 
(lumpriu seu emprego á risca, 
Hoje domesticas leis 
O tem condemnado á isca. 

Sei que devia haver outro; 
Mas, senhor, não me culpeis, 
Culpac surdos mercadores, 
E preguiçosos quartéis. 

Ide vós, amor vos manda; 
Na illustre, adorada mão 
Ponha a bocca respeitosa 
Tributos do coração. 



— 7Í) — 

Se acaso a austera etiqueta 
Impede obsequio tão puro, 
Ao cortezSo respeitado 
Console o esposo futuro. 

Fazei em terna linguagem 
Mil discretos cumprimentos, 
Aquelles que vos inspiram 
O dia, e vossos talentos. 

Mil brilhantes convidados 
Ao cortejo assistirão, 
Os amores vão comvosco, 
As graças já lá estão. 

Eu, ancião ex-poeta, 
Erguida a testa engelhada, 
Ferindo com tortos dedos 
A minha lyra cançada, 

Pedirei ao duro tempo 
Com lagrimas d'alegria 
Nos deixe raiar cem vezes 
Este faustissimo dia. 



E a vós, depois d^outro dia, 
Nos lusos fastos marcado, 
Da alegria, dos prazeres. 
Das virtudes desejado. 

Peço continuas funcções, 
À porta as seges postadas, 
E que eu vá, porque também 
Posso já ir co' as criadas. 



— 7(5 — 



li BarfMi ét Piite 4e Líbju niiistri ét etUdi, Hí*^^ * '^"^^ UuÊgk ^ra ir 

a kuhtt, ia •ccjfiii en %w m tiiba eicarref ad« 4e lhe f rfiWTtr a Mitl 

de se ÍB^rÍBÍrcB ai nas abras ia (NSciu legia 

Senhor, entreguei meu livro; 
Foi esse tilho mesquinho 
(^o'a estéril benção do pae 
Lançar-se aos pés do padrinho: 

Dei-lhe em dote inúteis rimas, 
Dei-lhe vasio Ihesouro; 
^ Mas vossas mãos milagrosas 
Convertem nadas ém ouro: 

Do mal fadado Parnaso 
Quebrareis o injusto encanto; 
Nem sempre seus verdes louros 
Serão regados com pranto: 

Impertinentes credores 
Largar-me-hão em tim a rua, 
O meu cego d)rindo a bocea 
Lhes ha de fechar a sua : 

Até apertados génios 
Sem vontade comprarão ; 
Farão focinho á poesia, 
£ obséquios à protecção : 

Mas, senhor, de livro basta; 
É insulto ás mãos em que anda 
Passar de ser o meu livro 
A ser a minha demanda: 

Foi esse meu rogo ouvido; 
Deixae (|ue para outro mude; 
Tem objecto inda mais alto, 
É mais do que ouro, é saúde: 



— 77 — 

Contra o mal que me tem feito 
Raivosos caniculares 
Me offrece a fresca Ericeira 
Seus claros, sadios mares: 

Sei que n'estas ondas bravas 
O banho um risco teria ; 
Posso começal-o alli, 
E ir acabal-ô á Bahia: 

Bramindo na vasta praia 
Enrolada vaga forte, 
Dentro do pérfido seio 
Me traz a saúde, e a morte ; 

Mas com protector penedo, 
E cauto marujo amigo, 
O impune, tónico susto, 
Torna em remédio o perigo: 

Falta só licença vossa, 
E juro, senhor, que vem ; 
Como podeis vós negal-a, 
Se sabeis que ella é um bem? 

£ o Pindo o meu thesouro, 
O Oceano é meu Jordão; 
D'ambos recebo mil bens. 
Mas todos por vossa mão : 

Eu a beijo; ella receba 
Gratidão devida e pura 
Em tributo que lhe paga 
O criado e a criatura. <* 



1) Ttaka MaM4* o aael«r aMcW áa MCNUria. 



-78 — 




A I. Ufrfi^ de Lina, teidt y roBcltidt le inclor qae qoande ckenasse das Caldas 
bria de lenbrar a Berd de w liw íapriaireB as obras 



Ora do cume dos montes, 
Ora em suas verdes fraldas, 
Ia estender os meus olhos 
Na longa estrada das Caldas; 

Sobre escamosos cavallos 
Trotando empoada sege, 
Disse quem fez os meus versos 
« Ahi vem quem os protege ; » 

Alçando-me, hia a dizer- vos 
«Senhor, chegou o meu praso; 
Honrastes hoje outros montes, 
Honrae agora o Parnaso; 

<K Promettestes fazer férteis 
Seus estéreis myrto e loií-o; 
Promettestes que a Hypoerene 
Levaria areias de oiro; 

o: Sua clara, inútil veia 
Rega chão que não se lavra ; 
Vinde fazel-o fecundo, 
Vinde cumprir-me a palavra. » 




J- - -i^^— ' 



Aiçando-me, ia adizer-vos 
• Senhor, chegou o meu praso. 



'/S 



-79- 

Mas, senhor, não éreis vós; 
Era um casquilho, e do povo; 
Tornei a pegar nas contas, 
Tornei a esperar de novo: 

Mil votos ao coo mandava 
Este humilde orador fraco. 
Que vos nSo vissem carreiros, <* 
Nem os ladrões do labaco; <- 

EnUlo carrancuda noite 
Me enxotou co'as negras azas; 
E em honra dos laes amigos 
Vim como galo por brazas: 

Sei, em lim, que já chegastes; 
Cihamou por vós minha dór; 
Venha o llluslie conselheiro 
Honrar-se em procurador: 

Fazer bem, é mór grandeza; 
Deu-vos, também esla, o pae; 
Vós ambos d'entre os meus louros 
Cruas silvas arrancae; 

Com piedosa geographia 
As paternas mãos benignas. 
Emendando ingratos nmppas, 
Ponham o Píndo nas Minas: 

O impressor gosta de versos; 
Quer que os meus públicos andem; 
Mas é um tanto acanhado, 
Não imprime sem que o mandem; 

EUe perdoa o contagio; 
Pegae-lne a minha doença; 
Só deixarei de gemer 
Em geinendo a sua imprensa ; 

i ) Allod* ás átáam da Intra. 

t) Psrto ««Ubra Mto n'a<|uella ntrftda. 



— 80 — 



Àssigue pois meu aviso. 
Pia obedecida mão; 
Mas não cuideis que com isso 
Daes férias á protecção: 

O mais ávido leitor, 
Das quintilhas pregoeiro, 
Ha de achal-as insoiTriveis 
Em lhe custando dinheiro; 

E só em nojosa tenda 
De braguez chatim mesquinho 
Terão saída os meus versos, 
Embrulhando o seu toucinho; 

Só rapazes acharão 
Minha musa doce e meiga; 
Não porque tenha poesia. 
Mas porque teve manteiga; 

Mettei pois, senhor, em brios 
Ricos peitos avarentos; 
Dizei que comprem partidas, 
Que é honra honrar os talentos; 

Que serão commigo eternos 
Se me evitarem o mal 
De ir ao templo da memoria 
Pela porta do hospital ; 

E então da escondida burra 
Ouvirá a surda aldraba 
Não as vozes da poesia, 
Mas a voz de quem lh'a gaba; 

Indo abrindo, jurai-ão 
A duas artes ódio e medo; 
À da guerra, em alta voz; 
Á da poesia, em segredo. 



-81- 

Entretanto ao digno pae 
Pedi que me faça auctor; 
Sejam pnblícos no mnndo 
Meus versos e o seu favor: 

De Limas na honrosa historia 
Não serão títulos falsos 
Fazer .que as augustas arles 
Não marchem c'os pés descalços. 

E vós, firme protector, 
Fazei que por taes favores 
Vamos beijar-vos a mão, 
Eu, e 08 meus dois mil credores. 




— 81- 



U condf dos Arro$ >obrf o nifsmo assumpto de sf inprinirfB »% ebras 
do jnrtor 



Hateii aos vossos poiiaes 
Um morador do outro pólo; ^^ 
Veiu ao templo de Minerva 
Dar um recado de Apoilo: 

Vós sois dos seus obrigados, 
Bebeis seu licor divino; 
Manda que lembreis na Rosa ^'' 
O esquecido Tolontino: 

Sei que alli meu pobre livro 
Altos protectores tem; 
Mas agora só se falia 
N'esta magica Dutein: '^ 

Apoilo não troca as artes; 
Mas vendo a artífice, enfia; 
Receia que com taes braços 
A dança afaste a poesia : 

Também sois rêo; mas bem pode 
A magia dos passos seus 
Encantar os vossos oífios. 
Sem fazer chorar os meus. 



1 ) Moravi moito divUnf. 

9) Sitio onde morava o ministro dVstado 

3) Dançarina r#l#br«. 



-w- 




k D. remando de Lima sobre o aesnio assaMpto da ínpressio das ibrai d« ancltr 



Forte co'a vossa promessa 
Dura voz se váe alçar; 
Nâo vem romo das mais vezes, 
Não vem pedir, vem ralhar: 

Nâo é de estéril rabugem 
Raiva inulil que em mim lavra; 
Venho brigar e vencer- vos, 
Minha arma é voísa palavra. 

Sao leis os priscos rifões; 
Na mão a lei me mettesles; 
Sei qtie a ricos não deveis, 
Mas a pobre promettcsles : 

Prometlestes que uma imprensa 
Faria um Taminlo Tario; 
Meu livro e as vossas promessas 
Inda estão no vosso quarto. 

Sei que a vossa illustre casa 
Ê das que honram Portugal ; 
Mas eu quero outra melhor, 
Quero a casa Manescal: '* 

f) AAastnittradflfr da iottirmii r^çl*. 



-84 



Reis de Hespanha a vossa honraram, 
E eu espero o mesmo d'elle; 
Fizerara-vos ricos homens, 
O mesmo me fará elle. 

Vós sois protector das artes, 
E d'ahi meu mal yiria; 
Talvez que pela da dança 
Vos esqueça a da poesia : 

Por Dutein esquece tudo; 
Estes grupos tão gabados. 
Não digo que são os vossos, 
Porém são os meus peccados: 

As três Graças a fadaram. 
Mas seus dons funestos são; 
Tira ás deusas a maçã, <' 
E a um triste poeta o pão. 

Se a vosso pae vou queixar-me, 
Juro que acceita a querella; 
Juro, que vos quer os olhos 
Antes em mim, do que n'ella. 

Mas, senhor, deixando graças 
De poética licença, 
Este brinco quer dizer 
Que apresseis a tal imprensa; 

Até por curiosidade 
Forjae-me este mealheiro; 
Só para vermos que efFeito 
Faz em mim o ter dinheiro: 

Talvez que altiva luneta 
Nos piscos olhos ti'aidores 
Não conheça uns tantos homens, 
Principalmente os credores: 

1 ) Fuit t flgva d« V«nu na purtoorima na qae m rtpre«eRtna « labuU 
<l» Pár<«. jDlg«B<lo-lh« o pomo 4^ niro dMtfnído á maia formiwa. 



-85- 




Talvez que o novel gallego, 
Que soltas bragas trazia, 
En taipado em pantalonas 
Dè ao amo senhoria: 

talvez que inventando heranças 
Bisneto do grão senhor, 
A falso espectro agradeça 
O que devo ao protector. 

Senhor, se o oiro tal pôde, 
Levantae da empreza a mão; 
Antes réo do meu tendeiro, 
Do que réo de ingratidão. 

Mas inda agora é que eu vejo 
Quanto me fui desmentindo; 
Disse que vinha ralhar, 
Por fim acho-me pedindo: 

Não pude acabar a farça; 
Costume custa a vencer ; 
Çomvoscx) a minha linguagem 
É pedir e agradecer. 



— 86 — 



A B. Catlttríu lichMla 4r Smh. tsfnã ét Uiz hiti 4e S»lui, lodi este expe4i^ 
ITÍN ^ra se iapriairea as obras da anelar 

Senhora, Apolio bem sabe 
Que sois digna companhia 
De quem em doirados annos 
Lhe honrava 9 doce poesia: 

inda de viçoso loiro 
Lhe guarda a verde coroa ; 
Fez-lhe falta em sua corle, 
Mas a bem de outra o perdoa : 

Manda, pois lhe estaes ao lado, 
Canteis polidos louvores 
A quem em honra ao Parnaso 
Fez versos e faz favoíes: 

Viu o prazer generoso 
dom que acabou a tenção, 
Que crua parca anancára 
De outra bemfeitora mão: <' 

Viu ([ue apressou seus negócios 
Perante quem todos rege; 
E que amigo do seu monte, 
Ora o sobe, ora o protege: 

Grato ao grande henelicio 
Vos envia o estilo e a hra: 
Manda-vos caniar-lhe os hymnos, 
Oue lhe traça e vos inspira: 

Diz (|ue esta em preza vos toca, 
K que não admitte escusas; 
(}ue favor feito ao Parnaso 
Iláo de agradecel-o as Musas. 

i > o marquet de Ponte de Lima, mini>tro de e«tado. Unha dbtido merré d» te impriísir^m 
i obra» do «lictor, tm é«ii bcneflciâ, nua nAo cbegoo a Mai^iaio- u aviM por taa ret^oUno Ul- 




/^4,á^ 



Sonho quo, escalada a poria. 
Medonhas caraH sem dó 
Vem furtar a Tolentino 
O que elle furta a Boileau. 



F7 



— 87 — 

Pulsae a lyra, enfreae 
Bravos ventos rugidores; 
Cantae agradecimentos 
A quem cantastes. amores: 

Em má honra a longas cans 
D'esla empreza escuso fico; 
Fechou-me Apollo a sua arte 
E quer que aprenda a de rico. 

Dura, enganosa' sciencia I 
Incómmoda, tumultuaria! 
Muito mais a (luem andou 
Sempre na escnola contraria: 

Já em socegado som no 
Nâo vejo doces tícijOes; 
Inda a obra está na imprensa 
E já sonho com ladrOes: 

Sonho que, escalada a poila. 
Medonhas caras sem dó 
Vem furtar a Tolentino 
O (|ue elle furta a Boileaii: 

Co' essejnetal turbulento 
Já d'antemrio me malquisto; 
Que me nao fará a posse. 
Se a esperança já faz isloí 

Sei quem poz a ultima forca 
Ao punhal de que me d(^o; 
Mas, em fim, nada de raivas, 
DizeMhe que eu lhe perdoo; 

E que é tal n^esta virtude 
Meu conforme coração, 
Que não só perdoo o mal, 
Mas beijo por elle a mão. 



— 88- 



A aániilezi de Ale§rete qoaiido lhe iiscea uma filhi 



Senhora, é cousa sabida, 
Que aos deuses não são vedados 
Os escondidos segredos 
Do escuro livro dós fados; 

E pois que em tempos antigos 
Já tive alguma valia 
Co' aquelle, a quem coube ení sorte 
O governo da poesia; 

Não esperando do tempo 
O vagaroso progresso, 
E desejando augurar-vos 
O vosso feliz successo; 




-89- 



Na raiz do alto Parnaso, 
Curvando o humilde joelho, 
Exclamei: cSe aqui se escutam 
Votos de um poeta velho, 

«Não te peço, esquivo Âpollo, 
Teus verdes, sagrados louros; 
Não aspiram a coroas 
Doesta lesta os velhos couros; 

«Abre, sim, a densa névoa 
Do vindouro tempo escuro; 
E ante meus ávidos olhos 
Rasga as sombras do- futuro; ^* 

«Saiba meu justo desejo ^* 
Quanto o destino promette 
Aos nossos ardentes votos, 
E aos da assustada Alegrete. » <^ 

1) Na primeira licfio que d'e8ta poesia traz o volume das ineditaà 
do anctor, publicado em Coimbra em 1858, paginas 94 a 102, este quar- 
teto estava posposto, e ora o terceiro da supprcssilo que le lô na nota 



3*«' 



) Primeira lição: 

Peço-te sim me reveles 

3) Primeira lição: Após este quarteto havia esfoutros: 

«Do muito que a Angejns devo 
És a melhor testimunhâ: 
Tu me emprestaste a lyra 
Em que as pegas lhe compunha. 

« E quando esta iliustre íilha 
Digno altar a amor ergueu, 
Apollo me deu o incenso. 
Que eu consagrei a hymeneu: 

« Abre sim a densa névoa 
Do vindouro tempo escuro; 
E ante meus ávidos olhos 
Rasga as sombras do futuro. » 

O deus que quiz premiar 
Poeta, que o nao profana 
Pelas logeas de bel)idas, 
Por oiteiros de SanfAnna, 

Onde os seus verdes loireiros 
Perdem o viçoso brio; 
E o mais bem feito soneto 
Tem por paga um assobio: 



o deus, que nunca em mim viu^' 
De odes mouras a mania, 
ijue sem o assumpto honrarem, 
Lhe deshoniam a poesia; 

Que em outeiros de oratório 
Não lhe puz a lyra ao frio, 
Arfiscando-a a ter por paí?a 
Ou pedrada, ou assol)io; * 

R muito mais porque viu. 
Que da uiinha petição 
Eram sagrados motivos 
A amizade, e a gratidão; 

Fez fuzilar em meus olhos 
Nova luz, vedada, e pura; 
E de tudo o que então vi, 
Vos vou fazer a pintura: 

Vi, senhora, as louras graças 
Com doce, e risonho aspeito, 
Tecendo engenhosas danças 
Em torno de um áureo leito; 

E abrindo as ricas cortinas 
Trazerem nos castos braços 
O digno e precioso fructo 
De illustres, sagrados laços. 



!) Primtira limo: 



Que de altiis iiingicas odes 
Nuncii me viu a mania, 
As *cfuaes sem o assumpU) honrarem 
Deshonnim a (K)e8ia. 



2) Primeira licao: 



Que nunca em libelio infame 
Fui trilhar as vis pisadas 
Dos que dfio aos dons das musa8 
O préstimo das facadas. 




'^'^j^^.- 



E abrindo as ríoas cortinas 
Traierem nos rastos braços 
O digno e precioso fructo 
De i ilustres, sagrados laços. 



90 



— 91- 

Sobre o mimoso semblante, 
Em que os seus dons inspiravam, 
Dos mais altos pretendentes, 
Mil suspiros auguravam; ^* 

Os prazeres sobre as azas 
O berço lhe rodeavam; 
Fortuna lhe abria os cofres, 
As virtudes a embalavam ; 

Vi Penalvas, vi Angejas, 
Oue aos eeos mil hymnos mandavam ; 
Aos ceos, que as diias famílias 
Novamente abençoavam: ^* 

Vi a roda das criadas. 
Que á menina dando vae, 
Umas, os olhos da mãe, 
Outras, a bocca do pae; ^^ 

1) Primeira licao: Entre este e o ncgiiinte quarteto, havia «9- 
Coutro : 

Vi que Âtropos respeitosa, 
Sun 8 tesouras fechando, 
Juntava mais outro fio. 
Que a irmã ia íiando. 

2) Primeira licoo! Entre este e o seguinte quarteto, havia e9- 
Coutro : 

Vi a carinhosa Angeja 
Pensando a neta eila st», 
Cujo rosto bellí) e raoc<» 
Briga com a palavra avó. 

3) Primeira limo: Entre eaie e o seguinte quarteto, havia es- 
foutros: 

Também vi a eslielta Annica, 

gue em rasgados olhos brilha, 
star r(K]uerendo á mãe 
Que i\uvr ser aia da filha. 

Nem tu, ó defuncto .\brou, ' 
Hoje a meus versos escapas, 
I>eve<lor de uma de do7.e. 
Que em vfto te ganhei nas Lapas. 

Que do Lcthes somnolento 
Já aos Elysios passast»», 
E que de* lá vt^^s a filha 
Do amável píie, que criaste. 

Não to peço as três partidas, 
Peco sim que aos deuses peças 
Acolham benignamente 
As nossas santas promessnK. 

* Era vm eriado An niarqu<>( d«> P^aWa. 



— 92 — 

Mas Apollo aqui fechando 
As alias consas Taturas, 
E deixando o pobre velho 
Alegre, mas ás escuras; <* 

Me disse: «Conta o qup visle; 
O mais, em tempo vindouro, 
Fiel, apurada historia, 



Corri: mas trémulas pernas 
Tem sempre estrada comprida; 
E pois acho a prophecia, 
Graças aos ceo^, jà cumprida. 



(S 



Pois habitas já seus campos. 
Campos bemaventurados, 
Anroscnfíi os novos votos 
Destes dois fieis criados. 

Que i)ossa a tenra menina. 
Cheia u'altos dons moraes. 
Doirar comprida velhice 
Dos moços, avós, e pães. 

Que cila áè em larga edade 
Diffnofl filhos educados / 
SoLro 08 honrosos modelos, 
Dos seus i Ilustres passados. 

Qtie com a es])ada da lei, 
E com o Síingue por abono 
Sejam a guarda invencível 
Di\s virtudes e do throno. 

E se houver alguém, que em moço 
A prazeres não resista, 
Que nunca jogue o bilhar. 
Sem dinheiro ter á vista. . . 

Mas quando, illustrc senhor, 
Esta falia anui exposta 
Ia nas azas dos ventos, 
E eu esperava a resposta, 
i) Primeira Lição: 

O deus outra vez fechando 
As altas coisas futuras, 
E deixando como d'ante8 
O pobre velho ás escuras, 

2) Primeira Lição: Entre este e o seguinte quarteto, havia < 
foutro: 

Eu desejava voar, 
E o Pégaso em vSo chamando, 

Íkie á minha mâo importuna 
á váe as clínas negando, 

3) Primeira Lição: 

Chego tirde pelos crimes 
D*P8ta musa entoriHfMda ; 




Vou sontar-me entre os loureiros 
Que réga Casta lia fria ; 
Ondo revoam em bandos 
Os génios da poesia. 



93 



— 93 — 

Beijo respeitosamente 
Estas faixas, que envolveram 
Aquella, a quem d3o a vida 
Os que a minha protegeram ; 

c Recebe, oh recem-nascida, 
Terno j^mor, alto respeito ; 
Teus avós, teus claros pães 
Te derão este direito.» ^* 

E tu, formosa Alegrete, 
Que depois de erguida a mesa, 
Ficavas co'as velhas ayas 
De mágicos filtros presa; 

Quando eu a teus pés contava, 
Mentiroso historiador. 
Ora a do caixão de vidro, 
Ora a das cidras do amor; 

Quando os mesmos tenros annos 
A tua filha contar. 
Todos os dias virei 
Meu officio exercitar; 

E em tanto, apesar do tempo. 
Que a fronte me vàe gelando. 
Com a rouca lyra ás costas 
Pelo Parnaso trepando. 

Vou sentar-me entre os loureiros. 
Que rega Gastalia fria; 
Onde revoam em bandos 
Os génios da poesia ; 



1) Primeira Licào: Entre este c o seguinte qunrteto, havia cs- 
footro: 

Ao mais puro e humilde incenso 
Minha bocca assopra as brasas; 
Abrangem justo tributo 
Ambas as iliustres casas. 



-9Í — 

E co'a lesta descoberta 
Á viração benifeitom, 
Traçarei mais dignos versos 
Do que estes, que ouvis agora; 

Com tempo os irei fazendo; 
O Deus também me fei ver. 
Que sobre este mesmo assumpto 
Tenho muito que escrever. 




,,mUVI':|i';1'1:1' u)^Av 



^s^ . 




Quiz que eu viesse contal-as 
Ao som dV^ta rouca lyra. 
De longos annos afeita 
A acompanhar qiiem suspira. 



95 



90- 



;£ac_íL 



A fondfKsa df Tartuca ^r iKra^iJo do seu casjnnt» 



Senhora, o forte da Estrella, 
Chorando o bem que perdeu, 
Das suas justas saudades 
Por portador me escolheu ; 

Quiz que eu viesse contal-as 
Ao som doesta rouca lyra, 
De longos annos afeita 
A acompanhar quem suspira: 

Não fallo nos ternos pães; 
N'elles a alta jerarquia 
Tempera saudoso pranto 
dom o pranto da alegria; 

Ao nome dos seus passados 
Planos caminhos acharam, 
Unindo ao sangue de heroes 
O sangue de heroes que herdaram : 

Não fallo no amável conde; 
Esse não faz compaixão; 
Tem seges, tem bons cavallos, 
Tem o remédio na mão; 



^96 T- 

Sobre rápidos ginetes, 
Quebrando a dura calçada, 
Com o Francisco a reboque, 
Andará sempre na estrada: 

Também das caras irmãs 
Não venho as magoas pintar; 
Co'a terna mãe muitas vezes 
As virão desafogar; 

Fallo da triste familia, 
Que em amorosa mania* 
Accusa o ceo, que vos deu 
Formosura, e fidalguia; 

Dons, de seu mal causadores; 
E que deixam coroado. 
Na mais illustre conquista, 
O mais ditoso soldado ; 

Ralham d'elle a toda a hora; 
Foi causa do sen tormento; 
Elogiam, e praguejam 
Seu alto merecimento : 

ocSe é soldado, siga a guerra, 
E as funestas glorias d'ella; 
Ataque milhOes de fortes, 
Mas deixe em paz o da Estrella ; 

«Tem figura, tem talentos; 
Tem alta estirpe preclara; 
Oxalá que assim não fosse, 
Ella então o desprezara: » 

Mas, senhores, perdoae-lhes; 
Ás vezes na grande dor 
Faliam palavras de raiva 
A linguagem do amor: 



-97 — 

O Silva, o autómato honrado, < ^ 
Anda mais abstracto, e mudo; 
Põe o doce antes da sopa; 
Queima o café, quebra tudo: 

O hirsuto, austero Rodrigues, 
Semblante de poucas pazes, 
Desafoga a sua dor, 
Dando murros nos rapazes: 

Vossa aya, de três edades, 
Em canto escuro assentada. 
Vos manda calado pranto, 
N'um cobertor abalada : 




ír«íá!^^ 



Outras vezes esquecida 
De quanto seu fado é crú, • 
No Queixo ajustando o lenço, 
E soDrepondo o bajú, 

Ergue ao ar canrados ossos; 
E sem temer ventos frios, 
Tirando-lhe amor o peso 
Dos gelados pés tardios, 

1 ) Copeiro. 



Do bom costume enganada, 
E com a usada cautela, 
Para dar, e ter, bons dias, 
Vos vae abrir a janella: 

A janella a desengana; 
Renova-lhe a dor no peito; 
Chama em vâo o vosso nome, 
Abraçando um ermo loilo. 

Do peito das mais criadas 
A saudade se não risca, 
Desde as ayas ralhadoi*as, 
Té á ladina Francisca. 

E pois que o sangue de reis. 
Pois que a augusta ceremonia, 
Bem apesar das criadas, 
Vos trouxe a Santa Apollonia; 

Ide, senhora, mil vezes 
(!ur*ar-lhes a fresca chaga; 
Seu pranto é lílho de amor, 
E amor com amor se paga. 

Na rica, airosa berlinda. 
Dando ao digno esposo parte, 
Aos pátrios lares vos leve 
Amor nos braços de Marle. 

O Tejo, abaixando as ondas. 
Vossos pés virá beijar; 
Vàe das nymphas mie criou. 
Ver a nympha tutelar. 

Os prazeres com os risos 
Sejam a vossa equipagem ; 
Revoem em torno as graças, 
De quem sois a inveja, e â imagem: 




Ãrfíí*' 



/9tr'y/^f* f'» ^'f'i-*- 



* Os prazeres com os risos 
Sejam a vossa equipagem ; 
Revoem cm torno as graças. 
De quem sois a inv<'ja, e a imagem. 



— 99 — 

Enti*ae nos tectos dourados. 
Hoje logar de sandadê; 
Ide, dos braços (io amor, 
lançar- vos nos^da amizade: 

Levae-nos as doces noites, 
Em que a voz que se escutava. 
Sobre as azas da harmonia, 
Nos nossos peitos entrava; 

Quando o cómico travesso, 
Entre geitos, e corcovos, 
Habilmente arremedava 
Todos os músicos novos: 

O Irisle, calado cravo. 
Já não sente a destra mOo; 
Apenas é persegui<lo 
Pelo senhor dom João. <^ 







A'^.* J"-' 



i) Mtiniao. 



— 100- 

Ide, senhora, levar-nos 
No vosso rosto a alegria; 
Fazei à triste Junqueira, 
O que faz o sol ao dia: 

Mas, senhora, a minha musa 
Tem talvez errado os cultos; 
Cuidando ter feito obséquios, 
Talvez tenha feito insultos: 

Dirão, que, trocando as cordas, 
Foi-ão meus sons deseguaes ; 
Que errei em fallar aos filhos. 
Sem fallar primeiro aos pães; 

Que podia esta embaixada, 
Se desse em mais habíl mão. 
Cumprir as leis da saudade. 
Sem violar as da razão: 

Mas, Penalyas, dito, dito; 
Defendo o meu sacrilégio; 
Sois tudo ; mas não sois noivos, 
E é este o seu privilegio. 





Cm y&o bemfeitop miolo 
Lhe esfrega o quarto offer.dido ; 
A minha chorosa mana 
Dá o caso por perdido. 



101 



— 101 — 



Hl dia dos anos de D. laria de Xtrooha, dfpois caodessa de Valladares. 



Senhora, os pobres vestidos 
Do vosso humilde compadre, 
Não o deixam ir aos annos 
Da sua illnslre coiuadre; 

O conhecido collete 
De bordadas' guarnições^ 
Encartado ha longo tempo 
£m collete das funcçôes; 

Sobre os deus cançados annos, 
De húmido inverno assaltado, 
Cheio de invencíveis manciías 
Me foi hoje apresentado: 

Em vão bemfeitor miolo 
Lhe esfrega o quarto offendido ; 
A minha chorosa mana 
Dá o caso por perdido; 

E se assim me apresentasse 
A tão alta companhia, 
As suas nódoa» seriam 
Manchas da seda, e do dia : 

Do tempo a fouce rai\osa 
Não me da só um revez ; 
Além de me fazer velho, 
Faz-me também descortez ; 



— lOf- 

Mas ello honrou hoje o mundo ; 
Sois do mundo ornato, e inveja; 
Deu hoje mais uma paga 
Á illuslre casa de Angeja. 

Sua mao, qne aperfeiçoa 
Altos dons da natureza, 
A uns lindos, modestos olhos 
Váe augmentando a belleza; 

Altéa a airosa figura 
Sobre a das Graças moldada ; 
A uma alma a mais digna e nobre 
Dá a mais digna morada : 

Justo tempo, eu abençoo 
O teu poder desegual ; 
E em honra de tantos bens, 
Eu te perdoo o men mah 

Cem vezes nas tuas azas 
Nos mande e«te dia o ceo ; 
As virtudes o consagrem 
Nos altares de hymeneo. 

E vós, illustre senhora, 
Perdoae coletes rotos; 
Valem mais, que inúteis sedas, 
Puro incenso, puros votos: 

Quiz mandal-08 em bons versos ; 
Soou em vão meu topete; ^ 
Fui achar a minha musa. 
Como achei o meu colete. 



^^®i 



m 



U itMáUpin Stbnlili liltiii Uh'A. 



\ 



Bom Sobral, o que eu le disse . 
É, a meu pesar, verdade; 
Sonoros, amenos versos, 
São obfavda mocidade: 

Mandaste aue em Grescetitiní, 
LoQvando a (foce hariifonia, 
O que o mundo diz em profta. 
Eu lho enfeitasse em poesia; 

Que invocando as brandas musas, 
Encostada ao peito a iyra, 
Cante os ternos sentimentos. 
Que elie nas almas inspira; 

Moço Sobral, lu ignoras 
Da inerte velhice os damnos; 
iN'esta fria testa brigam, 
(7o teu preceito, os meus annos: 

Que importa, que a uma orelha 
 tua voz respeitada 
Me mande aflnar a lyra 
Ha dez annos pendurada. 



— lOi — 




Se á ouli*a me diz Apollo, 
Que eu sou já dos reformados; 
Que em seu tribunal não tornam 
A servir aposentados? 

Longa edade, é longo mal , 
Velho, só é bom o amigo; 
O teu mesmo Creseentiní 
lia de provar o que eu digo : 

Este homem, que a seu arbitrio 
Move as humanas paixões; 
Que traz na sua voz o sccptro 
fios sensíveis corações; 

Que nos deixa duvidosos 
Quae^ forças maiores ^o, 
Se os encantos da harmonia, 
Ou se a viveza da acção; 



— 105— 

Que em mim, que sou homem duro, 
E rebelde á» leis primeiras; 
Que nao choro nos mais homens 
As desgraças verdadeiras; 

Que, insensivel, vi no cire4) 
Burlesco Neto arrastado 
Deixar co'a rota cabeça 
O terreno ensanguentado; 

Que vejo com olhos seccos, 
Com lirrae semblante inteiro, 
Fugir-me n'um parolim 
O meu ultimo dinheiro; 

. Que em mim, digo, arranca pranto; 
Que amolga um peito de seixo; 
Que muita vez c'o chapeo 
Encubro o trémulo queixo; 

Que quando dos tenros filhos 
Chorava o triste destino. 
Tinha este peito de bronze 
O coração de Sabino; 

Este homem, que solto o panno. 
Vivas vem á forra ouvir; 
Se cantar de hoje a dez lustros, 
Em vez de chorar, faz rir: 

Sobre os levantados ares 
A envergonhada harmonia. 
Batendo apressadas azas. 
Do seu filho fugiria; 

E o Jerónimo ^* estendido 
Co'as pernas nos tamboretes. 
Cabeceara entre as rimas 
Dos ociosos bilhetes: 



i ) o TMd«dor do» bilhetei. 



-101- 

£ cuidavas lu, que a fouce 
Que a lae^ dous ha de púr Um, 
Que ha de ferir Creacenliui, 
Me tinha poupado a mim? 

Se eu hoje fosse aos outeiros, 
Onde já tive elogios, 
Uir-me-hiam cruéis verdades > 
Mil sinceros as^bios: 

Este génio dos poetas 
É fugitivo, e mesquinho; 
Á primeira can nos deixa 
Na ametade do caminho: 

Não é irmão do teu génio : 
Esse estende mSo segura ; 
Acompanha os seus validos 
Á borda da sepultura; 

Fará que sempre as desgraças 
Em tristes peitos emendes; 
Que sigas sempre os exemplos, 
Que dentro de casa aprendes: 

Lastima, pois, minhas rugas, 
Que até me causam o mal 
De faltar ao teu preceito, 
E a louvar um homem tal ; 

Mas vasto, cheio theatro. 
Que elle encalma em tempo frio, 
Falia melhor, que dez odes, 
É mais útil elogio; 

E n'elle estas velhas naâos 
Co'as forças que nascem d'alma. 
Darão, em logar de versos, 
Muito pinto, (^ e muita palma. 



i ) Cnuado noTj. 



-IW- 



!• étiHAté» iNiiifit Fim iNlfiri Ridrira. 

A li, amável Bandeira, 
Partidista da verdade, 
È de qurim tenho mil provas, 
Que o és também da amizade; 

Que são philosopho víves^ 
E o mesmo morrer protestas, 
À excepção de me dares 
Bilhete de boas festas ; 

Tolentino firme amigo 
Inda quando o mundo caia, 
E a quem obrigas a seM) 
Desde a ma da Atalaia^ <* 

Deseja pura alegria, 
Saúde, e muito vintém; 
Deseja-le tudo aquillo, 
Que elle (piasi nunca tem. 

Pois que chuva e negros ventos 
Me fecham a porta e o dia, 
E em casa apontam cuidados, 
Redobrada bateria; 

Pois- que a horrível solida 
Aviva a idéa cruel 
Da gavela, vão sepulchro 
Do agonisanle quartel ; 

E.a engenhosa hypocondria 
Me mette no antigo empenho 
De jurar, que eslou morrendo 
Das moléstias que não tenho; 



i) 



— 108 — 

Vou ver se posso esqiiivar-me 
A tanto mortal immígo, 
Acolhende-nie ás lembranças 
Do nosso bom tempo antigo! 

Tem a solta fantasia 
Farto, milagroso armário; 
Gura-me penas reaes 
Com prazer imaginário; 

O noâso bom tempo antigo, 
Quando alçando a torva fronte 
Jantava Quintiliano 
A mesa de Anacreonte, 

Quando nos brilhantes copos 
Do casto, herdado Gorisos, <^ 
Iam mergulhar as azas 
Os prazeres com os risos; 

Quando em renhidas disputas 
Mettias traidora mão, 
Sendo o motivo da guerra 
Solapada mangaçáo; 

E sem haver lindos olhos. 
Sem haver ondadas tranças. 
Doudos com doudos teciam 
Turbulentas contradanças: 

Quando o assustado ministro. 
Que as margens do Douro trilha, 
Pôde salvar da procella 
A sua estimável bilha; 

Clama em vão por tao bom tempo 
Minha discreta saudade ; 
Doce, fugitivo tempo, 
Da nossa dourada edadel 

i ) IVmm d« ama qninU do ami^io, ■ qnem o anctor ncrtria, ■ qual pradoiia bon irlobo. 



— 109 — 

Ante meus olhos saudosos 
Cruas azas despregou ; 
E em cambio ae tantos bens, 
Cans e rugas me deixou. 

Só tu podes, caro amigo, 
Vii-ar-lhe o vôo apressado ; 
E fazer que elle me traga 
Outra vez o meu reinado: 

Não peço bruxos prestigies, 
Basta ouvires meu alvitre, 
Põe a rua da Atalaia 
Na calçada do Salitre: (^ 

Prepara farta vingança 
A meus compridos jejuns; 
Lança em nome da amizade. 
Mais nozes aos teus peruns; 

Lance fumo a faca tinta 
' Nas victimas degoUadas ; 
Revoem pelo quintal 
As pennas ensanguentadas; 

« 

Tornem a dar os teus lares 
Guarida á minha desgraça; 
Tornem a ter teus amigos 
Polido Isidro ^^ de graça ; 

Váe na franca, lauta mesa, 
Versos ouvindo, e tecendo; 
Entre as musas, entre as graças 
Váe, a rir, empobrecendo; 

Correntes do Douro, e Rheno 
Escaldem meu estro fraco; 
Abram-me o templo de ApoUo 
Atrevidas mãos ae^Baccho ; 

1 ) o iMtor JuiUTa moitas TezM na ma da Aulaia em caia do amigo, a quem eacrcTa, o 
ú ta ■■dau para o Salitre, 
1) CuaAipaalo. 



— 110 — 




V^^T^^ 



J^ y-VjcV 



Solte o rosado taful 
A falsa eloquência sua ; 
£ marche pelas sciencias 
Como marcha pela rua: ^^ 

É alma das companhias; 
Alegres mesas governa ; 
Depois de estar assentado, 
Não conheço melhor perna: 

Tomando amolada faca 
Teu sisudo capitão, 
Nos demonstre, sobre um lombo, 
A guerra da Rossílhão. 



i) Coxeava. 



—111 — 

Aliza assim, t*aro amigo, 
Meu velho, engelhado couro; 
Manda ás Parcas, que o roeu fio. 
Já que é curto, seja de ouro. 

Dá brando ouvido a meus rogos; 
Teu bom peito em bem os tome; 
Não te falia vil lisonja, 
Falla-te a amizade e a fome. 

E tu, dia tormentoso, 
Que abalaft velhas trapeiras. 
Que o telbado me arripias, 
Que me ensopas as esteiras ; 

Que em meus rheumalicos ossos 
Assentas pesado açoite; 
. £ sobre medonhas nuvens, 
Me mandas de tarde a noite; 

Serás o dia mais alvo, 
Que em meus largos annos levo, 
Se for aceeita esta carta, 
Que á tua má luz escrevo ; 

Chamarei zephyros brandos 
A teus roucos ventos frios. 
Se hoje resolve o Bandeira 
Dar de comer a vadios. 




— 112 — 



A D. CiUMrína licluda de Stm, depiis da gMrra de im 



Quando de meus largos annos 
Revolvo a chronica antiga, 
Vejo mil outras- desordens, 
Porém não vejo uma briga. 

Zunindo ao sair da eschola 
A usada mutua pedrada, 
Era meu paiz neutral 
Á primeira aberta escada. 

Se em honi*a de lindos olhos 
Na esquina o lenço puxava. 
Em vendo brigão cadete 
Logo o campo lhe largava. 

Jurando um ódio eterno 
A turbulentas pancadas, 
As que levei e as que dei 
Foram só palmatoadas. 

D'aqui, senhora, vereis 
Qual eu tinha o coração. 
Vendo o flagello da guerra 
Dentro da minha nação. 

Guerra, detestável arte, 
Escarneo da humanidade. 
Que a rios de sangue humano 
Põe nome de heroicidade ! 



-113- 

Eu não YÍ em campo armado 
Fuzilar cruenta espada, 
Não vi contra inerme peito 
Accesa bocca apontada. 

Mesmo entre os caros penates 
Acerbos males sofiría, 
Uns eíTeilos da verdade, 
Outros da melancolia. 

Jà me suppunha marchando 
Com ferrugenta espingarda 
Um dos burlescos soldados 
Da herege paizana guarda. 

Arrostando ventos frios, 
Me pintava a fantasia 
Constipada sentinella 
Á porta da cordoaria. 

Outras vezes junto à jninha 
Suppunha immiga fileira, 
Pedindo com arma á cara 
Casliçaes e cafeteira. 

Vi a desgrenhada irmã 
Entre (iscaes atrevidos. 
Ir tirando das roupinhas 
Os talheres escondidos. 

Vi feroz bárbaro esbirio 
Alçando fataes despachos. 
Para levar-me depressa 
Os meus vagarosos machos. 

Vi com peito enternecido 
Meu alvar, mas bom rapaz, 
O qual veiu despedir-se 
Com seu tio capataz, 



-114- 

fírossos í^patos ás cosias, 
Russo chapeo desabado, 
O louro nascente buço 
De grato pranto banhado, 

Chorar sobre a mão amiga. 
Que lhe leva para a terra 
Niza tal, que parecia 
Já um efleito da guerra. 

Contra mim (a em Galliza 
Dar ao matador fuzil 
Pobres hombros que cresceram 
Debaixo do meu barril. 

Entretanto illustro mão 
Ditosamente alcançava 
Fazer-me cessar os males, 
Que eu via, e que imaginava. 

A paz, a fugida paz 
Ás suas vozes cedia, 
E para os campos de Marte 
As brancas azas abria. 

Em quanto formosos dTlais 
Os mansos ares fendendo, 
A acabar-lhe a digna obra 
De outros ceos nos vem descendo, 

Abraçae, senhora, o esposo, 
Cujas razões ponderosas 
Mortaes sustos dissiparam 
A tantas mães lacrimosas. 

Cinjam demorados braços 
O feliz consorte amado. 
Que entre nos illustres tectos 
De oliveira coroado. 



-115- 

Saudosa gentil esposa 
Isto ao vosso filho Taz, 
Deu-lh'o uma vez o hymeneo, 
Outra vez lh'o dê a paz. 

Em quanto as mercês d'AugU8(o 
Lhe honram o util talento, 
E pelas mãos da justiça 
Lhe coroam o merecimento; 

Em quanto em sonora lyra 
Lhe daes gratos tributos, 
(untando da paz dourada 
Sérios vantajosos fnictos; 

Eu^ a quem já voltam costas 
As fugitivas Camenas, 
E que só imito a Horácio 
Nas libaçOes a Mecenas ; 

Levantando em limpo copo 
Sumo de maduros cachos, 
Brindo a m3o que torna a dar-me 
O meu gallego e os meus machos. 

E n'elfes, no único passo. 
De que sei que são capazes, 
Sairei apregoando 
Os elogios ^e as pazes. 




— 116- 



RopMU a UM urli, %m eu bta piwta ciUn • aictor ^r us iwim 
%» tiib prmettidt 



Á tua polida carta, 
Que honrou um poeta raso, 
Escriçta em pura linguagem, 
£ assígnada no Parnaso; 

Da mais injusta ambição 
Traz testimunhos lieis; 
Possues grossos Ihesouros, 
E citas-me por dez réig? 

Quem do doce Anacreonte 
Bebeu o estilo divino, 
Quer prostituir seus olhos 
Co'as trovas do Tolentino? 



Pago, em íim, divida louca; 
Mas quem quer pontualidade. 
Cuide também em pagar 
As dividas da amizade; 

Sabes que intento imprimir; 
E porque o povo não fuja, 
Saoio amigo, emenda, risca. 
Põe sabão na roupa suja: 

Não te vendo falso incenso; 
És juiz da confraria ; 
Oxalá que altos negócios 
Se tratassem em poesia; 

A paz, a fugida paz, 
Voltài-a seu alvo collo ; 
E dera brandos ouvidos 
A branda lyra de Apollo: 



\ 



— 117 — 




Resiste humana cabeça 
Á mais discreta razão; 
Mas ao poder da harmonia 
Não resiste o coração: 

Faze, pois, o que eu te peço; 
Que inda que ha votos diversos, 
Se lhe pões a tua lima, 
Quem morderá nos meus versos? 

Dá-lhe, depois, teus louvores; 
Compi-arà toda Lisboa, 
Se uma vez te ouvir dizer: 
«Que comprem, que a obra é boa. » 

Farta-me a bolsa ; e se queres 
Ver também minha alma farta, 
Manda riquezas de Athenas 
Embrulhadas n'outra carta. 



— 118- 




Teadi uiMi um íum ai aiictir riihi dt lidúra, têm uu carU ea bia fêrni 



Um humilde admirador 
Da vossa bondade, e estilo, 
Beija a carta preciosa, 
Que veíu honral-o, e instrui]-o : 

Desde hoje, do mestre Horácio 
Minha alma a lição escusa; 
Quiz a minha bemfeitora 
Ser também a minha musa: 

De Uno licor mandastes 
A minha cava prover; 
A vossa mão generosa 
Sabe dar, como escrever : 

Á parca mesa assentado. 
Em vinho, e carta pegava; 
la bebendo, ia lendo, 
E tudo me embebedava : 

Deixo o velho Anacreontc, 
Hoje mettido a um cantinho; 
Sua mesa nunca teve 
Tão bons versos, tão b(»m vinho: 



-119- 

Se os teve, vós os roubastes 
Por minha felicidade; 
Jà cá tem o vinho, e os versos 
Quem d'elle só tinha a edade: 

Das escumas do Madeiía 
Vejo nascer a alegrisf; 
Com as azas afugenta 
A minha melancolia: 




Jà se perturba a cabeça; 
Jà tenho emprestadas cores; 
Jà começam a esquecer-rae 
As moléstias, e os credores : 



— ito— 



o tal Horácio enganou-se; 
Não conheceu a parreira; 
Não se chamava Falerno; 
Se era bom, era Madeira: 

É bom, mas tira o juizo; 
Mandae-mo, em vez de o beber; 
Não se arrisque n'este joffo 
Quem tem tanto que perder. 




— Hl 



Pediid»-4t M locUr ma f Usi 

Menino, dizer finezas, 
Só o próprio pretendente; 
Amor não póae imitar-se, 
Só o pinta quem o sente: 

Se adora alguma Nerina, 
Se é para ella a tal glosa. 
Que vão fazer os meus versos, 
Onde está a sua prosa? 

Além d'isso, essa figura, 
Faces tenras, e coradas. 
Faliam mais discretamente, 
Que mil cantigas glosadas; 

Lenço nas pontas bordado, 
Cídó, tísicas Avelas, 
SoDre um corpo assim talhado, 
Se eu gosto, que farão ellas? 

Versos são mui fracas armas 
Para vencer corações, 
É clara a letra redonda, 
Leia a vida de Camões: 

Sua divina poesia 
Teve mui curtos poderes; 
Trataram-no mal os homens, 
E inda peior as mulheres: 

Pois entra de amor na estrada. 
Siga n'ella outro farol; 
Embuce-se a uma esquina, 
Soffra chuva, soffra sol : 



Erga alli o altar do amor; 
Queime alli humilde incenso ; 
Suba ao alto do capote 
Branco, alcoviteiro lenço: 

Que imnorta que os sapateiros 
Dèm assooio insultante, 
Se os negócios vão marchando 
Com passadas de gigante? 

Cem vezes na mesma tarde 
Pize esbelto a feliz rua; 
Alheias cadeias de aço, 
Relógio de hollanda crua: 

Vá por aqui, que por versos 
Dá em vão loucas passadas; 
São divertimento inútil. 
São as historias das fadas: 

Inda que para cantal-os 
Lhe desse Garção a lyra, 
Como hão de crer-lhe verdades 
Na linguagem da mentira? 

Seja acérrimo chorão; 
Pranto entendem raparigas; 
Faça em lagrimas seu fundo, 
E não o faça em cantigas: 

Palêe comestes remédios, 
Pois não tem o verdadeiro; 
É elle (aqui em segredo) 
O milagroso dinheiro: 

Mas se teima em pedir versos, 
E conselhos não supporta, 
Então perdoe, meu menino. 
Pôde bater a outra porta. 



. » M.H x«*'» * ^«X 



Mas brtPTtKoecto o rxMiu>iu^ 
Beíiae isso ao inou \uui<iiio: 



Mostra i^ erivs da >olhioo; 
Põe alguns volhos a nis^i; 
Custou-me poiíot» a pintura, 
Por ter as tinias do nisa: 

Que já um aniigi» o viu, 
Eu, senhora, vos voud^Hm, 
Porém nioslrri-llio ííiíIíj í-w <'ííU« 
Como eu Vàiulxm Hm* íip|i;iHr" 

Vós s^iis íJe ínai- ^miuotii^ , 
E pesa<*> í*om /íi>íí- ''/''' 
Temi. qu*' -"ín - ' '" ''""* 




— m- 

De tão alto voto espero, 
Que geral favor me traga 
A uns versos, que antes de lidos 
Tiveram tamanba paga. 

Ao favor de ra'os pedirdes. 
Honra, que eu não merecia, 
Ajuntastes o thesouro 
De m'os pedir em poesia: 

Que fáceis, que amenos versos! 
Trazem das musas o bafo; 
A moral os faz ser vossos, 
Que quanto ao mais são de Sapho: 

Só na pintura dos annos 
Errou essa mestra mão. 
Porque inda que era em poesia, 
Foi puxar muito a ficção; 

A doce, egual harmonia, 
A imaginação fogosa, 
Depozeram contra vós, 
E vos chamam mentirosa. 

Se occulto, physico acaso 
Branqueou uns fios de ouA), 
Vosso vingador Apollo 
Os cobre de myrto, e louro: 

Quem marcha ao lado das Graças, 
Não sabe o que é fria edade; 
Deiíae-me dizer a mim 
Essa funesta verdade; 

É em mim que o voraz tempo 
Já empolgou a mão forte; 
Se inoa me mexo em poesia, 
É já co'a anciã da morte; 



— 145 — 




Cedo raivosos credores, 
A quem não curei as chagas, 
Darão a meus frios ossos, 
Em logar de pranto, pragas; 

E outros, a que a carapuça 
Mesmo, sem mira, não erra, 
Dirão com gosto ao coveiro 
cEnche-lhe a bocca de terra.» 



Mas tudo perdoarão 
Minhas sepultadas cans. 
Se de cypreste as cobrirdes 
Vós, e as vossas oito irmãs. 



If6 — 



A« jiix d« críae de Aidalai daid^-lk Mte ^ii« qoe esUri ^ra ctur e 
■tstraid»-llM Tersos qm &era I míti 



Manoel, muda o cuidado, 
Abafa essa chamma ardente: 
Não falia úm sãa a um doente; 
Falla-te outro experimentado. 

Já servi ao deus do engano. 
Forte com forças alheias. 
Passei nas suas cadeias 
Apoz um anuo outro anno. 

Prometteu-me alto favor; 
Mas sabe, pois que começas, 
Que o que tive das promessas 
Foram lagrimas e dor. 

Não te deixes enganar 
Do rosto brando, e sereno : 
Tempera em riso o veneno ; 
Afaga para matar. 

Com mil modos attractivos 
Chama a cega, e incauta gente: 
Lança-lhe dura corrente, 
E escarnece dos cativos. 

Gomo trata os infelizes. 
Que andou outr^ora amimando. 
Meu peito to está mostrando 
Westas frescas cicatrizes. 



-1Í7-- 

Até em cousas de peta 
Quer mostrar o seu ngor: 
Faz entrar n'um prosador 
A mania de poeta. 

Mas esses laços que trazes, 
Dom d'esse deus inimigo, 
Talvez que sejam castigo 
D'outras prisões, que tu fazes. 

Fere a muitos tua mão, 
Inda que tanto a reprimes, 
E vens a pagar tens crimes 
Com pena de Talião. 




— 128 — 



Actmlhiidf 1 IH ctbelleinirt qne debauri t tocau baidtlia, jm li* ctitiiBin 
a fazer Tenai 



Pois que o talento inquieto 
Até em poesia provas, 
E queres ás mais desgraças 
Ajuntar desgraças, novas; 

Pois que em galantes cantigas 
Teu rival puzeste raso, 
E coroado de trovas 
Vás entrando no Parnaso ; 

Quero em trovas avisar-te. 
Que ha baixios n'esta baira; 
Vou ser pregador trovista. 
Vou ser um novo Bandari*a ; 

A occupação do poeta 
É nobre por natureza; 
Mas todo o offlcio tem ossos, 
E os d'este são a pobreza: 

Os dentes do bom Camões 
Sejam fieis testemunhas; 
Muitas vezes esfaimados 
Nâo acharam senão unhas: 

Depois que seus frios olhos 
Se fecharam no hospital, 
Logo as (ilhas da memoria 
Lhe ergueram busto immortal : 



-H9- 

De que serve honra tardia? 
Bem sei, que o rifôo vem torto; 
Mas faz lembrar a cevada, 
Que se deu ao asno morto : 

Só as musas o choraram ; 
E o enterro devia ser 
Como hoje nos pinta o Lobo 
O do João Xavier. » 

Homero, o divino Homero, 
Honra de antigas edades, 
Por oajos inúteis ossos 
Brigaram sete cidades; 

Doces versos recitando, 
Pela Grécia discorria ; 
Tinha os thesouros de Apollo, 
£ esmola aos homens pedia. 

Mas se de auctores antigos 
Tens tido poucp exercício, 
Eu te aponto um bem moderno, 
£ até do leu mesmo ofllcio : 

Foi este o famoso Quita, 
A quem triste fado ordena, 
Que a fome lhe traga o pentem, 
£ da mão lhe tire a penna: 

Em quanto na suja banca 
Pobre tarefa tecia, 
Seu espirito sublime 
Sobre o Parnaso se erguia: 

Cozendo sobro o joelho 
Km (lura, falsa caveira, 
A sua alma conversava 
Com Bernardes, e Ferreira: 



-130- 




Mil vezes travessas musas 
Da baixa obra o desviam; 
£ mostrando-lbe o tinteiro, 
Pós, e baiíha lhe escondiam: 

Mas de que servem talentos 
A quem nasceu sem ventura? 
Yale mais, que cem sonetos, 
A peior penteadura. 

Amigo, vamos errados; 
Escolhemos muito mal; 
É o fado dos poetas 
Não professarem real: 

Pega no pardo bai*alho, 
E sobre a cama assentado, 
Fisga as biscas conhecidas 
Ao parceiro descuidado: 







Fóde uma vara de tila. 

liais que a Ilíada de Hoiiktu. 



lao 



Matando boçaes tafues, 
Váe mexendo os papelinhos, 
Nem poupes no cadafalso 
As gargantas dos sobrinhos. 

Em lhe vendo uma de seis, 
Arma-lhe os laços viscosos; 
Antes que lhe caia a xina 
Na ceira dos laparosos: *^ 

Imita ondados cabellos 
Co rubro lápis na mão; 
Estas pinturas dão xina, 
As da poesia, não: 

Se em roda de louras ninfas 
Giram em torno teus ais, 
Em quanto lhes deres versos, 
Acharás sempre vestais: 

Fallo como experimentado; 
Fallo com peito sincero; 
Pôde uma vara de titã, 
Mais que a lliada de Homero. 

No sonoro bandolim 
Fortuna as armas te deu ; 
Não ha dama uue resista 
Á moda do Melibêu: 

Toca-lhe mil contradanças; 
Mas se não tiverem dom, 
Entre ellas não sevandijes 
O Fidalgo Cotilhom.-) 

N^estas cousas é que eu creio; 
Poesia c mal fadada; 
Assenta, amigo Luiz, 
Oue nunca serviu do nada: 



t ) FiuiM i>atsadu«. 

i ) (^U4ilaiiCii A**iiu iImmuJ.i 



— 134 — 

Poucas damas a conhecem ; 
Se a pedem, e se a festejam, 
Gostam do que não entendem, 
Pedem o que não desejam: 

Inda que por moda querem, 
Que lhes repitam versínhos, 
Tem por modas de mais gosto 
Convulsões, <^ e josésinhos: 

Uma Vénus me pediu. 
Por quem inda eu noje peno, 
Que lhe fizesse um soneto, 
Inda que fosse pequeno: 

Dinheiro, invicto dinheiro. 
Só em ti é que eu me fundo; 
Tens o direito da força, 
És o tyranno do mundo. 

Amigo, escolhe um paralta, 
Corpo esbelto, perna tesa, 
O cnapéo tocando as nuvens. 
As fivelas á malteza; 

Ornem-lhe louros canudos, 
Pendentes com effualdade, 
Tenras faces, onde moram 
A saúde, e a mocidade; 

Chegue á bocca rubicunda 
Cheiroso lenço anilado; 
Dè bilhetinho discreto, 
De uma novela furtado; 

Põe da outra parte um ginja. 
Fivela de ouro no pé, 
Bom vestido de lemiste, 
Boa meia grudifé; 



1 ) Ctrto vnluario. 




v.^iTÍ^ 



Dinheiro, inyido dinheiro, 
Sò em ti é que eu me fundo. 



132 



— 13:) — 

Com ÒchIos no nariz, 
Mas com a penna na mão, 
Âssignando vinte letras 
Para Londres, e Amsterdão; 

E dize-me, qual assentas, 
Que será o mais querido? 
Aposto que as damas todas 
Cuidam .que o velho é Cupido? 

Amigo, tenho acabado 
O meu comprido sermão; 
Préguei-le as altas verdades, 
Que trago no coração: 

Abre mão das poesias, 
Que nenhum préstimo tem; 
E cuida (»m sólidos meios 
De ganhar algum vintém: 

Se dizes, que contra os viersos. 
Em verso uma carta ordeno, 
E que aqui me contradigo. 
Praticando o que condemno; 

A teu forçoso argumento 
Respondo com frei Thomaz; 
Faze o que o pregador diz. 
Não faças o que elle faz. 



W' 



^%^^U'^$^^ 



f 



— lífl- 



Sefldo o aoctir coividtdt pira MTÍr ustir na Miht ra 

Nunca vi essa senhora; 
Mas para saber que encanta, 
Ou seja bonita ou feia, 
Basta-me saber que canta. 

Também n3o sei do seu génio; 
Mas ainda a ser feroz, 
Não importam más palavras, 
Se ella tiver boa voz. 

Inda no caso de feia. 
Por cantar agradaria. 
Muitas vezes vrta amor 
Sobre as azas da harmonia. 

Mas da tal nympha (encoberta 
Que alma ficara segura, 
Se além do dom da harmonia 
Tiver o da formosura? 

Falle n'isso auem o sabe, 
Que em mim so falia o desejo; 
Por minha grande desgraça 
Nem a ouço nem a vejo. 

Só sei que, se tem amores, 
Nâo lhe ha de fazer traição: 
Quem é Cândida no nonle 
Deve-o ser no coracíio. 



— 135- 



ftesodfiBdt-se o anctir de ilo ir a nos auis 



Senhora, em honra do dia, 
Esforçando a mão pesada, 
Tomo a lyra, ha longo tempo 
Ao silencio consagi-ada; 

E em quanto lhe alimpo as cordas, 
Que bolor aos dedos dão, 
E atarantadas aranhas 
Despejando o bôco vão ; 




^s^^à£^. 



, Cos olhos ao ar alçados 
A minha musa pedia 
Me desse sonoros versos, 
Dignos de Apollo, e do dia; 



— 13(5- 

Ouo me ensinasse a louvar 
O (líloso nascimento, 
Oue ao vosso brilhanle sexo 
Trouxe mais um ornamento; 

Que pintasse a loura Vénus 
Vosso rosto bafejando; 
Que me mostrasse as três Graças 
U rico berro embalando; 

Que me ensinasse a cantar, 
Cingida a lesta de loiro, 
Uns claros, triumpbantes olbos, 
Uns linos cabellos de oiro; 

Que me lizesse augurar, 
Rasgando ao futuro o vêo. 
Amor consagrando as setlas 
Nos altares de llymeneo: 

* Mas as musas, como as nymphas, 
Tem para mim os pés mancos; 
Fogem de trémulas vozes. 
Tremem de cabellos brancos: 

Fiquei, pois, desamparado; 
K merecendo (íesculpa. 
De não vos mandar bons versos. 
Peço perdão, sem ter culpa; 

Sei <jue devia ir pedil-o 
Hespeitoso e diligente; 
Mas impode-iue essa honra 
Um defluxo impertinente; 

K (|uem em casa traz botas, 
K vinte xaropes bebe; 
K, (|uando sae, sae nicltido 
N'uma loja d^algibebe; 



.,i.'.Ul 




Que pi n lasse a loura Vénus 
Vosso rosto bafejando ; 
Que me mostrasse as três Onças 
O rico berço embalando. 



136 



-137 — 

Se fosse em tempo invcrnoso 
Entrar na illustre assembloa 
Com leve, ingleza casaca, 
Fina, transparente meia; 

Sem acabar comprimentos, 
Logo o corpo arripiado, 
Gelada a voz sobre os beiços, 
Cairia constipado; 

£ o Marcos, largando os bules, 
Pondo o velho em quentes pannos. 
Entre os applausos dos vossos 
Praguejaria os meus annos: 

Vossa bondade não quer 
Pôr o cortezão em risco, 
De ir com habito de Christo, 
E vir no de São Francisco: 

Acceitae d'ahi meus votos; 
D'aqui a mão vos beijei; 
E dos doces que nâo como, 
Domingo me vingarei; 

Darei escumantes copos 
Ao perum e aos molhos seus; 
Brindarei os vossos annos. 
Tratando mui bem dos meus. 



— 138 — 



0flerfc«a^ oa pernin ra usa iide tidos os doaiflfos útnm ao aictor oito pitt 



Senhora, também um, dia 
Entrarei co*a frente erguida; 
Não serei na vossa mesa 
Dependente toda a vida; 

Nem sempre abatido pejo 
Dirá n*esla cara feia 
Quanto doe a um peito altivo 
Matar fome em casa alheia: 

Airoso, gordo perum, 
É meu soberbo presente; 
Traz inda as pennas molhadas 
Co pi-anto da minha gente; 




— 139 — 

No sanlo dia esperavam, 
Quebrando antigo jejum, 
Cravar inexpertos dentes 
N'este primeiro perum; 

A russa, magra Josefa, <* 
Ergueu queixume sentido; 
Custou-lhe mais esta ausência, 
Que a do defunclo marido: 

O louro, alvar gallcguinho 
Chegou aos olhos seu trapo; 
Tinha vistas sobre a carne, 
E muitas mais sobre o papo. 

Seu almoço requerendo 
Em luzindo a madrugada. 
Na esquerda, grossa fatia 
D'ambias as partes barrada; 

Na dextra, com branda cana 
O seu pupillo guiava; 
Em tenras, publicas malvas. 
Para si o apascentava ; 

Quando lhe mandei trazer-vos 
O bom companheiro seu, 
Pedindo-me coxos mezes. 
Me disse, que o trouxesse eu. 

Eu o trago; a offerta é pura. 
Mas a tenção a envenena; 
Traz escondida uma usura, 
Maior, que a da meia sena. 

Com um sorriso acceitae 
O atraiçoado convite; 
Vem a morrer uma vez. 
Porque muitas resuscite. 



(2 



1) Criadi. 

3) Pwtido dr jogo. 



— 140 — 

Curao todos os domingos 
A nimha doença interna; 
Sobie a mesa milagrosa 
Sija esta avo, uma ave eterna: 

De oulra que Unge a poesia, 
Trocae em verdade a peta; 
E s(»ja um negro perum 
A plienix doeste poeta: 

Na ondada, pia toalha, 
Co'a benção da vossa mão 
Seus frios, despidos ossos. 
De carne se cobrirão: 

Consenti, que este ôco peito 
Ao prodigio se consagre; 
E que dentro em si colloque 
A mór parte do milagre; 

Quanto ao padre pregador, <^ 
Meu voto é não convidal-o; 
Porque ha de comer o assumpto, 
Muito melhor que prégal-o. 




i ) Capcitto d» rasa. 



— 141- 



Af ra4MCid« alfois ^riUs, que desperlarui a Toiladi de ceatr 



Senhor, a dada perdiz, 
Âcerejada e fresquinha, 
Veiu emendar os estragos 
Da enjoativa gallinha: 

Esta ave é sempre odiosa 
A melancólicos dentes; 
Faz lembrar últimos caldos 
De já perdidos doentes: 

É, além d'isto, um cruzado 
Fugido do mealheiro; 
Este meu iportal fastio 
Custou rios de dinheiro: 

Mas da vossa lauta mesa 
Bocados medicinaes 
Foram tão bem applicados, 
Que me curaram de mais : 

Venceu vosso cozinheiro 
O tal fastio cruel; 
Meu estômago já pede 
Meças com frei Manuel : 

Mas, senhor, vossa piedade 
Váe ser-vos um dom fatal ; 
Quizestes fazer um bem, 
Que redunda em vosso mal ; 



-14Í- 

Fízestes nascer a fome, 
E a fome pede mantença; 
Se a deíxaés entregue â mim, 
Pôde morrer á nascença: 

A vossa IH ha amparae; 
Não é de peitos honrados 
Pôr as suas creaturas 
Na roda dos engeitados. 

Em soando as duas horas, 
Sabei que esta cara minha 
Tem longos, ávidos olhos, 
Fitos na vossa cozinha: 

Eu não vou, porque inda fraco. 
Indo arrostar ar delgado, 
Antes de matar a fome. 
Morreria constipado. 







— 14S — 




Oitri if radecweit* ats prates qnc abriraa • a^tile 



Senhor, assim que eu largar 
A baelal fatiota minha, 
Vou beijar as pias lágeas 
Da vossa farta cozinha: 



Não foi attento hespanhol, ^^ 
Receitando amarga quina, 
Quem venceu meu mal co'as armas 
Da fallivel medicina; 

Vós sabeis traçar receitas 
Mais gratas, e mais felizes: 
Curaram-me oppostos males 
Bem applicadas perdizes ; 

Umas o appctite abriram, 
Outras socego lhe dão ; 
Sararam as duas chagas 
Co pello do mesmo cão. 

Dizem línguas inimigas. 
Que esta doença é ficticia; 
E os práticos do meu pulso 
A capitulam malicía. 



i) 



-144- 

Que em meu capote abafadas 
Estas guelas felizes, 
Em vez de cozerem ^lymphas, 
Estão armando ás perdizes. 

Senhor, não devo atalhar 
Este conjurado assedio; 
Porque era provar doença. 
Ingratidão ao remédio; 

Só digo, que não ganhaes. 
Dando ouvido ás vozes suas; 
Aqui daes-me uma perdiz, 
E se lá vou, tiro duas. 




-Ii5 — 




ItUidt • anelar d«fi(e e nandind» pedir algnn pralo á meia indt ÍMlava na Itif« 
arrabido fe$||o, qne oaira tere (astU 



Dm estômago cançado, 
De cuja antiga ruina 
Tem sido causas cguacs 
A moléstia e a medicina; 

Que tendo em si dos três reinos 
As perigosas heranças, 
Só não bebeu das boticas 
Os São Migueis, e ^s balanças ; 

Um estômago sem forças, 
E ás leis geraes infiel, 
Que não trabalha em diamante, 
Como o de frei Manuel: 



Que não lem, como este padre. 
Tanta fome obediente; 
E olha já para a gallinha 
Como elle olha para a gente; 

Para emendar semrazões, 
Que faz arte e natureza, 
Váe, fugido das boticas, 
Acoutar-se á vossa mesa: 



Míl vezes por outra causa 
Teve a honra de buscal-a; 
Indo então por matar fome, 
Váe hoje por despertal-a: 

Perdiz, ou branda vítella, 
São d'este remédio o nome; 
Da vossa esplendida mesa 
Seja elogio uma fome; 

£ porque o padre o não saiba, 
Será a melhor cautela, 
Mandar tirar a iguaria 
Quando elle olhar para ella. 




— 147 — 



I ana preU que pretendia qae a obsequiassea 



Domingas, debalde queres, 
N'esse canlo da cozinha, 
Vencer a invencível leima 
Da rebelde carapinha : 

Em vão te arripia a frente, 
De que zomba o deus de amor, 
Alvo colo de pomada. 
Furtado do toucador: 

Debalde tufado laço 
De atadeira íita inglêza 
Te assombra a leveda pó|)a, 
Riçada por natureza. 




-148- 

Debalde altèas as ancas, 
Esmiias, e enganadoras; 
Co as velhas algibeírínhas, 
Que vão deixando as senhoras: 

Amor, Ungindo dotar-le. 
Te poz, com traidora mão, 
Junto dos dentes de neve, 
Faces tintas de carvão. 

Inda que ancião i^esado, 
Desprezo teus vãos intentos; 
Debaixo de murchas cans 
Nutro altivos pensamentos: 

Vejo a quebrada madeixa 
Já tornada em gelo frio; 
Tudo o tempo me levou. 
Mas não me levou o brio. 

Debaixo da zona ardente 
Jurar-te-hia amor e fé; 
Mas não tem culto na Europa 
As deidades de Guiné: 

wSe às vezes te ponho os olhos, 
Não é de amor signal certo ; 
São desejos de levar-te 
À casa de João Alberto. <* 

A engommada casaquinha 
Te descobre novas faltas; 
Para outro corpo foi feita, 
Dizem-no as feições mais altas. 

Já n*ouin)s pés teus sapatos 
SofTreram do tempo o açoite; 
Cançada, fendida seda, 
Mostra dedos cor da noite. 

1 ) Crtmpr.idor í (oníralaii^^r J^ pratas. 



£ pois que a amor aueres dar-te. 
Eu te aponto um chafariz, 
Onde aches dignos amantes 
Assentados em barris: 




Acharas o nae Francisco, 
Homem a bulnas contrario, 
Já duas vezes juiz 
Na irmandade do Rosário: 

Acharás o forro António, 
Que o tabaco e vinho enjoa; 
£ tem nos calmosos junhos 
Caiado meia Lisboa: 



10 



Verás esbelto crioilo, 
Dado ao vento o peito nú, 
Levantando airosos saltos 
No manejo do bambu; 



Que ávidos cães cnxolanijío, 
Tem, com bi-aço arregaçado, 
Nas ermas praias do Tejo 
Cem cavallos esfolado. 

N'esles, vaidosa Domingas, 
Assenta bem leu amor; 
Chovam sellas de léus olhos 
Km peilos da tua cor: 

Váe da janella da escada 
Acolher, com doce agrado, 
Os suspiros (|uc te enviam, 
Ao som do londum chorado; 

E deixa de alormenlar-mc 
Com luas loucas idéas; 
Também sinto dores próprias, 
E escuto pouco as alheias. 

Sim, Domingas, nós marchámos 
Na mesma inreliz estrada; 
E do amor, que eu te não pago, 
Assaz estás bem vingada: 

Tu |)uzeste em mim teus olhos, 
E eu fui pór em Mareia os meus; 
Oue me paga mil extremos. 
Assim como eu pago os teus: 

iMania, (pie em alçando os olhos. 
Mil sellas nVsla alma crava; 
E em cuja casa lu teus 
A dita de ser escrava: 

Tens-me a mim por companhei;o; 
Temos o mesmo senhor; 
Tu, por casos da foi tuna. 
Eu, por castigo de amor: 



— 151 — 

E pois que eu não posso amar-te. 
Seguirás melhor esteira, 
Se de meus ternos suspiros 
Quizeres ser mensageira: 

Em vendo que ella está sò, 
Váe-lhe expor a paixão minha ; 
Eu peço a amor, que entretanto 
Tome conta na cozinha: 

Amor lavará teus pratos, 
E escumará a panelia, 
Em quanto tu a seus pés 
Dizes, que eu morro por ella : 

Teus grossos, trombudos beiços, 
Lhe vão expor meus cuidados; 
Hão de ser melhor ouvidos, 
Que sendo por mim contados: 

Pínta-Ihe as lagrimas tristes 
Em que meu rosto se lava; 
Por um infeliz captivo 
Peça uma ditosa escrava: 

Dize-lhe, que não se assuste 
De meu cabello nevado; 
Jura-lhe que não são annos, 
Mas penas, que me tem dado; 

Que a causa das minhas rugas 
É o seu desabrimenlo; 
E váe da minha velhice 
Fazer-me um merecimento. 

Ah Domingas, se em seu peito 
Me fazes achar piedade. 
Também eu juro fazer 
A tua felicidade; 



£ pois que o teu coração 
Somente é baixo, e grosseiro. 
Km preferir liberdade 
A tâo feliz capliveiro; 

Por amor serei mesquinho; 
Meus gastos verás cortar; 
Para ajuntar-te quantia 
Com que te possas forrar: 

Cheia de teus benefícios 
Minha mão agradecida 
Te irá pdr em larga praça 
Rendoso modo de vida; 

E assentada em novo estrado. 
De fasquiada madeira, 
Ondeando ao som do vento 
Tremulo tecto de esteira, 

Teus negros, airosos braços, 
Chocalhando um assador, 
Encherão famintos peitos 
De castanhas, e de amor: 

Terás bojudas tigelas 
Sobre incendidos tições, 
Onde fervam em cardumes 
Saborosos mexilhões: 

Teus doces, sonoros echos, 
Sem mentir, apregoarão 
O azeite de Santarém, 
O cravo do Maranhão. 

Domingas, segue este rumo; 
Que teu amor reloucado, 
Sem te fazer venlurosa, 
Me deixa a mim desgraçado ; 



— 153- 

£ se sem dó dos meus ais, 
Teimas dos projectos teus, 
Paliando nos teus amores, 
Em vez de fallar nos meus; 

Trocando boa amizade 
Por entranhado i*ancor, 
Vou descobrir teus intentos 
A teu austero senhor; 

Que em zelo honroso inflammado, 
Sem ser preciso atiçal-o, 
Vàe a casa do Lagoia <* 
Trocar-te por um cavallo. 




1) 



-154 — 



Ni occania e* qu • iictar ia f«r • Vanttif 

Meu amigo, duro amigo, 
Falai, rígido banqueiro, 
Motivo dos meus pezares, 
Herdeiro do meu dinheiro; 

Em taes termos me deixaste, 
Que sou d'este rancho o nojo, 
£ co'as lagrimas nos olhos 
Parlo para o Varatojo; 

Por ti iilho da pobreza, 
Irei sor n'aquelle mato, 
Qual Toi São Sebastião, 
Não na vida, mas no fato; 




V]!? 






Váe tu seguindo a fortuna, 
E leva a bandeira alçada, 
De tarde na laranginha, 
A noite na arrenegada; 



— 155- 

Alé que vollaiulo a roda. 
Mande teu fado inimigo, 
Que deixes crescer as barbas, 
E venhas viver commigo: 

Vem, e traze o leu jjaralho, 
Ministro dos meus destroços; 
Farei do vicio virtude, 
Apontando a Padrès-nossos; 

Vem viver entre altas brenhas; 
Vem curtir as minhas dores; 
Traze o pranto dos parentes, 
Traze as pragas dos credores. 

Não, falia vão agoureiro, 
De cujas palavras rias; 
Meus trabalhos me lizeiam 
Mestre n'eslas prophecias. 

Não te lies em ventura; 
Quem joga, tem o meu íim; 
Outrem te dará os gostos. 
Que tu me tens dado a mim. 




— 156 — 



iMtllMi 



Os leas vencedores olhos, 
Qne honra á natureza dSo, 
São a obra mais perfeita, 
One saiu da sna niSo. 

Caem chuveiros de seitas 
Sobre mil adoradores, 
Quando alçam as pestanas 
Teus olhos encantadores. 

Seu olhar modesto e brando. 
Sua grave formosura, 
Ainda cm peitos de bronze 
Inspiraria ternura. 

Mas da ingrata natureza 
Deseguaes as obras são ; 
Que importa dar-te bons olhos 
Se te deu máo coração? 

Zombando de ternos ais, 
A teus pés vês derramar 
Puras lagrimas ardentes. 
Que não queres enxugar. 

Mareia ingrata, ouve os meus votos. 
Cede uma vez à razão ; 
O mal que fazem teus olhos 
Pague-m'o o teu coração. 

Mas fallo a surdos ouvidos; 
A natureza severa, 
A quem deu olhos d'um anjo, 
Deu o peito d'uma fera. 



— 157- 



i M^iiaiça de Laan 



Coração triste, em aue cuidas? 
Que é d'ella a tua alegria? 
Por que causa assim te entregas 
A negra melancolia? 

A revezes costumadq 
Tríumphavas da tristeza, 
Hoje te vejo abatido, 
Ver do dia a luz te pesa. 

Quanto amor é triste! Aquelal, 
A quem com tanto alvoroço 
Julgavas ser mór ventura,* 
Foi o teu maior destroço. 

Antes Laura nunca viras! 
Nem eu infeliz seria. 
Nem seu peito delicado 
Nota de cruel teria. 

D'ambos a sorte contraria 
Quiz dar causa a meus cuidados, 
Ella soffre a minha teima. 
Eu sinto os seus desagrados. 

O peior é que eu não posso 
Deixar jamais de adoral-a; 
D'ella, quem sabe se amor 
Inda poderá mudal-a. 

Ah! que assim é que ella engana 
Peitos desapercebidos! 
Váe sustentando esperanças 
Inda apesar dos sentidos. 



— 158 — 

Qoe monstro sou eu tão fero! 
Duvido, maior nascesse; 
Pois entre todos os homens 
Só a mim Laura aborrece. 

Mas não é esse o motivo, 
É só minha dura estrella; 
Logo quando nasceu Laura, 
Por meu mal nasceu tão bella. 

Em mim amor quiz vingar-se 
Da falta dMdolatría, 
Pois a adoral-o em seu templo 
Eu não tinha entrado um dia. 

Notou elle este desprezo, 
E cheio d'enfado e d^ra 
Aos olhos vôa de Laura, 
£ de lá feroz me atira. 

Foi debalde a resistência; 
Depois das forças unidas, 
Passou do peito á offensa, 
Encheu-m'o de mil feridas. 

Vingado logo se ausenta, 
Sem que mais o ódio deixasse; 
Ah ! que importava a victorm, 
Se amor em Uura iicasse! 

Desde então as cruéis dores 
Sinto no rasgado peito; 
E se I^ura nie não vale, 
Toda a cura é sem effeito. 

Mas dVlla que esperar posso, 
Se gosta do meu tormento? 
O meu mal é sem remédio. 
Em vão procnral-o intento 




Aos olhos vôa «ie Laum, 
"K <1«» lá feroz me nlira. 



]hí 



— 159 — 

Eu bem sei que os seus desprezos 
Servem de amor à vingança; 
Mas talvez que índa elle mesmo 
Castigue a sua esquivança. 

Yale-se amor da belleza 
Para castigar a offensa; 
Mas não quer que o instrumento 
Do seu poder não se vença. 

Em fim, coração, já agora i 
Destinei a minha sorte; 
Ou eu hei de vencer Laura, 
Ou me dará Laura a morte. 




160 — 



KMCaldndaliiilH 



Nas Caldas, nas tristes Caldas 
Alegria vim buscar; 
Quíz de noite ver o sol, 
Quiz achar fogo no mar. 

Olhos meus, cansados olhos, , 
O vosso officio é chorar. 

Que importa mudar de terra, 
E baldados passos dar, 
Sc a toda a parte a cpie os volto 
Vàe comigo o meu pesar? 

Vejo pallidos doentes 
Pela copa passear. 
Ouço de antigafl moléstias 
Tristes effeitos contar. 

Vejo nas férvidas aguas 
Mirrados corpos banhar, 
E debalde aos surdos ceos 
Convulsos braços alçar. 

Vejo de perdido pranto 
Tristes ais acompanhar. 
Com as lagrimas alheias 
Vou as minhas mistu rar. 

Que importa ver nymphas bellas,. 
Se acrescentam meu pezar? 
Gostam de attrahir os olhos, 
E as almas tyi-annisar. 



-161- 

Ao som de feridas cordas 
Dão doces vozes ao ar, 
Quaes enganosas seréas, 
Que cantam para matar. 

Se o meu pobre coração 
Se deiía uma vez tocar, 
Com escarneos, com risadas, 
Meu pranto vejo pagar. 

Fartae-vos, pois, olhos meus, 
De lagrimas derramar; 
Vós nascestes para tristes, 
£ escolhestes o logar. 

Olhos meus, cansados olhos, 
O vosso officio é chorar. 




— 161 — 



lUi Besaas Cal4as 



Não ha nas Caldas 
Melancolia, 
D3o alegria 
Os ares seus. 



Negras tristezas, 
Adeus, adeus. 



Sára-me a terra, 
E nSo as aguas: 
Não cui*am magoas 
Os banhos seus. 

Uns lindos olhos, 
Que o dia aclai*ara, 
Afugentaram 
Os males meus. 

Brandos sorrisos 
A furto dados 
Fazem dourados 
Os dias meus. 

Se enti*a nos banhos 
Marília belia, 
Entra com ella 
O cego deus. 

Alli lempéra 
Nas aguas puras 
As pontas duras 
Dos ferros seus. 



— 163 — 

Enxuga as tranças 
Da nympha loura, 
E n'ellas doura 
Os farpões seus. 

Caldas ditosas, 
Teu nome cresça, 
Alça a cabeça 
Ate os ceos. 

O pobre Anfriso, 
Que estas calçadas 
Deixou regadas 
Dos olhos seus, 

Hoje em triumpho 
De seus pesares 
Levanta altares 
De Gnido ao deus. 



N»'prns tristezas, 
AUeu8, adeus. 




-m- 



Lilii ^rjira 



Voae, suspiros, 
Nos vagos ares, 
Único allivio 
Dos meus pesares. 

Fostes de Lilia 



Quando o quizeram 
Benignos fados, 

Quando em seus olhos, 
Throno das Graças, 
Tinham abrigo 
Minhas desgraças. 

Hoje ensurdece 
A meus clamores, 
Toma por crime 
Ternos amores. 

Olhos piedosos 
Lhe vi alçar, 
Fieis amores 
Lhe ouvi jurar. 

Foram nas azas 
Dos mansos ventos, 
Os mentirosos, 
Seus juramentos. 



-165- 

Rival diloso^ 
Tens mal seguros 
fie Lilia os votos, 
Votos perjuros. 

Fragosas penhas^ 
Ermos rochedos, 
Q^outr^ora ouvistes 
Nossos segredos, 

Guardae o nome 
De Lilia bella, 
E os vãos suspiros 
Que eu dou por ella. 




11 



-m- 



A im iijrata 



No sacro templo, 
Que amor habita, • 
Minha alma afflicta 
Fui immoli3[r. 

Na ruiva flataima, 
Que silva ardendo, 
A mão detendo 
Jurei-te amar. 

Fumoso sangue, 
Mal lindo o voto, 
Do peito roto 
Vi gotejar. 

D'alma opprimida 
A insana pena 
Causou-Ihe Heleba 
Que soube amar. 

Nos fidos peitos 
O morto lume 
Negro ciúme 
la a teia r. 

Vulcano fero 
Ante Mavorte 
O rival forte 
Não pôde olhar. 

Dos. desprezados, 
Que soflTrem tanto, 
O rouco pranto 
Feria o ar. 



— 167 — 

Aqui jaz Dolio 
Terno, e vencido, 
Sem de Cupido 
Premio alcançai: 

De'Daphne esquiva, 
Com triste agouro, 
Em verde louro 
Viu transformar. 

Pan segue a nympha, 
Que tanto adora; 
Seu fado chora 
Vendo-a mudar. 

De tenras cannas 
Amor Itie manda, 
Que a frauta branda 
Vá fabricar. 

Cercada Dido 
De angustias fèas, 
Ah falso Eneas! 
Se ouve bradar. 

Seus lindos olhos 
Frouxos erravam; 
Em vão buscavam 
O vago mar. 

Subtis tMuedos 
De acerbo dano, 
Bifronte enftano 
Eu vi tramar. 

Por Thisbc bcUa, 
Que busca errante, 
Pyramo amante 
Vae acabar. 



GoDhece a amada 
O infeliz erro^ 
Ousa Ímpio ferro 
Em si cravar. 

Scrve-lhe a terra 
De duro leito, 
Vê-se-lhe o peito 
Inda arquejar: 

As pardas sombras 
Que amor mistura, 
Na Estyge escura 
Vão aportar: 

Desenrugando 
A crespa fronte, 
Ledo Acheronte 
As foi buscar. 

£ eu combatido 
De mil pezares 
Vou pelos ares 
A suspirar. 

Sei ser- te amante, 
Sem prémios vivo, 
Este o motivo 
Do meu penar. 

Vês mil exemplos, 
E jamais pensas. 
Que pôde offensas 
Amor vingar. 

Ah! sè piedosa: 
As cruas penas 
Torne serenas 
Teu brando olhar. 




QUINTILHAS 



IfMríat a su atina 



Senhor, se nao é injasto, 
Que um Iriste afínando a lyra, 
Entre esperanças e susto 
As cançadas cordas fira 
Ante vós, príncipe augusto; 

Nos sons que ella der ao ar 
Irão meus ais de mistura; 
E dignae-vos de escutar 
Desconcertos da ventura. 
Que vós podeis emendar. 

Em nada á verdade falto, 
A dor me aviva a memoria; 
E por não enti-ar do salto, 
Deixae, senhor, que esta historia 
Tome o fio de mais alto. 



— 17« — 

Entre faxas de pobreza 
Meus tristes pães me envolveram ; 
Desde então, em cima empreza, 
Contra mim as mãos se deram 
A fortuna e a natureza. 

Da terna mSc abraçado, 
Fui em silencio profundo 
Com triste pranto banhado; 
Já antevia que o mundo 
Tinha mais um desgraçado. 

Meu bom pae debalde quiz 
Enxugar-lhe o pranto ardente, 
Que ella, alçando-me, me diz: 
« Vem, ó victima innocenle, 
De um amor casto e infeliz : 

«Toma os tristes cabedaes, 
Em que teu fado te lança; 
Toma pranio e inúteis ais, 
Entra na funesta hei*ança 
De teus desgraçados pães. » 

Mas, senhor, é pouco aviso 
Reaes ouvidos magoar, 
Mudar de estilo é preciso; 
E se a dor me der logar. 
Unirei pranto com riso. 

Depois que plano caminho 
Já meu pé trilhando váe, 
Pobre alfaiate visinho 
De um capote de meu pae 
Me engendrou um capotinho: 

Talhando a obra, maldiz 
A empreza que lhe incumbiram, 
Fez nigromancias com giz, 
Sete vezes 1he cairam 
Os óculos do nariz: 



— 171- 

Sua obra se consagre 
No portal das Barraquinhas 
Com grossas letras de alqíiagre; 
Tapou geiras, passou linhas, 
Fez um capote e um milagre: 

Colchete no cabeção, 
Sai novo Adónis bello, 
Figa no cós do calção, 
Carrapito no c^bello, 
E um biscoilinho na mâo: 

Sobre sisudo gallego. 
Que vasa barril liado, 
Já aos trabalhos me entrego; ' 
E em triste pranto lavado, 
À porta de um mestre chego : 

Debalde o bom mariola 
Dourava razões pequenas; 
Minha dor nâo se consola, 
Presagio talvez das penas 
De outro tempo e de outra eschola. 

Entre medos c vjulencia 
Entrar no latim já posso, 
E jurei obediência 
A um clérigo, que era um poço 
De tabaco e de sciencia : 

D'entre o soidido roupiío. 
Com a pilada nos dedos, 
E p Madureira na nulo, 
llevelava altos segredos 
Do adverbio e conjuncção. 

Era em grammalica abysmo, 
Uoniava o soculo nosso; " 
Porém de tal rigorismo, 
Que poz na rua o seu moço, 
Por lhe ouvir u:n solecismo. 



— 172 — 

Entre o Jota e o I romano. 
Que differença se achasse, 
Trabalhava havia um anno; 
Obra que, se elle a acabasse, 
Feliz do género humano I 

Em quanto a minha alma emprego 
N'e8tas cançadas doutrinas, 
Á dourada edade chego 
De ir ver as vastas campinas, 
Que banha o claro Monaego. 

Co'as cabeças mal compostas, 
Vejo entre gostos e medos, 
Mãe e irmãs á adufa postas; 
Choviam cruzes e credos 
Sobre as minhas bentas costas. 

Já em rápidas carreiras 
Calcava a real estrada, 
Sem chapeo, sem estribeiras; 
Já a catana emprestada 
Cortava o vento e as piteiras. 

Curta, embrulhada quantia, . 
Que ao despedir me foi dada. 
Espirou no mesmo dia; 
E fui fazendo a jornada 
Quasi com carta de guia. 

Mas já vejo a branca fronte 
Da alta Coimbra, fundada 
Nos hombros de erguido monte; 
Já sobre a areia dourada 
Vejo ao longe a antiga ponte. 

Poyo revoltoso e ingrato 
Dentro em seus muros encerra ; 
Em vão de adoçal-o trato, 
É um titulo de guerra 
A chegada de um novato. 



— 173--- 

Pio amassado com fel, 
£ envolto em pranto, comia; 
Levei Tida tão cruel, 
Que peíor nSo a teria. 
Se fosse estudar a Argel. 

Soffri continua tortura, 
Soffrí injurias e acintes; 
Lancei tudo em escriptura, 
E nos novatos seguintes 
Fiquei pago, e com usura. 

Da bolsa os bofes lhe arranco 
No fresco pateo de Cellas, 
Pedindo com génio franco 
Doces, gratuitas tigelas 
Do famoso manjar Dranco. 

Sete annos de verde edade 
Fui mettendo a destra mSo 
.Em multas d'esta entidade; 
Chamou-se boa feição, 
Mas era necessidade. 

Achava-me sempre o dia 
No tecto os olhos pregados ; 
A sagaz economia. 
Revoando nos telhados, 
Ao conselho presidia. 

Gemer em segredo pude; 
Que o bom pae, falto de meios. 
Quanto cheio de virtude. 
Só mandava nos correios 
Novas da sua saúde. 

Quiz de taes ondas sair, 
E algum bom porto aferrar; 
Quiz ao publico servir, 
E mandaram-me ensinar 
As regras de persuadir. 



— 174- 

Triste, enganosa sciencial 
D3o-Ihe louvores, mas falsos; 
Dizem que pôde a eloquência 
Ir lirar dos cadafalsos 
A perseguida innocencía: 

Que chega do peito ao fim. 
Que arranca forçado pranto ; 
Mas, senhor, não é assim ; 
Esta arte, que louvam tanto, 
Só me faz chorar a- mim: 

Pende da hora opportuna; 
Sem ella verá rasgadas 
As soltas velas que enfuna; 
Arrasta vestes douradas, 
E é escrava da fortuna: 

Não a vejo em mim frustrada. 
Só porque pouca me coube, 
De si mesma é mal fadada; 
A lingua que mais a soube 
Foi em Roma retalhada. 

Dezeseis annos ^stados 
Já no ingrato oflicio vão; 
Tristes versos, mal limados, 
Puz na vossa augusta mão. 
Em dor, e em pranto forjados: 

N'elles, senhor, vos contei 
As minhas longas íadígas; 
Hoje o mesmo não direi. 
Nem co'as lagrimas antigas 
Os vossos pés banharei. 

Para nova e justa dor 
Peço hoie a vossa piedade; 
Prestae-Ihe ouvidos, senhor, 
Funda-se na humanidade, 
Merece o vosso favor^ 



— 17f5 — 



Rolos 06 laços (\o mundo, 
Entre palavras truncadas. 
Que bem mostram d'a)ma o fundo, 
Orfas em pranto banhadas 
Me entrega o pae moribundo: 

«Fjlbas, já o espirito các ; 
Já o saíigue gela, e cança; 
Meus frios olEos cerrae, 
Abi tendes a vossa herança, 
Ahí tendes o irmão, e o pae::» 

Eu, entretanto, suspiro; 
Sobre o pranteado leito 
D'cntre os braços o nSo tiro ; 
Quebrou junto do meu peito 
O seu ultimo suspiro. 

Senhor, de meios sou falto ; 
Mas do pae, que aos ceos subia» 
Em nada aos preceitos falto ; 
Debaixo da campa fria 
As cinzas me faliam alto : 

Yàe com mão egual cortado, 
Entre os irmãos infelizes, 
Pão com lagrimas ganhado. 
Que, sem os fazer felizes, 
Me deixa a mim desgraçado. 

Se nos officios se approva 
Haver augmento e progresso. 
Não haja tarifa nova; 
Nio seia o meu duro accesso 
Da cadeira para a cova: 

Antes que me adorne a fronte 
Barrete felpudo e denso, 
E ao sol no alpendre do Monte, 
Esfregando o crespo lenço, 
Casos do meu tempo conte: 



— 176 — 

Antes que as forças se y3o, 
E que eu viva agasalhado, 
Boldrié sobre o roup9o, 
N'uma botica sentado, 
Vendo jogar o gamão: 

Antes que entre yís sequazes, 
Sendo Tictima irrisória 
De mil galopins vorazes, 
Em logar da palmatória, 
Dê c'o bordSo nos rapazes: 

Tende dó do meu lamento, 
Pois que benigna o escutaes; 
A piedade, e o acolhimento 
São dos coraçOes reaes 
O mais honroso ornamento: 

Pobres, chorosos irmãos, 
Que em mim tem debil columna, 
Não ergam desejos vSos; 
Vejam na minha fortuna 
A obra das vossas mSos : 

Proteger a causa honesta, 
Ter dos tristes dó profundo, 
Trocar-lhe a sorte funesta. 
Senhor, a gloria do mundo. 
Ou a não ha, ou é esta. 

Mas já longa narração 
Váe levando longe a meta; 
Já parece, e com razão. 
Mais que papel de poeta. 
Ou testamento ou sermão. 

Minha dor me fez fallar, 
Fiz queixas assaz compridas; 
Dignae-vos de desculpar, 
Que mostre o enfermo as feridas 
A quem lhas pôde sarar. 



— 177- 



IwfrUl illerccyi m iwtk de Villa-Dova da CerTeira, deptis Mnpei 
dt Piiti-dft^iBa 



Se não desprezaes, senhor, 
As valias que hoje levo, 
Que são lagrimas e dor, 
A supplicar-vos me atrevo 
Queii*aes ser meu protector. 

Minhas supplicas não tem 
Das lei%o direito austero; 
Apresentar-se hoje vem, 
Não ao ministro severo, 
Somente ao homem de bem : 

Vão sobre o dó e a verdade 
Meus singelos rogos feitos; 
É meu juiz a piedade, 
Vem fundados meus direitos 
» Sobre as leis da humanidade. 

Sá de Miranda, em quem vi 
Que de Joxe as louras lilhas 
Abrigara junto a si, 
£ em quem das doces quintilhas . 
Somente a rima aprendi ; 

Quíz que um dia o seu bom rei 
Perca com elle meia hora: 
Menos tempo pedirei ; 
E alguns instantes agora 
Commigo, senhor, perdei. 



--178 — 

De mil trabalhos cortado, 
E de longos annos cheio, 
Pae tão velho, como honrado, 
Pôr sobre os meus hombros veiu 
Da pobre casa o cuidado. 

cAcceila, ó iilho, me diz, 
Este peso triste e honroso; 
Já ao ceo mil votos iiz. 
Que possas ser tão ditoso. 
Quanto eu fui sempre infeliz: 

c Passei meus cançados dias 
Sobre os mais lilhos chorando; 
Entretanto tu crescias; 
Já de longe esperanças dando, 
Que de pae lhes servirias: 

cNa longa desgraça minha 
Ternamente os abraçava; « 
Em doce paz os mantinha; 
E muitas vezes lhes dava 
Consolações, que eu não tinha: 

€ Filhos nascidos em dor. 
Nascidos para infelizes. 
Sou vosso pae só no amor; 
Eu quíz deixar-vos felizes, 
Ninguém acertou peior: 

cMas d'esta dor importuna 
Somente os fados culpae; 
Quiz ser a vossa columna ; 
Intental-o é de bom pae, 
Sel-o, ou não, é da fortuna: 

€ Triste velhice e pobreza 
Tiram-me a obra da mão; 
Toma tu, ó filho, a empreza, 
Toma a honrosa obrigação. 
Que eu te ponho, e a natnn^za: 



-179- 

€ Queira o ceo que certas faças 
As antigas esperanças 
Do triste velho que abraças; 
Que nâo deixa mais heranças . 
Que honra inulil e desgraças. » 

A triste falia acabou, 
Que nós em silencio ouvimos; 
A todos nos abraçou, 
Doces lagrimas lhe vimos, 
Com que a natureza honrou. 

Senhor, se a fiel pintura. 
Com que a minha fraca mão 
Esta scena vos ligura. 
Move em vosso coração 
Sentimentos de ternura; 

Animac o jusio ardor. 
Km que se accende o meu peito; 
Fazei que eii possa, senhor, 
Ser do paternal preceito 
Um flel executor. 

Se eu dar cumprimento qniz 
A quanto o bom pae dispunha; 
Se em fim, quanto pude, tiz, 
Sòde vós a testimunha, 
Como losles o juiz. 

Moças irmãs desvalidas, 
A quem dou pobre sustento. 
Foram por vós deferidas; 
Vivem em santo convento 
Dignamente recolhidas. 

Pão com lagrimas ganhado 
Lhe adoça a dura pobre/a; 
Por mim ao meio cortado 
Lhe váe da singela mesa 
Com sãos desejos mandado. 



— I8e- 

Quem tem riqueza ínfiniU, . 
E forta aos seus os desejos. 
Só de máo o nome eyita; 
Ninguém deye ter sobejos, 
Em quanto ha quem necessita; 

Mas eu pobre è desgraçado, 
Sou dos irmãos a columna; 
Sou infeliz, mas honrado; 
Dom acima da fortuna, 
Por isso o não tem levado. 

Austera philosophía 
Dentro de meu peito mora; 
Sendo eu só, a seguiria; 
Mas triste familia chora 
Pelo pão de cada dia. 

De inúteis lagrimas cruas 
Ver os sobrinhos banhar 
As mimosas carnes nuas, 
E ir somente misturar 
Minhas lagrimas co'as suas: 

Era dar- rédea á impiedade, 
Com aue a desgraça os opprime; 
Pelas leis da humanidade 
Não está longe do crime 
Uma ociosa piedade. 

Dáe-me vós, senhor, a mão, 
E n'esta obra ajuntemos. 
Vós poder, eu coração; 
Uma familia tiremos 
De miséria e de afflicção. 

Nosso bemfeitor sereis; 
E matando crua fome, 
De bom pae nos servireis; 
De pae o sagrado nome 
Na oocca nos ouvireis; 



— 181 — 

Não usar palavras dobres, 
Não ajudar com mão parca 

§s desvalidos, e os pobres, 
, senhor, a honrosa marca 
D'almas, como a vossa, nobres. 

Mas onde as velas enfuno? 
Talvez já tenho abusado 
Do escasso lempo opportuno; 
Fez-me a sorte desgraçado, 
Mas não me faça importuno. 

São magoas, vim repetil-as, 
Possa a piedade escutal-as; 
Gastareis, depois de õuvil-as, 
Menos tempo em consolal-as. 
Do que eu puz em referil-as. 




A-*/<£ 



12 



^181- 



Iratrial •& rKkN i h. M»f» de \«t«ika. df^ift c»i^ k Vi!lt-t«nif 



III.™** e ex."° sr. — As proveitosas liçfles dos nos- 
SOS dois portuguezes, Bernardim Ribeiro, e Francisco 
de Sà de Miranda, com que v. ex.' fazia úteis ao 
seu espírito aquellas horas que a natureza, e muito 
mais a moléstia, lhe tinham destinado ao descanço 
do corpo, crearam insensivelmente no meu coração 
amor a esta espécie de |)oesia, na qual os seu» au- 
ctores souberam ti*atar a alteza dos pensamentos, e 
de solida philosophia de que vão cheios os seus li- 
vros, em um estilo fácil e desaffectado, e em uma 
linguagem verdadeiramente portugueza, que parece 
fugiu de nós com os bons auclores, que então a fat- 
iaram. 

V. ex.* me fazia a honra de mandar que eu lhe 
lesse estes dois preciosos livros; e a musa, que pre- 
side ás minhas trovas, aíTeita áquella lição, rimou 
em quintilhas, e carregou de moralidades, talvez, 
intempestivas, o memorial, que ponho nas mãos de 
V. ex." com muito respeito, e com muitas espe- 
ranças. 

(is meus versos, que nunca foram bons, soarão 
agora muito peior nos ouvidos de v. ex.% bem cos- 
tumados aquellas doces poesias, as melhores que no 
seu género eonobreceram o nosso bom século de 
quinhentos ; mas como n'este papel faço a lígura de 
poeta e de pretendente, conlenlo-me de que v. ex.* 
já que não pôde achar doçura nos meus versos, 
ache justiça no meu reíjuerimento; e espero do seu 
benigno coração, que o homem infeliz ache hoje aos 
pés de V. ex.' aquelle acolhimento, que não deve 
esperar o mau poela. Isto deseja, senhor, e isto es- 
pera de V. ex." o criado mais humilde c mais ve- 
nerador. 



183- 



Lactando em crua peleja 
Com meu fado esquivo e duro, 
Que derribar-me deseja, 
Busco um asilo seguro 
Na illustre casa de Angeja: 

A tão bom porto acolhido 
Me vedes, seniior, diante. 
Qual c'o molhado vestido 
Surge triste naufragante, 
Quasi das ondas comido: 

A vossos pés ajoelho, 
Moço illustre, amparo nosso^ 
Quê dentro em real conselho, 
Mostraes com annos de moço. 
Maduro saber de velho: 

Ministro prudente e inteiro. 
Que no tribunal entrando, 
Por dar o passo primeiro. 
Vos ides já costumando 
A ser de reis (M)nselheiro: 

Amparar os desditosos. 
Dar aos caídos a mão. 
Pôr n'elles olhos piedosos, 
É antiga obrigação 
Dos grandes e poderosos: 

Em douto livro aprendi, 
Que o grande ao pequeno erguia ; 
Não nasce homem para si; 
Tão santa philosophia 
No Sá de Miranda a li : 



-184- 

Pois que corre em vosso peito 
Sangue que de reis correu, 
Para fazer bem sois feito; 
Vossa grandeza me deu 
Sobre vós este direito: 

Fazer com que um triste possa 
Por vós mais feliz viver; 
Ter dó da desgraça nossa, 
Ê o sublime prazer 
D'almas grandes, como a vossa: 

Em vós mesmo aprender vim 
Principies doesta doutrina; 
Para a levardes ao lim, 
Achareis matéria dina, 
lUustre senhor, em mim: 

Não achaes um malfeitor, 
Que fuja ao justo castigo; 
Não infame matador, 
Que em peito do bom amigo 
Cravasse punhal traidor: 

Achaes sim um desgraçado, 
Que seus males vos descobre; 
E em quem ajuntou seu fado 
Aos incommodos de pobre 
As obrigações de honi*ado: 

Irmãs com teni*as crianças, 
Chorando pranto innocenle, 
Que enxu^m co'as soltas Iranças, 
Põem em mim inutilmente 
Os olhos e as esperanças: 

OrRís de nií:e, e ilonzellas, 
Choram-me outras de redor; 
Em vão me condfio d'ellas; 
O seu triste bemfeitor 
É outro infeliz como ellas: 



— 185- 

Meus injustos, negros fados, 
Dias funestos me urdiam. 
Tão tristes, tão desgraçados, 
Que das Parcas que os teciam, 
Oxalà fossem cortados! 

Mas o destino avarento 
Não poderá derribar-me, 
Nem cumprir seu duro intento, 
Se em vós não puder tírar-me 
A piedade e o acolhimento : 

E se não for importuna 
A petição que escutaes, 
Servi-lhe vós de columna; 
O partido não sigaes, 
Que tem seguido a fortuna: 

Prometteu-me prompto abrigo, 
Levantou-me o pensamento. 
Foram promessas de imigo; 
Eram fundadas no vento, 
O vento as levou comsigo : 

Tenho a vosso pae contado 
Quanto vivo contrafeito; 
Não tenho sido escutado; 
Mas ser-lhe-ha meu rogo acceito. 
Se lhe for por vós levado : 

Dizel-lhe, senhor, quaes são 
Minhas forças, se as achaes; 
Mas comece a informação 
Por lhe dizer, que me honraes 
Com a vossa protecção : 

Eu nada certo lhe peço, 
São vagas minhas esperanças; 
Quanto elle pôde, conheço, 
E livre-me de crianças, 
Se compaixão lhe mereço: 



— 181- 

Se ante os reis, seu voto dando, 
São suas razões acceitas, 
Meu nome lhe ide leaibrando, 
Ou para cousas já feitas, 
Ou para as que for creando : 

Pedi-lhe pois que tolere 
Meu rogo triste, e tdfuoso; 
Que estou n'um logar, pondere, 
Mesquinho, ainda que honroso, 
E onde nada ha que espere: 

Embebido em esperanças. 
Fraco piloto põe peito 
Ás onaas bravas, ou mansas ; 
E em campo sem parapeito 
Espera o soldado as lanças : 





Sc fosse clérigo velho, 

806 enxuga, á porta st^ntado, 
lonço sobre o joolho. 



187 



-187- 

N9o desejar, é baixeza ; 
Sempre o humano coração 
Quer subir a mór aKezâ; 
Esta uniyersal paíidio 
É filha da natureza: 

Se eu visse no ílel espelho 
Já meu cabello nevado; 
Se fosse clérigo velho, 
Que enxuga, á porta sentado, 
O lenço sobre o joelho : 

Teimoso grammaticão. 
Que em longo chambre embrulhado, 
Co'a douta penna na mão, 
Dá á luz grosso tratado 
Sobre as leis da conjunção : 

Que arranca o cabello hirsuto. 
Lastimando a decadência 
Do novo mundo corrupto, 
Que quer negar a existência 
Ao ablntiw absoluto : 




4<« j; -^ ^^^ 



— 188- 

Sc cu carregasse a memoria 
D'estas e outras ninharias. 
De que estes taes fazem gloria. 
Vivera em paz os meus dias 
Preso a uma palmatória : 

Outros meus espíritos são; 
E se de forças sou falto^ 
Não o sou de coração; 
Erguerei vôo mais alto 
Se vós me derdes a mão : 

Senhor, eu tenho acabado; 
Já da mão a penna càe; 
Feliz se o meu verso ousado 
For de vosso illustre pae 
Benignamente escutadfo: 

Vós ambos não me estranheis 
De meu verso a rima fria; 
Por baixa não a engeiteis. 
Que n'esta mesma poesia 
Se tem escrevido a reis: 

Não tenho sido o primeiro, 
Que a grandes taes versos manda ; 
N'elles com juizo inteiro 
Escreveu Sá de Miranda 
Ao bom rei Dom João Terceiro: 

Não o imito na belleza, 
De que elle os soube adornar; 
Falta-me arte e natureza; 
Mas pude d'elle imitar 
A verdade e a singeleza. 



18» — 



Na dia 4e aiiis 4t Mi4e it VílU-Terie 

Não venho dourar enganos; 
A vida não é louvor; 
Pois também vivem tyrannos : 
Eu venho, illustre seiibor. 
Louvar obras, e não annos. 

De homem comnpim não se exime 
Quem não tem virtudes claras: 
E pouco fugir do crime: 
Gonsagram-se as almas raras 
A trabalho mais sublime; 

A trabalho heróico : e creio 
Pelo provado aforismo, 
Que em sãos philosophos leio, 
Que o verdadeiro heroísmo 
E fazer o bem alheio. 

Taes trabalhos honra dão 
Á digna mão que os procura : 
Não amo heroes da ambição: 
Buscam a sua ventura; 
Vós buscaes a da nação. 

Serem por vós levantados 
Os talentos esquecidos; 
Do triste os ais desprezados 
Serem aos reaes ouvidos 
Pelas vossas mãos levados ; 

De quem a vós se acolheu. 
Remediar o queixume; 
Ter como próprio o mal seu ; 
É este o vosso costume, 
E o génio que o ceo vos deu. 



E o throno aos povos propicio, 
Que vigia em seu fevor, 
Fez-lhe o geral beneficio 
De mandar, que em vós, senhor, 
O que é génio fosse ofiicio. 

Partiu officios pesados 
Com quem os servisse bem: 
Sio projectos acertados: 
Quem do throno o sangue tem. 
Tenha também os cuidados. 

Dae aos gntfos lusitanos 
Longo tempo mSo segura 
Contra injustiças e enganos; 
E seja a sua ventara 
O louvor dos vossos anoos. 

Mas, senhor, moços po^as 
Vinguem meus esforços vãos: 
Musas zombam de jarretas: 
Pedem-me as tremulas mãos, 
Mais do que lyra, moletas. 

Fogosos vates emprehendam 
Altos vdos n'este dia : 
Musas com musas contendam : 
Saiam odes á porfia ; 
E queira Deus que se entendam. 




191 — 



lo Modi it Sio Lramço 



Ante vós, claro senhor, 
Que pondes os sãos cnidadoe 
De bons estados no amor, 
£ gue d^homens applícados 
Sois o exemplo e o pi-otector; 

Levanto sem pejo a voz; 
Que essa alma nunca despreza 
O pouco qoe encontra em nós: 
Não produz a natureza 
Muitos homens como vós ; 

Pois vi outKora amparado 
O discrrto e doce Brito, 
Triste moço, em flor cortado. 
Que ia alevantando o espirito, 
De vossas luzes guiado: 

Pois na vida lhe adoçastes 
De seu fado a má ventura; 
E não vos envergonhastes, 
Quando a fria sepultura 
Com as lagrimas lhe honrastes; 

Se os s^s versos sonorosos 
Inda repetis com magoa ; 
£ pensamentos saudosos 
Vos trazem aos olhos agua, 
Que os deixa, senhor, formosos; 



i 



— 19t — 

Hoje, outro triste vos foça 
Nascer eguaes sentimentos: 
Com os Yossos pés se abraça; 
Não tem os mesmos talentos; 
Mas tem a mesma desgraça: 

Nascido em baixa pobreza, 
Quiz buscar uma coIu'na; 
Foi sempre baldada a empreza, 
Achou ingrata a fortuna, 
Inda mais, que a natureza. 

Em Tão paternal ternura 
Com yíyo zelo me assiste; 
Foi trabalho sem ventura; 
Crescia no filho triste, 
Com a edade, a desventura: 

Das boas artes no estudo 
Bom pae empenhar-me quiz; 
Traçava o velho sisudo 
Que fosse um filho feliz 
Dos outros filhos o escudo: 

Foram seus intentos vãos; 
Zombou desgraça importuna 
Doestes pensamentos sãos; 
Para vencer a fortuna 
Não ha lagrimas, nem mãos: 

Cortado então de agonias. 
Só esperei ter ventura, 
Quando envolto em cinzas frias 
Escondesse a sepultura 
Meu nome, e meus tristes dias: 

E em quanto o vento forceja, 
E no mar, que em flor rebenta. 
Meu fraco lenho veleja. 
Demando, em tanta tormenta, 
Por porto a casa de Angeja: 




Nascido em baixa pobreza, 
Quiz buscar uma cNumna ; 
Foi sempre baldada a empreza. 
Achou ingrata a fortuna, 
Inda mais, que a natureza. 



192 



193- 



•--"i-. 



Miimy 




Surgi em lofrar seguro, 
Onde achei mil acolhidos; 
Clareou o dia escuro; 
E meus molhados vestidos 
Pelas paredrs penduro: 




De meu fado a força dura 
Foi um pouco enfraquecendo; 
E ainda que em sombra escura, 
Vem-me ao longe apparecendo 
O bom rosto da ventura: 




Vossos sobrinhos me dão 
(Porque de meus males sabem) 
Principios de protecção-; 
Mandae-lhes que em mim acabem 
Esta obra da sua mão: 

Mandae que api-essem o passo, 
Que inda longe a meta vejo, 
Pois nas supplícas que faço, 
Não se vence com desejo, 
Vence-se á força de bi*aço: 



— 195 — 

Mandae, pois tendes direito, 
One o titrvo mar arrostando, 
à corrente ponham peito ; 
Fallae, senhor, que em fallando, 
O vosso mandado é feito. 

Não vedes venal incenso 
Por astuta mão queimado; 
Fallo, senhor, como penso; 
Eu sei quanto é respeitado 
O erudito São Lourenço: 

Eu sei bem o alto conceito, 
£ as geraes estimações, 
Que todos de vós tem feito ; . 
Ouço ternas expressões, 
Filhas de amor e respeito : 

Do bom irmão e sobrinhos 
Ouço tod^ora louvar-vos; 
Ouço-lhes doces carinhos; 
De poderem agradar-vos 
Desejam achar caminhos: 

Vosso irmão e pregoeiro 
Ordena, como sisudo, 
Ao illustre neto e herdeiro. 
Que das sciencías no estudo 
Vae dar o passo primeiro. 

Se encoste a vós, sem desvio. 
Qual ao choupo hera silvestre; 
Que em artes, virtude, e brio. 
Mais, do que as regras do mestre. 
Siga os dictames do tio: 

Com que gosto ouço e contemplo^ 
Dizer-lhe: cSe ao bem te inclinas, 
Segue-o no estudo e no templo; 
Elle te dò as doutrinas; 
Elle le sirva de exemplo. » 



— 196 — 

Mas sigo inútil empreza, 
Pois sabeis quaes são seus peitos; 
Mistura-se esta fineza 
Com os sagrados direitos 
Do sangue e da natureza: 

Todo o mundo, em vosso abono, 
Põe na bocca os corações, 
£ d'elles vos chama dono; 
Ouço mil acclamações 
Desde a plebe até ao throno: 

A gerai estimação 
Nos arma de auctoridade; 
Vinde pôr n'esta obra a mão, 
E dae-me felicidade, 
Como me daes instrucção : 

Sabeis a fundo, e de cór. 
Tudo quanto ha bom, escripto; 
Juntae extremos, senhor; 
Ao homem mais erudito, 
Juntae o mais bemfeitor. 

Pois sabeis da antiguidade 
Prosas sas, e sã poesia, 
Deveis sentir mais piedade; 
Quem tem mais philosophia, 
Vè melhor a humanidade: 

Que eu n'esla fresca espessura, 
Entre estes louros sagrados. 
Sentado sobre a verdura. 
Cantarei versos limados 
A quem me fez ler ventura: 

Deixarei em mil letreiros 
O vosso nome entalhado 
Nos troncos d'estes loureiros; 
Possa elle ser respeitado 
Do negro vento, e chuveiros: 



— 197 — 

Ramos sobre elle estendendo, 
Daphne no seu peito o tome; 
E eu, doces hymnosiecendo, 
Verei ir o tronco e o nome 
Té às estrellas crescendo. 




13 



— 198 — 



Ao ur^ocx de Lavradio 



Se os versos, que outra hora fíz 
Escutastes prompto e attento; 
E se aos pes, que abraçar quiz, 
Achou grato acolhimento 
A minha musa infeliz; 

Dae-me benignos ouvidos 
A outros, em dor traçados, 
D'arte, e de enfeite despidos; 
Pela verdade dictados, 
E a vós, senhor, dirigidos: 
• 

Em louvores não os fundo, 
Pois sei que sempre os pizastes; 
E co^as mais acçOes confundo 
As do tempo, em que tomastes 
As rédeas do Novo-Mundo; 

Mas se eu disser parte d'ellas. 
Não me julgueis lisonjeiro : 
Que vos poupo em não dizel-as, 
Se vedes, que o mundo inteiro 
As váe erguendo às estrellas? 

Diz Que viu a capital 
Choia cio pompa c grandeza ; 
E que a orçueis a lustre tal 
I)'cntro os braços da moUcza, 
Que é no clima natural ; 



— 199 — 

Que nas mãos, onde se encerra 
Alto poder respeitoso, 
Mostrastes na nova teri-a 
Ao visinho revoltoso, 
N'uma a paz, em outra a guerra; 

Que ofifereceís a vida então 
Para a palavra salvar-sc, 
Que os Dons reis não dão em vão ; 
Acção digna de contar-se 
Entre as de Mário, ou Catão: 

Que a mão que as quinas voltèa, 
Justiça ao povo reparte ; 
E que egualmente menêa, 
Ora as bandeiras de Marte, 
Ora as balanças de Astrèa. 

Mas jà vossa austeridade 
Minha narração reprime; 
Ouvis-me contra vontade; 
Perdoae, senhor, um crime, 
De que foi causa a verdade: 

Pois que vos não dão desvelos 
Louvores, que presa a gente, 
Eu vou, senhor, suspendel-os; 
E vou dar-vos novamente 
Motivos de merccel-os. 

A minha longa fadiga 
Já sabeis qual é, senhor; 
Levae-me a bem, que a não diga; 
Deixae-me poupar a dor 
De abrir uma chaga antiga. 

Pintar irmãs desgrenhadas 
Co'as crianças innocentes 
Nos débeis braços alçadas, 
E de lagrimas ardoníos, 
Quasi sem fruclo, banhadas: 



— 200 — 

Mo8trar-lhe os olhos magoados, 
Onde ínutíl pranto assiste, 
Immoveis no chão pregados, 
Nutrindo um silencio triste, 
Falsa paz dos desgraçados: 

Contar-vos, que entre os irmãos. 
Diz o bom pae, com ternura, 
Que ao ceo levantem as mãos; 
Que assim se emenda a ventura, 
E não com queixumes vãos: 

Que é do espirito fraqueza 
Perder suspiros no vento; 
Que vençam a natureza; 
Que façam c'o soffrimento 
Honrosa a dura pobreza: 

Não lhe ver de dor signaes; 
Ter no rosto olhos serenos, 
E no peito agudos ais; 
Que porque se escutam menos, 
Por isso me cortam mais: 

Dar-vos uma inteira idéa - 
Da desgraça minha, e d'elles. 
Pintura de pranto cheia ; 
Se é precisa, é para aauelles, 
A quem não dóe dor alheia. 

Âs almas tão bem nascidas. 
Como a vossa vejo ser. 
Para serem condoídas. 
Não tem precisão de ver 
Correr sangue das feridas: 

Sabeis, que soffro a impiedade 
De vã fortuna traidora ; 
Mudae pois de heroicidade; 
Vinde pleitear agora 
A causa da humanidade: 



— 101 — 

Por vós tirar n3o podeis 
Penas, que a alma me abafaram; 
Mas ante o throno valeis; 
E se o sceptro vos íiarara, 
Que vos negarão os reis? 

Reger-lhe os vastos estados, 
Ir dar-lhe um novo esplendor, 
São feitos famigerados; 
Mas inda o será maior 
Ir pedir por desgraçados. 

Disse a César o orador, 
Que os soldados tinham parte 
No perigo, e no louvor; 
Que fosse em outro estandarte 
Elle só o vencedor; 

Que eia, de doce brandura 
O deixar-se então vencer, 
Mór victoria, e mais segura; 
Onde não tinham poder 
Nem ferro, nem má ventura. 

Vencei vós sem ter soldados; 
Fazei de dias de dor 
Dias bemaventurados ; 
E possa essa mão, senhor, 
Mais do que podem meus fados. 

Claros avós imitastes, 
Que o mundo apenas abrange; 
No berço palmas achastes; 
Dos heroes que viu o Gangc, 
O sangue e as acções herdastes: 

Remotos povos venceram, 
E mares bravos abrindo, 
Âs quinas desenvolveram; 
Ante elles o Gange e o Indo 
Tintos de sangue correram. 



Vós, que em obras símílhantes 
FoBtes ser a copia honrosa 
Do que elles flzeram d'aDtes, 
Na serie maravilhosa 
Dás vossas acções brilhantes; 

Consenti, que a larga historia, 
Que Almeidas levanta aos ceos, 
Lhes deixe no altar da gloria 
Pendente, entre os mais tropheos, 
Uma negra palmatória. 




— 203 — 



ím IfBTf r é» mni Mibtri 



Lyra minha, rouca lyra, 
Hoje afinada consente, 
Que a trémula mão te fira : 
^nte uma só vez contente 
Quem por costume' suspira. 

Louvemos Ânarda bella; 
Eu veja aos astros subir 
Meus versos em honra d'ella, 
£ possa quem os ouvir 
Adoral-a antes de vèl-a. 

Já ledo as vozes desato : 
Ouve, 6 nympha, os teus louvores: 
Não pretendo ser-te grato 
Traçando com vivas cores 
' Teu angélico retrato. 

Permitte, Anarda piedosa, 
Que se farte o meu desejo 
N'outra empreza mais gloriosa; 
Que o menor dom que em ti vejo, 
£ o dom de ser formosa. 

Rubra bocca, os olhos bellos, 
Que brandamente movidos, 
São de amor agudos zelos; 
Sobre alvo collo espargidos 
Louros, ondados cal)ello6; 



— 204 — 

Braço airoso, a mão de neve; 
Proporcionada cintura; 
Eis a tua copia breve : 
Porém vóa a formosura 
Nas azas do tempo leve. 

Outros bens mais duradouros 
Não são à tua alma esquivos, 
Bens que nos annos vindouros 
Valem mais que uns olhos vivos, 
Que uns soltos cabellos louros. 

A destruir a belleza 
A curva velhice corre: 
Nada conserva firmeza; 
Só a virtude não morre: 
Vence as leis da natureza. 

Tu, que prezas a verdade; 
Que tratas falsos sujeitos 
Só com a côr de amizade, 
E para os sinceros peitos 
Mostras ter sinceridade; 

Tu, que os enganos deslisas; 
Que sabes vencer desgostos; 
Que a lisonja ufana pisas; 
Que não vès somente os rostos; 
Que até corações divisas; 

Tu, que da séria prudência 
Segues os dictames puros; 
Que tens amado a innocencia, 
£ nos conselhos maduros 
Mostras de edade experiência; 

Teu nome eterno ha de ser 
Estampado entre as estreitas; 
Has de as mais nymphas vencer,. 
«Que somente em serem bellas 
Fundam todo o seu poder. 



— 105- 

Amam a fofa vaidade; 
Dos homens a seu sabor 
Prendem a solta vontade: 
Trazem nos olhos amor, 
No coração falsidade. 

Muitas lingem desprezar 
Finezas de amante rude; 
Fingem os sábios amar: 
Não o fazem por virtude, 
Querem talentos mostrar. 

De que serve uma aliiia pura, 
Se os pesados membros cobre 
Rota, numilde vestidura? 
Nada vale um peito nobre 
N'uma grosseira íigura. 

Corpo esbelto, onde ajustado 
Brilha, cheio de ouro immenso, 
Curto fraque afrancezado; 
Cheiroso, cândido lenço; 
O cabello apolvilhado; 

Jocosas palavras ocas; 
Estes os dons relevante^s. 
Que deixam de vencer poucas 
Das que tingem ser amantes, 
E não passam de ser loucas. 

Tu tens outro entendimento : 
És sempre e^ual : não te vales 
Das cores do fingimento : 
Quer séria, quer rindo falles, 
Não fundas torres no vento. 

Ris da baixa adulação. 
Mal que os teus ouvidos toca 
A contrafeita expressão: 
Conheces na falsa bocca 
O enganoso coração. 



Yer sobre molle lapete, 
Curvando as pernas e os braços, 
Peralta de alto topete, 
Com destros miúdos passos, 
Dançar francez minuete; 

Yèl-o nutrindo esperanças 
Entre agradáveis parceiras, 
Fazer rápidas muaanças, 
Torcendo as mãos nas ligeiras 
Buliçosas contradanças; 

Fervente rebeca ouvir. 
Que infunde vivos prazeres. 
Jamais te faz distranir; 
Pois antes dos sábios queres 
Sábios conceitos ouvir. 

Só te vejo attenta em quanto 
Ouves palavras discretas; 
As musas estimas tanto, 
Que até dos tristes poetas 
Te commove o triste pranto. 

Conheces seu duro mal ; 
Que sempre tributam fé 
A coraç9o desleal: 
Que por isso em todos é 
A tristeza natural. 

Que ás nymphas endurecidas 
Lhes não causam terno effeito; 

8ue triumpham das fingidas, 
uardando dentro no peito 
Inda frescas as feridas. 

Porém já que ousei íallar 
De amor nas sanguíneas reízas, 
Vou a lyra pendurar: 
Não auero com minhas queixas 
Teus louvores misturar. 



— «07 — 

Tu dirás que não tens parte 
No meu mal cruento e fero ; 
Que vou tristezas lembrar-te; 
Dirás que afflígir-te quero, 
Quando desejo louvar-te. 

Não te deves admirar: 
Sei que em vão me estou queixando: 
Mas quem sente o seu pesar, 
Se pnncipia cantando. 
Sempre acaba a suspirar. 




-2(»8- 



K n nift, iNTai^lhe • csUdi de casadi 



Foi este o ditoso dia, 
Que te deu a espoja bella; 
Doce, solida alegria, 
Para ti, junto com ella. 
No mesmo berço nascia : 

Por tua maior ventura. 
Natureza lhe quiz pôr. 
Entre os dons da formosura, 
Outro dote inda maior, 
Que é, alma innocente e pura: 

Eu sei teu costume antigo, 
A mulher, que é só formosa, 
Não vale tudo comtigo; 
Soubeste escolher esposa, 
Em quem tens esposa e amigo: 

Quer sempre ter um senhor 
Nosso humano coração; 
E na ventura maior 
Inda sente em si um vão, 
Que só enche o casto amor: 

De quantos males te eximes, 
Dando ao teu tão bom senhor! 
Damnosas paixões reprimes; 
Recebes das mãos do amor 
Os prazeres, sem os crimes: 

Cega mocidade errada, 
Á conjugal união 
Quiz chamar vida cançada; 
Diz que é triste escravidão. 
De mil pensões carregada: 




^éUj^^Jié 



— ^- J^^^^ Bèíz^^, 



,'v 0*^- 



Recebes das màos do amor 
Os prazeres sem os crimes. 



108 




Crava em vossos teraos peitos 
Santo amor os seus farpões. 



909 



— 209 — 

Chama á paz um dissabor; 
Diz, que de susto e desdéns 
Se alimenta o deus de amor; 
E que a certeza dos bens 
Lhes díminue o valor : 

Fecham olhos á verdade, 
Caminhando após seus erros; 
E em falsa tranquillidade. 
Ao som de pesados ferros, 
Vão cantando liberdade: 

Mil remorsos na alma estão. 
Que inda que o rosto os suiToca, 
Roendo as entranhas vão; 
Que imporia riso na bocca, 
Se ha punhaes no coração? 

Amor é fogo sublime. 
Que nas almas se accendeu ; 
As outras paixões reprime; 
Elle é dadiva do ceo, 
O abuso é que o faz ser crime: 

Beija, amigo, os teus grilhões; 
Um para o outro eram feitos 
Os vossos bons corações; 
Crava em vossos ternos peitos 
Santo amor os seus farpões. 

Onde achas pessoa estranha, 
Que não cx)ntrafaça o rosto, 
Porque vè, que assim te ganha? 
Quem 6 que na pena, ou gosto, 
Com verdade te acompanha? 

Contas teus casos sem medo 
A quem por amigo passa ; 
Fiáste-le em rosto ledo; 
Foste no nmo da praça 
Assoalhar leu segredo: 



-«10 - 

Mal od homens conheceu 
Pura amizade enganada, 
O santo rosto escondeu, 
£ tornou-^e envergonhada 
Para o ceo, d'onde desceu; 

O amigo que te rodeia, 
Yéste das tuas paixões; 
Com etlas te lisonjeia; 
São raros os corações, 
Em que dôa dor alheia: 

Quando acertares de ler, 
Que houve entre homens união, 
O escriptor a quiz fazer; 
Não os pintou como são, 
Mas como deviam ser: 

São cousas imaginadas 
Dos Nizos o amor profundo; 
São fabulas bem contadas; 
Ou os não houve no mundo, 
Ou Dão deixaram pegadas: 

Puro amor, limpa verdade, 
Só entre esposos estão; 
Desce a elles a amizade; 
Ti*az-lhes co'a santa união 
Uma só alma e vontade: 

Communica à esposa amada 
Teus mais internos cuidados; 
£ vive em paz descançada 
A vida dos bem casados, 
Vida bemaventurada : 

Sem receio de perigo 
Dorme somno saboroso; 
Que não tens junto comtigo 
Lisonj(»iro suspeitoso. 
Traidor, com rosto de amigo: 



— 211 — 

Tens por doce companhia 
Aquella que o justo ceo 
Com mil virtudes te envia; 
Tu es o cuidado seu, 
E como seu, le vigia: 

Goza em socego profundo 
Tao pura felicidade; 
Tens um thesouro fecundo; 
Tens amor, tens amizade. 
Tens todos os bens do mundo. 

E se ha entre homens desvelo 
(Cousa que aqui contradigo] 
Conta com um, que é singelo; 
E foi sempre teu amigo. 
Quanto os homens podem sèl-o. 




— tlí- 



A GUEÍ^RA 



Satjra •ferecída a« Ttscoide de Yilla-ofva da Orrfira, depois Mr^ati ée PMlt-MuM, 
m ano de ^78 



111."** e ex."'* sr. — A satyra da gueri-a, que po- 
nho nas respeitáveis mãos de v. ex.", tem por obje- 
cto os costumes, sem que a sua critica aponte, nem 
remotamente, individuo algum em particular; este é 
o seu único merecimento, o qual me esforça a le- 
vantal-a à grande honra de ser oflerecida a v. ex.' 

Não me acovarda o nome de satyra, só odioso ao 
vulgo ignorante: v. ex."" sabe que, quando ella fere 
nos costumes, sem assignalar os homens, é a espé- 
cie de poesia em que mais vezes se dão as mãos os 
seus dois fins, a utilidade e o recreio. 

A estimação de Horácio, e o desterro de Juvenal, 
de mistura com o meu génio, me ensinaram a fallar 
com moderação; e ainda que talvez seja esta a uníca 
instrucção que eu tire das suas obras, com ella me 
atrevo a esperar bom acolhimento a uma satyi*a, que 
se em v. ex.' não agradar ao homem de bom saber, 
ao menos não escandalisará o homem de bons cos- 
tumes. 

V. ex.', que sabe colher dos livros mais fructo 
que o do prazer, não se envergonhou de ler os phi- 
losophos que escreveram em vereo: a alta philoso- 
phia de costumes, de que vão cheios os livros da 
antiguidade, nada perde nos olhos de v. ex.*, quan- 
do váe ornada com as bellezas da poesia. 

As divei-sas espécies d'esla artesão inteiramente 
conhecidas por v. c\.': cu tive algumas vezes a hon- 
ra de ouvir fallar a v. ex.' nas poesias dos gregos, 
dos romanos e dos francezes, fazendo entre ellas tão 
justos parallelos, o fallando tanto de dentro, que me 
parecia impossivel que v. ex.' achasse tempo para 
os outros estudos mais importantes, com que escla- 



— 213 — 

receu o seu espirito, se eu não tivesse lido que Cí- 
cero BO meio do tumulto e das tempestades de Ro- 
pia, eucarregado dos mais importantes negócios da 
republica, achata tempo para ler, e disputar sobre 
os poetas e phílosophos da Grécia e da sua pátria. 

Não me valho da experiência que tenho do quan- 
to V. ex/ é dado ao estudo das boas artes, pai*a lhe 
tecer com isto um elogio: tenho a honi*a de conhe- 
cer a V. ex.*, e sei que os seus louvores seriam o 
único modo de se lhe fazer odiosa a verdade. 

Yalho-me d'esta experiência, senhor, para descul- 
pa de ir cançar a v. ex.' com a leitura dos meus 
versos. O nome de poeta é desprezado da maior 
parte dos homens; fazem consistir a poesia em nu- 
mero de syllabas, e na união dos consoantes, e [pro- 
vam com isto a futilidade da arte: é quasi um vicio 
o ser poeta; confundem-n'o com o homem sem ca- 
racter, e imputam à poesia os erros da humanidade; 
e por isso achei natui*al, que uma arte, desprezada 
pela ignorância, fosse vingar os seus direitos aos pés 
de V. ex.' 

Os meus versos terão o successo de desagradarem 
a V. ex.', por serem maus; mas, por serem versos, 
é impossível que sejam leitura odiosa a quem deco- 
rou e analysa os poetas de Augusto e de Luíx xivr 

Para protector dos versos que offereço, não pro- 
curei só em V. ex.' o homem de letras, procurei 
também o ministro de estado. Vejo a Europa em ar- 
mas; ouço o flagello da guerra ao redor dos confins 
da minha pátria; e pareceu-me que não desappro- 
varia a satyra da guerra aquelle ministro hábil, que 
debaixo das direcções dos seus soberanos, intenta e 
consegue manter uma paz profunda no meio dos fo- 
gos das nações armadas. 

E eu abençoarei eslc trabalho de meu curto en- 
genho, se V. ex.' SC dignar de pòv benignamente os 
olhos sobre elle e sobre o seu auctor, o qual é de 
V ex.' o criado mais humilde. 



14 



-114- 



m 



Musa, pois cuidas que é sal 
O fel de auclores perversos, 
E o inundo levas a mal. 
Porque lêste quatro versos 
De Horácio e de Juvenal : 

Agora os verás queimar, 
Jà que em vâo osíecho, e os sumo; 
E leve o volúvel ar, 
De envolta c'o lurvo fumo, 
O teu furor de rimar: 

Se tu de ferir nao cessas. 
Que serve ser bom o intento? 
Mais carapuças não teças; 
Que importa dal-as ao vento, 
Sie podem achar cabeças? 

Tendo as satyras por boas, . 
Do Parnaso nos dois cumes. 
Em hora negra revoas; 
Tu dás golpes nos costumes, 
E cuidam que é nas pessoas: 

Deixa esquipar Inglaterra 
Cem naus de alterosa popa; 
Deixa regar sangue a terra; 
Que te imporia que na Europa 
Haja paz, ou haja guerra? 

Deixa que os bons e a gentalha 
Brigar ao Casaca í* vão; 
E que em quanto a turba i*alha. 
Vá recebendo o balcão 
Os despojos da batalha: 

1) Loja é* iMbidM. 



Que lens tu, que ornada historia 
Diga que peitos ferinos, 
Em sanguinosa victoria, 
Inhumanos, assassinos, 
São do mundo a honra e a gloria? 

As gueri*as precisas são ; 
N'eUas a paz se assegura; 
Não mettas em tudo a mão, 
Musa louca; por ventura 
Encommendam-te o sermão? 

Deixa que o roto taful, 
A quem na pátria foi mal, 
Vá cruzar de norte a sul ; 
Gubram-lhe o corpo venal - 
Três palmos de panno azul: 

Deixa que em tarimba estreita 
O desperte a aurora ingrata; 
Qu' o duro cabo, que o espreita, 
O faça, ao som da i^hibata. 
Virar á esquerda e á direita: 

Deixa-lhe em sangue envolver 
Duro pão, que lhe dá Marte; 
E para poder viver, 
Deixa-lhe aprender esta arte 
De matar e de morrer: 

Vá junto á queimada zona 
Arvorar, em rolos muros, 
O estandarte de Bellona ; 
Gallejem-ihe os hombros duros 
As correias da patrona : 

Vôe-lhe aos ares um pé; 
Sobre o outro, com valor, 
A Plutão cem mortos dê; 
Arda de raiva e furor, 
Sem nunca saber porque : 



-«6- 

Sem causa entre dentes trazes 
A grande arte das batalhas; 
Murmuras dos seus sequazes; 
£ quando da guerra ralhas, 
Outra com a língua fazes: 

Dizes que uma guerra accesa 
£ theatro de impiedade; 
Chamas-lhe crua fereza, 
Flagello da humanidade. 
Triste horror da natureza : 

Pintas um bi*avo guerreiro, 
£ a meus olhos vens mostral-o. 
Para ferir mais ligeiro, 
Mettendo o ardente cavallo 
Sobre o exangue companheiro: 

 um lado e a outro lado 
A morte mandando váe 
Co sanguinoso terçado. 
Até que elle mesmo càe. 
De um pelouro atravessado: 

Co'as cabeças* abatidas 
Vão de ferro vil marcados, 
Maldizendo as tristes vidas. 
Mil captivos maniatados. 
Vertendo sangue as feridas ; 

Entre horrorosos tropheos 
O general dcshumano 
Manda falso incenso aos ceos ; 
£ de espalhar sangue humano 
Váe dando louvor a Deus: 

Dizes aue se compra quina. 
Porque altas febres desterra; 
£ que em collegios se ensina, 
£m uma aula, a arte da guerra, 
Em outra, a da medicina: 



-Í17 — 

Que no frio, vasto norte. 
Cem Boerhaves eloquentes 
Enchem de ouro o cofre forte, 
Porque perdidos doentes 
Arrancam das mãos da morte: 

Que alli mesmo grosso fructo 
Colhe Saxe entre os soldados, 
Porque em minado reducto 
Fez voar despedaçados 
Dez mil homens n'um minuto: 

Tirando então consequências, 
Zombar dos homens procuras, 
E das suas vans sciencias; 
Sempre cheios de loucuras, 
E cheios de incoherencias : 

Se a paz, em dias felizes, 
Á chara pátria os conduz. 
Dizes que estes infelizes 
Mostram, rindo, os peitos nus, 
Cortados de cicatrizes : 

Que este reconta aos parentes 
Como em perigoso passo. 
Zunindo balas ardentes. 
Uma lhe quebrou um braço. 
Outra lhe levou os dentes: 

Que outro, da perna cortada 
Abençoa a horrível chaga. 
Porque ao peito pendurada 
Trará algum dia, em paga. 
Inútil fita encarnada: 

Dizes que entre os animaes 
Prohibe guerras o instincto; 
E que surdo a tristes ais. 
Vês com horror o homem tinto 
No sangue dos seus eguaes : 



— ÍI8- 

Musa, Dão discorres bem;- 
Pois se uDs com os outros cabem, 
E juntos a um pasto vem, 
É só porque inda não àabeni 
A virtude que o ouro tem: 

Por preciosos metaes 
Não pOem peito a bravos mares; 
Treze exemplos mais eguaes; 
Sábios homens não compares 
Com os brutos animaes; 

Trazem Tocinho no chão, 
E nós sempre ao alto olhámos; 
Temos em dote a razão; 
E por isso levantámos 
Uns contra os outros a mão: 

Se os homens se não matassem, 
E impunemente crescessem, 
Pôde ser que não achassem 
Nem fontes de que bebessem, 
Nem campos que semeassem : 

Em vão febres inimigas 
Os mirrados corpos gastam; 
Tornam as forças antigas; 
E está visto que não bastam 
Nem malignas, nem bexigas: 

Travem-se cruas batalhas, 
Ârrazem batidos muros 
Os soldados de quem ralhas; 
Adornem-lhe^i os membros duros 
Grossas, trosdobradas malhas: 

Sabe que mil males faz 
A molle tranquill idade 
E que em seu seio nos traz 
Brando luxo e ociosidade, 
Damnosos filhos da paz: 



Qoe nos causa occultos damnos, 
Fingindo rosto ínnocente; 
Que a guerra de largos annos 
Conservou antigamente 
A innocencia dos romanos: 

Que em quanto ao duro exercício 
Eram seus corpos affeilos, 
E da paz não houve indicio, 
Não lavrava nos seus peitos 
Mortal peçonha do vício: 

Mo havia mãos profanas; 
Eram suas almas sãs; 
E nas símplices cabanas 
Fiavam grosseiras lãs 
As castas moças romanas: 

Fez Jano os povos amigos, 
Inerte ócio os peitos toma ; 
Cos combates, c'os perigos 
Foram-se, ó austera Roma, 
ós teus costumes antigos: 

Entre as nações socegadas 
Sabe que o ócio arraigado, 
E as paixões em paz creadas, 
Fazem mais sangue no estado. 
Do que os gumes das espadas : 

Deixa pois haver queixumes; 
Mettam-se^armadas no fundo, 
Accenda a guerra os seus lumes; 
Que assim tornará ao mundo 
A innocencia dos costumes: 

A intacta fé, a verdade 
Venham com as baterias; 
Desça do ceo a amizade; 
E torne a dourar os dias 
De Saturno a antiga edade: 



Musa vã, que em ti nSo cabes, 
Os guerreiros arraíaes 
Nem vituperes, uem gabes; 
£ não te mettas jamais 
A fallar no que não sabes: 

Haja bloqueio, haja assédio, 
O sangue humano espalhado 
Nem sempre te cause tédio; 
Que em ooa dose tomado, 
Té o veneno é remédio: 

Deixa ir o mundo sen passo; 
£ contra si mesmo armaao 
Corte c'um braço o outro braço ; 
Põe na bocca um cadeado, 
Faze o que eu mil vezes faço : 

Emprega melhor teu canto ; 
£ pois queres que te louvem. 
Mão das satyras levanto; 
Poesias que os homens ouvem, 
Um com riso, e cem com pranto: 

De bons annos na funcçSo 
Leva a Fiiis fria glosa; 
Bcija-lhe a nevada mão; 
Chama-lhe Yenus formosa, 
Inda que seja um dragão : 

Éclogas também dão foma ; 
Falia em surrão, e em- curral ; 
£ do vulgo os olhos chama 
Nas paredes do arsenal, 
Cheia de applauso e de lama: 

De gallegos rodeada 
Aos aristarcos escapa; 
Té que das tendas chamada 
Sejas protectora capa 
De manteiga e marmelada. 



— MI- 



OS AMANTES 



Sitjn •AreeMi a« Mrqiia de Aifeja D. M de MrwU 



III."* e ei."^ sr. — Os dias Irisles, de que vejo 
ir cheia a melhor parte da minha vida, me influi* 
ram insensivelmente o amor da poesia; em quanto 
ordeno as minhas trovas, fujo de mim, e esquivo-me 
com ellas ao peso dos meus cuidados: a imaginação 
canada de objectos que a aiflígem, busca, para dis- 
trahir-se, o commercio das musas; e os versos que 
alguma vez fizeram rir os ouvintes, tinham a origem 
nas lagrimas do seu auctor. 

Hoje, ill."" e ex.""** sr., motivo mais alto, qual é 
o desejo de agradar a v. ex.', me fez emprehender a 
presente satyra. Os meus versos acharam o seu Me- 
cenas: V. ex/ se digna de os louvar, e de os pro- 
teger; e um voto de tanto peso, alvoroçando a mi- 
nha musa, a faz coiTer, talvez sem tino, atrás de 
uma protecção, que tanto a honra. 

Repeti os versos antigos; e a primeira vez que 
me apresentasse a v. ex.', tinha ae apparecer com 
ás mãos vazias: intentei poesia nova; lembrou-me 
que um fidalgo moço, a quem a philosophia tempe- 
rara sempre os fogos da mocidade, e que afastacdo 
do amor os crimes, faz d^elle mais uma virtudlB, go- 
zaria melhor do seu triumpho pondo-lhe aos olhos 
uma pintura fiel do amor mal entendido. 

Como o meu intento era divertir a v. ex.% ajuntei 
o prazer à philosophia da obra, e tracei uma satyra: 
este nome assusta o vulgo ignorante; confunde as 
satyras com os libellos infamatorios ; as que ha does- 
ta natureza são um crime do poeta, que quer emen- 



— ÍÍ4 — 

dar erros, fazendo mais um; das melhores cousas 
se pôde usar mal : a espada nas mãos do assassino 
é o escândalo da humanidade; nas mãos do soldado 
fiel, é a guarda do throno e das leis: v. ex/ sabe 

aue a severa Athenas prohibindo a satyra da come- 
la antiga e média, levantou theatros para a nova, 
porque expunha á irrisão do povo os vícios, sem a- 
pontar os homens. O riso não im[dica com a doutri- 
na: Platão e Horácio caminharam por estradas di- 
versas; mas ambos foram philosophos, ambos ins- 
truíram os homens; imitando-os na tenção, me ani- 
mei a ordenar, e a offerecer a v. ex.' uma satyra, 
oue se excitar riso em uns, não o tira das lagrimas 
de outros; e v. ex.' consinta que a minha musa hu- 
milde ponha este tributo de agradecimento nas mios 
bemfeitoras do protector que a honra: isto pede, se- 
nhor, de V. ex.' o criado.... 



Amor, é iiailso o que dizes ; 
Teu bom rosto é contrafeito ; 
Tenta novos infelizes; 
Que eu ainda trago no peito 
Mui frescas as cicatrizes: 

O teu mel é mel azedo; 
Não creio em teu gasalhado, 
Mostras-me em vão rosto ledo ; 
Já estou muito escaldado. 
Já d^aguas frias hei medo: 

Teus prémios são pranto e dor; 
Choro os mal gastados annos, 
Em que servi tal senhor; 
Mas tirei dos teus enganos 
O sair bom pregador: 



Failei*te assas a vontade; 
Em vãos suspiros, e em queiías 
Me levaste a mocidade; 
E nem ao menos me deixas 
Os restos da curta edade? 

És como os cães esfaimados, 
Que, comendo os troncos quentes, 
Por destro negro esfolados. 
Levam nos ávidos dentes 
Os ossos ensanguentados? 

Bem vejo aljava dourada 
Os hombros nus adornar-te; 
Amigo, muda de estrada; 
Põe a mira em outra parte, 
Que d'aqui não tiras nada: 

Busca algum fofo morgado, 
Que sóito já dos tutores, 
Ao domingo penteado, 
Yáe dizendo a toa amores 
Pelas pias encostado : 

Que em sisuda casa honrada, 
De papeis nunca avarento, 
Dá com a mão refalseada 
Escriptos de casamento. 
Ora a filha, oraá criada: 

Genealógico comprado 
Lhe concede, a peso d'ouro, 
Em castello imaginado, 
Cabeça de fiisco mouro. 
Sobre escudo golpeado : 

Arvores de geração 
Em pergaminho enrolado, 
Provas mnegaveis são; 
£ um ramo desgraçado 
De antigoa reis de Aragio: 



— «4 — 

Dando ao mochila o lazão, 
De Filis a escada embóca. 
Sempre em ar de protecção ; 
Alvo palito na bocca, 
Branda varinha na mão : 

Zomba dos falsos brazOes, 
Que não são no berço achados; 
E diz à moça as razoes 
De ter no teliz bordados 
Dois cães, e quinze leOes; 

^ As historias lhe declara 
D'aquellas guerras felizes; 
E mostra, com mão avara, 
Os ossos de dez narizes^ 
Que seu quinto avô cortara: 

Aturde a moça boçal 
Com cem quintas, cem commendas; 
E armando um mappa geral 
Das suas immensas rendas, 
Váe-se sem lhe dar real : 

Mas se a teus farpões dourados 
Não achas digno consumo, 
E os julgas mal empregados 
N'eslas cabeças de fumo, 
N'estes peitos altanados, 

Busca algum novel basbaque, 

Sue por pobre não saia, 
as já mette o bairro a saque. 
Depois que engenhosa tia 
Lhe armou de uma saia um fraque: 

Que gravesinho namora 
Com brando e risonho aspeito, 
Ponta de lenço de fora, 
Molho de flores no peito. 
Prenda de certa senhora : 



> 



— 225^ 







Que um trapo a seu geito ordena, 
Temendo o pó das calçadas; 
E antes de entrar na novena, 
Com cuspo, pelas escadas, 
Yáe danao aos sapatos crena: 

De çelo as pedras cobertas. 
Como as vezes me fizeste, 
Alta noite, e a horas certas. 
Quando o rígido nordeste 
Deixou as ruas desertas; 

Ouça duros assobios. 
Precursores de alto insulto; 
Retalhem-n'o ventos frios; 
Ladrem ao postado vulto 
Cem nocturnos cães vadios: 

De paisanos salteado, 
Ronda sem fé e sem lei, 
De espadas velhas cercado, 
E ao som da parte de el-rei, 
Por força desembuçado. 



Membmdo cabo vermelho 
O apalpe ante os mais senhores; 
Acha uma escova e um espelho, 
Dezoito escriptos de amores, 
£ um sujo lencinho velho: 

Firam teus accesos raios 
Também na gentalha vil, 
, De crestados peitos baios, 
Que começando em barril, 
Vão por aúgmento a lacaios: 

Busca algum que da cocheira. 
Quando o patrão nSo sáe fora, 
Com os olhos na trapeira. 
Limpando a sege, namora 
Desgrenhada cozinheira: 

Que de noite à sua porta. 
Com famosos tangedores. 
Que o Talaverras < •/ conforta, 
Lhe manda temos amores 
Sobre as azas da Comporta: í' 

A quem a suja donzella, 
Por almoço do costume, 
Manda em sórdida tigella 
O primitivo chorume 
Da desflorada paqella: 

E se le não satisrazes 
Com tanta conquista brava. 
Que n'esta canalha fazes, 
E ainda a funesta aljava 
Pejada de settas trazes; 

Não tens velhas presumidas, 
Que em tim de mez fingem dores. 
Só ás moças concedidas, 
E tem de compradas cores 
As roxas faces tingidas? 

4 ) Cwa d« povo. 

f) Moda qn* oftnUTa a gente da pltbo. i 



--H7 — 



Cuja bocca pestilente, 
Ante um espelho ensaiada, 
Torcendo-se destramente, 
Aprende a abrir a risada 
Por onde ainda resta um dente? 




Que ha sessenta annos donzellas, 

ÍCaso raras vezes visto) 
Pem títulos de capellas, 
Com um habito de Christo 
Para quem casar com ellas? 

Busca alguma de bom caco, 
Que pela fenda da saia. 
Marinhando o braço fraco, 
Fisga o lenço de cambraia, 
Afastando o de tabaco: 

Que em festival sociedade 
Até o rapé reprova, 
Cbamando-lhe porquidade; 
E vàe fartar-se na alcova 
De simonte e de cidade: 



— M8 — 

Amor, faze estas" em postas; 
Váe-lhe das lagrimas rindo, 
Já que de lagrimas gostas; 
E d3o andes perseguindo 
A quem te virou as costas: 

Porém se da plebe escura 
Em pouco o triumpho prezas, 
E queres fina ternura, 
Extremos, delicadezas. 
Os freiraticos procura: 

Gentes de mais alta esteira; 
Ternos, finos coraçO^, 
Que em fechada papeleira 
V9o 'guardando em oatalhOes 
As cartas da sua freira: 



Em chegando a conductora, 
Que os sacrilégios atèa, 
Um doestes de gosto chora. 
Lambe com respeito a obrèa, 
Por ter cuspo da senhora: 

Posto na insípida grade, 
Em almíscar perfumado. 
Todo amor, todo saudade. 
Comendo em doce babado. 
Os sobejos de algum^frade: 

Ao sublime estilo guinda 
Sua discrição notória; 
A que logo a freira linda. 
Revolvendo na memoria 
Os dous livros de Florinda , 

Responde: o: Os conceitos sigam 
Os holocaustos do altar; 
Pois são, e as chammas o digam. 
Pedir, quem pôde mandar. 
Preceitos que mais obrigam. » 




Lambo com respeito a obn\i. 
* or t,T ciispo da senhora. 



m 



t /lyittilÉa L 




Yác me-U-r Jenlro ria roJa 
O seu cachaço vcrmollio. 



i:9 



—229- 

Entretanto um chantre velho, 
A quem a rodeira engoda, 
£ que em fechando o Evangelho, 
Vàe nietter dentro da roda 
O seu cachaço vermelho ; 

Freiratico por fadário, 
Tão goloso, como amante, 
Condecinhas pelo armário, 
£ sobre a deserta estante 
Manjar branco, e o breviário; 

Que em podre philosophia 
Sectário da antiga lei. 
Os Universaes sabia, 
E armado do a parte rei, 
Tudo a eito distinguia; 

Arranca oleoso escarro ; 
Diz à rodeira um conceito 
D'aquelles, que já tem sarro; 
Mette os óculos no peito, 
Throno de amor, e catarrho. 

Pois já que estes peitos vão 
Franca entrada offerecer-te, 
Amor carrega-lhe a mão ; 
Aprendam a conhecer-te, 
Mas paguem caro a lição: 

Mette n'um cárcere a dama; 
Do bom chantre os calcanhares 
Vão curtir gotta na cama; 
£ o secular cruze os mares. 
Que foi descobrir o Gama; 

E se (|uer(»s (Mn[)regar 
As luas soltas de prova, 
Quando alva lua raiar, 
Váe sobre a Ribeira Nova 
As azas equilibrar: ^ 

' 15 



— MO- 

BraDCos vestidos tomados, 
Descobrindo as saias altas ; 
Entre as nnvens os toucados; 
£ com esbeltos paraltas 
Os braços entrelaçados : 

Verás ser acceito logo 
Teu riso enganoso e brando ; 
Não esperam por teu rogo; 
£ em tu do alto assoprando, 
Verás chammejar o fogo: 

Que alvos dedos delicados 
A furto se vão beijando, 
£m quanto os pães descuidados 
A loja nova admirando 
Pararam embasbacados! 

Verás sisudo estrangeiro 
Coatando grossos tostões 
Ao refinado brejeiro 
Correio de corações, 
Que se compram por dinheiro: 




> 




Salta da cama ligeiro, 
Corre portas e janellas. 
Registando o quarto inteiro 
Em ceroulas e chinellas, 
Com pistola e candieiro. 



§31 



— 431-^ 

Verás moça rebuçada, 
Na cabeça lenço sujo, 
Rola capa sobraçada, 
Recebendo do marujo 
Um copo de limonada : 

E em quanto escuto os gemidos, 
Que arrancas de tantos seios. 
Deixa que em montes erguidos 
Veja os naufrágios alheios. 
Enxugando os meus vestidos: 

Se até nos teus estimados 
Hervadas settas se embebem ; 
Se do teu riso enganados 
Com boccas sedentas bebem 
Veneno em vasos dourados: 

Vão pé, ante-pé guiados 
Por peitada cozinheira; 
Mas vendo os pães levantados, 
Dentro de enrolada esteira 
Ficam n'um canto emboscados: 

Quando alta noite susurra 
Rijo sibilante vento, 
Que as grossas portas empuri*a, 
' E acorda o velho avarento 
Com os cuidados na burra ; 

Salta (la cama ligeiro. 
Corre portas e janellas. 
Registando o (|uarlo inteiro. 
Em ceroulas e chinellas, 
Com pistola c candiciro : 

Que tremor de coração, 
Que semblantes enfiados 
Os amantes não lerão? 
Que c'os collos levantados 
Ouvindo o rumor estão 1 



Da janella dobriirada 
Desenvolve degráos falsos 
Pallida dama assastada; 
Os mimosos pés desralçwj, 
A madeka ao vento dada. 




Pois se estes teus escolhidos, 
Por cabedaes, por figura, 
Das Nizes favorecidos. 
Maldizem sua ventura, 
E descem arrependidos ; 

Como hei de eu crêr-te, que apenas 
Vi de longe tranças de ouro? 
Debalde outro engano ordenas 
 quem de teu vão thesouro 
Nunca teve mais (juo penas: 



De leu rol meu nome risca; 
Em peito inda não cortado 
Cevados anzoes arrisca; 
Mas com. peixe já sangrado 
Não gastes a tua isca: 

De meu pranto rociadas 
Penduro as fataes cadeias, 
Ao som de meus ais forjadas ; 
Arranco das rotas veias 
Gruas settas despontadas: 

Sangue innocente esparziram ; 
Mais à idéa me não tragas 
Uns olhos, que enxutos viram. 
Estas desgraçadas chagas. 
Que em teu serviço se abriram: 

Dei-te os cuidados e os dias; 
De tudo já foste dono,^ 
Restam só melancolias; 
Que gloria te dá um throno 
Posto sobre cinzas frias? 

Teus golpes de mim que esperam? 
Dá flilego ax)s escravos mancos, 
Que em teu carro entorpeceram; 
Deixa em paz cabellos brancos, 
Que entre os teus ferros nasceram. 



— fl4 — 

SATYRA 
OfmcUa a I. lartiiki k AImííi, m mm ái ^71 

A vós, que favor me daes, 
Illustrc e sábio Martinho, 
Que mefu fraco engenlio alçaes; 
£ das letras o camíuho 
Dentro d'ella8 me mostraes: 

Homem são e sem reserva, 
Que pondes sangue de parte, 
Que vãos respeitos conserva; 
Nutrido aos braços de Marte 
Com o leite de Minerva: 

Vosso servo hoje se atreve 
A mandar em ma poesia 
Bons desejos que ter deve; 
Que tenhaes paz e alegria^ 
Mais que o triste, que isto escreve: 

Que n^essas vastas campinas, 
Que assombram ermos outeiros, 
Yivaes horas mais benignas, 
Livre de duros banqueiros. 
Livre de ingratas Nerinas: 

£m boa larde mandae 
Farpear bravo novilho, 
Com o conde passeae; 
Ide adoçando c'o lilho 
Justas saudades do pae: 

Ensinae-lhe altas verdades, 
Aos vossos olhos patentes; 
Mostrae-lhe n'essas herdades 
Os prazeres innocentes. 
Que fugiram das cidades: 



— Í35- 

Quc ame a pura singeleza, 
De que os campos são figura ; 
Que não se fie em grandeza, 
Que uma é obra da ventura, 
E a outra, da natureza: 

Mas voltando a nós a mão, 
Vós, philosopho profundo, 
Que conversaes com Platão, 
Vede se lhe achaes ura mundo, 
Que nos encha o coração : 

Que este em que estamos, senhor, 
Sempre surdo a sãos conselhos, 
Volve a roda a seu sabor; 
E dizem pilotos velhos. 
Que váe de mal a peior; 

Quantas vezes nós falíamos 
Sobre a sua natureza? 
Quantas mazellas lhe achámos? 
Porém temos a fraqueza 
De amar o que condemnamos: 

O bom Demócrito ria 
Do que a nós nos causa dor; 
Elle mui bem o entendia; 
Vamos nós também, senhor. 
Fazer o que elle fazia: 

Dos homens na vã loucura 
Um pouco meditaremos; 
E com alauimia segura. 
Do mal aineío faremos 
Para o nosso mal a cura : 

Quando vierdes, então 
Correremos a cidade; 
Uns que vem, e outros que vão; 
Acharemos á vontade 
Onde mettamos a mão : 



-Í36- 

Veremos o vão paralta 
Calcando importuna lama, 
Que as alvas meias lhe esmalta, 
Na esteira de esquiva dama, 
Que de pedra em pedra salta : 

Aos cafés iremos vêl-o 
No mostrador encostado 
Sobre o curvo cotovelo 
Tendo á esquerda sobraçado 
Gigante chapéo de pèllo: 

Alli em regras de dança, 
Com outros taes conversando, 
Dirá que desde criança 
Andou sempre viajando. 
Que viu Londres, que viu França; 

Que gastou grossos dinheiros; 
Pois ver com socego quiz 
Cidades, reinos inteiros; 
Jura que como em Paris 
Nunca achou cabelleireiros: 

Exalta os molhos francezes 
Dos banquetes que lhe deram ; 
E balbuciará às vezes, 
Fingindo que lhe esqueceram 
Muitos termos portuguezes: 

Chamará á pátria ingrata; 
Murmurará do governo, 
Que do bom gosto não trata, 
£ consente que de inverno 
Haja Avelas de prata: 

Em dois minutos emenda 
O mundo que váe perdido ; 
E quer que com elle aprenda 
Em que quadia, e em que vestido 
São próprios punhos de renda: 




Veremos o vào paralta 
Calcando importuna lama. 
Que as alvas meias lhe esmalta. 
Na esteira de esquiva dama. 
Que de pedra em pedra salta. 



Carregando a sobrancelha, 
A fallar na historia salta; 
E logo (la França velha 
Reconta o pobre parai ta 
Cousas que pescou de orelha: 

Faz ao bom Sulli justiça, 
Que os fios da espada embota 
Ao rei, que em furor se atiça; 
E não lhe esquece a anecdota, 
«Que um reino vale uma missa»: 

Falia em São Bartholomeu 
E quasi que as gottas conta 
Do sangue que então correu; 
E ao certo as folhas aponta 
Da historia que nunca leu: 

Riremos do seu estudo; 
Porque só o tem mostrado 
Em ter chapéo gadelhudo 
Em ter canhão cerceado, 
E em pôr de mais um canudo. 

Iremos ouvir mil petas, 
Quando mais o sol se empina, 
Vendo acérrimos jarrotas, 
Junto a Santa Catharina, 
Argumentando em gazetas: 

Um quer a cabeça dar. 
Se o conde de Estaing não fez 
Trinta naus desarvorar, 
Outro levanta em um mez 
O cerco de Gibraltar: 

Ura, riscando a terra, ensina 
Co'a bengala a geographia ; 
E nos diz com quem confina 
Ao poente e ao meiodia 
A Geórgia e a Carolina: 



-138 r 

Outro aos inglczos deseja 
Na armada o fogo ateado; 
E pinta em crua peleja 
Dez lords fugindo a nado 
Sobre barris de cerveja: 

Outro conta os graves damnos 
Que esta gazeta declara 
Tiveram os castelhanos; 
E o triumpho inglez compara 
(7os triumphos dos romanos: 

Ao seu partido se aferra; 
Diz que inda c'os mastos rotos 
Ao mundo farão a guerra; 
Mas liça vencido em votos, 
E leva a breca a Inglaterra: 

Dâo ao leão furibundo 
Gibraltar cm justa guerra; 
E este concílio profundo, 
Sem ter um palmo de terra, 
Está repartindo o mundo : 

Dado em fim o inglez á sola, 
Qualquer dos ditos confrades 
Na rola capa se enrola; 
E lendo dado cidadãs, 
Nos vem pedir uma esmola : 

D'alli, senhor, voltaremos 
Pelas praças principaes; 
Que bellas cousas veremos! ^ 
Que famosos editaes 
Pelas esquinas leremos! 

«Chegou monsieur de tal, 
Chimico em Paris formado; 
Traz segredo especial ; 
Um elixir approvado. 
Um remédio universal : 



— 1$9^ 



«Não pretende ajuntar fundo 
Cos f(randes segredos seus; 
E cheio de dó profundo, 
Tira pelo amor de Deus 
Os dentes a lodo o mundo»: 

Irenios ler uo oulro lado, 
Onde acaso os olhos puz : 
«Em quarto grande, e estampado 
Saiu novamente à luz 
Carlos Magno eommentadojo : 

<cNa mesma loja hão de achar: 
As Obras de Caiãeirão, 
Que em bom preço se hSo de dar; 
E o Cmalheirú Christão, 
E as Regras dê Partejar3. 

Doestas ridicularias, 
E de outras taes murmurando 
Co'a3 nossas philosophias, 
A tarde iremos gastando 
Té que dèm Av^Marias : 

Então já quando em cardume 
Sáe gente da Fundição, 
Como sabeis que é costume, 
E já as visinhas vãq 
Pedir ás yísinhas lume: 

Quando a dama roqueslacla 
Um vulto na esquina vé, 
E diz à liei criada. 
Que desça pé ante-pé, 
È tonie o escriptc» na escada: 

Quando todo o ginja rico 
Para casa a prfla incíina, 
Por temer facas de bico ; 
E cuida (pic a cada esquina 
Lhe lanca mfio o Jmtmmi 



Enláo, meu senhor, leremos 
Fiincção de mais alto preço; 
A certa assemblóa ii^mos 
I)e uma gente que eu conheço, 
Onde á vontade riremos: 

Feita a geral coitezia, 
Pé atrás, segundo a moda, 
Daremos á mâe e á tia, 
E depois a toda a roda, 
Alto e maio senhoria: 

A mãe, já dragão formal, 
Espelho de desenganos, 
£ que, por seu grande mal^ 
Ha já mais de vinte annos,* 
Que guarda a fé conjugal ; 

Posta de roda no centro. 
Cruza a perna, mestra abelha; 
£ de longe a ver-lhe eu entro 
Sapatos de seda velha. 
Bicos de pés para dentro: 

A tia, séria mulher, 
Que os longos vestidos seus 
Ao Carmo manda fazer; 
£ d'estas que dão a Ueus 
O que o mundo já não quer; 

Sente um desgosto intiníto. 
Que o mundo a deixe tão cedo ; 
AíTecta mystico espVito; 
Porém suspira em segredo 
Pelas cebolas do Egypto: 

VAbbé, que encurta as batinas, 
Por mostrar bordadas mèas, 
E presidindo em matinas, 
Yáe depois ás assembléas 
Cantar modas co'as meninas; 







LAbhéy que encurta as batinas, 
Por mostrar bordadas méas, 
E presidindo em matinas, 
Váe depois ás assembléas 
Cantar modas co'as meninas. 



240 



— ^41- 

É quem lhe rouba allenções, 
E lhe accende um fogo inlcrno, 
Trala-o com mil expressões; 
Diz-lhe quanto ha de mais lerno 
Nos seus livros de orações: 

Riremos do tal dragão, 
Oue tantas llf^^uras faz; 
E sabe, com hábil mão, 
Unir em profunda paz 
Babylonia com Sião: 

Pouco ás filhas fallarei; 
São feias, e mal criadas; 
Mas sempre conseguirei, 
Que cantem desafinadas 
«De saudades morrerei»: 

Cantada a vulgar modinha, 
Que é a dominante agora, 
Siáe a moça da cozinha, 
£ diante da senhora 
Vem desdobrar a banquinha: 

Na farpada mesa, logo 
Bandeja e bule apparece; 
Que mordaes os beiços rogo, 
Pois são trastes, que parece 
Que escaparam de algum fogo: 

Em bule chamado inglez, 
Que já nara pouco serve. 
Duas folhas lança, ou Ires 
De cançado cha, que ferve. 
Com esta, a sétima vez: 

De fatias, nem o cheiro, 
Por mais que às vezes as quiz; 
Que o carrancudo tendei ro, 
(dançado de gastar giz. 
Já não dá pão sem dinheiro: 



— Í4Í — 

Sairemos de improviso, 
Despedidos à franceza : 
E iremos, pois é preciso, 
Na vossa esplendida mesa 
Largar rédea á fome e ao riso: 

De tudo nos lembraremos; 
A famosa digressão 
Ao bom marquez contaremos, 
E (lo vermelho Monção 
Mil saúdes lhe faremos: 

Mas, senhor, agoi*a vejo 
Quanto o pensamento vôa; 
Estar comvosco desejo; 
Não podendo co'a p^oa. 
Fui ao menos c'o aesejo: 

Correu com largueza a mão; 
Escrevi mais do que devo ; 
Foi culpa do coração; 
Quando vos fallo, ou escrevo. 
As horas instantes são: 

Quem me seja pouco aflfeilo. 
Vendo estas regras singelas. 
Dirá com damnado peito. 
Que escrever-vos bagatelías, 
E faltar-vos ao respeito; 

Mas vós sois sábio, e sois justo; 
Sabeis a quem me encostei; 
Boileau que escreveu sem susto. 
Fez o m^mo ao grande rei. 
Fez o mesmo Horácio a Augusto. 



>©■ 



— 243 - 

A FUNCgÃO 

Saljra 

Musa, basla de rimar; 
Já fazes esforços vãos, 
Váe a lyra pendurar; 
Não sabem trémulas mãos 
Com as cordas acertar; 

Já a velhice pesada 
Te encheu de rugas a testa; 
Já co'a dura mão gelada 
Te poz a marca funesta 
Na madeixa branqueada; 

Teu estro, falto de meios, 
Já furta mais do que imita; 
Vás dando airosos passeios, 
E todo o povo te grita, 
<r Larga os vestidos alheios »: 

Tua vaidade faz dó; 
Cinges cascos eniiigados, 
Cheios de caruncho e pó. 
Com velhos louros furtados 
Do sepulchro de Boileau: 

Leste por teu mal um dia 
Este livro endiabrado; 
Tal te poz a pfaantasia, 
Que o corpo velho e cançado 
Inda te pede folia: 

Depois que vistosa quinta 
Te deu brilhante funcção, 
Tu de discórdias faminta, 
Vens com damnada tenção 
Pór-me ao pó papel e tinta: 



— 244 — 

Bem me lembra o sítio ameno; 
Quanto vi tenho presente; 
Mas a ti é que eu condemno. 
Que na acção mais innoconte 
Vás sempre deitar veneno: 

Com felpudos chapelinhos, 
Que estofada pluma ornava, 
Por aprazíveis caminhos 
Formoso esquadrão montava 
Ajaezados burrinhos: 

Marcha a tropa ; amor a guia ; 
Tu que a mesma estrada trilhas, 
Mostra-me em todo esse dia 
Cousas, que não fossem filhas 
Da innoc^ncia e da alegria? 

Dizes que pobres donzellas 
Vão os olhos enganando 
Com -postiças tranças bellas, 
E chitas de contrabando, 
Que ainda são das adellas; 

E que em quanto em taes desmanchos 
A irmã, com litulos falsos, 
Faz a gloria doestes ranch^os, 
Corre o irmão, c'os pés de^^cnlços. 
Vendendo en^ Lisboa ^^anchos: 

Dizes que um, o (|ual eu calo. 
Assentando que as senhoras 
Querem todas namôral-o, 
Cravando a furto as esporas, 
Meltia em obra o cavallo: 

Que outro, falto de expressão. 
Traficar de longe quiz; 
E coní o lenço na mão. 
Pagava o pobre nariz 
Os crimes do coração: 



-24;)- 

Mas gtianto ,atéqui exprimes,. 
Por mais qne as cores lhe miide«, 
Por mais que a teu geilo o rimes, 
Creio que nOo sao virtudes, 
Porém também nío são crimes : 

No largo pateo apeados, 
Que alva cal em torno pinta, 
Dizes que de braços dados 
Fomos passear na qiiinta, 
Uns dos outros separados: 

Faiscando os olhos lumes, 
Perdido o siso e o conselho. 
Gritas em vivos queixumes: 
« Onde estão, Portugal velho, 
Onde estão os teus costumes?- 

« Onde 08 bons tempos estão 
Da simples Lisboa antiga? 
Quando era grande funccão 
Ir a amiga ver a amiga, 
E merendarem no chão! 

€ Quando a filha sem labéo 
Ia cantar com trabalho, 
E co'a innocencia do ceo: 
— Senhor Francisco Bandalho, 
Fita verde no chapéo ! — 

<cOh malditos os primeiros. 
Que a edade d'ouro inventaram! 
Que banii*am pegureiros, 
K nos campos misliiraram 
Os lobos com os cordeiros' « 

Qual, apertando alvos dedos, 
Váe dizendo: «Ingrata, aprende 
Doestes passarinhos ledos; 
Amor sua voz entende, 
São de amor os seus segredos. » 

16 



— «46- 

Qual co'a navalha aliada 
Desefíual cortiça aplaoa 
l)'antiga arvore copada, 
E entalha, em letra ronmna, 
O nome de sua amada; 

Beija entSo as leiras bellas: 
E de versos curioso, 
Pondo biandos olhos n'ellas, 
Pede ao tronco venturoso, 
Que as vá erguendo às estrellas: 

Dizes que por mais que eu pregue. 
São baldados meus oíGcios; 
Que ninguém jamais consegue 
Marchar sobie precipícios. 
Sem que algum pé lhe escorregue: 

Sentam-se entretanto os pães; 
Vem gazeta, e rei da Prússia, 
Vem os Estados Geraes; 
Marcham com as tropas da Rússia 
As tropas impei iaes: 

. Um conta da Porta o estado; 
Diz que das pazes o artigo 
Vàe mui pouco acautelado; 
E tendo a fllba em peiigo, 
Ri do lurco descuidado: 

Co*a pinlada sobrancelha 
Váe sósuiha passeando 
Boa mãe, sincera velha; 
Dos esgalhos resguardando, 
Ora a pellíça, ora a lelha; 

Pondo contra a luz a mão, 
E crendo que n^esta rua 
Eslà São Sebastião, 
De Vénus á estatua nua 
Faz mesura e oração; 




" AõãiF/ã/ 04 Sith, 



Fondo contra a luz a mão. 
K crendo que n'esla rua 
Está Sâo Sebastião, 
De Vénus á estatua nua 
Faz mesura e oração. 



^ 



-Í47 — 

Em tanto as Vénus melhores, 
Do que esta, que a arte fez; 
Escutam temos amores, 
Que estão jurando a seus pés 
Felizes adoradores: 

Basta, musa, pare ahí 
Esse montão inimigo 
De mentiras, oue te ouvi ; 
Tu sempre andaste commigo, 
Mas eu nada d'isso vi ; 

Foi por meu braço levada 
Uma das ditas donzellas; 
Feia, mas a estudos dada; 
E sobre doutas novelias 
De tenros annos criada,' 

Levantou sábias questões, . 
Que ella mesma resolveu ; 
Fez profundas reflexões; 
E por tim me prometteu 
Ler-me as suas traducções; 

Jurou que aprendeu grammalíca, 
E que hoje os livros ndo fecha 
Da infallivel mathematica; 
E quer ver se o pae a deixa 
Ir na maquina aerostatíca: 

Só de nós podes fallar; 
Dos mais, como has de saber, 
Se vendo-os no bosque entrar, 
Quando os tornámos a ver 
Foi às horas de jantar? 

Dizes que é falso este nome; 
Que foi jantar de matula. 
Onde só quem furta, come; 
Juras que no altar da gula 
^Foste víctíma da fome ; 



_-lW- 



0«^ *• *^nM saúde ^ . 

se mau ^-[i^tt^ínSS*;^ 
Mostrando anu*' ; ^ « teclo, 

Com nso d(» cir ^ ^j,. 
Trinchou o peru 

\ quem seu» »» bordado, 
E^^^P^^ÍnSr nos contam 
Ti-aidores V ni^^^J^ ca\çado; 
JV9 veie* que »» 

seguindo a NerinaV^;'; 
Que de ía'^^*^* senhora 

Bordou 4« ""JíScaao. 



- Í49 - 

Tudo isto sSo meros nadas; 
£ toda a indulgência pedem 
Mesas em barulho armadas; 
Peiores cousas succedem 
Nas que julgas delicadas : 

Eu já vi boçal criada, 
Que o fatal segredo espalha, 
De estar um moço na escada, 
Que vem buscar* a toalha, 
Se já está desoccupada : 

Deiía pois tenç5o ruim; 
Foi um soffrivel jantar; 
E depois que elle deu fim. 
Foi mau ver contradançar 
Toda a tarde no jardim? 

Destros pareis perfilados, 
Que o brilnante enredo tecem, 
Deram promptos e acertados, 
Um prazer, que só conhecem 
Os corações delicados: 

Yenus mesma não fizera 
Jogos mais encantadores. 
Quando dizem que descera 
Entre as graças e os amores 
Sobre os jardins de Cithera: 

E que mal te fez então, 
No furor das contradanças, 
Ver parceiro cortezão 
Ir levar á dama as tranças, 
Que lhe caíram no chio? 

Das três velhas que dançarsm, 
Se uma gritou de i*epente, 
Foi porque os pés a entregaram. 

Suando desgraçadamente 
s dois callos se encontraram: 



£ se acaso em ti não ha 
Goslo por tal passatempo, 
Enfreia essa língua má; 
S3o modas que vem c'o tempo, 
O tempo as aeabará: 

Não são os gostos eternos; 
Teve o Passapié amigos, 
Ainda não ha quinze invernos; 
Foi a gloria dos antigos, 
Hoje é mofa dos modernos: 

Debalde em ralhar te canoas; 
Deita ao tempo os seus caminhos; 
Ir-se-hão poupas, ir-se-hão tranças, 
Hystericos» josésinhos, 
Feitiços, e contradanças: 

Em bandolim marchetado, 
Os ligeiros dedos premptos> 
Louro paralta adamado, 
Foi depois tocar por pontos 
O doce londum chorado: 

Se Mareia se bamboleia 
N'este innoceote exercido; 
Se os quadris saracoteia; 
Quem sabe se traz cilicio, 
E por virtude os meneia? 

Não sentencèes de estalo; 
Tem as danças tim decente; 
Ama o pae; mas, por deixal-o. 
Dança a donzella ínnocente 
Diante de São Gonçalo: 

Cobrando o pardo dinheiro, 
De qiie o povo é tributário, 
Velho preto prazenteiro 
Para gloria ao rosário, 
Remexe o oorpo e o pandeiro: 



Em solemne procissão 
Une a fríeieira casta 
O fandango e a devoção; 
Mas em tim de exemplos basla, 
E tornemos á questão: 

Já d'entre as verdes minteiras, 
Em suavíssimos assentos, 
Com segundas e primeiras, 
Sobem nas azas dos ventos 
As modinhas brazileirasr 

E qué mal te fez na porta, 
Pae Que ronda de quadrilha, 
Cabelleira loura e torta, 
Dizer que peçam à Tilha 
Um bocado" de Comporta? 

Com que graça vem trazidas, 
Fíngindo-se envergo» badas, 
Tenras foces incendidas. 
Por destros galgos achadas 
Nb jogo das escondidas? 

Musa, abre os olhos escassos, 
Não te enganes co^a apparencía ; 
Se não torcesses os passos,* 
Acharias a innocencia 
Té no jogo dos abraços: 

Marília as linhas espalha ; 
E a cândida mão sem luva 
Tão destramente as baralha, 
Que sempre saiu viuva 
Santa velha, que não ralha: 

Tira a este brinco o vco, 
Útil fim verás mil vezes; 
D'alli sáe o chichisbeo ; 
D'alli se levam as rezes 
Aos altares de Hymeneo: 



£ se co'a língua damnada 
Sem molívo envenenaste 
A tarde tão bem passada, 
Com menos causa gritaste 
Á noite na i*etirada: 

Se a pé. dando o josésinho 
Escoltou Alcino ledo 
A Mareia todo o caminho, 
Foi porque ella tinha medo 
Que lhe caísse o burrinho: 

Todas contentes chegaram; 
Nenhuma chegou moída; 
E depois que se apearam, 
AUi mesmo, à despedida, 
Outra funcçSo ajustaram : 

Vês, musa, como atropellas 
A innocència das funcçôes? 
Confessa que em todas* ellas 
O mal não vem das acç(^, 
Vem de quem julga mal d'ellas: 

Segue outra philosophia; 
Nem sempre seriedade. 
Como nem sempre folia; 
Na discreta variedade 
Está do mundo a harmonia : 

Bravo ínglez sanguinolento. 
Depois de deixar votado. 
Que se aíTronte o mar e o vento, 
Cuidas que lica fechado 
Nas salas do parlamento? 

Se pela pátria se canoa. 
Também prazeres deseja; 
De manhã assusta a França; 
Arrota á noite cerveja. 
Canta mal, e contradança: 



-133- 

Trata pois dfe te emendar, 
E deixa vidas alheias; 
Que o povo está a zombar ^ 
£m quanto te incham as veias 
Com a força de pregar: 

Thomaz dos Pôs <^ fez missões; 
Ajuntou gente infinita; 
Mas inda em negros vergões 
Traz nos artelhos escrípta 
A paga dos seus sermões: 

Toma em fím a lição mínba; 
Mas se estás na mesma frágoa 
D'aquella mulher mesquinha, 
Que alçando a mão fora d'agua, 
Fez c'os dedos tesourinha; 

Teme o raivoso furor 
Do exercito dos paraltas, 

?'ue em armas se váe já põr; 
ambem o das poupas altas, 
Que é inimigo peior: 

Guardam no peito ódio veibo 
Por motivos similhanles; 
E se crés no meu conselho, 
Mata-lhe antes os amantes, 
Quebra-lhe o melhor espelho, 

Probibe-lhe as convulções; 
Abre-lhe ao cãosinbo as Veias, 
Que para tudo ha perdões ; 
Mas nunca lhe chames feias, 
Nem lhe entendas co'as funcções. 



i ) Douto, qnt par frégar foi para at gdéf . 



-154- 




g^i 



r.MC. 



Era vão le quero fugir; 
Fatal velhice, as tuas aettas 
De peito me vem ferir; 
Bem ouço o som das moletas, 
£ bem te sinto tossir: 

Assim oaluresa o quiz; 
Jà em teu rol me alistaste; 
Já em triumpho infeliz 
Uns óculos arvoraste 
N'este vencido nariz: 




Vens agora em teu vassallo 
Imprimir novos ferretes; 
Âos justos me humilho e calo; 
Brotem nodosos joanetes, 
Nasça em cada dedo um callo: 

Mas não dês com mio maldita 
Castigo sotne castigo; 
Eu não fujo á lei prescripla; 
E teimar taato commigo, 
Não é lei, é revindicta: 

Queres que nojoso pranto 
Já me creste rubros olhos? 
E ttão farta inda com tanto, 
Alças barrete de folhos^ 
E já me apontas um canto? 

Já me mandas, que abafado, 
Martyr de algozes, receios, 
Pardo lenço sobraçido, 
Tente convulso» pâseeios 
No meu gallego eDC«)stado? 




Venha o mal, mas niSo se apresse; 
Sobre o consultado espelho 
Meu rosto não esmorece; 
Oueres saber quem é velhoí 
É velho quem o parece: 

Sei que a calva me condemna; 
Que importuna cdr desdoura 
A grenha, pouca, e pequena; 
Mas esta niarrafa loura 
Lança um véo sobre a gangrena: 

•N3o me venha já fechar 
Apressada mão ferina; 
Tenho uma alma, e posso andar; 
Quero da fiel Nerina 
Pela rua passear: 




Sisudo amor nos prendeu; 
Nerina não quer ver rotos 
Os laços que me teceu; 
Quer consagrar nossos votos 
Ante a faixa de Hymeneo: 



— 237 — 

Velhos da ultima edade^ 
Ao longo calção estreito 
Mandam apertar metade. 
Porque inda traz o defeito 
'De andarem n'elle à vontade; 

Pois se ha tantos refundidos 
Com quem fazes grossa a vista, 
Seja eu dos favorecidos; 
Augmenta commigo a lista 
Dos teus escravos fugidos: 

Deixa, em fim, deixa abrandar-te; 
Quando não, rebelde presa, 
Hei de as forças dispntar-te; 
Tens por ti a' natureza, 
Eu tenho o costume e a arte: 

Troca a arte annosos freixos 
Em dourado bergantim; 
Troca em nymphas toscos seixos; 
E torna em alvo marlim 
Podres, solitários queixos: 

Que importa que a cdr grisalha 
Me infame o rosto ronceiro. 
Se em quanto da Europa ralha. 
Leva fallador barbeiro 
Os meus annos na navalha? 

Se em cortezã sociedade 
Lésbia contrafaz denguice; 
E fiada no alvaiade, 
Quer tributos na velhice. 
Sem os ter na mocidade: 

De tigelas rodeada, . 
Se à vontade os annos troca; 
E por ficar bem pintada. 
Com colher dentro da bocca 
Alteia a face engilhada : 



— 258- 




Sc a surda orelha applicando^ 
Por mostrar que ouvira tudo, 
Váe co'a cabeça approvando 
Maganão, que em ar sisudo, 
Serpente lhe está chamando: 








^^='*w 



Na poltrona agasalhado, 

Váe sendo de quando em quando 

IVIas liltius assoado. 



259 



— Í59 — 

Se assim mesmo quer amantes; 
Se Alcino ajustando à iyra 
Mentirosos consoantes, 
A seus joelhos suspira 
Pelos brincos de diamantes: 

Moço de mesquinha sorte, 
Que tendo á indigência horror, 
Vende amoroso-dransporte, 
E entoa os hymnos de amor 
Ao simulacro da moite: 

Pois se a Lésbia é permíltído 
Rebellar-se à natureza, 
E a seu duro açoute erguido; 
Porque estúpida baixeza 
liei de eu (lar-me por vencido? 

Cedam trémulos jarretas. 
Que já quatro edades contam; 
De Cupido as mãos discretas 
Sobre cinzas nio apontam 
As suas. douradas aettas: 

Ceda Anfronío, que aasentado, 
O queixo em vão mastigando, 
Na poltrona agasalhado, 
Vàe sendo de quando em quando 
Pelas filhas assoado : 

Que dando risadas tontas 
Da contradança aos enredos^ 
E rezando ao som de affrontas, 
As notas apertam dedos, 
Em quanto elle passa contas: 

Sobre Anfronio assenta bem 
Teu açoute levantado; 
Contra mim sem tempo vem; 
Que em estando escanhoado, 
Não me troco por ninguém: 



— Í60 — 

Debalde de alcatruzar-me 
Agoi-a em vingança gostas: 
Vejo Nerina a esperai -me, 
Gj-itarei com dor de costas, 
Porém hei de endireitar-me: 

Gemam, subindo a calçada, 
Meus torcidos ossos velhos; 
Que com a porta cerrada, 
Pondo a cara nos joelhos, 
Tomarei folgo na escada: 

Enli-arei Tazendo agrados, 
Comprados dentes mostrando 
Os meus beiços ensinados; 
E nos aventaes lançando 
Mãos cheias de i-ebuçados: 




Dii*ei mil amores ternos, 
Ante Nerina ajoelhado ; 
Mascarando os meus invernos 
Com cabeção encarnado, 
K botOesinhos modernos: 



-Í6l . 

<(Meu tudo, vem um primor; 
Vale mais que mil paraltas ; 
£ o retrato do Amor; , 
Bem lhe estão as feições altas; 
Vem hoje mesmo uma flor:» 

€ Senhora, são os enganos 
Da belleza companheiros; 
Em mim só ha desenganos; 
Tendes n'estes cavalheiros 
Mais prendas, e menos annos: 

<( Outra edade me convinha 
Para vos ser bem acceito; 
 accender a paixão minha 
Vénus contra o vosso peito 
Seus cysnes não encaminha:» 

Beijo-lhe a nevada mão, 
£ vou por ella mandado, 
Pondo um chapéo de galão, 
Repetir, com pé virado, 
Castelhana relação: 

Mas tu, velhice raivosa. 
Só commigo impertinente, 
Desegual, escandalosa. 
Com tantos tão indulgente, 
Commigo tão rigorosa! 

Forjando na testa injusta 
Vis idéas insultantes., 
Gritas, que Nerina é justa; 
Que me^lança aos circunstantes, 
£ os diverte à minha custa : 

Que é a travessa Nerina, 
Que me fez ao sol expor 
Dez manhãs a uma esquina ; 
Sendo as pagas d'este amor 
Risadas, e uma maligna: 

17 



— 161- 

Oue (los sole amanl(*s seus 
Oue suspií-ânios feridos 
(Vas settas do cego deus, 
Escuta os ternos gemidos; 
Mas por mofa, só os meus: 

Que os olhos, que eu chamo soes, 
Mestres de attractivas tretas. 
Tem só ouro por faroes; 
Que allí forja Amor mil settas, 
(Jue levam na ponUi anzoes: 

Mas que barbara insolência! 
Que injusto, infernal conceito! 
Ê es tu irmS da prudência? 
Infamar um casto peito, 
Throno de amor e innoeencia? 

Unir-se a noite co'a aurora, 
Ver rebentar d'agua fria 
Viva chamma abrasadora, 
Mais fácil isto seria, 
Que ser Nerina traidora: 

Seus (iscaes meus olhos s3o, 
Inda d'antes que os seus passos 
Tocassem paterno chão; 
Vi-a crescer nos meus braços, 
Leio no seu coração: 

Sem mim nunca pôde estar; 
r/o meu moço á noite vou 
A sua porta rondar, 
Quer saber que alli estou, 
Gosta de ouvir-me escarrar: 

Contando historias de fadas, 
Em horas que o pae não vem, 
E co'as pernas encruzadas,- 
Sentado ao pé do meu bem. 
Lhe dobo as alvas meadas: 







(Àmlaihlo Ilislorias (Ic fadas, 
Iliii lioras que o j)ae não V(»m, 
E ('u'as jxTn.is oncruzadas. 
Sentado ao pê do inou bem, 
Lhi* ilól>o as alvas mradas. 



m 



-Í63- 

Seus escriptos, que me afirmam 
Singelo amor, fé segura, 
Com o seu sangue se (irmam , 
Pelos meus olhos o juia, 
E as criadas o confirmam: 

 cassa, a fina sedinha, 
De que as gavetas são fartas, 
Com inveja da visinha, 
O pae mesmo lê as cartas, 
Em que lh'as manda a madrinha: 

Quando alguém mais cedo chega 
Nos dias de companhia, 
Aos pVigos nunca se entrega; . 
Leva sempre a austera tia, 
Inda apesar de ser cega: 

E lú, velhice cruel, 
Manchas tão justa paixão ! 
Com a lingua molhada em fel 
Manchas puro coração. 
A si e a mim tão fiel ! 

Mas ainda a ser evidente 
Quanto queres inventar. 
Apostolo impertinente. 
Para que has de tu suar, 
Se não sua o padecente? 

Doces expressões sinceras. 
Meigo carinhoso dó, 
Suppõe que não são deveras; 
Por ventura sou eu só, 
Que me nutro de quimeras? 

Se poz nalureza crua 
Em cada um, um furor. 
Só em mim a espada nua? 
Se a minha teima é o amor. 
Todos os mais tem a sua : 



-Í64 - 

Fábio, anligo cavalheiro. 
Mas que herdou só pergamiuhoB, 
Quebrando hoje o mialheiro, 
Deixou rotos os filhinhos, 
E comprou um reposleíro: 

Pede esmola em baixa voz ; 
E alegre sua alma nobre. 
Zomba da pobreza atroz, 
Beijando no dado cobre 
Âs armas de seus avós ; 

Tício de versos fallidos 
Fabric^ante impertinente. 
Uns curtos, outros compridos. 
Quer que gemam egualmente 
As imprensas, e os ouvidos: 

Enfastiados freguezes 
Juram que este auctor é louco ; 
O cego grita seis mezes; 
E à noite, raivoso e rouco, 
Conta os mesmos entremezes: 

Mas freira, que tem dinheiros, 
E da Phenix Renascida 
Repele tomos inteiros; 
Dois triennios incumbida 
De dar motes nos oiteiros; 

Que hoje com dois estupores, 
Buscou dos banhos o abrigo; 
Pródiga em chá e em louvores, 
£ quem desforra este amigo 
Do desprezo dos leitores: 

Ticio ri de semrazões, 
Vende ás tendas pelo vulto 
As divinas producç^es; 
E tem dó do povo estulto. 
Que goâta mais do Camões: 



— Í65- 

Pois se aqui na terra dura, 
Que tu empeiorado tens, 
Não ha solida ventura, 
Deixa-lhe ao menos os bens, 
Que finge a humana loucura: 

Mas taes argumentos sSo 
Para o meu caso escusados; 
De Nerina a estimação. 
Firme amor, doces agrados. 
Não são bens de opinião: 

Velho que atlento namora. 
Que arrosta calmas intensas 
Por servir a quem adora; 
Que lhe cobra logo as tenças, 
Que é comprador da senhora : 

Que é calado, que é polido. 
Que tem um coração liso, 
Com outras não dividido, 
Pelas damas de juizo 
É aos moços preferido; 

Que faz sobrancelha preta, 
Corpo esbelto, olhos bonitos, 
Se sabe a dama discreta. 
Que nos cafés seus escríptos 
São a segunda gazeta ; 

Mil relógios, mil fivelas. 
Que aos Adónis muitas deram 
Para uma irmã ir a Bellas, 
Á terça feira penderam 
Nas cabanas das adellas : 

Cuidas que é um corollarío 
Ser velho amante infeliz? 
Amor é muito arbitrário; 
Manda este sábio juiz 
Muitas vezes o contrario: 



Roto diccionario antigo 
Me dà n'este assumpto a mão; 
Trata d'estc mesmo artigo; 
£ ainda que é mera licção, 
Atiça a luz ao que eu digo: 

Branda doença tocava 
De moço marido o peito; 
Terna esposa o não deixava; 
Desgrenhada sobre o leito, 
Triste pranto derramava: 

Vem loquaz medico forte. 
Que com a^penna homicida 
Governa as cousas de sorte, 
Que nos esteios da vida 
Levanta o throno da morte: 

Por elle os ais derradeiros 
Em milhões de tectos voão ; 
Por elle folgam herdeiros; 
E em mil ermos adros sfiam 
As enxadas dos coveiros: 

A triste victima enlão, 
Que o ultimo instante goza, 
Porque cairá em tal mão, 
j^assou dos braços da esposa 
Para as garras de Plutão : 

Não foi ver a clara luz, 
Oue em doce silencio raia 
N'esses vastos campos nus, 
Aonde o fllho de Maia < ' 
Piedosas sombras conduz: 

Foi ao reino dos espantos; 
O coitadinho pasmava. 
Quando alli viu taes, e tantos ; 
Viu muitos oue elle cuidava 
Que eram n este mundo uns santos : 

1 ) llfrcurio, fllho de Maia, «ra «■ fakaia o condactor da* almai «oa CaHi|:of Eijúot, 



— £67 — 

Mas o que mais o admirou 
Foi ver seu velho criado, 
Que elle dos bons pães herdou, 
Por longas cans abonado, 
E a quem a casa entregou: 

Oomem, lhe diz, que a ambiçáo 
Me viesse aqui trazer, 
Pede-o a justiça, e a razão; 
Quiz meu filho enriquecer, 
E para elle fui ladrão: 

Mas de ti me maravilho; 
Dize, ó homem de conáeiho. 
Porque vieste a c^ste trilho? 
«Vim, responde o afilicto velho. 
Por ser o pae do tal filho:» 

Com esta historia te ensino... 
Porem tu me tens vendido; 
E ás idéais que combino. 
Vás c'o teu queixo caído 
Dando um sorriso maligno : 

Dizes que os annos escondo, 
Fundando razões nos ventos ; 
Que á parte a verdade pondo, 
 sisudos argumentos • 
Só cora fabulas respondo; 

E em quanto te estou provando, 
Que me devem ter amor. 
Vás as settas afiando ; 
E o trahido pregador 
Com ellas ameaçando: 

Fira embora a mão mesquinha. 
Que eu nunca lhe cederei ; 
Ê Nerina a paixão minha ; 
E por casas andarei 
Atrás d'ella em cadeirinha : 



— i«- 

Ella virá ajodar 
Meos tardos, mal firmes passos: 
E por não me constipar. 
Irão os seas alvos braços 
As vidraças at^aíxar: 

Soa boci*a esfriara 
Meo chá, se quente o sentir; 
Meus óculos limpará: 
E para me fazer rir. 
No sc*u nariz os poiá: 




Perdes em fím os cuidados 
Sem vires c'os teus sequazes, 
Triumphantes apupados, 
Brinco e medo dos rapazes, 
Os sujos gatos-pingados: 

Então quando tendo alçado 
Das tristes, feridas casas, 
 morte seu vôo ousado, 
Encolher as negras azas, 
E pousar no meu telhado; 



— 269 — 

Quando os dias que me agouras 
Sentirem o ultimo frio 
Que em teus cofres enthesouras, 
E a Parca em meu debil fio 
Fechar as fataes tesouras; 

Então sim, então venceste; 
Os. teus olhos fartarás 
No triumpho que tiveste: 
Mas também então verás 
A loucura que fizeste: 

Sem um velho assim jucundo, 
Que ponha côr, ponha dentes, 
Quaes são teus bens, qual teu fnndo? 
Es o terror dos viventes, 
És o maior mal do mundo: 

Sem mim, sem minhas trapaças, 
Sem ternura, sem meiguice, 
Sem estudadas negaças, 
Como andaria a velhice 
A par do amor e das graças? 

Chora então quem te arrancou 
O arraigado vitupério; 
Que os horrores te afastou ; 
Que adoçou o teu império, 
E que, em te negar, te honrou : 

E sobre uma campa breve. 
Com profundado lavor. 
Que a mão do tempo não leve, 
Em honi*a tua, e do amor. 
Este epitaphio me escreve: 

«Aqui, lisa pedra encobre 
Um peito nunca infeliz; 
Todo o amante animo cobre. 
Vendo que este foi feliz. 
Que além de velho, era pobre, i» 



— r»- 

QUIXOTADA 
ktjn 

Espicaça esse animal , 
Companheiro Sancho Pança, 
Entremos em Portugal, 
E vamos molhar a lança 
A pró do triste Pombal. 

Poetas principiantes, 
Jà estou em circo raso: 
Também ApoUo é Cenrantes, 
Também cria no Parnaso 
Seus cavalleiros andantes. 

Não vos chamo, ó sujo rancho. 
Que até os versos erraes; 
' Em tal sangue as mios nio mancho: 
Para vós e outros que taes 
Sobeja a espada de Sancho. 

Sobre vós carrego a mio, 
Sobre vós, ó folhas velhas, 
Que daes n'um homem no chio. 
Sem vos lembrar, que entre ovelhas 
É fraqueza ser leão. 

Essa bocca enganadora. 
Que é hoje da maldição, 
Mil vezes se poz outra hora 
Sobre a praguejada mio, 
E lhe chamou bemfeitora. 

Pois já que vós sois assim, 
Povo revoltoso e ingrato, 
Hoje castigar-vos vim: 
Ireis pelo pó do gato, 
Nem espVeis quartel em mim. 



— «71 — 

Sanlo Tejo, o curso enfreia, 
E montando rochas duras 
Torna atraz a clara veia : 
Conta novas aventuras 
Á formosa Dulcineia. 

Nova guerra o mundo veja, 
Guerra em que pouco se arrisca: 
Serão armas na peleja, 
Provado fuzil e isca, 
Sêcca, espinhosa carqueja. 

Irmão Sancho, põe-te a pé. 
Põe essas rimas a prumo, 
Principio á obra se dê. 
Tolde o ar o negro fumo 
D'este novo auto-da-fé. 

Queima essas satyras frias. 
Faltas de siso e conselho : 
Queima prosas e poesias: 
Acabe o cançado velho 
Em paz os seus tristes dias. 

Porém poupa sempre alguma 
Das raras que tem sabor: 
Das outras nem deixes uma, 
D'essas que tudo é rapcor, 
E poesia nenhuma. 

Em lanlo as armas pendura: 
Mas se houver desassisados. 
Que <|ueiram guerra mais dura, 
Da minha lança cortados 
Descerão á sepultura. 

Já nuvens de fumo vejo: 
Jà chamma brilhante o arreda: 
Já se farta o meu desejo: 
Já da viva lavareda 
Dá o clarão sobre o Tejo. 



-Í7I- 

Essas cinzas denigridãs, 
Que ao velho poapam mil magoai, 
Leve-as o Tejo envolvidas. 
Fiquem no fundo das aguas 
Para sempre submergidas. 

Vès, Sancho, do nome meu 
Como vóa a clara fama? 
Nem viva alma appareceu 
A apagar a voraz chamma, 
Ninguém, ninguém se atreveu! 

Vès como ajuda o destino 
A um bom cavallciro andante? 
Não precisei de aço lino, 
Nem de pés de rocinante. 
Nem do elmo de Mambrino. 

Ó tu que alçaste a viseira 
Forcejando os nervos velhos, 
E para ver a fogueira 
Limpaste os olhos vermelhos 
Na felpuda cabelleira: 

Abaixa a proa uma vez, 
Chega a Dulcineia bella, 
E dize posto a seus pés: 
€ Formosissima donzella. 
Eu sou um triste marquez, 

( Que fugindo a um povo inteiro, 
A quem mettèra em furor 
Minha privança e dinheiro, 
Vim achar mantenedor 
Em teu nobre cavalleiro. 

€ Disse este povo malvado. 
Que eu tinha o reino extorquido; 
Que era gatuno afamado, 
E que em jogos de partido 
Tínna e^m todos levado; 



- Í7.1 - 

« Que no tabaco levava 
Um quinhão avantajado; 
Que o sabão não me escapava ; 
Ê que sem ser deputado 
Nas companhias entrava. 

« Das minhas leis murmuravam : 
E o seus pequenos juízos 
Tão pouco o ponto tocavam, 
Que sempre me eram precisos 
Assentos que as declaravam. 

<í Té na língua sem motivo 
Deram críticos revezes: 
Fiz n'ella estudo excessivo, 
Bebi nos bons portuguezes 
Monopólio, e respectivo. 

€ Disse mais o povo insano, 
Que perdi de Roma o trilho ; 
Que fui sultão soberano ; 
Que andei casando meu filho 
Segundo o rito othomano. 

a Mas toda a maldade é sua : 
Vêm riquezas e palácio, 
Comem-se de inveja crua: 
São uns novos c^es de Horácio 
Ladrando debalde à lua. 

o: Já se me dá pouco ou nada 
Da sua guerra pequena : 
Tenho gente em campo armada. 
Tenho Mendonça co'a penna, 
E Dom Quixote co'a espada. » 

Esta falia, ou outra egual. 
Acabada, meu marquez, 
Faze reverencia formal, 
E arrasta os gotosos pés 
Para a villa do Pombal 



N^ella vive dcscançado, 
Porque as aguas vão serenas; 
Sempre ministro de estado, 
Mandando cousas pequenas 
No teu Lopes encostado. 

Junto á estatua vil canalha 
Desprende as línguas tyrannas: 
E se esta rude gentalha 
Arrancar com mãos profanas 
 carrancuda medalha; 

Armas em ouro gravadas 
Ser-te-hão por mim erigidas, 
E por ti mesmo traçadas, 
Em sangue humano tingidas, 
E com mil leis penduradas. 



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OITAVAS 

O BILHAR 

Saljra 



Por fugir da cruel melancolia, 

Que a estragada cabeça me atropella, 

Largando o pobre leito, em que jazia, 

Fui sentar-me n'um canto da janella; 

D'alli pela miúda gelosia, 

Espreitando, qual timida donzella. 

De tudo quanto vi te darei parte, 

c Se a tanto me ajudar engenho e arte. d 



Mora defronte roto guriteiro, 
Com jogo de bilhar e carambola; 
Onde ao domingo o lépido caixeiro 
Co'a loja do patrão vàe dando á sola ; 
Gira no lizo, verde taboleiro, 
De indiano mariim lascada bola, 
Erguendo aos ares perigosos saltos, 
Chamam-lhe os mestres d'arte < truques altos, i^ 



Í7fi- 

Âllí se ajunta bando de raMiuilhos, 
A que o vulgo mordaz chama i-afados; 
Alto topete, prenhe de polvilhos, 
Que d^escalço gallego deu fiados; 
De quebrados tarues, vadios filhos, 
Pelas vastas tablilhas encostados. 
Altercam mil auestões; promptos contendem, 
Promptos decidem no que nada entendem. 



Um quer ver, enfronhado em picaria, 
Silvada testa no andaluz ginete; 
Outro prova no chão a ponta fria 
De luzidio, virginal florete ; 
Mais amante da paz, outro elogia 
Do bom Dupré o airoso minuete; 
E posto em pé, para imitar-lhe os pasmos, 
Altèa o peito, e váe torcendo os braços. 



Aventuras de amor outro contando. 
Mostra os escriptos de Nerina bella. 
Onde a mão adorável foi lançando 
(]om penna de peru letra amarella; 
Váe com trabalho o triste soletrando 
As tortas regras, que boçal donzella, 
De emprestadas finezas carregara, 
Que piedosa visinha lhe dictára. 



Então diz, que íinissima madeixa 
Lhe ondèa sobre o hombro torneado; 
Alli suspira o triste, alli se queixa 
De ir jà sendo por ella desprezado; 
Conta, chorando, que esta ingrata o deixa 
Por esbelto cadete, que rafado, 
Por mais que ao usurário os soldos peça, 
A bolsa sempre tem como a cabeça. 



•■•"';i(!f''!jiií';h^li;'r 



,'i:.],iÍ:ijl|?|| 




Do bom Dupré o airoj^o minuete; 

E poslo em fxí, para iniiUir-lfie os passos, 

Altôa o poito, e váe torcendo os braços. 



— 277- 

Alçando mais os olhos, vi defronle 
Malhando a iio rígido banqueiro; 
Que tendo já de marcas alio monte, 
Ia despindo o mísero parceiro; 
Em quanto um diz que lavre, outro que conte. 
Sem valerem os óculos do olheiro, 
N'uma paz já vencida, um ponto afoito. 
Subtilmente lhe encaixa duas de oito. 



O perito banqueiro affronta os medos. 
Tendo nas mãos em que se vá vingando; 
Com cuspo milagroso ungindo os dedos, 
Váe destramente as cartas recuando; 
De sciencia infernal, subtis segredos. 
Com mão ligeira prompto executando. 
Marcando cartas, inventando nicas,' 
Fazia, em vez de banca, pelolicas. 



Mas não se livra de subtil calote, 
Que um velho mansamente lhe tecia; 
Julgando-o todos nnsero pixole, 
Farolins de campanha impune erguia; 
Embuçado em diáfano capote, 
Por um buraco os ganhos recebia; 
Fora no «cabra» das melhores pernas. 
Hoje joga os « três setes d nas tavernas. 



Os roxos olhos para o ar alçados, 
Encostado na quina de um bofete, 
l^ensativo taful mordia uns dados. 
Que seis vezes tiraram quatro a sete; 
Com suspeitas de que eram carregados. 
Em duro almofariz o trisle os mette; 
£ a golpes de martello aberto o centro, 
Por fora são marfim, chumbo por dentro. 

18 



Mais ao lon^, com pallida viseira. 
Sujo |)oeta esta vociferando; 
Da nojosa, empeçada cabelleira, 
Várias pontas de palha vem brotando; 
Os papeis, que lhe pejam a algibeira, 
Vão pelo forro larga porta achando; 
Faz da vestia camisa; e é collarinho 
Torcido solitário pescocinho. 



Fora cem vezes cm nocturno outeiro 
Da sabia padaria apadrinhado; 
E diz-se que glosava por dinheiro; 
Mas creio que atéqui não tem cobrado: 
Seguindo em moço o oílicio de barbeiro, 
E das (ilhas de Jove namorado, 
Abriu ao mundo aspérrima batalha, 
Tanto co'a penna, como co'a navalha. 



Fallou, por aflectar musa campestre, 
Em surrão e cajado muitas vezes; 
Era um flagello este tyranno mestre 
Dos ouvidos e faces dos froguezes; 
Todos os versos leu da estatua equestre, 
E todos os famosos entremezes. 
Que no Arsenal ao vago caminhante 
Se vendem a cavaJlo n'um barbante. 



De cançada, rançosa poesia, 
Grosso volume na algibeira andava; 
Em vendo gente, logo lá corria, 
E o fatal cartapacio lhe empurrava; 
Acrósticos sonetos repelia. 
Que só elle entendia, e só louvava; 
Punha em prosa lambem muita parola, 
E acabava por fim pedindo esmola. 



-i7» — 

Este ouvindo da turba as prosas frias, 
E acceso do Parnaso em santo zelo, 
Alçando a voz, cantou doces poesias, 
Que invejou de Lalona o (ilho bello; 
Jurando f|ue as tízei*a em poucos dias, 
Prometteu que as havia dar ao prelo; 
Mas da roda um dos menos depravados, 
Em desconto as ouviu dos seus peccados. 



<r Debalde, diz, o povo vil, pervei*so, 
Sobre mim descarrega tiros rudos; 
Que eu nâo só sou poeta desde o berço. 
Mas também tenho sólidos estudos; 
Sei que sNlIabes leva cada verso, 
E não misturo graves com agudos; 
Itompi outeiros em Sant*Ânna, e Chellas, 
Chamei sol â ])relade, ás mais, estrellas. 



«Co'as sonoras palavras Pindo, c Pleclroy 
Ponho em meus versos locução divina; 
E sei, para cumprir as leis do melro, 
Quanto a historia das fabulas me ensina; 
Sei que dos ceos tem Júpiter o scoptro, 

Í)ue nos infernos reina Prosérpina; 
L madrugada sempre chamo aurora, 
Sem|)re chamo a um jasmim mimo de Flora. 



« Sei de certo em que tempo viu o mundo 
Filhos da terra os quatro irmãos gigantes; 
Sei finalmente conhecer a fundo 
O que são consoantes, ou toantes; 
Sei tudo, e unicamente me confundo 
Cuns taeí» versinhos, que eu não via d'antes; 
Aos novos ui-sos todo o |)ovo acode, 
O estilo é sybillino, o nome é ode. 



- 280 - 

« Fazol-as ou, n3o posso, nem desejo. 
Porém sei conheeel-asífacilmenle: 
Cdns verdes mdos o serpeado Tejo 
Alça o trilingue, mádido tridente; 
Mas me (íoríjona filtra? eu vejo, eu vejo. 
Km dizendo íslo, e ode eeilamenle; 
E filha iraile a escuridatle dVllas, 
Ê um preceito das desordens bellas. 



(c As (aes poesias, que a entender ndo chego, 
Podres palavras tem desenterrado; 
Se levam nó, é tilo occullo e eefço, 
yue quem (|uer dcsalal-o, váe logrado; 
Dizeu) que imitam n^isto um certo grego, 
(iloria de Tliebas, Pindaro chamado; 
Se isto ê assim, a sua lingua de ouro 
Seria frrega, mas faltava niouro. 



<L Quatro rapazes estendendo o panno, 
Deixam as gentes ao redor absortas; 
Faltando em Venuzino e Mantuano, 
As musas portuguezas põem por portas; 
Aprendendo francez e italiano, 
E umas taes linguas, a que chamam mortas, 
Trazem com ellas perigosas modas; 
Mas ainda bem (|ue eu as ignoro todas. 



d Diz um sábio que o século presente 
la emendando os erros do passado; 
Mas que dus odes a infeliz torrente 
Tinha a lingua outra vez estropeado; 
Que amontoam com mão impertinente, 
Quantas palavras velhas tem achado; 
Que se envergonham das que usámos todos, 
E vão buscal-as muito além dos godos. 



. rr ;',:|:i!í#!!Í«'íÍÍÍ 







Mas inimiga mão lhe foi batendo 
C*um baralho de cartas pola cara. 



sn 



281 



d Como a caruncho e podridão condemna 
À lição affectada dos antigos^ 
Não leio Barros, Sousa, nem Lucena, 
Porque sempre foi bom fugir dos perigos; 
Ou sempre escreveu mal a sua penna, 
Ou nunca os leram bem os laes amigos; 
E por cautela, arreda, bolorentos 
Ginjas fataes, do tempo de quinhentos. 



« Nâo podem crer os génios lusitanos, 
Que as modas, como as vidas, são pequenas; 
Que já murchou esse estro dos romanos, 
E influem sobre nós outras ('.amenas; 
Que o tempo tragador, volvendo os annos. 
Fez cair Roma, fez cair Athenas; 
Que jaz no pó a Hiada envolvida, 
E que alça a frente a Phenix Renascida, i» 



« Mais ia por diante o monstro horrendo 
Co sermão, que ninguém lhe encommendára; 
Mas inimiga mão lhe foi batendo 
Cum baralho de cartas pela cara; 
Era um ponto infeliz, que estando ardendo, 
No innocente poeta se vingara; 
Que não sentiu o ver-se maltratado, 
Mas ter a porcos pelotas lançado. 



Eis que o dono da casa espavorido. 
Em castigo da sórdida cubica. 
Vem com as mãos na cabeça: «Estou perdido, 
Tenho as casas cercadas de justiça: » 
Era domingo, e um ponto arrependido 
Sentiu então o não ter ido á missa; 
Não valem rogos seus, nem do banqueiro, 
É mais brando um leão, que um quadrilheiro. 



Mas já faminto alcaide carrancudo 
Grita no meio da voraz procella: 
c Bota cordão, Manteiaa, agarra tudo, 
E sentido não saltem da janella. t 
Forçoso quadrilheiro, alto e membrudo, 
Aos desgraçados põe de sentinella; 
Soam algemas, lançam-se cordões, 
Cortam^e atraz os cozes dos calções; 



Então o triste povo sitiado 
Faz das bolsas bandeiras de amizade; 
Capitula em dinheiro de contado, 
Negocea-se a paz com brevidade; 
Sentiu-se o bom esbirro lastimado, 
E aos infelizes deu a liberdade; 
Pagou-lhe o ceo tão santo benefício. 
Jaz na enxovia, e tem perdido o officio. 



Eis-aquí, meu Alcino tenho etposto, 
A medicina que me tom sarado; 
E como trazes o quebrado rosto 
l)e lagrimas de dor sempre inundado, 
Vem visitar-me nni dia, que eu aposto. 
Que para casa voltarás curado, 
Nos costumes também ; que aqui enfreias 
As baldas próprias, rindo das alheias. 





DECIMAS 



AtCMdedeVilIa-Verde 

Mandaes-me que os versos Iraga 
Que na almofada fíillai'am ; ^ > 
Porque os outi*os vos iicaram 
Nas mãos da illustre Arriaga. 
Essa honra é uma paga, 
Que elles nunca mereceram : 
Se os seus olhos se puzei*am 
Sobi*e tão baiia escriptui-a, 
Devo essa grande ventura 
Ás illustres mSos que os deram. 



«) y\i. 



Mas é do meu Irisle fado 
Tão teimosa a crueldade, 
Que até na felicidade 
Vejo que sou desgraçado: 
Pois devieis cautâado 
Segurar a occasião : 
Fingindo que eirava a mão, 
Entre mil papeis diversos, 
Podieis em ve2 de versos, 
Dar-lhe a minha peti^. 

pag. n& ta ta», « MgttiMc. 



-184 - 



lfe*i4ideVUla-V«r4i 



Assisti á sagraçâo. 
Acto, senhor, dos mais sérios, 
^Que envolve augustos mysterios 
Da nossa reliiíião. 
Lenibrou-me chrisinar-me enláo 
Por ser acto episcopal ; 
Por permittir acção tal 
Que outro appellido se tome, 
Lembrou-me trocar o nome 
De mestre em ofíicial. 



Busquei as horas melhores, 
£ encommendei-me á fortuna; 
(Cheguei, e para a tribuna 
Tinham já ido os senhores. 
Pelos frios corredores 
O bom Lima me encaminha; 
Foi-me pAr na tal portinha 
Onde os pretendentes vão 
Pôr os ioelhos no chão, 
E os olhos na rainha. 



Co*a cabeça eslopetada, 
Como quem dorme sem cama, 
Roto fumo e algema lama 
Sobre a casaca encarnada, 
Vi o tal que grita, e brada, 
Quer na sala, quer na rua. 
Por mais que trabalha, e sua, 
Guarda-roupa é louca idéa : 
Gomo ha de guardar a alhèa 
Quem trata tSo mal da sua? 



Ao pé a iígui*a i-ara 
Do pardo cardeal astuto^ 
Que para cumprir o lucto 
Lhe basta mostrar a cara. 
Dos dois na justiça ciara 
Grandes fundamentos acho; 
Mas fujo mais para baixo^ 
£ dispenso amigos taes, 
Por nâo ticarmos eguaes 
Na justiça, e no despacho. 



if cfBde de Villa -Verde, qoude nerreo e ^e d« aicUr 



Peito de tanta bondade 
De bom pae o nome preza: 
Levou-me um a natureza, 
Mas deixou-me outro a piedade. 
Âmparae minha orfandade, 
Porque a vossos pés me humilho: 
Se não me abris outro trilho, 
Tal a minha estrada váe, 
Que irão co^a vida do pae 
As espei*anças do filho. 



Ao eeade d« YHIa-Yerde, depois Bar^Dei de Aiifeji 



Em sege estreita entai|)ados, 
Sol á ilharga, sol por cima, 
Vinha eu, e o padre Lima 
Cheios de pó, e encalmados. 
Eís-que na estrada atacados. 
Param as mulas baratas; 
Cuidei eu que eram piratas, 
Que tiram vida e dinheiro; 
Foi ver se era o clavineiro, 
E achei duas açafotas. 



Traziam a arma mais dura, 
Que no peite se tem posto; 
Traziam ambas no rosto 
O respeito, e a formosura. 
Querem sege mais segura, 
Porque a sua está qu^>rada; 
E em quanto o padre na estradt 
Lhe diz palavras pomposas, 
Âs minhas m&os respeitosas 
Lhe afoufavam a almofada. 



Trabalho infeliz iizeram, 
Porque meus fados são taes, 
Que acceitando tudo o mais, 
A almofada não quizeram. ^* 
Debaixo dos pés puzeram 
Minha obra aesprezada. 
Senhor^ não fazemos nada, 
Tomar vãos trabalhos ousas, 
Tem todas as minhas cousas 
O destino da almofada. 



Porém não desesperemos 
Da fortuna cega e varia, 
Vença-se a maré contraria 
À força de vela e remos: 
Ao bom porto encaminhemos 
Em que ao longe os olhos puz; 
Veremos da nova luz 
Minha esperança allumiada, 
Se aqui houver uma escada, 
Como a que houve em Quelut. 



I ) ^or cMM dot toucados iMm. 



— 487 — 
I 

A« c«lde de Villa -Verde iBdaidf a Mdtr m ^relMfit di nr Aiil 
<lt lecrettríi do «Udt 

Senhor, venho perguntar 
Quando ides tkar no paço: 
Para que à força de braço 
Lanceis esta nau ao mar. 
Sabe montes aplanar 
Vossa discreta poriia: 
K pinta-me a fantasia, 
A qual nem sempre me engana, 
Que só na vossa semana 
Me ha de chegar o meu dia. 

Af cfide de Vitla-Verde« pergniUMle ao McUr M oi mi renos fuiii 
coBqnistis de mor 

Os meus versos mal fadados, 
Qiie eu devo lançar nas. chammâs, 
São com homens e com damas 
Egualmente desgraçados: 
Sempre em lagrimas banhados, 
E nunca em hora opportuca, 
Poram ofTeria importuna, 
E sacrificio de horror, 
Quer em altares de amor, 
Quer no templo da fortuna. 

No díi dos iDflol do colide de Vílla -Verde, depoii nar^oez de ÀÉgrjl^ 
^m cDJa COM o lactor janioo 

Senhor, talvez n'este dia 
Já cantei versos polidos; 
Porém em tectos caídos 
Não mora o deus. da poesia: 
Voou ; e da testa fria 
Me tirou o verde loUro, 
K das mãos a lyra de oUro; 
Tudo em tim se foi co*a breca ; 
Mas se a Aganíppe se sóccâ, 
Nâo se ha de seecar o Douro. 



Embora no velho caco 
Murche o cançado miolo; 
Se os louros lhe tira Âpollo, 
Com parras o adorna Baccho: 
Põe mira meu peito fraco 
Nos vossos puros almudes ; 
E em honra de mil virtudes, 
De mil talentos diversos, 
Em vez de fazer dois versos, 
Farei duas mil saúdes. 



ítUÊÍt lAMt • urfnu ^ Aigeja, tueate gfieral, u •crasiif «M %u tiln 
prOTed«r <fai BÍMncardia 



Que fa2em versos cançados, 

Applaudindo os vossos annos, 

Se dos nossos soberanos 

Sâo melhor elogiados? 

Se os trazem sempre empregados 

Em servir a monarchia, 

Se a real secretaria 

Escreve cm vosso favor, 

Taes prosas louvam melhor, 

Do que a melhor poesia. 



Da vossa d(»tleridade 
Fiam cousas encontradas: 
Dâo-vos as duas estradas, 
A do sangue, e da piedade. 
Vivei pois comprida edade 
Sempre entre povos amigos; 
Mas se crescerem perigos, 
Crescerâo as acções nobres ; 
E a mão que defende os pobres, 
Cortará os inimigos. 



— 289 — 



^^ dia dot anifi df var^i de ÂBgija 

Á minha musa cançada, 
Perdendo os voos ligeiros, 
E ao pé de murchos loureiros 
Com razão aposentada, 
Hoje, senhor, animada 
Do amor e da gratidão, 
Esquecendo a multidão. 
De frios cabellos brancos, 
Vem, forcejando os pés mancos, 
Metler-me a lyra na mão. 




j^*.í- 



(iratidão seus passos rege; 
Ouer que em limada poesia 
Venha louvar n'esle dia 
Quem em todos me protege: 
Nas cordas de ouro, que elege, 
Quer que, invocando as Camenas, 
Eu cante as horas serenas 
Em que o ceo piedoso e justo 
Para o lado de um Augusto 
Me fez nascer um Mecenas. 



— 190 — 

Eu respondi, que a harmonia 
Me fugiu co'a mocidade; 
E que a solida verdade 
Não depende da poesia; 
Que cm prosa sempre seguia 
Seu acartado conselho; 
E que em iim poeta velho 
Por teima querer rimar, 
É o mesmo (]ue ir dançar 
O vosso ginja Boidho. (* 



^^ dia dfi uifs df narqwi de Aogqa 



Senhor, co'as minhas poesias 
Festejava os annos teus; 
Porém mandam já os meus, 
Que eu venha co'as mãos vasias: 
tieladas madeixas frias 
Fecham do Parnaso o passo; 
Pois que já o tempo ej»easdo 
Esfriar meus versos quiz: 
Quem me acceitou os que iiz, 
Me agradeça os que não foço. 



Mas é da lua grandeza, 
E a tal (lia acção adequada, 
Inda (|ue não trago nada. 
Não |)erder a casa e a mesa: 
Por culpas da natureza 
Não |)erca os meus ordenados; 
(lubram teus tectos dourados 
Inútil, mudo jarreta: 
Não o merece o poeta. 
Mas é costume aos criados. 



1 ) Criado muito \elho, tentado com mldnetM. 



— 191 — 



^^ (Ha dos annos d« narqoez de Aogejt 

lN'esle venturoso dia, 
Honrado, e honi*ador marquez, 
Sempre eu vim a voesoft pés 
Trazer a oflerta em poesia; 
Ante vós a lyra erguia 
Humilde, alegre, e casquilho; 
Mas hoje mudando o trilho, 
A bem, senhor, me levae. 
Que sendo os annos do pae, 
Dè a colgadura ao filho. 



Moço illuslre, eu dou conselhos. 
Filhos de amor e verdade; 
Permittida liberdade 
Aos fieis criados velhos; , 

Ouvi: bons pães são espelhos; 
Dão doutrinas sem enganos; 
E eu rogo aos ceos soberanos, 
Que ao vosso ouvindo as lições, 
Sejam as vossas acções 
O elogio dos seus annos. 



Af mrqofz de liriaha. con qnrm «r linha foronirado o aucUr ia casa en qie estava 
o enliaiiador de larror^is 



Na Quinta da Praia clama, 
Que lhe tireis a cadeira 
Um triste, que quarta feira 
Comvosco esteve em Mourama: 
Se a estrella, que a vós o chama. 
Não lhe abranoa os seus destinos. 
Torna para os marroquinos; 
Porque, agouros por agouros, 
Antes caplivo de mouros, 
])o que mestre de meninos. 



— IW 



Af UàT^nn èt huUi 



Illustríssinio Penalva, 

Já que me daes protecção, 

Sentido na occasião, 

Porque bem sabeis que é calva. 

Se o vosso braço me salva 

Das crianças pertinazes; 

Se a poder das vossas phrases 

Meu ouro grilhão se corta, 

Por triumpho á vossa porta 

Pendurarei dois rapazes. 



Hontem soube o que podia 
Estilo suave e brando: 
E quanto podeis faltando 
Eu o vi na academia. 
Nas almas fogo accendia 
Vossa discreta oração. 
Sobre a minha pretenção 
Vos peço que assim oreis, 
E que âo príncipe falíeis 
Tomo fallaes á nação. 



^• dii (io« aHRos da priaripal Alarida 

ror mais que esse sangue honrado 

Vos inspire os pundonores 

De merecer os louvores 

E não querer ser louvado, 

Este dia é consagrado 

A elogios soberanos: 

Sem vir enfeitar enganos 

Com mão venal e fingida, 

Em contar a minha Vida 

Louvarei os vossos annos. 



— 293- 

Teceram-me em baixo estado 
A fortuna e a natureza: 
Entre os braços da pobreza 
Fui desde o berço lançado. 
Pelas vossas mãos alçado 
Quebrei da desgraça o fio : 
Se da crua fome e frio 
Livro o pae, livro os irmSos, 
É obra aas vossas mãos, 
E faz o vosso elogio. í* 



Eb despedida a D. Dwyo dr \otoBha i|iiaDi!o partiu para a embaixada d« Hfspaalia 

E esta a única vez, 
Que vos busco a meu pezar; 
Té recusavam andar 
Meus frouxos, tardios pés: 
Grande mal, senhor, me fez 
Quem fez tal nomeação; 
Mas em iím pede-o a razão, 
E ainda que um orphão fico, 
Sem murmurar sacrifico 
O meu bem ao da nação. 



A D. lijQrl df Porloqal. fa/roilo .mnos rm dia df Sania Luzia, f Ifodo-M coaladt 
ta Mas historia» «!r sermões capnrhos 



Qualquer capucho diria, 
Vendo o bem que te conduzes. 
Que quem te deu tantas luzes, 
Foi a santa d'este dia: 
Provara pois que Luzia 
Te dotara de alto aviso. 
Que te dera d'improviso, 
Por novo e raro portento, 
O dia do nascimento 
Junto com o de juizo. 

i } ?AU% ilerimat fei n aartor em aqndfcimentu d* ter proTido ptlo principal, entlo di- 
rirclor tloa ntod.i5. na rutlrira de rh^^torua, At mie dopoft se «laeixoa tanto. 

10 



Eu, senhor, com a verdade 
Dissera cousas maiores, 
Mas tu não tens dos louvores 
Prazer, nem necessidade: 
Quem á alta Qualidade 
Une os mais aotes humanos, 
Quem chora, ou emenda os damnos 
Da pobreza desvalida, 
Já tem na historia da vida 
O elogio dos seus annos. 



I D. Cjlbaríia lirbafU df SoH7a If idn rfíu a honra a« aoclor de Ikf «iMK^r lai íHWê 

de Mlin ; f p«díad«-llip qnr Ifnbrassf • reqnerÍBfih tm ^ ín iralt 

prtlffldia • gQTrrao á'nm f«rlr 



Minha respeitosa mão 
De seus limites não sàe; 
A escriptura (jue aqui vàe 
Não é carta, e petição ; 
Até ante os thronos vão 
Vozes em papel inclusas; 
As minhas não vão confusas; 
São memorial bem claro; 
Sou poeta, dáe-me amparo, 
É obrigação das musas. 



Não peço hoje para mim; 
Bem coberto anda meu peito; 
Inda beijo, inda respeito 
Uma vestia de selim. 
Triste irmão tem já no (im 
Farda rota e chamuscada; 
Tem má c(tr, e é mal fadada; 
Quer que a mão piedosa e franca, 
Que a mim me deu vestia branca. 
Lhe dò casaca encarnada. 



— Í95- 




Ao doutor Joaquim Igaario de Srius, medico das fjldis 



Meu doutor, bem sei que quer 
Que eu venha ás Ave-Marias; 
Mas olhe: ha uns certos dias 
Em que isto não pôde ser. 
Dona Antónia Xavier 
K)ue o ceo por séculos guarde) 
Faz annos, e eu esta tarde 
Perco à medicina o medo: 
N'outros dias virei cedo; 
Mas n'este, ha de ser bem tarde. 




-t9« 




A UnrfDÇA Jovr da lotta lanMi, «llicial da serrelaría ét fmm 



Amigo Lourenço : Se tu não sabes o que é não ter 
dinheiro, eu l'o explico: abaixo de estupores é o 
maior mal do mundo, principalmente para quem 
herdou irmãs sem nenhum renaimento, e com muito 
bom estômago. 

Vov ver se aligeirava esta carga, empenhei-me 
cm uni milhão para lhes comprar tenças, e em ou- 
tro para lh'as assentar; mas como as não cobram, 
morrem de fome, e depois que são ricas, tornam-se 
a mim, e crellas aprendo o que são lucros cessan- 
tes, e damnos enicrgenlcá. Cuidei que tinha mettido 
uma lança em Africa, e vejo que a metti em mim 
mesmo; e arde af?oia a vela pelas duas pontas. 

Tu que lens hoin coração, e (|ue estas ao pê do 
senhor niar(|uez, (jue o tem melhor, pede-lhe por 
caridade o despacho d'essa petição. 

Não te assusien) os três annos; porque ainda ma^ 
(jue ouço (|ue no de 93 não tiveram cabimento. Pe 
de-lhe (|ue já (|ue me livrou de crianças, me livr 
também de velhas, gado ainda mais impertinente, 
que se não contenta com figuras de rhetorica. In' 
ressa-te pelo leu Nicoláo, amigo e collega, e sf 
que, se lhe não mandas as portarias, terás a ver 
nha de o ver andar pelas outras. Recommend 
á tua eflTiraíMa o teu IIpI amifí'^ 



3, 



-297- 

Peço que males a fome 
A este meu povo ímmenso, 
E peço-le, meu Lourenço, 
Pelo santo do teu nome. 
Por um bom serviço tome 
A paga das taes tencinhas. 
Pois teve as carnes mesquinhas 
Em vivas brazas vermelhas, 
Em louvor das suas grelhas 
Peco me livres das minhas. 



Com esta tenho enviado 
Três cartas, segundo penso. 
Ao meu amigo Lourenço: 
Nem resposta, nem mandado. 
A dor de que estou tomado 
Sim desejo allivial-a: 
Mas a tua mais me abala, 
E parece mais intensa: 
Pois eu sim lico sem tença; 
Poréu] tu estás sem falia. 




-298- 

A DB UBirísta — sobre o» rirreiros da Fjiara 
í Curti) 

N'uiua infeliz madrugada, 
Antes que o sol esclareça, 
Meltído era pobre caleça, 
Puz peito, senhor, á estrada: 
Sai em hora mingoada, 
Pois negra ,traição me espera ; 
Homens, com génios de íera, 
Me atacaram sem motivo ; 
Por milagre fiquei vivo, 
E devo pesar-me a cera. 



Vi revoltosos carreiros 
Com duro aguilhão armados; 
Vi nuvens de páos alçados 
Pelos cumes dos outeiros: 
Roldão, e o bravo Oliveiros, 
Que alta penna heroes declara, 
Talvez voltassem a cara 
Que a tantos tremer fazia, 
Se nos campos da Turquia 
Vissem carreiros da Enxara. 



Vi os campos inundados 
I)e gentes vagas e incertas; 
Vi as estradas cobertas 
I)e cacheiras, e cajados : 
Nao valem rogos nem brados. 
Não valem ligeiras pernas; 
A raiva e o deus das tavernas 
Accendeu tanto os campinos. 
Que cuidei que os meus meninos 
Teriam ferias eternas. <* 

1)0 aurtor tn profrswir áf rhHorira. e piviradia paisxr para oníro emprega. 



-199- 

Em quanto no duro chão 
Meu companheiro arquejava, 
Eu muito humilde esperava 
Também a minha ração ; 
Bem me lembrou que esta acção 
Deslustrava a minha gloria; 
Mas não pretende victoria, 
Nem sabe mover espada 
Mão, ha annos, costumada 
A dar só com palmatória. 



Entre mortaes agonias, 
Da t)ruta gente escapando. 
Me fui na sege encaixando. 
Maldizendo as romarias ; 
Praguejei meus negros dias, 
Dias de pranto e de dor ; 
Conheci então, senhor, 
Que só me dão meus destinos. 
Ou carreiros, ou meninos. 
Que Deus sabe o que é peior. 



Mas a perda da victoria 
Sirva de abrandar meus fados ; 
Dêem-vos motivo os cajados 
De fallar na palmatória; 
Saiba o príncipe esta historia; 
Contae-lh'a com viva côr; 
Fazei com que, em meu favor, 
Sentindo aíTectos diversos, 
Lhe motivem riso os versos, 
E lhe faça dó o auctor. 



-^^^^#^íâ^)^^ô)^â^^^^^ 



-soo — 



k nm raurisU. Ifide o aitler sid« dr«ficlu4« 



A rara benignidade, 
Que quiz o ceo conceder-vos, 
Permitia que de escrever-vos, 
Tome eu hoje a liberdade; 
Pois tendes tanta bondade, 
Peço, n'ella confiado, 
Que por mim ajoelhado, 
E na bocca o coração, 
Beijeis ao principe a mão, 
E lhe deis este recado : 



Dizei, pois, a sua alteza, 
Que eu, seu humilde afilhado. 
Por elle ha pouco arrancado 
D'entre os braços da pobreza. 
Na simples, mas farta mesa. 
Entre os irmãos e os parentes. 
Aos ceos, com votos ardentes. 
Pedimos que, em paga justa, 
Prosperem a mão augusta, 
Que nos faz viver contentes. 



E se entre as puras verdades, 
Que vós lhe podeis contar, 
Virdes, que terâo logar 
Algumas jovialidades, 
Pintae-lhe as felicidades. 
Que váe tendo a gente minha ; 
Dízei-lhe que na cozinha 
Ardem já montões de brazas; 
Que em todas as minhas casas, 
Era a mais fresca, que eu tinha ; 



— 301 — 



Que os enroupados sobrinhos, 
AfiFrontando o vento frio, 
Vem todos mostrar ao tio 
Os seus novos josésinhos ; 
Que então lhes conto, e aos visínhos, 
Por quem a roupa foi dada ; 
Que mão, nunca assas louvada. 
Mão real^ piedosa, e justa. 
Me poz livre a rua Augusta, ^^ 
Por vários crimes vedada ; 




*íF. r 



Que um tendeiro, que os seus bens 
Me fiava dando arrancos, 
Veiu em barrete e tamancos 
Dar-me logo os parabéns ; 
Espera que os meus vinténs 
O façam também feliz; 
Poroue, segundo elle diz, 
Ha de haver na sua tenda 
Mais saída na fazenda, 
E menos gasto no giz. (^ 



ta vead* panno. 

marear com gii o qua < 



— 30f- 

Mas 0(1 um crime commelto, 
Quando de ensinar-vos trato; 
Quíz ser ao príncipe grato, 
Mas fui comvoscò indiscreto; 
Homem, como vós, discreto 
Não precisa formulário; 
A egoa do seminário (^ 
Me deve os rompôes cravar, 
Por eu querer ensinar 
O padre-nosso ao vip;ario. 



A uli iulilf* quf H>' l>"'i " '"'l^r Mn loifar u srf rrlaríi. li trraiiil fto l|l( 
^rrlfidia • srii p;»prio df$p4rlif 



Se vemos rir quem chorava, 
E tantos exemplos temos^ 
Senhor, nâo desesperemos. 
Deus ainda está onde estava : 
Agua branda as pedras cava; 
Em ludo o lem|)0 é preciso; 
Saber teimar com juizo 
Tem mil montes aplanado; 
Talvez sejaos desi)achado, 
E talvez que eu lavre o aviso. 



Ah! senhor, com qUe alvoroço, 
Na liza banca forrada. 
Eu de casaca encarnada, 
E fita preta ao pescoço, 
Lançara o despacho vosso, 
Que tanto tempo esqUec^ti ! 
Oue grande favor do ceo. 
Se o meu primeiro exercício 
Fosse servi r-mc do ollicio 
A favor de quem m*o deu 1 

1 ) Tinba illunfln partinibr 



-303- 



A uma sedliora. rhJoitotlQ-lke rtmim )H>r Ibe nii Ipt aniilaM um Mkitka 



Remisso nâo me chameis^ 
Por que ainda agora duvido 
Mandar um livro atrevido, 
Que sei, que vos váe dar luz: 
Muitas vezes querereis 
Mais horas ao somno dar, 
O livrinho ha de gritar, 
K cortando o vosso gosto 
Dirá, aue amostreis o rosto, 
Que é nora do sol raiar. 



A M leiji ({Br eri Ttsgo e qof miou I^tp fastio ; {} f » pm )MT écm tMao ia cabrça 
a poata à* ua mpadm 

Feriu sacrílega espada, 
Alçada por mão traidora^ 
Cabeça que sempre fòi'a 
Té aos barbeiros vedada : 
D'cntre a grenha proflinada 
Corre o sangue á terra dura ; 
Tosquiou-se a raatadura ; 
£ o casco rebelde a ordens, 
Precisou doestas desordens 
Para ter príma tonsura. 



ÍS 



Feroz soldado imprudente, 
)ue nova espada esgrimiu, 
M o Ímpio (|ue feríu 
Esta victima innocente: 
A quem do golpe insolente 
O motivo lhe procura. 
Diz que fez compra segura ; 
Pois duvidoso na escolha, 
Quiz ver que tal era a folha, 
Cortando por cousa dura. 

1)0 BMMM d« frtem trata o «on«to 9* a |»<f . M. 



— 804- 

Honieni de tenção daiunada, 
Só tu conseguiste o (ini 
De entrar o teu espadim 
Aonde não entra nada: 
Da repentina estocada 
Cáe o padre desmaiado; 
Mas quando recuperado 
A ti os olhos volveu. 
Sabes o que te valeu? 
Foi teres já almoçado. 

Todo o mundo te ni^gueja, 
Poraue em detestável fçuerra 
Ias aeitando por terra 
Esta columna da egreja ; 
Mas se triumphasse a inveja, 
E o padre morresse então, 
Dize, ó Ímpio cM)ração, 
Que tanto em Turor te atiças, 
Quem ajudaria às missas? 
Quem tocaria ao sermão? 

Quem nos daria a certeza 
De haver outro homem sisudo. 
Que podesse comer tudo 
Quanto se puzer na mesa? 
Da próvida natureza 
Queu) havia as leis seguir? 
Observante em digerir, 
Qual outro havia saber 
Depois d(* acordar, comer, 
Depois (](» comer, dormir? 

Que imporia, ó cruel soldado, 
Para desculpar teu erro, 
Ter sido o teu im|no ferro 
Já pela pátria arrancado? 
Que im|)orta que em campo armado 
Junto a si Lippe te veja? 
Que importa que o mundo seja 
Das tuas acç4)es o abono, 
Se a mão q[ue defende o throno, 
Ataca depois a egreja? 



-305- 

E tu, que segues os trilhos, 
Que São Francisco te fez, 
E pões os teus gordos pés 
Sobre os seus santos ladrilhos; 
Pois que a seus devotos filhos 
Guarda no ceo largas pagas, 
Nos olhos é bem que o tragas, 
E de modelo não mudes; 
E pois não c nas virtudes, 
Que o seja. ao menos nas chagas. 



k um prrgailoi rflrbrr (fr)>i João 3arinlbnj p>faa(io a jantar rsn • aortor 

Se d'este potente vinho 
Não cerceias as rações, 
Temo que nos teus sermões 
Allegues só São Martinho. 
Se lhe dás largo caminho 
Pelo tou fecundo peito. 
Seu fatal magico effeito , 
Deixando-te a três de fundo, 
Te fará ser o segundo 
Que diga : sempre me deito. <* 

^a iffsppilida df rni ministro qiir p-lid ln.imlo ^ens filio* 

A lei da pura amizade 
Minhas lagrimas condemna; 
Quer que ceda a minha pena 
A tua felicidade; 
Váe, e (MM quanio a vil maldade, 
E a inlripnle cubica, 
A baixa inveja, a injustiça 
Ilesas na recta balança, 
Conserva de mim lembrança. 
Que é lambem fazer justiça. 



1 » Oolro préflPHor. Ií-u-Ii* lii-li»l'i •1<*ni;iHÍado, rh^çK^u «o |>nl|-ito. p ■í*^ pmnnnHitn ♦•st»* pa- 



E vós, lindos innocentes, 
Que n'essas tenras edades 
Já sabeis mover saudades 
Nos amiffos, nos parentes; 
Quando lhe virdes pendentes 
As bãdanças da razão, 
Ide entemecel-o entSo 
Com risos, com gestos novos ; 
Lembrae-lhe, que aquelles povos, 
Como vós, seus filhos «ão. 



Em agradfcÍBfito df nna nvfda èf Imt rf i» f oa riaiMD 4t pè«, ^ Mídam at i 
If Mlt riiinfs àt m fra^ 



Anastácia, estimarei 

Que estas, que aqui fazer pude. 

Te encontrem com a saúde. 

Que sempre te desejei : 

Eu ha dias que passei 

Algum tanto molestado; 

Porém hoie, Deus louvado. 

Já d'esta batalha conto, 

E assim me acharás mui prompto 

No que for do teu agrado. 



Do teu liberal primor 
Fui entregue em própria mão: 
Uecebi o díabrâo, 
De que me fazes favor: 
Mas causa-me tal horror, 
Que ao longe o tenho fechado, 
£ me deixou admirado 
O terrivel desarranjo 
De sair das mãos d*um anjo 
Um dinheiro endiabrado. 



-307- 

^ O portador, que é fiel, 
Junto com o diabrão 
Também me entregou um pão. 
Embrulhado n'um papel: 
Ser amassado com fel 
Geralmente se julgou, 
E como tão máo se achou, 
Que gente não o faria, 
Assentámos aue seria, 
Do que o diabo amassou. 

Cá choro a desgraça minha. 
Pois sendo tu pão de trigo 
Para outrem, só commigo 
Queres fazer má farinha: 
IVella creio me convinha 
Ração de melhor focinho; 
Mas o teu génio mesquinho 
Fez tão dese^ual quinhão. 
Que a mim mandas-me o rolsjo, 
E a outrem dás o beijinho. 

Se mandaste o diabrão 
Para tentar esta lesma, 
É supérfluo; tu, tu mesma 
És a minha tentação: 
Se o mandas porque a prisão 
Me leve de eternos lumes. 
Onde eu pague máos costumes. 
Já teu rigor me tem prenso 
No abysmo do teu desprezo. 
No inferno dos meus ciúmes. 

Porém vamos a fallar 
Na tua letra, pois entendo 
Que fallando, ou escrevendo. 
Sempre me queres enganar; 
Não has de pois reparar 
Que na cara te desminta; 
A nota pura e distincta, 
A penna que a escreveu, 
Tudo isto será teu, 
Mas a letra está na tinta. 



Pois do pape] debuxado, 
Que mandaste ultimamente, 
A letra é tão difTerente, 
Como do vivo ao pintado: 
Elle mostra que o agrado 
Teu não terá existência, 
(i 

No debuxo se figura 

Que estas cousas de pintura 

Nunca passam da apparencia. 

Que tu sabes disfarçar. 
Do tal papel se interpreta. 
Pois podes fingir a letra 
Mesmo alli ao pintar: 
Esta acção de me enganar 
Não cabe em honrados buchos; 
E se os affectos machuchos 
Me queres pagar sem petas, 
Te peço que me não mettas 
Outra vez n'estes debuxos. 

Se me não viste, só vens 
N'isso a fallar sem refolhos, 
Pois não podes pAr-me os olhos 
Pela raiva, que me tens: 
Mas, se deixando os desdéns, 
Pozesses do olho um naco 
Sobre mim faminto e fraco. 
Tão grande escuro faria. 
Que índa assim duvidaria 
Se isso é olho ou buraco. 

Também a carta continha 
Que eu era bem estreado; 
Já estou muito acabado. 
Isto é chão que já foi vinha, 
Porém se a ventura minha 
Me abranda o leu coiação. 
Sairei da tua mão 
A impulsos da sorte pia, 
Como a gente saia 
D'entre as aguas do 'Jordão. 

I } Falu «1* v#r«- r»n "ri d*. p4>#«i3f inftjit** iinpr^sAí' ^th Caímbi» •m !Sb8 



— 309- 

Dos teus amores na chamnia 
Tanto me derreterei, 
Que fundido sairei 
Um rapaz como uma dama: 
Do nosso consorcio a fama 
Não quero que então se encubra: 
Ás visinhas se descubra, 
E dir-te-hão com alvoroço. 
Olhe, mana, é bello moço, 
A benção de Deus o cubra. 

Em quanto o teu coração 
Não me é de lodo inclinado, 
E doeste nosso noivado 
Não chega a alta funcção, 
Peço que te tenhas mão; 
Não te mereça piedade 
Nenhum secular, nem frade. 
Pois nossos amantes tratos 
Bem sabes que são contratos. 
Que não querem sociedade. 

Pelo portador primeiío 
Me manda logo dizer. 
Se acaso para comer 
Precisas aalgum dinheiro: 
Serei o teu thesoureiro, 
E promelto assim cumpril-o, 
Que inda que tens bum asylo, 
£ não passas vida aillicta. 
Sempre a gente necessita 
Para isto, ou para aquiilo. 

E para que mais exaltes 
Este amor que bem penetras, 
Gommigo das tuas letras 
Peço que nunca me faltes; 
Com dfesprezos não me assaltes, 
Antes te peço que os domes, 
£ em tudo o que gosto tomes 
Me acharás obisdiente; 
Hoje doze do corrente, 
Teu menor servo João Gomes. 

20 



-.110 



Saiid* ptr Mrtrs rta^rr k im sriiwra da ^■riii imfaa 

Devo pouco á natureza, 
E muilo a um brinco innocente; 
Porque clle me faz parente 
Da mais dislincla nobreza. 
Embora es(|uiva riqueza 
Pretas sortes me não mande; 
Que importa mie lia annos ande 
Sempre a perder nas menores, 
Se nas dos prémios maiores 
Me saiu o premio ^^rande! 



Cailaod* ama sfobora pela qual o aurUr tiihi paiiit 

Senhora, se eu nâo tivera 
Por ti já tanta paixão, 
Agora o meu coraçilo 
De justiça te rendôra : 
Que tipre hircano, que fera, 
Que peito rebelde, e immoto 
Se nâo vira aberto, e roto 
f.omo o meu só de te vir? 
O canto só vem fazer. 
Com <|ue eu ratifique o voto. 

El9||i« de ama «eilraia 

Uuem vos (|uer elogiar 
Motivos laes chega a ter. 
Que só lhe custa o saber 
Por qual ha de c^)me(iir: 
Formosura singular. 
Alma nobre, génio, brio, 
Em lim virtuues a íio. 
Não sei de qual lance mâo, 
E jà n'esta confus9o 
Começa o vosso elogio. 



-Hll 



1^0 dii dos iBios dr um utenin» 



Ue plumachos emplumado 
Manso, alegre cavallinho, 
Ou torneado carrinho 
D'alvos carneiros puxado, 
Deviam marchar ao lado 
D'este papel que remetlo-. 
Mas mostrando o meu alTecto 
Como pôde o meu destino, 
Em obsequio de um menino, 
Vou dar aos outros sueto. 



Yigiido Dn oiEcio que o aoder pretendia 

Jaz o defuncto enterrado: 

E agora saber intento, 

Se acaso no testamento 

Me iicou algum legado. 

A vossos pés ajoelhado 

Ponho em vós minha esperança: 

Tenho parte, e nâo descança: 

E n'esla causa infeliz, 

Se não fordes o juiz. 

Perderei de certo a herança. 



Anixliid« « aoctor a on jailar m qoe baTÍa cakedella mas não appareceu peru 

Vi tenra assada vitella, 
Vi ornada fiairta mesa, 
Mas commoveu-me a tristeza, 
Ver a orphã cabedella : 
Quero saoer do pae d'ella, 
Não fico nisto em jejum, 
De calotes basta um, 
E Oquemos np primeiro, 
D0U-VO8 espera ao dinheiro 
Mas pagae-me hoje o peré. 



-311- 
hÊàâak im fallíika a mu preliika btiila qie ftaUra ét kríicir cafe dUi 

Ás tuas fulas niãosiiihas 
Que a fome já não descarna^ 
E que de criarem sarna 
Passam a criar gallinhas, 
Acceitem criações minhas, 
Que eu a outros lins guardava: 
Senhora com côr de escrava, 
Alta estiella, que em li brilha, 
Manda que se dè á filha 
Aquillo que o pae furtiva. 

Itte dada a resff fia át m padre, que dizia trr sida neslre dr rbetaríca ; fia taiira 

triaga caotra o Traeoo que thr briaa de dar ; que dizia qie estafa 

eleila cardeal ; e qoe era deBasiadaa^ite trifiaira 

Nâo Uiin cor do canlca! 

IMâo ajuda ao padre a cara; 
Revolvo antigos annaes, 
E vejo que os-cardeaes 
Tinham a pelle mais clara: 
Será maravilha rara 
Achar um de côr egual; 
Foram brancos como a cal 
Mazarino, e Alberoni; 
E a não ser este o Negroni, 
Não tem côr de cardeal. 




— 313 — 



!• aesBd pdre en replica is deeÍMs cmí qne resptideii i aitecedeite 

Que venham fuscos garraios < • 
Metter em versos a mão ! 
Potente Jove, aonde estão 
Os teus vingadores raios? 
Um homem de couros baios 
Segue as musas tuas fíihas; 
Tu, pois, que os vaidosos trilhas, 
Faze que este, em todo o caso. 
Saia logo do Parnaso, 
E passe para Cacilhas. 



1 ) Antes d'e8ta decima, n'um manuscripto do auctor havia as trcs 
seguintes. 

Vcrde-ncffTo cardeal, 
Ex-jcsuita ferino, 
Deixa o pobre TolenUno, 
Que hem lhe bosUi o seu mal : 
Não queiras mais um rival. 
Que esgrime maior espada ; 
Tenho gente em campo annada, 
E se não fizeres pazes, 
Posso mandar que os rapazes 
Corram o doudo á pedrada. 



Deixa, pois, a louca emprcza, 
Dasta já de frioloiras. 
Não facas versos, não queiras 
Poder mais que a natureza : 
Se el la te encheu de dureza 
Essa cabeça orgulhosa, 
Não mancnes com mão leprosa 
As áureas cordas de Apolio; 
Engorda o fofo miolo 
Bm theologia rançosa. 



Em bolorentas questões 
Nutre o cérebro indiscreto, 
E prega em lingua de preto 
Nigromanticos sermões : 
Para métricas canções 
Não te sinto cabedal ; 
Fazes tudo muito mal, 
Mas n'i88o passas a meta; 
Bm fim has de ser poeta 
Quando fores cardeal. 



Se em rhetoríco exercício 
Jà soubeste regras dar, 
Também eu posso fòUar, 
Porque sou ao mesmo officío: 
Que o leu cérebro tem vicio, 
E verdade assas notória; 
Na poesia e na oratória 
Vás em total decadência; 
Collega, tem paciência, 
lias de vir á palmatória. 

No teu escuro papel, 
Aos bons ouvidos ingrato, 
Achei um vivo retrato 
I)a confusão de Babel : 
 pátria língua infiel 
Es da nação o desdouro; 
Bem sei que te chego ao couro; 
IMas não merece passagem. 
Que a batina e a linguagem 
Ajuntem clérigo e mouro. 

A quem me queria arguir. 
Mostro, padre, o tal papel ; 
É testimunha fiel, 
Não me deixará mentir: 
Em novos termos urdir 
Metles a lodos n'um canto; 
Que usas palívras de encanto 
Assentam gentes niachuchas, 
Boas para ajuntar bruxas, 
Ou para tirar quebranto. 

I)eixei-me, pois, de critério, 
E tomei melhor caminho; 
Meu amigo, a um louquinho 
E loucura fallar serio ; 
Chova, pois, o vitupério 
Sobre esse tostado couro; 
Saía o tal cardeal mouro. 
Que o capinha, alvoroçado, 
Váe, por ordem do senado, 
Metter garrochas no touro. 



-315- 

Fula escrava americana 
Já mandava á luz do dia 
Um crioulo, que seria 
Nódoa da curia romana; 
Carregado de banana, 
Porque no caminho coma, 
O rumo da Europa toma; 
E em terra, maichando á pata, 
Com sacco e folha de lata. 
Deu a sua entrada em Roma. 

Assim mesmo oslropeado, 
E envolvido em grosso panno, 
Foi entre o povo romano 
Com mil respeitos traiado: 
Do vento e ao sol queimado, 
Semblante quebi-ado e afflicto, 
Tem tal dom na cai-a escriplo, 
Que grilavam de redor, 
Uns, que é o rei Belchior, 
Outros, que é Sâo Benedielo. 

Tomou a benção papal ; 
E teve tanto poder, 
Que sem o papa o saber, 
Ficou feito cardeal : 
Voltou para Portugal 
Já cardeal protector; 
Achou cà pouco favor; 
E zombam-lhe do capello. 
Por ter mui crespo o cabello, 
E ser muito baça a côr. 

Erra o vulgo os passos seus; 
É um cego e maldizente; 
A côr é mero accidente. 
Todos são filhos de Deus. 
Porém pai*a os lucros teus 
O capello te faz mal ; 
No São João e Natal 
Terias gorda guedelha, 
Armado de faca velha, 
Pincel e pote de cal. 



-316 — 

Padre, váe-te o mondo ao pello; 
E co'a língua maldizente 
Te váe cortando egualmente 
As poesias e o capello; 
Porem eu que sou singelo, 
E meus contrários ameigo. 
Te affirmo piedoso e meigo, 
Que se não tens por teu mal, 
Em Roma o de cardeal, 
Tens no Parnaso o de leigo. 

Deves voltar outra vez, 
E dizem que n'isso falias; 
Mas pegam-se pelas salas 
Teus molles, tardios pés. 
Se ajuda de custo vès, ^y 
Fazes-te coxo, e ronceiro; 
Meu padre, és muito matreiro, 
Já todos estão de accôrdo; 
E sem te verem a bordo. 
Não pões a mão no dinheiro. 

Tua saúde se estraga. 
Mas leu medico condemno ; 
Meu amigo, o teu veneno 
Não se cura com triaga; 
Para a tua antiga chaga 
Medicina imprópria é esta; 
Muda, pois vês que não presta; 
. Grita c os olhos em braza. 
Que te fechem n'uma casa, 
£ que te sangrem na testa. 

Debalde em Lisboa gritas, 
Âttestando a Itália inteira, 
Que regeste uma cadeira 
Nos claustros dos jesuítas; 
As obras que vejo escríptas 
Provam que nos tens mentido; 
Até das ordens duvido, 
Quando as tem cabeças tontas; 
Tu, cá pelas minhas contas, 
És um mulato fugido. 

1 ) Pedia nma Rinda Ar emto. 



-317- 

Foge outra vez, se tal és. 
Qual foge apupado mono ; 
Antes que venna teu dono, 
E te punha nas galés; 
Antes que enfeite teus pés 
Legal, sonoro fuzil; 
Não veja. o pátrio BrazíK 
Que os hombros do iilho bello. 
Vindo buscar um capello. 
Só acharam um barrií. 



Dizem todos, que és fingido, 
Que ninguém louco te chame; 
Por mais que eu lhe jure e clame, 
Que és mesmo doudo varrido; 
Dizem que estás conhecido, 
E que o fazes por estudo; 
Em tal caso prompto acudo, 
E de outro lado te ataco ; 
Se não és doudo, és velhaco, 
E talvez que sejas tudo. 



Mas já quem pôde me ordena, <^ 
Que armas ponhamos em terra ; 
Após sanguinosa guerra. 
Alce a frente a paz serena; 
Sobre essa pelle morena 
Em paz teu capello ajusta; 
Assento ijue é cousa justa 
Seguires methodo novo, 
E não dares gosto ao povo. 
Que quer rir á tua custa. 

1 ) Em logar d'esta8 três ultimas decimas liam-se antigamente as se- 
guintes: 

Com o doutor nflo entendas, 
E d'elie esta cutilada: 
Assento-te agora a espada, 
Para ver se assim te emendas: 
Larga as falsas reverendas, 

«ue em tal oara impróprias são ; 
B Atalaia na fnno^ 
O santo baile começa, 
(k>m um lenço na cabeça, 
K com o pandeiro na mfto. 



-318- 

N9o te linge falso agrado 
Meu semblante conti^afeito ; 
Não encobre honrado peito 
Corarâo refalseado: 
Se n)e Julgas disfarçado, 
Alta injustiça me fazes; 
Eu te juro eternas pazes; 
E se falto aos votos meus, 
Ah padre, |)ermítta Deus 
Que eu sempre ensine rapazes. 



E tu, que sem estes sustos 
Vives cheio de alegrias, 
Serenos, dourados dias, 
Aos pés de teus reis augustos; 
Tu, que poV titulos justos 
Te chamas o novo Horácio, 
Quando cnli*ares em palácio 
(Conserva de mim lembranças. 
Porque tenho as esperanças 
Postas em ti, e no Estado. ^* 




Mas jmro a dura contftnda, 
Padre meu, <'4ila-te e fogi;, 
í^iiando iifio na iiiinlialoge 
Inda lia mais d'i«Ui fazcuda : 
S(! nao quiTtís mais da tenda 
Vwha esses beiços perjuros: 
Oavaste-inu os dentes duros, 
K a quem toma essa vereda, 
Psigo na niesmft moeda, 
E pago sempre com junis. 



t)i 



MOTES GLOZADOS 

Gosto (Ic amor o quo é 

Senhoi^, mui máo doutor 
Nisto vindes perguntar, 
Que eu só sal)eiei contar 
Quaes são as penas d'amor: 
Se da minha chanima o ardor 
Nunca refrigério vê, 
Sc em minha amorosa fé 
Desprezos sempi*e encontrei, 
Vede como eu saberei 
Gosto de amor o que é. 

Só cu, só tu, mais ninguém 

Em casa em dando iima hoi*a, 
Se ac^so nisto assentarmos, 
Te espero para jantarmos 
Mesmo de oarrele fora : 
Aquella certa senhora 
Creio que esta vez não vem ; 
Podes ir mesmo sem trem, 
Não cuides em te acear, 
Pois là havemos e^star. 
Só eu, só tu, mais ninguém. 

Foi n'est<í hrillmnto «lia 

Foi ao prazer consagi'ado 
.0 dia, em que te encontrei. 
Dia, que sempre trarei 
Na memoria assígnalado ; 
Dia, a que o meu negro fado 
Ter respeito parecia, 
Pgís se da intensa alegiia 
Já me encbi inteíramenie, 
Cré, senhora, qoe somente 
Foi n'este brilhante dia. 



— 310 



Para mim siS esto dia 



Se eu no anno todo achasse 
Um dia, em que Nize esquiva 
Mais terna, mais compassiva 
Os meus votos escutasse, 
Um dia, em que se dignasse 
De ouvir o que eu lhe dizia, 
Do anno repartiria, 
£ por um bem justo modo, 
Para os mais o anno todo, 
Para mim só este dia. 



Annos bemaventurados 



Annos meus, no vosso dia 
Sempre atégora me vistes 
Cheio de lagrimas tristes, 
Cheio de melancolia: 
Já acabar-vos queria, 
Annos em sezões gastados; 
Mas, se assim sois festejados, 
Já mudo de parecer. 
Pois desde hoje entraes a ser 
Annos bemaventurados. 



Os meus olhos a chorar 

Pranto inútil são os meios 
Das pessoas desgraçadas: 
Pagae, lagrimas cançadas, 
Pagae delictos alheios. 
Já que de ouro cofres cheios 
Nunca pude a Nize dar. 
Já que devo em fim pagar 
Culpa, que só tem meus fados, 
Fiquem sempre condemnados 
Os meus olhos a chorar. 



— 311 — 



Já dissu tudo a Cupido 

Na vossa gentil figura 
Mil dons natureza poz: 
Todos cuidam que soi^ vós 
A deusa da formosura. 
Vénus mil vinganças jura, 
Vendo o seu culto esquecido: 
Vàe de settas o ar ferido, 
Senhora, andae cuidadosa. 
Que a louca deusa invejosa 
Já disse tudo a Cupido. 

DigUiiicias tí saudades 

As nodosas carvalheiras, 
Que asson)bram ermas estradas; 
Altas rochas, penduradas 
Sobre medonhas ribeií-as; 
Duras, Íngremes ladeiras, 
Escuras concavidades; . 
São as tristes soledades, 
A quem meu cançado peito 
Conta o mal, que lhe tem feito 
Distancias c saudades. 



A iniiilia fulicidadc 

(jesse, ó Nizc, o teu rigor: 
Esse ódio injusto reprime: 
Perdem o nome de crime 
Os crimes que faz amor. 
Torne ao seu antigo ardor 
A nossa antiga amizade: 
Adoça a rígorídade 
Do penoso estado meu, 
E faze c'um riso teu 
A minha felicidade. 



nt 



Tutia a muUier ú |iorjum 

Triste solitário freixo, 
Mais triste do que ei*as d*anles. 
Conta, conta aos caminhantes 
A razão com que eu me queixo. 
Em teu tronco escripta deixo * 
Minha funesta aventura: 
Reconta esta historia dura, 
Por que veja quem a ler, 
Que depois de Armída o ser 
Toda a mulher é perjura. 



1)<; mil Mispirus que eu dou 

Parto em iim desesperado, 
E, sem que o motivo conte. 
Vou a estranho horisonte 
Chorar o meu triste fado. 
Já vejo o laço quebrado 
Que a ventura me forjou; 
E como iVize o quebrou, 
Conservando os olhos seccos. 
Ao menos não ouça os echos 
De mil suspiros que eu dou. 



One eercani meu coniçâo 

Uue eu cante alojj^re me ordenas? 

Que cruel, que dura lei! 

Porém obedecerei, 

Cantarei alegres penas: 

Por todo o mundo envenenas 

A minha infeliz paixão; 

Tu deras valor á acção 

De eu aflectar alegrias. 

Se visses as agonias 

Que cercam meu coração. 



- 313 



Onera nAo cliogji a ter amor 

Deus de amor, sempre a ventura 
De luas mãos pendente vi: 
Tu podes tudo: sem ti 
Nada no mundo figura. 
Recolhe da terra dura 
Fructo immenso o lavrador: 
Mas occulto dissabor 
No fundo da alma lhe diz, 
Que não chega a ser feliz 
Quem não chega a ler amor. 



(»s Umis ollioíii me mostrou 

Mil bellezas me fez ver. 

Porque alguma me rendesse, 

Não sabia o que fizesse 

Amor, para me prender. 

Mil laços me foi tecer, 

Laços vãos, que em vão me armou ; 

Provadas seitas tirou, 

Que ia em veneno ensopando; 

Porém só me rendi quando 

Os teus olhos me mostrou. 



Omle iJir levíi o dr.sejo 

Vão pensamento, descança, 
Reconhece as forças minhas: 
Tu não sabes, que caminhas 
Por passos sem esperança? 
Junto da corrente mansa 
Me pOes do dourado Tejo: 
Cá oe longe o sitio vejo: 
Mas não devo um passo dar, 
Que eu não mereço chegar 
Onde me leva o desejo. 



-Íi4- 



A8 minhas inclinoçuei 

Que nunca teu doce agrado 
De amizade simples ps^, 
Por minha grande desgraça 
Eu já tenho experimentado. 
Antes ódio declarado, 
Que estas equivocaçôes! 
Quero as ternas expressões 
De que as almas se alimentam: 
Com menos não se contentam 
As minhas inclinações. 

As ininhiis inclinaçCk» 

Senhora, eu tenho encontrado 
No teu amor mil intrigas: 
Não preciso que m'o digas, 
Eu ja tenho experimentado. 
São prémios do meu cuidado 
Enganos, e ingratidões; 
E por occultas razoes 
São, inda que m*o não dizes, 
Tão justas, como infelizes. 
As minhas inclinações. 

Dc>:sdc <}Uun(lo, jú nào ditam 

D*uma dor Fiiis chorando 
A um medico se queixou ; 
Este então lhe perguntou 
Onde a tinha, e desde quando, 
No coração, disse, dando 
Um ai, porque lhe acudisse, 
E, sem que o quando exprimisse, 
Filis caiu e morreu, 
E posto que respondeu, 
Desde quando, já não disse. 



— 3Í5 



Uma fé falsifica.la 
Nào deve ser attendida. 

Tive uma causa ganhada, 
Que trago com meu irmão, 
A não lhe pôr o escrivão 
Uma fé falsificada: 
Fez isto tal embrulhada, 
Que um anno esteve detida; 
E quasi estava perdida, 
Segundo o letrado diz, 
A não lhe pôr o juiz 
Não deve ser allendida. 

Amor quer dormir nos braços: 
0»al de Tós o quer tomar? 

tiom o somno errou os passos, 
Perdeu o tino e conselho; 
£ doeste languido velho 
Amor quer dormir nos braços: 
Faz-me os ossos em pedaços, 
Pésa-me, sem me aquentar; 
Senhoras, vinde-o tirar, 
É máo throno, choça pede. 
Para bem meu, e bem d'elle 
Qual de vós o quer tomar? 



Um suspiro de repentr. 
Um certo mudar de c.^r. 
São evidentes signnos 
De que o jx^iín oocultsi amor. 



Debalde as penas e os gostos 
Disfarçaes, loucos amantes. 
Se os attentos circunstantes 
Tem em vós os olhos postos ; 
De que servem falsos rostos, 
Se o coração os desmente? 
N'um instante infelizmente 
Sáe perdido o longo estudo. 
Pois vem destuir-yos tudo 
Um suspiro de repente. 

21 



Nada faz cautela, ou medo 
N'alma aue deveras ama; 
Esta turoulenta chamma 
Não sabe arder em segredo ; 
Sobe ao rosto, ou tarde, ou cedo, 
Do escondido fogo o ardor; 
Basta a declarar a dor, 
Vãmente n'alma guardada, 
Uma palavra truncada. 
Um c€rto mudar de côr. 



Duro amor, que coração 
Saberá nunca occultar-te? 
Que váe fazer força ou arte. 
Onde as tuas settâs vão? 
Cegos amantes, em vão 
O vivo fogo abafaes; 
Esses descuidados ais, 
Que som tino ao vento dáveis, 
São provas incontestáveis, 
São evidentes signaes. 



De que serve estar fatiando 
Sisudos e comedidos. 
Se esses olhos insoíTridos 
Vos estão sempre entregando? 
Alçados de quando em quando 
Vão dizendo a occulta dor; 
Abaixal-os, é poior; 
Que essas vistas contrafeitas 
Dão ás vezes mais suspeitas, 
Do (pie o peilo occulta amor. 




a27 - 



Olhos de Lize, ollios IhíIIos, 
Olhos para ruim frit^es. 

Sue um vosíjo girar sónienU? 
e faz temer mil rivaes. 



Da alva Lize os brancos dentes, 
O rosto affavel e brando, 
A bocca, d'onde em fallando 
Ficamos lodos pendentes. 
Nos lizos hombros patentes 
Soltos os longos cabellos 
Não são causa dos desvelos, 
Nem das anciãs em que vivo; 
Vós sois, vós sois o motivo, 
Olhos de Lize, olhos bellos. 



Vós sois os meus vencedores, 
E sois gloria do vencido : 
De vós me atira Cupido 
Mil farpados passadores. 
Se vence o deus dos amores. 
Vós as armas lhe emprestaes. 
Que ternos saudosos ais, 
(Jue pranto em vão derramado, 
Me não tendes vós custado, 
Olhos para mim falaes! 



Se o roslo ao reo h^vantado 
Alçaes as pcslanas pretas. 
Logo de brillianles setlas 
Vejo todo o ar cruzado. 
(Cupido, que tem jurado 
Crua guerra á humana gente, 
Das nuas costas pendente 
Dura aljava, e pa6$9dor6s, 
Fará cenqiiistas menores 
Que um vosso girar sómeote. 



— 318- 

Quando d*esses claros lumes 
Saem as chammas brilhantes, 
De mil rendidos amantes 
Ouço saudosos "queixumes. 
Não chameis loucos ciúmes, 
Ó Níze, os que em mim causaes: 
Do poder de uns olhos laes 
Quem ha que livar-se possa, 
Se a menor perfeição vossa 
Me faz temer mil rivaes? 



Tu teimas em desnrezar-me, 
Eu teimo em te idolatrar, 
Juntarei teima com teima, 
Teimando te hei de abrandar. 



De ser commigo piedosa 
Não dás, Marília, esperanças: 
Inda, cruel, não te canças 
De ser esquiva e teimosa! 
Que importa, ó nympha formosa, 
Vir n'este pego arriscar-me. 
De mergulho ao mar lançar-me, 
E os livres peixes colher-te; ' 
Se quanto eu teimo em querer-te, 
Tu teimas em desprezar-me? 



Cos olhos ao ceo erguidos, 
Ou postos nos longos mares, 
Por ti encho os vagos ares 
De mil saudosos gemidos: 
Nos rochedos desabridos, 
Que em vão bale o rouco mar, 
Devorando o meu pesar. 
Já que de ouvil-o te canças. 
Sem premio, sem esperanças 
Eu teimo em te idolatrar.* 



-3Í9 — 

Teimando, se mai não penso, 
Hei de abrandar teus rigores; 
Poraue assim como em amores, 
Tamnem em teimas te venço. 
Juro pelo sol intenso, 
Que a prumo estas rochas queima, 
Que mais do que eu ninguém teima. 
São as causas deseguaes: 
Mas. por ver quem teima mais, 
Juntarei teima com teima. 



Se alva fonte murmurando 
Gasta em torno os duros seixos, 
E váe dos annosos freixos 
As raizes escarnando: 
Se duras rochas quebrando 
Vàe c'o tempo o bravo mar: 
Se bronzes pôde cortar 
Mordente lima teimosa: 
Também eu, nympha formoàa. 
Teimando te hei ae abrandar. 



Não sei que quer a desgraça, 
Que atraz ae mim corre tanto: 
Hei de parar, e mostrar-lhe 
Que de vel-n nAo me espanto. 



iNão sei que outro mal profundo 
Inda a desgraça uie guarda. 
Se me tirou em Anarda 
O que tem de bom o mundo ! 
Foi este golpe tão fundo. 
Que outro não tem que me faça : 
Se em levar-me o gesto e a graça 
De UDS olhos por quem vivia, 
Me fez quanto mal podia, 
NSo sei que quer a desgraça ! 



- :W« - 

Debalde outros gostos pintas, 
Amor, para captivar-me: 
Já não tornas a enganar-me, 
Por mais e mais que me mintas ; 
Inda tens as settas tintas, 
Inda enxugo inutii pranto : 
Ao teu venenoso encanto 
Novas victimas procura; 
E dà-lhe d*essa ventura, 
Que alraz de mim corre tanto. 



Fizeste, ó desgraça, um erro 
Em vires do amor valer-le: 
Como ha de elle sociX)rrer-te, 
Se eu já conheço o seu ferro? 
Á sua voz o ouvido cerro: 
Cuslou-me sangue o escapar-lhe: 
E pai*a melhor provar-lhe. 
Que eu já sou dos seus cortados^ 
Signaes inda mal fechados 
Hei de parar e inostrar-lhe. 



Tu só me deste um desjgosto. 
Outro já nao podes dar-me: 
Já agora senipre has de achar-me 
A mesma alma, e o mesmo rosto. 
Se em ferros por ti for posto, 
Verás que ao som d'elles canto : 
Se envolta em sanguíneo manto 
Me pões a morte diante. 
Notarás no meu semblante. 
Que de vél-a não me espanto. 




- :m 



(Jueiii Adora oo<Miltaii)entt' 
Seiíi declarar seu juiior, 
St^nltí mil íuicias lu» jhmIo, 
Vive «Tcatlo de dor. 



Por que barbara razão 
Um juslo amor se reprime, 
E ha de julgar-se por crime 
Pôr na bocca o coração? 
Claros olhos ferir vão 
Um coração innocenle! 
Nem ao triste se consente 
Dar signaes de seu cuidado! 
Deuses! quanto é desgraçado 
Quem adoi-a occultamente! 



No peito a chamma accendida 
As entranhas lhe abrazou ; 
Mas da ingrata, que a ateou, 
É crime ser percebida. 
Se deita sangue a ferida 
Á vista do matador, 
Vejam de que nova dor 
Sente o triste a alma cortada, 
Paliando co'a sua amada 
Sem declarar seu amor! 



Arde em um fogo escondido: 
Pois se conta o seu cuidado, 
Além de ser desgraçado, 
Chamam-Ihe em cima atrevido. 
Até quasi tem perdido 
De olhar o livre direito ; 
Vive sempre contrafeito ; 
E entre mil contrários posto, 
Mostra alegria no rosto, 
Sente mil anciãs no peito. 



— 33t — 

Busca alegres companhias, 
Por curar o mal que sente ; 
Entra a ingrata de repente, 
I)espertam-se as cinzas frias. 
Ternas arías, symphonias, 
Tudo aviva o seu amor; 
Mas dos fados o rigor 
Tem sobre elle taes poderes, 
Que no meio dos prazeres 
Vive cercado de dor. 



Nus olhoe o amor explico 
ue trago em meu ooraçfto; 
^e nfio se pôde oocultar 
No peito a doce paixão. 



Qu( 
Qu( 



Mandas-me, ó Anarda, em vSo 
Os olhos meus reprimir; 
Que elles sempre hão de seguir 
O impulso do coração. 
Sem querer signaes darão 
Do affeclo que não publico 
Co'a bocca, que mortifico, 
Que imporia que o não revele, 
Se eu, por mais que me acautele, 
Nos olhos o amor explico? 



Amor os faz descuidados: 
Em vão, Anarda, os abaixo ; 
Pois d'ahi a pouco os acho 
Outra vez nos teus pregados. 
Trazel-os mais castigados 
Não está na minha mão : 
Esta continua omissão, 
Este erro, como tu dizes, 
Élum fructo das raizes. 
Que trago no coração. 



— :m — 

De que serve olhar a medo, 
£ fallar acautelado, 
Se um susDÍro descuidado 
Vem descoDrir o segredo? 
O sacrificio, este enredo 
Pouco poderá durar: 
Meus olhos me hão de entregar; 
Que um amor na alma arraigado 
E como um fogo ateado, 
Que não se pôde occultar» 



Tempo e arte tenho posto 
Para disfarçar-me em tudo : 
Mas sáe-me perdido o estudo, 
Em vendo o teu lindo rosto, 
Disfárça-se mal um gosto, 
Que nasce do coração: 
Também tu d'essa lição 
Talvez que bem não saíras. 
Se assim como eu sentiras. 
No peito a doce paixão. 



Ouvi, ó senhora, ouvi 
Os suspiros de uuia voz. 
Que quando por vós suspira, 
Aspira somente a vós. 



Chegou finalmente a hora 
De saberdes quem vos ama : 
Rebente esta antiga chamma, 
Que ardeu occulta atégora. 
Amar calando, senhora, 
Assas o fiz atéqui : 
As anciãs, que padeci, 
Sejam finalmente expostas . . . 
Abl não me volteis as costas: 
Ouvi, ó senhora, ouvi. 



— ;«4 — 

Perdei uma vez o horror 
A ouvir ternos gemidos; 
Nunca feriram ouvidos 
Brandas palavras de amor. 
Que hora, e que sitio melhor, 
Do que este em que estamos sési'? 
Que culpa, que crime atroz 
Temeis que ante vós farão 
As queixas de um coração, 
Os suspiros de uma voz? 



Meu coração vos adora ; 
Sem saber o conquislaes: 
Estas anciãs, estes ais 
São obra vossa, ó senhora. 
Em segredo amou tégora; 
De amor vive; amor respira; 
E se vós, dc[)ondo a ira. 
Lhe prometíeis compaixão, 
Que melhor occasião. 
Que quando por vós suspira? 



N'elle, senhora, não posso 
Nutrir estranha paixão: 
Em fim este coração 
Foi feito para ser vosso: 
Para encher-se de alvoroçx) 
Basta ouvir a vossa voz: 
Passa indiffercnte e veloz 
Por mil bellezas, que admira, 
Nada o enche, a nada aspira. 
Aspira somente a vós. 




— :m 



Hei (Ifi nmar-te au'; á morte, 
Ouèr tu me (|ueirns, quer não: 
Serei no amor desgraçado \ 
Mas com discreta eleição. 



Não fujo, podes rasgar 
Esle peito desgraçado; 
Que o teu gesto retratado 
lias de, cruel, irelle achar. 
Posto que veja roubar 
Á Parca a tesoura forte, 
E dar-me na vida corte, 
Inda ouvirás, que te digo : 
c Ingrata, não me desdigo, 
Hei de amar-te até á morte.» 



Vem, amor, auctorisar 
O sagrado juramento 
De até ao linal alento 
Firmemente te adorar. 
De joelhos, no altar 
Co'a devida submissão 
Kesoluta ponho a mão; 
Juro nas settas tremendas 
De te amar, quer tu me offendas. 
Quer tu me queiras, quer não. 



Amor co'a8 mãos apressadas 
Ergue dos olhos a venda, 
E pasma da jura horrenda, 
Que assusta as aras sagradas. 
« Eis as correntes pesadas. 
Que te esperam, » diz irado. 
Eu as acQeito humilhado, 
a: Não, ó dens, não esmoreço 
Cos ferròB, posto conheço * 
Serei no amor desgraçado. > 



— 336 — 

A liberdade ultrajada 
Lança-me a revez a vista ; 
Risca-me da honrada lista, 
E chama-me escravo irada. 
NSo crimines indignada 
Esta nobre sujeição. 
Arrasto o férreo "grilhão ; 
Mas por quem? Por Nize bella. 
Ah! sim te deixo por ella; 
Mas com discreta eleição. 



Os doces grilhões de amor 
Arrasto com tal vaidade» 

8ue aborreço aquelle tempo 
ue vivi com liberdade. 



Eu fiz conceitos errados 
De amor e seu captiveiro, 
Mas já feliz prisioneiro 
Beijo os seus ferros dourados ; 
Seus passadores farpados 
Ferem, mas não causam dor. 
Não é lyranno, é senhor, 
Que aos escravos sempre afaga, 
Não pesam, não fazem chaga 
Os doces grilhões de amor. 



Discreto amor, e que idéas 
Para prender-me buscaste! 
Á bella Nize rogaste 
Que me lançasse as cadeias : 
Fizeste com mãos alheias 
A minha felicidade; 
Já vaidoso a liberdade 
Perco, e Nize é o motivo 
Por que as prisões em que vivo 
Arrasto com tal vaidade. 



— 337 — 

. Mil glorias, Nize, encontrei 
Depois que a amar te começo ; 
Eu detesto, eu aborreço 
O tempo, em que não te amei, 
Tempo triste, em que passei 
Um continuo contratempo; 
Inda o doce passatempo 
De te vêr me era encoberto : 
Julga pois se será certo 
Que aborreço aquelle tempo. 



Qual caminhante esquecido, 
Que vendo o caminho errado, 
Quer restaurar apressado 
O tempo que andou perdido. 
Assim, Nize, se atrevido 
Conservei livre a vontade, 
Restaurarei na verdade 
Com finezas incessantes 
Os infelizes instantes. 
Que vivi com liberdade. 



Suando te não conhecia 
a de ti se me dava, 
Sem pensamentos dormia, 
Sem cuidados acordava. 



De amor ás paixões chamava 

Inúteis, vãs, e indiscretas; 

Elle as suas duras settas 

No meu peito em vão quebrava ; 

Uma e outra me apontava, 

Eu a todas resistia ; 

Mas o valor, que em mim via, 

Já, Nize, o niò vejo agora, 

Que isto tudo foi, senhora, 

Quando te não conhecia. 



Ah! vil amor, e que idéafi 
Para urender-nic buscaste! 
Á bella Nize rogaslc 
Que me lançasse as cadeias; 
Valcm-te as forças alheias, 
Que das tuas eu zombav? ; 
Já d'essa funesta aljava 
Os tiros mortaes receio, 
Que se não tens este meio. 
Nada de ti se me dava. 



Venceste, amor, já comtigo 
Não disputo o vencimento, 
Mas paga-me este tormento 
Com lornar-me ao tempo antigo, 
Tempo feliz, em que o p'rigo 
Do leu ferro não sentia; 
Como agora, a noite e o dia 
Nunca cm lagrinms gastava, 
Sem aíllicções meditava. 
Sem pensamentos dormia. 



Se (lo penas supporlaveis 
Tinha íis vezos a alma presa, 
Que na humana natureza 
Sempre são indispensáveis, 
Eram tão pouco duráveis. 
Que facilmente as deixava. 
No doce soinno lhe achava 
Hemedio certo e pnscriplo. 
Pois se adormecia allliclo. 
Sem cuidadíís acordava. 




339- 



Os olhos que bem se querem 
Não se podem disfarçar, 
A necessária cautela 
Mil \^asB lhe ha de falttir. 



Por mais que a cautela ou luedí) 
Faça amantevS comedidos, 
Sempre os olhos insoíTridos 
Hão de entregar o segredo : 
São lieis, e, ou tarde ou cedo, 
D'elles a verdade esperem ; 
Por roais que em fingir se esmerem, 
Duram pouco estes refolhos; 
Pois mais são linguas do que olhos. 
Os olhos que bem se quorem. 



Que importa em alguns instantes 
Ser o amante acautelado, 
Se um suspiro descuidado 
Conta tudo aos circunstantes? 
Finas dores penetrantes 
Já soiíri, sem um ai dar; 
Disfarcei, sem murmurar. 
De vãos amigos traições; 
Mas amorosas paixões 
Não se podem disfarçar. 



Uns olhos siMiipre criados 
Em o sou Ídolo verem, 
Âcham-se sem o saberem 
Nos outros olhos pregados; 
Mil segredos delicados 
Por elles amor revela: 
Entretanto infausta estreita, 
Porque a ventura lhe impeç^i, 
Faz que de todo lhe esqueça 
A necessária cautela. 



— 340- 

Qaem tem o fíirto na mio 
Debalde jura lealdade, 
N9o finge bem liberdade 
Quem Iraz nos pés o grilh9o; 
Puro e fiel coraç9o 
Em vio se quer aflectar, 
N3o pôde sempre occultar 
De amor a extremosa anciã, 
Esta estudada constância 
Mil vezes lhe ha de faltar. 



Entre o dizer e o calar 
Ha guerra viva em meu peito, 
O amor manda que íklle, 
Quo caie, diz o respeito. 



Senhora, dizer-vos tudo. 
Quanto em mim sinto, desejo; 
Porém, assim que vos vejo, 
Deixa-roe o respeito mudo; 
Faço um cuidadoso estudo 
Para sem susto fallar; 
Mas esse modesto olhar, 
Que em vós, senhora, diviso, 
Me deixa sempre indeciso 
Entre o dizer e o calar. 



Uma chamma viva e ardente 
Abraza o men coração: 
Se reprimo esta paixão, 
Sou contra amor delinquente; 
Dizel-a não m'o consente 
Vosso inviolável respeito, 
E assim com tyranno effeito. 
Porque sem remédio fique. 
Sempre, ou me cale, ou m'explique, 
Ha guerra viva em meu peito. 



-341- 

Mas em fim, meu coração 
Eu o abro sem temor, 
Porque os delíctos de amor 
Tem de justiça o perdão; 
Uma tão nobre paixão 
Não é justo que eu a cale, 
Já o respeito não vale, 
Rompa-se o silencio mudo. 
Sim, sim, que apesar de tudo 
O amor manda que falle. 



Porém eu tremo, eu duvido, 
Timida a bocca o não diz. 
Seja eu sempre infeliz. 
Mas não pareça atrevido: 
Tem de estar sempre escondido 
Este amor dentro em meu peito. 
Que importa que o seu eiTeito 
Me obrigue a desiafogar, 
Se quando quero fallar, 
Que cale, diz o respeito? 



Atreviílo iXíiisaniiTiln, 
NAo me aciiiMS de niatur, 
Que baãta {lani ciístigo 
0'aT Ixíin II quem me quer mal. 



Ob! se eu algum dia achasse 
De Laura o génio mais brando. 
Ou se a mim de quando em quando 
Os bellos olhos voltasse. 
Que gosto se ella mostrasse 
Oompaixão do meu tormento! 
Mas, ò ceos, que atrevimento! 
N'isto ao respeito Ibe TaUo, 
Ah, não, não vAes tão alto. 
Atrevido pensamento. 

22 



-3« — 

Senhora, «resla loucura 
Pai*a estar bem castigado, 
Sinto a coração chagado, 
Sem ter esperança de cura; 
N'esle eslado era ventura 
Tão triste vida acabar, 
Mas para mais gosto dar 
Ao teu génio enfurecido, 
Conserva-mo assim ferido, 
Não me acabes de matar. 



Bom sei que sou debnquenle, 
Que cm vão desculpas medito, 
Porém se amar-le e delicto, 
Quem acharás innocente? 
Bem sei (pie este fogo ardente 
Devia occullar commigo, 
Porém de eu estar c^mligo 
Perder sequer um momento 
Ah! senhora, é um lormento. 
Que basta para castigo. 



Mas doesta minha desgraça 
Eu vivo Ião satisfeito, 
Que inda vendo roto o peito. 
Amo a setia que o traspassa: 
Fere. ingrala, despedaça 
Kste roníçilo h'al. 
Que o amor, que te lenho, é tal. 
Que hei de. porque mais se esmere. 
Beijar a mão (pie me fere, 
QVer bem a quem me quer mal. 




:m- 



o inoii wraçâo me diz. 
Quando palpita em segredo, 
Que comligo, ou tarde ou awlo, 
fiei de vir a ser feliz. 



Meu coração atrevido 
Me diz que esle amor não cale, 
Que me resolva, c que falle, 
Porque hei de ser allendido: 
Mas como eu já não duvido 
De ser em tudo infeliz. 
Observar teus olhos quiz, 
E elles, que me fogem tanto, 
Mostram ser mentira quanto 
O meu coração me diz. 



Da enipreza (»nfão o refiro, 
E com lagrimas lhe disse, 
Que por li nem se lhe ouvisse 
Um só ai, um só suspiro: 
Fez um voto, mas inliro, 
Que o ha do quebrar mui cedo ; 
Eu creio que só por medo 
Os publico» ais evita, 
Pois sempre por ti palpita, 
Quando palpita em segredo. 



Qual mais quer, por qual mais arde. 
Saber dVlle um dia miiz, 
Ser com outreni já feliz, 
Ou comtigo inda que tarde; 
Que occulta a escolha nâo guarde 
E m'a declare em segredo; 
Mas elle oceultando o medo, 
Que o triste debalde esconde, 
Suspirando me responde, 
Que comligo, ou fard^ ou cedo. 



^344- 

Assim passa um descontente, 
Qoe encheste de paixão forte, 
(luja desgraçada sorte 
É chorar inutilmente: 
Que eu fosse uma vez contente, 
Inda o irado ceo não quiz, 
Foz-me a marca de infeliz 
A minha estreila traidora, 
E em tempo nenhum jà agnra 
Hei de vir a ser feliz. 



Soii tHo justo quanto é bella 
A nympha, que me enfeitiça, 
O amor quo eu sinto por eiia 
NAo 6 obsequio, ó justiça. 



No rosto de Jonia estão, 
Quantos dons das graças vem, 
Mas que importa? se não tem 
Como o rosto o coração: 
Milhões de suspiros vão 
Revoar em torno d'ella, 
Mas, se os que morrem por ella 
Vejo de irrisão servir-lhe, 
Em amal-a e em fugir-lhe 
Sou tão justo quanto é bella. 



Imperfeita natureza, 
Se queres poupar-nos dores. 
Ou dá corações melhores, 
Ou não dès tanta belleza: 
O alto dom da gentileza 
Reparte com mais justiça, 
Fizeste ao mundo injustiça. 
Em crear com mão i*aivosa. 
Tão cruel e tão formosa 
A nympha, que me eniiBitiça. 



-845- 

Nunca se erguem sem matar 
Os seus olhos vencedores, 
Quer ter mil adoradores 
Para ler que desprezar: 
Já sei o que é suspirar, 
Fui aprender aos pés d'ella, 
Tão tyranna como bella, 
Por ler de zombar mil modos, 
Gosta de atear em lodos 
O amor que eu sinto por ella. 



Mas eu que d'esta paixão 
Me contento c'os grilnões, 
Adoro-lhe as perfeições, 
Não lhe peço o coração: 
Se a sua adorável mão 
Diversos fogos atiça. 
Nem murmuro da injustiça. 
Nem apago a chamma ardente, 
Que este amor independente 
Não é obsequio, é justiça. 



Suspiros que (ralma afio, 
Poucc) iiiJixjrta o iwdccer, 
Oue se per(tHin quando vão, 
Se saí)em onde não de ir Ut. 



Os que estão de amor feridos 
Nunca a conhecer o dêm, 
Que em mostrando que amor tem, 
Coitadinhos vão perdidos : 
Entre anciãs e entre gemidos 
Sempre a suspirar eslão. 
Mas as madamas então 
Dos pobres amantes rindo, 
Gostam de andarem ouvindo 
Suspiros que d'a]ma são. 



-346 — 

Os que de amantes oslentani 
Andam sempre sem vintém, 
Perdem noites, e lambem 
Ás vezes bem os aquentam : 
Porém ellas ainda assentam 
Que mais devemos fazer; 
E quanto ao seu parecer, 
Tem isto por ba^tellas. 
Assentando que por ellas ' 
Pouco importa o padecer. 



Nós lhes dizemos, <c senhoras. 
Da rua as ouvimos mal. 
Estas casas tem quintal, 
Là vamos ter a taes horas; » 
Ellas, que sâo mangadoras, 
Vendo que temos paixão 
Entram a teimar então. 
Dizendo como em segredo 
Que é de noite, e que tem medo 
Que se percam, quando vão. 



Se algum se chega a obrigar, 
E seu escriptínho fez. 
Sempre mais mez, menos mez, 
Ao aljube váe parar: 
Não tem pois que se queixar 
De a liberdade perder ; 
Se os homens chegam a ver 
Que este é o fim d'um amante. 
Não caminhem por diante, 
So sabem onde não de ir ter. 




ni 



Nào posâo deixar de aiuar-te, 
Xâo ba fado mais tyranno, 
Conhecer o próprio erro, 
E viver no inesnio eníjano. 



Esta vontade que presa 
Aos teus enganos trarei, 
Não sei, ingrata, não sei 
Se é amor, ou se ê baixeza; 
(i 

Deixa de outros conquistar-te, 
D'essa abominável arte 
Faz o criminoso estudo. 
Que eu inda apesar de tudo 
Não posso deixar de aniar-te. 



Em vergonhosos grilhões 
Que eu fosse o meu fado quiz 
Sempre victima infeliz 
Das minhas cruéis paixões! 
Descubro infames ti-aicões, 
Inda me não desengano! 
Ha de ser meu fatal danmo 
Por mim mesmo procurado! 
Deuses, se este é o meu fado, 
Não ha fado mais tvranno. 



Se eu não tivesse obs(*rvado 
Da traidora a infame culpa. 
Era digno de desculpa, 
E digno de ser chorado: 
Porém se eu desenganado 
Inda d'alma a não desterro, 
Se ajoelhado beijo o ferro, 
Que ella contra mim esgrime, 
Faz íBda maior meu crime, 
Conhecer o próprio erro. 

1 ) Falto Mto veno no voliiinfl áê poMiu ioMitot, Impretsu «m Colai^ mb 1856. 



— 348 — 

Da verdade os sãos preceitos 
Me dizem que isto é deshonra, 
Lá no fundo d'alma a honra 
Clama pelos seus direitos; 
Mas nos namorados peitos 
A honra é um mero tyranno; 
Quando çrita o desengano, 
E remédio dos perdidos 
Tapar co'as mios os ouvidos, 
E viver no mesmo engano. 



Deizu-iue, cruel ciúme, 

Suo tanto me mortificas, 
que não sabes suspeitas, 
O ({ue nAo vôs cortincas. 



Em vão, ciúme enganoso, 
Usas teu fatal direito; 
£ de Nise o brando peito 
Tão fiel, como formoso; 
Sc és um falsarío orgulhoso,* 
Se atormentas por costume, 
Se nunca ardeu outro lume 
N'aquelle coração puro, 
Se eu sou o mesmo, que o juro, 
Deixa-me, cruel ciúme. 



Que importa que mutuamente 
Com a alma as mãos nos dêmos, 
E que sobre ella juremos 
Amar-nos eternamente? 
Se a esta chamma innocente 
O leu favor communicas, 
A furto em meu peito ficas; 
E que importa amor tão belh). 
Se és um continuo flagello 
Que tanto me mortificas? 



— 349 — 

Alças a traidora m3o 
Ante o throno da verdade, 
Puro amor, limpa amizade 
As tuas victímas são : 
Podes mais do que a razão, 
£ a teus erros a sujeitas, 
Em tudo o veneno deitas, 
E, manchando intenções puras, 
O que sabes desfiguras, 
O que não sabes suspeitas. (^ 



A vida que tem um preao 
E comer da caridade. 
Beber agua d'uma bilha, 
E pedir esmola á grade. 



Roto, nú, dormir no chão, 
Soffrer do ferro o tramboliio. 
Coçar, matar seu piolho. 
Sem lenço assoar-se à mão. 
Ouvir d'aquelle a razão, 
Que anda em soltal-o acceso, 
E chorar da culpa ilieso 
Do despacho a desventura, 
É esta triste figura 
A vida que tem um preso. 



Finalmente a toda a hora 
Em um continuo gemido, 
Com o sujo braço estendido 
Sempre pela grade fora: 
ccOh minha nobre senhora. 
Queira ter de mim piedade:», 
Depois de gritar á grade, 
O que faz sem ter discórdia. 
Mal que vem a misericórdia 
É comer da caridade. 

i ) Fite • nltea dcdna d'«ta gloM do Tolamt dt pmHêm íoMHm, Imprano cm Coin- 

bnMiian. 



— 35«- 

Mal que chegou a panella 
À grade cresce o susurro, 
£ em dura guerra de murro 
Váe embutindo a tigela: 
Dão-Ihe a ração, pega ii'ella, 
Que é feijão, couve, ou ervilha; 
Mal que na barriga a pilha, 
Sem se alimpar, besuntado 
Váe assim mesmo engasgado 
Beber agua d'uma bilha. 



Depois váe a descançar 
Lá para o seu aposento. 
Pois já tem conhecimento 
Do caminho, que ha de andar: 
Convei-sa, põe-se a jogar. 
Mente, faltando á verdade, 
Chora não ter liberdade. 
Passa o tempo de cadeia 
A soffrer a fome feia, 
E pedir esmola á grade. 



£u vi uni (lia, oh que dia! 
Cupido forjnuilo settuã; 
Eu quel)rei-lh'a9: que alegria! 
Que a«iuiuptu ])ara o8 jK^tas! 



A oflicina de Vulcano 
Eu vi nos Trinacrios montes, 
Onde Esteropes e Bront^s 
Se ouvem gemer todo o anno. 
Cobre enfarruscado panno 
A entrada escura e sombria: 
Lá, quando na pedra fria 
Vulcano os alentos cobra. 
Amor afflicto com obra 
Eu vi um dia, oh que dia ! 



Quando uni marlello se erguia, 
Outro do ar a cair torna, 
Aquelle cáe na bigorna, 
Este no ar apparecia ; 
A abobada retinia, 
£ as toscas muralhas pretas 
Abriam profundas gretas ; 
Todo cheio de carvão 
Eu vi com a suja mão 
Cupido forjando settas. 



Uma após outra guardava 
As settas o deus frecheiro 
Na rica aljava, e primeiro 
Na dura pedra as provava; 
Alta empreza meditava. 
Que no rosto bem se via ; 
Já as pennas sacudia; 
Mas não sei que lhe faltou, 
Que em quanto foi e voltou, 
Ett quebi-ei-lh'as: que alegria! 



Jurou das nymphas o estrago, 
Jurou vingar seus queixumes, 
Não por meio do ciúmes. 
Nem de amor, bem ou mal pago: 
Jurou pelo Estygio lago 
De quebrar o arco e settas. 
Introduzir as discretas 
E pôr em moda o rigor, 
Que vingança para amor! 
Que assumpto para os poetas! 



*^"^^tS|^'^t^^^~^ 



ODES 



1 UM BiffstadM N dia h accluuçi* h niib I. laria I. 



A vida escura em au 

lançaram tão longe aos reaes pés de vossas ma^ 
tades ; o medo justo de mandar uma voz fraca e des- 
conhecida aos ouvidos de reis, prenderiam hoje a 
minha lingua temerosa, se o amor da pátria e o 
gosto de a vor feliz, dando-me novo espírito, me 
não puzessem na boc^ esta linguagem de uma al- 
ma singela, estes versos sem arte, dictados pelo 
amor respeitoso, e que em logar de enganosa e en- 
feitada poesia, descobrem unicamente os sentimen- 
tos de um coração liei, onde vossas magestades rei- 
nam soberanamente. 

N'este Ihrono, a que poucos monarchas sobem, 
tem a nação portugueza coilocado a vossas mages- 
tades por aquelle talento de agradar, dom do ceo, 
precioso e raro na sagrada pessoa dos reis, que 
querem (como vossas magestades conseguiram) ser 
acdamados pela alegria publica, e pela torrente de 
lagrimas, com que um povo inteiro, transportado de 
gosto, levantava ás estreitas os augustos nomes de 
seus novos reis. Eu vi, senhores, este grande espe- 
ctáculo; foi uma scena de ternura, que arrancaria 
lagrimas ainda a um coração que não fosse portu- 
guez. Vi soldados velhos (|ue, endurecidos ao frio 
e á calma, queimados com o fogo da pólvora, an- 
nunciavam um coração de ferro, banharem pela pri- 
meira vez de lagrimas ternissimas aquelles honra- 
dos rostos, aquellas cerradas feridas, que recebe- 
ram pela pátria, e que tornariam a abrir com gosto, 
se o felicíssimo reinado de vossas magestades não 



— 353- 

estivesse destinado á paz, e à felicidade dos seus po- 
vos ; era preciso ser insensivel para que no meio de 
um povo entregue á doce e tumultuosa desordem, 
que causa a alegria excessiva, se conservasse a minha 
alma na sua situação ordinária; prendeu n'ella uma 
faisca do fogo sublime, que eu vi atear nos cora- 
ções porluguezes : a alta idéa das virtudes de vos- 
sas mageslades, a multidão de benefícios com que 
vemos dourado^ os dias do seu faustissimo reina- 
do, uma longa serie de felicidades aberta no futuro 
diante dos meus olhos me levariam através do povo 
e das armas ao throno dos reis onde, á face do céo 
e dos homens me desentranhasse em gritos de ale- 
gria e mostrasse n'esta espécie de delírio, que o co- 
ração de vossas magestades não trabalha para ingra- 
tos; mas o profundo e sagrado respeito que pôde suf- 
focar em mim este impeto de ternura, não pôde fazer 
calar-me; levado da invencível força do amor e do re- 
conhecimento, me atrevo a pôr nâ real presença de 
vossas magestades grandes cousas em máos versos; 
ponho a simples verdade, ponho os votos da nação, e 
algumas das muitas acções de piedade com que vos- 
sas magestades tem mandado contentes os que levam 
por valia a razão, ou as desgraças. Se vossas mages- 
tades do alto do throno se dignarem lançar os olhos 
sobre estes humildes versos, reconhecerão n'elles 
não o estro que faz poetas, mas o que faz vassallos 
amantes de seus soberanos. Estro sublime, e que 
deve tocar mais no coração dos monarchas, do que 
o das odes famosas de Pindaro e de Horácio, cheias 
da mais bella poesia, mas fílhas da arte e da lisonja, 
e onde não fuzila aquella luz de verdade que dará 
logo nos reaes olhos de vossas magestades, se eu ti- 
ver a incomparável honra de que este papel seja apre- 
sentado diante do augusto e respeitável throno dos 
pães da pátria, dos amigos, dos bemfeilores, dos reis 
adorados da felicíssima e sempre liei naç^o portu- 
gueza. 



35t- 



Das virtudes guiados 
Subi ao alto throno, oh reis augustos; 

Nem sempre esquivos fados 
Se nos h9o de mostrar surdos e injustos: 

Abrem vasto thesouro, 
E nos mandam por vós a edade de ouro. 

Do rei aos ceos erguido, 
O reino e o coração tendes herdado. 

Benigno, enternecido, 
De mil virtudes solidas dotado; 

Por geuio piedoso, 
E digno em lím de tempo mais ditoso. 

Da eterna Providencia 
Os beneiicos raios fuzilaram; 

Já se estima a innocencia, 
Já os tempos de ferro se abrandaram. 

Já vem o ar talhando 
A piedade e a justiça os braços dando. 

dom subila alejii:ria 
Tornae a ver os conhecidos lares, 

Tornae a ver o dia, 
Vós que habitastes hórridos logares, 

l.ogares deshumanos 
Onde passastes dez, e outros dez annos. 

Do chão desentranhados 
Vinde jurar os novos reis felizes: 

5ios pulsos descarnados 
Moslrae ao povo as roxas cicatrizes, 

K os grilhões inda (pientes 
Na praça triuniphal deixae penílonles. 



-355- 

Que lagrimas levaste, 
Palrio Tejo, na lua escura veia 

Quando turvo passaste! 
£ as ondas que quebravas sobre a areia, 

Que cinzas que regaram ! 
Que Irisle sangue para o mar levaram ! 

Mas torna, oh manso Tejo, 
Torna a volver corrente prateada : 

Já taes males não vejo: 
E até já foge a nuvem carregada, 

Que á triste lusa terra 
Promettia fatal e prompta guerra. 

De pelouro viotento 
Não vê cair o exangue companheiro; 

E dorme ao som do vento 
Em campo aberto o molle pegureiro; 

O lavrador cantando 
Em paz herdados campos váe cortando. 

Da sorte das batalhas 
Livrae, piedosos reis, os porluguezes; 

Pendurem duras malhas, 
E os temperados lúcidos arnezes, ' 

Os ardidos soldados 
Das lagrimosas níães em vão chamados. 

Que (lias ílorecenlos 
Ao vosso fiel povo preparastes! 

Quando com mãos prudentes 
O poso dos negócios espalhastes 

Sobre os hombros robustos 
De ministros inteiros, sábios, justos. 

Gemeu maniatado 
Longo tempo o infeliz merecimento; 

Mas já, o collo alçado, 
Sacode o negro pó do esquecimento, 

E a virtude innocente . 
De illuslres palmas lhe coroa a frente. 



— 356- 

Já vingadas serão 
Do YÍI tutor as tímidas donzellas; 

Já d9o erguem em vão 
As mios, e os tristes olhos às estrellas; 

Nua de falsidade 
Aos ouvidos dos reis chega a verdade. 

Mil louvores lhe cantam, 
O limpo coração pondo no rosto: 

E n^alma lhe levantam 
Novo throno, sobre ella melhor posto, 

Que entre espessas falanges, 
Que sobre ouro, ou pérolas do Ganges. 

Novos reis soberanos. 
Que hoje as rédeas tomaes do reino vosso, 

Os fastos lusitanos 
Dirão de vós o que eu dizer não posso: 

Vossa augusta memoria 
Abrirá largo campo á longa histeria. 

Sem trabalho podeis 
Fazer feliz a gente portugueza, 

Seguindo as santas leis. 
Que n'alma vos gravou a natureza, 

A rara humanidade 
A incorrupto justiça e sã verdade. 




3;> 



>'o dia fni qiip Mias maqfsladps Tirram Hp >illa -Virosa 



Tejo feliz, que as ondas serenavas 

Aos reis que conduzias; 
E soberbo do peso que levavas, 

Queixumes nâo ouvias; 
Senle outra vez os hombros teus cortados 
De duras quilhas, de es|)ordes dourados. 

Ferem das praias gritos nas estrellas 

Do povo, que esperando, 
Mil vezes abençoa as prenhes velas. 

Que ao longe branquejando. 
Lhe vem trazendo sobre as ondas mansas 
Da lusa gente os reis, o as esperanças. 

Se abrindo as brancas azas emplumadas 

Alvos cisnes não vejo; 
Se co'as louras cabeças levantadas 

Não vem filhas do Tojo 
A pintada galera rodeando, 
E c'o peito formoso o mar cortando: 

Se azues delfins não saltam, mergulhando. 

Nas ondas prateadas; 
Se vaidosos, a quilha levantando. 

Nas espadões douradas. 
Não vem guiando a cortadora proa 
Aos altos muros da fiel Lisboa: 

Se alçando sobre os mares conquistados 

A verde, hirsuta frente, 
Não vem, inda de sangue rociados, 

Do humilhado Oriente, 
Pelo aurífero Tejo, o passo abrindo. 
Ajoelhar ante vós o Gange e o Indo: 

23 



-S58- 

Se Dâo vejo na vaga fantasia 

Mil imagens brilhantes, 
Com que exalta enganosa poesia 

11 lustres navegantes, 
Falsos enfeites de venal mentira, 
Indignos da alta musa, que me inspira: 

Nos olhos me fuzila santo hune 

De singela verdade; 
Oflendem vãos ornatos de costume 

A austera realidade; 
As lagrimas que vejo, ternas, puras, 
Não são, não são fantásticas pinturas. 

Um povo, (|ue vos ama, alvoroçado, 

Cobrindo as praias vejo; 
Outro deixaes, em lagrimas banhado, 

Ao sul do claro Tejo, 
Erguendo os vossos nomes ás estreUas, 
K c'os olhos seguindo as brancas velas. 

Não chegaes em triumpho á augusta corte 
Con) frota em guerra armada; 

Não veio abrir diante o horror e a morte 
A sanguinosa estrada: 

Fostes vencer co*as armas da brandura; 

Todo o pranto que vistes foi ternura. 

Não trazeis ante vós maniatados 

Lagrimosos caplivos; 
Paternos campos não deixaes juncados 

De corpos semivivos; 
Não víio voltear no altar de Marte, 
Tinto cie sangue, bellico estandarte. 

Singelos corações a vós rendidos. 

Por triumpho trazeis; 
Tropheo maior, do que trazer vencidos 

Ricos, soberbos reis: 
Talento de reinar, que vos foi dado. 
Nos vence os corações, não braço armado. 



— 359 ~ 

Fazeis alegre entrar na pátria terra 

O americano adusto; 
Reconta os casos da passada guerra 

Á esposa, que com susto 
Lhe váe banhando em lagrimas de gosto 
As cicatrizes do cortado rosto. 

A forte mão, que ainda fumegava 

Co sangue não poupado. 
Na dura terra com mais gosto crava 

O conhecido arado; 
E a melhor uso o ferro convertendo. 
Em paz herdados campos váe rompendo. 

Espalhe sobre exércitos cerrados 

Sibilantes pelouros; 
Colha, de sangue e lagrimas banhados, 

Os fantásticos louros 
Quem da sorte chamar dom soberano 
Banhar as cruas mãos em sangue humano : 

Amar a paz, amar a sã verdade, 

Enfrear a cubica. 
Saber unir á solida piedade 

Inflexível justiça, 
Esta é do throno a verdadeira gloria; 
É esta de meus reis a honrosa historia. 




m) 



U Runpif/ itr A»||rjs 



N^esle despido troiHo pendurada, 

Acaba, ó liislo lyra, 
Dos desabridos nortes açoutada ; 

Muo branda nâo le fira, 
E fica volteando ao som do vento, 
Qual sella do cavallo lazarento. <^ 

Sem|)re, lyra infeliz, sempre tocaste 

A fechados ouvidos; 
Feminis corações nunca ameigaste 

Com teus echos sentidos; 
Em vão louvavas, junto a Apollo louro, 
Uns alvos dentes, uns cabellos de ouro. 

Deixaste o louco amor, e temperada 

Novas cordas forcejas; 
Em ti a clara fama foi cantada 

Dos illusires Angejas; 
Doeste que em mar e terra o mando estende. 
Que serve um throno, e que de dois descende. 

De meus pesados dias lhe contaste 

A lagrimosa historia; 
Na esouerda mâo um livro me pintaste, 

Na outra a palmatória; 
Com carregado, ríspido focinho, 
Dictando leis em tribunal de pinho. 

t!ondoer-se mostrou da vida escura. 
Que aos olhos lhe tens posto; 

Pareceu-me que vi nova ventura 
Mosti-ar-me o ledo rosto; 

Cuidei, que nunca mais, quando tocasse. 

Com teus sons o inou pranto misturasse. 

1 » T»m s''l»i<ii'.i an if »j.»il . ■on».!-- \^*q M 



,^.,V,w'v-'^^"»"' 



^'W ' \r 




Na esmienla mSo um livro me pintaste 

Na outra a palmatória. 
Com carregado, rís|)iclo fociíilio, 
Díctando leis em tribunal de pinlio. 



360 



-361 — 

Dos justos reis os olhos penelianles 

Sua alma conheceram ; 
Mil pesados negócios importantes 

Nos hombros lhe puzeram ; 
E a grandes cousas por seus reis chamado, 
Tirou de ti os olhos, e o cuidado. 

Debalde aprende torto corcovado 

D-airosa dança os passos; 
Em vão destro Duprè, impertigado, 

Lhe puxa os curtos braços; 
Em vão lhe ensina as leis da ligeireza; 
Não mudam sabias mãos a natureza. 

Lyra infeliz, debalde se atropella 

A força dos destinos; 
A minha infausta, sanguinosa estrella 

Influiu nos teus hymnos: 
Que efieito ha de fazer teu som sereno, 
Se da mão que o tirou leva o veneno? 

De baixos versos segue o vil fadário, 

Diverte a rude gente; 
Pinta longevo, tonto boticário, 

De dois dados pendente. 
Que alçando a fraca mão, bale nas pernas. 
Porque inda a tempo viu deitar quadernas, * 

Tu não tens doces vozes moduladas. 
Que os mansos ares talham ; 

As nove irmãs, por ti tanto invocadas, 
De tuas odes ralham; 

Debalde lhe pediste o santo fogo. 

São máos teus versos, porque esquecem logo. 

N'este deserto fúnebre te arrojo, 

E de ti me envergonho; 
Fica, dos ventos misero despojo, 

N'este sitio medonho, 
De lúgubres cyprestes assombrado, 
Á solidão, e á noite consagrado. 

1) Tem aBnio au priatiro mmIo pag. VI. 



— 36i- 

Fará echo dos montes na quebrada 
O som, que ao vento espalhas; 

Do curvo bico te verás picada 
Das agoureiras gralhas; 

E coberta de sècco, inútil funcho, 

Manjar serás do roedor caruncho. 

Se alguma vez ao pé doeste deserto, 

Onde o campo verdeja, 
Viesse respirar um ar aberto 

O claro, o illustre Ângeja, 
E ao socego dos campos consagrasse 
Uma hora, em que aos empregos se hirtasse: 

Se viesse este dia que appeteces, 

Então Dâo te acovardes. 
Imita para ver se o enterneces, 

A lyra de Bernardes; 
E em quanto for passando, ó triste lyra, 
€ Em logar de tanger, geme, e suspira. » 




— 3«3- 



En di« de iiMi do Mrqnez de Angfja 



A rouca lyra, musa, tem|)eiemos, 
Cordas de ouro lhe ponho: 

O triste boticário em paz deixemos, 
E o gamão enfadonho; 

Inspira-me uma vez sonoros hymnos, 

Que Apollo julgue doeste dia dinos. 

£nsina-me a louvar do illustre Angeja 

Talentos superiores; 
Que soíTreu os assaltos d'alta inveja, 

Como soffre os louvores ; 
Cuja alma não conhece vis mudanças, 
Ou corram tempestades, ou bonanças. 

Sem tenwr estalar o raio ouvia. 

Que ao perto fusilava; 
O recto coração tendo por guia, 

Seguro caminhava; 
Em vão medonha tempestade freme, 
Seu grande coração só crimes tenie. 

Ao pé do throno augusto em lim chamado 

Venceu a crua inveja; 
Quem no conselho o poz dos reis ao lado 

Não foi o sangue de Angeja, 
Não foi de Hespanha antigo íilhamento. 
Foi sã justiça, foi merecimento. 

Não revolvo a real genealogia 

De Henrique, e de Fernando; 

Os sãos louvores d'este grande dia 
De ti mesmo tirando, 

Só louvarei com paternaes façanhas 

Quem seu nome dever a mãos estranhas. 



- 364 — 

Vias correr teus dias socegados 

Nutrindo esse alto espirito 
No que licou dos séculos dourados 

Em prosa, ou verso escripto; 
Recolhendo na próvida memoria 
De estranhos reis, e de teus reis a historia. 

Outras vezes rasgando á vasta terra 

Seu peito cavernoso, 
Ou de.scobríndo quanto o mar encerra 

De raro e precioso, 
Profundavas com seria madureza 
Os segredos da occulla natureza. 

De tão doces estudos arrancado 

Por mais altos destinos, 
Da lusa gente, e de seus reis chamado 

A empregos de li dinos, 
Sacrilicas aos novos soberanos 
De maduro saber teus cheios annos. 

Permitia o ceo que em taes trabalhos vivas 

Claro nome entendendo; 
E que as douradas horas fugitivas, 

As azas encolhendo, 
Façam que o tempo demorando o passo 
Sinta a fouce cair do frouxo braço. 

Que cem vezes raiando este bom dia 

O oriente esclareça; 
Que imperturbável solida alegria 

Com elle te amanheça; 
Que em naturaes terníssimos affectos 
A mão te beijem netos de teus netos. 

Mas deixa, 6 musa, a frouxa poesia 

Para assumptos menores; 
Não profanem de Angeja a gloria e o dia 

Importunos louvores; 
Pois inda que soubesses dirigil-os, 
Quer merecel-os; mas não quer ouvil-os. 



— 365 — 

Engana-te o desejo, que te inspira, 

Reconhece o leu erro ; 
Se vês, que só ajustam^'esla lyra 

Negras cordas de ferro, 
Não torças, não, teu mísero fadário: 
Torna ao gamão, e ao triste boticário. 




— W6 — 



At mcêwk de Yilb-FUTa-df-Cerreira itifáí 



Doze vezes voltando o ardente estio 

Cos férvidos agostos, 
Quando o quente suor alaga em fio 

Os encalmados rostos, 
Me achou sentado em tripode de pinho, 
Gritando a um povo bárbaro, e damninho. 

Doze chuvosos, rígidos janeiros, 

Os tectos destroncando. 
Me destruíram pennas e tinteiros. 

Sobre elles gotejando; 
E o rouco su], que em torno assaviava, 
Das frias mãos os themas me levava. 

Fortuna inexorável, que envenenas 

Douradas esperanças; 
Que com sceptro de ferro me condemnas 

A estúpidas crianças, 
E que entre carunchosos, coxos bancos, 
Me vás fazendo estos cabellos brancos: 

Tu carregando a feia catadura. 
Que amedronta os humanos, 

Queres que eu chegue á Insto sepultura 
Cos dois Quintilianos? 

E que em etorna, postliuma memoria, 

Me gravem no so|)ulcro a palmaloria? 

Que meus orphâos discípulos chorando 

A perda quo lizoram. 
Os livros sobre o féretro rasgando. 

Que nunca perceberam, 
Digam : «Cora pranto nosso mostre honremos, 
Quatro soluços a seus ossos dêmos? 9 



— í?67 - 

Que de allos bancos, negra eça armando, 

E de batinas velhas, 
Vão do mudo auditório atormentando 

As attentas orelhas 
Com orações, à queima roupa, cheias 
De apostrophes, e v5s prosopopéas? 

Que n^alta noite tempestuosa e escura, 

Em horroroso sonho, 
Vejam erguer da fria sepultura 

Este espectro medonho 
A castigar, como fozia em vivo, 
O crime de um errado accusativo? 

Sábio e illustre visconde, que te alçaste 

Acima dos^destinos ; 
Que em teu peito o saber enthesouraste 

De gregos e latinos; 
Que em continua lição attento enchias 
Teus socegados, bem vividos dias: 

Tu, illustre senhor, em quem agora 

Os olhos fitos tenho, 
Estende a mão benigna e bemfeitora 

A meu humilde engenho; 
Que se era só ás brandas musas dado, 
Mais longe irá, se for por li levado. 

Algum talento, que me deu natura, 

Seria a mais alçado. 
Se eu tivesse a grandissima ventura 

De ser por ti mandado; 
Se do alto engenho, de que não presumes. 
As instrucçôes bebesse, e os vivos lumes. 

Não me atrevo, senhor, a pedir tanto, 
Meus fracos hombros vejo; 

A tão altas esp'ranças não levanto 
Temerário desejo ; 

Conheço ha muito o meu fatal destino, 

Eu não nasci de tal fortuna dino. 



- 368 • 

Mas não encolhas, ínclito Cerveira, 
A mão de aue eu me valho; 

Converta-se o lraI)alho da cadeira 
N'oulro qualquer trabalho; 

Longe de escholas, longe de crianças. 

Farto com pouco minhas esperanças. 

Se em nome de teus reis a mil tiraste 
Das mãos da crua morte; 

Se as chapeadas porias franqueaste 
De soterrado forte; 

Ac^o maior, e inda mais pia fazes, 

Tirando-me das garras dos rapazes. 

Consente-me depois que a lyra tome, 

Em que áureas cordas vejo^ 
E que invocando teu illustre nome 

Sobre as praias do Tejo, 
O Lima cante em sonoroso verso, 
O Lima, que te deu o nome e o berço. 

E em memoria do grande beneíicio. 
Lá nas margens do Lima 

Irei cravar a insignia d'esle ofRcio, 
Lançando areia em cima; 

E em tronco annoso de copado freixo. 

Cortada em verso, esta escriplura deixo. 

«Fugi, rapazes, aqui corre risco 

Mocidade atrazada; 
Não é leão, ou fero basilisco ; 

Não é serpe enroscada 
O que encobre esta fúnebre memoria; 
É peior que isso tudo, é palmatória. » 



-€^t^^t^^- 



-369 — 



A D. DoniogoK de Anis lauareihas 



Llio uma setta tira 
Da aljava de ouro, que pelo ar vasio 

Longe correndo fira 
Junto ao Mondego, saudoso rio: 
Alli em torno ás suas margens vôe, 
E por feliz três vezes o apregoe. 

As claras aguas regam 
Plantas bellas, fecundas, generosas: 

Com desvelo se empregara 
Em cullival-as mãos industriosas : 
Quão doces fruclos, auão cheirosas flores 
De taes aguas, taes plantas, taes cultores! 

Ergue, illustre Mondego, 
Ergue tua cabeça sobre as aguas: 

Assaz no fundo pego 
Choraste um tempo tuas tristes magoas. 
Olha teus campos como esmalta agora 
Efn formosa união Pomona e Flora. 



Oh! seio de candura, 
Mascarenhas, tu és o alvo, a meta. 

Que anciosa procura 
Da minha Clio a empennada setta. 
Tu na alma paz, na sanguinosa guerra , 
Podes ornar a tua e alheia teria. 

Mas boa sorle mude 
Meu dito, e a outra parte te não chame: 

E onde tanta virtude 
Tem a raiz, os fruclos seus derrame: 
Nem menos tempo o sol illustre e aquente 
A quem o viu desde o seu claro oriente. 



-370- 

Porém, se é ordenado 
Da Providencia sabia, santa, eterna, 

ChristSo peito humilhado 
Adora o Summo Ser que assim governa : 
Antes se goza, e dentro n'alma estima 
Que astro tão bello alegre mais d'um clima. 

Entre tanto diíTunde 
Na pátria tua luz copiosa e clara ; 

Que, se logo confunde 
Os fracos olhos, depois guia e aclara. 
Arda ante incertos pés (e gritem vícios) 
Alta tocha, que mostre os precipícios. 

Constância I que guardado 
Está o galardão a teus suores, 

Onde em cume estrellado 
Vibra o templo da gloria resplandores. 
P'alli olhos não tires; que ao trabalho 
É doce viração, c fresco orvalho. 

Tu, e esse coro illustre 
De mancebos heroes, que se obrigaram 

A dar ao mundo lustre. 
Quando o alto sangue dos avós herdaram; 
Concebei novo fogo e novo brio 
Ouvindo onde vos chama a minha Clio. 

Oh I se alguém me puzesse 
Nas margens do Mondego claro o friol 

(iCrto me não vencesse 
Cysne de Dirce sobre o pátrio rio; 
Alli tão docemente vos cantara, 
Que, a ouvir-me, feras, montes abalara. 

Mas engenho ir recusa 
Onde ir amor e gratidão me incita: 

Néscia, se o esperas, nmsa! 
Não corre lasso pé 'strada iniínita. 
Almas illustres, navereis somente 
O dom sincero de um desejo ardente. 



-371 — 

SÓ mal sonora rima, 
Que sem veia forjou saudade e zelo, 

Lerão o amável Lima, 
O sábio Castro, e o profundo Mello, 
Pedras, que tu mal soíTres, oh Lisboa, 
Faltarem tanto tempo á tua c'roa. 




— 37t- 



Rb Uim it tmxttà^ 



Musa frouxa e rasteira, 
Que o louco amor, e seus triumphos cantas, 

É hoje a vez primeira 
Que acima das estreilas te levantas; 

Não arda o santo fogo 
Sempre em matérias vãs, de riso e jogo. 

A virtude sublime, 
Filha do ceo, a cândida amizade, 

Que chama feio crime 
Voltar a cara à pobre humanidade, 

É quem hoje te inspií-a, 
Quem te apresenta a desusada lyra. 

Debalde negro fado 
Obriu meus dias de fortuna escura; 

Debalde tem jurado 
Ser meu contrario até á sepultura; 

Não dar-mo valimento. 
Deixar meu nome em baixo esquecimento. 

De solares antigos, 
Nem thesouros herdei, nem vã grandeza; 

No seio dos amigos 
Me poz o ceo mais solida riqueza; 

Não teme duro fado 
Quem alcançou liei amigo ao lado. 

Sobre inhospila praia 
Lance o mar o navio destroncado; 

No rolo d'agua saia 
O náufrago piloto descorado; 

Areias não pisadas 
Ensope o Iriste em lagrimas cancadas: 



- 373 - 

Se em tão duro castigo 
O ceo, por novo caso não pensado, 

O encontrasse c'o amigo, 
Que anda da cara pátria desterrado, 

Chorara de alegria, 
Feliz talvez chamasse o triste dia. 

O escravo na corrente. 
Em misero suor banhado o rosto, 

Encha d'ouro luzente 
A mão cruel, que os ferros lhe tem posto. 

Do mineiro avarento, 
Oue tem no seu thesouro o seu tormento: 

Albino impaciente 
Cos olhos, e as esperanças no Oceano, 

Veja vir do Oriente 
A náo com ouro, e com marfim indiano ; 

Veja o porto aferrado, 
Chame-se embora bemaventurado: 

Nada d' isto appeteço; 
Sabem os deuses, e por elles juro, 

Que os votos que lhe offreço, 
Nascidos vem de coração mais puro; 

Que estes bens não invejo, 
Que levanto a mais alto o meu desejo. 

Se nos serenos ares 
Lhe vão suspiros meus, d'alma mandados; 

Se deixo seus altares 
De minhas puras lagrimas banhados; 

Se os commovo á piedade. 
Meus votos são por ti, santa amizade. 

Dèem-me fieis amigos, 
Mostrem-se embora, em tudo o mais, irosos; 

No meio dos castigos 
Lhes chamarei benignos e piedosos: 

Amigo verdadeiro, 
Tu vales roais que o universo inteiro. 

24 



— .174- 



Eb Uiitr éà surfi 



Não procura palácios sumptuosos 

A brilhante saúde; 
O seu rosto agi^adavel e risonho 

Até aos reis se esconde: 
Ella faz com que seja venturoso 

O roto peregrino, 
Sc entre a neçi*a gadelha lhe apparece 

Um semblante sadio. 
O caplivo remeiro fatigado, 

Do ardente sol não fuja: 
Em ferros envolvido o duro corpo, 

Trabalhe o dia inteiro. 
O queimado semblante ande banhando 

De violento suor: 
Apressado mastigue, e poucas ve^es, 

O corrupto biscoito: 
Mas tenha o rosto alegre c socegado 

Entre as duras prisões, 
Sc à pallida doença não tem visto 

O macilento aspeito; 
Se com braço membrudo e vigoroso 

Força o remo pesado. 
Inda sinto inflanunar-me em teus louvores, 

Oh saúde aprazivel! 
Tu es tilha do ceo, mâe da alegria, 

Dom de Deus piedoso. 
Se os miseros morlaes expOera a vida 

Por damnosas riquezas; 
Por ellas que fariam, se servissem 

De te fazer propicia? 
Filha do eco benigno, se te deras 

Por ouro, ou (ina pi*ata. 
Eu n^o temera as tempestuosas ondas 

Do férvido oceano: 



- 375 - 

Nos occuUos sertões iria enlrando 

Co'a mesma côr no rosto; 
Não me assustara o dente venenoso 

Da enroscada serpente: 
Do feitil oriente nos outeiros 

Cavaria ancioso. 
Por ver se das entranhas te trazia 

Abundantes thesouros. 
Mas a be]la saúde é dom celeste; 

Com ouro não se compra: 
Klla foge dos impios, que se assentam 

A saborosas mesas; 
Que adormecem em leitos guarnecidos 

De preciosas sedas; 
E váe ffuardar, com próvido cuidado, 

O simples pescador, 
Que sobre ásperas rochas, sem abrigo 

Aos rigorosos tempos, 
Váe nutrindo no corpo mal vestido 

Um coração sincero; 
Que humilde sabe erguer ao ceo piedoso 

As innocentes mãos. 




PROZAS 



â« Mr^a iê Aifeja, aiiiilrt de ntadtf peraila • qul n fnUtâm 
a pMNi e M pMtn, «flenfrada-lhi ilfiM dti nrait ét mtk 



111.""* e ex."'' sr. — V. ex." ae digne de não julgar 
atrevimento ir eu apresentar um livro de inúteis ver- 
sos n'aquellas mesmas mãos em que se apresentam 
papeis que decidem dos interesses do estado, e dos 
destinos dos homens. A poesia, senhor, só é odiosa 
a quem n*ella não é instruido. V. ex/ sabe a ori- 
gem c os progressos d'f^sta arte divina; sabe aue de 
seu berço foi consagrada ao uso da religião e cia po- 
litica; que por meio d'ella o homem natural, que 
nutria vagamente entre fragas e penedias um cora- 
ção tão contrario ao do homem civil, conheceu a 
humanidade, e tomou sobre seus hombros o Jugo 
da razão e da justiça; que os primeiros legisladores 
escreviam as leis em verso, para que a harmonia 
lhes aplanasse ou encobrisse aquelles passos esca- 
brosos, que ferem e revoltam a nossa natureza, sem- 
pre amiga da liberdade; que os philosophos e sa- 
cerdotes do Egypto ensinavam em poesia os seus 
dogmas; que os bons tempos dos gregos, modelo 
dos séculos de Augusto e de Luiz xiv, ao mesmo 
passo que se alargavam os limites do seu império, 
viram levadas á ultima perfeição de que são capa- 
zes as obras dos homens, a lyricíí, a épica, e a poe- 
sia de thoatro. 

V ex." sabe que os poetas de Augusto, mais do 
que as victorias de Farsalia, fizeram chamar-se o 
seu século, o século de oiro; que a passagem do 



— 377 — 

RheDo e a conquista de Hollanda jazeriam no esque* 
cimento, com o nome de Luiz xiv, se Gorneille e os 
que o seguiram não mandassem às extremidades do 
mundo a fama de suas victorias; que ainda hoje a 
França conta com prazer, entre as acções d'aquelle 
monarcha, a protecção e acolhimento que acharam 
ante elie as artes, principalmente a da poesia; e que 
as ultimas palavras do grande Gorneille moribundo 
foram agradecimentos ás liberalidades de Luiz iiv. 

V. ex.' sabe que a augusta theologia da escriptura 
nos instrue muitas vezes dos attríbutos de Deus por 
imagens inteiramente poéticas; que os prophetas, 
unindo maravilhosamente o simples ao sublime, fal- 
iam da existência e da omnipotência de Deus, com 
a locução, e com as figuras da mais alta poesia. 

Mas[ senhor, eu, insensivelmente, vou fazendo de 
uma dedicatória uma dissertação. Y. ex.* se digne 
attribuir este erro de melhodo a desordem de ani- 
mo em que me põe a ingrata sem-razão de ver os 
poetas desfavorecidos de alguns homens, talvez sem 
mais crime, que serem favorecidos das musas. 

V. ex.% em cuja alma raia a razão illustrada, lim- 
pa das sombras do abuso, não faz cair sobre o poeta 
os defeitos que são do homem: a inconstância de 
génio, o desconcerto das acções, a philosophia mal 
entendida que caminha a passo cheio à devassidão 
de costumes, são os crimes de que o vulgo errado 
accusa indifferentemente todos os poetas; mas se 
vemos que estas más (|ualidades brotam no coração 
de tantos homens que não são poetas, para que hão 
de elles sós levar o ferrete que a natureza corrupta 
põe, indistinctamenle, sobre lodos os que não dei- 
xam gpiar-se da religião e da honra? Sempre hou- 
ve poetas bem e mal morigerados, assim como os 
outros homens: e por que lei barbara ha de pagar 
a poesia as fraquezas da humanidade? Por que falsa 
lógica havemos inferir que o commercio das musas, 
a suave lição dos antigos, em que vemos pintada a 
natureza, e explicada docemente a boa philosophia, 
ha de afogar no coração do poeta as virtudes que a 
Índole ou a educação talvez alli plantaram? 

V. ex.' julga mais rectamente; sabe que em to- 



— 378- 

dos os ramos da vida chrístã e civil tem harido 
poetas; que um talento não exclue os outros; que 
Richelieu fazia versos, e foi ministro; que entre 08 
poetas, como entre todos os mais homens, uns i8o 
venturosos, outros desgraçados; uns chamados tos 
grandes empregos, outros inteiramente esquecidos; 
que se houve um Camões e um Bernardes, cuja me- 
moria posthuma foi a única paga do seu merecimeD- 
to, também houve um Sá e Menezes levantado a ca- 
mareiro-mór dos srs. reis I). João o iii, e D. Sebas- 
tião; um Pedro de Andrade Caminha, camareiro- 
mór do infante D. Duarte; um Garcia de Rezende, 
muito estimado do sr. I). João o ii; um Sá de Mi- 
randa, feito cx)mmendador pelo sr. D. João o iii; e 
para não fazer um catalogo quasi infinito, houve o 
grande Ferreira, e Gabriel Pereira de Castro, os 

auaes, cada um no gosto do seu século, misturando 
artholo e Accursio com Homero e com Virgílio, fo- 
ram tão estimados pelos versos que faziam no seu 
gabinete, como pelas sentenças que lançaram nos di- 
versos tribunaes a que foram promovidos. 

O conhecimento da historia portugueza, uma das 
lições que recreiam o espirito de v. ex.', talvez 
concorra, junto com o gosto que tem pelas artes, a 
que, seguindo o exemplo de tantos reis, se não des- 
preze de ouvir os poetas : eu sou uma prova viva 
de que v. ex." os ouve, e os protege: nos tempos 
da antiga Roma, Augusto fazia o mesmo; nos tem- 
pos da moderna, lemos que Benedicto xiv não se 
envergonhou de fazer a apologia aos versos de um 

Soeta francez, com aquella mesma mão de que pen- 
iam as chaves do ceo. 

Esta justiça e bom acolhimento que v. ex.* foz á 
poesia, foi quem me esforçou a pôr nas respeitáveis 
mãos de v. ex." um livro de versos; o terem alguns 
agradado a v. ex." faz o seu único merecimento: 
um tal voto fez com que eu julgasse bem d'elles, e 
os levantasse á grande honra de serem offerecidog 
a V. ex.* Não me acovardam alguns assumptos jo- 
viaes, que n'elles trato; v ex." sabe, que se a tra- 
gedia castiga os costumes pelos grandes affectos da 
compaixão e do terror, também a satyra os castiga 



- 379 - 

pelo meio do riso ; e este trabalho de minha penna, 
com que eu entretinha os meus cançados dias, pas- 
sará a ser o mais feliz, se tiver a fortuna de diver- 
tir alguns instantes a v ex.% para que, com mais 
força, torne depois a metter mSo nos importantes 
negócios de que os reis, prevenindo os desejos do 
publico, se dignaram encarregar a v. ex.*: isto de- 
seja, senhor, de v. ex/ o criado mais humilde e 
mais venerador. . . 




-w^ 



'380- 



U Mrqiei àt Aijcja, ■• áú 4t mu mm 



Ili."** e ex."*" sr. — Os louvores nem sempre são fi- 
lhos da lisonja, nem sempre são a língua^m baixa 
em que os infelizes fazem o seu commercio com os 
poderosos; quando assentam em merecímeoto soli- 
do, são uma paga devida ás virtudes; o ceo as dá; 
os reis devem-lhe os prémios; os outros homens oa 
louvores. 

Hoje, ill.""" e ex.*"" sr., nos apontam os fastos de 
Portugal o feliz nascin>ento de v ex.'; o costume 
consagra com elogios estes dias solemnes; a pátria 
recompensa assim os annos que a ella se deram ; e 
se em um dia destinado aos obséquios, eu fosse um 
mero espectador, um assistente ocioso, o silencio, 
tantas vezes virtude, seria agora um crime, seria 
uma prova da minha ingratidão. 

A força do agradecimento e a abundância da ma- 
téria me poriam na bocca uma toirente de louvores; 
mas V. ex.* põe tanto cuidado em merecel-os, como 
em não querer ouvil-os; temo a sua modéstia; e 
uma virtude de v. ex." me não deixa fallar-lhe nas 
outras; porém, ao menos seja-me permittido que t 
minha alma se encha de complacência, lembrando- 
se de que três reis elogiaram a v. ex.% chamando-o 
a grandes coisas; não quizeram que estes talentos 
jazessem debaixo da terra; sobre ella e sobre es 
mares os fizeram luzir. 

Na flor dos annos, quando as paixOes, os exem- 

Clos, a natureza abrem guerra viva ao coraçio do 
omem, então viu a severa magestade do sr. rei 
D. João o V, que v. ex.% tão moço nos annos, era já 
ancião no conselho e nos costumes, queria o seu 
voto nos tribunaes, e o seu braço nas armadas : ne- 
gros ventos, mares cavados, ferro, sangue, eram os 
leitos brandos em que v. ex.' ia descançar das hon- 
rosas fadigas da teri^. 



-381- 

Que direi do augusto, piedoso, e ainda de fresco 
banhado das nossas lagrimas, o sr. José o i? O me- 
recimento, junto com a siroilhança dos génios e das 
edades, pozeram sempre a v. ex.' ao lado d'aquelle 
monarcha ; mandou-lne aue acceitasse novos e im- 
portantes empregos; receoeu mil provas do seu po- 
der e da sua familiaridade, e entre ellas aquella 
aue V. ex/ não disse, mas que todos sabem; aquella 
e que v. ex.' nunca poderá lembrar-se sem dor e 
sem gloria. 

Os benignos e amáveis soberanos, que vemos so- 
bre o throno, pozeram o sèllo na obra que seus au- 
gustos predecessores tinham começado; encarrega- 
ram a V. ex.' dos mais importantes negócios do es- 
tado : a madureza nos conselhos, o severo espirito 
de inteireza, os reis, a lei, a utilidade publica, são 
os objectos que vii*am sempre na frente dos cuida- 
dos de V. ex.' 

Mas, senhor, eu vou abusando da bondade com 
que V. ex.' se digna ouvir-me: eu converto a mi- 
nha falia ao throno do Todo-Poderoso, que tem na 
sua mão as vidas e os successos dos homens; alli 
peço ardentemente que dilate, que prospere tão bem 
cultivados annos; que conserve em v. ex.' o bom 
pae, o vassallo zeloso, o grande ministro. 

Vós, illustres mortos, antigos instituidores da casa 
de Ângeja, que trouxestes no peito o sangue de 
dois. reis, não peçaes conta d'elle; descançae em 
paz nos frios moimentos, cheios de victorias, cheios 
de serviços, que pagaram Deus e os reis por quem 
se fizeram. O vosso herdeiro é digno de vós; cami- 
nha sobre as vossas pisadas ; herdou os vossos ti- 
tulos e as vossas virtudes. 

E vós, motos illustres, seus dignos filhos, cujos 
costumes, fructos do exemplo, são alto elogio da 
mão aue vos educa, já os reis vos chamam ; querem 
nos filhos perpetuar o pae. Os largos e felizes an- 
nos que o ceo lhe concederá de vida, serão a vossa 
eschola. Servi os reis e a pátria; sacrificae-lhe os 
vossos annos e as vossas fadigas; sede afTaveis, jus- 
tos, inteiros; sede como elle. 



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INÉDITOS 



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I. 




SONETOS 



AO MARQUEZ DE H>liEAL 



Em vários ceos, em climas apartados, 
Mostrar ao rei e ao reino alta lealdade; 
Tecer a Portugal doirada edade 
De claros dias nunca em vão gastados: 

Os mares lusitanos ver cruzados 
De mil concavas velas de amizade; 
Levantar-se magnifica cidade 
D'entre informes torrões afogueados: 

Mil virtudes, em fim, marquez invicto, 
Com que a arte e natureza enriquecera 
De tenros annos teu sublime espVito, 

Os grandes crimes são, aos quaes erguera 
Mão infame patibulo inaudito, 
Se mão infame contra o ceo valera. 



— 386- 



AO tiRA:«OE PRKGADOR 1». liAltVIÍh DK MACKM». 
li\-C05iCKECAOII DU URATOMIO 

O cbímico infernal drogas malditas 
Ajuntou n'um lambíque sem demora; 
Ferro, veneno, víbora traidora. 
Cartas da mão de Machivello escriptas : 

Com fogo lento, pragas infinitas, 
Destillou tudo, e em pouco mais d'um'hora 
Pelo gargalo do lambíque fora 
Saíram par a par dois jesuítas: 

iMostrou a sua obra ao reino escuro; 
Tornou a destillar nmito em segredo 
Saiu um Manígrepo índa mais puro: 

O dono, oue o forjou, teve-lhe medo: 
Despejou o lambíque n'um montara, 
E saiu d'esta borra o grão Macedo. 



AOS S05IKT(KS QÚE FAZIA JIOSÉ DAHIIíL 

Trus, lrus...—<iyuem bate ahi?»—aUm seu criado,» 
(cQuem procura?» — «Um senhor que faz poesia.» 
a Pode entrar, meu senhor, muito bom dia... 
Pode sentar-se. . . » — <r Eu ja estou sentado. » 

«Que tem por cá?» — a Senhor, ao meu cuidado 
A limpeza de um bairro se coniia: 
Aonde, com licença e cortezia. 
Foi um bacio enorme escangalhado. 

<rÉ o caso: uma preta vinha andando 
Cum serviço: eis que um preto, dos do Neto 
Lhe sáe peía licença perguntando: 

«r/o susto entorna o vaso sobre o preto. 
Dou-lhe parlo; pode ir-se preparando. 
Que tem assumpto para um bom soneto». 



DECIMAS 



Pergunta certa senhora, 
Sem presumir mal algum, 
Se um só beijo á sexta feira 
Fará perder o jejum? 



«Padre mestre Apresentado, 
Pergunto, e saber desejo. 
Se perde o jejum um beijo, 
Sendo á sexta feira dado?» 
«Eu, no Larraga encontrado 
Não tenho o caso atégora; 
Por isso alguma demora. . .» 
«Não, não, não se cance muito. 
Que eu cá por mim não pergunto. 
Pergunta certa senhora». 



«Olhe, se ella o beijo deu 
Simplicitêr, não peccou. 
Que a lei a ninguém tirou 
Poder dar o que for seu; 
Comtudo se fora eu. 
Beijo não dera nenhum; 
Porém como deu só um. 
Não tem o jejum quebrado, 
E muito mais sondo dado, 
Sem presumir mal algum.» 



- 388 - 

« Porém sru m(>s!n? Melgaço, 
Que eu por và seguido vejo, 
Nos diz que o solido beijo 
Sustenta mais, que o abraço : > 
cEu tal dístíncção não faço, 
Nem distincção verdadeira 
Acho, índa que dar-lh'a queira; 
Nem eu sei qual mais seria. 
Se um abraç4> em qualquer dia, 
Se um só beijo à sexta feira. > 



(L Logo pode um beijo dar 
Muito bem á seita feira 
Qualquer secular, ou freira, 
Sem n'isso o jejum quebrar? t 
c Pôde sim ; mas sem formar 
N'esse instante gosto algum; 
iNem ha de dar mais do que am, 
Pois se deu mais, ou fez gosto, 
('.omo o beijo é já composto, 
Fará perder o jejum.» 




BIOGRAPHICO-CRITICO 



Acerca de 



Skíilsm SinlimtâM k ^ImAa 



JOSE DE TORRES 



:1 



poetas por |HM>u<i sejam lidiw . 
S4'}ain k(S por poetas expUcada» 
Sua» obra» dirinas. . . 

riLINTO CLt»H» 



lALVKz seja temeridade, da parle de quem nâo nasceu 
para entreter comniercio com as musas, aventurar-se a 
julgar do mérito d'um poeta, que muitos de seus pares 
louvaram, que altas regiões acolheram prazenteiras, e 
que circunstancias especiaes fizeram tào aceito ás mul- 
tidões como aos aulicos, tào consagrado e popularisado 
entre todos, que resiste e promette perdurar inquebran- 
tável na memoria commum, em menoscabo da acção 
destruidora do tempo. 

Desculpem o commetti mento a (jucm se confessa re- 
ceioso. 

O bello livro, que agora vé a luz publica, pedia outra 
penna para matizar estas primeiras paginas. A sorte 
dispoz d'oulro modo, e o encargo toc^u a quem menos 
podia desempenhal-o. 

Entretanto tentemos a obra, que outros fariam, e 
porventura terão ainda occasiào de fazer melhor. 



Ha apenas meio século que Nicolau Tolentino de Al- 
meida desappareceu d'entre os vivos, e já parece as- 
sumpto remoto e de difficil averiguação, auanto se lhe 
refere. Se não era muita a luz que aos olhos dos con- 
temporâneos apresentava as circunstancias principaes 
da sua vida e escriptos, a negligencia dos que mais se 
deviam considerar obrigados a perpetuar a memoria das 
cousas; a successào tumultuosa aos tempos e seus ef- 
feitos inalienáveis; tudo tornou mais incerto o caminho 
por onde agora se podia chegar ás conclusões appete- 
cidas. O espirito de suas obras, nem sempre facil de 
descobrir, discorda ás vezes do pouco aue a tradição 
nos conservou d'aquella existência agitada; nem o tes- 
timunho contradictorio dos seus versos deixa julgal-os 
guia seguro em tão intrincado labyrintho. Iremos, po- 
rém, como podermos, demandando porto n'esta dupla- 
mente difficil navegação. 

No anno 17íl, na cidade de Lisboa, no dia 10 de se- 
tembro, ^m que a egreja celebra o santo agostiniano 
Nicolau Tolentino, houve Francisco Soares de Almeida 
um filho de sua mulher D. Anna Soares. O pae, letrado 
e illustrado, distincto pela austeridade de costumes; a 
mãe, respeitada pelo sào juizo, e qualidades d'alma; 
foi na piedosa coincidência de tal nascimento e tal dia, 
que ambos procuraram nome para o recemnascido. 

N'aquelles progenitores, em quem havia mais excel- 
lencias de caracter, que bafejos da material fortuna, os 
cuidados da vida eram penivcis, porque a família era 
numerosa, e o trabalho não alcançava remuneração que 
abastasse. O próprio poeta, em mais d'uma parte, se 
refere áquella triste situação. De si diz e repete, que foi : 

— Nascido em baixa ijobreza (p. 1í)2) (* 

— Entre os braros da pobreza 
Fui de«de o iHíre.o lançíido (p. 203) 

— Entre faxas de jwbreza 

Meus tristes pães me envolveram (p. 170) 

Entretanto os pães acudiam á educação dos fdhos 
com mais sollicitucle que podia esperar-se, e maior com- 
placência parece ter-lnes merecido ainda a de Nicolau. 

1 ) At pagiau iadicutai d'Mte modo rder«in-M á preMote ediclo du Obrat de Toleattao. 



VI 

guando este lillio chegou a estado de aprender as pri- 
moiras letras esrolheram-lhe mestre. 

Sào dignos de Boileau, pela graça e estilo chistoso, 
os versos em (jue Tolentino descreve os preparativos 
(|ne houve para o levarem á aula. 

l)«>P(ii.s <]U(' i)l>iii<) rjiiiiinliu 
Já meu \*è lrilliuiiil«> vãr, 
IVibrc alfniaU' visinlio 
lk> um (>a|M)tL> de iiipu yAo 
Hk* orHí(*iuirQU uiu ('ii|)oUnh(i: 

■^ Talhando a ohm, maldiz 
A cm^in^zii que lhe íncumiuniii). 
Kt>7. r)iKri)iijaui'iaâr(im tfiz, 
>rU' v('/.»'s liirrainiiii 
(M iM'Ul('sdo liari/: 

Sua nhni St' ('(lusiuía' 
No iMirtal das ItiirniMuinhas 
íAwu .uross:).*« Iclnis «ralmnKn;: 
'la|N)íi p'inis, ]);iíi<iriu linhas, 
i'Vy. um raiMile e um milagre: (p. 170-171 ) 

E eis clamoroso e mal resignado com phaatastícas 
promessas, o nosso pe(|uerrucho, caminho da eschola, 
ao collo de um gallego! 

Odrhete no «UhíCÍío, 
S:h novo Adónis Ih'11o. 
Kiífji wts cós do caktíio, 
í',arríij»it.o no cabellõ, 
K um t)Í!*<>oiliidio na mão: 

Sol)re sisudo gallepo, 
Oue vasa Imrril liado. 
Ja aos traiialhos me entrep): 
K em triste pranl<) lavado 
A iKjrtii dl* um nH'stn> oliep). (j>. 171} 

Quando chegou o tempo de entrar na cultura da lín- 
gua dos romanos, introducçâo ohrigada, desde remotas 
eras, ao estudo das letras; antevendo de longe a imper- 
tinência do velho mestre grammatícâo, cujo demasiado 
rigor devia lembrar-lhe por toda a vida, foi entre me- 
dos e violência (jue se resiç;nou a novas e mais pungen- 
tes apouquenlaçòes. Quasi trinta annos depois, ainda 
tinha d'isso memoria tâo fresca, ((ue o pintava assim: 

Entní medos e violência 
Entrar no latim já i»osso, 
E jurei ol>edieneia 
A um clerigt), que era um poço 
De tahaeo e de Acionciu ; 

n'ent.n.» o sórdido roupAo. 
Com a pitai la nos dedos, 
E o Madureira na môo. 
Hovehiva altos se^^redos 
Do adverhio e conjunçào. 



vil 

B#ft tfin gfaihidatica títrfBíto, 
Honrava o stx^ulo nosso; 
Porém de tal rigorismo, 
Oue poz na rua o seu moço 
Por lhe ouvir um solecismo 

Entre o « Jota • e o « I » roinano, 
Oue diflbfença so adiasse 
Trabalhava havia um anno; 
Obm tíue, se elle a acabasse, 
Feliz uo género humano! (p. 171-172) 

Seria ainda insoíraçâo doeste mestre de latim, a des- 
cripçào que faz u'outrò (p. IST*), que também era ve- 
lho e clerifio? 

Preparaoo para seguir na universidade de Coimbra 
os estudos de direito a que seus paes^o destinavam, 
elle mesmo nos conta as circunstancias da jornada quando 
(1768) foi 

.... ver as vastas Campinflâ, 

Que banha o claro Mondc^. . . (p. t727 

Despede-se da familia ! 

ík)'as calxiças mal compostas, 
Vojo entre gostos e mudos, 
Máé a írmttô á tuiufa postas , 
(]|iuviam cruzes e crecloe 
Sobre ns minhas bentas cosias, (p. 172> 

Já em rápidas carreiras 
(lulcava a real estrada, 
Sem cliapoo, sem estribeirns; 
Já a catana emprestada 
Cortava o vento c as piteiras, (p. 172) 

Caminha quasí á mercê da Providencia! 

Curta, embrulhada quantia. 
Que no despedir me foi dada, 
Espirou no mesmo dia; 
E lui fazendo a jornada 
Quasi com carta de guia. (p. 172) 

Avista a Athenas lusa! 

Mas jâ vejo a bninca fronte 
Da alta Coimbni, fundada 
Nos hoinbros de erguido monte ; 
Já sobre a areia dourada 
Vejo ao longe a antiga ponte. (p. 172) 

Qoat é o elemento mais preponderante dentro d^aqueU 
le» muros? 

Povo pévoltosoe ingrato <* . . . 

fm vfto de adocal*o trato, 
um titulo de guerra 
A chegada de um novato, (p. 172) 

l)Ot 



Parte! 



VIII 

Que dissabores e inclemências o esperam I 

PAo amassado cora fel, 
E envolto em pranto, comia; 
Levei vitin tAo ornei, 
One peior nAo a teria, 
Se fosse estudar a Argel. (p. 173) 

Que de iodeninisações e prazeres procura depois nfc 
vida de estudante! 

SoíTri continua tortura, 
Suffri injurias e acintes; 
Lancei tudo eni escriptura. 
K nos novaUjs 9i*guintes 
Fiquei \mfí(j com usura. 

Da Incisa os liofes Ilie arranco 
No fresco pateo de Gliellas, 
Pedindo com gi?nio franco 
Doces, gnituitas tigelas 
Do famoso manjar branco, (p. 173) 

A pac e filho foi egualmente penosa aquella estada 
cm Coinii)ra: 

— o hom pne. falto de meios, 
Ouanlí» cheio líe virtude, 
!>õ mandava nos correios, 
Novas da sua saúde. (p. 173) 

Sete annos (*, assim passados, ^emeu o filho em segre- 
do. Não |)odcndo permanecer alli mais tempo, regressou 
a Lisboa. 

Que conseguiu Tolentino na universidade? Que apro- 
veitamento colheu? Que estudos completou? Que grau 
obteve? Abstem-so de nos dizer a menor cousa a tal 
respeito. '^ Inculca-nos só, (jue passara lá attribulado: 

ArliJiva-nn! 8<Mnpro o dia 
No tiH-to os olijos pregsidos: 
A sngaz LH*onoii.i-i. 
hi>vo'and(i nos t^^liiarlos, 
Ao conselho presidia, (p. 173) 

E SC assim era, fraca disposição devia ter aquelle es- 
pirito para o estudo, (lusta porém a crer, se esse es- 
tado foi quasi normal durando sete annos, como o inoço 
se lhe resignou, vendo que náo havia n'isso proveito 
para nenhuma das partes. Não será mais natural sup- 

1 ) o nosso cota -proTinriano f tmino, o tr. Joáo Angnsto Amaral Fntto, M Vida éêmÊÊ» 
Nicolau Totenttno de Almeida (Libboa 18i3. 34 paq. de 8.*>) dii (pag. 3) qM opoeta m áwat 
ruu oito annot evn Coimbra, quando é certo que o próprio TolMtiao, pag- 173, d'Mti edictei 
atflrma qne furam tfte. 

t) Uma só m deicolirimo* na* luu po««iat, que, Uberdadt poetic*. aatcrflo Tsrdadêin 
ou prcttiiba da verdade, te chama, a «i, doutor. É na replica ao loppoito cardeal : 

Com o dootwr nlo entendas, 

t dVHe etU cntiiada : 

AMento-te agora a espada, 

P^ira v^r «e aivim te eniendas. (p 317) 



II 

por, que a verdadeira crise sohreveiu nos últimos tem- 
pos, talvez promovida principalmente pela inutilidade 
da sua permanência em Coimbra, onde passava sem 
aproveitamento? Quem sabe se se lhe poderá applicar 
o que alguns annos depois dizia dos próprios discipu- 
los, que mais tratavam de tafularias, que de esluao? 

Só pnra consolar-me, n*elles acho 

Os mais bonitos moldes de tivelas, 

E de s}ipaU)s com entrada abaixo, (p. 44) 

Teria vinte e quatro annos quando regressou á casa 
paterna, com grandes encargos para a consciência, pelo 
abatimento em que encontrou o pae, e pelos auxdios 

Sue a familia tinha direito a esperar de quem fôra o 
emjamin d'ella. 

Vagara na corte uma aula de rhetorica: Toíentino 
julgou-se habilitado a regei-a, e tinha, como assevera- 
vam contemporâneos que o conheceram (i, fundamentos 
para isso. Examinadores de mau caracter e faltos de 
saber, o reprovaram indevidamente, exercitando n'elle 
vingança, cuja causa não chegou até nós. A injustiça 
bradou alto e foi reconhecida. Pessoas distinctas se in- 
teressam pelo candidato; e apesar de más vontades de 
invejosos, o então (1765) director dos estudos, princi- 
pal Almeida, fez com que fosse provido: 

. . . ninndarain-Mie ensinar 

As regras de persuadir, (p. 173) 

Nào faltou agradecimento á mercê, de cjue depois se 
devia queixar tanto; e é ao mesmo principal, que, em 
dia de annos, se dirige n'estes versos: 

Pelas vossas niãí)S alwulo 
Oiicbrei da d(»sgracíi ô í\o : 
Se <Ia crua fome e frio 
Livro o Díie, livro us irmãos. 
K obra nas vossas mãos, 
K f:iz o vosho elogio. ( p. 203) 

A este tempo j \ a màe, a quem se nào refere, devia 
ser fallecída. Dizem que depois o pae tomou ordens sa- 
cras, e até ao fim da vida esteve em sua companhia, 
amado como bom pae que era, e tratado o melhor que 
o filho pôde. 

Foi por aquelle tempo que contrahiu amizade com o 

f ) Dil-o o anctor da Vida do poeta, p. 3. — A p. 1, decUn que tÍTera c felicidade ... mb 
adiar ouotemporaiwos, qn* até conTiveram com Tolentioo > EtU importante derlaraçiu, 4Mpi4a 
da dtaelo de am anico ooroe, deixna latente em todot a peoa de ficarem ignorando u footM an- 
ctoriMdM onda o biograpbo bebeu alguns doa tundamcutoa do i 



e(;ualuiente poeta Domingos Pires Monteiro Budeírt, 
morando ambos na rua da Átalaya. Partilhavam de- 
grías e folgares em jantares e recreações oommuna: 

o nossri bom IfiUiiK) antigo. 
Quando alçando a torva fronta 
Juiitiiva Oúintiiiano 
A mesa de Anaereonhs 

Quando aos brilhanttis conot 
2)o casto, herdado Uorisos, n 
Iam mergulhar as azas 
Os praEcrus com os risos; 

Quantio em renhida» disputas 
Mottias traidora uiflo, 
SíMido o inotiv() da guerra 
8oÍHpiida mangaç&o; 

E »>iri liaver lindos olhos, 
ÍHíni haviT ondaíiíis tranças, 
í)oudoK c(Hu doudos turiâm 
TurbulenLiseoiitradair.as. (p. t08t 

Se as mais intensas queixas do |)oeta, acerca da soa 
posição afllictiva, nào sào |)osteriores a este tempo, enja 
alegre claridade se \è tào natural e vivamente pintada; 
ha coutradicrão entre ella e o estado d^alma que de- 
nunciam suas insistentes pretençò^s. Não se pôde sup^ 
por que a vehemencía dos queixumes só date da morte 
do pae, porque sobre clle ficava pesando exclosiva- 
mente todo o encargo da faniilia, qne esse já Ih^o ha- 
via transmitlido em vida. (|). 178) 

Ou fosso em verdade por melliorar de fortuna, pro- 
curando n'outra collocacâo meios com mie sustentar fa- 
milia numerosa^ para o que de certo lhe nâo daria o 
escasso ordenado de professor: ou fosse por antipathia 
ao n)agisterio, para que não teria nascido, c com o qual 
raramente pode casar-se a eílervoscencia do talento |>oe- 
tico; ou fosse |)or ambas as causas; não tardou muito 
(lue se não queixasse da cadeira e sollicitasse logar de 
mais vantagem. A esse tempo se refere o começo das 
suas relações com alguns fidalgos (|ue quiz levantar em 
protectores. Teria isso origem nas boas graças já ga- 
nhas ao principal Almeida, parente [)roximo da casa de 
Attgeja? (p. j7) Seria por esta casa que começou, e 
por introducçào d^ella (|ue adquiriu as outras mais prin- 
cípaes relações? Seria n'este tempo, para o fim de ga- 
nhar aquellas amizades, ou já consequência d^ellas, que 
Tolentino procurara cdnvisinhar com os Ángejas, mu- 
dando de residência para a Junqueira? Não o sabemos. 
O que pareeem mostrar as suas i)oe8Ías é que, eotre aa 

I ) Noma 4e «mi ^priata do anégo, ■ qvcm • ractmr ncrrrrto, ■ ^mA ft w ámM fesa «lih»b 



ti 

de soUicitayâo para novo enipre^05 aqueila a que m 
pôde assignar data conhecida roais antiga é de quMido 
contava doze annos de professor: (1778?) 

Doze vezes voltando o ardente estio 

Cos férvidos agostos, 
Quando o quente suor alaga era fío 

Os enealniados rostos. 
Me achou sontiido em tripoiíe de pinho 
Oritan^lo a um povo baroaro e daroninho. (p. 366^ 

Estaria sempre resignado, ou calado, em quanto du- 
rou o ministério do marquez de Pombal? 

O que parecem mostrar os versos de Tolentino é que, 
por oc^casiào da morte do pae, as instancias e queixu- 
mes redobram, e pouco tarda a solução que de taalo 
tempo procura. 

E não podia deixar de ser assim, que nào ha exem- 
plo entre poetas de quem a pedir sustentasse combate 
mais tenaz t 

Quando começariam as queixas de Tolenlino contra 
aula e rapazes? Nào se pode dizer que tempo os soffreu 
resignado, calado ao menos, se é que entre a iniciação 
do magistério e as aspirações a outra vida houve inter- 
vallo. A verdade é que o' espirito de grande parte das 
poesias, que d'elle nos restauí, é tal. que o leitor se 
acha jncommodado com tanto pedir e insistir. 

Fortuna inexorável, queenvenenos 

Douradas esperanças : 
Que eíiui seeptn» de ferro me oondeujnas 

A estúpidas crianças. 
K que eidre carunchosos, coxos l)ancos, 
Me vás fazendo estes cahellos brancos: 

Tu «irregíindo a feia caUidtira, 

Que aiiiedronta os lunnauos, 
Queres que eu chegue á triste sepultura 

(;'osdois QuMitilianos? 
Kque em ekM*ua, |M)Sthinua mem<»ria. 
Me í^raveuj no sepiih-hro a palmatória? ( p. 3GC) 

ÁS lamurias tinham-se repetido tanto, que o próprio 
poeta, ou por descargo da consciência, ou por instiga- 
ção de accusaçôes estranhas, parece recouliecer a ne- 
cessidade de jusiificar-se d'isto; como efectivamente 
faz, nem sempre com as mesmas razoes^ e com o mes- 
mo accôrdo. Ao primogénito de D. Mana i, o principe 
D. José, a cuja protecção se acolhia, diz: 

NSo 1K!Ç0 por amhiciio, 
Peço pôr necessid ide : ( p. 55 ) 

a D. Diogo de Noronha, depois conde de Yilla-Yerde, 



XII 



rogando-lhe que despertasse a leiíibran^^a de sea pae, 
o marquez de Angcja I). Pedro, já ministro de estado, 
reconhece ter sido iiiii)ertinente, mas justifica a ambi- 
ção por niais altos espíritos: 



Poili-llii'. fKjis, que Lulere 
Meu mpt trisUM* teifnono; 
One (ístoii ii'uiii líigar, noiídert*, 
M(»quinlit), aiiulu que iKMirutw, 
K on«lc iiailii Im que tM*pen.* 



Não <h»8i'jar v haixe^a; 

Sempre o liumano ctjmçAo 

OuLT subir u uiór íi]\aí7jÍ: 

hKt:i univorsiil pnixAo 

Ê íilha (la natun>za. ( p. 18C - 1)Í7 ) 

Tempo houve em que não poz olhos em emprego de- 
terminado. O ({ue (|ueria era largar a eschola, e me- 
lhorar do fortuna. 

Ku naila ivrti) Ilie Ik.»co, 
São vajTsis mil) lias es jV ranças; 
Quanto rlh' <* ixkIo. cronlieôu, 
P, livnMiio lie rriauijas, 



S4> (*(im|wiixào ilie meri>oo 

Mi>u nome llu* ide lembrando. 

Ou [Mnx auisíis ia feiUis, 

Ou (Kira as ([Uf for erL'aniU>. (p. 1H5 - 18G) 

Entretanto mais para o tim do não pequeno período 
de sollicita^f^cs, e já (juatro annos antes de mudar de 
emprego, n'uma ode dirigida ao então ministro dos ne- 
gócios do reino o visconde* de Yilla-Nova-da-Cerveira, 
mais tarde marquez de Ponte-de-Lima, desponta a idéa 
de entrar n'aquella secretaria: 

S4> eu tivesse a ^rnindissinia ventura 
[)i> si>r ]M)r ti mandado .... 

Nào me aln'vo, ««nhor, a iK'tlir tanlu. 

Meus fraeiís hombros \ejo; 
A tào ait;is esp'ranç;is não levanto 

Temerário desejo .... ( p. íMi7 ) 

Outro testíiiiunho, da mesma epocha sem duvida, é 
o que nos deixou no soneto feito a um sonho: 

Drilliante sonliu na enganada idéa, 
Por maior mal, venturas me fingiu ; 
Fez-me entrar na real secretaria, 
Fí.'Z-me lop) deitar sege á Indéa ; 

Poz-UM' na silii um i>s]Kildar eomprido, 
Tm valido lacaio em camisola, 
K um e()rri.*io eoni chaiui no vestido . . . ( p* í*** 

Conhecido o sonho e as pretensões, inda que da po- 
sição de olTicial de secretaria, que pouco mais era que 
amanuense, se não fizesse então o mesmo conceito que 

1 ) o marqan de Angeja. 



Xiil 

boje; os lucros do togar eram muito mais relevantes 
que nos nossos dias, o que não seria a menor das ra- 
zões para que houvesse quem levasse a mal aquella 
ambição, e talvez o julgasse indigno da mercê. D'aqui 
veiu dizer o poeta n'outro soneto: 

Contra os sonhos desde hoje me conspiro ; 

Sc ao primeiro me dizem heresias, 

Em sonhando outra vez pregam-me um lirof (p. 49) 

Em auanto durou o ministério do marquez de Pom- 
bal, todas as diligencias de Tolentino, para captar-lhe 
benevolência, foram baldadas. 

Mil virtudes marquez invicto, 

(k)m ({ue a arte e a natureza enriquecera 
De tenros annos teu sublimo esp'rito, 

Os grandes crimes sào, aos quaes erguôra 
Mâo infame, patíbulo inaudito, 
Se máo infame contra o ceo valora, (p. 385) 

Mas estes versos, que dedicara á 

praguejada mão omnipotente, (p. 8) 

ficaram sem echo. Seria pessoal desaffeiçào? Teria o 
grande ministro de D. José i, aue tantas vezes se in- 
clinou a proteger e acrescentar homens de lettras, mo- 
tivo particular para escurecer Tolentino? Seria isso 
consequência da causticidade do poeta, que a ninguém 
perdoava quando queria mostrar espirito? Haveria ai* 

(pma, ao menos venial, oflensa da parte d'elle ao me- 
indre ministerial? Seria esta malquistaçâo com o pri- 
meiro ministro, resulta de antipathia ao génio do poeta, 
ou de algum peccado especial ?<* Procederia o marquez, 
ciumento da familiaridade e protecção (|ue a casa de 
Angeja parecia dispensarão professor; ou seria em con- 
sequência da indiíterença, ou má vontade de Pombal, 
que Tolentino procurou acolher-se aos Angejas, que 
mais cedo ou mais tarde promettiam ser validos no rei- 
nado que estava propinquo? Tudo sào trevas, tudo são 
incertezas. É porém averiguado, que aristocracia e fra- 
daria foram rebaixadas ao ultimo ponto no ministério 
reformador, e que só por morte ao rei que o manti- 
nha, e pela mudança no pessoal e espirito do governo, 
veiu a reacção vingar-se da longa proscripção anterior, 
recobrando uns o antigo orgulho, restabelecendo outros 
á sombra de superstições c fanatismos antigas influencias. 

1 ) Sffria o ap/)plith<>ina. qui" ao |M>tia altriluifm, da» n^w^t furitulo», na nova ca»a, d«fronl« 
do chafariz da rua Formota > 



XIV 

Se nâo foi animado doestes precotceitos, aã a espirite 
de Tiiigança pessoal, ou desejo de lisonjear miastaos 
no¥OS; arrastado pela onda de plebeias paix(yeBy podm 
attribnir-se as allusões que eoalém um soneto (1.* p. 8) 
dedicado ao visconde de Villa-Nova-da-CerveiFa, e prin- 
cipalmente a satyra intitulada Quixotada, 

Eh soii um triste iiiarqiioz. 

Que fugi a uiu povo ioteiru, 
A qnem raettôm em fnror 
Minha prÍTança e dinheiro .... 

Disso €»Ui povo inalrado, 
Oiie eu tiiihu o hm no oxturquido ; 
Qut* eni gatuno araiiimio. 
B qne em jogtw de )iarti(To 
Tinhn com IcmIos hjrado: 

Que no tahutro le\ ava 
Um quinhão avantajado ; 
Que o sabão não me escapava; 
C que sem ser deputiulo 
Nas comiwnhías entrava 

Mas toda a maldade ò sna : 
VAem riquezas o {Miiacio, 
CiHuem-se de inveja erua ....([>. 272-273) 

Sej[a^ porém, dito em abono do poeta, que na desforia 
do ministro decaído procedeu com nais moderação qae 
muitos, (lue na face desbotada pela velhice e pelo dlo 
revez Áa fortnna politica, nâo so cuspiam doestas, e iar 
comparavelmeote maiores affrontas, mas também as le- 

Kstiam e publicavam até além da saciedade paUicai 
âo fez taoto Tolentíuo^ antes, só muitos aanos depois 
da sua morte, é que aquelias duas poesias viram a lus 
da imprensa. 

As relaçttes com os fidalgos, facilitaram ao poeta, cai 
1777, meio de fazer chegar ás màos da rainna, acom- 
panhada d'unia memoria, a ode que fizera por occasiio 
da acclamavào da mesma senhora. íp. 352-356) kto, 
porém, e^as rimas que |M)r intermédio d^alguns camsr 
ristas fazia checar ás màos do princi|)e real D. José, 
nào o íízeram mais lembrado que até alli, e se não &>- 
ram certos vcrs(»s j(k*(>s(ks, que despertaram no princípe 
o desejo de o eoiihrcer, nào teria occasiào de se lhe 
apresentar e ftassar alf^uns dias em Queluz: 

nu rolhinhii 

Com icttru.sdoiir.-idMs pn/. 

AitUi>n«>l« forUHiMiM diilK 

i).i3 tx.hl;»? ilt: fMicliM: 



Aqaeliee dias ditosos. 
Quando a seus pés ajoelhado, 
Kra ao abrigo dus musas 
Beaignameote escutado; 

Quando, tendo já traçado 
Meiliorar-nie os meus destinos. 
Se dignava perguntar-me 
Como cstiivam os meninos ; 

Quando me mandou, que em verso 
Contasse como escapara 
N'ttquelle funesto encontro 
Dos toes carreiros da Enxára. (t (p. 61) 

Àproveitaiido as disposições que eaoonlrav« favora^ 
veis no herdeiro presomptivo da coroa» procurava avi* 
var*fie na sua lembrança» e por ella na da rainha: 

Trist(« versoH, mal limados, 

Puz na vossa augusta mão, 

Km dor c cm pranto forjados: (p. 174) 

e ao mesmo tempo que despertava os brios do prínci- 
pe, não poupava agente subalterno da corte, ou mem- 
bro do governo. As poesias de Tolentino estão rechea- 
das de documentos da sua importunação. Os Angejas 
eram assediados: cfuando a diligencia do pae parecia 
adormecer, requeria-^ ao filbo que lh'a e«perta$se: 

Tenho a vosso pae contado 
Quanto vivo contraAíito; 
Não tsabo sido eecatadu ; 
Mas ser-Ihe-ha meu rogo acceito, 
Se lhe fôr i>or vris levado, (p. 18Í) 

Cerveira, Marialva (p. 298), Penalva (p. 298), S. 
I^nrencQ (p. 191), Lavradio (p. 198), todos empenha- 
va, a todos incumbia o seu negocio! Nem as damas 
queria poupar! A propósito de um traslado que a ilíus- 
tre Arriaga pedira ao conde de Yilla-Verde, das deci- 
nws que fallavam da fofa almofada^ e começam : 

lím Htígt' (»slnMlíi (íiit-ai pados (p. 285) 

lamenta, que em voz d'ellas o conde nâo desse áquella 
dama um memorial da sua pretcnçâo! 

.... (lovieÍH(Mnti>l:ido 
Segurar a <>í'ríisiru>: 
yi^indo qutí erravií.a píúi^, 
Kntre mil ])a|>eis diviínííis, 
PíiilioisiMii vez (li* Vínrsos, 
Uac-ilte a iniiUia |Mti(;àitte (p. 28u) 

xNào trata\a d"()utra coMtsa ! .Ki não ♦•ra preciso explicar 

i ) Allud» ás decm^.i (p. 2U8;. 



XVI 

o que pretendia : bastava allusão remota, k preteofto, 
a insistência implacável de Tolentino, era um provér- 
bio vivo. Todos o sabiam, e quasi alcançara as hon- 
ras de proloquio: 

A minha longa fadifni 

Já sat)ei8 qual é, senhor ; 

Levae-me a bem que a não diga. (p. 199) 

A despeito de tantas diligencias, do prestigio de tan- 
tas protecções buscadas, das esperanças por tantos mo- 
tivos concebidas, houve mais de uma occasifto qiK o 
professor descreu da sorte, e desadorou da rhetorict, 
que ensinava, ^ ^ e punha inutilmente em contribuído, 
para alcançar o triuiiipho desejado. 

Arte infeliz, rhetorica clmmada. 
Ensino as tuas leis, nms não as creio.... 

Na demanda fatal que em ti pleiteio 
Cícero mesmo nAo vencõra nada.... 

E a linguii ({Ui.' abrandou peitos ferinos, 
Que os povos attraliiu, «lue salvou Roma 
Me deixaria mestre de meninos, (p. 44) 

Não era á falta de pinturas patheticas que o poeta 
deixava de commover e attrahir benefícios. O p^ da 
pobre casa descarregado sobre elle (p. 178); as irmãs e 
sobrinhos desolados (p. 180), tudo é em muitos loga- 
res aproveitado para propiciar os grandes. 

Antes de vencer a demanda propriamente sua, con- 
seguiu do visconde, uiinistro do remo, que duas irmãs 
mais moças entrassem no recolhimento de Lazaro Lei- 
tão) onde ainda as sustentava: 

Mtieas iriiiàs desvalidas. 
A quem dou |K)bn! sustento, 
Foram |)or vos deferidas; 
Vivem cm siuito convento 
Dignamente reíXilhidas. 

PAo com Ingrimns f^udiado 
Lhes adoça a dura jíobreza ; 
Por inimTio meio «^orlado 
Lhe váe da sin^rcla mesa 
Com si^ios desejos mandado. (^ (p. 179) 

A morte do pae, tõo velho como honrado (p. 178), é 

f ) Vid. (p. 174). 

i) A nmma iáf» repele no mmwrW a «mi aUesa (p. 160) ^amlo ttUa ao M« prooetf- 
luciito depoit da raurte Ju pae : 

Váe com mko egnal cortado, 
Entre ot irniAos infelitea, 
Pio com lagrimai niinhado, 
oiip srro 01 iaicr feliie», 
!le -l<'ixA A mun J-s^ivcadi» <{-. IT.*»' 



xvn 

circunstancia habilmente aproveitada, em quadro dese- 
nhado com sentimento, e calculado para produzir effeito 
no memorial a sua alteza: 

Rotos 08 laços do mundo, ' 

Entre palavras truncadas 

8ue bem mostram d'alma o fundo, 
rphãs em pranto ban liadas 
Me entrega o pae moribundo.... 

Eu entretanto suspiro; 
Sobro o pranteado leito 
D'entre os braços o não tiro ; 

8ucbrou junto do meu peito 
seu ultimo suspiro, (p 175) 

A occasiâo era adequada para despertar commisera- 
çâo. Põe nos de Angeja as vistas mais confiadas: 

Peito de tanta bondade 
De bom pae o nome preza : 
Levou-me um a natureza, 
Mas deixou-mo outro a piedade. 
Amparae minha orphandade, 
Porque a vossos pés me humilho.... (p. 285) 

Nâo é duvidosa a intenção com que Tolentino fazia 
doestes appellos ao coração dos poderosos e influentes. 
Elle mesmo a descobre uma vez a Cerveira: 

Senhor, se a íiei pintura. 
Com que a minha fraca mão 
Esta scena vos figura. 
Move em vosso coração 
Sentimentos de ternura; 

Ânimae o justo ardor, 
Em que se accende o meupeito.... (p. 179) 

Tão estratégica nersistencia nâo podia por longo tem- 
po ser frustrada. Quando nâo fosse a impressão de ín- 
rortunios mais ou menos verdadeiros, a impertinência 
da sua parte era bastante a mover protectores, que al- 
mejariam ver applacado tâo irrequieto perseguidor. Que 
fanam ao homem que tinha sempre olhos fitos nas 
vagas que a morte operava no quadro em que buscava' 
entrar; homem que nâo dava tempo a que os protectores 
o varressem da memoria, e os assaltava nas occasiOes, 
mais rápido que uma corrente eléctrica? 

Jaz o defuncto enterrado : 

E agora saber intento, 

8e acaso no testamento 

M& ficou algum legado. 

A votaos pã c^oemado 

Ponho em vóe minha esperança. .. . (p. 311) 

B 



Que faria aqucUe a quem o pMia tanto a ] 
sease isto? 

Faria, ou concorreria para aue te iiíeiie, o «e « 
final se fe/. nào muito depois da morte do pae, < * isto 
é. que fosse despachado, como desde muito pretendia, 
oflicial da secretaria de estado dos negócios do reino! 

Havia um logar {lara prover; eram os pretendentes 
muitos, t(Klos merecedores, mas a indecisão da rainha 
manifesta. A final \enceu o poeta. Prote{ja-o o príncipe 
D. José. a quem Tolentino agradeceu directa (p. 15) e 
indirectamente: »- 

Am |»ri[iri|K' ajo<>l lindo. 
Km Ti IV» ira vH nuinjento. 
Por iiiiiii, Rvilior, Jlie jurne 
Rt(>rn(i nt;ra(kM'iiii«:*iit() : 

V. íMi. iMu liinTHridn esU» leito. 
Já N>i ii linni oii{virtiiiiA 
Dt» jMMltT nio()lniir>ÍIie 
Oiiaiuli) file cíhm^ a tríliunii (p. 78) 

?i\'Âi 

2 MC {M)r iiiiii) >ijni>I]ia«lo, 
na Ihmvíi o cdraciV» 
Beii<*ÍM HM prinoi[»ê a iirfto. 
K \he dei8 tsFtv ívttuUy: 

Diwi iií)ii» a Min nllpzn. 
OnotMi 8(Mi liiiniíltUMifiilindii. 
Pi»r cl li! lia jMMico arrancai 111 
I)'cnt.rc o» hnnsiM» ()n pnlin>Bi (p. 300) 

D. José de Noronha, então conde de Villa- Verde, e 
depois maniuez de Angeja, foi a final quem o apadri- 
nhou e lhe promoveu este despacho, afervorando a pro- 
tecção do principe: 

t ) Evpnr(>inri« .ti|nilln nn qa(> n<>* fnnd imo< |t.ira iMvr qar mm clamorM t »mpfiibm ^ar 
ri>dnhron |Mir nrc<««)A«) lU iiinitr di- «ni \uf d<'T<<u TdlPiilinn UT dr^mebudOt 1*00 áffni$ tf>Mr 

-(■i no iii<|raln iiltrin ^i< tp. 17 it 
Tinha ihf ja riiii4<lo tR«i /»Mpis fmt/iffit^ • n't%l* «Kraa^úi aio rr» parx «• n«f*tir, WW pH» 

TtlM lMt)i- a TiiíH pw*ÍAd<- ip. lT4'> 

rxHiM ciimo llic mifri^H <• p:tr. » p^i> qnr tf-nlia «'it th 9fv Ivmfníe. %! Ti4mtíiii namvna 
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4^ par«f^ atMiinar i morlf dn p«r d<> TnlMitmo daiido-a rumo atiint^da pHotnapo das aaiia- 
if-\ rontraliidak mm o* Adulifot, * quandii iiid.i uno l(>inbraTa an Ulm modar de emprrgu. iááa 
qu^ «dir< Mi llip ncrnrrt^a dp|Nii«. nn v«r aiii|m*iii«ila a íamilia mm daat «iavas irniis aau t «a 
riimppltoitn «oLiinlim. i» i|up l<^-<nifH, ditn ni-%Xf «'iwain purt^r-na» ia e y>'> "'■■ «fl^ro na 
Mcnrtdadp dVtia clirimtilojpa. 

i » O d«Hparlio r dt* 31 d* junlin I7H|. O aqrad^imrnlrt indin^o é dado fin dia d» aaaoa 
áf D. Jn»^ dr Noninti». '24 ■!«> ahril. qne fA podia **r d# 17Hi. (p. 71 'Ti) Piiia ncdwa qaaai 
UB anoo *nlr« a m^ii-^ ror rtiaÉiiH'iiapnl)i* Jíttaria • »«rta taáa rllr IvpMida pela d«wiKa* 
i"f\ »ntio » p--* rfriln d*«l*. q«r al^im |<-|H|iii Hâo tftt-Wfm t> itr^n»Í<* r<^r intfirn* \f 4Ti 



m 



Sou um (ju« muitos «yxeinpk>s 
Do voaeo bonp coração ; 
A BTlnha ftilícidfifle 
Foi obm (im vossa mão. . . 

Ao boro príncipe pedistes. . . . 



Oiie a 8ua real grandeza 

S« dignasse de arrancar-me 

Dentre os brnoos da poljrezi» (p. 71-72j 

Deixae, illustro conde, que em raemoria 
Fique D'e8tas paredes pendurada. . . 

Vereis nma vencida palmatória 

KBtrc ixa ornias de Augi^a dejauxada. (p. 15) 

Pelo visconde de Villa-Nova-da-Cen'ciraj ministro t 
secretario de estado assistente ao despacho, é aue foi as- 
signado o alvará de 21 de junho de 17slJ^ue dava éter* 
no sueto aos discípulos do impaciente e malaventurado 
professor de rhetorica. É ainda alludíndo a isto, que 
elle diz : 

recelio mil l)ens, 

Mas todos por voesa luuo: 

Ku H beijo ; cila recelia 
Gratid&o devida e pura 
Em tril)Uto que lhe paga 
O criado e a creatura. (p. 77) 

£m Tolentino havia uma feição característica, rara 
em poetas satyricos, e para elle pouco lisonjeira ; eram 
as dependências que confessava a cada hora; as lamu- 
rias contra a adversidade que lhe fazia pesado e incom- 
portável o encargo da fan>ilia; as sollíci tacões systema* 
ticas em favor seu e d'ella. A sua situação até chegar 
t ser official nào seria eui verdade invejável; mas os 
próprios desarranjos, a própria incontinência, talvez fos* 
sem mais culpados que a sorte nas penas de que se doia. 
As lastimas familiares foram mina inexhannvel de sen- 
sibilidade para as queixas, e thema para toda a casta 
de variações em corda tão plangente. O que mais admi- 
ra éque soubesse accommodar em paz tiabyloma eom 
Stâo, a musa de Juvenal com a da baixa cortezania! 

Elle próprio reconhecia que nâo dava tregoas ao pe- 
dir, e parece querer justííicar-se. lançando a responsa- 
bilidade disso á conta do peso aa casa: 

Austera philosophia 
Dentro em roeu [MMto mora: 
Sendo eu ao a »;guiria; 
Mas triste familia chora 
Pelo iȋo de cada dia. (p. 180) 

i > Cotu e Sn«a, im Iievi$Êa Vnivfnal Litòommãe, ti, 473 



Porventura essa austeridade não passava de meio 
oratório. Celebrou taoto os bons bocados; deplorou tanto 
os jejuns; al)ominou tanto a pobreza; usou e abosoa 
tanto dos meios que a fortuna lhe deparou; que mais 
tinha nascido para sectário de Epicuro, que para es- 
tóico. 

À família,. cuio peso procurou por todos os modos 
adoçar, compunha-se de duas irmãs viuvas e com fi- 
lhos (que sempre teve em sua companhia); de du«s 
solteiras mais novas, que, como já vimos, algum tempo 
sustentou no recolhimento de Lazaro Leitão (p. 179) e 
depois tornou a recolher cm casa; c de um irmão (^ de 
menor cdade que ejlc. Tacs foram os elementos com que 
soube habilmente jogar; faltando sempre em nome de 
todos, e sabendo para todos conseguir alguma coosa. 
Talvez que para ser despachado professor, já a famí- 
lia lhe ser\isse de allegavão importante! É em nome 
de pae e de imiãos (|ue agradece ao principal Almeida 
o provel-o na cadeira de rlielorica (p. 293). No quadro 
em que recebe da mão paterna o encargo da família, 
pinta o pae entre os iíniãos (p. iOO). Quando o pae lhe 
morre hiçura-o entre as filhas^ irmãos infelizes e choro- 
sos (p. 175-170). A principio apresenta só irmãs pos- 
tas em pobreza^ tristes orphàs donzellas (p. 56), isto é, 
só as solteiras: depois já figuram estas oirphãs de mãe^ 
e donzellas, a par das irmãs com tenras crianças (p. 
18i), irmãs desgretihadas, co'as crianças innocentes 
(p. 199). sobrinhos chorosos (p. 180), isto é, as viuvas 
com os nlhos, também irmãs e sobrinhos do poeta. De- 
pois de despachado oflicial pinta-sc alegre'^entre irmãos 
e parentes (p. 300), c no meio de enrotipados sobrinAos 
(p. 301). INa convalescença de doença que o assalta, 
sobre um pobre sobrinho encosta o braço (p. 47), *e 
mais tarde pede e consegue um beneficio para um so- 
brinlto (p. 19) e clérigo (p. 20) a quem dava o pão 
(P.19).. ■ M r. 

A pnniogenita, (uma das irmãs viuvas) chamava-se 
D. Joaquina Froes de Brito, c dizem que era pessoa de 
grande talento e virtude. Foram talvez diligencias 
de Tolentino que a elevaram a regente da real casa 
dos expostos. ((Governou esta casa com tanto juizo, (^ 
que se fez amar de todos os que alli existiam, e 
admirar pelos habitantes de Lisboa, onde era grande 

1 ) Oi#ta í SiKa. fín: Cnir. Li*h. vi. Wi. («lia «-m trnu'tot t irmi'^. 



XXI 

a 8ua fama. . . A rainha a senhora D. Carlota Joaqui- 
na, antes de ir para o Rio de Janeiro, foi' muitas ve- 
zes Bo quarto da irmà de Tolcntino, e ahi passava al- 
gumas tardes folgando de ver tanta sabedoria no seu 
sexo. Tolentino dizia, que era pe^na nào serem as mu- 
lheres ministros doestado, porque sua irmã era muito 
caoaz de o ser. 
Não só para esta mas também para a outra viuva 

Sou para todas?) obteve o poeta pelo ministro do reino 
osé de Seabra da Silva o despacho de uma tença nas 
commendas vagas. <* Foi mercê havida ahi por 1793 
para irmãs, que contam jà muito janeiro (p. 24). No 
primeiro anno não tiveram cabimento, e estando uns 
três sem receberem, sollicitou-lhes o pagamento, pois 
sendo irmàs e velhas (p. 296), sobre elle estavam pe- 
sando. 

Houve tempo em que não alludia senão a uma irmã 
com quem vivia. Pelos temores da guerra de 1801 so- 
nhava com a desgrenhada irmã, que, temerosa de fis- 
caes, entre as roupinhas escondia os talheres (p. 113^. 
Quando não pôde concorrer ao anniversario natalício aa 
condessa de Valladares pela incapacidade do colkte ias 
funcções, é ainda uma chorosa mana (p. 101), que mos- 
tra esfregando com miolo de pão o quarto onendido. 
Seria isto não ter em sua companhia mais que uma ir- 
mã? Alludia a uma solteira? a uma viuva? Seria quan- 
do D. Joaquina estava com os expostos, e lhe ficara cm 
casa a outra viuva? Que destino tiveram em fim? 

Mais algumas palavras acerca do irmão de Tolentino, 
e por aqui fica o que doesta familia se soube ou conje- 
cturou. 

Tolentino, e Francisco de Paula de Almeida, eram os 
únicos irmãos varões. O mais moço seguiu a vida mi- 
litar, foi cadete e chegou a capitão no regimento de 
Peniche, e também fez a campanha do Rossilhão: 

Do Rossilhão na rupida cunquísUr, 

Da Mugdulenu na subida brava. 

Eu d'aqui m<«nio ao lado seu marchava . . . (p. 23) 

Alli fora ferido nò peito com uma bala de 

... fusil (lue náo mafua. . . . (p. 23) 

Pretendeu o governo d'um forte, e o poeta pediu á es- 
posa do ministro da guerra, depois visconde de Balse- 

1 ) A Vida do poftn tó a1hi4« á ttnca d« O. J(wqniaa, mu o próprio potta qne « akaaçov bJk 
de ttnçu para a$ irméi (p. 14) 



XXII 

luào; que fitesse lembrado o requerimento do triste ir- 
mão, que tinha 

já DO íilD 

Farda rota e chaiinismda ; 

Tem má oôr e é malfoflads 

Ouer que... . mãu piedosa e fmiica. . . 

Lhe do ensaca encarnada. íp. 2fl4) 

Conseguiram o que pediam : Francisco de Paula foi 
governar um Torte em Paço d'Arco6, vas pomo tempo so- 
breviveu a este despacho^ que Tolentino agraáeoeu em 
nome d'ambos ao ministro Luit Pinto de Soosa Cou- 
tinho: 

Qualquer do nó« o idegre ruslo abaixa ; 

È essa mfto bcmMtoríi vos beijámos, 

Elle por detp»cha4lo, ou por dar tiBinL (p. 23) 

Dizem, do militar, que era rival e superior ao poeta 
na graça, (inda que no gosto differente) doa apofiMM- 
gmas. 

Por aqui se cerra o que de tal familia se pôde diaer. 
À excepção da criada, russa, magra Josefa {p, 139), 
nflo ha de mais ninguém memoria nas obras do poeta. 

Tolentino em quanto esteve no vigor da vida moatro»- 
se quasi sempre insaciável. O emprego de ofiicial de a^ 
cretaria, por tantos inveiado, nào o contentava. De 
1781, em que foi despacuado, até 1788, em que mor- 
reu o princi(>e D. José, no espaço de sete annos, já ca- . 
bicava melhor collocaçào. 

£ 86 ainda o favor nieroço 
Dtí Iflo altfl prdteccflo: 
Dizei gue mudei de ofBcio, 
Porem do ventura não; 

Que nfto me enfunam Bumbaias 
Dos humildes siipplicantes; 
Porque a ^»olsa mais sincera 
Trata-me inda como d'antes. (p. 6i) 

Allegando frequentemente a sua fome ou a da familia, 
na exaggeraçâo d'este meio, empregado para fazer com- 
passivos amigos ou protectores, navia um quidde artiGcio 
e baixeza, que era exemplo singular nos poetas do seu 
género. Se a expressão faminta talvez nunca fosse rigoro- 
samente verdadeira, depois gue mudou de emprego pa- 
rece absolutamente inaamissivel. Entretanto dizia: 

E matando crua fome, 

De bom pae nos servireis (p. ISO) 

— Quanto dóc a um peito altivo 
Matar fome em casa alheia (p. f 3S) 



rtní 



~ FuBBttes xiasoer a fome . . . 
E a fome pede manteoça (p. 142) 

—Indo então por matar fome. . . 
—Da vossa esplendida mesa 
Seja elogio uma fome (p. 140y 



Custa a crer, e ninguém por certo crê, que sendojá 
velho (p. 111) cheio de cans e ruga» (p. 169) em feiUpo 
emquedesfructava boa colloeaçâo, se ndoenvergoirHflsse 
de 0Baj>regar a mesma linguagem, ousasse mUarr eot 
mlmpindm^ jejuns fp. 109), e escrevesse a Domingos Píh 
roB^MkAiteiro Bancteira: 

Nào te falia vil lisonja 

Fúlla-te u amizade e a /cmu;. (p. 111) 

eiisl» a comprehender como isto jMMlia ser verdftd^ 
V senr dttnrida o nâo era. Dias preoisOes de Tofemiaw, 
CMdê de' mnitas das* suas moléstias pÒde* julgtrr-se ^ 
memo. M* no seu tempo havia qMm" suspMasse isso? 

Di2em línguas iniraigas, 

goe esta doença ó flcCicia; 
oa pratieos do meu pulan 
À capitulam muLicta (p. 143} 

Qf cOBlutte, de fingir assim, era ní'eilea^i^a^. Elle pn^ 
prio não pôde um dia abafar no peito a* reveladto dls 
verdade: 

Pois que a horrível soiidào 
Aviva a idéa cruel 
Da gaveta* váo sepulcliro 
Do agonisante quartel ; 

E a engenhosa hypocondria 
Mo mette no aidigo empenho 
De jurar, que estou morrendo 
Das moléstias que nâo tenho (p. 107). 

Que deve pois julgar-se da plausibilidade de tantos 
queixumes? 
O que parece verdade é que padeceu sezões: (^ 

Âunos em sezòes gastados (p. 320) 

e que a elias fez dois sonetos, um queixando-se de nâo 
peiep mais com a despeza do tratamento aUmenter: 

Já misero cotâo suo despegado. 
Das rotas algibeiras cristulliiias. . . 

Torna a surgir no simples refeitório 
O flel bacalhau, o vil legume (p. 47) 

1 ) Mi* noi parece <iua as tÍT^ft»« qvumáo mofo, como áú. » Viéu ti» po«la,.n, li, mtv 

' '» JátlAluiMwHiibus fe eiijoi brk^s s« encosta** noir p«nfto«. Cuavfeléiéia d**!» «iWnMÒH»* 

1 oUmaX,' cnju ordanailo algum xmufo nèo rerebM por intairo» par afta-aatav en «^ 



XXIV 

outro ao passeio que dava encostado ao braço do sobri- 
nho, nos campos para onde se mudara, por serem lava- 
dos de sadios ventos: 

Aqui mil votos faço ao oeo propicio, 

8ue me mDde algum dia os crescimentos, 
me passem do pulso para o offlcio (p. 47) 

Doesta convalescença é o soneto a Nossa Senhora, (p. 3) 
Seria em consequência de sezões, ou de rheumatismo 
Cp. 111) que estivera nas Calda^-da-rainha^ das quaes 
(alia nos seus versos? Nâo o diz, nas poesias que dá 
como feitas lá (p. 12, i8, 160, 162, e 896). Quando 
foi alli a primeira vez, ainda era professor. Lá se pran- 
teou do fado de ser mestre de meninos (p. 12); mas se 
nas Caldas commemora este mal, não allude á sua 
doença physica. Lastima sim a vista de males alheios, 
mas dos seus só o desgosto da ausência, por não ver de 
Armida o lindo rosto (p. i8). Apenas na decima ao 
medico Joaquim Ignacio de Seixas, falia em preacri- 
pções medicas, que infringe, porque devendo recolher 
cedo a casa, um dia^ para festejar uns annos, recolhe 
tarde e perde á medicina o medo (p. 295V Também ia 
ao Estoril, mas fallando d^elle nâo é de doença que se 
queixa, sim do. jogo e da bolsa onde chegou a ter ape- 
nas cotãOy porque 



. assim o quiz o seve endiabrado (p. 31) 



Houve tempo, em fins do século passado, quando 
mais entrado cm annos, que trocou as thermes pelas 
praias; e procurou no Oceano o seu Jordão: 

Contra o mal que me tem feito 
Raivosos caniculares 
Me oíTreoc a fresca Ericeira 
Seus claros, sadios mares (p. 77) 

À tendência á tafularia não predominava no poeta 
menos que a de outros divertimentos. Já quando pro- 
fessor dizia : 

SofT^m-me os grandes, sou tafui e moço (p. 45) 

e ainda que parece contradizer-se alludindo pelo mesmo 
tempo ao 

pobre vestido velho e grosso (p. 13) 



. suja nojosa saragoça (p. 54) 



3ue coramummente vestia, não se attribua esta ultima 
eclaração mais que a conveniências do momento. Se 
não escrupulisava em receber o presente diurna vestia 



XXV 

de setim da (lae mais. tarde foi viscondessa de Balse- 
mão, a eatraaa que tinha nas casas d^alguns nobres e 
a sua natural pretenção a parecer bem. o levavam nâo 
só a alinhar-^e, mas também a ostentar quanto podia. 
Mesmo já velho só ia ás assembléas: 

Gom leve, ingleza casaca 
Fina, transparente meia (p. 137) 

Quem visse na satyra da Guerra um como menos- 
prezo de condecorações, chamando a uma d^ellas : 

Inútil fita encarnada (p. 217) 

lhes supporia contrario, ou indifferente, o animo ou a phi- 
losophia de Tolentino. Nâo era porém assim, e se deve- 
. mos crer o que d'elle se lé nas Poesias jotmes e satjf- 
ricas de Lobo, p. 131, era cavalleiro de Santiago, já no 
tempo de professor. 

Nicolan Talentino 

oom dispensa a veneranda espada 

« De São Tliiago traz no inchado peito. 

Pormuiio tempo desejou os distinctivo6.de official de 
secretaria: 

Só me falta, senhor, a fita preta (p. 54) 

dizia elle ao príncipe antes do seu despacho; e depois 
de o obter não pouco ufano se mostra com a 

casaca encarnada, 

E fita preta ao pescoço ip.^» 

mercê que nâo houve como tão inútil que não se dei- 
xasse arrastar também pela onda dos prejuizos do seu 
tempo, (que são ainda do tempo de a^ora, e Deus sabe 

Sor quanto tempo durarão maist). Foi cavalleiro da or- 
em de Christo (p. 19), e não comparecia sem venera 
em festas e saraus (p. 137). 

Quanto era devoto de divertimentos digam-n'o as roma- 
rias, que occasionaram o encontro dos carreiros da En- 
xára (p. 298) — digam-n'o as reuniões por aue esauecia 
todo, chegando até desprezar os conselnos aa meaicÍBa, 
para não perder nas Caldas as de D. Antónia Xavier! 
Tolentinu gozou quanto pôde, e talvez mais do que 
podia, sobre tudo nos últimos trinta annos da sua vida, 
as commodidades que a situação a que chegara, e a so- 
ciedade do seu tempo lhe offereciam ou excitavam. (^ 

i ) c Tolentino puton mui toirriTcInientr o« nltimos innos di loa vida, e. . . sèo tinlM rutlo 
à» «Mtaa. » Yié» d9 p9Ha, p. t). 



XXVI 

Logo que entrou m secretaria deitou sege^ como entfto 
tXMitumavauí ob da sna ciai^se; 

Já uii) bí^Kundo frizAu» 
l^mlumrfa a lingiia Telha» 
í>á HílKXitte comu porte, 
A nntiga meia parelha {\k 72) 

e por muito maus uue os cavallos fossem, o que pro- 
vavelmente o génio enocarreiro do poeta cxaggerava, por 
mais que dissesse que 

os cAo6 atrás do russo 

Esixjram ii'ello a merenda 



-^ Outí dando aos oeue ilhaes, 
Váe marchando triste a aò ({). 61] 

por mais que aifida na entrada doeste seevio affnnffvie 
i{ueúnhsíVãgúrQ906mach98(jp, 131); este goto, estaeMl-' 
modidade não eram menos reaes, e iovejaveisL 

Em tempo, que menos se podia suppor, é que nas obras 
do poeta apparecem mais temidos e coaimemorados os 
credores. Nào admira que isto acontecesse a quetn pro- 
vavelmente vivia sem orçau^nto, e aas tentações <lo 
jogo e das damas se deixaria abysmar! O Taeto é que 
os credores lhe servirano de grande pesadelo. Não po- 
dia mandar com império os criados, porque era 

. . . . rúo de ans poucos de mea» (p. 62) 

coxos muzcs (p. 139) 



Só as benéficas escumas do Madeira lhe faziam es- 
quecer 

As moloetias e os crwlores (p. 119) 

Antevia que por sua morte 

niívoflos credores 

 quem dão curei as diagas» 

Darão a meus frios ossos, 

fim logar de pranto, pragas (p. 195) 

Se intenta a publicação das suas obras, é parai ver der 
eom o tuero d'éllas conjura aquella praga. 

laipertinentss crodoroB 
Largar-mo-hão cm fim a rua (p. 76) 

Pedindo que o livro seja impress» na impresaão regiai, 
ao protector que o consiga promette cumulativo testi- 
munho de gratidão: 



IXTll 

Vazei que por taes favores 

Vamos beijar>vos a mâo, 

Ku e os meus dois mil credores (p. 81) 

Sente curiosidade em ver aquelle mealheiro. E se com 

altiva luneta 

Nos piscos olhos traidores 

Nâo conhece uns tantos homens. 

Principalmente os credores? (p. 84) 

Abominável idéa que parece rejeitar quero desde 
tanto tempo dissera : 

Sou infeliz, mas honrado j 

Dom acima da fortuna, 

Por isso o nâo tem levado ! (p. 180) 

Inclinado a amar, Tolentino deixou nos seus versos 
vestigios ora de soffrimentOj ora de alegria. 

Se nas Caldas suspirava por Armida, que, quando tor- 
nasse a vél-a^ lhe arrancaria pranto de alegria (p. i8); 
no mesmo sitio, effeito talvez de animo inconstante, en- 
contra uma Marília bella^ cujos Hudoê olhos (diz) 

Afugentaram 

Os males mens (p. 162) 

Entregando-se ás prisões dos bellos olhos de Maroiá 
(p. Si) ; queixava-se comtudo da sua ingratidão^ que 

A natureza severa, 

A quem deu olhos d'um anjo. 

Deu o peito de uma fera (p. 156) 

ObstinandoHse em combater a esquivança de Laura: 

Ou eu hei de vencer Laura, 

Ou me dará Laura a morte: (pi. 159) 

ratificando o voto e a paixão que tinha por certa voz, 
que cantando encantava (p. 310^; accusa também com 
Boagòa o perjúrio de Lilia (p. 164), e a ingratidão de 
Nerina (p. 231). 

Como em tantas outras cousas o poeta também sejper^ 
mittia nos amores contradicçâo e inconsequência. Pen- 
saes que está emendado, por dolorosa experiência de 
amor, o que diz: 

Já estou muito escaldado, 
lá de aguas firias hei medo 

Cftoro 08 mal gastados annos 

Em que servi tal senhor (p. 222) 'ih 



Kurtei-te ns8Ú8 a vontA>ie; 

Em vãos suspiros e em queixaâ 

Me levaste n mocicia()e \ 

E nem ao menos me deixas 

Os resUis da curta edadcr (p. 223) 

Não; que até nnciào pesado^ debaixo de murchas cans 
por uma Mareia seductora nutre altivos pensamefUosf 

Vejo a quebrada madeixa 
Já tornada em gelo frio ; 
Tudo o tempo me levou, 
Mas nfto me levou o brio (p. 148) 

Mareia que em alçando os olbos, 

Mil seitas n'e8ta alma crava (p. 150) 

DíEclbe que nâo se assuste 
De meu cabiíllo nevado ; 
Jura-lhe que não s&o annos, 
Mas i)ena8 que me tem dado ; 

Que a causa das minhas rugas, 
E o seu desabrimento ; 
E vae da minha velhice 
Fazer*me um merecimento (p. 151) 

Existência passada na provocação e locU dus amores, 
foi uma verdadeira existência de poeta. A velhice nâo o 
demudava; o tempo não produzia estragos que a arte 
não podesse reparar. Condemna-o aeatea? (p. 123e256)e 
Não teme que uma 

mar rafa loura 

Lança uni veo sobre a g:uigreua (p. 250) 

Sue importa que a côr grisalha 
d infame o rosto ronceiro, 
Se cm quanto da Europji ralha, 
Leva fallador barlMiiro 
Os meUs annos na navalha? (p. 257) 

r- Q»ien>s salwr qu(?m é vellu»? 
E velho (^uem o |>}irece (p. 256) 

.... em est^uido (tscnnhoado, 
Nfto me troco ^íor ninguém (p. 259) 

Mas ao conceito, que de. si formava, corresponderia 
eçual fortuna nos amores? Seria elle o ditoso, celebrado 
n aquelle projecto de epitaphio: 

Toiio o amante animo colire, 

Vendo que este foi feliz, 

Que além de velho era pofrret (p. 2fi9) 

E que felicidades seriam essas? Como ad<iuirídas? 
Com a lyra não, que nunca com ella conseguiu abran- 
dar corações: 



xux 

Os meus versos malfadados 

São com homens e com damas 
Bgualmente desgraçados 

Quer em altares de amor, 

Quer no templo da fortuna (p. 287) 

Sempre, lyra infeliz, sempre tocaste 

A fechados ouvidos; 
Feminis corações nunca amolgaste 

Com teus echos sentidos; 
Em vfto louvavas, junto a Apollo louro. 
Uns alvos dentes, undcabellos de ouro (p. 360). 

Que haveria n'elle mais poderoso que a lyra? Provar 
velmente o luzenU tvranno, que do muodo vence tudo! 
E Dão é seni algum Tundamento que o suspeitámos de 
quem disse: 

Dinheiro, invicto dinheiro. 

Só em ti é que eu me fundo (p. 132). 

O poeta tentou todos os outros meios, e concluiu co- 
mo Dào podia deixar de concluir. 

Já que de ouro wfres cheios 
, Nunca pude a Nize dar. . . (p. 320) 

Já de palavras Niw^ desííonlia, 

Só erC, ou em dinheiro ou em penhores. . . 

Poz termo a bel la Nizc aos seus agrados, 
Vendo esta bolsa condemnada a cobres (p. 50) 

A experiência o levou a reconhecer que tinham pas- 
sado 

os dias beinaventuraílos 

(Quando \)ot oiro o amor se nâo vendia) 

Em que só almas grandes, peitos nobres. 
Eram do deus de amor agasalhados, (p. 50) 

Foi por isso que tão seguro do que aconselhava, pôde 
dizer a outrem: 

So em roda de loiínis nymphas 
Giram em torno teus ais,* 
Em quanto lhes deres versos 
Acharás sempre vcstaes: 

Fallo como exp'rimentado ; 
Fallo ajiu peito sincero ; 
Pôde uma vara de fiUi, 
Mais que a Iliada de Homero (p. 131) 

Experimentae, dizia elle aos outros (sem duvida de- 
pois ae ter por si experimentado): 

encolhe um paralta 

r.f)rj>o P8hpltn, ppma t^w.' . . 



Dô bilhetinho dúcrato. 
De uma novella furtado : 

Põe da outra parte um ginja 

com a penna na mao. 

Assignando vmte letras 
Para Londres e Amsterdílo 

Aposto quo as damas todas 

Cuidam que o velho ó lapido t (p. 132 e 133) 

São verdades que só se vêem depois de desenganos. 
E estes clamores soltados contra o amor mercantiL aáo 
porventura consequência do doloroso balanço dado a esí* 
xa, aoe tão credora se achou áquella conta, em momen» 
tos ae reaccionária penúria! 

Se a esta origem de penas e despezas juntardes as 
consequências do jogo, ficarão reveladas as causas da 
complicação que envolveu toda a vida de Tolentino. 

Deve o jogo causar divertimento (p. 40) 

dizia o poeta; mas nem sempre os procurou d^essa ín- 
dole, deixando-se arrastar da paixão d^um, do qual 
melhor podia dizer o que disse do whist, que: 

endiabrado 

ISeUe as serias cabeças a tormento, (p. 40) 

Declarando que só o tentava: 

Bisca coberta, truque fraudulento. 

Que sâo os jogos com que fui criado (p. 40) 

encobria sua verdadeira tentação, revelada claramente 
n'outras poesias. Só a banca lhe era idolo e abysmol 
Dizem, que assim como perdeu, também ganhou mui- 
to a eíla; mas os documentos que restam, mais provam 
maus tratos, que favor da fortuna. 

Para ganhar não lhe valia conhecer do jo^, como 
se deprehende da concisa mas elegante descripção que 
d'elle faz: 

Em quanto um diz que lavre, outro que conte. 
Sem valerem os óculos do olheiro, 
N'un{a paz já vencida, um ponto afoito, 
Subtilmente lhe encaixa duas de oito. 

O p(>ritQ lianqueiro nfh-onta os medos, 
Tendu nas mãos em que se vá vingando ; 
Com cuspo milagroso ungindo oe dedos, 
Váe destramente as cartas recuando, (p. 277) 

Se devemos crer que não é força de consoante, o que 
n^outra parte diz, era obstinação sua jogar nas menores, 
inda que fosse pouco feliz com ellas: 



Qw importa que ha annos ande 
Sempre a perder nas menores, (p. 310) 

Nio vemos qoe o poeta commemore ganhos do iogo^ 
len&o em tempo em que ainda era professor, e nzera 
«ma noite banca em casa do marquez de Angeja: 

Veiu a fortuna ao lado da riqueza 

Doirar-me a banca, qne eo armei a medo. (p. ft) 

O qoe se vé, mui repetidos, sào clamores contra as 
perdas d'estc banqueiro infeliz (p. 14), e protestos, fa- 
cilmente quebrantados, de não josar mais. Pretendeu 
desforrar-se de mil modos, do mal que o jogo lhe fa- 
zia. Triumpho ephemero era para elle descarregar o 
azedume do infortúnio sobre a jnemoria do inventor da 
corríola t 

o coracJbo com ferro temperarlo 
Tinha o tluro inventor da nanca injusta; 
Jogo fatal; gue tantas penas custa, 
B que tem fartas liolsas despejado . . . 

Já lá ha de ter dado conta estreita 
Quem inventou a triste corrioJa, 
Que a cega mocidade a perder deita. (p. 41) 

Os protestos c|ue fazia de nào apontar mais á banca 
eram em si tão inconsistentes, corno elle mesmo confes- 
sa, fallando de eguaes promessas d^outrem: 

Que tomas a apontar, prometto e attesto; 
One eu, pnssaro Lisnau, nno garoto. 
Depois de já ter feito o mesmo voto. 
Jogo o que trago, e jogarei de resto . . . 

Ainda dos ardidos jogadores 
Vfto as pragas suhiniio sobre o vento, 
J.á tomam pani o jogo os taes senhores,' 
E caso em qne não liga o juramento . . . (p. 42; 

ajoelhado ao vencedor banqueiro, 

(lom mil votos foraiaes, mos sem virtude . . . 
Chegam as horas, resistir nôo pude . . . (p. 43) 

Quando é que Tolentino deixou de j(^ar? Quando 
as perdas o desesperaram de todo, diz ellé: outros di- 
zem que quando pôde restituir a muitos as sommas que 
lhes tinha ganho. < * A segunda supposição é menos ve- 
rofiuil. Concebe-se como a constância e effeitos geraes 
e particulares dos revezes, cheguem um dia a illuminar 
o espirito do jogador, e dar-lhe força para renegar o 
vicio: mas custa a conceber animo tão melindroso, que 

t ) fl . . . . Gomo tivetM uma ivlaçtn das pnicws, a qamn tinha g«iilM4o ffiwidM taniDU, 
príp^ipalmtnte a Ir»(l4't, roandoo (eerca d^ IHOI) iinmHiitam«nte pagar-lbc*. e nanca mait jo- 
9M •. Tté» idto pêeta p. {R. 



XUIl 

tratando de virar costas ao jogo, Dão carasse do sacri- 
fício que ia fazer, sem compensação pelas perdas qoe 
elle próprio eiiperimentára, e mandasse restituir as som* 
mas que ganhara, e que por serem mais consideráveis 
conservava na memoria. Percebe-^e melhor que o rigor 
dos antecedentes c o temor dos consequentes, afastasse 
Tolentino da banca. Que dizia elle quando um dia, al- 
lucinado pelas perdas, fez propósito, que não manteve, 
de reooUier-se ao Varalojo? 

. Fatal, ritfido Imoquoiro, 
Motivo rios ini'us pcziires, 
Herrtein» fio lueu ninheiru . . . 

Nâo \e fies em vi?ntura ; 

Suem joga tem o meu fim , 
utreiíi te dará o8 gostos, 
Que til me tens dado u mim. (p. 154-155) 

É mais natural que fossem lições doestas que por fim 
lhe aproveitassem, c<mcluindo e reconhecendo qae a 
Fitrtuna era com elle impia. e podia recrudescer a hos- 
tilidade, sem lhe deixar outro lenitivo que a esmola do 
caldo nas portarias dos conventos, ou a extrema perdi- 
ção de saltear as estradas: 

Já puz D»s luas iiiâos grossoe tostões; 
Mas se oiu paga me das cànçados dias. 
Mais nào quero provar-le as sem-razôes; 

Que aos que apontam por fim tu sempre envias, 
Ou com fHrn na mâo para os Pegões, 
Ou com tigela para as portarias, (p. 43) 

É admirável que o homem que tanto se queixou do 
amor venal, que tanto experimentou os sobresaltos do 
jogo, não procurasse remédio contra isto no casamen- 
to, cujo estado pintou com tantos louvores. 

Puro amor, limpa verdade, 
Só entre esposos estão; 
Desoe a ellos a amizHde; 
Traz-lbes oo'a santa uniâo 
Uma só alma e vontade, (p. 210) 

Se além da afleiçâo verdadeira e dos dotes geralmen- 
te requeridos para tornar a companhia (indissolúvel) ^a 
mulher, suave e appetecida, o génio do poeta requeria 
ainda para a sua alliança qualidades superiores, perma- 
necendo celibatário por não as encontrar, não o afir- 
maremos, mas alguns podem ter occasiâo de o suspei- 
tar. 

Se é verdade o que, dizem, respondeu a um amigo que 
o interrogara acerca de .«^e nào ler casado, granae era 



XXXIII 

a idéa que formava da discrição e virtude de sua ir- 
mã D. Joaquina, e não menor a da raridade doestes do- 
tes, exigidos por elle na mulher que esposasse. «Por- 
Íue não é permittido casar com irmãs ^) era a razão de 
blentino para acabar solteiro. (' 
Até á entrada dos franceses em Portugal morou na' 
Junqueira, porque a secretaria era na calçada da Aju- 
da. Mudada esta por então para o Rocio, não Joi sem 
custo que o poeta transferiu a residência para os Car- 
daes de Jesus para ticar mais próximo da repartição. 
Asseveram que a invasão estrangeira Gzera profunda 
impressão no animo de Toientino, com o que talvez se 
lhe abreviou a morte. Criado, e costumado a viver n'u- 
ma sociedade de tão singular e nacional aspecto, não 
admira que aquelle espirito padecesse muito com a trans- 
formação que nova, inda que ephemera corte, operava 
nos hábitos da vida externa e também promettía reali- 
sar nas ideas. De dia para dia cresceu no poeta o pre- 
domínio da melancolia, e diminuiu a espontaneidade do 
gracejo. Adiantado em annos, acurvado ao pesadelo 
enorme de que não havia já esperar redempção e inde- 

Endencia para a pátria, não poucas vezes só encontrava 
jrimas furtivas para mitigar magoas que em silencio 
o trabalhavam. Cnegára a occasião de dizer a tudo o 
ultimo adeus, ás festas, ás assembleas, ás danças (^ que 
tanto amara. Nos últimos três annos viveu concentrado 
e retíradissimo. As sezões da mocidade tinham legado 
á velhice uma aggravada debilidade de estômago. Não 
havia já idolatrar oons pratos! N'uma chavana de cho- 
colate amargo, com uma torrada sécca, descontava ao 
ahnoço o antigo e cantado epicurismo 1 Um passeio pelo 

Íuintal afugentava as memorias das passadas romagens! 
ím oSicio de Nossa Senhora, que ainda então os cavai- 
leiros da Ordem de Chrislo (em que era professo) o re- 
savam, era para elle a ultima occupaçâo domestica da 

f ) Vida éo poeta, p. 9. 

t) •Quando moço, dançou com mnita graçu, p era hahil no jogo da mpada.» Viénéopo- 

T«iBM alguma davida no qae toca ao Jogo da r»paila. Qnem á npada ehamua rrufntn, (p. f91) 
^MM tanto a ridículo a mett«, e á paixão da gamra na satyra drate non« (p. fl4) ; qnam, a pro- 
posto do ancontro com os carr«iro« da Enxara, explicitaroenU» declara qnc nio sab« mover et- 
fida ; Bto deixa etmeiUar a alflrmatlTa do seu bingrapho. 

Em quanto no duro cbio« 

Meu companheiro arquejava. 

Eu mtiito humilde esperava 

Também a minha raçio ; 

Bem m« lembrou que esta acçlo 

Deslustrava a minha gloria ; 

Mas nlo pretende victoria 

Nem sabe m^ver espada 

Máo ha annus costumada 

A dar só eoro palmatória (p 999) 

r 



XXIIV 

manhã, antes de entrar na sege que o conduzia á se- 
cretaria. Depois de luctar horas, sentado, com o peso 
do jantar, frequentava alguns conventos, onde com fra- 
des doutos se entretinha em cousas condignas. 

Atacado por uma vomica violenta^ percebeu bem qaaa- 
do se lhe aproximava o termo da vida. Recebidos os Sa- 
cramentos da egreia, expirou nos braços de sua irmi 
D. Joaouina a 23 de juuno 1811, <> contando quasi 70 
annos ae edade. 

Foi enterrado no mesmo cemitério da freguesia das 
Mercês, onde seis annos antes se sepultara Bocage, fi- 
cando, talvez» perto um do outro, para qrie os ossos de 
ambos tivessem o mesmo destino de se perderem, confun- 
didos (^ em posteriores, tumultuosas exhumaçòes. 

Tolentino, não obstante dizer do seu caracter moral: 

sou homem duro, 

K relioldo às leis primeiras; 
Que uão clioru nos mais lioinuns 
As desgraças verdadeiras ; 

Que insensível vi no circo 
Burlesco neto arrastado 
Deixar com a rotíi cabeça 
O terreno ensanguentado; 

Que vejo com olhos secoos, 
Com firme semblante inteiro, 
Fugii^me n'uni pAn*lim 
O meu ultimo dinheiro: (p. lOò) 

parece que esta feição de egoista insensível a desgraças 
alheias, não era absolutamente verdadeira, antes «homem 

de boa moral e muito religioso quando pôde soccon 

reu a quem necessitava, e algumas vezes nao soccorreu 
com pequenas quantias.» (^ 

Dotado de memoria prodigiosa, mni amante de m«- 
rica,* frequentava por isto com assiduidade a opera. ' 
Bra de estatura alta, cheio de corpo, rosto redondo, pei- 
te clara e rosada, olhos pardos, nariz regular, bocca 
larga e engraçadissima, dentes bellos, andar nobre e 

[)ausado. (^ Sc toda a diligencia que se tem posto |)ara 
he descobrir o retrato, se algum dia tivesse existido, 
tem sido infructuosa, porque a final se descobre que 
nunca se retratou; aquella descri pção^ que da figura 
do poeta se conserva^ bem persuade que não Mra des- 
favorecido de dotes pessoaes. 

1 ) J<wé Maria da Coita t. Silva {RetUta Dnirtn^ Uilbonetae, ti, 473) erradamente diise 
qve (allectra nu anno de 1810. 

i > c . . . não «e pondo «iqnal algun sobre vua lepritnn ; o ({Qe fes que ae i»Ao acloMaeaa oe 
■eas OMoa quando o insiyne litt(>rato o sr. Antonto Feliciano de Caatilho, .parente do poeta iptr 
ter sido cuêado com uma ntbrinhit df Tulentino), Oi ut-omniQ, para m tran»ferir, e laser repoB- 
Har decentemente no ceniiterin t\m Pratrn-s > Yidn do pwftn, p. f 4. 

'J » Vida do ftoeií y I i 

4 ; ILiii. p Ii4. 



II 



Com razão dizia, não ha muitos annos, o sr. José Fí^ 
liciaoo de Castilho, eacctaado a critica das obras d'uin 
dos luais xuotaveis engenhos poéticos doesta terra: «£' 
sestro nos que se dão ao estudo de um auctor, apode- 
rar-se por elle de certa parcialidade, ou seja de admi- 
ração ou de censura, com que o juizo completamente 
se desvaria: a catarac(a, que embarga os olhos da ra- 
zão, mal permitte divisar, por entre espesso nevoeiro, 
o ode outros vêem, como o sol do meio dia.» (^ 

Propondo-uos apreciar as obras, e a feição poética de 
Tolentino, desejámos evitar ambos os parceis, por en- 
tre 08 quaes navega a crítica. Felizes, de nós. se nuder- 
mos sair do passo estreito destas Scylla e Cbarynedes, 
«em tocar nas syrtes que por todos os lados nos amea- 
çam. Procuraremos a virtude entre os extremos. 

k historia litteraria do mundo apresenta exemplos 
de poetas celebres em vida, que depois de mortos caí- 
ram em total esquecimento; mas poucos haverá do que 
tem súccedido a Nicolau Tolentino de Almeida, celebrado 
na vida e na morte, então e sempre, a despeito do pe-, 
queno legado poético que nos deixou, inferior talvez 
« tâo grande reputação, e á escassa liçáo popular que 
ba d^essas obras, que poucos terão lido por inteiro, mas 
em que todos faliam. 

A^uma cousa deve por certo haver na bísloria do poe- 
ia e do seu tempo que explique tão singular pbeno- ' 
ineno. 

Concebe-se que Tolentino pudesse, effeito 4e jCÍt- 
cunstancias, arrebatar os contemporâneos ati ao pooto 
de lhes merecer tamanha exaltação: concebesse que o 
oratoriano padre Joaciuim de Foyos, como elle pi*ofes- 
«or de rhetorica, elevado depois a altos cargos, a cen- 
sor régio do desembargo do paço, a chronista da casa 
de Bragança, a árcade, a director da classe de litleratura 
da academia real das sciencias, etc. íque, mais velbo 
que Tolentino, ainda lhe sobreviveu alguns niezes, fal- 
lecendo no mesmo anno, 1811) dominado pelas impres- 
^es geraes do seu tempo, e porventura pelo efleito de 
-muitas peças poéticas, que os contemporâneos conhece- 
ram, e que por motivos particulares nem as conservou 

1 ) Soíkia dn vida g 4tbrf>a dir M. M. Ihuboaa du Bocage (abraiigetuto os vol. 2Í-35 da 
Lbr»rin CUttíim Vorthqurrri) xii», Iir>. 



XXXVI 

a estampa, nem vieram até nós; chegasse a dizer 
moitas vezes: «que nos tempos modernos não conhecia 
em Portugal senão dois poetas^ eme merecessem o ti- 
tulo de grandes, a saber: António Diniz da Cruz e Silva, 
e Nicolau Tolentino de Almeida.» <* 

Nenhum escriptor em verdade conquistou n^aqaeile 
tempo mais admiração e apreço. Os mais doutos cobríam- 
n'o de exaggerados louvores: entre todas as classes se 
liam, se decoravam, se disputavam copias dos seus versos 
(p. 123). que até 1801 só corriam manuscriptos. Poeta de 
salões, divertindo e lisonjeando um como partido, á custa 
das torturas d^outros, em quanto a scena permanecia, 
em quanto os actores eram conhecidos e o publico o 
mesmo, podia o fogo da admiração e da popularidade 
conservar*se ateado; mas depois aue o juizo noaldaíiD- 

Sressão patenteou a todos aquella nia^a collecção de 
ois voluminhos, provavelmente despojados dos versos 
mais festejados pelas boas e ruins paixões do tempo glo- 
rioso? depois que desappareceu todo aquelle auditório 
sempre prompto a applaudir o látego satyríco? depois 
que as gerações se sumiram e a sociedade padeceu 
tão amplas transformações? como pôde o poeta conti- 
nuar a merecer, se não o mesmo culto animado d'ou- 
tr'ora, por certo a mesma admiração nacional? É facto 
custoso de explicar. 

A maior parte das poesias que de Tolentino se cob- 
servam, são de tempo anterior á sua mudança de for- 
tuna e despacho de official de secretaria em 1781. De- 
pois doesta epocha ou pouco compoz, ou produzia mais 
Eoesias de natureza demasiado pessoal, que supprimia. 
liminuindo o commercio com as musas quando se 
via com meios para viver em mór tranquillidade, mas 
continuando, pelo que já fizera, a ser festejado e estimado 
pjela espécie ae fascinação que exercia, Tolentino nare- 
cia não ter nascido poeta, nem ser dominado peio in- 
vencível amor da arte, aue impelle os homens de gé- 
nio para a composição. <^ Quem sabe se o procria tcs- 
' timunho do poeta o quer confirmar, chamando á poesia 
linguagem da mentira (p, 122), e só attribuindo as tris- 
tezas da vida, que queria suavísar, as suas distracções 
poéticas? «Os tristes dias (é o poeta quem falia), de 

aue vejo ir cheia a melhor parte cia minha vida, me in- 
uiram insensivelmente o amor da poesia; em guanto 
ordeno as minhas trovas, fujo de mim, e esqui vo-me 

1 ) lUvtíia Univtr$ot LitboHtMtf. \l, 47t. 

i \ Cita »» Sil.n. na Bfu$U. Vnvfiy.l l.'thoiun%*, vi. 473. 



xxxvu 

com ellas ao peso dos meus cuidados: a imaginação can- 
cada de objectos que a affligem, busca, para distrahir- 
se, o commercio das musas; e os versos que alsuma 
vez fizeram rir os ouvintes, tinham a origem nas la^i^ 
mas do seu auctor. » (p. 221) Se isto deve crer-se, sin- 
gular natureza era a de Tolentino, que podia sacar da 
tristeza própria elemen(os de cómica alegria para estra- 
nhos; e não admira que quem, pelo seu tão extraordi- 
nário temperamento, não tivera outro incentivo para 
ser poeta, deixasse de poetar quando os dias se lhe des- 
annuviaram. 

Affirmam que Tolentino tivera muita lição dos clás- 
sicos portuguezes, principalmente dos chamados qui- 
nhentistas, que lhe tinham servido para afinar o gosto : 
({ue tivera grande conhecimento da litteratura latina, 
italiana, hespanhola, e franceza: que fôra especial obje- 
cto de seus estudos a historia portugueza, e em geral a 
sagrada e profana: (|ue lhe não Taltavam conhecimentos 
de geo^rapnia, de historia natural, e elementos das ma- 
thematicas. (^ Entretanto as suas poesias não abundam 
em grandes referencias a poetas antigos ou modernos. 
Se exceptuarmos os mestres da eloquência Cicero e Quin- 
tiliano, os poetas gregos e latinos Homero, Pindaro, Vir- 
gílio, Horácio e Juvenal; o francez Boileau; e os por- 
tuguezes Bernardim Ribeiro, Francisco de Sá de Miranda, 
António Ferreira, Diogo Bernardes, e os seus em parte 
contemporâneos Domingos dos Reis Quita, e Pedro Antó- 
nio Corrêa Garção, a mais ninguém allude, com exclusão 
absoluta d'outros auctores do seu tempo, ou do passado. 

Desde que Tolentino teve occasiâo de mostrar-se, e 
fazer admirar algumas de suas poesias, adquirindo à 
sombra d'isto entrada n'algumas casas nobres e predo- 
minantes na politica, pôde dizer-se que andou sempre 
em sociedade escolhida, cuja protecção lhe permittiu 
ver-se, quando contava 41 annos, na posição melhorada^ 
e invejada que conservou 30 annos, até ao fim da vida. 
É tal a falsa idéa que da sua sorte se tem formado, pe- 
los queixumes de que, em grande parte, se compõe as 
obras do poeta, que escriptores modernos, alias dis- 
tinctos por muitos e raríssimos dotes, tem estigmatisado 
a socieaade d'aquelle tempo por ter condemnado Tolen- 
tino ao desamparo. 

A sociedade deixou mendigar Tolentino e Bocage, 
diz o sr. José Feliciano de Castilho. (^ 

1 > Vidn do pofta, p. t9. 

•2 ) Livraria Clti$sica, xxil, 7B. 



XXXVIII 

Sem curarmos (te analysar até qac poiito a extim^ 
são e accusacâo sAo justas pelo que se passou coni Et- 
mano, pede a verdade que se diga que sào absolutamente 
destituídas de fundamento pelo que respátam ao saty- 
rico cortezào. 

As mesmas impressões levaram o sr. Rebello da Silva 
a egual, immerecido compadecimento, t Cousa trislef 
Os cultores do verso, as vocações sinceras, (dir <*) nfto 
podiam sul)sistir, senão seguindo um doestes dois cami* 
nhos: — ou abdicar a arte por qualquer ofiBcio rendo* 
so — ou arrastal-a mendiíja e supplicante como To-> 
lentino, como Elmano. conio tantos outros, pelos serões 
dos aulicos^ e pelas niesas dos opulentos. Se alguns 
baixaram menos, não se creia por isso, que se enver* 

Í;onhassem de estender a mão aos benefícios ; todos o 
áziam sem pejo, e sem rebuço, excepto os abasta^ 
dos». 

Tolentino andt)u muito pelos saraus e meaas de podia- 
rosos; e esteve sempre promplo para receber e mesmo 
pedir benefícios. Kntretanto se arrastou aos pés dos gran- 
des a musa mendiga e supplicante, não foi por muito 
tempo, e se persistiu nVstc nieio não foi para subsistir. 
São bem notórios os esforços que fez para abandonar o 
segundo caminho e sair victorioso no primeiro, alcan^ 
çando eflectivamente o grande esteio d'um emprego im- 
portante. 

Adscripto a uma sociedade de fidalgos, melhor diría- 
mos a uma ou duas familias socialmente predominantes, 
não ha d^outras relações ineiiioria nas suas poesias. Se 
conviveu com todos os (jrandes poetas do seu tempo, que 
não eram poucos ^^, a iienhuifi menciona nos seus versos. 
Só, por excepção, escreve a Domingos Pires Monteiro 
Bandeira, (p, 107) recordando-lhe o trato e fomíliarn 
dade antiga e provocando-o a que lhe dé um jantar. Se 
teve relações com todos esses confrades em Apollo, o co- 
ração paralytico nos louvores dados a fidalgos em conso* 
nancia e desconto de intermináveis peditórios, costumá- 
ra-se a permanecer indiUerenie e cerrado ás emoções c[ue 
trato litterario costuma produzir; e passava insensível 
pelos conlenjporaneos, sem deixar provas em contrario^ 
sobretudo n'um teinpo em que tão commum era o car- 
tearem-se poetas. É egual o silencio que acerca d'eUe 
guardam os poetas seus contemporâneos (salvas duas 
breves allusões de Elpino Duriense e Filínto Elysio) o 

1 ) Memoria bioçmphica e liltemrUt áetrcn ir Manorl Sluria Barboên rfu Botnfe, p. 61-63. 
S ) Manoel Maria de Barbosa da Bncauc (arl. ti). 



XXXIX 

que parece continuar que, se Toleatino com eSeiío en- 
trou DO seu trato intimo, houve da parte d^elle ou de 
ambas as partes> tão pouca cordialidade^ ou motivos de 
separação ainda maiores, que de todo desappareceram 
os vestigios d'aquelle commercio poético. 

Dizem que «as sociedades de poetas, e as acade- 
mias que n'aquelle tempo se estabeleceram, o convida- 
ram para :»ocio; mas a Iodasse recusou; apenas em 1786 
àcceitou a nomeação de sócio correspondente da acade^ 
mia real das sciencias de Lisboa.» (^ Ha aqui algum 
erro, e vehementes indicies contra algumas doestas 
asserções. 

Nào sabemos d'outra prova maior, que aquella asser-* 
çâo recente, a respeito do convite feito a Tolentinp e 
sua escusa a entrar na Arcádia ou Nova-Arcadia. O jui^ 
zo que põe na bocca do barbeiro-poeta, na satyra o Uir 
Ihar (p. 279-281), sobre a renascença da poesia portu- 
guês^ (tentada e em parte realisada por aquellas saciei 
cUdes), vernaculidade de termos, correcção métrica, 
elevação de pensamentos, predominio de odes, bem deU 
xa ver, que se insurge contra as tendências recem-ma- 
nifestadas, oiais talvez por despeito pessoal, e natural 
impedimento para hombrear com muitos dos nossos |H^ 
etas, que primavam nos géneros mais mimosos. Assim 
mal se compadece com aquellas opiniões, que não se* 
riam então segredo, aue as sociedades poetiras fossen) 
soUicitar cooperação de quem seguia trilho tão diverso 
e por assim dizer tão singularmente espinhoso. 

Por mais que se diga, Tolentino deveu viver mui se^ 
grelado da sociedade dos vates contemporâneos. Se 
muitos, e não dos menos notáveis, se não envergonha- 
vam de pousar em botequins, e frequentar outeiros; 
poraue clamava Tolentino tanto contra isso, menospr^ 
zando os que levavam aquella vida, que as opiniões ge- 
raes e costumes do tempo estavam bem longe de consi- 
derar deshonrosa? Não profano ApoUo, dizia com vi*- 
sivel sobranceria. 

Pelas locens de bebidas, 

Por oi toiros de HanfAnna. (p. 89) 

E ainda que parece contradízer-se quando a propósito 
de Crescentini, diz: 

Se eii hoje fosse nos oiteiros 
Onde já tive elogios (p. 106) ; 

1 ) Vida do poeta p. 15. 



XL 

não pôde duvidar-se que houve causa, por mais ou me- 
nos tempo latente, que o não deixou combinar bem com 
os outros poetas, ou os separou durando certa epocba. 

Quanto á entrada na academia, o processo, os fins, 
eos efieitos eram e foram outros. 

A academia real das sciencias de Lisboa, nascida á 
sombra do novo reinado de D. Maria i, fundada por um 
parente da rainha, protegida pelo governo e pela corte, 
era o alvo em que punham olhos saudosos os entdo 
mais notáveis nas sciencias e nas letras. Companhia, na 
maior parte composta de individuos com titulos legíti- 
mos para merecerem essa honraria, era opinião com- 
mum que a academia agraciava aquelles a quem abria 
as portas, e muitos o desejavam em vão. N'este caso não 
seria Tolentino sollicitado mas candidato. Porventura á 
protecção dos académicos conde de São Lourenço e 
marauez de Alegrete foi que Tolentino deveu ser no- 
meado em 19 de janeiro 1780 H sócio supranumerário 
d'esta corporação scientifica, e em sessão ae 6 de dezem- 
bro do mesmo anno membro da commissão para a com- 
posição do diccionario da lingua portugueza. 

Seria esta distincção testimunno de merecida consi- 
deração ás letras do professor de rhetorica e poética? 
Seria meio estratégico procurado para condecorarem o 
,poeta com um titulo, que, pelo que iá valia na conside- 
ração publica, podia aplanar dimculdades na solução da 
velha pretençào de Tolentino, justificando com elle me- 
lhor a graça soUicitada? É mais para crer a segunda que 
a primeira hypothese, como os factos subsequentes tal- 
vez queiram confirmar. 

O despacho do poeta appareceu mais depressa, que 
a justificação dos motivos suppostos para as distincçôes 
académicas. 

Não ha memoria de que Tolentino prestasse a me- 
nor attenção ou collaboraçào aos trabalhos da academia, 
e tanto é verdade ter assim procedido, e incorrido na 
pena de exclusão que os estatutos em taes casos com- 
minavam, que o seu nome, que apparece na lista dos 
sócios d'aquella corporação (publicada annualmente nos 
Almanaks de Lisboa,) até ao de 1788, d'ahi por diante 
desapparece para sempre. 

Acerca dos méritos geraes, e da opinião em que To- 
lentino era geralmente tido, em vão procurariamos do- 
cumentos contemporâneos seus que nol-o dissessem, 

1 ) Como Já Timot, na Vuin do poeta, erradamenU» t* pót eaU etricáo cu 17M, • te lb« eba- 
ma êocio cormpondêHt*. SttpraHunttrario era da claaM dos «/f^Sprfiroa. 



XLI 

isentos de paixão. Só depois da sua morte se encontram, 
e se podem considerar menos suspeitos. 

Bouterweek considera-o poeta mui decididamente ca- 
racterisado por espirito nacional. (* 

Almeida^Garrett pensa do mesmo modo; chama-lhe 
eminentemente nactonal no seu género, e o « mais ver- 
dadeiro, mais engraçado, mais bom homem de todos os 
nossos escriptores. » t^ 

Ignacio José de Macedo, que o cita muitas vezes, cha- 
mdi-uie faceto. í^ ^ 

O sr. marquez de Resende, sempre chistoso i^jovia- 
lissimo e popular, <^ 

O sr. José Feliciano de Castilho, inimitável e porten- 
toso de natural, í^ 

José Maria da Costa e Silva, não obstante os repa- 
ros críticos que lhe faz, confessa que elle abunda de 
bons ditos, e pinta ás vezes com energia e viveza, ^'^ 

O sr. António Cardoso Borges de Figueiredo, diz que 
as musas o favoreceram em muitos géneros de poesia. ( ^ 

O sr. João Augusto Amaral Frazão diz que «as 
obras de Tolentino. . . abundam em pensamentos agu- 
dos, em máximas de moral, e são ornadas dos mais bel- 
los, enfeites da eloquência.» (^ 

Acerca da pureza de sua linguagem nem todos pro- 
fessam por ella a mesma admiração. Ha quem lhe cha- 
me mestre da língua materna, que escrevia em pura 
linguagem portugueza: (*^ ha quem diga que a lingua- 
gem familiar, e sempre corrente e elegante que appare- 
ce em seus sonetos, odes, epistolas, e outros géneros, ha 
merecido os applausos dos eruditos: < '* mas todas estas 
vagas asserções, carentes de provas e demonstração 
que as auctorise, pedem justa reducção aos termos em 
que se exprimiu um poeta critico contemporâneo nos- 
so. «A linguagem de Nicolau Tolentino (dizia elle) é ge- 
ralmente correcta, mas pouco elegante.» t*^ 

Um dos méritos mais relevantes do poeta é ler dei- 
xado nas suas obras photographada, se assim o pode- 
mos dizer, a sociedade do seu tempo, tão cheia de preoc- 
cupaç(yes e de ridiculos, como a de noje, muitos dos quaes 

I ) HUtory of êpunish and jtortuijwrte /í/uiiilur*", ii, áH4 

i) Rutqiiejo da histuriii da pofsia (* limiua |Kirlut|Uc/a, qo Purmisu Lutiltmo, l, LXlil. 
,3 ) Velho Liberal do Douro, ISX\, p. -Í7I. 
4 ) Panorama, xiv, i. 
5i Ibid., Ill, ^13. 
6 ) Livraria CUtuica, xxv, M. 
7 ) heviêla Vni%-rr$'d Lisbunfntr. vi. 49tH 
8) Bottfuejo hittorifo d»% litíeralunt cUasUa, 4." fd. p. IW) 
9 ) Vida do porta o. 34 
10 ) Ibid. p. 21 •• 34. 

II ) Boryes de FigueirHn, Bosquejo etc. louar ciudo. 

li ) CosU e SUva. na Reriêta Unitmrtml LitòMemê*, «l. 490. 



ILIl 

se modificaram ou trocaram, outros ainda penuaiie- 
cem mais ou menos enreitados. Aquellas «pintaras 
dos costumes da sociedade, tudo é tão natural^ Uo fer- 
dadeiro!» ^^ A exaggeraçào dos toucados alto8> nasmii- 
liíeres, como hoje a das saias-balões, prestava-ae a ri- 
dículos, chistosos conmientarios. Ora 

.....1 mulher, . . . tinha por toucado 

A torre de Belein: 

Banhada cm pranto, desmaiada a flrente, 
Prostra por terra o corpo delicado. 

Co boléo ae csbandalha a matta «.p. 
Sáein dVlia esf^iOes, cassaâ lavradas* 
E de belbute trinta e uma peça. 

Fivelas, espadins, rondas bordadas: 
Até tinha escondido na cabeça 
O marido e três arcas enooirâdas. (p. 38) 

Ora é a mãe que batendo o pé na ca$a, pede á filha que 
dé conta do colchão desapparecido: 

Arromette-lhc á cara e ao pen toado ; 
Eis senào quando (caso nunca visto !) 
Sáe-Ihc o colchAo de dentro do toucado, (p. 39) 

A par doestes caprichos feminis corriam parallelanien* 
te os dos homens affeminados, também escravos da mo- 
da. Aquelle 

. . . chaiKíu de til forma desniarcaílo 

Qnc neiu a gvnte a pê pnssar podia: <p. 88) 

aquellas Avelas de marca agigantada, que entre esyti»- 
nas encalhavam; o contraste que as fivellinhas do rico 
estrangeiro faziam coiu esses quadradas fivelões, não 
esquecerão mais. 

(M-ipitfio Venlo-sul, rico hollandez, 
One de pn»t'i subtil pei]uenos ós 
bervein só do li velas nus teus pós. 

Vem admirar-te, vendo que entre nós 
Traz o pobre iwiraitA ix>rtuguez 
Por llvolas molduras de tremós. (p. 46) 

È deliciosa a pintura do paralta que das viagens traz 
documentos para emendar a pátria e 

o mundo que váe perdido (p. 236) 

e nos cafés ostenta o 

....que pescou de orelha (p. 237) 

1 ) Almeida Garrett, no fVv^fiM Lnêita»to, t, i.\iu. 



XLIll 

pdis 8ó prosara estudo 

Gm tor chapou gadelhudo, 

Km tor oiinnào «'erceado. 

E em pAr de mais um canudo. {\). 237) 

Oê quadros sâo animadíssimos: podem sem retoque apro* 
veitar^^^e inda hoje, que nào faltam typos, como esses 
de iia quasi um século! 

.£ os amores d^entào, que são os amores de hoje, e 
porventura serão, em situações idênticas, os mesmos sen^ 
pre? È egreja em que pôde mudar o ritual, mas em que 
os dogmas, o acto de fé sào immutaveis. Haverá sempre 

.... fofo morgado 

....solto já dos tutores: íp. 223) 

— ....novel íjashaque. . . 

Que gravesinhc» namora: (p. 224) 

— . . cr«tado9 peitos baios 

Que começando em barril 

Vào por niigintínto a laoaios: (p. 226) 

~ . . .velhas presumidas. . . 
Que tem de compradas cores 
As roxjis faces tingidas: (p. 226) 

— . . .freira ticos. . . 

Gentes de mais alta esteira : (p. 228) 

haverá sempre de tudo isto, de todas as esteiras, e estei- 
ras doeste ou d'aquelle feitio para salvar amantes surpre- 
hendidos 1 

Dentro de enrolada esteira 

Ficíim n'»m canto endioscados. (p.231) 

O velho molde dos ginjas (p. S2) é que parece que- 
brar-se; como se pôde já dizer perdido o modelo dV 
quellas seges 

. . .resto infeliz do terremoto (p. 35) 

que a velha traquitana supplantou, para ser também 
supplantada por navarras, e irmãs da caridade. 

O que nào mudou foi a consideração que desde anti- 
go tempo o Chiado tem de sitio elegante, populoso, com- 
mercial e transitavel (p. 38): não mudaram 

08 famosos entremezes, 

Qne no Arsenal ao vago caminhante 

Se vendem a cavallo n*um barbante : (p. 278) 

não mudaram ainda os ridiculos exorcismos com os quaes 

Se explica o demo em portuguez correnfce: (p. 26) 

mas mudaram, talvez, aqnellas contradanças nos dias 



XLIV 

das procissões de quaresma, coroadas inda por cima de 
tudo com ojoao aos abraços (p. 37) — aqaellas singu- 
lares e derrocaoas assemUéas de velhas pretencíosaseme- 
ninas feias e mal criadas, (p. 2I0-2Í1) 

O monte de Santa Cathanna, oue era então o passeio 
mais frequentado da gente do Bairro-alto, esse é aae 
material e socialmente está outro! Já não ha raacnos 
que o passeiem; já não ha adro de egreja em que os 
moços descancem e conversem, em qne dancem e át^ 
cantem; já não ha cruz, em cuja base pousem e alter- 
quem á vontade 

. . .acérrimos Jarretas. . . 
Argumentando em gazetas (p. 237) 

concilio profundo, que 

Sem ter um palmo de terra, 
Está repartindo o mundo. (p. 238) 

Mas em compensação d^essa feição social e politica que 
se perdeu, ainda hoje chamam á medicina /aUit7d(p. 113); 
julgam os 

. . .médicos maus, até pintados: {p. 20) 



...loquaz medico forte, 
\ie cora a penna homicida 
roverna as cousas de sorte, 

gue nos esteios da vida 
9vanta o throno da morte : (p. 266) 



Òiil 
Go^ 



e d^um e d^outro apaixonado sentimento continuam a 
tirar partido os' charlatães aue se annunciam na esquina 
publica, ou nas columnas dos jornaes, com mil attesta- 
çOes de duvidosa procedência. 

Chc/B^ou monsiour de tal, 
Chiroicu em Paris formado ; 
Ti az segredo especial. 
Um elixir appi ovado. 
Um remédio universjtl : 

Nâo pretende ajuntar fundo 
Co'os jgrandes segredos seus ; 
E cheio de dó profundo 
Tira pelo amor de Deus 
Os dentes a todo o mundo. (p. 238-239) 

Temos visto em geral e em particular a idéa que se 
pôde formar dos méritos de Tolentino. Vejamos agora 
o reverso da medalha, e seja o próprio poeta que pri- 
meiro falle de si. Consciência ou modéstia, são d^lle 
e a si refere estas palavras: 

«Levado da invencivel força do amor e do reconheci- 



XLf 

mento, me atrevo a pór . . . grandes coisas em máos ver- 
M>«...» (p. 363) 

« Os meus versos terão o successo de desagradarem . . . 
por serem máos. . .» (p. 213) 

«Os meus versos ... ««mr» foram bons, . . mas. . . es- 
pero. . . que o homem infeliz ache. . . aquelle acolhimen- 
to, que nâo deve esperar o máo poeta,» (p. 182) 

São máos teus veraog. . . (p. 361) 

Sismonde de Sismondi, critico erudito e commum- 
mente judicioso, julgou o poela talvez com demasiada se- 
veridade, (t Nào pude (diz) descobrir n'elle sentimento 
poético. . . Nos sonetos, odes, cartas e satyras acho-o qua- 
8Í sempre baixo, fraco e prosaico». (^ O contraste cómico 
ou burlesco que ha entre a forma e o objecto das poesias 
de Tolentino, escapava ao critico francez, que nâo po- 
dia estar assaz iniciado n'uma lingua estranha, tanto 
mais difficil quanto mais desce á familiaridade. Foi tal- 
vez isso que levou Bouterweek, mais sincero que Sis- 
mondi, a confessar que Tolentino era « pouco intel- 
ligivel a estrangeiros w C^ abstendo-se de julgal-o deci- 
soriamente, para não incorrer em erros, que mal sabe- 
ria evitar. 

Costa e Silva restringe muito a admiração ao mérito 
do satyrico compatriota. «Costumado a ajuizar dos poe- 
tas (diz elle) pela impressão que em mim produzia a 
leitura das suas obras, e nào pelo (^ue os outros diziam 
d'elles,tive sempre a Nicolau Tolentino por poeta de me- 
díocre engenho, e pouco interessante pelos assumptos 
que tratava. » (^ « O estilo (de Tolentino) é um pouco pro- 
saico, a sua imaginação escassa, a sua versificação nem 
muito boa nem muito ruim.»(i Pato Muniz, sem mais 
discussão nem argumentação chamava a este juizo here- 
sia litteraria. <^ 

A ambição do poeta, e as talvez baixezas com que 
procurou conseguir seus fins, tem sido também objecto 
de accusação ao seu caracter, n^esta parte diametral- 
mente opposto ao do contemporâneo justamente celebre 
poeta António Lobo de Carvalho. A este respeito escre- 
. veu um grande sabedor da nossa historia litteraria, que 
a si e a ella váe levantando monumento mais perdurá- 
vel que mármores e bronzes; o sr. Innocencio Francisco 

i ) th Ut litlmturf du midi de VHm-op*, li. tíèt. 

t ) Hiêtory of Bpiimi$h and portM^/ueiír titnratw^.w. 3«(5> 

3 > Rerwta fniirr-M/ Uthtmente. »i. r»OU. 

4 ) Ibid. 499. 
5) 1H.I. W». 



XL?I ^ 

da Silva, auctor do Diccionario bibliograpkico fortth 
guez: — a Nicolau Tolentino . . . naturalmente aoibicioso, 
e com a idea fixa de augmcntar a sua fortuna, era in- 
cançavel em captar a benevolência, e sollicitar o favor 
d^aquelles, que por sua ierarchia e valimento estavam 
no caso de poder scrvir-lne de apoio em suas continuas 
pretençôes. » O 

É o que sobretudo leva a formar juizo menos favorá- 
vel do poeta! Quem lê uma só d'aquellas peças pctito- 
rias acha-lhe chiste; mas ao ler tamanha collecçào d'el- 
las, não ha engenho nem graça de estilo que possa res- 
gatar o enfado, quanto mais as mesmas idéas e quasi 
os mesmos termos repizadosl 

Ha em verdade baixeza, iocompativel com a dignidade 
de poeta, na allegaçào intencional e repetida da sua 
fome^ e da sua pobreza: ha um tal ou qual cbeiío de 
servilismo, por mais falta de meios que padecesse, em 
considcrar-se criado da casa de Anseja (p. 290-291); 
em humilhar-se aos pés do filho d'ella, conde de Vílla- 
Verde : 

A vossos pés me humilho. .. tp. 285) 

cm abraçar os do conde de São Lourenço: 

Com os vossos imIís sc al>rnç;i (p. 192) 

e os do marquez de Lavradio, etc. 

. . .aos ix*s, qiio abraçar quiz: (p. 198) 

em tomar como incomparável honra sentar-seámesad^uni 
grande: 

Olhastes som horror minha baixezii, 

E fizestes sentar-me ao vosso lado. |p. 45) 

A mordacidade de Tolentíno, cujas mais flagrantes 
provas não estão no processo doestas suas obras, que só 
nos conservam meios de inducção para julgarmos as 
que dosappareceram, foi no seu tempo grande motivo 

Í)ara escândalo. Quem llie ouvisse chamar libellistas in- 
ames os que fazem dos versos facas para ferir: 

. . .nnnea em lil)ello inf;ime 
Fui trilhar as vis pimuias 
Dos (pie (Iho aos dons das musas 
O préstimo (líKs faeiídas: (p. 90) 

mal poderia suppor que muitas vezes fizesse dos seus 
o mesmo uso. 

i ) Poeiiai jovi* s r snltfrir.g <lr \utnttio /.fA> */«• Cumilho. 4|Kintiiini-uhw para abii^r»* 
|>liia i|.. .iiirl..r. 1'. iMii. 



XLVII 

«Deslustrava as bellas qualidades de sua alma com 
a tendência funesta para a mordacidade, perseguia oom 
seus dictos salgados, e causticava todas as pessoas co- 
nhecidas, e nào conhecidas, poupando raras vezes os 
seus. próprios amigos, e o que é mais para notar, é que 
ninguém era menos capaz de soffrer o mais leve mo- 
tejo: soltava uma torrente de apodaduras contra qaal- 
auer pessoa, que se lhe antojava, mas se a sua victima 
Ine respondia no mesmo tom, desconfiava, enfurecia-se 
( 1 e saia immediatamente pela porta fóra. Bocage que 
tinha a mesma balda, era muito mais tolerante do que 
elle» 15*. 

Os que achavam nos seus versos ciirapuças, levanta- '^ 
vam-se contra o poeta ; mas se d'isto tirava lição para 
aconselhar a sua musa: 

Trata pi»Í8 de It! oníendar, 
£ deixa \ idus uiheiiís. . . 

Ttinc o iTiivoso fiiror 
Ou exerciU) do8 ^MinilLis, 
Que em aruias se vâe já iH*)r ; 
Tíuulwiu o diis poupas nlt-is», 
(Jue é inimigo peior: 

Guanhuu no (teito odiu velho 
Por motivos similhuntes. . . (p. 253) 

nào havia experiência que lhe mudasse o génio, e por 
mais que procure justilicar-se ninguém crê nas boas 
intenções com que se desculpa. 

Se tu de ferir não cessnp, 
Que w.'rve a»r bínu o intenUj? 
Mais eiirapueas não tcv;is; 
Que im|Njrtírdal-as ao" vento 
Se podem uelmr cjiheçíis? 

Tendo as satyra» p(»r boas, 
Do Paniasí) nos doia eumes, 
Era h<»ra ne^ra revoHs; 
Tu dás goliieB íw» eoetumet^, 
E cuidam (|ui' é nas iK'b8oas. (p. 2\'i) 

O de que a soltura d'aquella lingua era capaz bem 
se deixa \er da replica áquelle 

Verde negro cardciíl (p. 313) 



1 ) Ka^nifrtn, o qm m pii<s«>a com aqsrtlf pailrv qiie dizia i^tar i>k>ifo cwd««f, e ■ qaem 
fei mm écrinia «o mot« 

Sío tí*ni cor »lf cardeal (p. 31 í/ 

fMfi» A peidrv lhe impond*^, fif lli^ ^m rrptira ntfnHlM dMimn «em pnr 

ii I....UP Sdv». tin r„,iit.< f'.,ii,,,../ f.í»^.;i.,ii,.. ti, 47:í i7l. 



XLVIII 

sobre o qual accumula as mais príginaes injurias, e a 
quem diz: 

Grita c'08 olhos em braza. 
Que te fechem n*uma casa, 
E que te sangrem na testa. (p. 316) 

E aquelle padre Macedo (a quem Lobo dedica fantos 
sonetos satyricos <^) cuja origem acha na barra de ín- 
fernaes dr(^as, 

Ferro, veneno, víbora traidora. 

Cartas da mão de Machivello escríptas (p. 386) 

mas a quem n^outra parte chama eloqueníimmo; que 
pregava 

Em casta linguagem portuguesa r (p. 45) 

Até com o pobre velho que fora seu mestre de latim 
mostrou pouca indulgência. Mesmo que elle fosse im- 
pertinente e apoquentador de mais, devia resistir ao de- 
sejo de o ímmolar ao riso da posteridade. Nâo contente, 
porém, em o pintar uma vez no memorial ao príncipe 
{p. 171), parece ser ainda recordação sua, o que diz no 
memorial a D. Diogo de Noronha: 

Teimoso grammaticâo, 
Que em longo chambre embrulhado, 
lio'a douta pcnna na mfto, 
Dá á luz grosso tratado 
Sobra as leis da conjunção: 

Que arranca o cabello hirsuto, 
Lastimando a decadência 
Do novo mundo corrupto, (* 
Que quer negar a existência 
Ao ablativo ab»oluto. (p. 187) 

Estas liberdades de palavra e espirito mordaz, ne- 
gação das suas declarações de faltar com moderação (p. 
812) lhe motivaram accusações a que parece alludir, 
como auem procura justiíicar-se, na dedicatória que ao 
visconae de Villa-Nova-da-Ccrveira faz da satyra da Gner-" 
ra, «É auasi um vicio o ser poeta (dizem) ; confundem-n*o 
com o homem sem caracter, e imputam á poesia os er- 
ros da humanidade.» (p, 213) 

1 ) Pofixat joriítes f. latyriea», p. 18-34. 

S ) Est« typo dr granimaticio, que, romo dit o poeta, tfnha a memoria carregada à» nimkm 
ria$ (p. I8S) inda nin detappareren d<> Ioda apeiar da necMtidade que ha de dar á iw rti MCtlo 
direc^to maia niil. mai» prabra, maia aecommodada i% lidas da aodedada oMNiema. aS* wcw w i 
traa todavia al^iUMa tjrpoa entre loa qaa nosoatroa Ihunamot A m w wi tat—, . . . na iMwpra fa- 
aan, annq[ve & vccea ain aerlo, por pedantea : coando ae ballan en «na aociadad HMtnu pa»* 
ceii bombret' eaidoa d« laa nobea. O no «bren ia boca por no pwdtr tomar f«rl» «■ tkifamii 
eooTersacion á caota de an qrandíaima ignorância en todoa loa ramot dei sabar buBane, raprt- 
«entaado el papel maa bien áe peraonaa enioniecidaa que de labioa, 6 M liaMan ca para haearlo 
romo lo haria ono de an mundo qur ea el anterior á Jeancriíto. • Sr. D. Sinibaldo de Mn, ao* 
hre a< roesiia inédita» in D. J«%* Somaro. ,'Rert«ta TeiiiniviAr, ti, íl9H-Jitn) 



XLI\ 

Se não é licito negar a Tolentino, por mais' que os 
seus sentimentos e abusos poéticos o attenuem. mere- 
cimento, e sobre tudo logar honroso na nossa nistoria 
lítteraria, principalmente pela admiração, talvez algu- 
mas vezes parcial, que dos seus tempos tem passado, 
e porventura continuará na successào das gerações a pas- 
sar como um legado; pede a imparcialidade que pro- 
curámos guardar n^este breve ensaio, que não dissimu- 
lemos alguns reparos geraes que a sua plástica poética 
está pedindo. 

Os cacophatos são amiudados nos versos de Tolentino; 
assim como o uso de certos epilhelos, e circunstancias 

Jue quasi degeneram em bordões. Á mão do marquez 
e Pombal só sabia chamar praguejada : 

— Na praguejada iiiAo omnipotente (p. 8) 
—Sobre a praguejada niH(»: {[). 270) 

seu collete era sempre das funcçôes (p. li e 101): 
para lisonjear a casa de Angeja vinha sempre a sua des- 
cendência de dois reis (p. 65, 360, 363, 381) : as ancas 
ou coiros dos rocins eram sempre surdos (p. 35, 72) : 
quanto promettia, em pa^a da protecção que lhe dessem 
para mudar de vida e deixar a eschola, era sempre uma 
addição de palmatória aos velhos brasões dos protecto- 
res: 

Vereis uma vencida palmatória 

Entre as armas de Angeja debuxada: (p. 15) 

Consenti, t|uc a larga historia, 
Que Almeidas levanta aos ceos, 
Lhes deixe no altar da gloria 
Pendente, entre os mais tròpheos. 
Uma negra palmatória, (p. 202) 

Os c^sos de rima pobre são em Tolentino numerosos. 
Faz a miude consoantes eguaes tempos de verbos da 
mesma conjugação, e outras similhantes pobrezas. 

£ que mal te fez na porta. 
Pae que ronda de quadrilha, 
(^bel leira loura e torta, 
Dizer que peçam á íilha 
Ura bocado dê (íomportn ? (p. 25!) 

Poria no primeiro verso está mcttida a marteilo para 
rimar com Comporta, e talvez se possa dizer que torta 
(cabelleira) esta no mesmo caso. A p. 175, em três 
quintilhas successivas accumula doestes exemplos, cada 
qual mais triste: na 3.** quintilha, suspiro no primeiro 
verso rima com suspiro no quinto: na !.•, falto no 

D 



primeiro verso rima com falto ao terceiro: na fi/, tw- 
felizes ao seguado verso rima com felizes ao quarto» 
etc. Não obstaale, sâo do coatemporaaeo mais aiicto- 
risado aresta matéria, as seguiotes palavras: «Boca(B[e 
é aiuda n^isto (de rimas) um dos modelos menos arris- 
cados. Em diverso género, a rima de Toleatino é taoH 
bem magistral.'» (^ 
Também pecca em unisoiiancias tediosas. 

— Di»^ que um, o qual eu mio (p. 244) 

— Porém tambtm nao mo rrimes (p. 2ir>) 

são versos detestáveis pelo que offendem o ouvido^ e 
parecem dobre de sioo. Às vezes é escuro, e nâo deixa 
perceber o pensamento, como por exemplo a^ama das 
decimas ao leigo vesgo a quem l(»cou oa cabeça a ponta 
d'um espadim: 

Da rejHíntina estocjida 

(^ o padre dP5mBtnfio: 

Mas quando recuperado 

A ti 06 olhos volveu. 

Std)M oqug te i^U^nr 

Foi Já tereã almoçado, (p. 304) 

Mas que succederia ao aggressor diante de olhos vesgos» 
se estivesse em jejum? Quem puder que adivinhei e 
também descubra as leis desta singular concordância: 

E para que mais exaltes 
Este amor que bem penetras, 
Commigo aas tua* leiras 
Peço que nunca me faltes, (p. 309) 

Emprega muito o relativo lhe por lhe$. Se é negligencia 
commum nos nossos clássicos, nem por isso se lhe dever 
chamar simples neologismo. 

Minhas fieis tsxprewoes, 

Filha» He amor c saudade, 

O que náo U^m em i)oesia, 

Un» vae supprido era verdade, (p. 58) 

— Sahrm os deuses^ o por ellêêjpTts 

Que 08 votos que lhe oitwço. . . . (p. 373) 

Ás vezes a sua metaphora manqueja, pela rápida e 
mutua transformação do moral em pbysicOsedopoysica 
em moral. 

Tem também o defeito de tautologia ou hattidogia 

1 ) S». 4. F d* Gwtilh». Tra»ad0 4» m^ri^Umçá» ntHi^wfn. «.« ««.p. M4. 



LI 

ingrata» por nào ser tiiha de inspiração mas de Tra- 
queia: 

— be amar-ti; nunca fiunca me arrependo (p. 53) 

— Canta, conta aos caminhantes (p. 322) 

— Vôt soiSj CÔA »ois u motivo (p. 327) 

Quaes foram os geucros de poesia que Tolentino euU 

tiVQU? 

O epigraraniatico, o lyrico, e o didáctico. 

Dos pastoril, elegiacõ, descriptivo, épico, e dramá- 
tico <* não deixou documentos. 

Do género epigramraatico, apenas cultivou as espé- 
cies soneto e decima, não deixando nenhum madrigM. 
Da espécie epigramma propriamente dilOj só conhece- 
mos d elle, aquelle que nos seus primeiros annos fez ao 
ffrande nariz do major èuisso Berroan, que pot* nãd sa^ 
Der a lingua portugueza o tomou como grande compri- 
mento. 

Iníia Uerman discorriJi 
Pelas cortes estrangeiras, 
♦ E jA íias nossas fronteiras 

Parte d elle apparecia. (* 

N&o sabemos se pôde absolutamente dizer-dé qo^ M 
género epigrammatico Tolentino apresenta bélkzas ãé 
primeira ordem ^'^\ entretanto nos seus sonetos joco- 
sérios e satyricos ha alguns de merecimento, que é in- 
ferior nos de assumpto serio, em (|ue sè nôô lii^o^t^ 
muito engenhoso nas idéas, e é frio na expressão, po- 
bre na rima, e pouco harmonioso no verso. ( '* Se a res- 
peito de todos os do poeta se nào pôde dr^iet* qutí éàó 
vivos, poéticos, tem uma concisão e nraça natural^ oue 
os tornam mui bellos (^, porque pelas suas a(>ertaais- 
simas didiculdades os sonetos, como pequenos poemas, 
para merecerem o nome Je perfeitos pedem nobi*eza e 
elevação díe pensamento, linguagem vrva e melodrosfl^, 
contorno apurado nos versos, bellezas crescentes e gra- 
duadas do principio ao fim; alguns ha entre os de To- 

1 ) Ojr. Borges Hp FigueirHo, na pnniMra crtiçáo do sru liosqutjo hútorico de litteriMtwxi 
rla»$ica, guiandu-tt<>, talTci com ótmmHánttmtltttt^, pfilo Uàtum^ de l'hi$ loire lilléraire de Pot' 
Itiffal do sr. Ferdinand Diniz, deixou, mm «"Mf-, At í»ftvt eiti Nirolshi Uicntino, falta que l0||0 
{irocurou Mnar na »r(|Uiida ediçào, niAte attrilnii> ao poeiat a compftttcflTdp dntma$, que mere- 
ceram HO $eu tempo o$ ajtplausoê do» eruditot. liisU ass^T^n, qntf i^apparpceu na U>rci>irft edi- 
CAo, DÍo tinha o menor fundamento plausível, salvo s- *<■ «uppunlian. dramas umas looê que, di- 
i*m, o poíta fixéra para se írcjureni f eantarm no rtrtó d* Cabo (Vida do poeta, p. SI). 
D'ahi nasceu uma Lreve mas cspiritoiíaa critica ià tr. Jo4^ Aflbifto Butflho Andrade, nosso com- 
provinriano, que sob o titulo Nieolau Tolentino d'Áluteiéa tt |Mt>Hcou no semanano da cid«dc 
da Horta, intitulado O Fayalense, v. i |). ÍUl, 303. 37U. 

'i) Sr. marquei de Resende, De$cr^fAa e retorOSfOei hiêtorfcat do paço e quinta d» Qu»- 
/ui, no Panorama, xii, 213, 

3 ) Vida do poeta, p. i4. 

4) Cotta e Silvo, na Rev. Univ. Liêb., vi, 474. 
b ) Vida do poeta, p. 14 



Lll 

lentico^ que tem merecido aos críticos especial comme- 
moração. Almeida Garrett, << e Costa e Silva (< conoor- 
dam no merecimento do soneto acerca do colchão den- 
tro do toucado, que começa ^ 

Cliaves na mftu, utelenA desgrenhada (1.^ p. 39) 

Costa e Silva, (^e Bouterweek (^ pensam da mesma 
forma sobre o do tafui que protestou não apontar aban- 
ca: 

(Juc ti>rna8 a a|M)nUir, pruniclto c attesto (2.^ p. 42) 

Almeida Garrett distingue mais (^ os a uma sege de 
aluguer: 

Quo sege, senhor conde r eu lii um voto (t.^ p. 36) 

a dois velhos jogando o gamão: 

Em escura botica encantoadof it.^ p. 42) 

deitando um cavallo á margem: (^ 

Váe, mísero cavallo lazarento (2.^ p. 51) 

Outra escolha, talvez menos selecta, (^ distingue os »>- 
netos ao sujeito que pela primeira vez se tosqueou ptrt 
p6r cabelleira: 

Deeaffh)nta esses caaooe cabelludos (2.^ p. 27) 

pintando uma hulha de dois bêbedos: 

De descalços miqMetes rodeado (2. p. 30) 

a uns annos: 

i ) Puntaao Imilmt», m, i8. 
1) Rn. Vmi». Ua. n, 474. 

4 ) IfiiMry 9fipm. mti p9rt. lUtrmlmt, n, 885. 

5) IWnoM iuriUm», m, «S-tt. 

6) EiU MNMto d« Tolentuid den logar a outro de António Lobo 
188 4m MMts Ptmimê Í9*ia$» • êoíifrkm, • é cumo m logat : 

m tmi eavano a mort» doMstnda 
Cobra, amigo, o Paroaao, dt baola, 
Qa« a orna moaa é psMda uma mnkta 
De *tn» e act6et Já derrotada : 

A f ooM a^ nlo tove evtea tm nada ; 
. Que iaao é boa para vm aúaoro fonota, 
E ai bestas en Mrrico da poota 
Coomui silvas aidbor do qve cavada : 



Lhe pegaste eaa peBo, qa» maU 
Resabios estes, qut JáiMis Um 

Mas para gloria de rodM boaltos, 
Normse d^oiaa, oo d*oatra outadara, 
Ta ftasl-o InaMrUl nos teoa escriplos. 



7) Víéaio poeta, U-i^. 



Llll 

Uui laíul que [MUitiou au vusso ludo (2.^ p. 31) 

descripção d'uin paralta amaltezado: 

Um vulto cuja forma desconsola (2.^ p. 34) 

ás fivelas grandes: 

Em curto josésinho rebuçado {2.^ p. 46) 

a am sonho: (^ 

Depois que á luz de trémula candeia (2.^ p. 48) 

A decima é espécie que demanda versos mais sono- 
ros, correctos, e por isso despidos quanto ser possa de 
amplas licenças poéticas. Quanto cheira a imperfeição, 
e ainda a falta de bellezas, é nclla mui sensível. Será 
por estas exigências apertadas, que o grande poeta e 
grande mestre de poe^a nacional, diz d%lla que: — «o. 
seu tempo parece ter passado com os oileiros e as glo- 
sas; e que um gosto extremado não achará n'essa perda 
muito que deplorar»? í2 

Às decimas de Tolentino mostram certa egualdade 
de correcção, exceptuando as glosadas, que accumu- 
lam muitos defeitos, principalmente se são a serio. O 
Parnaso Lusitano (^ dá como amostra das primeiras 
as que o poeta fez a um leigo vesgo, que nunca teve 
fastio e a quem por acaso tocou na cabeça a ponta d'um 
espadim, manejado n^uma scena jocoseria pelo coronel 
Luiz Clavier, ajudante de ordens do marquez de Ànge- 
ja; í* e começam: 

Feriu SJiorilegat^spadn (p. 303) 

1 ) Contra Tul«ntino, por i-au»a d'f^kl*' «nnlio. fpt Lubo r«u>Bnnelu {Poet.itv. eaafy. p. íZi): 

Um lirtin<>iii lai » qaal, um tal svjeito, 
Nicolau Tolínlino »fin mai» nada, 
Que com dnpenva a veneranda npada 
De Sáu Thiayo traz no inchado peito : ^ 

Sonhou que offirial estará (eito 
iruma «ecretaria, n n'e«ta andada, 
Que tinha «etje, e moço na cacada, 
K um «imples panno para a porta feito : 

Lembrou-lhe o ai de rnpa* pur escudo. 
Com outras carUs roais de corriula, 
Amitts própria» do s«*u tâo nrande estudo : 

Eis que bate um rapas na dura argola. 
Acorda o dom Quixote, foi -se tudo, 
E fira. como d'ant»-». raesln* eschnia ! 

Talves por nta, ou que taes censuras, é que Toleniino fet, desculpando o primeiro quÊ a Mi»- 
9U*m offendia, o soneto que conieça : 

Atiça, ó moço, a moribunda cbamma (1.* p. 49) 

1) Sr. A. F. de Castilho, Tratado de metrificnçáo porlugutta, p. 190 
4 ) Tomo III, p. n\, repetidas no t. ti, p. 310. 

3 ) Sr. marquet de Resende, Dtêcrip. e rtcord. kiêt. do pafo t çniíste dt Qtttbu, no Pw- 
vm ma, vol. xiv, O. 



LIV 

Transcreve também << a glosa ao mole, 

Nâo tem côr d(^ cardeal (p. 312) 

e a replica de Tolentino ao padre aggredido na antece- 
dente: 

Que venham fuscos garraios (p. 313) 

São também dignas de ler-se as que fez ao eocMitro 
das duas açafatas: 

Em aege estraita eotaipodos (p. 385) 

e as do Eudoso encontro com os carreiros da Enxira: 

N*uma iofelix madrugada, (p. 208) 

O fogo, a vivacidade, devem predominar no género ij^. 
eíco: o tom pôde ser mais apaixonado, o estilo ma» 
atrevido, que o que simples narração consentirift. Pôde 
aspirar tanto ao grande e ao sublime, como entrega^-se 
á singela expressão da alegria e do prazer. 

Os poucos ensaios que Tolentino fez n^este género fb- 
pam coroados de tão infeliz resultado, qoe desespert^ 
do de nfto. poder compor segundo os preceitos do gos* 
lo, desencadeou iras contra o Ivrismo. 
: Nào ha d'elle mais que aigumas poucas odes, e* 
nenhnma merece tal nome. Ninguém ainda mostrou 
mais negação para esta poesia, á qual nào soube dar- 
nem colorido, nem voos, iieiii impetuosidade, nem a 
desordem de que falia Boileau. í^ 

ft As odes de Tolentino sâo as mais pecas e insigni- 
ficantes obrinhas, que lhe saíram da penna. »^^ A pri- 
meira que compoz foi em louvor da amizade (p. 372) 
e todas as outras, que nào accusam mais disposição 
nem progresso, se lhe parecem. Elle mesmo o reconhe- 
ceu logo, ou opinião alheia lh'o advertiu : 

Tu nílo tiíns doc<^ vozes modulados, 

Que os mansíís ar«s talham ; 
As nove irmAs, por ti lauto íuvfjcadas, 

De tuas odes' ralham. <p. 361) 

£ com que despeito e amargura, esquecendo m^V 
succedidas tentativas, e dissimulando a verdade, diz: 

1 ) Pomofo liuilano, vi, 301. 

li Co«U.« SiJv«, M fím. l/Riv. Litb. TI. 474. 

3) Sr. Bot(4ho-Andndi>. no Faf/aUm»f, v. i. 9K\ 



Lt 



O deuM, que nunoutiui luim viu 
De odf» ukuuraá a mania, u 
Quu sem o ussuuiplo honrarem 
,be deehonram a poesia? (p. 90) 



9' 



Ná fircaetica mania d'aquelle mau poeta que introduz 
Hè satyra do Bilhar coiUinúa a mesma injusta prercn-^ 
{§o: 

Sei tUíio e unicamente me confundo 
Cuns taes versinhoH, que eu não via d'ant68; 
Aos novos unsos todo o inundo acode, « 
O estilo é sibyllino, o nome é ode. 

F:izi'latf (*u nòo uos^o uem detido, 
Fon^ui sei rf>nh<'cei-;is facilmente: 
CtfOê ivtffiiw mam o éerpvcuio Tejo 
Alça o írilinyue, niãUuio Iruienle; 
Muê úue Ooi'^ona filtra f eu vejo. eu vejv. . . 
I^ni (liKimdo isto, é ode certamente; 
É fiUia á'»r\e a escuridade d'eUaa. 
B um pn«ceit() das demníens hella*. 

Aa taus poe^iasí, que a eu tender nào cliogo, 
Podn* palavnis tem desenterrado; 
Se levam nó é tâo oceultoe ceffo, 



Que quem quer do8jttai-o^ váe logrado; 
Dizem (lue imitjim n'isto um certo grcff 
(Jloria de Theha», Pindaro chamado; 



Se isto ú .'li^Hiiu, a 8ua lingua de ouro 
StTJn ízre^m, mas faltava mouro. (p. 279-280) 

' Chegado quasi ao termo da existência ainda o antigo 
preconceito não estava esquecido nem extincto, que de 
1801 sào estes versos: 

Fogosos vaU« eniprehendam 

AlU)S vA<)8 n'este dia: 

Musas COMI musns contendam: 

Saiam t»des á porfia ; 

E queira Deus que m entendaiif. (p. 190) 

Mas qoal seria a razAo de serem incombinaveis este 
género e o poeta? Talvez que por elle ter, como muitcrs 
outros, formado do género lynco a exag^erada opinião 
de que o enthusiasmo é o seu caracter unico, verdadeiro 
e constante, sendo-ihe por isso inalie^naveis vivacidade, 
Ímpeto, veheniencia extraordinária. A essa situação é 
que não podia remontar-sc quem tâo inimigo se mos- 
trara sempre das emoções fortes e arriscadas; e por com- 
pleição, foi levado a gastar grande parte da vida nos 
amores e nos prazeres. 

A poesia do género didáctico, cujo principal mereci- 
mento está na precisão dos pensamentos, na verdade 
dos princípios, na clareza e opportunidade das expiíca- 

f ) Outr» Uçio : 

Que de altas ougicaa odn 
NoDca me viu a mania. (p. 90) 



1 



LVI 

ções e dos exemplos, na iotroducçào de pessoas e cir- 
cunstaocias que divirtam a imaginação e encubram a 
andez do assumpto, aformoseanoo-o com pinturas poé- 
ticas; foi a q^ue Tolentino particularmente cultivou com 
melhor e mais celebrado êxito. Este género que ibie fa- 
cilitava muito a liberdade nos episódios ou incidentes 
ao assumpto principal, e em toda a casta de adornos, 
{ue servem depois de larsa litania de áridos preceitos 
e desenfadar e recrear o leitor, casava-se melhor com 
o seu anrmo, inda que nâo chegasse a usar amplamente 
da liberdade concedida, nem empregasse todos os recur- 
sos que etia punha á sua disposição. 

Na primeira espécie do ^eoero nada compoz: o poema 
didáctico ainda assim pedia outra contenção d^espirito, 
outro estudo, mais paciência, oue a natural dispiosição 
d'aquella alma podia dar-lhe. Restringiu-se ás satyras 
e epistolas (memoríaes e cartas), que tendo as mais das 
vezes por assumpto costumes e caracteres ordinários da 
vida, admittiani em parte a facilidade e franqueza da 
conversação, brevidade na expressão dos preceitos, rapi- 
dez e concisão no estilo, gesto vivo e animado, agudeza 
penetrante para ferir a imaginação e conservar a atten- 
ção sempre acordada. , - 

Nas epistolas ítnemoriaes e cartas) começam as ver- 
dadeiras glorias ae Tolentino. Todos os memoríaes são 
considerados oeças dignas de saboreada leitura, distin- 

Suindo-se e sobresaindo a todos o que dirigiu ao príncipe 
>. José:(t 

Senhor, se iiílo é injusto. . . (p. 169) 

D'entre as cartas, Almeida Garrett e Costa e Silva <2 
concordam em que são dignas de admiração particular, 
uma das mais graciosas, a em que aconselhado cabel- 
leireiro Luiz, que debuxava e tocava bandolim, a que 
não continue a fazer versos: 

Pois que o talento inquieto: (p. 128) 

e á preta que pretendia que a obsequiassem, 

Domingas, debalde queres, (p. 147), 

A esta ultima composição chama Costa e Silva ver- 
dadeiramente graciosa e original n'este género^ mas 
acrescenta — a que a idéa primaria. . . a tirou o au- 
ctor das rimas de João Cardoso da Costa, poeta não 

1 ) Pamaêo l^uitimo, v, Hã — Vida do poeta, S8. 
í) IbU. T, 59 M — Rev. Unii: Li$b. ti, 498-499. 



LVfl 

defipicíendo do século, de seiscentos (^; mas Toientíao 
soube fazel-a sua por meio das graças do estilo». <^ 
Parece-nos haver fundamento pára duvidar doesta insi* 
nuada imitação, quando não ha o menor ponto de con-^ 
tacto entre o desenho das duas poesias, e s6 do roman- 
ce imitando o titulo a uma neara capêiva^ e muipremh 
mida. Para fazer o leitor juiz doeste nosso escrúpulo pe* 
dimos vénia para lhe apresentar mais esta peça do pro- 
cesso. í3 

Sismonde de Sismondi (^ diz que das obras de ToleQ- 
tino aquellas em que achou mais elevação de sentimen* 
tos^ e mais inspiração poética, foram as cartas a. um 
amigo, k)n>ando-lhe o estado de casado : 

, Foi este 6 ditosodia (p. 208) 

e ao desembargador Sebastião Antoi^io da Cruz Sobral, 



1 ) Atai tHéettkloê, por(ta* iiMcnl cm 1693, t tA floresceo no •fcttk» iMointc. 
S)lkv. Uniw.LM. vi, 489. 

8) J«ito CardoM dâ Cosu. juii dot oriftu* na cidade (l« Lam«f|o. Uma putrU, Lí«Imm, 1789, 
p, a90>89l: 

^ Ven eé, fnti de ebucolat*, 5io é% um demoaio em em*, 

MíbIm ClorÍB de cachimbo, Mais feia do 3oe te pinto T 

Coou» le fatet «eabora, Uonatro de péi e eabefa, 

Se em captÍTeiro te kinto 1 D« peitos até o embitio ? 

Mo i% a mcMna, q«e e« Conjio 
Titeste o prímetro ninbo, 
Por pae wa negro da terra 
Neto de om monobngio 1 

Nfto é tua mie aqnelle 
Medotbo caflo roli«o 
Com olbos como mameUos 
Na pesca do grio de milho T 

nio len« M pernas canibaias, 
Rio tens os pés retorcidM, 
Com orellias de morcego, 
Dcntet pelo branco Hsai T 

Hlo tens os braços disformes, 
E em cada dedu um chouriço ? 
Ifào tens carapinha negra, 
HIo tens oe peito» caídos T 

Nio és dos pés á cabeça 
Vm caramujo comprido, 
Um mexilhão enrascado 
Ra mesma cor do teu brio ? 

Itio és gran cachorra em tudu. 
A quem de tens pães tem vindo 
O sangue, que só te compra 
Ea quanto negro captivo ? 

Rio és a que vás á praia, 
Hlo és t qae vás ao rio, 
E por mais que lá te laves. 
Mo Aea o negro eomtigo ? 

Hei de ver se assim te 
E te nio te emendas d*isso , 
Por certo que de outra sorte 
Te bei de dar segundo aviso. 

i)D9UliU. émmiâi 4* VEufpt, ii, 6». 



Nio és aqueOa que em rancho 
Pax forgamenta aO domingo, 
E esse tambor do rei Nina 
Nio é o teu melhor brinco T 

Nio ét aquella carranca 
De coca para os mínimos ? 
Niu leot ot ollios em branco, 
!Vimbra da noite dormindo? 

Nio és hoje nVsta corte 
Muadongueira do districto ; 
(alcsinhar de pé de cabra. 
Tabas sem nnthum feitio? 

Nio vieete em trab«ana 
Parida á maré do mijo? 
o manicaca teu pae, 
Nio le fes sendo bngiu? 

Ttu mie por bujamé 
Nio foi cantarrona n'itto? 
Nio te deixou n'eiae couro 
Esse infame tobrescríptu T 

Leve- te o diabo a pelle, 
O demo fuja comtlgo. 
Para que nunca te enfronhe* 
Em lio grandes desatinos. 

Arre lá com a cachorra * 
Ha de haver qnem soAra isto? 
i^ierer presumir de branca 
Qnem tem de negra o vestido? 



LTIII 

descalpando-^e com a velhice por não hxer ventos em 
honra do cantar italiano (It^escentini: 

Boui Sobral o qiiu cu U) disae (p. 103) 

Almeida Garrett <^ que de algamas poesias já citadas; 
e da carta ew que o poeta òffereceu nm p^rtnii, etticasá 
onde todos os domingos lhe davam este prato:' 

Senhora tiiialK.iii uuj «lia (p. 138) 

di2 que tem <r bellezas (pie só ni(o admirarão atrabiliá- 
rios zangãos em |)erpcf uo estado de guerra com á franca 
alegria, com o ingénuo gosto da natureza» acha tfm 
conlradictor om Costa e Silva: («esta composição. ..nr 
pareceu seinnrc de muito mau g(M^to, e mais própria 
para escaudalisar que para divertir a pessoa a quem é 
dirigida.» í^ v 

Cnegámos ás melhores composições e á gloria de To- 
lentino. Foi sempre iirandeftèente admrado fdas ftm- 
gentes satyras ^^: — <( Boileau teve mais força, maa não 
tanta graça ccmio o nosso bom, mestre de rhetorica. B 
de suas satyras ninguém so pôde escaudalisar; come-^ 
çando sempre por casa, e primeiro "se rí de si antes que 
zombeteie com os outros. >• '^ «Fugindo da acrimonia 
de Juvenal, soube.. . imitar em suas satyras a doçura 
e moderação de Horácio, qualidades aue*^qnadravam a 
seu génio gracioso; e assim reprehenaeu elle os vícios 
sem descer á personalidade. » <•> Nicolau Tolentrao es- 
creveu com justo applatiso na poesia salyrica. <® 

O próprio poeta de si diz, (jue «a estimação de Ho- 
rácio, e o desterro de Juvenal, de mistura com o meu 
génio, me ensinaram a failar com moderação. ^ (p. S12) 
Egual cuidado puuha em imitar Boileau: 

Medonhas cunis sem dó 
Vwii fiutíir u Toleiítino 
O que elle furUi a Boileau. (p- 87) 

— CingiíS casoíw onnií^ados, 
Cheios de «iruncho e |)ó, 
Ojiu velhos louroi> furtados 
l><» í«i'pulrhn) de Hoileau. (p. 2í3) 

O que diz dos princípios em (|ue julgava que a satyra 
devia assentar? Diz que a satyra dev-e ter «por 
objecto os costumei, sem que a^ sua critica aponte, 

1 ) Pumaâo Ituitatio, i, Lxni — v, 4tt. 
1 ) Ffv. Unip. LÍ9bon., vi, AW. 

3 ) BouU>rwp«k, Hitl. itf tptmd. aitd portwg. lil/r. u, Sffii. 

4 ) Almeida Garr«U, no PnrnaM tutitano t, Lxnr. 

b ) Sr. Borget d» FiguMrfdo, Botgu^^o hi$l. da litt. dau. p. lUO. ' 

6) Fraaciaco Vnirv de CarToIho, Liçôtê riemenituret éf poHiOã Haehm&i, K51, p. 80. 



nem reoiotanieiite, iudividuo algum em particular.)» 
(p. tli) Que «(> vulgo ignorante confunde as saijras 
com os libellos infauiatoríos: as que ha doesta oatureKa 
sâo om crime do poeta, que quer emendar erros, fã« 
zendo mais um.» (p. 2â1) Que a satyra «se excitar 
riso em uns, nâo o tire das lagrimas (ie outros. » (pi. 

Das satyras que nos restam de Tolentino só uma pôde 
dizer-«e que renegou amielles principios, desgarrando 
em personalidade: foi a 0^wia?o^/Â/apor(tcca$iãodaqoéda 
politica do marque/ de Pomba). De todas é a nieoos 
friiz, e parece condemnada a isso. pelo erro inieia^ do 
poeta, que falto de magnanimidade, on desejoso de li^ 
soBJear astros que do novo nascian), apedrejava o srf 
no oceaso! t 

Ou outras poe^sias d'esta natureza, que se podem 
julgar perdidas; <* ou interpretação desfavorável, e ap- 
pKca^ets pessoaes das generalidades das outras satyras, 
eupiizerani inda assim o auctor ao vitupério d^algons. 
Nâo o esconde nos conselhos que d«í á> sua mnsa: 

Mais carapuças iião tecas; 
Qíie iiijp<)rtn*ílnl-aH ao'v<!nU) 
Si! pí^deui aclmr (íai»eçjia? 

TuDiiu RS SRtyras iK>r Ixxw. . . 
Tu úús guljM*s noíi coàtumcs, 
R cuidam qu(? é nas pesí*oas. (p. 2t4f 

PfVe lia iKirca um cadeado, 
Vattí o qu(* eu mil ven* fawi: 
Kmpreg.1 melhor teu canto"; 

B pnis q^ueriis que te louvem, 

Mfto das suityr.is lovanít»: 

Pria^ias que os honwMis ouv(*m, 

Um com riso, e cem cuui pranto, (p. 2.^0) 

Conhecendo quanto das satyras se doiam, para- reha- 
\%f complacências e desarmar inimigos parece propor- 
S€r a acabar coro ellas. Mas cumpril-o-hia? A da Gtterra 
(1)778) em^ que isto promelte, é anterior á do Pasêeio 
offèrecida a D. Martinho d'.\lmei<la (1779), eprovavelV 
mei>te á do Velho! 

Os criticos mais conscienciosos sào unanimes em disv- 
tínguir sobre todas as satyras de Tolentino, a do tíilhar. 
Só temos conhecimento diurna única apreciação diversa, 
que a todas ante|)oz a da Guerra e a dos Amantes! <^ 

Da do Bilhar disse o colleclor do Parnaso Lusi- 



\ ) c Nicolau T<»l»nliíin »ahia qui* pMO*Ta, * p>>ccou. V«l^a-»«» il« Mirra pur* A(4(.-ar iteh-ioal- 
mente; e <>«la rom tnl ridkMhi. qH« era ini{io*«iv«l á pm6oa satyrivadai o n&o «er d«M>prrz»da. 
mu fclitmente i>«Mt «ahrra* dPAa(if«rr«enin. A^tMiat na» otMV» poathuoaa* m \k uioa cimo u U - 
tdo if Quixotadn • VIAi rf* potêtt, p. 33. 

S) Sr. Borgea de Fign«>irodo, Bovj. hitl. de IM. eUuê. p. IW); 



IA 

íano: t* «Esta saiyra è olhada pelos conhecedores oo* 
mo uma obra prima ao seu género. Que singeleza 
unida a uma arte. infinita! que propriedade de estilo, 
e que atticismo! É impossivei narrar melhor» O aacior 

Sossuía o segredo de dar vida e ^aça a tudo^ • Depois 
o Bilhar considerava em merecimento decrescente as 
dos Amantes, Passeio e Funcção, (^ As da Guerra e a 
do Velho só foram colleccionadas mais tarde quando se 
repetiram todas as outras n^um volume de satyricos. <' 
Costa e Silva^ depois da satyra do Bilhar^ dá prefe- 
rencia ás da Guerra e dos Amantes. <^ 

Só analyse e comparação miúda de todas podia dei- 
xar apreciar melhor as razoes d'esta varia predilecção. 
Mas isso, que ainda ninguém fez, não o emprehendere- 
mos nós, que n)ém lhe achámos grande utuidade,. nem 
o julgámos indispensável ao nosso fim. 

A satyra do Bilhar (p. 275), além d^algumas supe- 
rioridades de forma, sendo a única escripta em oitava 
rima, tem o mérito, que será reconhecido em todos os 
tempK)s, de pintar costumes, e flagellar vícios gne sem- 
pre acompanham os homens. Quem não vé ainda pal- 
f)itar aqnelle bando de casquilhosy encostado as tabel- 
as, a altercarem em mil questões, a decidirem do que 
nào entendem? A picaria, a prova do virginal fíorHe, 
o elogio e imitação da dançarina, as aventuras d^amor, 
as sensações do jogo de paro, aauelle sujo e imperti- 
nente Doeta que da loja fazia academia, (^ aquella sur- 
preza aa policia, com a qual os jogadores capitulam em 
dinheiro de contado, tudo isto compõe quadro anima- 
dissimo, ao qual não falta unidade na própria variedade, 
cheio de vida e de accidentes qual d'elleg mais notável 
e mais conhecido dos que soo, e dos que serão! 

De muitos incidentes das outras satyras já se não 
pôde dizer o mesmo acerca de serem egualmente conhe- 
cidos e apreciados hoje. Entretanto a dos Amantes (p. 
tS2) « abunda de pinturas mui vivas, em aue o auclor 
desprega a natural tendência para a maleaicenda e os 
bons ditos. » <^ N'esta peça poética, ha partes em que 

1 ) Fmmaêú Imitame, iii, 90. 

i) IbM., p. 1<y7, 110 e i^\. TodM Mtai quatro ^atmf tomuram a w» 
•o t. VI, chaBado dos satyrims, p. «)|, «9. i49 p i63. 

3) lUd., Tl, 911 eWl. 

4 ) Rw. Umh. tÀ»b., Tl, 4S4-4». 

5 ) ce rimear furieni 

. . . d« •«! Taini éeritB Ifctfiir harmonienz, 

Aborde M fddUDt qmiconque )e taltie, 

Et povravit de Mt ttn kf pauana daa» )a rw. 

D n of t tcmpU ai taiat dca angea mpocti 

Qui soit contra aa moao on Uea da aèrtté. (MNUAti.) 
6 ) CoaU t SilTa, A». Vmi». U$b. n, 48!k. 



l\í 



se admira, correctissímo, o verdadeiro estilo da satyra. 
Àqueile fofo morgado, solto dos tutores, que 



aqaelle 



De Filis a eacada emhoca.. . 
E armando um mappa geral 
Dns suas immensas reiíuas, 
Yáo-se seu lhe dar real : (p. 22i) 



. . .novel basbaque, 

Que gravesinho namora : (p. 224) 



aquelte cocheiro apaixonado 

Com 08 olhoF na trapeira: (p. 226) 

aquella velha premmida 

Cuja liocca pesii lente, 

Ante um espelho ensaiada, 

Torcendo-se destramente. 

Aprende a abrir a risada 

Por onde ainda resta um dente: (< (p. ^£27) 

aquelles freiraticos, que então abundavam muito, aquel- 
les ecciesiasticos namoradores de freiras, que mereceram 
do poeta tão larga carapuça, aquella linguagem da freira 
aflectada, e ridiculamente conceituosa «delambida, in- 
intelligivel (por muito refinada) despida de todo o termo 
enérgico, confeitada de phrases de conventual invenção, 
cnjo significado era só claro para os adeptos»; <2 aquel- 
les amantes que 

Dentro de enrolada esteira 

Ficam n'um canto enjlKjscados: (p. 2'M) 

tudo isto são traços diurna physionomia social, que o 
tempo pôde ter parcialmente modificado, mas que se 
reconhece logo que sobre elles está o ridículo tão des- 
tramente espalhado, que longe de prejudicar a verdade, 
lhe dá pelo contrario mais força e mais encanto. 

Na isatyra do Passeio (p. 231) a pintura dos petime- 
tres estrangeirados ainda resplandecerá por mnito tempo 
com brilhantissimas cAres. Os politicos do monte de 
Santa-Catharina, esses é que desappareceram de todo, 
e só a tradição os aviventa; como aquella assemblea, 
verdadeiro typo de muitas do seu tempo. Charlatães é 
que ainda se não acabaram, nem acabarão nunca! 

i ) T. M. Hnghn, no «ea po4>in* Thr Otvan Flowtr^ Londre*. 1845, p. 95, traduz em iii- 
gln MU «(iiintilha d'e*t4> modo : 

U«r moulh tbal yields onaaToory breatli 

Before a glatt ahe twiata and strain^. 
To tcach it on Uiat tide to «inile 

Whara itiQ a tootb remoins '. 
3 ) Filintu Elyaio. 



LXII 

A satyra da Funcfão (p. 2i3) é a única em que em- 
prega o dialogo. Convida-o a musa a satyrisar os rídi'- 
culos do seu tempo: o poeta decliua a tarefa e toma o 
partido dos satyrisados^ mas defende-os e desculpa-os 
de modo que ainda mais os azorra^a. O tom irónico que 
emprega, imitação de bons modelos, faz dVsta satyra 
uma bella composição no género. A cavalgata de bur- 
rinhos, as donzellas, os adoradores, as excursões e perdi- 
ções pela quinta, o jantar, as contradanças, as cantigas, 
os jogos, o regresso, são episódios mui variados que nfto 
deixam perceber aborrecimento ou cançaço na descri- 
pçào, 

tiu'a piuUiíJH sobrariut' lha 
Vác SíSsinha pnssp-mdo 
Boa iiiáiíj sincora v«íllia; " 
D(»s esgjilhos n-sguardando. 
Ora a )h.'Uíç;i, ora a tellia; 

Pondo contra a luz a inão, 
E crendo que n*rtíta rua 
Esta São S(>b}istião, 
De Vcniis á estatua nua 
Faz mesura c t)raçâo. (p. 246) 

Esta ultima quintilha é beilissima, de idéa tão origi'- 
nal como engraçada, própria do género, e digna de Boi- 
leau. 

As satyras da Guerra, do Velho e da Quixotada, tal- 
vez se possam dizer as inferiores. Na primeira doestas 
ha mais philosophia, que ridiculos, e por isso o lom nfto 
podia ser festivo. Os paradoxos são expostos e denun- 
ciados com fmura : 

As firuerraa prefiras silo ; 

N'ena8 a pai; se aHSPjB^ura. {<i p. 215) 

Digna do auctor do Lutrin e no seu estilo, é a reflexão 
que o nosso satyrico faz ao Te Deum, que costumam cel^ 
brar depois das victorias militares; philosophia que hobr 
ra tanto mais o espirito de Tolentino, emittindo-a em 
1778, quanto era idéa qne não podia dizer-se colhida 
nas Butnas de Yoiney que só appareceraoi em 1791. 



1 ) Ette u«M hl lembrar um. porqur N%|mí1HU> ili loi i-tdiroUriMHlo t ^ 

^■i \fS9 »«► «^HToltln n» ijon-ni d*» Halifc iio mcio de frnottisaíi protf^slacAcc áv pai. J!'ttBM «ip** 
cia da cwaedlB mmentada por litrrw de lamaaho nataral, vímm, n^Uv^ro i9 jwrilai 4* Oct' 
moT»*!, em Iting • road Chalsa, L«»iidrcs, fígurar a Fraiiça, a ('irNh-BrFUuiha, membrM d'am- 
boa OB du«tnra« e attiibvtoa d^ima e d'«ntra iwqIo. Albion «ra repi^sflatàda fiat «aia OMi^ 
de e beba mulher ; a Fraoça pur uma mullieriía, |>(>quena, deli''ada c arrebicada. Lcadura-oA 
bem a primeira pergunta dirigida p<4a tiaçáo insular e a re«pokta da cuotineoUl : 

Albion — Para que ii esu «juerra 1 

França — Para consurrar a pai ! 
Tal (fra o fundamento df tuda a accio, e já d'antet f^ta runtradicçào im»s tinha aiisalUdo u f%- 
piritrt, qaandii pensavamo» no engenhoto cuidado e poltcia daa caaaa mortuárias (que nunca re- 
■utritaram ninguém^ e vimoa as tmemn% d« Paris despejaram todos os dias regimentac aobrt o 
caminho de ferro de Keèo e Medil«>rrane«i ! Aqui tanto d*ivel<i om salvar p Itwnan&dadt ; alK 
lanta mdiffwnca em a «arríAcsr ' 



^ LWII 

Entre horrorusoâ tropheos 
O general deshumano 
Manda falso incenso aos oeqs; 
E de espaliiar sangue humano 
Váe dando loiívor a Deus. (p. 216) 

As três quintilhas que a esta se seguem, começando; 

DiJ!C8 que se compra quina (p. 216) 

e ac!abaiido: 

Dez mil homens n'um minuto fp. 217) 

foram as que Bouterweek ( ^ escolheu para transcrever- 
como amostra doestes poemas satyricos. 

Por ultimo é admirável a ironia com que, precursor 
dp malthusianisuio, se faz pregoeiro doeste singular ff\pr 
cipio: 

Se 08 homens pe nâo matassem, 
E impunemente crescessem. 
Pode ser que nâo achassem ^ 

' Nem fontes de que bebessem, 

Nem cHmpos que semeassem, (p. 218) 

Na satyra do Velho., (p. 2oi) começa por si, antea ^ 
de fatiar de Lésbia, que 

. . .fiada no alvaiade. 
Quer tributos na velhice. 
Sem os ter na mocidade (p. 257) 

A situação que váe descrever é naturalíssima, inimi- 
tavelmente cómica, rival d'aquella que, na Fune0a^^ 
estatua de Vénus nua, fazia oração e mesura: 

... a surda orelha applicando, 
Por mostrar que ouvira túâo^ 
Váe ca'a cabeça appfovando 
Maganão uuo em ar sisudo, 
Serpente liio está chamando, (p. 258) 

O episodio do criado velho, achado no inferno pelo 
amo moço, ambos levados alli, este por ter sido laarâo 
para enriquecer o filho, aqueile 

Por ser u pae d»» tal ff lho; (p. 207) 

é^bom, econtadocomo e^tá, com brevidade e espirito, in* 
terrompe a monotonia do monologo. 

O fim evidente de toda esta satyra era ridiculisar oa 
velhos que se entregam confiada e apaixonadamente a 
[xesspa$i de, inferior e desproporcionada edade, com a 
candura de acreditarem na fidelidade e leal rfatribuiçfta 
de affecto da parte d'ellas. 

1 > HiU. of tpa». anJ portuf. N«m-. ti. RM 



LXIV 

Da Quixotada temos dito auanto basta. 

Na espécie satyrica Dão faltou philosophia ao poeta, 

Sie soube fustigar os erros da numanidade e exi>or- 
e os vícios, cobertos de ridiculo, no pelourinho do 
desprezo publico. Principalmente as loucuras da sua 
terra e do seu tempo não as poupou. Revelou aue ti- 
nha grande estudo aos mais famosos mestres, inaa que 
talvez houvesse quem desejasse vel-o aproveitar-semais 
d'algumas liberdades que elles auctorisavam, aperfei- 
çoando ainda estas mais perfeitas das suas composições, 
coiorindo-as com parémias da nossa linçua, usando mais 
do dialogo, episodiando com anecdotas e historietas, coroo 
os satyricos latinos e muitos dos modernos de maior 
reputação, em logar de enlaçar, como commamroente 
faz, desci ipçâo em descrípção, invectiva em invectiva. 
Podia ter imitado de Horácio, (já que diz havel-o prefe- 
rido a Juvenal, para mestre) a alternativa da .censura e 
do louvor, que torna a satyra menos pesada, e lhe tira 
o ar misanthropo que em muitas partes obscurece as 
suas. Podia ter sido menos Timon, aue a ninguém 
poupa, e parece que a ninguém ama. Entretanto, as- 
sim mesmo, as satyras, como as compoz, são para elle 
e para a poesia portugueza um titulo de verdadeira 
gloria. 

Todas as satyras (á excepção da do Bilhar)^ mem<h 
riaes e algumas cartas de Tolentino, são esçnptas em 
quintilhas, metro e composição nacional que fez reviver 
modernamente. Elle próprio diz, que a musa que presidia 
ás suas trovas, alTeita ás «proveitosas lições dos nossos 
dois portuguezes, Bernardim Ribeiro, e Francisco de Sá 
de Miranda. . . crearam insensivelmente no seu coração 
amor a esta espécie de poesia... e rimou em quinti- 
lhas. . . » (p. 182) E ainda que verdadeira ou falsa m<h 
destia o leva a dizer, que só aprendera o rímal-as: 

Sá de Miranda. . . 

. . .em queni das doocs quintilhas 

Somente a rima aprendi: (p. 177) 

é incontestável aue escreveu com justo applauio em 
forma de quintilhas; (* merecendo que d^efle e d^ellas 
dissesse o grande Elpino Duriense, (^ convidando Lereno 

fará leitura de peças joviaes de Cervantes, de Jorge 
érreira de Yasconcellos, de Sá de Miranda, e de Antó- 
nio Ferreira: 

1 ) Freire de Carvalho, Lif4if» eletnmlarn de poética nteionaJ, 1851, p. 80. 
9 ) Potêioê, II, ti6. 



LXV 

se ajuntar quizeres 

Obra da nossaedade. a mór, que temos, 
Ajunta-lhe as Quintilhas saborosas 
Do claro Tolentino: 

Primores cortezâos^ ricos faltares, 
Plautinas graças, joviaes donaires. 
Flores de toda a varia cAr lançarão 
Em seu regaço as Musas. 

Se na philosophia, na força e profundidade do pen- 
samento, pôde ser iulgado inferior a seu mestre Sa de 
IGranda, princife das quintilhas portuauezaSy (< ^Ihe 
por certo superior no methodo e facilidade de expres- 
são. (2 

Em conclusão doesta parte do nosso ensaio devemos 
dizer que não é sem reparo faltar a commemoração de- 
vida a Tolentino n^algumas obras a que essa obrigação 
parecia inberente. O sr. Ferdinand Dinis, omíttiu-K>, 
ou esaueceu-o no Résumé de l'histoire litteraire du Por- 
tugal (paris 1826) ; falta tanto menos desculpável, quanto 
é certé^^aver tomado por guia BouterweeK, Sismondi, 
e Balbi, que não incorreram n^ella. Outro tanto se pôde 
dizer de Adamson, na Lusitânia illustratay <^ onde To- 
lentino tinha quasi direito imprescriptivel a figurar en- 
tre António Barbosa Bacellar, Violante do Ceo, Fran- 
cisco de Yasconcellos Coutinho, Garção, Diniz. Quita, 
Cláudio Manuel da Costa, Joaquim Fortunato cie Yallar 
dares Gamboa, João Xavier de Mattos. Paulino Cabral, 
António Ribeiro dos Santos, Bocage, Francisco Manuel, 
conde da Barca, Domingos Maximiano Torres, e Cur\o 
de Semedo. 

Tem causado egual admiração o silencio que nas suas 
obras guardam a respeito um do outro, Tolentino e Bo- 
cage. Vejamos o oue acerca d^isto investigou um dili- 
gente bíographo d^lmano. ^* 

«Ambos poetas, contemporâneos, residindo na mesma 
cidade e ate fallecidos com pouco intervallo e enterra- 
dos ao pé um do outro, nem Bocage falia uma sô vez 
nas suas obras de Tolentino, nem Tolentino de Bocage í 

«Consultando sobre esta singularidade alguns amigos 
do poeta {Bocage), foi-nos dito por Assenttz e o sr. D^ 

1 ) AMim Um chama o %r. K. F. de CuUlbo, no Tntad» dê metrifUêfáú, 1858, p. It4. 
S ) Gosto e SUts, na ffev. Univ. LUb. vi, 4118. 

8) Lmitamim lUmêtrata: noticen on the hiêfrp, «mtiquitie$, tUtrmtw....^ PtrhumL èm 
iêkm AiMMMi. Htw-Cutk apon Tyn«, 1843, 1 toI. 

4 } Sr. J. r. d« Castilho, na UmrmHm dmmim j wr lwy iM W , sxnt, 75-78. 



LXVI 

Gastão (os quaes muito conversaram ambos os aocUv- 
res) que não só tinham Teito a mesma observs^o quanto 
ás obras, mas notado que, nas suas* conversações nem 
Tolentino nem Bocage faltavam nunca um do outro, 
em bem nem em mal, levando este cuidado a ponto de 
afTectaçâo, i)ois quando de tal objecto se tratava, ca- 
lavam-se elles! 

((Uma Dama, porém, de altissima intelligencia, que a 
ambos os poetas conheceu, asseveron-nos que elles ti- 
veram relações estreitas, contando-nos, por essa occa- 
sião esta anecdota. 

((Estava Bocafie encostado ao umbral da porta de 
uma loja, do Rocio, apparentemente pensativo e absorto, 
quando Tolentino, chegando-se-lhe ao ouvido, pergunta: 

Elmano, a lyra divina 
Porque razào emraudece? 

ao que logo Bocage respondeu: 

Porque mais cala no mundo 
Quem mais o mundo conhece. 

Tornou Tolentino: 



a 



ue tens achado no mundo 
ue mais assombro te faça? 



Dík Bocage sem hesitar: 

Um poeta com ventura, 
Um toleirâo com desgraça. 

Dentro em poucos minutos, estavam os improvisadores 
rodeados de centenares de ouvintes; e, influídos pela 
emulação, continuaram longo tempo, sem ceder nem 
fraquejar, n'este formoso echo, em que já vimos ter 
tanibem Bressane sido eminente. 

« O Sr. Banha, parente de Bocage, deu-nos conta de 
outro echo entre ambos. Tanto um como outro tinham 
pés monstruosos, que mutuamente epígrammaram. Só 
se conservam porém os seguintes versos de Bocage: 

Se o Padre Santo tivesse 
Um pé tâo longo e tâo mau, 
Podéra mesmo de Roma 
Dar beija-pé em Macau. 

Tolentino fez-lhe esíe (inédito): ^ 



LtVII 

-Eram três juntas de bois, 
E d'aquelles mais selectos 
A puxar pelos sapatos.... 
E os sapatos quietos! » , 

O espirito q^ue Tolentino nM)strou em muitas compo- 

Ííições não o desmereceu nos apophthegmas, que infe- 
izmente não consta Tossem compilados, como muitos 
faziam ás suas poesias. Hâo-de por isso attribuir-se-lbe 
os que nào são d'elle5 ou negarem-se-lhe os que lhe 
pertencem. Deixaremos aqui registados alguns. 

i-^Orca da habitação do poeta morava um homem 
tioi6ríâniente rico. Uma noite, atacada a casa de Tolen- 
tino por ladrões, bradou-lhes este da janella: 

*— Enganaramse com a porta f É mais a baixo. 

II — Concorrendo n^uma casa com a celebre Catalani, 
nâo tirava d'ella olhos, uorque só a tinha visto no thea- 
tro. A cantora reparanclo nisto, perguntou-lhe, se nun- 
ca a linha visto? — ao que elíe respondeu: 

— De graça é a primeira vez t 

III — Indo visitar um novo palácio de ccYto persona- 
gem, que na casa tinha introduzido a agua do cano 
{rablico; perguntandq-se-lhe qual era a cousa que allí 
mais lhe agradava? — disse: 

— As aguas furtadas t 

IV — Dirigindo-lhe a ronda uma noite a pergunta do 
costume— traz ferro? — respondeu que sim. Depois de 
ler feito por muito tempo esoerar a patrulha, vascu- 
lhando na algibeira, tirou finalmente uma chavinha de 
Ctarteira, tão pequena, que os espectadores não pode- 
fftm conter a nrlaridaae ! 

V — N^uma rua, por onde casualmente passou de noite, 
um soldado da ronda que dava caça a um ladrão, apon- 
tando uma pistola ao peito de Tolentino lhe perguntou 
— para onde váe? — Kespondeu-lhe pacificamente: 

— Para a outra vida, se dispara I ( * 

VI — A qaéda do marquez de trombai troutera, com 
a justa soltura d'algumas infelizes victimas politicas, a 
indevida de muitos malfeitores, e entre estes a d^um 
eerto Tonhio que fora carrasco. Depois dnsto, inten^ 

1 ) Vida do poeta, 1617 '* 



LXVIII 

gado o poeta por uma senhora, acerca do modo de 
vida d'a(juelle sujeito — respondeu: 

— Hoje vive de enforcar por casas paríiculares! 

vil — Afilicto um dia com dor dc dentes, perguntou- 
lhe o conde de São-Lourenço, que o marquez efe Pom- 
bal tivera em ferros por tantos annos, se queria fazer 
uso do segredo d^um lesuita que fora seu companheiro 
de cárcere? — respondeu-lhe vivamente: 

-^Se é do segredo em que v, ex.^ esteve dezenove aw- 
noSi não senhor f í^ 

viii — Procurado um dia por um mau versejador, para 
lhe dizer, de dois sonetos que fizera a uma senhora, qual 
merecia a preferencia, lido o primeiro, respondeu logo 
Tolentino — que o outro era o melhor. 

— Mas, como pôde v. m. dizer isso se ainda não leu 
o segundo? ílhe tornou o importuno) 

---É que é impossível ser peior que o primeiro! i^ 

Seja-nos agora licito, e tomado <M)mo prova de leal- 
dade, encerrar este processo critico com a integra das 
suas mais importantes peças— testimunhos de julgado- 
res que nos precederam. 

Ouçamos Balhi. 

fiAs poesias salyricas (les poésies satiriques) de Nico- 
lau Tolentino de Almeida, sont tellemenl goAtées à canse 
de la naivetê du style avec lequel elles sont écrítes, et 
qui est à la portée de teus les lecteurs, et à cause de 
la beauté de la versifícation et des images, et de la dé- 
cence qui accompagne toujours la satire, qn^elles sont 
toujours placées dans les bibliothéques portuguaises en- 
tre celles de Sá et Miranda et Boileau. Le roi actuei 
les a fait imprímer à ses frais, et a fait ensuite présent 
de toute Tédition à Tauteur. Aucun poêfe n^a aussi bien 
décrit les moeurs du temps. II excelle surtout dans les 
quintilhas (couplets de cinq vers); son st^le est d^une 
tínesse, d'un mordant, d'une couleur origmale et d*un 
ton de décence et d^lrbanité qui le mettent dans oe 
genre au-dessus de tous les poetes portugais. Ce grand 
satirique a eu le rare talent de dépouíUer ses ouvrages 
de toul fiel. II n'y a pas de litterateur qui ne sache par 
coeur ses Quintilhas. <3 41 était simple professeor de rbé- 

1 ) Sr. nmramn é» Rnan^, no P mn o rú m m, nf, t e 4. 

li J#«wiw, i,»i. 

3 ) Coiqu contripeto a mu «Mcrvlo de Balbi, aqui y/u Mt*ovtrt de CotU « SOva: — > tqf « 
do to podte • eMM cntlnuiMtM d« ToleatiM que ae recHuMm algvM wmw didte, nra mtt, 
o qnt Mtt^ MD Mtado d* prodvtir vin Mntio, ov «IgvoíM qviírtilfiM na*.» Am. Õb<». Lk¥. 



IXÍX 

foríqae, et le mente de ses satíres lui valut une place 
de' commis da bureau de Finterieur (officier de secre* 
tària de estado.)» n 

Booterweek : 

«...Nicolau Tolentino de Almeida... writer seenis to 
be greatly adroired for bis poignant satires. which have 
for their subject various local relatious in Lísbon. The 
wit of this poet, wbose writings betray niuch dissatis^ 
faction with bis lot in life, is not aiways intelligible to 
a. foreigner; but he cvinces a decidely natíonal spirit, 
which when conibined with the rei)resentation of mo- 
dern manners, becomes ^eculiarly interesting. In the 
works of Tolentino are revived most of the ancient na- 
tknial metres of lhe Portuguese in redondilhas.» (^ 

Sismonde de Sismondi: 

«]'ai parcouru les deux volumes de poésie publiés 
à Lisbonne em 1801, par Nicolau Tolentino de AlmH- 
iúy professeur de rhétorique. Je sais qu'il a de la ré- 
pntation parmi les portugais, mais je ne puis point dé- 
eouvrír en lui de sentiroent poétique. II me parait le 
flatteur a gages de grands seígneurs qui me sont in- 
connues: ses vers n'ont nresque d'aulre objet aue de 
mendier des places et de l'argent, en maudissant le jeu, 
ou il pei*dait tout cc qu^il possedait. Dans ses sonnets, 
ses oaes, ses épitres^ et ses satires, je le trouve prés-. 
que toujoors bas, faible, et prosaique. II y a sans den- 
te pour les porlugais quelque chose de burlesque dans 
le contraste entre la poesie et les sujeis qu'il a traités; 
niais ce merite est perdu pour nous. Une épitre a un 
ami sur son mariage, l. 2. pag. 63: — une aulre ou il 
sè refuse a faire daiis sa vreillesse des vers en Thonneur 
de Crescentini, t. 2. pag. 117, sont los deux piécesou 
j'ai trouvé les sentimonts les plus releves cl le plus 
d*inspiration poétique. >• <3 

Almeida Garrett: 

(r Nicolau Tolentino é o poeta eminentemente nacional 
no seu género: Boíleau teve mais força, mas não tanta 
^aça como o nosso bom mestre de rhetorica. E de suas 
etttyras ninguém se pôde escandalisar; começa sempre por 
éasa, c primeiro se ri de si antes que zomheteie com os 
òntros. As pinturas dos costumes, da sociedade, tudo é 
tão natural, tâo verdadeiro! Confesso que de todos os 
poetas que meu triste mister de critico me tem obri- 
gado a analysar^ único é este em cuja causa me dou por 

■ 1 ) Euai tlaíhtitfue $ur U roynufM de Portugal «I Alffirre, iWí, II, p CLSl-CLXIt. 
t) Hiêlorv ofnpanúh and portufiuete lileruturf, 1823, il. 384. 
9) Data UUêraturt du midi d* l'Eitr»p0, li, «M, ed. de Brauttai, 1887. *" 



IXX 

suspeito: tanta é a paixão e cegueira aue tenho pelo 
mais verdadeiro, mais engraçado, m^is oom homem de 
todos os nossos escriptores. AquelleM/Aar, aquella/icuc* 
ção de burrinhos, aquelle chá, aqiiellas despedidas ao 
cavallo deitado á margem; o memorial ao príncipe, o 
presente do perum^ são bellezas que só nào admira- 
rão atrabilarios zangãos em perpetuo estado jde gqerra 
com a franca alegria, com o ingénuo gosto da nato-» 
reza.» <* 

Costa e Silva: 

«As epistolas e satyras de Nicolau Tolcntino de Al- 
meida, professor de rhetorica. e depois official de uma, 
das secretarias de estado, são á similhança das de Sá e 
Miranda, a quem pretendeu imitar, escriptas em quin- 
tilhas e quartetos. Tem elle mais graça e melhor versi- 
ficação que o seu modelo, porém menos philosofrfiia; 
OMS são talvez de todas as suas obras as únicas que 
ainda se lêem. Este poeta gozou em sua vida de uma 
reputação colossal. Os seus numerosos amigos, entre 
08 quaes havia homens mui respeitáveis por seu saber» 
e por sua posição social, exaggcravam o seu meritp: o 
padre Francisco José Freire o tinna em grande conta, 
o padre Joaquim de Foyos dizia que entre os poetas 
modernos de Portugal não conhecia senão dois que me- 
.recessem o nome de grandes, a saber, António Diniz, e 
Nicolau Tolentino: e o desembargador António Ribeiro 
dos Santos não duvidou de imprimir que as Quintilhoã 
saborosas de Tolentino, eram a maior obra da nossos 
eáade. Mas o dia da impressão veiu cm Gm mostrar que 
váe muita difTerença uo iuizo publico ao juizo dos sa- 
lões; e Tolentino escrevera mais para os salões que 
para o publico. A sociedade podia rireinteressar-secom 
versos de palmatória e requerimentos de empregos, mas o 

I)ublico quer mais alguma coisa que dois volumes que só 
állam em rapazes, em tripode de pinho, em bancos, em 
eschola, em Quintiliano, em irmãs velhas, em fome, 
e petições de miséria. As mesmas satyras tem perdido 
toao o seu interesse, porque não tenao por objecto os 
vícios que são de todos os tempos, mas o ridículo, que 
continuamente varia, tornam-se frias para os leitores 
que não conhecem os origiuaes, cujas copias se lhes apre- 
sentam. As assembléas tem hoie outro caracter, as 
fnncções de burrinhos passaram de moda, e poucas pes* 
soas sabem hoje aonde é a quinta de S. Martinho onde 
tantas funcçiões se fizeram. NicoTau Tolentino é um 

1 ) B mqwÊJQ ém hiêtorim ia ponic e Unfua perhiguu; no Pamoto haitimú í, uuii. 



LXXI 

Eoeta aue todos gabam, e que mui poucas pessoas 
tem.))í' 

Borges de Figueiredo: 

«Por estes tempos deu também honra ao nosso Par- 
naso Nicolau Tolentino de Almeida, a quem as mu- 
sas favoreceram em muitos géneros de poesia. A lin- 
guagem familiar, e sempre corrente e elegante, que 
apparece em seus sonetos, odes, epistolas, e outros gé- 
neros, ha merecido os applausos dos eruditos: o que 
porém elevou mais sua gloria, foi certamente a poesia 
salurica. Fugindo da acrimonia de Juvenal, souoe Ni- 
colau imitar em suas satyras a doçura e moderação de 
Horácio, qualidades que quadravam a seu génio grar 
cioso; e assim reprehendeu elle os vicios, sem descer a 
personalidade. A satyra da Guerra e a dos Amantes 
sáo, sobre todas, dignas de serem lidas. »(2 

Coroaremos estes testimunhos com o do saudoso Fí- 
linto Elysio, cujo é o verso 

« Tolentino, que diverte e instrue.aí"* 



1 ) Poetiãê éã Joié Mnria da Cotta t SUva, iii (EpUtolat e epicedios) 1844^. ix e x . 
t) Am9«9'o kiMorieo da lUtmUura ekuiiea, por António Curdoto BorgM de FlgiMirido, 
i856, p. 100. 

8) Oèroê eompUêoê, i, A», ed. ó» Paris. 



III 



Se devemos crer os que se julgam bem iaformados, 
além das composições que de Tolentino nos restam, ou- 
tras houve, que o auctor condemnou ao fogo. <* De al- 
gumas apenas existe menção de que fossem, taes como: 

Memoria sobre oratória, para ser lida na academia 
real das scíencias: 

Sermões que vários padres pregaram^ a cbeios (di- 
zem) das maiores bellezas de eloquência, e de altos 
pensamentos: 9 (^ sermões que é pena terem-se perdido, 
para podermos julgar da sua oratória^ melhor que o , 
podemos fazer pelas poucas e desenxabidas prosas que 
nos conservou. 

LóaSy para serem recitadas e .cantadas no círio da 
Senhora ao Cabo. 

SonetoSy Anacreonlicas, e outras peças poéticas, prin- 
cipalmente eróticas. í3 

Também attribuem a Tolentino muitas poesias livres; 
mas ainda que algumas compozesse, estariam mui lon- 
ge de corres:ponder ao numero das que chrismaram com 
o seu nome. 

Com isto parece vir concordar o testímunho de Costa 
e Silva, quando diz (* — « As poesias que compõem os 
dois pequenos volumes que imprimiu (em vida), formam 
uma pequena parte das que elle escreveu; e não são 
talvez as que x)s seus contemporâneos e amigos applao- 
diam mais: não deu as outras á luz porque estavam re- 
cheadas de personalidades, que não podiam decente- 
mente apresentar-se ao publico. » 

Os primeiros versos de Tolentino, que sabemos fossem 
impressos, ainda que saíram anonymos, foram-no em 
1799 na Miscellanea curiosa e proveitosa (editor Rol- 
land), a saber: 

Soneto á loteria ingleza (p. 39) — t. v, 310 : 

Memorial a sua alteza (p. 169) — t. iv, 298: 

Satyra aos Amantes (p. 222}— t. v, 332: 

Satyra do Passeio Ta que cnamava carta) offerecída 
em 1779 a D. Martinho d'Almeida, estando no Âlem- 
tejo (p. 234) — t. IV, 311: 

Satyra o Bilhar (p. 278) — t. i, 302: 

i) Viêa éê pMtm, ». 
9) Md. 
t)l»tf.,p.5, ti et7. 



LlXflf 

Carta a um camarista (o conde de Villa- Verde, D. 
José, depois marquez de Angeja) sobre os carreiros da 
Enxára (p. Í98) — t. iv, 306. 

Determinando o poeta por aquelle tempo fazer inn 
primir as poesias que julgou mais selectas, colligiiir 
as e lic«nciou-as pela mesa do desembargo do paço, e 
sollicitou ao mesmo tempo a mercê de que fossem im- 
pressas, incumbência que acceitára o então ministro de 
estado (boje reino) marquez de Ponte-de-Lima íp. 7^, 
afervorado por seus filhos D. Lourenço de Lima yp. 78), 
D. Fernando de Lima (p. 83), e conde dos Arcos, D. 
Marcos de Noronha (p. 82). 

Obteve em fim a mercê que desejava, isto é, que na 
imprensa r^a se lhe impnmissem as obras em seu be- 
neficio Op- 86) í'; mas o ministro Ponte-de-Lima, pelo 
sen repentino fallecimento, em 23 de dezembro 1800, 
não chegou a assignar o aviso. Assignon-o porém outro 
ministro, o da guerra, Luiz Pinto de Sousa Coutinho 
fp. 86), que um anno mais tarde (17 de dezembro 
i801) devia esconder o nome na condecoração de vis- 
conde de Balsemão. 

Costa e Silva esquece imperdoavelmente esta histo- 
ria da impressão das obras de Tolentino, por este mesmo 
contada nas suas poesias ; pois é esquecel-a ou desce*- 
nhecel-a dizer: — «Alguns annos antes da sua morte 
lichon Tolentino um editor, que lhe comprou por bom 

Íireço os seus manuscriptos, que deu á luz em dois t6- 
umes de oitavo portuguez; poréni a extracção não cor- 
respondeu ao que elle esperava. » (2 

A impressão, como ja se viu, não se fez por dili- 
gencia ae nenhum editor; o que consta é que o poeta 
vendera a edição, quando ainda estava na imprensa, 
dizem que por doze mil cruzados t^, a um seu coUega 
Manoel José Sarmento, aue de oflBcial da secretaria da 
gnerra, passara para a ao reino em official maior gra- 
duado. ' 

Eis as indicações bibliographicas d'essa primeira edi- 
ção: 

Obras poéticas de Nicoláo Tolentino de Almeida, Lis- 
boa] na regia o/fidna typographica^ anno mdccci. Com 
licença da Mesa do Desembargo do Poço. Dois tomos, 
em oitavo portuguez, com 232 e 223 paginas. O i tomo 
contém 63 sonetos, i odes, 3 memoriaes em quintilhas, 

i > CwwU «M • fdiçlo f < 
átm dt TobatiiKi. 

t)IÍM.IM».£M. «1.474. 
Z)yiâa4ê ftmm, 18. 






twiv 

«e 6 satyras, cinco em quintilhas, t uma em oitavas: ao 
lodo 3.710 versos, com 29\828 syllabas métricas. O ii 
tomo coalém 18 imesias em decimas dedicadas, e 1 
^osada^ i& luemoriaes e cartas em quartetos, e 3 em 
quiatilbas^ ao lod« 3,t3t versos, com S1.S38 syllabas 
luetricas. £ste toiuo contém mais duas cartas em prosa^ 
<)Ccupaido II (paginas. 

À fiegUAda ediçào, feita quando aiada a primeira nio 
fffilava etMjotada, emprebendeu-a a casa do livreiro* 
«edilor Roliaid, accrescentando á matéria da primeira 
um terceiro volume com alguns inéditos, no todo ou 
na maior parte Tornecidos por Joaquim José Pedro Lo* 
Des. Os dois primeiros volumes, nd e correcta repro- 
ducçâo da 1."* edição, saíram com este titulo: 

Obr(u poeíicas de Nicolao Tokntifio de Almeida. No- 
va edição» Lisboa, 1888. Na typographia Rollandinna. 
Com Licença, Tomo i e ii, in-lu, com 201 e M3 pa- 
ginas. 

O volume de inéditos, dado n^esta edíçào, intitula- 
va-se: 

Obras posthumas de Nicolao Tolentino de Almeida^ 
Lisboa, 1828. Na typographia Rollandiatiê. Com Licen- 

Íi da Mesa 4o Desembargo do Paço. Um volume in- 
6, de 150 paginas. 

No mesmo anno, um muito mais fraco competidor li- 
vreiro, Joào Nunes Esteves, que mais tarde tão triste 
celebridade canhou com o desvario de sua pessoa e es^ 
criplos rubricados por Nunes sem Filho^ tentou tam- 
bém reimprimir Tolentino, levando isso a eOeito, com 
titulo justamente e^ual ao da edição Rolland, á exce- 
pção ao losar da impressão e do que se lhe segue, 
que n^esta ae João Nunes saiu assim : 

..,, Lisboa: anno de 1828. Na impressão de João 
Nunes Esteves. Com licença. Vende-se na loja dos Po- 
bres, na rua dos Capellistas, n.** 27 E. Dois volumes 
in-16, de 225 o 171 paginas. # 

Ambas estas novas edições seguiram a ordem e dis- 

Í>osiçào da primeira, pela qual foram feitas, com a dif- 
erença que a de João Nunes seguiu a primeira ás ce- 
gaSy conservando erros typograpnicos que ella adrer- 
ura na fé de erratas das pp. 198 do t. i, e p. S9, 
12, 105, 163, e 186 do t. ii. Com outro escrúpulo e 
correcção foi feita a edição Rollandiana, que não com- 
metteu similhantes faltas. 

Doestas duas edições, a primeira que appareceu foi 
Bem duvida a de Rolland, pela qual João Nimeft comn 



LUV 

Soría os índices da sua. Os índices de Rolland confroaU-* 
o« com 08 da primeira edição, apresentavam duaç pe- 
quenas innovaçôes, a saber: ao soneto de p. SI, qui8 
não tinha titulo, puzera Rolland o de O êomo^ e iim^ 
tyra ofTerecida a D. Martinho, p. 168^ que estava õõ 
luesmo caso, dera o título de A Loucura dos hometêã, 
conservando porém no texto as dua« poesias, como ti- 
nham saído em 1801, sem títulos especiaes. A mesma 
cousa se vé na edição de João Nunes; e porque esse ti- 
nha impedimento impediente para que Rzesse por si 
taes alterações, e sobre tudo para que acertasse n^ellas 
de modo que coincidissem com as de Rolland, forçoso é 
concluir havel-as tomado dVste. A reimpressão de João 
Nunes límitou-se á matéria da 1." edição. No vol. de 
obras. pasihumas, dado pelo editor Rolland, não se atre^ 
veu tocar. Mas o que ISunes não fez n^aquelle tempo 
houve quem o fizesse mais tarde. 

A casa dos editoreVlivreiros Horel, Borel & C* con- 
servava em ser, ainda em 1836, tal numero de exem- 
S lares da 1." edição, que julgou convír-lhe, para theí 
ar extracção, completal-os com o vol. das obras pos^ 
thumas. Para es|e fim mandou reimprimir o que Rol- 
land publicara em 1828. Saiu com este titulo: 

Obras poéticas de Nicolau Tolentino de Almeida* 
Tomo 111. Lisboa: 1836. Typ, do António José da Ro- 
cha, Rua dos Calafates w.** Í4 — 1.** andar. Um vol. 
in-8 (o mesmo formato dos dois da 1." edição) de lf6 
p. — A revisão doeste vol. foi feita com menos cuidado 
que a do de 1828, e não é raro lerem-se n^elle versos 
errados pela falta de syllabas, (ex. p. 8, 103, etc^J e 

falavras alteradas pela*troca de letras, (ex. p. il, 19, 
00, 101, etc.) faltas que não vem advertidas, porque 
não fizeram tabeliã de erratas. 

O volume d^s Obras postkumas comprehende 33 so- 
netos, 10 poesias em decimas dedicadas, e 19 giosft^ 
das, 6 odes, 2 memoriaes e cartas em quartetos e S e» 
quintilhas, e 1 satyra em quintilhas: ao todo 1.WI 
versos, com li.670 syllabas métricas. . 

Em 1858 appareceu em Coimbra outro vohime de 
mais poesias posthumas, publicado pelo sr. Francisco 
da Fonseca Corrêa Torres, thesoureiro^mór. Fora Qom- 

Silado de um manuscripto da letra do sábio Francisco 
[anoel Trigoso de Ai^ão Morato,e d'outro legado por 
Joaquim Ignacio de Freitas á bibliotheca da universo 
dade. O titulo é o seguinte: 
Poesias de Nicolau TotenHno de Almeida^ obras poe^ 



LttTI 

iàumêi e ãté koje inMiUu, Coimbra, imprenm dm Cmi- 
wniáaée, 1858. Um rol. ín-16, (fomiato da «fiçi» 
lollaiid, e destinado a ser oompleiiieBto d^dla) de oi— 
IM p. — Contém 6 sonetos, 16 poesias em decimas de- 
dícaitas, e M glosadas, S odes, e 8 memoríaes e car- 
tas em quartetos: ao todo 1.198 versos, com 9,381 
syihhas métricas. Valgnnias das decimas glosadas 
lik faltas qoe o' editor nio explica. Na 1." decima 
p. 11, falta o 5.* verso; na elosa p. S3, bita a 4." de- 
cima; na 2.* decima p. 63, falta o 7.* verso; no nltimo 
verso p. 61, ba orna S3ilaba (ama palavra) de mais. k 
poesia em agradecimento ao conde de Yilla-Verde, mi- 
nistro do reino, por ter approvado ama nova tabeliã, que 
ao^inentava os emolamentos das graças e mercês, como 
alli Inesmo se diz p. 91, tinha já sido paUicada na 
RnitU Cmtertal Lisbonense, iii, t39, artigo S5M 
(e nio 2695, como talvez por descoido typograpivoo se 
lè no vol. de Coimbra): oias no qae de rêrto o editor co- 
nimbricense padecea notável eçioivocaçio foi em dizer a 
p. 93 aoe «este inédito foi copiado do aathographo pelo 
sr. Roboredo, conira-parente do amctor • quando ontra 
con^ dizia o redactor da Becista nas poucas linbascom 

S^ precedeu a poesia. «1 oficiosa benevolência do sr. 
o de Roboredo (diz) devemos o seguinte inédito, fiel- 
mente copiado do autograpbo pelo mesmo sr. Deu oc- 
casiào a este a^^radeci mento, feito pelo nosso poeta e 
conlra-parente Tolentino '^ Assiou nào era o sr. Ro- 
boredo aue com Toleptino eslava aparentado, mas o, en- 
tio. redactor da Rerista, o sr. Aotonio Feliciano de 
Castilho. 

A decima, dedicada ao marquez de Marialva, que 
o editor d'este v<i1. ainsidemu inédita, e poblicco 
a p. 110, ha\ia oi annos que tinha sido publicada, 
ponioe entrara na 1.* edição feita pelo auctor, t. 2.* 
p. Id6. 

Diremos agora algumas palavras sobre a presente 
edição, que, além de illustrada c nitidamente impressa, 
é a primeira qoe pode dizer-se completa. A ordem em 
que foram dispostas as poesias podia ser mais artística, 
se em logar de se seguir a das difierentes combinações de 
metros, sonetos, quadras, quintilhas, oitavas, decimas 
e odes, levados até certo ponto pela má ordem das prece- 
dentes ediç<^, as tivéssemos classificado pelos géneros e 
espedes poéticas, começando pelo epigrammatico, com 



os sonetos e decimas: passando ao lyríco, com as odes; 
è conduindo pelo didáctico, com on memoriaes, < 



LIIVII 

e satyras. Foi já tarde que recooheceiDos a saperíorídade 
e preferencia que devíamos dar a esta divisão. Aqui o 
deixámos lealmente observado para .defw;ulpa do pre- 
sente, e talvez emenda de futuro. 

A presente edição consta de 388 paginas de texto, e 
nVlle 13 paginas de prosa. Além das peças poéticas 
que incluimos n^este ensaio, contam-se no mesmo texto 
241 poesias, com 10.031 versos 71.S1Í syllabas métri- 
cas. O seguinte quadro mostra bem a proporção do&ge- 
neros e espécies: 

OBRAS COMPLETAS DE TOLENTINO 

EDITORES — GASTBO IMOO, à C* 



estatística desta nova EDIQlO ILLUSTRADA 



cniios 



umm 



MN 

STLUIAS nnius 



PO» 



lyifraaMtict < 



Ljríci , 



Sonetos 

Í dedicadas 
glosadas . 

Odes 

Lyras 

Memoriaes e CartaF 
Satyraj 



105 
37 
41 

8 

6 

40 

7 



244 



1.470 
1.070 
1.080 
«26 
304 
3.412 
2.122 



14.700 
7.490 
7.210 
5.284 
1.624 
19.656 
15.550 



29.400 



.906 



35.206 



10.034 



71.514 



, O apuramento e expressão numérica doestes factos coiH 
firmam a opinião dos que classificam Tolentino poeta di-^ 
dactico, principalmente satyrico-(< porque foi o senero 
em que mais escreveu e mais brilhou, descaindo ím- 
mediatamente no género epigrammatico, ainda affim do 

Srimeiro, e provando negação para o género lyrico no 
iminutissimo numero de composições e espécies que 

f ) Menos aviMdo andon o «actor do Umfpm t&mmlfifiê, hÍÊttrie0, tkrmtlêfic», 
tkê, • lUterario éê Krino dê Portugal g mw ifoM<N<os «mN^M «rfiMn, Puil M.». 



tfe»*® ^ v.ft vete»? * ,vc V>o»*. •fampe^**'' ro\«*** 



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esc*»' 







-Sí.íS¥3«íâs5ts 



^1l 




pee- 



ímt 

vof. de íiiedí(os impresso em Coimbra. A sentença qm 
eondemnou Isabel Xavier Clesse pôde lér-se a p. 39 do 
▼o), ^vii, do Gabinete Histórico, de frei Cláudio da Coo* 
ceiçào. 

O t."" soDelo, p. 33, erradamente e com leves va- 
riantes o inclue Diziderio Marquez Leão no seu Jornal 
metico p. 8^5 attribuindo^o a António Lobo de Carvalho. 
Foi leviandade indeacuipavei, porque muitos annos ha- 
via que, em 18§1, o próprio auctor, Tolentino, o dera 
no t. I p. 36 das suas obras. 

O 2.** soneto, p. 3Í , nas Poesias de Lobo, p. 69, se 
dá como doeste poeta, àe com isto pôde acabar a duvida 
deve subtrai r-se das obras de Tolentino. 

Nas Poesias de Lobo p. 51-59 ha muitos sonetos Tei- 
tos por occasião de perguntar o príncipe do Brasil D. 
José, (ftie cousa era chanfana? Entre elles está o de 
Tolentino, 2."" de p. 36, que suscitou outros dois de re- 
ctificações aos poetas Caetano Pinto de Moraes Sar- 
mento, e Luiz Joaquim da Frota. 

1.'' soneto, p. 38, apparece, inda aue com nota 
de duvidoso, a p. 71, das Poesias de Lobo. Parece 
nào haver fundamento para isso, porque desde 1828 fora 
encorporado, p. 27, nas obras posthumas de Tolentino 
sem sombra de hesitação. Coníirma-o o ms. do sr Gar- 
cia Perez, p. 61. 

As poesias p. 66 e 112 foram publicadas a primeira 
vez em 1815 no n."" 56, part. 2.* p. 106 xlo Jornal de 
Coimbra. 

A poesia p. 74, foi publicada a primeira vez no n.''37, 
part. 2.", p. 19-20, do Jornal de Coimbra. O ultimo 
verso 

Posso já ir co'a8 criuilas (p. 75) 

carece de commentario, porque allude a um caso par- 
ticular, ft Estando em Mafra a marqueza de Angeja màe, 
se tratou em uma tarde d'um passeio ao campo; e fal- 
*tando alli um dos da comitiva, perguntando alguns por 
elle, a marqueza que já estava a cavallo, em attençào 
a ser já de edade o que faltava, disse— vamos, vamos, 
que esse já pôde vir com as criadas. —Tolentino cele- 
brou muito o dito, e a elle faz aaui allusao.» 

O enterro de João Xavier de Mattos, a que se allude 
p. 120, foi descripto por Lobo n'um soneto, p. 30, das 
suas Poesias. 

As quintilhas comprehendidas entre os versos 

I)eiH>is qutí plano c&niinho (p. (70) 

Novas da Piin Rnnde (p. !73) ^ 



LXII 

foram pelo poeta Hughes traduzidas em iodez, e publi* 
cadas com o poema The Ocean Flower, p. 9fr-98, n estes 
termos: 

Wlicn old enough to trot about^ 

A neigfabourÍDg taílor wrb imployed 

To fashion me a handsome coat 

From Pa*8 capote like mainsail wide. 

In catUng out hc curst the job, 

A necroiiianoer'8 mystic shows 
He wrought with chalk, and Bosfin timM fell 

The spectades from off his nose.- 

'Where leitora buge in ochre red 
Hi8 taiioring tu the city tell, 
By trigonemetry he made 
^ A oout, and eke a miracle. 

Wilh dandy cape and waistband amart» 

I aaillieil forth a Cupid bland, 
My bair ao neat with ribbon tied, 

A sugar^cake in dezter hand : 

Cpon a grave Gailego'8 back, 

Who ofi did truated cask explore, 

Ali buthed in teare at visioned tasks, 

I reached the dread 8choolma8tBr'8 door% 

In vain the porter plugged my fríef 

With many a reason good and sound ; 

lly mighty sorrow scQmed relief. 
A preãage of what ainco Fve inand. 

Mid violence and terror there 

I faoed my Latin soon enough, 
And swore obedienoe to a priest— 

A weli of scienoe and of anoff. 

In niffht-gown manv a month unwaahed, 
with pinch in finoera, rule in hand, 

What secreta deep he did reveal 

Of Adverb and Gonjunction grand I 

He was of grammnr an abyss, 

Light of the age and leaming^s priam; 

He luroed his aervant out of doora 
For speahing of a soleciam I 

The dilTereuoe twiat the I and J 

He workod at fbll a year of graoe; 

A task which did he but complete, 
How happy were the buman racel 

While fllled theae doctrines grave my aoul, 

The jgolden age I did attain 
To see Mondeao^s crvatal stream 

Bathe oldCoimora^s lovely plaln. 

Ifother and aisters aaw me off 

With haSr unkempt, of teara no laok; 

Signa of the Croaa and Credoe pare 
Rained thick upon my bleaaed backl 

Un apavined beast, with atimipa nona 

Nor hat, the Ro.al road I trend; 
My borrowed rapier cut tbe wind, 
And greatly perilled my own bead. 



The slender sum at parting giveii 
Expired the very self-same day ; 
^ I marcned as with a 8oldier's pass 

For the remaindcr of the way. 

Miraculous was niy Collego life, 

Fur goot Pupn, through lack of wealtb, 

Whene'er lie wrote me by lhe post, 
Sent only tidings of his health ! 

À poesia^ p. 189, foi pela primeira vex publicada do 
n.*» 86, part. 2.", p. 111 do Jornal de Coimbra. 

Àquelle donato Tbomaz dos Pós, p. 253, \estido de 
habito Franciscano, com barbas compridas, pregou co- 
mo em missão pelas ruas de Lisboa. Vid. a seu respeito 
o soneto, p. 191, nas Poesias de Lobo. 

1.® soneto, p. 386, ha também quem o attribua a 
José Basilio da Gama official da secretaria do reino, e 
colleça de Tolentino. Contra o mesmo padre Macedo nas 
Poesias de Lobo p. 11 -2i, ha mais sonetos satyricos. 

Também attribuem o 2.® soneto, p. 386, a Domingos 
Monteiro d'Àlbuquerque e Amaral, e, o que mais é, 
pretendendo-se que atacava n'elle o próprio Tolentino, 
por fazer versos a todos os assumptos ridículos da cortei 

Das poesias livres de Tolentino não nos consta que 
restem mais que três ou quatro sonetos, e umas deci- 
mas. A respeito d'estas escreveu Costa e Silva — «Lem- 
bra-me de ter visto... uma excellente satyra em aue 
elle (Toleniino) arvorando-se em Quixote da celebre 
Zamperini, saiu a campo por ella, e derramava larga- 
mente o fel e o ridiculo soore os admiradores d^aquella 
actriz; mas havia n^ella alguns versos demasiadamente 
livres, e talvez por isso o poeta a supprimiu. » (* Para 
mostrar quanto a memoria e a critica falhavam n'isto 
a Coâta e Silva, e quanto tanto em bem como em mal 
exaggerava os aotes d'essa composição, atrevemo-nos a 
dar aella conhecimento aos leitores, fazendo-lhe ape- 
nas leve suppressào, menos para guardar, como deve- 
mos, o pudor, que para poupar até a mais remota sus- 
ceptibilidade do decoro. Àuctorisámo-nos para isto, co- 
mo já para a publicação do 2."* soneto, p. 386, com o 
exemplo que nos deu o respeitável editor dos inéditos 
de Tolentino, publicados em Coimbra em 1858, p. 7 
no soneto a Clesse, que n'esta edição reproduzimos a 
p. 26 : e se este exemplo ainda não bastara, invocaría- 
mos o de Almeida Garrett, p. 86-87, nas Fabulas e 
Folhas Caídas, poesia «o Gailego e o Diabo». 

1 ) Am. Uni». Liai. «i, 500. * 



LUlll 



BeTna it bapcríii, rNpfHsidt^a èui leciaai teftrate, fM ulraB 
coitra esla celebre raiUríu 

Um poeta desconhecido 
Sem ter de ti dependência 
Por descargo de consciência 
Vem tomar o teu [)artido. 
Com razão aborrecido 
De uns versos impertinentes, 
Com que linguas maldizentes 
Se querem uietter no inferno, 
Sáe um Quixote moderno 
Desaggravando innocentes. 

Nem vem de paixão amante 
A defesa que vereis, 
Juro-o pelas santas leis 
Da cavallaria andante. 
O meu coração constante 
Traz ha muito outras cadeias; 
Longe^ ò impuras idéas, 
De adorar a mais aiçuem; 
Nunca um Quixote efe bem 
Amou duas Dulcineas. 



a 



Mas inda que eu fosse tal 
Que amor te podesse ter, 

ue vulto havia fazer 

m amante sem real? 
Verias ir o natal, 
E de perus, como d'antest 
Jltis, suspiros incessantes 
Ndo sáo muito boa peça, 
Para úuem traz a cabeça 
^bafada de brilhantes. 

Tenho em fim justificada 
A minha pura tenção, 
E é chegada a occasião 
De desembainhar a espada. 
O objecto da cutilada 
São uns taes versos sem graça, 
Onde por tua desgraça, 
E com publico desdouro, 
Teu precioso thesouro 
Foi rematado em praça. 



LXXXI1I 



Tào pouco, senhora, sâo 
Os nioli\os de querer-te, 
Que se quizesses vender-te 
Fosse preciso um leilão?! 
Casta Diana, onde estão 
As arniayôes retorcidas. 
Castigo só das prohibidas 
Vistas de Acteôes traidores? 
Já nâo ha cães vingadores 
Das donzellas offendidas) 



' Mas onde me arrebatei 
Que como quem não faz nada 
Mesmo de murriAo e espada 
Pelo Parnaso atrepei ! 
Grossa poesia arrotei, 
Que ninguém estranhar pôde, 
Que unt Quixote quando acode 
Pela opprimida'innocencia, 
Se se valer da eloquência 
Ha de ser em phrase de ode. 



E tornando ao começado 
Caso que admirou a gente, 
Seja pois o delinquente 
Ante mim apresentado. * 
Ser-lhe-ha juramento dado 
Sobre as cruzes d'esta espada 
De nunca mais com a damnada 
Língua que honras atropella. 
Manchar a triste donzella, 
Pena de lhe ser cortada. 



Mas inda aqui não parou, 
Andou para traz dois furos, 
E nos penetraes escuros 
Confiadamente entrou: 
Finas cambraias alçou 
Descobriu teu branco r... 
Fez vistoria, e no cabo 
Lança a sentença imprudente, 
De ser entregae o innooente 
Entre as garras do diabo. 



LXXXIV 

Eu Dâo sei os meios pôr 
De vingar injuria tal: 
Confesso que em caso egual 
Nunca fui mantenedor. 
Traz nosso mestre e doutor 
Dum Quixote mil loucuras; 
Traz gigantes, e as Gguras 
Que lhe deram fama e gloria; 
Mas nâo acho em toda a historia * 
Similhantes aventuras. 

Porém, se deve a sentença 
Ter co'o crime proporção, 
Vá dar a satisfação 
No próprio logar da oOensa: 
Chegue do c. á presença 
(Cousa que eu lhe nâo invejo) 
Mostre smcero desejo 
De ser d'elle perdoado, 
E fique o crime espiado 
 força de puro beijo. 
...; (1 

E tu, encanto glorioso. 
De quantos te tem ouvido. 
Digno até de ser nascido 
Nos limites dei Toboso: 
No meu braço valoroso 
Bem podes segura estar; 
Assim de me retirar 
Licença me dá, senhora. 
Porque vem chegando a hora 
De eu ir ás armas velar. 

Para melhor intelligencia da poesia que acaba de ler- 
se diremos que Anna Zamperini, veneziana, era cómica 
cantora, e em 1770 veiu a Lisboa, como prima ÚMía^ á 
frente a'uma companhia lyrica, trazida de Itália pelo 
notário apostólico da nunciatura e banqueiro em negó- 
cios da cúria romana, Galli. Representava no theatro 
da rua dos Condes. Foram muitos e distinctos os admi- 
radores d'esta bella mulher. 

Muitos poetas nacionaes e estrangeiros lhe dedicaram 
enthusiasticas inspirações. Em todos os estados, em 
todas as edades encontrou rendidos e rendosos adorada- 

1 ) Supprimimof %h uma dM-ima. 



IXXW 

res. Em dias saetos, <á ultima missa a que costumava 
assistir na egreja do Loreto, era numeroso e luzidissimo 
o concurso que altrahia, após si. 
A empreza theatral durou apenas até 1771, e o mar- 

auez de Pombal, para curar a lascinaçào do filho, conde 
e Oeiras, fez sair de Lisboa a prima dona, ( * 
Talvez que pela defesa que Tolentino emprehendeu 
doesta cantora, é que Lobo, (que, como já mais d^uma 
vez vimos, não era de nenhum modo affecto ao nosso 
poeta) lhe fez um soneto (^ pretextando o furor de To- 
lentino em fazer versos a moças e lacaios; pretexto que 
em abono da verdade não está mui confirmado nos que 
compõe este volume. Eis a invectiva descabellada: 

Se a lyra pulsns, ou o pandeiro locas, 

Oue o (ligíim 08 Jacíiios, raais as moças; 

Pois nos teus versos, cj^ue por bons reputas, 
Sediçjis chufas d*arreeiro brocas: 

Se velhas plirases de vidrilhos tociís, 
Nâo honras os heróes, que tu desfructns; 
A quem oITereces, por canções argutas. 
De podres rimas chochas liiassarocas: 

Prosegue, Nicolau, na fácil pcti; 
Oue os versos teus sâo fulminantes raios 
Que contra a plebe sacas da gaveta : 

U ceo te dô á Musa altos ensaios. 
Porque eu te juro que has de ser fíoeta^ 
Em quanto houveram. . . moçtis e lacaios. 

Concluiremos com duas poesias de Tolentino, (jue 
Bào podemos a tempo dar no logar próprio. Quasi se 
podem reputar inéditas, não obstante haverem sido pu- 
blicadas pela primeira vez em 1815, no n.® 37, part. í.*, 
p. 17-18 do Jornal de Coimbra, onde ficaram até agora 
como sumidas, sem entrarem em nenhuma das duascol- 
lecções que posteriormente se fizeram. 

Aos anos d« Dl Joio de Horooha, Djrqnez de Aogrja, estjodo ceolralado caur cob a lilka 
dos Djrqofzes de Abraotes 

Senhor, ditosos os annos 
Que opposições conciliam) 
E que em um mesmo soldado 
Adónis e Hercules criam; 

Este dom vos afiança 
Os tropheus em toda a parte; 
Ora no templo de Gnido, 
Ora nos campos de Marte; 

1) Vid. o HyMop«, ed. de Parít, 1S^, noU de Verdier ■ p. 183. 
t) PoetioM joviaa t êotffriau, p. 132. 



LXXXVI 



Pelas cooauistas eui guerra 
Sejaes tão feliz, seahor, 

Suaoto sois afortunado 
a que fazeis em amor; 

Tem vossos illustres annos 
Dois poderosos credores; 
O duro deus das batalhas, 
O terno deus dos amores; 

E a pátria, que os conta, os tem 
Em fastos de oiro apontados; 
Porque em qualquer das carreiras 
São á pátria consagrados. 

Ai Benif aumpti 

Nem arte nem o alto assumpto 
Podem vencer natureza; 
Não sabe cantar prazeres. 
Justa, profunda tristeza; 

Com punbaes no coração. 
Com rosto em pranto banhado 
Como hei de fallar de um dia 
Para venturas mandado? 

Musa alegre, afasta os olhos 
De olhos, que nàò vé enxutos; 
Mo se unem Parcas com risos, 
Não trajam as Graças luctos; 

Outro dia, outro alto assumpto 
Do céo nos ha de baixar; 
Então respeitosa musa 
Puro incenso irá queimar; 

Traçava hoje esta empreza 
NcCTos fados a e^torvaram, 
E 00 triste, que o aceendia. 
As lagrimas iVo apagaram; 

Mas que falta fazem trovas? 
Salvae vós. ó grande dia; 
Vossa polidez se exprime 
Melhor que ^ melhor poesia 



índice 



Ensaio biographico-critico, acerca de Nicolau Tolentino de Almeida i 

•OMBTOS 

A Noêsa Senhora 

Se a febre atraiçoada em fim declina 3 

A Sua Alteza 

De bolorentos livros rodando 4 

N'e8ta cflnçada, triste poesia > 4 

Por espallíar cru is raelHiicíjiias 5 

?ual naufrigo, senhor, que foi alçado ........ 5 
ornae, tornae, senhor, ao Tejo undoso 6 

Aos annoê do Príncipe 

Em quanto em áureos tectos estucados 6 

Foi este, alto senhor, o santo dia 7 

N'este dia 011.' q e a corte se alvoroça 54 

A princeza real entrando no banho 

Nympliasdo Tejo iá ixir mim cantadas " 7 

Ao secretario tVEslaaoj visconde de Vitla-Atun da Cerveira^ d^ 
pois man/uez de Ponte^ie-Utna 

A longa c;ilK!lUMrn bnmquejnndo 8 

Aos anníis do mesmo visconde' 

Se as insígnias a eschol.M ix»nd orando 8 

Ao marquez de Angeja D. Pedro 

rrrze invernos, seni or, tenho ctmtadn... '..... fl 

Se nH3 vètltí , senhor, no Nosífo l.td » 9 

Aos annos do mesmo mnrt/ue: 

Mil virtmifs. senhor, ijondodt» Indo 10 

Aos annos do mesmo marquez que tinha muita liçno de Camues 

NVsUídia aos louvores consiig/ndo 10 

Ao mesmo marquez 

Náo nonho em vossas nifios a prosji fri.i 11 

Aos annos dv conde de ViUa-Vtrdvy I). Jost^ depois marqvez 

Em seus hrMços roluisros vos tomai am II 

Alo dia em que o mesmo conde chfçou do Alemtejo 

l*argns <lo Tejo a e8t|n(frd<i ril»an;*eira 12 

Esò'evendo das Caldas o auctor ao meunuj conde , 

As ferradas rauleUis eiieostando 12 

Aos annos do mesmo conde 

Vir l>eijar-vos a mão. jy-iilior. nào posso 13 

Partindo para Salvateira D. Diogo tie AoronUa. depois conde 
de Villa- Verde 

Em quanto sobre o Tej» prateado »... 1.3 

Ao mesmo 

Em quanto, ó hom Noronha, ns hninrjis véhis 14 
Ao mesmo, chegamio de fórn tio reino 

Inda lue lenitira o venturoso dia 14 

Ao conde de ViUa-\erdr, I). Jasc 

Em pu o voto aí|ui vos dou pintjida 15 

Aos annos do me*mo 

Em guantf) me inflanmmr fopo «.Mgrado 15 

Saindo conselheiro da fazenda D. Diogo de Soronha 

Nem sempre em verdes annos a imprudência 16 
Ao filho do marqvez de Angeja D. Pedro, em desculpa de nao 
entrar no seu quarto quando teve bexigas 

Bem conheço, senhor, sem que m'o digas 16 

JVo dia em que nasceu D. José de Noronha 

Formoso infante ao mundo ha pouco dado ... i7 



II 

No (lia em que o mesmo foi baptiiod^o por seu tio o principal 
Almeida 

Da alta SiAo as torres lerantadas 17 

Aos annos da marqueza de Angeja 

Senhora, ha muito tempo pretendia 18 

Fazendo annoê fora ^a corte a mar<iveza de LaiTodio 

Se de alheios lacaios emplumados 18 

A condessa de Vimieiro 

Aos pés da illustro Vimieiro um dia 19 

Pedindo o auctor ao conde de Rezende um beneficio para um 
iobrinho 

Se em meio de altas cousas em que trazes .... 19 
Em agradecimento ao mesmo conde 

Os óculos, senhor, ao ar alçados 20 

Aos annos do conde de Avintes 

K varonil edade íloreoente ,.... 20 

Ao principal Castro, pedindo-lhe a soltura de vm esttulante 
preso por turbulento, e em allusao aos antecedentes 

Aquelle de quem tu o sangue trazes ' 21 

Em agradecimento ao mesmo 

As pistolas, senhor, deitando fora 21 

Ao marquez de Penalva, chegando o auctor á quinta das Lapas 

Um triste fatigado caminhante 22 

Na despedida da quinta das Lapas 

N'esta quinta onde mora a sã verdade 22 

O illustre, o benéfico Tarouca 

De mil credores hórridas lembranças 23 

A Luiz Pinto de Sousa, que promoveu o despacho de um irmão 
do auctor 

Senhor, d'es^e volcâo convencionista 23 

A José de Seabra da Silva, que promoveu o despacho de uma 
tença" para as irmos do auctor • 

Com pardo carmelita vestuário 24 

Ao conselheiro Francisco Feliciano Velho da Costa procurador 
fiscal das mercês 

Senhor, um triste alferes reformado 24 

Em louvor de Caporalini, cantor do Thcatro de S. Carlos 

No grào theatro vejo sempre enchentes 25 

A Isabel Xavier Clesse, matando o marido com uma ajuda 

Que novo invento ó este de impiedade 25 

A um padre guardião 

Meu padre guardiAo, que exemplarmente .... 26 
A um leigo arrabitio veago despedido da mesa de S. C. P. Silva 
por tomar a melhor pêra da mesa 

O vesgo monstro que co'a gente ralha 26 

A um cabelleireiro que^ por leites ciúmes da futura noiva, quei- . 
mau o enxergão, e ajustou outro casamento 

Nn()cial enxergão em chammas arda 27 

A um sujeito que pela primeira rez se tosquiou para pôr ca- 
belleira 

DesnfTronta esses cascos cabelludos 27 

A mulher que açoitou o mando 

Mulher do capei lista acaba a emproza 28 

A uma velha presumida 

Debalde sobre a face encarquilhada 28 

A inauguração da estatua equestre d^el-rei D. José i 

Km quanto o reino cheio de ternura... 29 

Ao mez de janeiro 

Tyranno mez, não te bastavam frios 29 

A impertinência dos ^sinos de Villa-Vicosa 

Que importa, ó torre, que tios ceos beninos. . . 30 
Pintando uma bulha de dois bêbedos 

De descalços miq'lctes rodeado ; 30 

Aos annos de um juiz do crime, em dia que tinha acompanhado 
um padecente 

Ergueu aos ceos alegre gritaria 31 

A uns annos 

Um taful que passou ao vosso lado 31 



III 

Am annos de uma formoM dama ^ 

Deixae, pastores, na montanha o gado 32 

A uru annos 

Fo esteodiaemqueateuspósbaixnrsm .... 82 



Descfipçao de Badajoz 

Passei o rio que 
A'o dia em que chegou a nau aoi quinto» 



*assei o rio que tornou atraz ., 38 



Se a larga popa trazes alastrada 88 

Uma festa de arraial 

Ao nume excelso, nume sacrosanto 34 

Descripçao de um peralta amaltezado 

Um vulto cuja forma desconsola 34 

A uma sege de aluguer 

Que sege, senhor conde r eu fiz um voto 85 

Aos machos russos 

Dos russos machos na calda orelha 85 

Aos leques mui pequenos chamados marotinhos 

Fofo colchão, RS plumas bem erguidas 86 

Definirão de chanfana 

Comprada em asqueroso ma tadoiro 86 

As contradanças em dias de procissões de quaresma 

Ainda os vagos ares atroava 37 

Mettendo a ridiculo umcu contradanças 

N'uma trémula sala mal armada 37 

A moda dos chapeos maiores da marca 

Amigo e senhor meu, de França ou Malta 38 

Aos toucados altos 

Foi ao Manique um homem accusado 38 

O câtchao dentro do toucado 

Chaves na mão, melena desgrenhada 80 

Na occasiao da loteria ingleza 

Louro rapaz em alto levantado 39 

Ao jogo do isque 

Qualquer taful, que nas partidas roda 40 

Ao jogo do trinta-^um 

Por ti, senhora illustre, ouvido e honrado .... 40 
Ao jogo da banca 

De infaustos parolins nunca vencidos 41 

Aos que apontam á banca 

OcoraçAocom ferro temperado 41 

A dois velhos jogando o gamão % 

Em escura botica encantoados 42 

A um taful que apostou nao apontar á banca 

Que tornas a apontar, prometto e attesto 42 

Sobre protestos de niio apontar á banca 

Babando sobre sórdida tigela 43 

Entregando) o ponto á deusa Fortuna 

ímpia deusa, um taful desesperado 43 

A arte de rhelorica 

Arte infeliz, rhetorica chamada 44 

Pouco progresso dos discipulos 

Em rotos pergaminhos encostado 44 

Ko ultimo dia de ferias 

Pregou o eloquentíssimo Macedo 45 

Levantando-^ o auctor da mesa de um grande por serem horas 
de ir para a aula 

Não tomando em desprezo o escuro estado .... 45 
As fivelas chamadas d la Chartre 

Oh quantos mexicanos pataoões 46 

As fivelas grandes 

Em curto josésinho rebuçado 46 

A umas sezões teimosas 

Não posso mais, cruéis sezCes malinas 47 

Convalescendo o auctor de umas sezões, nao tenio ainda o ordé» 
nado por inteiro 

A cAr perdida, o gesto demudado 47 

Estando nas Caldns 

Por mais que vo8 alongue, olhos cançodoe. .. . 48 



IV 

• 

o Mmhu / 

IkMNii» t|u»' a liiKile tmiiiila nuiiiein 4K 

!*or orc€Uti(io tif f*trtniharem ao uvrOtr um MfUio que n ninguém 
offendia ' 

Atiça, ó moco, a niuriliunda chamnja 49 

A vtna campontfza 

NAo iDoniiii em |inl;tcUi8 (.«tiicadoii 49 

Ao disfarce das mulltere» 

Vens (lebaMe, ó tiellissiina perjora ;.... 50 

A uma dama inlereimerra 

PiMiiam ser felizes meus amores 50 

O crriel disfarce 

Som murmurar padecuroi calaflo b\ 

Deitando um cor alio a margem 

Váe, mísero cavallo lazarento 51. 

Achando-se o auctor preso dos hello» olhos de Mareia 

hu vi a Mareia bella, vi Cupido 52 

Amor captira todos os cuidaitos 

Um ginja, que ás trindades recolhido 52 

Cegueira de amttr 

Fiei-me nas promesssis que aíTectavas 53 

$ot>re a ingratiJao de uma dama 

Coracàu, de que gemes, de que chomur M 



Memot ial a sua alteza 

Se os princiin'8 nos sAo dados ' 55 

Ao conde de ViUa Vente D. Jo*é de I\'ttronhaj depois marquez 
de Angeja 

Senlior. eu nfio sou mlpado 58 

Aos nnnoH do conde de \'illa-Vtritej tia occasiao do seu despacho . 
para secretario d*e>>tn(io do» negftcio» do reino 

S«»nhor, soíFrei os louvores 64 

Ao conde de Villa-Verde. agradecendo a soltura de Ezequiel^ 
alcaide do luirro de liHem , 

í>enhor, o meu Ferndirax 66 

Ao conde de Villa-VfrdCf miniMro do reinò^ agratlecendo etn no- 
me do»' seus coilegu^.officiaeêda iectrlaria.o ler approcwh 
uma tabeliã a§r augmentava os emolumentos das graças e , 
mercês ^^ 

Senhor. i)or mil Iwnefirios 68 

Ao marquei de Angeja D. Joné de Aortmha, no dia do* teus an- 
nos, estando o auctor doente 

Senhor, se vos sAo aecei tos 70 

Ao marque: de Angeja, li. Joait, fa i'Udo annos a filha do mar^ 
quez de Atrantes, ctmi quem é*lain para casar 

S<»nhor. Jios nor.'iit4»saimos 74 

Ao mesmo marque:, no dia de seu* anno* 

Senlior. ditusosAxs ainnos uni 

Ao mesmo jaitsumpto 

Nem arte. nem o jilto jijapumpto UIXTI 

Ao warquez de Ponte de Uma, minintro de e*lado, pedindo-lhe o 
auctor licença para ira lanhu*^ na occasiao er» que *e tinha 
encarregado de lhe / rninoter n mercê tie *e imprimiirm as 
' suas obras na O// ciun Hegia 

Sfidior. eritremu»i meu livro* ..% 76 

A D. Lourenço de Uma, leiuto fromettido ao auctor que quando 
chegasse das Caldas havia de lemh^ar a mercê de se lhe impri' 
mirem as obras 

Oní do c.nme doa njontes 78 

Ao conde dos Arcos sobre o mesmo assumpto de m: imprimirem as 
obrms do auctor 

Bateu aos vossos portaes 82 

A D, Fernando de Uma sobre o mesmo assumpto da impressfto 
das obras do audor 

Forte oo*a voesa promessa 83 . 



A D. Catharina MicUaela lie Sou:», t*jio*a de Imí: Pinto tir 
Souza, Irtuio e*tt expedido (rvii*o pnm ite imprimirem m obra* 
do aurUfr 

Seiíliora, A|)«»llo liem Sííbe 88 

A marque :a r/^ Alegrete quando lhe nasceu uma fiUia 

SenhuRi, écous;is;)l)iila 88 

A condeMa de Tarouca por occasiao do seu ctuamento 

Senfiora, o Torte dn G>trelln 95 

à\o dia do» annoê de D. Maria de Noronha, depoi» condeêtta de 
Valladare» 

Senhom, 08 (tobn^s vestidos 161 

Ao desemt.argador Sebaniiao Anionio Sobral 

Bom S<)l»r:il. oqntuMi te disso 103 

Ao deputado Domingos Pires JUtmleiro bandeira 

A ti, sinmvel BnndeirM 107 

A D. Catharina Michaela de Sousa depois da guerra de 1B01 

Quando de meus largos nnoos 11? 

Hesposfa a uma carta, qve em hoa poesia cita%'a o auctor por uns 
vei-sos que tinha promettido 

A tua polida carta ' 116 

Tentio marMado vma dama ao avctor vinho da Madeira, com 
uma carta em boa poesia 

Um humilde admirador 118 

Pedimio-se ao auctor uma glosa 

Menino, dizer fineais 121 

A uma dama que em bons versos pediu ao auctor a satyra do 
Velho 

Senhora, oquadrcj pedido 123 

Ao jviz do crime de Amlaluz, dnndo-lhe este parle qve estava 
pcpTa casar e mostrando-lhe versos qve fizera á noiva 

Manuel, niu<]a o cuidado...^ 126 

Aconselhando a um cabelleireiro que debuxava e tocava bandolim 
que nao continvasse a fazer veisos 

Pois que o Uilento inquieto 128 

Epigramma ao nariz de fíerman 

Inda Berman discorria L 

Epigramma aos pés de liocage 

Eram tri'8 juntas de bois ILTU 

Send^ o auctor convidado }.nra ouvir cantar vma senhom 

Nunca vi essa senlnirti 134 

Descvlpand<tse o auciw de mio ir a vns annos 

Senhor», em honra do diíi 135 

Offerecendo vm perum em casa onde todos os domingos davam ao 
auctor este prato 

Senhora. t'un))em um dia 138 

Agroflecendo algvns pratos que despertnmm a vontade de conur 

Senhor, a ílada perdiz 141 

Ovtro agradecimento aos jrratos que abriram o appelite 

Senhor, assim que eu largar 143 

Estando o auctor doente e mandando pedir algvm prato á mesa 
aonde jantava um leigo arrabido vesgoy que nvnca teve fastio 

Um esUm)ag«3 c;)nçado 145 

A vma preta que pretendia qve a obsequiassem 

Domingas, debalde queres 147 

A'a occasiao em qve o auctor ia ver o Varatojo 

Meu amigo, duroanrigo 154 

A uns olhos 

Os teus vencedores olhos 156 

A esquivança de Lavra 

Coração triste", em que cuidas? 157 

A'íM Caldas da Rain/ia 

Nas Caldas, nas tristes Ciildas 160 

Aas mesmas Caldas 

Não ha nas Caldas 162 

Lilia perjura 

Voae, suspiros 164 

A uma ingrata 

No sacro templo .' 166 



VI 

Memorial a tua aUeza 

Senhor, se nfto é injusto i69 

Memorial offertcido ao vitconde de Vflla^Nova da Cert^ra, de- 
pois marquez de Ponte-de-Lima 

Se nâo desprezaes. penhor. '. 177 

Memorial offerecido a D. Diogo de Noronha, depois conde de 
Villa-Verde 

Luctando cm crua peleja 182 

No dia de annos do conde de Villa-Verde 

Não venho dourar enganos 189 

Aà conde de S. Lourenço 

Ante vós, claro senhor 191 

Ao marquez de Lavradio 

Se 08 versos que outra ora fl2. 198 

Em louvor d'uma senhora 

Lyra minha, ronca lyra 203 

A um amigo louvando-lhe o estado de casado 

Foi este o ditoso dia 206 

A guetra — satyra offerecida ao visconde de Villa-Xova^n-Cer- 
veira, depois marquez de Ponte-de^Lima. no anno de 1778 

Musa. pois cnidHS que e sal 221 

Oê amantes— satjfra offerecida ao marquez de Angeja D. José de 
Noronha 

Amor, é fíilfío o que dizes 221 

Salyra offerecida a DJ Martinho d* Almeida no anno de 1779 

A vós, que favur me daes... 234 

A funcçao — salyra 

Musii, basta de rimar .'. 243 

O velho —satyra 

Em V Ao te quero fugir 254 

Quixotada — satyra feita por occasiao da queda do marquez de 
Pombal 

Espicaça esse animal .- 270 



OITATAS 

O Mlhar — satyra 

Por fugir da cruel melancolia 275 

nECIMAS 

Ao conde de Villa-Verde 

Mandnes-me que os versos traga 283 

Assisti á sa^rncAo 284 

Ao conde de Villa*Verde, quando morreu o pae do auctor 

Peito fie tiuita bondade 285 

Ao conde de ViUa-Verde, depoi* marquez de Angeja 

Em sege eslreiUi cntJii pados 285 

Ao conde de Villa-Verde andando o auctor na pretençao de ser 
official da secretaria doestado 

Senhor venho |x?rgiinUir 287 

Ao conde de Villa-Verde perguntando ao auctor se os seus versos 
faziam conquistas de amor 

Os meus versos malfadados 287 

No dia dos annos do conde de Villn-Verdej depois marquez de An* 
gejay em cuja casa o auctor jantou 

benhor, tnlvez n'este dia '. 287 

Fazendo annos o marquez de Angeja, tenente-general, na occasiao 
em que saíra proveaor da Misericórdia 

Que fazem versos cancados 288 

Ao dia dos annos do marquez de Angeja ' 

A minlia musa cancada 289 

Senhor. co'a8 minhas poesias 290 

N'este venturoso dia 291 



VII 

I 

Ao marqvez de Marialva, com qvem se tinha encontrado o auetor 
na com em que eslava o embaixador de Marrocos 

NaquiutadH Praia clama 291 

Ao marque z de Penalva 

lUustnssiujo Penalva S92 

Hontein soulx; o que podia 292 

Ao dia dos annos do principal Almetda 

Por mais (jue esse sangue honrado 292 

Em despedida a D. Diogo de Soronha^ quando partiu para à em- 
baixada de Hespanha > 

E esta a única vez 293 

A D. Miguel de Portugal, fazendo annos em dia de Santa Luzia^ 
e temio^e contado varias historias de sermões capuchos 

Qualquer Cíipucho diria 293 

A D. Catharina Michaela de 6'oM«a, tendo feito a honra ao auetor 
de lhe offerecer unui vestia de setim; e pedindo-lhe que lembras- 
se o requerimento em que seu irmão pretendia o governo d*um 
forte 

Minha res{)eito8ii niâo 294 

Ao doutor Joaquim Ignacio de Seixas, medico das Cald<u 

Meu dout^ir, bem sei que quer 295 

A Lourenço José da Motta Manso, ofíicial da secretaria do reino 

Peço que mates a forae , 296 

A um camarista, sobre' os carreiros da Enxára 

N'uma infeliz madrugada 298 

A um camarista, tendo o auetor sido despachado 

A rara l)cnignidade 300 

A um fidalgo que pedia para o auetor um logar tul secretaria, na 
occasiao em que pretendia o seu próprio despacho 

Se vemos rir quem chorava 302 

A uma senhora chamando-lhe rem^isso por lhe nao ter mandado 
uma folhinha que lhe promettéra 

Remisso não me chameis 303 

A um leigo que era vesgo, que nunca teve fastio, e a quem por 
acaso tocou na cabeça a ponta d*um espadim 

Feriu sacrílega es^ua 303 

A um pregador celebre (frei João Jactntho) estando a jantar com 
o auetor 

Se d*este fX) tente vinho / 305 

Na despedida de um ministro que partia levando seus fillios 

A lei da pura amizade 305 

Em agradecimento de xtma m^jeda de Ires reis e um vintém de pao 
que mandaram ao auetor tendo ciúmes d'um frade 

Anastácia, estimarei 306 

Saindo por sortes compadre d' uma senhora da primeira grandeza 

Devo pouco á natureza 310 

Cantando uma senhora pela qual o auetor tinha paixão 

Senhora, se eu não tivera 3J0 

Elogio d'uma senhora 

Quem vos quer elogiar 810 

No dia dos annos de um menino 

De plumachos emplumado..... 31t 

Vagando um officio que o auetor pretendia 

Jaz o defuncto enterrado 311 

Assistindo o auetor a um jantar em que havia eabedella, mcts nao 
appareceu peru 

Vi tenra assada vitella 311 

Mandando uma gallinha a uma pretinha bonita que gostava de 
brincar com ellas 

As tuas fulas mâosinhas ..í 312 

Mote dado a respeito de um padre, que dizia ter sido mesire de 
rhetorica; que tomava triaga contra o veneno que lhe haviam 
de dar; que dizia que estava eleito cardeal; e que era demoêia- 
damente trigueiro 

NAo ajuda ao padre a cara 312 

Ao mesmo padre em replica ás decimas com que respondeu á an- 
tecedente 

Que venham fuscos garraios 31S